rio torto

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19 fevereiro 2026

O MONDEGO NASCE NA SERRA DA ESTRELA

 

Seria mais que suficiente consultar dados, que com abundância por aí existem, para saber que o Rio Mondego nasce na Serra da Estrela e é um dos cinco principais rios portugueses, que corre no centro do País. Os romanos chamaram-lhe Munda, termo que podia aparentar  transparência, claridade ou pureza e, ao longo da sua vida geológica, tem passado bem, o quanto consta. Desde a pesca da lampreia à observação de aves no seu estuário, o rio Mondego é citado como “...o rio português mais cantado por poetas desde tempos imemoriais”, adquirindo assim uma importância estratégica na tessitura nacional, não podendo ser ignorada por quem foi investido em funções, embora temporárias, de chefia de uma coisa que dá pelo nome de “governo”, tão maltratada nos últimos tempos, sobretudo desde que o sujeito em questão tomou posse, para grande desgraça dos seus concidadãos. 

 

Estamos porventura no limiar da ignorância e da estupidificação da coisa pública. A “pureza” da gestão política, associada ao Munda, está a ser vítima de abusos sucessivos e de elevados índices de mortificação essencial. Um deles é, diga-se sem qualquer rebuço, a ignorância como padrão. A falta de conhecimento sobre a nascente do Mondego não é um mero lapso. É o mesmo padrão de desconhecimento que leva a decisões centralizadas e desenquadradas das realidades locais. É a mesma surdez que impede o governo de ouvir o alerta das cheias que, como é sabido, assolam o Baixo Mondego desde o século XIV. Mas é, ainda, o desprezo pelas vítimas: quando um líder revela tamanha desconexão do território, como pode ser capaz de "acertar medidas" que protejam as populações que sofrem na pele a raiva de um rio desregulado pela crise climática? A sua ignorância é o reflexo de um desprezo mais profundo, por quem vê as suas culturas destruídas, por quem fica à mercê de fenómenos cada vez mais extremos.

 

A ignorância do primeiro-ministro não é um erro, é um programa de governo. O rio Mondego nasce na Serra da Estrela, corre duzentos e cinquenta e oito quilómetros inteiramente em território nacional e desagua na Figueira da Foz . É um facto tão elementar que qualquer aluno do ensino primário o sabe. Na nossa infância saberíamos porventura de cor este (e outros). Mas este sujeito estará mais “inclinado” para outras ciências, outras “áreas de exploração”, aí perito esclarecido e “licenciado”. Quando nos vem dizer que precisa de "acertar medidas com os vizinhos espanhóis" para lidar com um rio que é cem por cento português, estará provavelmente tudo dito. 

Acontece que não está. Esta ignorância não é um mero lapso de memória, mas sim a face visível de uma incapacidade estrutural, de um desprezo oligárquico por tudo o que cheira a território, a interioridade, a vida real. É a mesma ignorância que deixou o país a apodrecer enquanto as tempestades caíam e o Governo produzia vídeos de propaganda. E quando a natureza deixou de ser elemento surpresa e a tempestade Kristin varreu o país, ficou claro que o problema não estava no vento ou na chuva. Estava na gestão governamental da crise. O primeiro-ministro que não sabe onde nasce o Mondego é o mesmo que liderou (se é que se pode chamar liderança a tamanho improviso) uma resposta estatal que envergonharia qualquer país minimamente organizado. As estradas abriram fendas e desabaram. As encostas deslizaram sobre habitações, as famílias ficaram isoladas, sem electricidade, sem comunicações, sem respostas imediatas. O que constatamos no governo do País, o que vimos nas televisões, por onde passeou, para além da ignorância, o séquito de "figuras tristes" e "encenações", à moda de personagens de filme rasca. 

Vejamos algumas. O ministro Melo, que dizem ser “da Defesa”, surge numa zona afectada, é fotografado junto a uma tenda das Forças Armadas e abandona o local pouco depois, sem explicação. Para que o ridículo não ficasse pelas imagens e vídeos pífios, veio a palavra, caindo de vez a máscara. Castro Almeida, ministro da tutela, perante cidadãos que perderam casas, bens e rendimentos, sugeriu que recorressem ao vencimento do mês anterior enquanto aguardavam os apoios do Estado. Não foi uma frase infeliz. Foi a verbalização de uma lógica perversa: a de transferir para o cidadão a responsabilidade de uma falha pública. É a mesma lógica de quem, não sabendo onde nasce o Mondego, acha que o problema se resolve com uma chamada para Madrid.

 

O primeiro-ministro não sabe onde nasce o Mondego. Mas também não sabe, ou não quer saber, onde vivem as vítimas da crise climática. Onde estão as famílias sem-abrigo, onde falham os serviços e onde apodrecem as infraestruturas financiadas com dinheiro europeu que chegou, foi gasto e não deixou rasto de qualidade ou prevenção. O cúmulo do ridículo esteve, uma vez mais, no ministro dito “da Presidência”, uma pústula desnecessária, tentando desviar as atenções com uma queixa-crime contra uma página de sátira política, acusando o autor de "atacar o primeiro-ministro de Portugal" com uma publicação falsa sobre os Açores. Enquanto isso, o país real desmoronava-se. E o Governo, em vez de governar, gastava energia a perseguir humoristas e a produzir conteúdos para as redes sociais. A ministra conhecida como “da Administração Interna”, desaparecida da cena, voltou temporariamente a ela e demitiu-se, após afirmar publicamente que não sabia o que tinha falhado.

 

Se soubermos (e sabemos) que este País recebeu milhares de milhões de euros da dita “união europeia”, com nomes apelativos, como “fundos estruturais”, “programas de coesão”, “plano de recuperação e resiliência” e outras  imbecilidades, percebemos mais depressa que estamos no reino idílico da propaganda e que a negação, enquanto atitude “resiliente”, é o panegírico da mais refinada política do desperdício. O primeiro-ministro, que não sabe onde nasce o Mondego, é o mesmo que, perante a devastação, se refugiou no silêncio e na inércia. É o mesmo que acumulou interinamente a pasta da Administração Interna, não por ter um plano, mas por não ter sequer um nome para apresentar. É o mesmo que governa para as sondagens e para os gabinetes, enquanto o país real, das serras, dos rios, das aldeias e das pessoas, se deslaça, se desfaz penosamente.

 

A ignorância sobre a nascente do Mondego não é um erro. É um sintoma. É a prova de que quem nos governa não conhece o território que deveria proteger. É a demonstração de que as decisões são tomadas por quem vê Portugal como um mapa abstracto, não como um chão concreto onde vivem e sofrem pessoas de carne e osso. Quem deu o voto a esta trupe de incompetentes talvez agora comece a perceber que tanta cretinice não é um acidente de percurso, mas a imagem mais viva da mediocridade e da avilteza. É a “sublime inépcia” de que o Eça falava, imagem dos burocratas do século vinte e um, em plena fase de ascensão, para mal de todos os “pecados do mundo”.

 

O Mondego nasce na Serra da Estrela. Mas a incompetência, essa, nasce em São Bento. E alastra como cheia. É preciso, urgentemente, conter esta corrente. 

31 janeiro 2026

PANORÂMICA: O VOTO ÚTIL NA ERA DA ATENÇÃO ESCASSA


 

Uma asserção interessante e com algum sentido nos tempos actuais, a "riqueza de informação cria uma pobreza de atenção", foi feita por Herbert Simon, um economista alemão com cidadania norte-americana. Este Autor  estudou e propôs, nos anos setenta do século passado, a designada economia da atenção, um conceito que supõe um “mercado” num sistema económico invisível, no qual a atenção humana é o recurso mais cobiçado, moldando não apenas os meios de comunicação social, mas também a publicidade e, por arrastamento directo, a cultura, a política e a psicologia colectiva na era digital. Este mercado pode ser designado por "mercado da atenção" e classifica a atenção como um recurso escasso e valioso, disputado por diferentes actores: políticos, empresas, plataformas e criadores de conteúdos, num contexto de superabundância de informação. Ao contrário desta, em que a produção é quase infinita, a atenção das pessoas é limitada. Simon, que viria a receber, em 1978, o Prémio Nobel de Economia, pela investigação que realizou no sector dos processos de tomada de decisões em organizações económicas, falou mesmo numa autêntica disputa em que empresas e plataformas competem para capturar e reter a atenção, afim de ser rentabilizada, sob diversos formatos, como por exemplo, anúncios, vendas, influência ou angariação. E, no limite, uma autêntica moeda de troca, pois na maioria das vezes, os consumidores/utilizadores "pagam" com a sua atenção para acessar conteúdos ou serviços gratuitos, como redes sociais, vídeos e notícias.

A propósito da segunda volta presidencial, ficaria bem uma “panorâmica” sobre o designado voto útil, pelo menos para tentar evitar um certo esgotamento cognitivo, que resulta de uma sobrecarga de informação e consequente dificuldade de concentração. Ainda também para precaver a erosão da qualidade da informação, que resulta do incentivo a conteúdos superficiais e a uma disseminação viral e popularização rápida do fenómeno da  desinformação. Na verdade, a disputa pela atenção acaba por influenciar debates públicos, formação de opinião e, obviamente, os resultados eleitorais. É aqui que entram as sondagens, esse ardiloso instituto que apenas serve para induzir o voto, ao exercer meticulosamente, em qualquer eleição, a “árdua” tarefa de atirar para cima os candidatos mais “convenientes” e afundar a pouco e pouco os que são considerados “sem hipóteses” de serem eleitos. Este processo repete-se de eleição para eleição. Aqui, como em todas as etapas de um processo de dominação permanente, o mercado da atenção funciona de forma sistemática, suportado (de forma insuportável) pela legião de comentaristas de serviço, pagos precisamente para cumprirem a missão de sustentáculos de uma democracia decadente.

 

Veja-se então de que forma (ou formas) o mercado da atenção funciona, na polarização dos candidatos. Foca-se a narrativa em: (1) apresentação da candidatura do “chegano” como uma ameaça existencial à democracia e aos valores europeus, (2) oferta do voto em Seguro como o antídoto imediato e a única resposta democrática adequada, (3) transformação de uma eleição com múltiplas dimensões numa escolha binária entre "democracia" e "extremismo". Dois factores a ter em linha de conta neste evento são, por um lado, os mecanismos de captura e retenção e, por outro lado, a rentabilização crescente da atenção. Mais tarde iremos depararmo-nos com outras duas componentes determinantes para o sucesso da “operação”, a saber, a redução da complexidade e o enquadramento emocional. O resultado (óbvio) esperado é que a campanha de Seguro consiga capitalizar o capital (redundância intencional) de atenção e medo para ampliar a sua base além do eleitorado tradicional do PS, especialmente entre indecisos e eleitores de centro-direita descontentes com Ventura.

 

Sendo verdade que os monstros de Gramsci andam por aí e ensombram de tal forma a sociedade actual que chega a ser patética a escolha que nos é dado fazer a 8 de Fevereiro. Se um representa nitidamente a vontade expressa do autoritarismo como arma de choque, no sentido literal e não só, o outro é a expressão do conformismo tácito com a neo-liberalidade feita doutrina de pensamento e prática política e intérprete confesso de tudo o que existe no consenso das privatizações em série, das doutrinas laborais reaccionárias e contra os trabalhadores e apoio mais que evidente ao que existe de mais retrógrado na política internacional, apenas para citar o mais “visível”. Um em nome da luta contra a imigração, a “corrupção e bandalheira”, o outro usando a bandeira da Constituição, para o insípido e desencorajador “unir os portugueses”. Um, contra o “sistema”, seja lá o que isso for, o outro apelando ao "voto moderado e à estabilidade institucional", que sabemos muito bem o quer dizer.

 

Na lógica panorâmica da política, o "voto útil" em Seguro é uma mercadoria ideal no mercado da atenção, na era da atenção escassa. A narrativa "Seguro vs. Fascismo" é um produto que simplifica um cenário complexo numa batalha binária, gerando emoções fortes de urgência e de medo, que capturam atenção de forma eficiente. Esta estratégia direcciona o "capital de atenção" colectivo para um candidato que personifica a continuidade e estabilidade do sistema político tradicional. Não é, de forma alguma, um acto de transformação revolucionária, mas uma transação defensiva: o eleitor "paga" com o seu voto para obter uma promessa de segurança institucional e contenção do extremo. Ainda que seja, para muitos eleitores, um benefício real e urgente, a verdade é que o “voto útil” é um acto que preserva as estruturas de poder existentes, canalizando a insatisfação popular para um candidato da ordem estabelecida sem questionar os fundamentos do sistema que alimentou a própria ascensão do extremo que se pretende combater. Este voto útil é uma solução de mercado perfeita para um problema imediato, mas que pode adiar ou neutralizar a verdadeira e necessária transformação.

 

Na suposta escolha que a segunda volta presidencial representa, raramente existiu uma disputa ideológica clássica. O que de facto esteve (e está) em jogo, por força da narrativa passadista do “Estado que tem um chefe”, assemelha-se ao desespero de Ricardo III na peça de Shakespeare "o meu reino por um cavalo". Para quem pode perder tudo numa batalha, trocar o seu reino por algo aparentemente menor, o “cavalo”, representa a sobrevivência imediata, ou melhor, uma solução percebida como imediata ou por tácticas eleitorais de curto prazo, sem reflectir plenamente no que realmente está em jogo para o futuro do "reino". Em termos de sobrevivência na barbárie actual do “reino” (e não só), que fique ao menos o “cavalo”. 

 


 

11 janeiro 2026

PENSAR (e falar) O MAIS CLARO POSSÍVEL


Se é possível neste tempo fazê-lo, na plasticidade implacável de uma era em que abundam burocratas cinzentos, zelotes disfarçados e contabilistas do vazio, enfrentemos a dura tarefa.

Se for um apelo, ao menos que o seja ao nível da proximidade histórica, uma circunstância hoje preguiçosamente abandonada em favor da encenação pífia e do espectáculo de fraca qualidade. Ouvir e ver, na campanha, expressões de um extremo ridículo, ou de uma tremenda falta de qualidade, choca a inteligência e agride a consciência. O pior é que passa e habitua. De tal forma, o uso crónico dos martelados, “servir o país”, “o meu partido é Portugal”, “é preciso pôr os interesses do país à frente...”, tão simplórios quanto enganadores, colocam os “autores” numa posição frívola e envilecida. Dirão, nada mais têm para dizer, apenas a verborreia habitual das campanhas e que possivelmente lhes dará mais algum voto. Será mesmo?

Sem querer adiantar num hipotético paralelo entre as candidaturas da Esquerda, sempre assinalo que algumas se poderão ter perdido entre a manifestação e afirmação de um desejo pessoal e a vontade abonatória sobre um vago projecto de uma sina antiga. Se bem lhes ficou, mal algum lhes irá provocar, uma vez que o seu lugar, longe da luta de classes, ficará para a história como a imagem da adequação e do ajustamento. Da Direita não me compete qualquer cometimento. Uso e feitio assentam-lhe na perfeição e na profícua acção de contrair cada vez mais o espaço público, causticar e castigar o mundo do trabalho, uma tipologia especial de crime e o castigo do capitalismo predador. Chega a ser patético, se não fosse trágico, o discurso das “reformas estruturais”, hoje já sem o pacote rendilhado com que outrora era apresentado.

 

Tudo o que poderia ser a afirmação de classe, de defesa incondicional dos trabalhadores, aparece ofuscado numa linguagem difusa e, muitas vezes, difícil de entender, quer quando se afirma, quer no momento em que se nega. Creio ser evidente, para quem se afirma do lado da Luta, que deve ser perfeitamente separado o que é a necessidade absoluta de erradicar um sistema económico e financeiro que destrói as pessoas e a natureza e a “crença” numa eventual possibilidade de o “reformar” por dentro. 

Quando existe uma desconexão sistemática entre o sentido pretendido e o sentido apreendido, tem contraponto perfeito a clareza do discurso e a afirmação positiva das propostas. Quando o abismo está perante nós e há quem queira mergulhar nele de olhos fechados, a atitude nunca poderá ser dar-lhe espaço, mas sim, fazer-lhe frente de forma decidida. Vem a propósito a grande oportunidade (ou mais uma oportunidade) para a Esquerda ocupar, de forma distinta, o debate público, possibilitado pelas presidenciais. Existiram alguns momentos em que tal poderia e deveria ser feito. 

 

A seu devido tempo assumi apoiar publicamente o Candidato António Filipe, tendo inclusivamente sido seu proponente. Se ele terá conseguido (ou não) manifestar a atitude firme que atrás aportei, será possivelmente uma das incógnitas que o futuro (que é já amanhã) irá desvendar. Sabendo à partida que há  discursos que não pedem concordância imediata, ou assumidamente pelo exagero, ou em tese por uma colagem surreal, porque o real é cada vez mais obsceno, resta a ideia, peregrina mas aplicável, da assumpção da fractura cada vez mais necessária em alguns temas decisivos e em relação às formações reais.

Hoje antecipei o meu voto no António, projectando um futuro que as circunstâncias da Luta determinarem. Se dúvidas não tive em relação ao acto em si, vejo à minha frente um montanha delas. Espero que, nas próximas semanas, seja possível escalar a montanha e partir algumas amarras. Espero. 

Espero (ainda) ter falado o mais claro possível. Se não fui capaz assumo o propósito.

 

05 janeiro 2026

 DEPOIS DO GOLPE, A “NORMALIZAÇÃO

 

Dois dias depois do golpe norte-americano que entrou na Venezuela, sequestrou Maduro e Cilia e anunciou a intenção de governar o País e os seus recursos naturais, quem esperava a natural condenação do maior acto de pirataria dos últimos anos, tem hoje como resposta, a normalização. 

 

Logo pela manhã, dois exemplos vindos das rádios: Antena 1 falava do acto como uma “operação dos EUA” e apresentava a exploração de petróleo na Venezuela cheia de defeitos, com maquinaria ultrapassada e comandada por um “ditador”; TSF lembrava a possibilidade de entrada em cena de Edmundo Gonzalez, declarado pelo ocidente decadente “vencedor” das últimas eleições presidenciais, sem nunca ter apresentado as devidas provas. Este conhecido “democrata” foi um dos participantes da Operação Condor [i]e, na era Reagan, o número dois da Embaixada da Venezuela em El Salvador, à frente da qual estava Leopoldo Castillo, Com a sua “amiga” Corina, “prémio nobel da Paz 2025”, terá organizado em 2009, segundo documentos desclassificados da CIA, a eliminação de oposicionistas salvadorenhos no âmbito da chamada Operação Centauro, uma das vertentes da referida Operação Condor. Na mesma TSF, o conhecido fórum versou  o assunto, em que o jornalista Ricardo Alexandre introduziu o tema, avançando a possibilidade de um “entendimento” entre a Presidente interina Delcy Rodríguez e a administração norte-americana, a pretexto da última declaração pública da Presidente interina.

Os títulos dos jornais burgueses, PúblicoCM e Observador apontam no mesmo sentido da propaganda, “Maduro caiu”. Dizer que Maduro não caiu coíssima alguma, mas que foi sequestrado, será irrelevante para a imprensa dominada completamente pela propaganda e seguindo, normalizando, o crime cometido pela administração norte-americana, apoiada (ainda que veladamente) pelo governo português e pela camarilha não-eleita da dita “união” europeia.

 

A normalização em curso, se nada for feito para a contrariar e impedir, produzirá um efeito catastrófico nas relações internacionais e um recuo considerável na luta pela libertação do jugo capitalista e colonialista, na Venezuela, na América Latina e em todo o mundo. O discurso oficial será (já está a ser) adoptado a nível mundial e, daqui por uns dias, rádios, televisões e jornais da comunicação social burguesa dominante irá consolidar o que já são tidos como “factos” consumados: o regime da Venezuela caiuMaduro será julgado pelos EUAas empresas de petróleo serão muito mais geridas por Washingtona “transição democrática” no país está em curso, etc..., etc... A narrativa será adoptada (já está a ser), estamos a ver, a ouvir e a ler, marteladas e expandidas à força bruta do Império e à força “benigna” da manipulação das consciências.

 

Mais logo (daqui a pouco) estaremos na rua, pelo menos no Porto e em Lisboa, (muito tarde porque, à semelhança de tantas cidades por esse mundo que, desde o dia do golpe têm saído à rua).  

É preciso resistir. 

·       Exigir a libertação imediata de Cilia e Maduro.

·       Exigir que os ianques tiram a pata da Venezuela.

·       Denunciar a atitude miserável do governo português e da chamada “união”.

·       Apoiar os trabalhadores venezuelanos na sua luta de classe contra a dominação e a exploração!

·       Apoiar os trabalhadores de todo mundo, em solidariedade com os trabalhadores venezuelanos na sua luta!



[i]  A Operação Condor, nascida oficialmente em Santiago do Chile em 28 de Novembro de 1975, completa 50 anos como uma organização criminosa das ditaduras de 8 países sul-americanos para perseguir e matar opositores políticos, até mesmo em Portugal. Em: https://comunidadeculturaearte.com/operacao-condor.../ (Jorge Campos, em 3 de Janeiro 26)

 

 

04 janeiro 2026

HOJE, AS FLORES NÃO SE ABRIRAM EM CARACAS...

 

Roubo hoje, 4 de Janeiro, ao Amigo e Camarada Rui Pereira, a citação com que abre o seu livro[i]: “A quantos, por entre as sombras, tentam entrever”.  E são tantos por entre as sombras com que pintaram o planeta, volto ao dia em que o império invadiu o País, raptou e sequestrou o Presidente legítimo e deixou atrás um rasto de morte e destruição. Se há sentimento que possa contar quantas flores terão sido pisadas em Caracas, evocando mil novecentos e setenta e três, quando o mesmo império derrubou Allende e instalou um sinistro reino de terror no Chile. E lembrando, porque é preciso acordar a gente que gosta de flores e parece adormecida à espera que lhe batam à porta e as levem para um qualquer estádio, sem ser para o jogo de futebol, lembrando, lembrando sim, que é o mesmo império que vai semeando terror em vez de flores e espalhando morte e destruição, repete-se porque é mesmo preciso repetir, é o mesmo por toda a parte, quando será possível destrui-lo antes que destrua tudo, mulheres, homens, crianças, amimais e flores. 


A perversidade do golpe de ontem, continua hoje e continuará sempre, o ogre anuncia que governará a Venezuela e que tomará conta da riqueza natural e de todas as flores que possam tentar nascer, ele lhes irá pôr a suja pata imperial em cima, porque apenas conhece a linguagem do dinheiro, do capital, da exploração e da destruição das vidas e dos sonhos de Liberdade.

Para quê pensar (ou, no limite, acreditar) que a camarilha ocidental com todos à cabeça, é ou será capaz de condenar o golpe, provavelmente à espera de umas migalhas para continuarem a desempenhar o seu papel de cães bem treinados obedecendo ao seu dono?  Sejam portugueses ou suecos, franceses ou gregos, italianos ou ingleses, travestidos em actores de guerra pífios sem nada para mostrar que não seja ódio à liberdade, embora se reclamem de representantes democráticos, que ousadia hipócrita dos acompanhantes da chacina dos palestinianos e da exclusão dos imigrantes de todas as cores. Mesmo descontando a tímida reacção espanhola, amarrada contudo a um institucionalismo que não lhe permite dizer “não” com a força necessária, porque afinal ainda há Ucrânia, os burocratas pacóvios não passam de fascistas envergonhados e de covardes mal paridos. 


A imagem perversa da propaganda ocidental é traduzida no Homem acorrentado de pés e mãos pelo carrasco norte-americano que perpetrou a invasão do Capitólio e que teve como prenda a presidência, malvado seja se crentes fossemos e lhes desejássemos o “descanso eterno” a que tem “direito”. E o que vemos e ouvimos naquilo que chamam “comunicação social”, o repetir e o matraquear das mesmas frases, agora com uma imbecilidade confrangedora, ele era (ou ainda é, porque está vivo) um “ditador” que assustava o seu povo e nem o deixava cheirar as flores, apenas a droga permitia “florescer” e, pior que tudo, a enviava para os pobres cidadãos norte-americanos, sobretudo para os enjeitados e desvalidos que só querem consumir e que, por isso mesmo, são pobres. O bloqueio “simples” e completo da informação é “democrático” e é sobretudo uma “oferta” ao cidadão, poupado a ideais comunistas e solidários, já passou o tempo disso, agora ouve e lê aquilo que for determinado, Orwell como és actual.


Os tais que “tentam entrever” são os mais perigosos, porque tentam, através de neblina, pressentir algo que vai acontecer, a significância da coisa assim o diz. Para estes é preciso um trato especial, metê-los na masmorra a todos ficaria mal, por isso vamos esquecê-los, ofuscá-los, quiçá dar-lhes algo para distrair, pode ser até uma flor qualquer com toque alucinógeno, para poderem voar nem ninho de cucos devidamente adaptado e com flores amarelas ou uma merda qualquer colorida e apelativa.

Vamos admitir que o sistema funciona para alguns. Um deles, com nome de santo[ii], estava hoje acabrunhado e triste, porque o ogre havia desmerecido a “grande democrata” corina, para ele, a flor mais indicada para a “transição democrática”. Atolados (como este) na massificação das consciências, perdidos no atoleiro neo-liberal, incapazes de uma réstia de luz nas suas empedernidas cabeças, enlatados (e entalados) na casa-comum do capital, possivelmente pintado de verde, nunca serão flores que se cheirem, quando cheiram mesmo, o melhor é mesmo afastarmo-nos. 

Tristes “democracias”, verdadeiras ditaduras do capital, disfarçadas pelo trabalho proficiente dos lacaios burgueses e pela ajuda (mais ou menos) disfarçada de outros que há algum tempo trocaram o vermelho da bandeira, pelo verde apelativo das “transformações graduais”, energéticas e/ou digitais, ou outra coisa qualquer, que parecem ter medo das revoluções, da Revolução que anda perdida por estes lados, mas que, nas américas latinas ainda resiste, com qualquer coisa florida, que causa comichão ao capital e que ainda traz, com todas as imperfeições que possa conter,  um "verde-oliva de flor no ramo", nas mãos dos "filhos da madrugada", que nos orgulhamos de ser [iii]. 


Um dia inteiro sem informação, contaminados pela propaganda e pelos comentários dos pacóvios avençados que constituem o exército odioso dos painelistas, partimos em busca das estações proibidas, para saber um pouco mais do que o que nos querem (e conseguem) impingir, descobrimos na Américas o que se passa por lá e, curiosamente também por cá. São milhares, quiçá milhões que, por esse mundo dentro, saem à rua, multidões em todos os continentes, em protesto e vigília pela Revolução Boliveriana e pela exigência da libertação de Maduro e Cilia Flores. Por este Portugal, vamos ficar à espera de amanhã, para “civilizadamente” sairmos à rua, enquanto um governo infame fala em nome dos portugueses...


Não me falem hoje (nem amanhã) nas “comparações” espúrias com a Ucrânia. O mesmo (e único) império que patrocina o genocídio em Gaza, entrou Venezuela dentro, num odioso acto de pirataria e sequestro do seu Presidente, repitamos isto as vezes que forem precisas. Não toleramos, não admitimos.

Os trabalhadores da Venezuela e do mundo inteiro sujeitos à opressão e à dominação capitalista têm capacidade para fazer uma barreira e deixar crescer em paz as flores que ontem não floriram em Caracas. 

Ressuscitemos a palavra de ordem “Ianques Fora da Venezuela!” E, desta vez, não haverá flores nos canos das espingardas.

 

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[i] “Venezuela, a montanha acima das nuvens: Uma hipótese de crónica”, Porto, UNICEPE (2025)

[iii] Referência directa a F. Assis, do Partido (dito) Socialista

[iii] Referência ao verso do poema “Canto Moço”, do albúm “Traz Outro Amigo Também”, Zeca Afonso (1970)