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14 abril 2020

UMA "UNIÃO" SEM FUTURO, "FAZ" UM PAÍS ANDAR À DERIVA


Tudo o que se dizer, explicar e depois, fazer, “...faz parte da preparação da opinião pública para o que aí vem.”
Nós, de facto, não sabemos o que aí vem.
Não temos certeza alguma, ainda devido ao facto de estarmos a viver uma crise, sem paralelo, nos aspectos, sanitário, humanitário, social, económico e político.
Tudo junto e com a velocidade própria dos tempos, os cidadãos podem ter algumas (ou muitas, até) legítimas dúvidas sobre o que virá a seguir.
Pode duvidar-se se as pessoas pensam muito nestas andanças da política, se estão preocupadas, ou simplesmente estão atónitas com o que se está a passar, ou mesmo se porventura aceitam ser meros espectadores, numa teia de acontecimentos em que não parecem envolvidos, a não ser pela inculcação de um medo, processo muito usual nos tempos de chumbo.

Sim, voltamos a viver tempos de chumbo.
Por um lado, pela constante agressão a modos e estilos de vida, o “ocidental orgulhoso” de que falava o jornalista Sena Santos [1] , porventura “...a cair de um pedestal onde se exibia”, pela “simples razão que nem foi capaz de prestar a devida ajuda a um dos seus, a saber, a Itália.
Por outro lado, é o próprio sistema, tão meticulosamente arquitectado para funcionar através da “instalação do medo”, a cair aos pedaços, ameaçado afinal por dentro, como deixam antever as sucessivas reuniões das instâncias da dita “união europeia”, nomeadamente daquela estrutura que apareceu um dia do nada, sem qualquer existência legal, sequer sufragada por alguém, apenas imposta pelo directório financeiro, o auto-designado “eurogrupo”.
Porquê então, preparar a opinião pública para o que aí vem?
Porque assim o exige a situação.
Reparemos como o bloquista José Gusmão analisa, a 8 de Abril, a questão dos eurobonds: “Temos impasse no Eurogrupo sobre condicionalidade (austeridade) e coronabonds, com a Itália a liderar a oposição à proposta de Centeno e da Alemanha. Ou seja, na reunião dos Ministros das Finanças, temos um português a representar a Alemanha e um italiano a representar Portugal.”. E, continuando no BE, as afirmações de Marisa Matias: “A reedição do eixo franco-alemão só aceita empréstimos com a condição de mais austeridade. Suavizaram as palavras, mas mantêm as exigências que provocaram o colapso no nosso país. Lembramo-nos bem do que passámos com as últimas condições impostas e não podemos voltar a aceitá-lo.”
E não é por acaso que se transcrevem estas afirmações. Na realidade, num momento em que a Comissão está também a discutir a possibilidade de reforçar a capacidade do Quadro Financeiro Plurianual, o orçamento comunitário para os anos de 2021 a 2027, pode parecer estranho, à primeira vista, que os citados dirigentes não sejam capazes de entender o fracasso completo e a inevitabilidade de se conseguir sequer o tal acordo em que falava de “mecanismos financeiros inovadores”.
Não é com contributos titubeantes, ora quero o euro, ora não, ora quero a "união unida", ou não, ora contributo para uma saída à Esquerda, ora nem por isso. Parece quase a posição do Partido Socialista, que vocifera impropérios contra um funcionário holandês, mas aceita chefiar um eurogrupo, que dita (sempre) tudo o que é pior para o Estado português, fazendo antever já uma austeridade necessária, para dar saída “honrosa” a mais uma machadada na dívida pública, a seguir à pandemia.
Não, não pode ser assim.
Não é com posições como as que vão referidas, que virá alguma solução decente para o País.
Não é desta forma que a Esquerda pode preparar, como lhe compete, uma RESPOSTA.
Porque tem que haver uma resposta à Esquerda.
Porque a resposta da Direita, nem sequer existe, passando pela eterna submissão da social-democracia aos “populares europeus” e a única solução que parecem apontar é para a actuação da Presidente da Comissão, que faz lembrar aqueles xerifes de um qualquer filme rasca americano, que apenas mandam no povoado, enquanto os homens do dinheiro os apoiam.
Há porém uma outra resposta que se perfila. E não é certamente a melhor, porque estribada que está no populismo mais rasteiro do “contra o sistema de corruptos”, pretende afinal encontrar um qualquer salvini (perdão, salvador) que configure um projecto totalitário, de negação de direitos, de xenofobia, de racismo e avesso a toda e qualquer solidariedade internacional.
Por isso, é urgente, mudar as agulhas.
Se a Esquerda pretender ter uma resposta, ela só será possível, através da preparação de um Programa de Acção conjunto.
Porque o momento o exige, já houve outros assim, na História mais ou menos recente. Este é seguramente um deles.
Mostrar aos cidadãos que é possível viver sem euro é libertar as consciências de uma pesada herança, é ajudar a erradicar o medo e a submissão.
Mostrar aos cidadãos que o País não está a fazer rigorosamente nada dentro da dita “união”, a não ser a constante e, cada vez maior, humilhação.
Mostrar aos cidadãos que não é possível investir a sério na sua Escola Pública, no seu Serviço Nacional de Saúde, nos seus transportes, na cultura (na sua Cultura), nem pensar em qualquer melhoria das suas condições de vida dignas e devidas, em pleno século 21. A propósito, mostrar aos cidadãos o quanto significa o seu magro salário, basta a comparação com Espanha e França.
Mostrar aos cidadãos deste País, que é o nosso, e está a ser espezinhado por políticas que, mais dia menos dia, irão trazer mais pobreza e mais exclusão.
Porque, em qualquer crise, sabemos quem ganha sempre. Os trabalhadores, eternamente dependentes, vão pagando sempre e cada vez mais, à banca, às grandes empresas, que afinal vivem e engordam à custa das rendas, que são pagas com os impostos que pagamos.
Uma teia infinita, que é preciso romper.
À Direita, apenas o abismo, dar um passo em frente e afundamento completo. Quem assim pensa, está sempre seguro, porque não arrisca nada, apenas se alimenta com os fracassos de um sistema. Porque depende dele para sobreviver. E sobrevive sempre, indo pagar impostos à Holanda. Porque afinal, o tal sistema lhe permite fazer isso. E sempre, mais alguma coisa... 
A Esquerda tem hoje uma responsabilidade histórica. Em Portugal, as pessoas, organizações e partidos políticos que se reclamam de Esquerda, têm que assumir de vez essa responsabilidade, num Programa único, de resistência e, porque não dizê-lo mesmo assim, de salvação nacional.
Poderá acontecer, como diria Calvino [2], que “O desejo de um futuro a conquistar é garantido pela memória de um passado perdido
Perdemos um passado?
Perdemos oportunidades?
Perdemos causas, confundindo-nos com alguns efeitos?
Possivelmente tudo junto, numa resposta imediata, sem pensar muito.
Pois agora, o tempo é de pensar mesmo na mudança.
Este é mesmo, O MOMENTO!

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[1] “Opinião”, em: https://24.sapo.pt/…/a-licao-que-o-virus-nos-esta-a-dar-a-n…
[2] “Porquê Ler os Clássicos”, (1991), Italo Calvino, pág. 17

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