11 janeiro 2026

PENSAR (e falar) O MAIS CLARO POSSÍVEL


Se é possível neste tempo fazê-lo, na plasticidade implacável de uma era em que abundam burocratas cinzentos, zelotes disfarçados e contabilistas do vazio, enfrentemos a dura tarefa.

Se for um apelo, ao menos que o seja ao nível da proximidade histórica, uma circunstância hoje preguiçosamente abandonada em favor da encenação pífia e do espectáculo de fraca qualidade. Ouvir e ver, na campanha, expressões de um extremo ridículo, ou de uma tremenda falta de qualidade, choca a inteligência e agride a consciência. O pior é que passa e habitua. De tal forma, o uso crónico dos martelados, “servir o país”, “o meu partido é Portugal”, “é preciso pôr os interesses do país à frente...”, tão simplórios quanto enganadores, colocam os “autores” numa posição frívola e envilecida. Dirão, nada mais têm para dizer, apenas a verborreia habitual das campanhas e que possivelmente lhes dará mais algum voto. Será mesmo?

Sem querer adiantar num hipotético paralelo entre as candidaturas da Esquerda, sempre assinalo que algumas se poderão ter perdido entre a manifestação e afirmação de um desejo pessoal e a vontade abonatória sobre um vago projecto de uma sina antiga. Se bem lhes ficou, mal algum lhes irá provocar, uma vez que o seu lugar, longe da luta de classes, ficará para a história como a imagem da adequação e do ajustamento. Da Direita não me compete qualquer cometimento. Uso e feitio assentam-lhe na perfeição e na profícua acção de contrair cada vez mais o espaço público, causticar e castigar o mundo do trabalho, uma tipologia especial de crime e o castigo do capitalismo predador. Chega a ser patético, se não fosse trágico, o discurso das “reformas estruturais”, hoje já sem o pacote rendilhado com que outrora era apresentado.

 

Tudo o que poderia ser a afirmação de classe, de defesa incondicional dos trabalhadores, aparece ofuscado numa linguagem difusa e, muitas vezes, difícil de entender, quer quando se afirma, quer no momento em que se nega. Creio ser evidente, para quem se afirma do lado da Luta, que deve ser perfeitamente separado o que é a necessidade absoluta de erradicar um sistema económico e financeiro que destrói as pessoas e a natureza e a “crença” numa eventual possibilidade de o “reformar” por dentro. 

Quando existe uma desconexão sistemática entre o sentido pretendido e o sentido apreendido, tem contraponto perfeito a clareza do discurso e a afirmação positiva das propostas. Quando o abismo está perante nós e há quem queira mergulhar nele de olhos fechados, a atitude nunca poderá ser dar-lhe espaço, mas sim, fazer-lhe frente de forma decidida. Vem a propósito a grande oportunidade (ou mais uma oportunidade) para a Esquerda ocupar, de forma distinta, o debate público, possibilitado pelas presidenciais. Existiram alguns momentos em que tal poderia e deveria ser feito. 

 

A seu devido tempo assumi apoiar publicamente o Candidato António Filipe, tendo inclusivamente sido seu proponente. Se ele terá conseguido (ou não) manifestar a atitude firme que atrás aportei, será possivelmente uma das incógnitas que o futuro (que é já amanhã) irá desvendar. Sabendo à partida que há  discursos que não pedem concordância imediata, ou assumidamente pelo exagero, ou em tese por uma colagem surreal, porque o real é cada vez mais obsceno, resta a ideia, peregrina mas aplicável, da assumpção da fractura cada vez mais necessária em alguns temas decisivos e em relação às formações reais.

Hoje antecipei o meu voto no António, projectando um futuro que as circunstâncias da Luta determinarem. Se dúvidas não tive em relação ao acto em si, vejo à minha frente um montanha delas. Espero que, nas próximas semanas, seja possível escalar a montanha e partir algumas amarras. Espero. 

Espero (ainda) ter falado o mais claro possível. Se não fui capaz assumo o propósito.

 


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