10 dezembro 2025

A GREVE


 

Eis que o dia se aproxima.

Um dia que será lembrado, sem sabermos se será da melhor forma.

E, por falar em lembrança, aqui recordamos o ano de 1918, em Portugal, 12 de Novembro, o início da greve, segundo o relato de José Pacheco Pereira, na sua obra de 1971, “As Lutas Operárias contra a Carestia de Vida em Portugal: A Greve Geral de Novembro de 1918”: 

Às 6 horas da manhã do dia 12 de Novembro de 1918, Lisboa acordou em greve geral. Os operários das fábricas de gás, das companhias de electricidade, dos transportes públicos, das padarias, paralisaram completamente. Não havia luz, não havia pão, não havia carros. A cidade estava às escuras e silenciosa. Só se ouviam os passos dos piquetes operários que percorriam as ruas obrigando ao fecho dos poucos estabelecimentos que ainda tentavam abrir.” 

Um dia de GREVE é sempre um dia de sacrifício do trabalhador. Perde o seu salário, arrisca a sua posição para defender os seus direitos. A sua vida e a dos seus. Na luta diária, em que a exploração continua, diz a burguesia que ele já “não existe”. Passaram a chamar-lhe “colaborador”, o seu patrão deixou de o ser, agora é “empreendedor”, a terminologia ideal para pintar a exploração de qualquer cor à vossa disposição, desde que sirva para mascarar a realidade. 

Mudou muito, desde o ano 1918. Mudou assim tanto, em mais de cem anos? 

Mudaria talvez mais a vontade que os tempos, acicatada por algumas benesses  concedidas que poderiam ter vergado a tal “vontade” de lutar. Todavia, em tempos de servidão, o que fica é a dependência, a reles submissão e a adesão ao discurso burguês que é sempre capaz de dar a volta completa, se necessário for, a sedução permanente.

Deste lado, há luta? 

O sim e o não parecem misturar-se no ar, há sempre a Poesia e as canções para nos acordar, um chamamento, “Viemos (ou vivemos?) com o peso do passado e da semente / esperar tantos anos torna tudo mais urgente”, é o Sérgio a gritar LIBERDADE. O não vagueia na praça e tenta convencer-nos (ou converter-nos) que é preciso mais “competitividade” e mais “produtividade” para poder distribuir a riqueza, conversa espúria, mas quem raio é que produz a riqueza? E volta a canção, “Senhora de preto / diga o que lhe dói...”, de novo o Sérgio a perguntar se “pode alguém ser quem não é”. Pode?

 Amanhã, Lisboa e o país acordarão com uma GREVE GERAL. 

Tudo controlado, as centrais sindicais solicitaram ao Poder a marcação do dia 11 e o Governo irá impor “serviços mínimos” e requisição disto e daquilo, para minimizar os efeitos da GREVE, porque não sei que mais, as pessoas têm filhos e netos (e, já agora, pais, tios e avós e primos, claro) que não podem ser “prejudicados” pela tal coisa da GREVE. Que tempos idiotas vivemos, quanta hipocrisia, quanta falsidade, quanta mentira. Quanta propaganda. Quando um dia acordarem e a GREVE GERAL vier para a rua, sem pedir licença, colocando o Poder em tal risco que nem sabe bem se deve “oferecer” um ordenado mínimo de mil e seiscentos, ou um médio de três mil. Quando uma ou outra parvoíce qualquer vinda da boca seca de qualquer montenegro, a gente irá dizer, com o Chico, “Apesar de você / Amanhã há de ser / Outro dia / Eu pergunto a você / Onde vai se esconder / Da enorme euforia...”, e lá estão as canções, sem elas não se fazem revoluções, rima e não é por acaso.

 Não há memória de tanta lengalenga, tanta força bruta no decreto e no papel contra quem trabalha, na “melhor economia da europa” (que raio será isso?). Quer o Poder convencer alguém no seu perfeito juízo que é preciso “ajustar” o que chamam de “pacote laboral”, para ter melhores salários e melhores pensões? Já agora, existe um “pacote empresarial”? 

Uma interpretação imediatista, poderá dar uma explicação idiota: é preciso despedir mais e melhor para reduzir o número de “colaboradores” e assim ter mais para “distribuir”. Outra (mais realista) será “reduzir” (reduzir bastante) os “Mandadores de alta finança”, nomeados pelo Zeca, nos “Índios da Meia Praia” e que, na opinião dele (que decerto subscrevemos), “...fazem tudo andar p'ra trás / dizem que o mundo só anda / tendo à frente um capataz

Muita letra sobrará, muita luta faltará, outra vez a rima a puxar-nos para a realidade. Volto ao Chico que nos diz “Você que inventou esse estado / E inventou de inventar / Toda a escuridão...” para avisar que há quem queira abrir as portas e deixar entrar a luz que falta. 

E dizer, com alguma segurança: 

Amanhã vai ser outro dia

Amanhã vai ser outro dia

Amanhã vai ser outro dia

                                            E QUE VIVA A GREVE GERAL!

 

  


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