rio torto

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22 novembro 2010

NÃO AO TOTALITARISMO ORGANIZADO (NATO)


Pactos e alianças são um bom remédio
Para entreter marechais e lhes combater o tédio
…”

Máquina Zero”, Rui Veloso, in “Guardador de Margens”, 1983








A ocidente nada de novo. As mesmas ideias, os mesmos conceitos, os mesmos intervenientes, a mesma presunção de sempre: o domínio do Mundo, uma estratégia conhecida, a organização totalitária da violência belicista. Ainda que mascarada, pela “nova” linguagem da direita, uma “Aliança de Democracias”. Passearam-se em Lisboa, a alta velocidade, teóricos, militares de carreira e de caserna, consultores de segurança e claro, políticos empenhados na “causa”. A bem da “estabilidade”, do "diálogo constante", da “concertação”, cortaram a 2ª Circular, o Eixo Norte-Sul, ocuparam com pompa e circunstância uma cidade, um simbolismo que mais parece um paradoxo. Houve quem dissesse que tinham “…transformado o Parque das Nações no mais belo bunker do Ocidente”(1) . Isolados das pessoas comuns, eles são mesmo assim, ao fim e ao cabo são essas pessoas comuns que lhes pagam a factura da “segurança”, eles têm que ter segurança, a sua defesa pessoal não pode ser ameaçada. Esse, parecendo que não, é um cerne da questão: somos nós que pagamos sempre a segurança deles, neste e noutros cenários.


Tolerância de ponto, outrora um sacrilégio à produtividade, que dizem baixa. Eles, claro. É preciso afastar as pessoas da rua, a contestação deve ser abafada, assim determina o poder supremo. Lisboa é, apesar de tudo, uma cidade calma, apenas algumas e alguns deitados na via pública, nada de especial. Sim? Não, o perigo espreita a qualquer esquina e, por isso, há que encomendar 5 novos blindados para a polícia poder reprimir à vontade. Não chegam a tempo, vem a saber-se agora, depois da cimeira. Nada que constitua problema para o ministro das polícias. Tal como os submarinos, decerto haverá cenários de guerra no País profundo para intervir, aliás até mais simples, dado que andam em terra firme: Cova Moura, Bela Vista, Musgueira, Lóios, bem precisam de repressão, com blindados ainda melhor. Alguém sustentou: e se a cimeira fosse numa ilha? Ou num porta-aviões. Ou, porque não, na Casa Branca, não é de lá que emana todo o poder?


Os cães de fila do costume perfilham-se em declarações sobre hipotéticas opções, sempre orientado para essa coisa dos “valores ocidentais”. O caso do Luis Amado será porventura o mais significativo, até pelo tempo de antena que lhe vêm concedendo, desde que se prestou à defesa do bloco central. Esse mesmo que ocultou os voos da CIA, que pretende que a Constituição consagre um limite ao défice, que enfim, considera “… a partilha de valores civilizacionais comuns entre os EUA e a Europa continua a ser um princípio fundamental de organização do mundo ocidental na relação com o resto do mundo(2) ; e ainda que Portugal deve ser “…um aliado leal e firme da Aliança(2). Não poderia haver melhor exemplo de cão de fila: acrítico, seguidista e lambe-botas.


A Europa nunca foi, nem nunca provavelmente será, unida. E é por essa razão que os EUA têm conseguido manter uma política de expansionismo declarado. A maior vergonha da última década, foi o aplauso á invasão do Iraque, realizada e produzida por G.W. Bush, contracenada por Aznar, Blair e Durão Barroso e apadrinhada por esta Aliança, que agora se diz de defesa da segurança dos cidadãos. Nunca existiu qualquer tratado do atlântico norte, para essa finalidade. O que existiu foi uma santa aliança contra a União Soviética, um pacto político contra o comunismo. Como tal já não fará sentido na actualidade, há que reinventar um inimigo qualquer. Dos EUA, claro. E que a dita União Europeia, que não existe, vá atrás. Para isso, deverá bastar a NATO. Já está formalizada, implementada, cimentada nas consciências, não será necessário grande esforço para se afirmar. “Quem ataca um, ataca os outros(2), assim o diz Obama; mas esta era a teoria de Bush, não era? E diz mais, “a NATO é a aliança mais bem sucedida da história humana” (2). A esta hora, aquelas e aqueles que acreditaram no “Yes, we can”, estarão porventura a pensar melhor… Para ajudar, acrescento mais ainda, segundo Obama: “… ao avançarmos com a colaboração sobre o sistema de defesa anti-míssil, podemos transformar aquilo que foi fonte de tensão no passado numa fonte de cooperação contra a ameaça comum(2) e finalmente “o nosso trabalho conjunto promove os nossos interesses e protege as liberdades que acarinhamos enquanto democracias”. G.W. Bush diria exactamente o mesmo, se é que não o disse, na altura, da mesma forma.


A NATO conta nas suas fileiras com quase 1 milhão e 400 mil efectivos dos EUA, cerca de 40% do total de efectivos de 28 países. Há 6 países que contam 70% do total: EUA, Turquia, Alemanha, França, Itália e Reino Unido. Uma espécie de donos da guerra. Apesar das evidências de quem manda de facto na NATO, do que é a dita Aliança há algumas posições, no mínimo interessantes, sobre a matéria. Os casos de Nuno Severiano Teixeira (NST) e de Ana Gomes (AG). Ambos partem de uma premissa falsa: a de que está cometida à NATO a gestão de crises e a da manutenção da paz, a nível europeu. AG diz mesmo que “o principal desafio que (a NATO) enfrenta é liderar pelo exemplo para defender os Aliados e contribuir para a segurança global(2). Nada mais enganador, basta ver os “exemplos” das desastradas intervenções nos Balcãs e no Afeganistão. NST interroga-se “E nós, o que queremos da NATO?(2), para depois encontrar uma resposta evasiva: “todos estes pontos do novo conceito são do interesse nacional e Portugal deve aproveitar esta oportunidade para valorizar a sua posição na Aliança(2). Isto quer dizer exactamente o quê? Absolutamente nada, ou então exactamente tudo: seguidismo cego, surdo e mudo.


No meio da confusão, registe-se que 30 mil pessoas se manifestaram contra a NATO em Lisboa. 400 polícias armados e mais de cem carros para “manter a ordem”. Domingo, 20 Novembro, céu muito nublado. Pois!
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(1) Fonte: Fernando Alves, TSF, “A semana passada”, 19 Novembro
(2) Fonte: Jornal Público, 20 Novembro

14 novembro 2010


A ignóbil ameaça
Parte 4: o Bando dos 4


Onde não de fala (como poderia parecer…) da ala radical do regime na Revolução Cultural Chinesa, mas sim do apoio mais que necessário à banca “nacional”




Um bando. Não propriamente de pardais à solta, que esses são ainda os putos da nossa melhor memória. Estes são peixe graúdo. Dão pelos seus nomes, sobejamente conhecidos: Ricardo Salgado, Faria de Oliveira, Santos Ferreira Fernando Ulrich, patrões do BES, CGD, BCP e BPI. Chamemos-lhe o Bando dos 4, designação que de inventada já que não por mim, adopto sem a licença devida, sabendo que a usurpação não constituirá decerto notícia, a tal não aspiro. Este Bando nunca será objecto de qualquer investigação, não há necessidade, são decerto cidadãos acima de qualquer suspeita, a sua credibilidade é infinita, as suas influências e opiniões são apenas para consolidar o interesse nacional, os superiores interesses do País. Um País que nunca seria capaz de sobreviver sem a sua prestação, o seu empenhado esforço em salvar os portugueses, todos os portugueses claro, da terrível ameaça de uma crise, para a qual eles nada contribuíram, antes pelo contrário, que sempre avisaram do que era preciso: mais flexibilidade laboral, menos Estado Social, menos salários, menos despesa pública; sempre avisaram que vivíamos desde há muito acima das nossas possibilidades, menos eles está visto, dado que auferem, todos eles, salários baixíssimos, apesar de serem muito competentes, eficientes, eficazes e providenciais. Longe do pensamento deles exercer pressão alguma sobre os governos e demais acólitos. Absolutamente impolutos, movidos pelos superiores desígnios de justiça social, pretendendo apenas salvar o País da crise

E foi, precisamente nesse sentido, que o Bando atacou, ou seja actuou na altura certa, no momento oportuno, na cena política, junto dos 2 partidos do poder. Nada tendo a ver com a especulação contínua dos mercados financeiros, longe da lamacenta e pantanosa área que nos ameaça, eles foram absolutamente firmes (e provavelmente hirtos…), "Há que ter confiança no futuro", disse Ricardo Salgado. Também Ulrich adiantou, para que todos fiquemos descansados, "A situação do País é séria, mas estamos todos a trabalhar". Supremos homens estes, que pensam e “trabalham” por todos nós, os malandros que por aí pululam, a viver do rendimento mínimo sem quererem aceitar os empregos que lhes oferecem, não sabem o que é vida de um banqueiro, sempre com o fio da navalha sobre as suas cabeças penteadas ou simplesmente rapadas (…), os neurónios em actividade permanente para engendrar as melhores soluções para o País. Uma putativa hipótese de temer dificuldades no crédito, caso o OE não passasse, foi logo afastada por Ricardo Salgado, Apenas especulações, disse ele, com toda a razão. Afinal, os especuladores são sempre os outros, a saber, aqueles que se atrevem a desconfiar da isenta e descomprometida posição de quem mais não faz que seja o Bem. Que deve dizer-se a propósito, se consubstancia em oferecer crédito barato a pessoas e empresas, enviando (por exemplo) simpáticas cartas, eu que o testemunhe, tenho recebido muitas, convidando ao endividamento, perdão, ao acesso a créditos na casa dos 27 a 31%, sempre abaixo dos 32% permitidos pelo Banco de Portugal. Enfim, pessoas de bem, que injectam no BPN 4,6 mil milhões de euros, prestando assim um assinalável benefício a Portugal e a um dos bancos mais sólidos no mercado. Não pensem, não questionem sequer, lembrem-se que dilectas figuras nacionais, como por exemplo Cavaco Silva, o nosso Presidente, têm lá as suas fracas posses, que seria de um Presidente na penúria, deus sabe o que poderia acontecer ao País.

Nos primeiros nove meses do ano, os quatro maiores bancos privados a operar no mercado nacional alcançaram um lucro conjunto de 1,12 mil milhões de euros. O montante representa uma subida de 5%, face aos 1,07 mil milhões de euros arrecadados em igual período do ano passado, o que, na prática, significa que os cofres do BCP, do SANTANDER Totta, do BPI e do BES encaixaram 5,7 milhões por dia”, podia ler-se no Diário Económico de 3 de Novembro. E depois? Não são estes bancos (pelo menos) a sustentar o desenvolvimento económico do País, a apostar no incremento do sector produtivo? Não há exemplos mais que evidentes disso mesmo? Não? Está bem, não há de facto, mas podia haver se porventura estivéssemos mais atentos. Problema nosso, não acreditamos, não temos confiança e por isso estamos como estamos. Depois deste esforço de banqueiros, governantes, partido da oposição, que um só há, o resto é conversa, todos de acordo em aplicar o devido correctivo a quem andou por aí a gastar o que não devia, todos e todas nos centros comerciais, nos supermercados, a passear de borla nas SCUT, a comprar medicamentos comparticipados, a fazer asneiras todos os dias gozando os senhores que mandam em nós, sem respeito nenhum, enfim á espera de um FMI para meter tudo na ordem.

O País muito deve a este Bando. Longa vida a homens (são todos homens…) como estes. É deles o futuro da Nação. Não duvidem. Dou-vos um exemplo que baste: um destes homens, precisamente o Ricardo Salgado, encabeça a lista dos donos dos bancos que vão “colocar a dívida”, “ajudando Portugal a acompanhar a evolução dos mercados financeiros” (Diário Económico, 11 Novembro 2010, pág. 6).

Vergados pela força da razão e sabendo que a razão tem força, não temos mais que prestar-lhes a homenagem devida. Ninguém se lembrou disto, no passado 6 de Novembro, na Manifestação Nacional das 2 Centrais Sindicais. Uma injustiça!

07 novembro 2010

A ignóbil ameaça
Parte3: “Acordo” e Orçamento: para o abismo, um passo em frente, se faz favor

(onde se fala de telemóveis, da casa do Catroga, de personagens providenciais e outras coisas mais….)



Acordamos na passada semana para o “Acordo”. Passamos dias a fio acordados, com a perspectiva de um não-acordo, uma novela contínua de desavenças mal disfarçadas, de avanços e recuos, de declarações de amor e ódio, sempre a bem da nação, na linguagem cifrada do centrão, “a bem de todos os portugueses”, do “interesse nacional”, da "abertura para o compromisso", da “concertação”, do “equilíbrio” e outras baboseiras para enganar a grande maioria dos portugueses. Inquietos que somos, de procurar algum sentido, no meio de tanta confusão, descortinamos algumas cenas patéticas, como a da foto de Eduardo Catroga, a “mais importante da minha vida…”, a frase de Cavaco “Em que situação se encontraria o País sem a acção intensa e ponderada, muitas vezes discreta, que desenvolvi ao longo do meu mandato?”. Nada a amenizar a situação catastrófica anunciada já pelas inefáveis agências de rating, de penalizar o país com juros mais altos, a intolerante pressão dos mercados financeiros a quem está entregue a dívida soberana. A encenação completa, a mais vergonhosa campanha levada a cabo pela comunicação social com sondagens insidiosas, declarações dos mesmos economistas de sempre, dos mesmos comentadores políticos, a reforçar a inevitabilidade: é duro, mas tem que ser, vivemos há muito acima das nossas possibilidades, o país afunda-se cada vez mais. A panaceia: cortar nos salários, reduzir as prestações sociais, redução as despesas no âmbito do Serviço Nacional de Saúde, aumentar (sempre mais) o IVA, …

Suprema e ignóbil ameaça!

Nada sobre alternativas. Nada sobre as propostas apresentadas, por exemplo, pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda. Ninguém fala nisso. Nem sequer se equaciona analisar e discutir propostas concretas que, a serem aplicadas, mudariam a face de um país subjugado pelo capital financeiro, pela ditadura do sector bancário, pela vergonha dos favores e contrapartidas das “parcerias público-privadas”, pelo off-shore da Madeira, pelos ordenados faustosos nas empresas públicas, intervencionadas ou privadas, pelos conselhos de administração repletos de consultores, assessores e outros parasitas. Nada interessa a não ser a inevitabilidade. De PEC em PEC até á derrocada final: um orçamento de miséria para os trabalhadores, da perda de autonomia das famílias da classe média, do agravamento da situação de pobreza extrema de 2 milhões de portugueses.

Mas há alternativas. A começar por medidas concretas como por exemplo: a criação de um imposto sobre transacções financeiras, a tributação extraordinária do património imobiliário de luxo, a tributação agravada sobre a aquisição ou posse de bens de luxo, a tributação das mais-valias bolsistas, incluindo rendimentos das SGPS, a aplicação de uma taxa de IRC de 25% ao sector bancário e grupos económicos com lucros superiores a 50 milhões de euros. Paralelamente, iniciar a recuperação do Estado social, aumentando o salário mínimo nacional para 500 euro, promover o investimento para o emprego, única forma de valorizar o trabalho e assegurar a legítima expectativa de aproximar o nível de vida das populações mais desfavorecidas para a média europeia. Só alguns exemplos concretos, para os quais existe quantificação devida e que, por si só, garantiriam uma quebra no défice, superior á que o governo pretende. E que, diga-se desde já, não vai decerto conseguir.
Como é possível exigir sacrifícios sempre aos mesmos, sem oferecer contrapartida alguma às pessoas, a não ser a degradação progressiva das suas condições de vida? Como é possível “convencer” alguém com a medida de aumento da taxa do IVA em 2 pontos, “esquecendo” que, a partir daí, os aumentos dos bens essenciais, os transportes, os combustíveis, aumentarão em flecha? Como é possível, com estas medidas combater a pobreza e a pobreza extrema? Como é possível cortar salários a quem legitimamente tem as suas expectativas, em termos mínimos de qualidade de vida, a sua prestação da casa, do carro?

A conclusão que se pode legitimamente tirar é a de que, na realidade, os promotores destas medidas não estão minimamente interessados em combater a pobreza, em lutar contra as desigualdades, contra as injustiças. A sua luta é outra: manter os privilégios e, como se isso não bastasse, aumentar o fosso entre ricos e pobres, engrossando os lucros das grandes empresas, dos bancos, dando sempre mais a quem mais tem, orientando a sua política para enriquecer mais e mais os senhores do capital.

Os culpados têm nome. O Partido Socialista sempre na frente, seguindo aliás o (mau) exemplo de praticamente todos os seus congéneres europeus e o seu aliado PSD. O PS manifesta nos momentos decisivos a sua perigosa inclinação para a direita, desde Soares a Sócrates, passando por Guterres e Sampaio. Sempre com o mesmo agastado discurso dos “superiores interesse do País”, do “interesse nacional acima dos interesses do partido”. A linguagem do engano, do desencanto a quem votou à espera da mudança. O “elevado sentido de Estado”, a capitulação aos interesses da banca e do sector financeiro, em linguagem travestida de social e de moderação. Uma suprema traição, este partido do “socialismo na gaveta”, porque ainda temos memória e não esquecemos, nunca esqueceremos, a verdadeira face de quem nos trai. Dos outros (o aliado), nem merece perder muitas palavras: estão em todo o lado, do lado de lá, que é obviamente o dos interesses dos lucros desmedidos, da economia da ganância e do desperdício, dos escândalos do BPN, do BCP, das empresas públicas, dos off-shores, das parcerias, das super-reformas. Protestam, vociferam, fazem birras, muito fumo, para no final se amarem, irmanados, de mãos dadas para o abismo a que condenam o País. Se a coisa porventura falhar, lá estarão, como sempre fazem a culpar-se uns aos outros e fazendo sempre exactamente as mesmas coisas, a mesma política, os mesmos interesses, a mesma crença na providencialidade do mercado e do capital, o supremo bem que os vai aguentando no Poder, lhes vai dando todas as benesses, lhes vai alimentando corpo, alma e carteira de títulos.

Em sua casa, Teixeira & Catroga selaram o acordo para a capitulação. Provavelmente com chá e scones, a foto não mostra. Mas mostra um dos homens de Cavaco, com um percurso impressionante, da CUF à SAPEC, passando pela Quimigal, acumulando (todos eles acumulam…) funções de administrador da Nutrinveste, do Banco Finantia e membro do Conselho Geral e de Supervisão da EDP, para além da dita SAPEC. Privado, empresas públicas e bancos, os donos de Portugal são assim, recebem em sua casa por vezes, aprendizes como o senhor Ministro, que quando cessar as funções terá á sua espera um cargo qualquer, como o senhor que o recebeu.

São os homens providenciais. Deles devemos esperar que salvem o País. Leia-se, que salvem os bancos falidos, os administradores corruptos e os consultores e comentadores pagos para semearem a inevitabilidade. Cavaco é um bom exemplo, podia dizer, após uma longa reflexão, decido candidatar-me para defender o meu dinheiro no BPN e as minhas não-sei-quantas-reformas-douradas. Desculpem, o que eu queria dizer não era bem isto, entusiasmei-me…

Entretanto, a realidade do País, aí está para quem quiser estar acordado. Já a 29 de Julho deste ano, o Diário de Notícias titulava “BCP, BES e BPI ganharam três milhões por dia mas pagaram menos um terço de impostos”, e escrevia depois, “Três milhões de euros por dia. Foi este o lucro líquido registado pelos três maiores bancos privados portugueses no primeiro semestre do ano, num contexto de crise que levou a banca a apertar as condições de acesso ao crédito às empresas e famílias”.

Quem explica isto? Tentarei voltar para tentar.

17 outubro 2010

O post do desassossego
Um post do desassossego
O desassossego de um post





Imagem: http://blog.umfernandopessoa.com/




Tenho em mim todos os sonhos do mundo…”

In “Tabacaria”, Álvaro de Campos


Do livro fez um filme. Do filme nasceu este post. O João dizia que é um filme bonito, que não sabe se será um filme bom, que serão precisos 20 anos para saber isso. Talvez. O que conta é a obra. E essa dá para ver, para pensar, para inquietar. Para desassossegar, como convém, em tempos de calmaria, de recusa ao acto de questionar, porque é mais fácil deixar andar, deixar de pensar. "Benditos os que não confiam a vida a ninguém", dizia o Bernardo Soares. Como o Filme é actual, a asserção é mais actual ainda, um sinal de inconformismo, tens que ser tu o dono do teu próprio destino, tens que ser tu a viver, muito embora “Viver não é preciso, navegar é preciso”. Naveguemos pois como fez o João, pela arte do cinema, pela democracia da luz, no contraste com as sombras. Sombras de um tempo difícil, mas sempre necessário para a descoberta, quanto mais não seja de si próprio. É na sombra que descobrimos a luz que outros nos parecem querer subtrair. Bernardo “encontra” Fernando e entrega-lha o texto. Do desassossego. Da ironia ou da utopia? Ambas e uma só, transportadas para uma actualidade “Irrita-me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são infelizes. Por isto, contudo, amo-os a todos. Meus queridos vegetais!”. João transporta Bernardo á Lisboa actual, do restaurante da lagosta à sopa dos pobres, colocando nas vozes a democracia da palavra, a ironia do gesto, a utopia dos sonhos: “Alguns têm na vida um grande sonho e faltam a esse sonho. Outros não têm na vida nenhum sonho, e faltam a esse também." E depois, "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce". Coragem é a OBRA do João, sublime protótipo do desassossego!

Fica bem Amigo, eu aprendi a lição! "Claro em pensar, e claro no sentir, / e claro no querer".
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Citações e referências:
o “Mensagem”, Fernando Pessoa
o "Livro do desassossego"‎, Fernando Pessoa
o “Tabacaria”, Álvaro de Campos
o “Poesia”, Fernando Pessoa
o "Vidas", Plutarco

05 outubro 2010

VIVA A REPÚBLICA I.R.C!



Uma república sem cidadãos de boa reputação
não pode existir nem ser bem governada;
por outro lado, a reputação dos cidadãos
é motivo de tirania das repúblicas…”
Maquiavel











Quero também celebrar os 100 anos da República em Portugal, de uma forma especial. Que pode ser apenas a minha interpretação. Que espero não seja só a minha interpretação. Que sirva para passar uma palavra de ordem. Estranha que seja á primeira vista, tem uma razão de ser. E não é aquela que pode transparecer da sigla que levará a interrogações legítimas a quem lê. Insubmissão, Radicalismo e Cidadania poderá então ser o lema, para lembrar as mulheres e os homens que a 5 de Outubro de 1910 tiveram a lucidez e a ousadia de derrubar a monarquia e proclamar a República em Portugal. 100 anos é tempo suficiente para pensar pelas linhas tortas. Pensar e agir. Penso agora, imagine-se, nas palavras “sensatas” de Cavaco Silva: “é preciso rigor, bom senso e contenção verbal”. E ainda na unanimidade entre Cavaco e Sócrates, recolhida na comunicação social de hoje: “As comemorações oficiais do Centenário da República ficaram hoje marcadas pela convergência do Presidente da República e do Primeiro-Ministro em torno da necessidade de "coesão nacional", para enfrentar as dificuldades que o país atravessa.” (1) Contraponho:


Insubmissão; o ser crítico, atento e não confortado com a realidade, que é para transformar e não para aceitar como inevitabilidade; o ser livre de espírito e corpo, o querer participar e intervir como agente de transformação; o “ser realista, exigir o impossível(2); quando Sócrates se “revolta” contra a “agitação irresponsável e demagógica”, está a dizer precisamente que nos acomodemos, que sejamos submissos; é contra tal, que somos contra!

Radicalismo; ser radical, defender as suas ideias, mesmo que sejam aparentemente contra o pensamento dominante, único, tão perigoso nos tempos que correm; eram assim os pensadores da República; lutar contra a demagogia “moderna” que tenta confundir radicalismo com fundamentalismo, sabe-se bem porquê.

Cidadania; o ser cidadã(ao) de pleno direito: exigir direitos, sem esquecer os deveres; contra quem quer impor deveres e esquece sistematicamente os direitos; direitos a que temos direito: um salário digno, a igualdade perante a justiça, a inclusão social, a educação e a saúde para todos, uma vida plena de satisfação, numa sociedade igualitária e global.
Para os que pensam que os desmandos da I República contribuíram para o golpe fascista de 28 de Maio, diremos simplesmente a verdade: o golpe não foi feito contra a situação, mas sim contra os ideais e os conceitos. Essa a verdade.

Viva pois a REPÚBLICA I.R.C!
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(1) Jornal Expresso, in: http://aeiou.expresso.pt/cavaco-e-socrates-querem-coesao-nacional=f607440
(2) Pensamento de Herbert Marcuse (Maio 68)

01 outubro 2010

A ignóbil ameaça
Parte2: onde se fala de comoção, submarinos, insónias e FMI


Foi muito comovente ver o PM de Portugal “de coração partido” ao anunciar as Medidas de Consolidação Orçamental para o Orçamento de Estado (OE) 2011. Igualmente confrangedor foi a revelação do ministro Teixeira dos Santos ao afirmar que tinha dormido mal, mas que não era capaz de dormir (…) se não tomasse as ditas medidas. Adensa-se a nuvem negra que sobre este Governo cai, ao ver o seu principal parceiro, “o principal partido da oposição”, um “partido responsável”, insensível á comoção e a insónia. Cairá então em saco roto o pedido patético de Almeida Santos “não se pede ao PSD que concorde e ou que se responsabilize pelas duríssimas medidas que o Governo anunciou, apenas que viabilize o OE”? É uma pena, uma dor de alma tremenda ver tamanha insensibilidade da parte do parceiro privilegiado. Uma injustiça, portanto.

Sabemos bem o quanto o PSD se preocupa com os trabalhadores e as camadas mais desfavorecidas da população portuguesa. E o CDS também, ao glorificar a “lavoura”, ao penalizar os malandros que auferem subsídios para não trabalhar, eles que tanto trabalham para o povo, a começar pelo glorioso líder Paulo Portas que se preocupou em adquirir submarinos, que tanta falta fazem ao povo trabalhador, a ponto de ter endividado o País, em mais de 1.000 milhões de euro, só para proteger a costa portuguesa dos ataques mais que prováveis dos perigosos comunistas que andam por todo o lado a destabilizar e a fazer greves. Eles, todos juntos, aliados, coligados ou simplesmente amigados, que há 34 anos a esta parte determinam o futuro do País, sempre em nome do “interesse nacional”, do “sentimento patriótico”, colocando sempre “o interesse nacional acima do interesse partidário”. E que dizer do seu dilecto presidente, esse homem que foi ao Congresso da Figueira da Foz apenas para fazer a rodagem do carro e, por lá ficou durante dois mandatos e que, com a autoridade de grande economista, apesar de não ser executivo, ainda dita os seus pareceres, na defesa da pátria?

Algumas curiosidades, apenas para lembrar, para recordar, ou simplesmente para acordar consciências, quiçá menos atentas.
1. O custo dos tais submarinos, um valor aproximado de 1,3 mil milhões de euro, equivale à poupança contidas nas “medidas” nos cortes de salários e benefícios sociais, 1.000 milhões de euro. Contudo, àquele valor deveremos acrescentar a despesa operacional estimado neste tipo de navio de guerra em 10% do custo em estaleiro por ano, ou seja, em 20 anos, 1,8 mil milhões de euros, o que daria 3,75 mil milhões, quase sem impostos porque é tudo feito no estrangeiro.
2. Idem para a receita prevista com o aumento de 2 pontos percentuais da taxa normal do IVA, 1.040 milhões de euro. Todavia, este valor poderá ter efeitos recessivos no consumo das famílias e no aumento da evasão fiscal.
3. Com os cortes sociais anunciados, 383 mil crianças e jovens vão ficar sem abono de família. 4. A transferência do fundo de pensões dos trabalhadores da PT para o Estado permite um encaixe imediato na casa dos 1.600 milhões de euros, com a vantagem de assegurar a descida do défice deste ano de 9,3% para 7,3%. Claro que tal não é senão um truque contabilístico usado in extremis por um partido que sempre criticou Manuela Ferreira Leite ou Bagão Félix por causa da "manigância" das receitas extraordinárias. Quem se lembra ainda da titularização da dívida fiscal ao CITIBANK?
5. Em 2009, 9,5% do PIB português foi transferido para o estrangeiro para pagar juros e lucros, a banca financia-se a 1% e cobra uma taxa de juros 6 vezes superior. Segundo o Prof. Jacinto Numes, antigo governador do Banco de Portugal, “a dívida da banca portuguesa ao Banco Central Europeu (BCE) deverá corresponder a 30% do PIB, ou seja, a cerca de 50.000 milhões de euro”. O grande negócio actual da banca a operar em Portugal é o seguinte: financia-se junto do BCE pagando uma taxa de juro de apenas 1%, e depois empresta aos portugueses e ao Estado esse dinheiro cobrando uma taxa de juro muito mais elevada.
6. O digníssimo FMI afinal não concorda com as “medidas”, porque considera que vão no sentido da recessão económica, ao invés do que era (é?) pretendido. Então em ficamos? Não era esta uma das imposições?
7. A redução do défice orçamental traduz-se no seguinte: em cada 10 euro, 7 são pagos por cidadãos e empresas e os outros 3, resultam de poupanças do Estado. No total, a diminuição dos gastos de funcionamento será de 0,6% do PIB - o corte nos salários, do qual resulta uma redução de 5% na massa salarial (cerca de 435 milhões de euros só contando com Administração Central) é a maior fatia.

Para aprofundar a situação das famílias, em termos do que terão que pagar a mais, daqui por diante, temos a notícia de 30 de Setembro, relativa aos aumentos previstos nas taxas Euribor, no valor de 0,16%. E já agora, a nota do IEFP (mesma data) que dá conta do aumento do período que os desempregados levam a encontrar emprego: 13,4 meses, contra 12,5 meses em finais de 2009; a nota do IEFP acrescenta que existem neste momento 90,4 mil pessoas sem emprego há mais de 2 anos. Qual a resposta a estas (e outras mais) situações? Cortes no subsídio de desemprego e redução das prestações sociais, ou seja: atingir precisamente as vítimas da crise.

A ironia será porventura uma das formas que poderemos utilizar para demonstrar (se tal é necessário…) a incoerência militante deste Governo e ainda mais a hipocrisia da direita que temos em Portugal. Uns e outros irão um destes dias acordar mais um orçamento de miséria que penalizará os mais desfavorecidos e que, pelos vistos, nada irá resolver, em termos substantivos.
A ignóbil ameaça, entretanto, continua.
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Fontes:
Portal do Governo: http://www.portugal.gov.pt/pt/GC18/Governo/Ministerios/MF/Documentos/Pages/20100929_MFAP_Doc_OE2011.aspx
Banco de Portugal, “Indicadores de conjuntura”, pág. 6: http://www.bportugal.pt/ptPT/EstudosEconomicos/Publicacoes/IndicadoresConjuntura/Publicacoes/ind_set10_p.pdf
Eugénio Rosa: http://www.eugeniorosa.com/Page/1050/ÚLTIMO-ESTUDO.aspx
Luís Ferreira Lopes, Editor de Economia, SIC
Bruno Faria Lopes, Jornal i
Sandra A. Simões, Semanário Económico

30 setembro 2010

A ignóbil ameaça

As medidas hoje anunciadas pelo Primeiro-Ministro confirmam as previsões dos analistas sobre o já designado PEC 3, ou seja, um terceiro assalto ao bolso dos portugueses mais desfavorecidos, em nome da “consolidação orçamental”, do “interesse nacional”, ou no limite, recordando tempos passados, “a bem da nação”. Convém desde já ler como deve ser, não esquecendo que tudo isto vem sendo devidamente preparado, nos jornais, na rádio e na TV, por comentadores políticos e económicos sobejamente conhecidos pelo seu horror aos trabalhadores. De facto, Medinas, Catrogas, Miras Amarais, Salgueiros, Cadilhes e outros da mesma laia, a quem é dado tempo de antena de forma vergonhosa, foram destilando a pouco e pouco a sua verborreia, induzindo medidas que agora são uma realidade. Esses embaixadores da desgraça, que recebem mais que uma reforma dourada, acabam por convencer a opinião pública da inevitabilidade de uma situação que ajudaram de forma velada a criar. E agora aí está: os cortes nos salários, o aumento escandaloso do IVA, os cortes nos benefícios sociais, tudo devidamente quantificado. Tudo, menos uma tímida medida, designada “imposto sobre os serviços financeiros”, decerto para ficar na sombra, numa névoa suficientemente light, para disfarçar o resto.

A “consolidação orçamental”, não passa de um mito. A obsessão pelo défice vai até ao limite de matar a economia pela raiz, destruir o aparelho produtivo, em nome de uma terciarização sem bases sustentáveis, seguindo as ordens de uma confederação de interesses de uma União Europeia verdadeiramente fracassada, enquanto projecto e vendida ao poder do sector financeiro especulativo, produtor da crise e protegido pelos Estados e pelos Governos centrais. Como interpretar, por exemplo a protecção oferecida à Banca, em Portugal, que pagou ao Estado 5%, em 2009, menos 20% que qualquer empresa? Quem dita o que se deve fazer é a OCDE: “O esforço de consolidação orçamental de que a economia nacional necessita é considerável e, por isso, o Governo português deve estar pronto para aumentar impostos” (27/Setembro 2010).

O “interesse nacional”, uma figura de estilo utilizada pelo Governo, para pedir sacrifícios ao povo, reforça a ideia da inevitabilidade. Mas o que é de facto o interesse nacional? O interesse de um trabalhador que ganha o salário mínimo nacional será o mesmo que o de um gestor da Banca, de uma grande Empresa, de um seleccionador nacional de futebol? Só mesmo um parvo, ou demente mental pode acreditar em semelhante alegoria. Mas é assim que se constrói mais um mito, ao tentar meter no mesmo saco tudo e todos. Por isso, é que esta treta é rigorosamente a mesma coisa que a figura abjecta, utilizada por Salazar: “a bem da Nação”. Um exemplo bem recente veio precisamente do Ministro dos Negócios Estrangeiros que defendia a imposição do limite do défice, na própria Constituição da República…

Por essa Europa, os governos aparentados com a designação “socialista”, são os melhor cumprem a tarefa de aprofundar a diferença abissal entre ricos e pobres. Utilizando uma linguagem “social” e “reformista”, vão levando a cabo uma vergonhosa política de submissão aos interesses do capital, desvalorizando o valor do trabalho, reduzindo a margem de manobra das organizações dos trabalhadores, promovendo de facto a precariedade e, no limite, o desemprego. Tem sido esta a linha do Partido Socialista no nosso País, sempre aliado à direita parlamentar, elegendo sempre os mesmo, como parceiros para aprovação de orçamentos, PECs e outras medidas penalizadoras dos trabalhadores. Aí sim, está a olhos vistos, uma conjugação de interesses, já que, na prática, são invariavelmente os mesmos: vão dividindo entre si os postos-chaves do aparelho de estado, da cúpula das empresas públicas e dos bancos, fontes propícias ao esbanjamento de recursos, espaços de partilha de regalias incomensuráveis e no limite, de escândalos sucessivos, alguns deles com resultados bem conhecidos.

A ameaça é mesmo ignóbil. Aos direitos dos trabalhadores, à sua dignidade pessoal e profissional. A redução progressiva do poder de compra e da estabilidade no emprego, induz o receio e o medo de represálias. O poder reivindicativo dos trabalhadores nestas condições é praticamente nulo. A sua inserção numa sociedade de liberdade e democracia é ferida de morte. Em Portugal, convém não esquecer, há 2 milhões de pessoas, perfeitamente arredadas de direitos, vivendo em condições de pobreza e/ou de pobreza extrema. Aquela que é apresentada agora pelo Governo como uma medida “patriótica e de interesse nacional”, o aumento do IVA para 23%, vai significar o aumento de preço dos bens essenciais, dos transportes, dos medicamentos, enfim de praticamente tudo, penalizando as camadas mais desfavorecidas da população.

A ameaça, para além de ignóbil, é também imoral. Estimula e amplifica as desigualdades. Merece repúdio generalizado. Implica uma resposta rápida e eficiente das organizações dos trabalhadores e outras organizações da sociedade civil. Como hoje já aconteceu em toda a Europa, nomeadamente em Bruxelas, com 100 mil manifestantes vindos de toda a União Europeia.

15 setembro 2010

Goodbye Stranger!

"Like a ship without an anchor
Like a slave without a chain
Just the thought of those sweet ladies
Sends a shiver through my veins
And i will go on shining
Shining like brand new
I´ll never look behind me
My troubles will be few
…”
Goodbye Stranger” Rick Davies e Roger Hodgson (SUPERTRAMP), “Breakfast in America”, 1979






Goodbye stranger it´s been nice / Hope you find your paradise / Tried to see your point of view / Hope your dreams will all come true”. Fica a mensagem redundante que porventura cada um de nós gostaria de deixar a um estranho, um qualquer estrangeiro, quiçá simpática(o), porque no fundo cada um acaba por encontrar (descobrir?) o seu paraíso próprio, segundo o seu ponto de vista. E que temos direito a sonhar; sonhos reais ou idílicos, mas sempre a mesma sensação de que o voltaremos a encontrar um dia, mesmo sem para tal termos traçado qualquer plano. Poderá até dar-se o caso de cruzarmos caminhos nunca dantes percorridos. Como um barco sem âncora, como um escravo sem correntes, está tudo lá, na mensagem. Nostalgia? Talvez, ao revisitar uma banda com 40 anos, no Rosa Mota, nos dê para sentirmos uma juventude perdida e achada no tempo. Que apesar de não voltar para trás, alguém o disse, é ainda o nosso Tempo. Que vivam pois os homens, que parecem frescos como uma alface, que com a sua tremenda ironia e inteligência, brindaram que os quis ver e ouvir. E pular também, porque não?

Foi assim, tal e qual, fica o testemunho e já agora um convite para quem não consegue descobrir as cores da vida, para quem o inesperado causa medo ou estranheza: “Take a dream on a Sunday / Take a life, take a holiday / Take a lie, take a dreamer”. Se com isso ficar feliz, bom sinal. É porque ainda está acordado, ainda é capaz de descobrir coisas interessantes. Até será porventura capaz de tentar transformar qualquer coisa. Por mais pequena que seja. Por mais insignificante que possa parecer. A tal vida que passa por nós a correr, porque simplesmente achamos que não temos tempo. Não, ainda vamos a tempo….





11 agosto 2010

Mais um ciclo de crise do Sistema (3)


























O excelente artigo de António Vilarigues (AV) no Jornal PÚBLICO do passado dia 6 de Agosto, com o título “A culpa é do «Sistema» ”, na asserção futebolística, termina com nota em que o Autor faz referência à base de licitação do BPN, proposta pela CGD, no valor de 180 milhões de euros; curiosamente, AV invoca “a educação e o decoro”, como impedimento de escrever o que pensa sobre a matéria em apreço, deixando “à imaginação do leitor”, o resto… Claro que diz ainda, como é do conhecimento público, mas que vale sempre a pena lembrar, que o banco público injectou no BPN, 4 mil e quinhentos milhões de euros para sanear as contas, valor que é exactamente 25 vezes superior ao da base de licitação referida. Não custa muito utilizar o termo “escândalo”, para classificar o que AV decerto considera esta “golpada”, atrevendo-me a adivinhar, e já que não tenho quaisquer problemas de educação e o decoro, embora compreenda perfeitamente o Autor. A “golpada” é no fundo mais um roubo aos contribuintes e mais uma prova da falta de credibilidade de um poder subjugado à Banca, sempre negado pelos responsáveis, mas que a prática confirma em todas, repito, todas as situações. Este apenas um dos indicadores da falência do «Sistema» e da crise que arrasta irremediavelmente aquelas e aqueles que vivem do produto do seu trabalho e que curiosamente são as e os que pagam sempre, desmandos como este.

Compartilho com AV a tese que considera como a principal prioridade da organização económica, a satisfação das necessidades humanas e do trabalho social de uma sociedade. Mais, a criação de condições objectivas para a transformação da sociedade, só é possível através da valorização do trabalho. AV afirma então que é necessário “colocar como objectivo das relações sociais de produção, da actividade económica, não o lucro, mas a satisfação das necessidades humanas”. E ainda que “… o aumento dos salários e das pensões é uma condição essencial para o desenvolvimento económico e social. O aumento do poder de compra das pessoas e da satisfação das suas necessidades, fomenta a procura interna e consequentemente a actividade económica. Gera novos empregos e contribui de forma efectiva para a sustentação da segurança social. Mas também é uma condição para afirmação e fruição de direitos políticos, sociais e culturais.”

Os números que apresenta são redundantes: “A humanidade iniciou o século XXI com as 280 (!!!) maiores fortunas do planeta a deterem mais riqueza do que 2 mil milhões de pessoas (30% da população do globo…). Dez anos depois a situação alterou-se para pior”. Atenta ainda que “No final de 2010 o número de desempregados, só nos países do chamado G7, pode ultrapassar os 36 milhões (o dobro de 2007). E a nível mundial a OIT prevê que sejam 240 milhões. O produto mundial contrai-se pela primeira fez desde a segunda guerra mundial. Em 2009 a redução em 12% do comércio mundial foi a maior dos últimos 80 anos(1). Considerando que existe um capital de conhecimento mais que suficiente para erradicar a pobreza e a miséria, consubstanciado aliás, na Declaração do Milénio das Nações Unidas, aprovado na cimeira do Milénio, realizada em Setembro de 2000, em Nova Iorque, onde se reconhece a necessidade da “cooperação internacional para resolver os problemas internacionais de carácter económico, social, cultural ou humanitário”. Particularmente no que concerne à erradicação da pobreza, diz-se “Não pouparemos esforços para libertar os nossos semelhantes, homens, mulheres e crianças, das condições abjectas e desumanas da pobreza extrema, à qual estão submetidos actualmente mais de 1000 milhões de seres humanos. Estamos empenhados em fazer do direito ao desenvolvimento uma realidade para todos e em libertar toda a humanidade da carência(2).

Em completa contradição com princípios e declarações, constata AV “Os activos detidos pelas CINQUENTA maiores empresas multinacionais não financeiras representavam em 2008 14% do produto mundial e era equivalente aos activos detidos pelas CINCO maiores empresas multinacionais financeiras”. No nosso País, segundo AV “Em 1975 a parte que as remunerações, sem incluir as contribuições sociais, representavam do PIB (Produto Interno Bruto) era de 59%. Depois assistiu-se a uma diminuição sistemática, alcançando com o governo de Sócrates, em 2009, menos de 34%! O país tornou-se mais desenvolvido com esta brutal inversão na distribuição da riqueza? É óbvio que não. Mas, em paralelo, os grandes grupos económicos e financeiros entre 2004 e 2009 tiveram 32,8 mil milhões de euros de lucros líquidos. E as fortunas das QUATRO famílias portuguesas mais ricas totalizam 7,4 milhares de milhões de euros (quase metade do défice!!!). E um gestor executivo de uma empresa do PSI 20 ganha, em média, mais de 50 mil euros brutos mensais (1 666 euros por dia). Há quem, com mais sorte, chegue aos 8 500 euros/dia”.

O Autor conclui, afirmando que “A prática de quase 200 anos demonstra que tal (a satisfação das necessidades humanas) não será possível sem que a questão da propriedade e da apropriação privada das condições de produção seja posta em causa. Ou seja, pôr em causa a relação social (de exploração) que o capital corporiza. Qualquer outro caminho será sempre uma «fuga para frente». Conjunturalmente até poderá apresentar uma «saída», mas que não resolverá os limites e as contradições internas do sistema.”

Para quem ainda “acredita” nas virtualidades de um sistema (agora sem comas) corrupto, injusto e não-inclusivo, convém estar atento, por exemplo, às sucessivas declarações e tomadas de decisão dessa figura aterradora que é o Banco Central Europeu e da personagem ridícula que é o seu presidente. Agora sim, recorro mais uma vez, com a devida vénia, a AV: “a educação e o decoro impedem-me de escrever o que penso”…

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(1) In: alínea 4 do ponto I- Valores e Princípios da “Declaração do Milénio das Nações Unidas
(2) In: alínea 11 do ponto III – O Desenvolvimento e a Erradicação da Pobreza da “Declaração do Milénio das Nações Unidas
(3) Um agradecimento especial a António Vilarigues (Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação). Artigo completo, disponível em: http://ocastendo.blogs.sapo.pt/978210.html

08 agosto 2010

Intimissi to me?


Um homem sonha acordado
Sonhando, a vida percorre
E deste sonho acordado
Só acorda quando morre


António Aleixo



Como tudo que acaba / como pedra rolando numa fraga / como fumo subindo no ar / assim estou quase indiferente / caminhando sem mais notar a gente / que por mim vejo passar(1), oh, oh, é pois o Verão da canção, rima e é quase verdade, as coisas acontecem sem que a gente faça nada, quase nada, por isso, os corpos e o resto ao sol para, dizem, recarregar as baterias, qual aparelho eléctrico ou electrónico, com o qual nos comparam, vá lá saber-se porquê. Na mui digna Vila Real de Santo António, fomos parar, não para pensar, como também se usa dizer, mas simplesmente para curtir uns singelos dias de merecidas férias, privilégio de alguns, nos tempos difíceis que nos cabem em sorte. No extremo sudeste do País, zona raiana, cidade do Marquês de Pombal, conquilhas e bolas de Berlim, licores e amarguinhas que haveríamos de usar apenas para servir de apoio a conversas da treta pela noite fora, algumas compras, ao que parece mais baratas, jantares em deliciosas esplanadas, outros em casa, porque isto de jantar fora custa dinheiro (…), ele que está cara à brava, muito embora os portugueses estejam ora mais satisfeitos que nunca, já se escreveu sobre o tema, valha-me deus, que alguns ainda acreditam nisso, mas enfim, férias. Há ainda que dizer que, nesta terra, como em muitas outras aliás, manda o meu Benfica, é uma delícia para o ego, refiro-me ao meu, fomos ver o torneio, golos a rodos, até quem não é, passa a ser, devaneio que arrogo, ora os do Sporting que têm por lá uma pequena barraca, onde imagine-se se pratica uma coisa nunca vista que dá pelo nome de “futebolim”, os “nossos” têm uma Casa com gabarito. Mas há mais, que esta cidade traz á memória a minha querida Lisboa, capital que foi do império, capital que é do nosso Portugal, onde todos, que dizer a grande maioria, trabalha dia a dia por dias melhores. Melhor ainda, a memória do grande poeta Aleixo, com um Centro Cultural instituído à memória do Poeta, ostentando numa das praças centrais um monumento onde se pode ler o poema de apoio desta crónica de silly season, que serve, entre outras utilidades mais ou menos parvas como a época, para evocar outras mais ou menos sérias, se tal for o caso, fica ao arbítrio livre de cada um, pois livre é o pensamento e o sonho, sendo que este “É uma constante da vida / tão concreta e definida /como outra coisa qualquer”, que o Freire diz na sua filosofia da Pedra.

As pedras da calçada. Como as palavras se soltam, tal como elas, vem ainda á liça, muito a propósito o “absolutismo esclarecido”, que do Marquês aqui fazem testemunho, mas que, no espírito iluminista revitalizado pelos governantes, ditos socialistas, bem assentaria porventura ao chefe (deles), nesta fase do campeonato, apesar de o dito só começar para a semana que vem…

Ficam para memória dos dias, que a têm sem qualquer dúvida, o sol, sempre o sol, o Caminho dos Paus, o senhor Lidl, as arenguisses gitanas, as suas cantorias de vão de escada, os sempre atentos e atarefados mosquitos, as caminhadas para a bica em Monte Gordo, as alforrecas, os esbeltos corpos das raparigas que sempre apreciamos, a areia que se vai entranhando como que fazendo parte de nós, os jogos da bola na dita, a imaginação ao poder pois claro que, num arrebato retórico nos transportam ao Táxi Driver onde, ao que consta, Scorsese terá dito a De Niro para improvisar e dizer o que quisesse, na célebre frase do espelho, ora transformada no título mais parvo escolhido, diria melhor recolhido, ao mirar uma loja de roupa interior: “Intimissi to me?”


…………

(1)Citada de: “O verão”, por Carlos Mendes, Pedro Osório e José Alberto Diogo, 1968

04 julho 2010

Ao meu Amigo ZeTó
























Uma cidade de azul pintada
, aqui e além “um céu de palavras paradas”, esperando sorrisos, mãos que se apertam, outras que se desencontram, um misto de cheiros, cores e poemas. E quadros que alguém sempre vai pintando, avisando a nossa memória colectiva, baralhando sons que se misturam, que nos alertam para a vida que vale a pena. O artista, “Cavaleiro”de “Montanhas”, sempre “O Pensador” da cidade das “praças de palavras abertas”, atento a todos os desvios, “à procura da sombra de uma luz que não há” . Porque se desprende dos ambientes do fausto, volta às origens “...já o meu pai pintava”, conhece novas realidades que transmite á sua obra, um “Encontro” com as suaves presenças de uma Angola recente que marca as pessoas, porque as pessoas marcam mesmo quando são distantes, a distância que importa? Ao "Ego declara Morte", alguma coisa tem que se apagar, renascendo porém a cada momento na dialéctica permanente da cidade, passa as palavras para a tela, reinventa poemas em aguarela e acrílico, “… não há céu de palavras que a cidade não cubra”.

A cidade Vive, pensa e luta, espera palavras novas em tempos difíceis, os “Nascentes” , as novas esperanças de “Campos de Flores”, de brilhos intensos, de sensações profundas, de cumplicidades óbvias. Sempre buscando o “Encontro”?

Colaboração:
• palavras do Zeca Afonso
• palavras e títulos das obras do ZéTó Passos, em Exposição no Museu Bernardino Machado, V. N. de Famalicão


02 julho 2010























Há cerca de 2 semanas, o País conheceu os resultados de uma sondagem efectuada por organizações governamentais e não-governamentais (1), em que sobressai um inquérito sobre a “satisfação dos portugueses”. Curiosamente (ou não) ficou a saber-se que, apesar de todos os constrangimentos, apesar da crise inventada pelo sector financeiro, apesar dos PECs e outras medidas que Governo e acólitos “montaram” para satisfazer os ditames dos alemães que “governam” (desgovernam) a dita União Europeia, os portugueses estão “satisfeitos”. Ainda que moderadamente. Aliás, este termo é mais que isso, é um conceito inculcado desde várias décadas, cuidadosamente modelado, trabalhado e difundido, servindo até para caracterizar um povo “habituado” a que lhe malhem em cima: moderação, brandos costumes, o povo é sereno. Os Governos, desde 1975, sempre da mesma cor política, oscilando entre o rosa-pardo e o laranja-desbotado, misturados, aliados ou em (falsa) alternativa, lavram de forma exemplar o conceito, traduzido no centrão politicamente correcto: sentido de estado, sentido de responsabilidade, equilíbrio, reformas moderadas, …, um caldo de cultura de adequação e resignação. Os resultados aparentemente não interessam, quer dizer não contam, não são mensuráveis. A interpretação da realidade é tão falaciosa como no futebol. Queirós é um lídimo exemplo, porém apenas um vulto na paisagem do centrão, a imagem do FALHANÇO; satisfeito, porque em 4 jogos a selecção só sofreu 1 golo (com Espanha) e marcou 7. É verdade, é uma interpretação da realidade; se lhe dizem que em 4 jogos só ganhou 1, outra interpretação da realidade, ele não aceita, porque está vinculado à primeira, à dele. Não joga para ganhar, nunca irá ganhar coisa nenhuma, porque interpreta os factos com base “no tal” conceito. Não arrisca, não joga ao ataque, só vê estrelas Ronaldo, de outro firmamento que não o nosso, não vê Fábios, Eduardos, Raules, que jogam (eles sim) para ganhar; será por acaso que Ronaldo é a imagem de um Banco muito conhecido, que tem um “feeling”, o verdadeiro, que o seu dinheiro vale não-sei-quantos-mais-por-cento?
O mesmo FALHANÇO de um Governo á deriva, ou se quiserem, derivando sempre para o mesmo lado, o da direita pois, que quer ainda mais e mais capitulações. Tal como Queirós, não joga para ganhar, aposta em 3, 4 ou mesmo 5 centrais, o centrão de novo. Não sabe (não quer) interpretar a realidade que mostra um País nos primeiros lugares das listas da pobreza extrema, dos baixos salários, dos combustíveis mais caros, dos IVAs mais altos …E nos últimos lugares da qualificação profissional, da distribuição da riqueza, da injustiça fiscal, da injustiça na justiça, …Da mesma forma que Queirós, vê como positivo, no que reporta a baixar o défice, ir ao bolso dos portugueses para “arranjar” 3 mil milhões de euro para “salvar o País”: é uma interpretação da realidade. Contudo não vê (não quer ver) que foram gastos 5 mil milhões de euro para tapar o buraco do BCP, BPN, BPP, salvando assim o País. Aliás, parece também não ver (não querer ver) que, só no 1º trimestre de 2010, os bancos apresentaram 3 mil milhões de euro de lucros diários, pagando ao Estado metade do que uma empresa “normal” paga.

Talvez a putativa “satisfação dos portugueses” seja algo positivo porque lhes permite viver a crise dos ricos com um sorriso, ao invés de contrair uma qualquer depressão, que os arrastaria para o buraco negro da psique, dispensando desta forma anti-depressivos e ansiolíticos que nunca poderiam comprar, dado que teriam de ser prescritos por um especialista a quem nunca poderiam pagar. Esta é uma interpretação possível do citado estudo. Contudo, uma outra (interpretação) dita que, tal estado de espírito pode significar uma relativa “impotência” para agir, para se indignar, enfim para se revoltar...

No dia em que aumentam os transportes, a alimentação, os medicamentos, o IVA e o IRS e, consequentemente o custo de vida e a diminuição do poder de compra, será que os mesmos portugueses ainda estão “satisfeitos”? Havia talvez que repetir o inquérito, possivelmente com um exercício prévio: um mês em que fosse possível calar as vuvuzelas da propaganda oficial, repetida vezes sem conta por uma comunicação social a mando dos ricos e poderosos; um mês, uns singelos 30 dias, sem a repetição exaustiva dos comentaristas de serviço que dizem invariavelmente o mesmo (por vezes disfarçados com uma linguagem muito português suave…) , dando voz aos que nunca governaram, aos que nunca decidem nada, aos que nunca tiveram voz; uma outra interpretação da realidade. Apenas e só um devaneio, um sonho, tal nunca seria possível; pelo menos de forma pacífica…

Algo porém anda há muito tempo escondido, um sentimento de revolta contra a inevitabilidade, que só mesmo a luta poderá quiçá reinventar. Senão estaremos sempre condicionados por uma única interpretação da realidade. Este Governo e outros do género centrão coloridos, serão sempre como Queirós: nunca vão ganhar nada, porque as pequenas “vitórias” que possam alcançar, são iguais ao zero-a-zero de Queirós, vitórias de Pirro, cujo fulgor se apaga no empate ou na derrota seguinte, que ditam forçosamente a eliminação, que aqui tem o significado malévolo de eliminar (leia-se excluir) de facto mais algumas e mais alguns. Ganhar significa correr riscos, Queirós não sabe (não quer) correr riscos, não faz as substituições adequadas, na altura certa, para dar uma cara nova à equipa. O Governo não quer correr riscos, não taxa a Banca como se impõe, não quer combater a especulação, nem a fuga de capitais para as off-shores; não quer valorizar o trabalho, condição indispensável para o desenvolvimento económico; não quer ver a realidade que prova que o dinheiro dos salários dos trabalhadores dinamiza o mercado interno. Queirós empata os jogos, o Governo empata os portugueses com um discurso da moderação e da consequente resignação. Queirós, ao querer empatar, perde tudo. O Governo, ao querer empatar os portugueses, vai perder o (muito) pouco que conseguiu. Queirós não se demite, porque acha que não perdeu. Sócrates também não se demite, porque considera que ainda pode ganhar alguma coisa (…).
Ambos estão enganados. Uma outra interpretação da realidade irá acabar por demonstrar isso mesmo. A pretensa “satisfação” dos portugueses poderá transformar-se a todo momento em indignação generalizada e na revolta de consciências mais que necessária à transformação social.

Hoje foi dia para reflectir. Nada melhor que sentir na pele o aumento do custo de vida, para acordar da letargia e passar ao ataque. Nem que para tal seja necessário recorrer à falta, ao tal cartão amarelo cirúrgico para impedir o avanço ao golo. E mesmo que a acumulação de amarelos impeça de jogar 1 ou 2 partidas, vale a pena arriscar. Porque a melhor defesa é sempre o ataque!

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(1) “Necessidades em Portugal: Tradição e tendências emergentes”, por TESE, Instituto de Segurança Social, Centro de Estudos Territoriais (CET/ISCTE), Fundação Calouste Gulbenkian e Young Foundation

21 junho 2010

Até sempre Camarada!

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada


“Palavras Eternas”, Sophia de Mello Breyner Andresen



Fizeste da palavra uma mensagem, uma arma virada para o futuro. Fomos por ti “Levantados do Chão”, contra a opressão latifundiária, contra as forças da ordem, da lei e da hierarquia da igreja; disseste na altura “um escritor é um homem como os outros: sonha”. Como o sonho comanda a vida, imaginamos Belimunda Sete-Luas perscrutando no escuro o que outros não conseguem ver e Baltasar Sete-Sóis para quem a luz é fonte de visão, à sombra de um convento de que fizeste um Memorial. Foste “Todos os Nomes” e um só, numa conjugação perfeita, lembrando-nos o Livro das Evidências, “Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens”. Afrontaste sem medos todos os poderes, foste crucificado pelos mesmo que crucificaram o outro, inverteste papéis, baralhaste os espíritos que das certezas se orgulham, conseguiste pôr um Caim a discutir com um deus tirano, arrogante, convencido e quiçá mal-formado, mostrando-nos a verdadeira face da hipocrisia de todos os poderosos. Pintaste um retrato único da cidade de Lisboa, numa das mais belas homenagens a Pessoa, no “Ano da Morte de Ricardo Reis”. Passeaste a tua classe pelo mundo inteiro, em 1998 com o Nobel da Literatura, prémio da alegria de escrever sobre o povo e sobre os direitos humanos.

E agora José? Por que nos deixas a pensar “No dia seguinte ninguém morreu "? O que retemos da tua sabedoria sobre a tal única inevitabilidade:” Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras…". Morremos um pouco contigo, uma mágoa imensa nos atravessa o corpo e a alma, de cansados que estamos de tanta injustiça, de tanta miséria. Mas, por outro lado, temos sempre a tua mensagem: “as pessoas não escolhem os sonhos que têm, São, pois, os sonhos que escolhem as pessoas, Nunca o ouvi dizer a ninguém, mas assim deve ser…” (1).
Como a tristeza nos invade, só um caminho nos resta; ensinaste um dia “As palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa(2). Queremos decididamente a outra margem, de uma certa maneira, que sempre andamos á margem…


É uma estupidez deixar perder o presente só pelo medo de não vir a ganhar o futuro.”(3)
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(1) In: “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, p. 143, José Saramago, Lisboa 1991
(2) In: “A Caverna”p. 77, José Saramago, Lisboa 2000
(3) In: “A Caverna”p. 251, José Saramago, Lisboa 2000

10 junho 2010

Como eu estive no 10 de Junho ...



Já chegou o dez de Junho, o dia da minha raça
tocam cornetas na rua, brilham medalhas na praça
Rolam já as merendas, na toalha da parada
Para depois das comendas, e Ordens de Torre e Espada
Na tribuna do galarim, entre veludo e cetim
toca a banda da marinha, e o povo canta a valsinha
Encosta o teu peito ao meu
sente a comoção e chora
Ergue um olhar para o céu
que a gente não se vai embora
Quem és tu donde vens, conta-nos lá os teus feitos
que eu nunca vi pátria assim, pequena e com tantos peitos


“A valsinha das Medalhas”, Rui Veloso e Carlos Tê, 1986


Assisti extasiado à tua condecoração neste Dia de Portugal e das Comunidades. Estavas linda, no teu traje branco, contrastando com o cinzento dos fatos cinzentos e gravatas multicores dos homens que dominam estas cerimónias cerimoniais. Fiquei muito contente por saber que o Governo ou seja lá que foi, fez um corte de 30 por cento nos preliminares, quero dizer, nos preparativos. Vi com estes olhos que a terra não vai comer (quero ser incinerado, lembras-te?) Na linda cidade de Faro, uns 3 mil militares, lindos nas suas farpelas, quero dizer, fardas das Forças Armadas Portuguesas. Siderado que estava com a Parada de Honra, com cerca de 1500 militares, entre eles do Colégio Militar, dos Pupilos do Exército, do Instituto de Odivelas, Cadetes da Escola Naval, da Academia da Força Aérea, da Escola de Sargentos, do Batalhão de Fuzileiros, do Corpo de Artilharia da Brigada Mecanizada Independente e ainda da Brigada de Intervenção Rápida, nem reparei na vetusta figura do Presidente Américo Tomás, perdão, Cavaco Silva que te iria colocar a medalha ao peito. Fiquei literalmente verde, com o relvado preparado em frente ao Teatro das Figuras, especialmente para o efeito. Dancei ao vento com os acordes da Banda da Armada e maravilhado com tanta pompa, desviei-me do percurso, para te ler de longe com os binóculos que comprei, especialmente para a cerimónia.

De repente um pára-quedista aterra em cima de mim, vez de aterrar em frente à tribuna. Acordo sobressaltado. Que sonho bonito!
Com papas e bolos se enganam os tolos…
Parte III – as Vacas Sagradas




Ainda que os juízes mais sagazes,
e as próprias feiticeiras,
estivessem convencidas do carácter culpável
das práticas de feitiçaria,
contudo a culpabilidade das feiticeiras não existia.
Assim acontece com toda a culpabilidade


Friedrich Nietzsche



Na Índia, a população é maioritariamente Hindu. Esta religião venera a vaca como sendo um animal sagrado. Na Índia, as vacas passeiam tranquilamente pelas cidades e vilas sem que sejam minimamente molestadas pelos habitantes, incluindo quando as manadas invadem as praças, onde comem os legumes dos produtores, sem que estes mostrem qualquer hostilidade para com o gado bovino. Devido a estas situações, algumas vacas desenvolveram um gosto especial por frutas. Algumas pessoas, de todas as castas, incluindo as mais altas, deixaram para trás as suas profissões para se dedicarem exclusivamente ao bem-estar das vacas mais fragilizadas e/ou mais velhas, criando vacarias que são sustentadas por eles próprios e por outras pessoas que lhes vão dando donativos. Entre estas pessoas, podemos encontrar políticos, médicos e toda uma série de profissões que neste país são muito importantes.” (1)

No resto do Mundo e também na Índia (porque não?) existe um universo paralelo, onde a população é maioritariamente pobre e pratica uma espécie esquisita de religião que venera um esquisito espécime, que dá pelo nome de Banca. Isso mesmo, tal como na história (verdadeira), os donos da Banca passeiam tranquilamente pelas cidades e vilas sem que sejam minimamente molestados pelos habitantes, incluindo quando as manadas invadem as praças, onde comem os produtos dos produtores, sem que estes mostrem aparentemente qualquer hostilidade para com eles. E ainda, tal como na história (verdadeira), alguns governos, de quase todas as matizes, incluindo as mais altas, deixaram para trás as suas profissões para se dedicarem exclusivamente ao bem-estar das vacas mais fragilizadas e/ou mais velhas, leia-se os bancos falidos, criando sofisticadas agências próprias, que são sustentadas por eles próprios e por outras pessoas que lhes vão dando donativos.

Como se pode ver, nada mais que a realidade pura e dura dos dias que vamos vivendo, perante a complacência daquelas e daqueles que nos tentam “vender” a ideia da inevitabilidade da coisa. E é vê-los aqui e mais além, a inventarem medidas para “reduzir o défice”, para “salvar a nação”, para “unir esforços contra a crise” e outras balelas do género, enquanto sugam os recursos dos que menos têm, mas que, à força de tanto ouvirem, lerem e verem a propaganda dos regimes, acabam por acreditar que de facto, não há outra solução: alimentar as vacas sagradas, tornando-as cada vez mais gordas e anafadas. E para arredondar, encontramos na realidade real, políticos, médicos e toda uma série de profissões que neste universo surreal, são muito importantes...

No País em que tentamos sobreviver, a Banca lucra neste momento, 5 milhões de euro por dia! A taxação de IRC à Banca em Portugal é de 15,6%, enquanto as restantes empresas pagam efectivamente 25%. Estudos recentemente efectuados levam a concluir que se a Banca pagasse o mesmo que as empresas, as receitas seriam mais do dobro do que o país precisa para o reajustamento orçamental. Um singelo exemplo: “Trading faz subir resultados do BES para os 119 milhões de euro, o que corresponde a um aumento de 17,6% nos lucros(2).

No mesmo País, que dizem à beira mar plantado, esbanjam-se actualmente 7.856 milhões de euro com o offshore da Madeira. Segundo dados do Diário da República nº 28 - 1ª Série, de 10 de Fevereiro 2010 (Folha 372) (3), a despesa orçamentada para a Assembleia da Republica é, em 2010, de 191.405.356,61 (191 milhões, 405 mil, 356 euro e 61 cêntimos), incluindo rubricas diversas: vencimentos, transportes, deslocações e estadas de deputados, assistência técnica (??), outros trabalhos especializados (??),restaurante, refeitório e cafetaria, equipamento de informática, outros investimentos (??), edifícios, transfer's (??) e diversos (??), subvenções aos grupos parlamentares e a campanhas eleitorais. Os PEC 1 e 2, representam na sua essência a protecção das “vacas sagradas” e a subserviência do Governo de Portugal (e outros mais Governos) às mesmas “vacas” de sempre. Eles (Governos) são cúmplices conscientes da Grande Vaca Angela Merkl, mentora-mor da política económica, a nível do espaço europeu.

Num arrojado discurso no Parlamento Europeu, a propósito da situação na Grécia, Daniel Cohn-Bendit disse de forma clara, simples e transparente. "Vocês estão completamente loucos", ou "...como é possível um País com 11 milhões de habitantes ter um exercito de 100 mil soldados, enquanto a Alemanha tem 200 mil?", ou ainda "... estamos a ajudar a Grécia a comprar as nossas próprias armas".. É esta a solidariedade europeia, é este (pelos vistos) o Programa Social Europeu de que tanto se gabam os responsáveis pela União e uma subserviente Comissão Europeia, perante a prática política do directório franco-alemão.

Numa célebre tese, escrita entre Dezembro de 1851 e Março de 1852, conhecida como “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, Karl Marx escreveu: “Hegel observa em uma de suas obras que todos os factos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Palavras para quê?

Tragédia e farsa misturadas a rigor neste século XXI, na deriva neoliberal, com os resultados que se conhecem: aqueles que nada fizerem para crise das “vacas sagradas”, a pagar às ditas sempre mais e mais. Quem se lembra ainda da “coesão social”, dos compromissos assumidos pelas Nações Unidas no ano 2000, do “modelo social europeu” , do próprio “Tratado de Lisboa”?

Vacas sérias e honestas de todo Mundo, Uni-vos!

(Fim)

(1) In: http://bicharada.net/animais/topicos.php?bid=33
(2) In: “Diário Económico, 12 Maio 2010, pág. 28
(3) In: http://www.dre.pt

20 maio 2010

Com papas e bolos se enganam os tolos…
Parte II – os Predadores

No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas pela noite calada
Vêm em bandos com pés veludo
Chupar o sangue fresco da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, Eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas, bebem vinho novo
Dançam a ronda No pinhal do rei
Eles comem tudo e não deixam nada

Zeca Afonso, “Os Vampiros “- Extracto, 1963

Fonte: resistir.info/financas/imagens/fmi.jpg

Na selva animal, os predadores estão bem identificados. São os que procuram activamente as suas presas, que perseguem e capturam. Depois disso, ou as matam simplesmente ou se aproveitam delas continuamente para as sugar até ao tutano, até nada mais restar. Continuo a falar do reino animal propriamente dito, onde abundam espécies como o tubarão, a hiena ou o abutre. Os predadores nem sempre têm sucesso nas suas caçadas, pelo que tentam caçar o alvo mais fácil. Na maior parte das vezes, os predadores optam por escolher os animais velhos, doentes e mais fracos para a sua "refeição", deixando os mais fortes e robustos para se reproduzirem. Os predadores são normalmente animais de grandes dimensões, embora a aranha (por exemplo) sem ter propriamente essa característica, seja considerada também um predador. A hiena é um caso muito particular; para além de ter fama de rir, aproveita o trabalho de caça dos leões (abater a presa) e depois, em bando, consegue afugentá-los, impedindo simplesmente que eles se alimentem da caça que fizeram. Na Biologia, essa relação é caracterizada como “esclavagismo interespecífico”, a saber, um tipo de relação ecológica entre seres vivos onde um deles se aproveita do trabalho ou de produtos produzidos pelo outro de espécie diferente.

Quanto daqui poderemos reter para identificar, na selva liberal em que vivemos? Alguns ensinamentos, numa espécie de Biologia Social, desenhada com contornos cinzentos, mas onde contudo podemos encontrar os tubarões, os abutres, os predadores sociais. Como num baile de máscaras, ei-los a vestir a pele, prontos a alimentarem-se da riqueza por outros produzida, a repartirem entre si os lucros desmesurados, na ganância financeira e especulativa. Uma tenebrosa teia (a aranha…) de interesses, que manipulam governos e Estados. Que lhes importa a pobreza, a subnutrição de milhões de crianças, o desespero das mães, das famílias? Tal como a hiena, aparecem fulgurantes, com o seu riso sarcástico e o seu discurso fluentemente impiedoso, sugando o produto do trabalho dos outros. Ao contrário da selva animal, a lei (da outra selva) não os atinge. Falam. E falam do “interesse nacional”, da “conjugação de esforços”, da “repartição de sacrifícios, a bem da nação”. Como se os interesses deles fossem iguais aos nossos, como se fosse comparável o “sacrifícios”, palavra santa, invocada em vão (pecado!) para mascarar as deambulações de um mercado errante e desajustado em termos de equilíbrio social.
Esclavagismo interespecífico. Um conceito a reter.

A Associação Repórteres sem Fronteiras publicou, no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, a lista de "40 predadores", identificando líderes políticos, religiosos e organizações terroristas que, sistematicamente apontam como alvo o trabalho dos jornalistas. "Poderosos, perigosos, violentos, eles estão acima da lei”. São 17 chefes de Estado e muitos chefes de Governo, juntamente com algumas forças armadas regulares e organizações mafiosas ou terroristas que são identificados na lista deste ano dos "predadores" da imprensa. Voltando à Biologia, existe a designada “pressão selectiva imposta a um outro e que conduz a uma corrida armamentista entre predador e presa”. Fantástica asserção esta, que nos transporta para a “nossa selva”, onde rápida e facilmente identificamos as similitudes apropriadas. Os predadores costumam procurar vítimas vulneráveis, seduzindo gradualmente os seus alvos com discursos por vezes (a maior parte das vezes) insinuantes, habilidosos enfim, populistas. Não fora assim, não teriam votos, comprados pela desfaçatez e pela mentira.

Em Dezembro de 2008, quando recebeu o Nobel, Harold Pinter, falou da protecção aos predadores, por parte de certos e determinados políticos: “… A linguagem política, tal como é usada pelos políticos, não se aventura por nenhum destes territórios, dado que, na generalidade, os políticos, naquilo que deles podemos ver com clareza, estão interessados não na verdade, mas no poder e na manutenção desse poder. Para manter esse poder, é fundamental que as pessoas continuem ignorantes, que vivam na ignorância da verdade, e até da verdade das suas próprias vidas. Aquilo que nos rodeia é uma vasta tapeçaria de mentiras, sobre a qual nos vamos alimentando…”. O alimento afinal somos nós, tremenda verdade! No seu discurso, de terrível actualidade, interrogava-se: “O que aconteceu com a nossa sensibilidade moral? Alguma vez a tivemos? O que quer dizer esta expressão? Refere-se a um termo pouco usado nestes dias – consciência? Uma consciência de agir não apenas com os nossos próprios actos mas com a responsabilidade partilhada nas acções dos outros? Já tudo isto morreu?”.

Eu diria que não morreu, mas que existe no “fascismo brando”, uma anestesia forçada, um estado de coma induzido, uma cegueira na cidade do Homem, um estado paraplégico de quase impotência. Lentamente porém, uma consciência cívica tenta inverter este estado. Pode levar o seu tempo a tentar desequilibrar a situação. A violência dos predadores merece uma resposta. A selva animal tem uma resposta. Na “nossa selva”, é preciso encontrá-la algures por aí…


(Fim da 2ª parte)

Obras consultadas:
× Starr, Cecie and Ralph Taggart “ Biologia: A Unidade e Diversidade da Vida “, 8ª edição. Ed. CA, Belmont, Pennsylvania, 2003
× Raven, Peter H. and George Johnson “Biologia”, Ed. McGraw-Hill, Boston, 2002

Sites consultados:
× http://www.coceducacao.com.br/bcoresp/bcoresp_mostra/0,6674,CESC-853-8070,00.html
× http://www.tiosam.net/enciclopedia/?q=Relações_ecológicas
× http://www.sobiologia.com.br/conteudos/bio_ecologia/ecologia22.php
× http://meioambiente.bicodocorvo.com.br/natureza/relacoes-ecologicas
× http://dn.sapo.pt/inicio/tv/interior.aspx?content_id=1559100&seccao=Media