19 fevereiro 2026
O MONDEGO NASCE NA SERRA DA ESTRELA
Seria mais que suficiente consultar dados, que com abundância por aí existem, para saber que o Rio Mondego nasce na Serra da Estrela e é um dos cinco principais rios portugueses, que corre no centro do País. Os romanos chamaram-lhe Munda, termo que podia aparentar transparência, claridade ou pureza e, ao longo da sua vida geológica, tem passado bem, o quanto consta. Desde a pesca da lampreia à observação de aves no seu estuário, o rio Mondego é citado como “...o rio português mais cantado por poetas desde tempos imemoriais”, adquirindo assim uma importância estratégica na tessitura nacional, não podendo ser ignorada por quem foi investido em funções, embora temporárias, de chefia de uma coisa que dá pelo nome de “governo”, tão maltratada nos últimos tempos, sobretudo desde que o sujeito em questão tomou posse, para grande desgraça dos seus concidadãos.
Estamos porventura no limiar da ignorância e da estupidificação da coisa pública. A “pureza” da gestão política, associada ao Munda, está a ser vítima de abusos sucessivos e de elevados índices de mortificação essencial. Um deles é, diga-se sem qualquer rebuço, a ignorância como padrão. A falta de conhecimento sobre a nascente do Mondego não é um mero lapso. É o mesmo padrão de desconhecimento que leva a decisões centralizadas e desenquadradas das realidades locais. É a mesma surdez que impede o governo de ouvir o alerta das cheias que, como é sabido, assolam o Baixo Mondego desde o século XIV. Mas é, ainda, o desprezo pelas vítimas: quando um líder revela tamanha desconexão do território, como pode ser capaz de "acertar medidas" que protejam as populações que sofrem na pele a raiva de um rio desregulado pela crise climática? A sua ignorância é o reflexo de um desprezo mais profundo, por quem vê as suas culturas destruídas, por quem fica à mercê de fenómenos cada vez mais extremos.
A ignorância do primeiro-ministro não é um erro, é um programa de governo. O rio Mondego nasce na Serra da Estrela, corre duzentos e cinquenta e oito quilómetros inteiramente em território nacional e desagua na Figueira da Foz . É um facto tão elementar que qualquer aluno do ensino primário o sabe. Na nossa infância saberíamos porventura de cor este (e outros). Mas este sujeito estará mais “inclinado” para outras ciências, outras “áreas de exploração”, aí perito esclarecido e “licenciado”. Quando nos vem dizer que precisa de "acertar medidas com os vizinhos espanhóis" para lidar com um rio que é cem por cento português, estará provavelmente tudo dito.
Acontece que não está. Esta ignorância não é um mero lapso de memória, mas sim a face visível de uma incapacidade estrutural, de um desprezo oligárquico por tudo o que cheira a território, a interioridade, a vida real. É a mesma ignorância que deixou o país a apodrecer enquanto as tempestades caíam e o Governo produzia vídeos de propaganda. E quando a natureza deixou de ser elemento surpresa e a tempestade Kristin varreu o país, ficou claro que o problema não estava no vento ou na chuva. Estava na gestão governamental da crise. O primeiro-ministro que não sabe onde nasce o Mondego é o mesmo que liderou (se é que se pode chamar liderança a tamanho improviso) uma resposta estatal que envergonharia qualquer país minimamente organizado. As estradas abriram fendas e desabaram. As encostas deslizaram sobre habitações, as famílias ficaram isoladas, sem electricidade, sem comunicações, sem respostas imediatas. O que constatamos no governo do País, o que vimos nas televisões, por onde passeou, para além da ignorância, o séquito de "figuras tristes" e "encenações", à moda de personagens de filme rasca.
Vejamos algumas. O ministro Melo, que dizem ser “da Defesa”, surge numa zona afectada, é fotografado junto a uma tenda das Forças Armadas e abandona o local pouco depois, sem explicação. Para que o ridículo não ficasse pelas imagens e vídeos pífios, veio a palavra, caindo de vez a máscara. Castro Almeida, ministro da tutela, perante cidadãos que perderam casas, bens e rendimentos, sugeriu que recorressem ao vencimento do mês anterior enquanto aguardavam os apoios do Estado. Não foi uma frase infeliz. Foi a verbalização de uma lógica perversa: a de transferir para o cidadão a responsabilidade de uma falha pública. É a mesma lógica de quem, não sabendo onde nasce o Mondego, acha que o problema se resolve com uma chamada para Madrid.
O primeiro-ministro não sabe onde nasce o Mondego. Mas também não sabe, ou não quer saber, onde vivem as vítimas da crise climática. Onde estão as famílias sem-abrigo, onde falham os serviços e onde apodrecem as infraestruturas financiadas com dinheiro europeu que chegou, foi gasto e não deixou rasto de qualidade ou prevenção. O cúmulo do ridículo esteve, uma vez mais, no ministro dito “da Presidência”, uma pústula desnecessária, tentando desviar as atenções com uma queixa-crime contra uma página de sátira política, acusando o autor de "atacar o primeiro-ministro de Portugal" com uma publicação falsa sobre os Açores. Enquanto isso, o país real desmoronava-se. E o Governo, em vez de governar, gastava energia a perseguir humoristas e a produzir conteúdos para as redes sociais. A ministra conhecida como “da Administração Interna”, desaparecida da cena, voltou temporariamente a ela e demitiu-se, após afirmar publicamente que não sabia o que tinha falhado.
Se soubermos (e sabemos) que este País recebeu milhares de milhões de euros da dita “união europeia”, com nomes apelativos, como “fundos estruturais”, “programas de coesão”, “plano de recuperação e resiliência” e outras imbecilidades, percebemos mais depressa que estamos no reino idílico da propaganda e que a negação, enquanto atitude “resiliente”, é o panegírico da mais refinada política do desperdício. O primeiro-ministro, que não sabe onde nasce o Mondego, é o mesmo que, perante a devastação, se refugiou no silêncio e na inércia. É o mesmo que acumulou interinamente a pasta da Administração Interna, não por ter um plano, mas por não ter sequer um nome para apresentar. É o mesmo que governa para as sondagens e para os gabinetes, enquanto o país real, das serras, dos rios, das aldeias e das pessoas, se deslaça, se desfaz penosamente.
A ignorância sobre a nascente do Mondego não é um erro. É um sintoma. É a prova de que quem nos governa não conhece o território que deveria proteger. É a demonstração de que as decisões são tomadas por quem vê Portugal como um mapa abstracto, não como um chão concreto onde vivem e sofrem pessoas de carne e osso. Quem deu o voto a esta trupe de incompetentes talvez agora comece a perceber que tanta cretinice não é um acidente de percurso, mas a imagem mais viva da mediocridade e da avilteza. É a “sublime inépcia” de que o Eça falava, imagem dos burocratas do século vinte e um, em plena fase de ascensão, para mal de todos os “pecados do mundo”.
O Mondego nasce na Serra da Estrela. Mas a incompetência, essa, nasce em São Bento. E alastra como cheia. É preciso, urgentemente, conter esta corrente.