04 janeiro 2026

HOJE, AS FLORES NÃO SE ABRIRAM EM CARACAS...

 

Roubo hoje, 4 de Janeiro, ao Amigo e Camarada Rui Pereira, a citação com que abre o seu livro[i]: “A quantos, por entre as sombras, tentam entrever”.  E são tantos por entre as sombras com que pintaram o planeta, volto ao dia em que o império invadiu o País, raptou e sequestrou o Presidente legítimo e deixou atrás um rasto de morte e destruição. Se há sentimento que possa contar quantas flores terão sido pisadas em Caracas, evocando mil novecentos e setenta e três, quando o mesmo império derrubou Allende e instalou um sinistro reino de terror no Chile. E lembrando, porque é preciso acordar a gente que gosta de flores e parece adormecida à espera que lhe batam à porta e as levem para um qualquer estádio, sem ser para o jogo de futebol, lembrando, lembrando sim, que é o mesmo império que vai semeando terror em vez de flores e espalhando morte e destruição, repete-se porque é mesmo preciso repetir, é o mesmo por toda a parte, quando será possível destrui-lo antes que destrua tudo, mulheres, homens, crianças, amimais e flores. 


A perversidade do golpe de ontem, continua hoje e continuará sempre, o ogre anuncia que governará a Venezuela e que tomará conta da riqueza natural e de todas as flores que possam tentar nascer, ele lhes irá pôr a suja pata imperial em cima, porque apenas conhece a linguagem do dinheiro, do capital, da exploração e da destruição das vidas e dos sonhos de Liberdade.

Para quê pensar (ou, no limite, acreditar) que a camarilha ocidental com todos à cabeça, é ou será capaz de condenar o golpe, provavelmente à espera de umas migalhas para continuarem a desempenhar o seu papel de cães bem treinados obedecendo ao seu dono?  Sejam portugueses ou suecos, franceses ou gregos, italianos ou ingleses, travestidos em actores de guerra pífios sem nada para mostrar que não seja ódio à liberdade, embora se reclamem de representantes democráticos, que ousadia hipócrita dos acompanhantes da chacina dos palestinianos e da exclusão dos imigrantes de todas as cores. Mesmo descontando a tímida reacção espanhola, amarrada contudo a um institucionalismo que não lhe permite dizer “não” com a força necessária, porque afinal ainda há Ucrânia, os burocratas pacóvios não passam de fascistas envergonhados e de covardes mal paridos. 


A imagem perversa da propaganda ocidental é traduzida no Homem acorrentado de pés e mãos pelo carrasco norte-americano que perpetrou a invasão do Capitólio e que teve como prenda a presidência, malvado seja se crentes fossemos e lhes desejássemos o “descanso eterno” a que tem “direito”. E o que vemos e ouvimos naquilo que chamam “comunicação social”, o repetir e o matraquear das mesmas frases, agora com uma imbecilidade confrangedora, ele era (ou ainda é, porque está vivo) um “ditador” que assustava o seu povo e nem o deixava cheirar as flores, apenas a droga permitia “florescer” e, pior que tudo, a enviava para os pobres cidadãos norte-americanos, sobretudo para os enjeitados e desvalidos que só querem consumir e que, por isso mesmo, são pobres. O bloqueio “simples” e completo da informação é “democrático” e é sobretudo uma “oferta” ao cidadão, poupado a ideais comunistas e solidários, já passou o tempo disso, agora ouve e lê aquilo que for determinado, Orwell como és actual.


Os tais que “tentam entrever” são os mais perigosos, porque tentam, através de neblina, pressentir algo que vai acontecer, a significância da coisa assim o diz. Para estes é preciso um trato especial, metê-los na masmorra a todos ficaria mal, por isso vamos esquecê-los, ofuscá-los, quiçá dar-lhes algo para distrair, pode ser até uma flor qualquer com toque alucinógeno, para poderem voar nem ninho de cucos devidamente adaptado e com flores amarelas ou uma merda qualquer colorida e apelativa.

Vamos admitir que o sistema funciona para alguns. Um deles, com nome de santo[ii], estava hoje acabrunhado e triste, porque o ogre havia desmerecido a “grande democrata” corina, para ele, a flor mais indicada para a “transição democrática”. Atolados (como este) na massificação das consciências, perdidos no atoleiro neo-liberal, incapazes de uma réstia de luz nas suas empedernidas cabeças, enlatados (e entalados) na casa-comum do capital, possivelmente pintado de verde, nunca serão flores que se cheirem, quando cheiram mesmo, o melhor é mesmo afastarmo-nos. 

Tristes “democracias”, verdadeiras ditaduras do capital, disfarçadas pelo trabalho proficiente dos lacaios burgueses e pela ajuda (mais ou menos) disfarçada de outros que há algum tempo trocaram o vermelho da bandeira, pelo verde apelativo das “transformações graduais”, energéticas e/ou digitais, ou outra coisa qualquer, que parecem ter medo das revoluções, da Revolução que anda perdida por estes lados, mas que, nas américas latinas ainda resiste, com qualquer coisa florida, que causa comichão ao capital e que ainda traz, com todas as imperfeições que possa conter,  um "verde-oliva de flor no ramo", nas mãos dos "filhos da madrugada", que nos orgulhamos de ser [iii]. 


Um dia inteiro sem informação, contaminados pela propaganda e pelos comentários dos pacóvios avençados que constituem o exército odioso dos painelistas, partimos em busca das estações proibidas, para saber um pouco mais do que o que nos querem (e conseguem) impingir, descobrimos na Américas o que se passa por lá e, curiosamente também por cá. São milhares, quiçá milhões que, por esse mundo dentro, saem à rua, multidões em todos os continentes, em protesto e vigília pela Revolução Boliveriana e pela exigência da libertação de Maduro e Cilia Flores. Por este Portugal, vamos ficar à espera de amanhã, para “civilizadamente” sairmos à rua, enquanto um governo infame fala em nome dos portugueses...


Não me falem hoje (nem amanhã) nas “comparações” espúrias com a Ucrânia. O mesmo (e único) império que patrocina o genocídio em Gaza, entrou Venezuela dentro, num odioso acto de pirataria e sequestro do seu Presidente, repitamos isto as vezes que forem precisas. Não toleramos, não admitimos.

Os trabalhadores da Venezuela e do mundo inteiro sujeitos à opressão e à dominação capitalista têm capacidade para fazer uma barreira e deixar crescer em paz as flores que ontem não floriram em Caracas. 

Ressuscitemos a palavra de ordem “Ianques Fora da Venezuela!” E, desta vez, não haverá flores nos canos das espingardas.

 

---


[i] “Venezuela, a montanha acima das nuvens: Uma hipótese de crónica”, Porto, UNICEPE (2025)

[iii] Referência directa a F. Assis, do Partido (dito) Socialista

[iii] Referência ao verso do poema “Canto Moço”, do albúm “Traz Outro Amigo Também”, Zeca Afonso (1970)


This page is powered by Blogger. Isn't yours?