Páginas

30 dezembro 2014


DANÇA 2014!

 

Hinos aos deuses, não.
Os homens é que merecem …
Apenas se os deuses querem
Ser homens, nós os cantemos.
E à soga do mesmo carro,
Com os aguilhões que nos ferem,
Nós também lhes demonstremos
Que são mortais e de barro
.”

“Cântico de Humanidade”, Miguel Torga, in 'Nihil Sibi', 1948





 Há quem tenha medo que o País pense”, uma frase que marca o ano que encerra. Quando os bolseiros do Ensino Superior em Portugal vieram para a rua mostrar a sua indignação perante as politicas aviltantes do Ministério da Educação, face a intenção declarada e assumida de eliminar 50% das unidades de investigação. Se isto não diz tudo sobre a governação do País, aí está, mesmo no final do ano, o anunciado corte de 100 milhões de euros na área social. Um ano (mais um…) de miséria completa, não só literalmente para a maior parte da população, mas também no domínio do simbólico, por representar a falência completa de uma política fundamentalista, dirigida contra os trabalhadores e destinada a transferir destes para o capital, mais rendas, mais proveitos e benefícios. Acordar todos os dias, durante um ano inteiro, com dois tipos de pesadelo, o de ir conhecendo mais cortes e menos direitos, por um lado e, por outro lado, a desdita de ouvir o primeiro-ministro nos órgãos de comunicação social a falar todos os dias, pronunciando-se sobre tudo e mais alguma coisa, no que constitui a mais escandalosa infâmia dos últimos tempos. Os mesmos tempos onde alguém se dá ao luxo de escrever “O poder negocial dos trabalhadores portugueses é demasiado elevado e prejudica os lucros das empresa…”, aconteceu no mês de Dezembro, num estudo de dois economistas do Banco Central Europeu (BCE), intitulado "Concorrência na economia portuguesa: estimativas para as margens de preço-custo em mercados de trabalho imperfeitos". Aqui está uma redundante afirmação que, a acreditar em quem a produz, classifica como “imperfeitos” os mercados de trabalho, muito embora a dita “imperfeição” não lhes seja (mesmo assim) favorável, entendendo-se então que a “perfeição” a atingir signifique no limite, “…a desregulamentação na formação de salários e a contratação colectiva, uma maneira de introduzir mais concorrência entre trabalhadores, em benefício do valor acrescentado das empresas.”, assim mesmo, sem tirar nem pôr.
Apesar de tudo, parece que o País realmente pensa. Não age, mas pensa. E pensa sobretudo no que futuro dos seus filhos e na forma como resolver a questão da crescente diminuição de rendimentos e na progressiva perda de direitos e de soberania. E pensa também, supõe-se, na tremenda injustiça da própria e, assim designada, Justiça. Embora rejubilante, em face da detenção de um ex-PM, tal não dá para que esconda a mais impudorada indecência em que pululam casos extremos e descarados de corrupção e de abuso, aos quais a resposta dada é protelamento, para posterior arquivamento; bem vistas as coisas, o que o País precisava mesmo, nesta altura, era do espectáculo deprimente de um batalhão de jornalistas a porta de uma prisão, enquanto o governo vai promovendo a política de terra queimada, aumentando a dívida externa, vendendo tudo o que mexe a preço de saldo, desacreditando as instituições públicas na Educação, na Saúde e na Segurança Social, promulgando sucessivamente a destruição do País,
Esta “A imagem de um País que mata devagar, por cansaço. Não a imagem de uma ditadura cruel e sanguinária, mas de uma ditadura oculta, em que, quem tem fome tem pudor em falar nisso e, no fim, nem se sabe se sucumbe a falta de alimento, ou ao silêncio a que se auto-impõe”, assustadora imagem de um Autor desconhecido(a) que, aproveita o final de 2014 para expressar publicamente a sua tristeza e revolta por o estado a que isto chegou.
Brindemos qualquer coisa tão simples com a dança. Um Amigo enviou-me a alegoria “Viver é aprender a dançar/com as dificuldades de todos os dias!/Boa Dança para 2015!”. De facto, um gesto higiénico e ao alcance de todos, mesmo daquelas e daqueles que nada têm a esperar da canalha que está aos destinos de um País que merece bem mais e melhor.
Dancemos pois!
---
(a) Vasco Gato, “Fera Oculta”, Novembro 2014, Douda Correia Editora
 
 
 
 
 

21 novembro 2014


O ACORDO


De pé, cabeça baixa e orgulho na sua condição, as mulheres e os homens do bloco central haveriam de selar um compromisso. Importa lá que se diga tudo o que de mau nos vier á cabeça, indigno, infame, ilegítimo, irracional, iníquo, incrível, inapropriado, e outros começados ou não no “i” que inicia termos com os quais a gramática nos delicia, em bom português, sem acordo. Olhamos os céus e vemos disto. Parece que todos os dias alguém se quer aproximar, já o homem de Belém os chamaria, nos seus patéticos apelos de consenso. Mal sonharia decerto que nesta pequena ilha se poderiam encontrar e fazer as delícias hipócritas de uma (com)sensualidade inimaginável. Mas aí está, o karma pelos vistos existe e qualquer que seja o desfecho final, este namoro perdido deu o seu primeiro beijo e foi, foi sim, bonito de se ver, todos perfilhados, respondendo a uma chamada previsível, a qual respondem certinhas e certinhos, a espera de mais prebendas uns dos outros, uma das outras. Porque não chega acabar um mandato e aquilatar-se a um cargo numa empresa pública, num escritório de pro-legisladores, num conselho de administração, numa curadoria, numa fundação ou em qualquer posto ou cargo que seja inventado agora mesmo, simplesmente porque tem que ser por alguém preenchido. Não basta. Mas basta sim que, a 1 ano de terminar o seu mandato, o titular esteja a pensar o que vai ser da sua vida, da pobre da família por quem se sacrificou, do País que fez o sacrifício de o aguentar, enfim da condição de servidor de uma pátria que nunca se põe em causa, a não ser que o renegue.
Nada como estar de acordo em qualquer item, restaurando uma aberração política dos anos 80. Afinal os mesmos que a haviam determinado. Para o resto da vida, bastariam uns singelos 8 anos de serviço público, leia-se de deputado, para ter direito a uma subvenção. Uma tremenda agressão a todos quanto sofrem na pele os desmandos permitidos por politicas vergonhosas, no fundo da responsabilidade daquelas e daquelas que ora se arrogam de um direito que pensam universal, quando será no limite uma simples prenda de jogo, muitas vezes, como se sabe, bem sujo. Acordo sem negociação, ao que parece, já que a mesma nem sequer se coloca pelos visto, dada a “clareza” da matéria em questão. Acordo ou acordos que se abjuram quando se fala de temas em que deveriam acordar. Mas acordados estão para este, uma vez que os outros estão na linha do caça-votos, ora governas tu, ora governo eu, com algumas ligeiras diferenças de metodologia ou de cronograma, que no essencial a coisa vai dar ao mesmo, para que tudo fique na mesma é preciso mudar qualquer coisa.

Conjectura-se que hipoteticamente poderá esta medida desencadear uma onda populista, seja o que isso for, uma vez que ainda ninguém conseguiu definir muito bem a coisa. Ser populista é, para os comentadores do regime, tudo o que lhes foge da alçada, tudo a que seu pensamento restrito produz e decreta. É no fundo uma filosofia que o Guerra Junqueiro classificava como a “filosofia do porco: devorar[1]. “Um regímen corrupto só na corrupção subsiste. Mantém-se na corrupção como alguns bacilos na porcaria…Regímen sinistro, a tua sombra esterilizou o nosso campo. Quebrar-te um ramo ou espezinhar-te um fruto, para quê? Deitarás mais ramos, deitarás mais frutos…[2]. Falar assim, nos tempos de lume brando em que nos querem queimar, é provavelmente populismo. Mas contudo é demasiado real, embora raramente objecto de abordagem. Lemos os clássicos e encontramos por vezes respostas que encaixam, por isso é que são clássicos, porque “…constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições de apreciá-los[3].
Clássica é finalmente a atitude dos dois partidos centrões. Uma atitude que entronca no permanente assalto do aparelho de estado e na perpetuação de influências e congruências, que têm um denominador comum na dominação e na burocracia, que usam em seu benefício, com as leis que continuamente fabricam.

Continuando a seguir o Guerra Junqueiro, sobre o regímen que ele acusava, “…o que é preciso, árvore tenebrosa, é arrancar-te pela raiz e fazer contigo uma fogueira. Depois arearemos o campo, semearemos o trigo…”[4].


[1] Extracto de “O Regímen”, Manifesto escrito em 1899, e divulgado e distribuído a 25 de Novembro desse ano, por ocasião das eleições de deputados do dia seguinte. Foi publicado no dia 26 de Novembro, na 1ª página do Jornal  Voz Pública. O Manifesto está transcrito na íntegra, na obra “Horas de Combate”, de Guerra Junqueiro, edição da Lello & Irmãos, 1978
[2] Idem, ibidem
[3] Extracto da obra “Porquê Ler os Clássicos?”, Italo Calvino, edição Teorema, 1994, cap.1
[4] Idem, 1 e 2.

27 outubro 2014


E você, sabe mesmo o que é o stress?
 
 
 
 
 
 
 
 
A gente pensava saber o que o termo diz e supõe. Até ao momento em que nos informaram que os mercados (aqueles) ficavam, de vez em quando nervosos, sempre que havia uma mijadela qualquer de um animal destreinado, ou descontrolado. Fosse lá o animal quem fosse, desde a vulgar besta de carga, até um ministro liberal, aliás agora, neoliberal. Mas havia de haver mais, para nosso desconforto (ou não). Agora parece ser os bancos, não os de jardim, mas os outros que se alimentam do nosso dinheiro, que passam a estar sujeitos a testes de stress.  Uma breve, mas profícua, pesquisa encontramos, no Dicionário da Porto Editora, o significado do termo: “conjunto de perturbações psíquicas e fisiológicas, provocadas por agentes diversos, que prejudicam ou impedem a realização normal do trabalho; tensão, pressão”. E ficamos felizes, porque (concluímos) que os ditos (bancos) se estão humanizando (assim, á brasileira, fica melhor), através da aquisição de competências dignas do humano, tais com as psíquicas e fisiológicas. Uma forma de estar que os aproxima de nós. Nem que tal tenha a ver com a circunstância, nada despicienda, de tal aproximação ter como consequência a melhor “extracção” de capital, motivada pelos tempos que correm, em que como se sabe, fica bem “desviar” capitais de um lado para o outro, de modo a permitir que os tais 1% vivam de facto com a abundância digna de senhores, que o são, pelo simples facto de o terem que ser. Até aqui, nada de especial, nada de novo. De estranhar era ser o contrário, hipótese nada usual e que a ser verdadeira significaria uma inversão completa de valores, o que não se ajusta de todo aos tempos que correm. Concluímos ainda que quando os bancos entram em stress, não devem ser atormentados com outras preocupações, porque podem simplesmente dar-lhes assim uma coisinha má e colapsarem. E, ao colapsar, podem arrastar atrás de si (ou à frente de si?) toda uma série de coisinhas más. Para nós, claro. Porque, e aqui reside a diferença fundamental ao humano ser, quando colapasam, nós é que temos o remédio santo para resolver a coisa: mais dinheiro. Chegada a coisa a estes termos, pergunta-se: vale a pena colapsar? Resposta mais que evidente, também ao contrário do humano ser que pode mesmo ir desta para melhor (ou pior, conforme a crença): sim, vale a pena. Conhecidos e detectados já alguns exemplos, no nosso País, confirmam a sentença. Um há até que passou a ser “bom” e “novo”, depois de lhe ter dado a tal coisinha má, que poderá até ser boa, conforme a crença, cuja neste caso vertente, tem a ver com a chamada supervisão, que é uma coisa complicada e que não vou abordar nesta redacção, por falta de linhas.
Qualquer visão, porventura catastrofista, que pretenda associar este fenómeno a um novo ataque à população mais desfavorecida, será então pura maledicência. Até porque, distintas figuras públicas se apressam a dizer que podemos todo ficar tranquilos. E quando essa (e outras) figuras falam, devemos ouvi-las, porque estão sempre a defender os superiores interesses da nação, acima de interesses partidários. Mesmo que essas figuras, que alguns dizem ser tristes, pertençam aos tais partidos, podendo parecer estranho que, se pertencem aos ditos, não defendam os interesses daqueles. Mas, tal como o outro assunto, é por demais complicado me propor abordá-lo. Bem vistas as coisas, eles cuidam bem de nós, para que havemos de querer perceber tudo e mais alguma coisa, em vez de trabalhar para pagar impostos, a bem da nação? E sabemos finalmente que se trabalharmos bem e denunciarmos aqueles que o não querem fazer, e que estão sempre no contra, podemos ter acesso a uma prendinha, mesmo não sabendo quando nem como.

Explicado assim, porque as coisas devem ser claras, podemos antever um risonho futuro para todos nós, caso cuidemos bem, tratando bem, depositando bem, transmitindo assim ao “nosso” banco a calma necessária para o stress não se manifeste. Porque, repito, caso ele se manifeste mesmo, quem paga somos mesmo nós. E, atenção, caso saibamos de algum que esteja a ser submetido a um teste (de stress), rezemos por ele a nossa senhora, para que nada de mal lhe aconteça e que regresse, são e salvo, ao nosso terno convívio, para bem de todos nós.

Se entretanto não ficaram convencidos com a minha redacção, descansem que eu também não…

22 setembro 2014


 
 
 
 
 
 
 
 
Às vezes é bom rever a história do nosso País.
No final do século XXI e inicio do século XX, podemos encontrar belos exemplos de patriotas e democratas que, sem papas na língua, brandiam na decrépita monarquia e depois, nos traidores da Pátria, no alvorecer da I República. Não existia o politicamente correcto, não havia o famigerado “centrão”, despontava o ideal socialista na sua pureza, os revolucionários não tinham medo de o ser, a política ganhava estatuto, os cidadãos começavam a compreender a cidadania.

Guerra Junqueiro (1850-1923), poeta revolucionário, autor também de bela e inspirada prosa, foi uma dessas figuras, tendo contribuído com a sua acção cívica e politica para o derrube da monarquia. O texto que se segue é uma colagem de palavras integralmente suas, vai devidamente citado e datado, dá ganas de o tomar por actual, e como tal faço, com a devida vénia, a minha:

 PROCLAMAÇÃO 

Caros Concidadãos,

O que há de mais baixo no homem, a imbecilidade, a vaidade, a inveja, a hipocrisia, a cobiça –gula de porco,, veneno de réptil, cinismo de macaco, rancor de fera – eis o governo da nação, eis a norma da Pátria. Quem nos governa, quem nos tem governado? Ladrões! Mas, nem só ladrões, também idiotas vulgares, ambiciosos medíocres, a farsa além da infâmia, a estupidez além do crime.
Mas, uma ordem social, que eleva criminosos a martiriza justos, é a negação das leis humanas, e cumpre-nos arrasá-la de alto a baixo, a ferro e fogo, até aos alicerces[1]. “A sociedade portuguesa está organizada para o mal. Não é já o mal esporádico e fortuito, em casos isolados que rapidamente se combatem. Não, é o mal colectivo, o mal em norma de vida, o mal em sistema de governo. Porque o mal são eles e querem conservar-se. Um regímen corrupto só na corrupção subsiste. Mantém-se na corrupção, como alguns bacilos na porcaria. A filosofia de vida de um tal regímen é a filosofia do porco: devorar. O regímen, pelos homens que o exercem, denota um fim: viver estupidamente, clinicamente, a vida bruta da matéria. Os deputados são, ordinariamente, os lacaios do regímen. Dão-lhes decretos a aprovar, como dão botas a engraxar. Regímen sinistro! A tua sombra esterilizou o nosso campo; os teus frutos gelaram o nosso coração. Quebrar-te um ramo ou espezinhar-te um fruto, para quê? Deitarás mais ramos, deitarás mais frutos, o que é necessário, árvore tenebrosa, é arrancar-te pela raiz, e fazer contigo uma fogueira.” [2].

Há tiranias dominadoras e fulgurantes, de olhos de águia, e tiranias lívidas, oblíquas, de olhar de hiena. Ambas trágicas.” [3]
A tirania de engorda e de vista baixa, uma fase indecorosa? Jamais! As palavras são indecorosas, quando há mentira nas palavras. A nossa língua é indecorosa, quando segrega embustes e veneno. E se é temível o veneno da serpente, porque mata um homem, que veneno infernal o de um homem, quando perturba ou mata milhões de almas.” [4]

Viva a República! Viva Portugal!
---
Fonte: Junqueiro, A.G., “Horas de Combate”, Lello & Irmãos Editores, Porto 1978


[1] Extracto de Discurso pronunciado num Comício do Partido Republicano, a 27 de Julho 1897, onde estavam presentes personalidades como Manuel de Arriaga, Teófilo Braga e Afonso de Lemos, in:
[2] Extracto do Manifesto “O Regímen”, publicado no Jornal Voz Pública, a 25 de Novembro 1899
[3] Extracto do Discurso pronunciado a 2 de Dezembro 1906, no Porto, na Rua da Alegria e que foi publicado no Jornal Voz Pública, em cabeçalho desse dia.
[4] Extracto da defesa em Tribunal, a 10 de Abril 1907, de Guerra Junqueiro, acusado pelo Ministério Público de ofensas a el-rei D. Carlos, feitas na Câmara dos Deputados, em Abril do ano anterior.

21 setembro 2014

NUNO PAULA DO CRATO TEIXEIRA DA CRUZ







 
 
 
 
 
Unidos numa simbiose pífia, eivada de lugares comuns de gosto duvidoso, Paula e Nuno de seus nomes, interpretam a inesquecível peça de pedir perdão. Bons costumes, lição estudada para consumo eleitoral, acto de contrição de contornos inexauríveis. Há coisas piores, como por exemplo, a dissonância. Ele fala da incongruência da fórmula, ela confessa-se surpreendida pelo afundamento do sistema. Ambos protagonizam um interessante “estado de citius”, em que o denominador comum é a monstruosidade passa-culpas, com uma demissão de um ou outro técnico, na boa pinta nacional, de uma forma de fazer política e lidar com adversidades tidas como naturais. Peço desculpa, fico de bem com a minha pobre consciência e tudo continua mais ou menos na mesma, a justiça como uma vontade do regime, que parvo que eu sou…

Mas vendo bem as coisas, um e outro são titulares nesta famigerada “selecção nacional”, onde o treinador vale ainda menos (se possível) que o Paulo Bento e que não se demite, nem é demitido, monstruosa figura, que nem de estilo, porque nenhum tem que não seja o de uma mediocridade extensiva a todo o plantel. E, por falar em congruência, manda a Matemática que, sendo a e b números inteiros, “a” é congruente com “b” para o módulo “k” (diferente de zero), se a diferença entre a e b, for divisível por k. Como a diferença entre o Nuno e a Paula é zero, qualquer que seja a capa (k), existe congruência absoluta, a que se pode chamar, sem qualquer rebuço, mediocridade.

A circunstância, decerto falaciosa, de um banal pedido de desculpas, não encaixa neste bando de deploráveis criaturas. Podem continuar a falar, até ao fim, seja ele qual for. Já ninguém, nem sequer os seus apaniguados, os leva a sério. Nem merecem a mínima credibilidade, pena é que não paguem ao País, o preço da sua incompetência.

29 agosto 2014

Um Alien revivalista, aqui…
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aterrado no cruzamento, o personagem ressuscitava Azimov [1], transportando-o debaixo do braço, sob a forma de livro, unido a ele pelas leis da física que conhecemos. O mentor haveria de supor, há 50 anos, um ano de 2014 com casas debaixo de terra e cidades no mar. E, curiosamente, a acentuação das desigualdades entre ricos e pobres. Nos 4 caminhos, o personagem rodava quando o automóvel se aproximava, escondendo dos terrestres a sua verdadeira face. Um fenómeno que Azimov bem poderia ter imaginado, quando dedicou a sua vida a nobre causa da bioquímica, temperada com a ficção científica, circunstância que o levaria até a ser considerado um mestre, equiparado a Artur C. Clark [2]. Bem vistas as coisas, a maldade de esconder a face acaba por ser uma constante dos tempos que correm, em que um rosto invisível e de contornos mal definidos domina as vidas daqueles que ainda sonham com a luz. Ingrata, a passagem das horas, remete-nos para uma realidade sinistra, que renegamos inconscientemente. O personagem, em vez de nos convidar a entrar na sua nave, roda 180 graus sobre si próprio, apenas permitindo ver o autor do livro que transporta. Que, por sua vez, nos remete para um afastamento da natureza, quiçá um Império Galáctico [3], sob a égide de uma qualquer Goldman Sachs. Assim, o dia em que personagem passou por aqui, ficará marcado pela certeza e pela incerteza. Quanto a primeira, dificilmente se poderia imaginar o fim de tarde atribulado que provocou. No que concerne a segunda, daremos como adquirida a dúvida legítima “estivemos realmente lá?”. “Sentir tudo de todas as maneiras / Viver tudo de todos os lados / Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo…[4], sentenciou o Poeta, na sua fase decadentista. Comungamos com ele porventura, ao deparar com o personagem? Ou, por outro lado, “matamos” o personagem, simplesmente por incomoda a nossa débil existência? De qualquer forma, pelas dezassete horas e trinta minutos do tempo que conhecemos, no cruzamento assinalado no mapa, haveria de ocorrer um fenómeno. Fica o registo de um protagonista ansioso, mesmo sem saber muito bem de quê…
 


[1] Azimov, Isaak Yudavich (1920/1992), escritor e bioquímico americano, nascido na Rússia, autor de obras de ficção científica e divulgação científica.
[2] Clarke, Arthur Charles (1917/2008), escritor e inventor britânico, autor de obras de divulgação científica e de ficção científica
[3] Referência a uma série de contos de ficção científica, com esse nome, do autor Azimov
[4] Excerto de “A Passagem das Horas”, Álvaro de Campos, 1916

10 agosto 2014


O vento não mudou…
 
 
 
 
 
 
 
 
Na canção ele mudava e ela não voltava. Estávamos em 1967 e havia um Festival com grande impacto social, já que tudo o resto era vedado na “democracia orgânica” da época.
A SillySeason, uma coisa instituída na “democracia liberal” imposta pelo poder do capital do século XXI, brinda anualmente a praça dos que se entretêm a exercer o poder sobre a populaça, servindo o País acima dos seus interesses. Aparece sem se dar conta neste mês de Agosto, do qual se diz que nada se passa. Trás sempre uma “bomba” que rebenta e cujos danos colaterais vão invariavelmente na mesma direcção. Mais um banco no lamaçal e desta vez o cujo dito em que o seu patrão natural era o dono disto tudo, na vox populis abalizada de todos os seus pares.

Interessa entretanto saber se afinal, neste Agosto esquisito com chuva e sol á mistura, se o vento mudou ou não. Que sim, mas que talvez, o próximo mais do “nim”, aliás uma instituição interessante da “democracia liberal”. Zola dizia a certo passo a Flaubert, a propósito do Naturalismo, “…considero o termo tão ridículo como você, mas irei continuar a repeti-lo vezes sem conta, porque têm de ser dados novos nomes às coisas, para que o público pense que são novas”. Mesmo que o vento não mude, mudaremos o nome das coisas, para que tudo fique na mesma. E é esta a tese substantiva da direita estúpida e cega que tiraniza a populaça.
A casa onde o pai matou a família toda e tentou alastrar a matança a longínquas paragens, vai agora ser dividida em duas, por ordem de um governo que lhe prestou ao tempo a mesma vassalagem que outros lhe foram prestando. Será então uma “casa boa” e uma “casa má”, um exercício de maniqueísmo que não orgulharia decerto o seu mentor, de tão rasteiro e pusilânime. Supõe-se, na simplicidade de quem tem apenas 2 ou 3 neurónios a funcionar, como a canalhada que ocupa as cadeiras do poder, que na casa boa ficam as coisas boas e na casa má, o resto que é mau. O curioso é que as pessoas até acreditam, com a beneplácita ajuda de comentadores, jornalistas vendidos e outros acólitos, que subscrevem as teses oficiais, com um descaramento que enoja. Para completar o quadro, nada como a putrefacta figura do regulador, que faz tudo menos regular, e que lembra o professor que descobre no final do ano que afinal a turma é um bando de assaltantes e filhos da dita, capazes de semear a confusão na escola toda.

Do lado de cá, a mesma sina, a mesma sorte. A de pagar os estragos do assaltante, para que a casa seja de novo “boa” e sirva para recolher os parcos proveitos dos que pagam, até ao dia em que volte tudo ao mesmo, porque ao velho ladrão há-de suceder um outro, dado que a fonte de recrutamento dos representantes dos patrões é sempre a mesma e gere os recursos que tem à mão, no ensino da ganância e da pilhagem. A solução é a única possível, como todas as soluções deste grupo de ladrões e corruptos. Nunca existe alternativa possível, porque nem sequer é ouvida qualquer voz que se permita discordar. É mesmo que seja ouvida é o mesmo que nada.
O vento afinal não mudou, nem ELA (Je voudrais sans la nommer vous parler d'elle) voltou. Pena…


 

 

 

 

27 junho 2014


PIRRO ou PORRA?

 
 
 
 
 
 
 
 
Só a ideia de ter como “representantes” uma boa dúzia de meninos ricos e mimados, cujo “valor” flutua na relva do mercado (ou no mercado da relva), assusta qualquer um. A pompa aqui ajusta-se a circunstância. O conjunto das chamadas figuras públicas e comentadores pagos que vieram a terreiro atestar a mais-valia desta selecção, mais valia que estivessem calados, foi tempo perdido, ilusões vendidas a preço de saldo e que talvez tenham deslumbrado as estrelas que penosamente se arrastaram pelos Brasis.
E aquele a chamam o “melhor do planeta” e que raramente consegue articular 2 frases sem sentido, como irá lidar com este rotundo fracasso? Afinal, mais uma vez, acaba por ficar aquém das expectativas.
Mas falemos de atitude. Com todas as cambiantes possíveis e imaginárias, houve de tudo, desde a arrogância (vai ser o ano de Portugal, somos melhores,…) até a resignação pura e dura (sabíamos que havia outros melhores que nós…), patente aliás no ultimo jogo. Mas há mais atitudes, como a do inefável Bento, “…não me demito, aconteça o que acontecer”. Tal com o outro, que também não, nem mais ou menos, apesar do/s fracasso/s evidente/s. Também, tal como o outro, tem um desígnio, pelo menos nacional, quiçá europeu, ou mesmo mundial, quem sabe? É também isso que irrita, de tão diletante.
A pífia campanha publicitária à volta da coisa quer sobretudo alimentar o incontido brio lusitano, ferido em tempos de servidão. Para fora, com algumas adendas, para dentro com prebendas e comendas, como iremos ver…

PIRRO na vitória, ou PORRA para isto tudo?

16 junho 2014



“FAZER UM GOL NESSA PARTIDA NÃO É FÁCIL, MEU IRMÃO…"(1)

Por ser dia de jogo, lembro o Afonsinho, aliás Afonso Celso Garcia Reis, o primeiro jogador de futebol no Brasil a conseguir o passe livre (…não preso a nenhuma equipa), na década de 70 do século passado, numa época que o Brasil vivia uma repressão feroz, sob a Ditadura Militar.

Afonsinho tornou-se conhecido pela luta contra duas ditaduras, a dos militares e a que escravizava os jogadores de futebol naquela época, o passe. E tudo isso aconteceu por conta de um episódio no Botafogo, quando ele ainda muito jovem, já havia liderado os seus companheiros de equipa contra os dirigentes do clube, por pagamentos de prémios atrasados. Mais, os dirigentes do clube e o técnico Zagallo blindaram a sua ida a selecção, por usar barba e cabelo comprido, um visual subversivo, segundo eles.

Afonsinho representava, por assim dizer, uma alma. Uma chama diferente, porque contra a corrente. A sua luta abriu caminho para que outros jogadores também lutassem pelos seus direitos.

E digo com ele (Gilberto), "Prezado amigo Afonsinho/eu continuo aqui mesmo/aperfeiçoando o imperfeito/dando um tempo, dando um jeito desprezando a perfeição/que a perfeição é uma meta/ defendida pelo goleiro/ que joga na selecção/e eu não sou Pelé nem nada…”.

Talvez aquele que hoje é “entronizado”, como melhor do mundo, o salvador da pátria (do futebol, pelo menos), não conheça Afonsinho, nem muito menos o que ele representou. Talvez porque a cultura seja a inversa. Ele, como a maioria dos seleccionados, ricos e mimados, investidos de um poder fátuo, por força da propaganda e dos milhões, a que devem obediência.

Apenas um jogo de futebol. Contra os dominadores da Europa e quiçá, arredores? De todo, apenas uma equipa de futebol, adversária e não inimiga, segundo as “boas regras” do desporto.

Se for então difícil “fazer um gol nessa partida…” é porque – apenas – não foram capazes de “…aperfeiçoar o imperfeito”, que é o zero-a-zero, o empate constante do meio-termo, do tal meio-campo em que se joga a/o tempo inteiro. O jogo, tal como a vida, é sempre p´ra frente, ao ataque, seja qual for o adversário, marcar golo é vencer, as lutas são para ganhar.

Afonsinho, meu irmão!
---
 
(1)     “Meio de Campo”, Gilberto Gil
 
 

10 junho 2014


DESFALECER…
















Uma palavra esquisita. Deveria querer significar o contrário. Como desnaturado que, segundo o dicionário da língua portuguesa, significa “que se desnaturou, que não tem os sentimentos naturais”. Ou desfazer, que é naturalmente o contrário de fazer. O prefixo “des” refere separação ou acção contrária.
Acima de tudo, como diria o outro, “… é melhor que falecer”.
Este, ao que consta, desfaleceu hoje. Numa cerimónia pública em que mais uma vez, o governo foi mandado para a rua. O homem que, paulatinamente desfez o País, desde que esteve ao leme, durante 2 mandatos: indústrias, agricultura, pescas,... Gabando-se de ser o único a ter razão, nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, “deixem-nos trabalhar…”. Trabalhou de facto para a destruição, para transformar o País num deserto de serviços, muitos inúteis, como agora se prova. Ajudado e amparado por uma maioria fictícia, que talvez hoje nele nem se reveja, é um homem acossado. Governou e governou-se, tentando ostentar uma máscara de seriedade, institucional ou não, acima de barões e baronetes. A quem recorreu, quando necessário e que o premiaram no caso que todos conhecem.

Uma tristeza. Um País que desfalece aos poucos, por causa dele e dos que hoje o suportam. Que continuaram a obra do chefe, e que agora suportamos.
Desfalecemos um pouco, todos os dias, martelados e subjugados, pela notícia sempre igual, pelo comentário comprado e bem pago, pela medida sempre mais austera, que é necessário, para bem da nação. Este e os outros todos que pululam alegremente sobre a nossa tristeza, com a linguagem maldita da ficção de um mundo só para alguns.

Desfaleceu? Se disséssemos que era bem feito, estaríamos porventura a incorrer em pecado mortal. Como, apesar de não perfilharmos as teses da maldição, somos pessoas de bem, desejamos que não desfaleça mais. Que faleça de vez no cargo que ocupa, politicamente falando, claro…

28 abril 2014

25 ABRIL 2014

Ao rigor do tempo serão 40 anos.
Parece entretanto que foi ontem, pelo sentimento que colocamos, tanta coisa em jogo naquele tempo, onde o tempo apenas parecia contar para uma festa de sentimentos, esperança e desejo de um País melhor, livre da tutela dos senhores do dinheiro e da exploração.
A festa que o Chico dizia ser bonita pá.
Ganhava valor o trabalho, o capital olhava para o lado, esperando melhores dias em que pudesse voltar a tomar as rédeas.
Viemos de longe para aqui chegar, sonhando que a luta seria o sustentáculo dos direitos que pareciam ganhar terreno. Mas a luta ainda estava para vir.
 Hoje, dia 25 de Abril, longe da pátria, mas entre irmãos de luta que falam a mesmo língua, apenas sou capaz de sentir a saudade que a Cesária falou: sôdade.
Percorro o meu País. Em vez de pessoas com alegria de viver, deparo com “Gente que hoje anda / Falando de lado /E olhando pro chão, viu”. E sei que, como bem diz o Chico, “Apesar de você/Amanhã há de ser/Outro dia” e que
Quando chegar o momento/Esse meu sofrimento/Vou cobrar com juros, juro”.
As voltas com a injustiça e a ignominia que campeiam, lembro o Adriano exortando o Tejo,  “Lava bancos e empresas /dos comedores de dinheiro / que dos salários de tristeza /arrecadam lucro inteiro / Lava palácios vivendas /casebres bairros da lata / leva negócios e rendas /que a uns farta e a outros mata

Mas sei que quero a mudança. Porque já Luís de Camões a dizia: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / Muda-se o ser, muda-se a confiança / Todo o mundo é composto de mudança / Tomando sempre novas qualidades”.

Mas também sei que não quero a mudança que um punhado de gente sem escrúpulos escreve, com letras de fome e de pobreza. Essa a novidade que eles fizeram. E que Camões também avisou: “Continuamente vemos novidades / Diferentes em tudo da esperança / Do mal ficam as mágoas na lembrança / E do bem, se algum houve, as saudades”
Neste dia recordo, como seria de esperar, o Zeca Afonso. “A velha história ainda mal começa /Agora esta voltando ao que era dantes / Mas se há um camarada à tua espera / Não faltes ao encontro sê constante”.

25 de Abril sempre!