rio torto

rio torto

30 dezembro 2019

A TEIA


Notícias que nos vão dando conta de avanços e recuos (mais destes que daqueles), com o aproximar do fim de um ano que fecha uma década, parecem estrelas num céu cinzento, que de tão azul que o queiramos pintar, depressa lhe foge a cor, para o pardo mais condizente. Parda é a cor que melhor ilustra a situação social e política de mais um ano, o último da década. Muitos avançam já, a (ou as) personalidade (ou as) do ano, da década, numa voragem mediática intensa. Quem lê as notícias? Quem tem hipótese de lá chegar? Quem entra (ou não) na tal voragem? Quem é engolido por ela? Quem é trucidado? Quem?
Mas isso importa mesmo?

Tantas perguntas e mais se poderiam fazer. E mais haveria para colocar, ao tal “quem de direito”, da asserção comum. Parece, ao ler o jornal do fim de semana (um semanário muito caro para 20% da população), que existe um problema que, no dizer da autora[i] “ganhou nova centralidade nas análises políticas e económicas após a crise financeira”. De que se trata afinal, apenas isto, coisa tão simples, tão aceite, parece tão natural que passamos por ela, convivemos com ela, apenas “desigualdade na redistribuição do rendimento”. Passando à exploração da notícia, pode ler-se, aquilo que vamos aceitando, com que vamos convivendo afinal, é apenas, “Ricos mais ricos, pobres mais pobres, classe média a aguentar-se. Esta é, em traços gerais, a grande conclusão que se retira da análise a 4 décadas de distribuição de rendimentos em Portugal”.
Chegamos às mesmas conclusões, aceitando e convivendo com elas.
Triste realidade.
Parece que o País se reduz (sempre) ao limitado número de quilómetros quadrados em volta de um terreiro que se chama do Paço. Passo tanto tempo a dizer isto que até acredito que é mesmo assim. Quem tem mesmo de ser assim. 

Recuamos 7 anos, ainda estamos nesta década...
No natal de 2012, conhecíamos o Álvaro, de seu nome completo, Santos Pereira. O senhor até era ministro, naquele emaranhado em que o País sofria uma invasão, não de marcianos como na ficção, mas de uns senhores mandantes, cuja função era simplesmente reduzir-nos a uma colónia, coisa que acabaria mesmo por acontecer, com a colaboração do governo da época, pleno de cabeças pensantes, que apenas orientavam a sua acção, para corroborar e amplificar a sentença de morte mais mortífera que existia, “vivíamos acima das possibilidades”, coisa que não se podia permitir, numa europa civilizada e temente ao império. Queria então o Álvaro esburacar o País, entregando mais de cem autorizações para prospeção e exploração de minas em Portugal.
Ninguém iria decerto vaticinar que uma réplica do Álvaro viria, 7 anos depois, com um discurso diferente, todavia certeiro e tão dirigido quanto o outro. De lítio falamos e temos ora um governo de cor distinta e falamos uma outra linguagem. Falamos?
Diríamos decerto que sim, não fora a realidade madrasta, sempre a trair o coração e o sentimento. E o resto. De facto, a mesma asneira, travestida agora de roupagem nova, muito “mais democrática”, com pinturas de uma Esquerda, que se autointitula reformista e europeísta. Lá está.

Andamos para a frente ou para trás?
Questão de somenos, se atentarmos ao consenso que dizem existir na “sociedade civil” e que vai buscar ao imaginário do chamado “interesse nacional”, o arcaísmo conservador menos rebuscado, pelo simplismo e pelo anedótico. O “é a economia, estúpido”, vale tudo e mais ainda, o amor inconfessado às contas certas e à redução do défice. Tudo sempre, em nome do País e das reformas, não as estruturais do passado, mas as que os poderosos pretendem e determinam. Eles, a banca, os patrões, o euro. Onde está a diferença? 
Queremos impedir que a Direita tome conta da situação, ela que agoniza num mar imenso de contradições, de dúvidas (ainda que pouco) sistemáticas, de guerrilhas pouco dignificantes, até dizer “chega”. Queremos? E afinal, o que fazemos?
E a realidade é demasiado dura e mostra, por exemplo, que a taxa de pobreza dos adultos em idade activa aumentou 0,2 pontos percentuais (em 2018, era 16,9%), a taxa de risco de pobreza da população empregada aumentou para 10,8% (em 2017 era 9,7%) e a taxa de pobreza dos desempregados aumentou para os 47,5% (em 2017 era 45,7%). Quem lê estes dados? Quem se preocupa com isto? Quem?

Estamos simplesmente envolvidos
Na perigosa teia que alguém tece por nós, porque já não tecemos nada que não seja para oferecer a um banco (sem dinheiro, sempre apesar das “injecções”...), a uma empresa que quer vender as barragens, a um operador que leva couro e cabelo, com os preços mais caros da europa, por serviços de qualidade por vezes duvidosa, mas que está “protegido” por uma autoridade tão alta, que mal sabemos enxergar. 
Temos sim opinião livre, votamos ou não? Falamos à-vontade ou nem por isso? Mas será que nos vamos auto-limitando, porque às tantas vamos favorecer algo que não estamos a ver? Afinal quem somos nós, para enfrentar de caras tanta hipocrisia?
Teremos então mais saúde, porque há mais dinheiro para ela, ou para a cuidar, não sabemos bem para onde ele (dinheiro) vai, mas decerto que vai para algum lado, não resta quedo e mudo, tem mesmo que servir algo ou alguém. E se duvidamos, em algum momento, que poderá ir para os bolsos dos privados que dela se sustentam, poderemos estar a cometer uma heresia, de tal forma grave, que pode ser mesmo herética (...) e depois não há remédio que a valha. Haja, pois, saúde.
Valha-nos os aumentos. São de tal forma significativos que o País nem sequer “se mexe”, nas estatísticas internacionais. Mas claro que o dinheiro não dá para tudo, há que abater à dívida. E se quisermos saber, afinal dívida a quem e de que montante, lá estamos a desenterrar de novo o mesmo discurso esquerdizante, que a nada leva, a não ser, ao mesmo de sempre, questionam tudo e não têm solução para nada. Pois.
Negociar para quê, se tenho mais votos que os outros? Mas, já viste que não chegam para as contagens? Sim, mas há sempre um “limiano” à esquina da História, é sempre bom lembrar a recente, que nos ensina a fazer igual, ainda que de forma diferente. Confusos? Ainda bem!

E, podemos dizer que não falamos de flores[ii]?
O Chile, sim, o regresso da repressão fascista a torturar e a matar indiscriminadamente? E o derrube de Morales, com o regresso do fascismo nem sequer encapotado, mais os índios que cheiram mal? E as provocações no Brasil, do fascista investido em presidente? E o americano de cabelo amarelo, que todos criticam e as diplomacias assistem e tacitamente aceitam? Está tudo tão longe, não me afectam afinal, isto é a europa, na qual a NATO nos defende. Espera aí, defende de quem?
Fazemos flores, não falando delas, como saber a flor que nos calha? Somos afinal flor que se cheire? 
Estamos no meio da tempestade e fingimos que nos abrigamos, porque há chapéus de chuva, mesmo fora de Cherburgo...[iii]

Caminhando contra o vento/Sem lenço e sem documento/no Sol de quase Dezembro/Eu vou...”[iv]
E com a Alegria que o Caetano nos brinda, sabendo interpretar no fundo o que ele quer dizer, o que nós queremos (e ainda podemos?) dizer.
Repara que podemos assimilar qualquer coisa da canção que tem a ver com tudo, “Sem lenço, sem documento/Nada no bolso ou nas mãos”, entraremos no Novo Ano, pensando que é “novo”, mas tendo a certeza de muito pouco ter no bolso, apenas a migalha prometida, a benesse possível que entretém, mas que pouco acrescenta à condição. Resistir? Pois sim, talvez, mas agora vem a mensagem do Ano da nova década, somos todos irmãos, ainda que uns mais que os outros, “...E uma canção me consola/Eu vou”.
Temos então (ora sim) o devaneio, que por aqui não é atacado à bomba, na “porta dos fundos”. 
Que felizes que somos. Continuamos a ter “...fantasmas tão educados, que adormecemos no seu ombro[v], um sintoma nada bom para a década que se avizinha. E se pensas que é assustadora a afirmação de Yuval Harari[vi], “Em breve alguns governos e empresas poderão saber o que cada um de nós está a pensar e a sentir”, então trata de te libertar da TEIA!




[i] Elisabete Miranda (Jornalista Expresso), no artigo “Portugal Desigual”, 28 Dezembro 2019

[ii] Jogo propositado com a célebre canção de Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, mais conhecido como Geraldo Vandrè, "Pra não dizer que não falei de flores", escrita 1968, para o Festival Internacional da Canção Popular do Rio de Janeiro, inserida no álbum “Geraldo Vandré no Chile”, gravado em Santiago do Chile, em 1969. Proibida durante os anos da ditadura militar, foi sempre um hino de resistência do movimento civil e estudantil.

[iii] Diz a internet que o filme "Os Chapéus-de-Chuva de Cherburgo", foi Palma de ouro do Festival de Cannes, no ano 1964, e que ...”é um dos mais belos filmes do cinema francês, com a sua atmosfera de mágica melancolia onde os apaixonados se cruzam e se perdem. Um filme totalmente cantado, sobre o efémero e a eternidade do amor

[iv] Extracto livre da canção “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso. Um single que foi lançado em 1967 e que integrou o álbum “Caetano Veloso”, do mesmo ano.

[v] Extracto do poema da Natália Correia “Queixa das Almas Jovens Censuradas” (1957), inserida na obra “Poesia Completa”, 1999

[vi] Yuval Noah Harari é um jovem historiador israelita (24 de fevereiro de 1976), autor de obras publicadas em Portugal, como “Homo Sapiens: Uma breve história da humanidade” (2014), “Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã” (2016) e “21 Lições para o Século 21” (2018).

02 dezembro 2019

NÃO, “NÃO VAMOS BRINCAR À CARIDADEZINHA” (1) !!!




A jonet galopa mais uma campanha, com o patrocínio do Pingo Doce e do Continente
A jonet vive da cretinice e da parolice alheia, qual figura do Movimento Nacional Feminino e leva atrás dela não sei quantos mil voluntários, para mitigar os pobrezinhos, que não podem nem devem comer sempre bife, palavras dela, na altura em o nosso País foi sequestrado e invadido pela agressão estrangeira da troika e do passos coelho.
A jonet quer transportar-nos para a caridadezinha, qual “senhora de não sei quem/ que é de todos e de mais alguém/ passa a tarde descansada/ mastigando a torrada/ com muita pena do pobre/ coitada...”  (1), assim cantava o Zé Barata, há tanto tempo, lembrando o tempo nefasto do fascismo, em que o pobre era objecto da “pena” e da caridade alheia.
Passaram já tantos anos e a desgraçada da mulher, com o apoio do capital e do mestre sousa, lá anda a falar para as rádios e para a TV, engando o incauto, que pensa que uma sacola de arroz e um pão resolvem os problemas do capitalismo selvagem, responsável por quase 20% dos cidadãos portugueses viverem abaixo do limiar da pobreza.
A jonet é (mais um) rosto da hipocrisia humana, da estupidez e de alguma ignorância, da qual se alimentam as grandes cadeias de distribuição, enriquecendo de dia para dia, mais e mais e explorando os trabalhadores. 
A jonet é um bicho daninho, asqueroso e malformado, um aborto da sociedade idiota em que vivemos.
Pagar para a jonet é contribuir para que a miséria se perpetue.
Acreditar na jonet é acreditar no pai natal da burguesia e nas falas mansas dos patrões.
Acabemos de vez com essa miserável figura, qual supico pinto(2) dos tempos que se dizem modernos, mas em que a modernidade não passa da beatificação da mais pérfida imagem de um passado que muitos gostariam de recrear.
Quem apoia de alguma forma a jonet está a afundar-se na lama podre do fascismo e dos seus apoiantes.
Saberemos esta execrável “fada do lar”,  algum dia terá “...ao peito uma comenda”, porque “...neste mundo de instituição/ cataloga-se até o coração/ paga botas e merenda/ rouba muito mas dá prenda...” (1)
Vamos tirar o tapete à jonet, o seu verdadeiro lugar é o caixote do lixo que cheira mal e é impossível de reciclar.
ABAIXO A JONET!

---
(1) extractos do tema “Vamos Brincar à Caridadezinha”, inserto num LP do ano 1977, autor José Barata Moura
(2) referência à “Cilinha” (Cecília Supico Pinto) figura grada do fascismo, líder do Movimento Nacional Feminino, entre 1961 e 1974, que serviu a propaganda da política colonial do regime e responsável, reprodutora e garante da continuidade cultural beata, o principal sustentáculo ideológico do regime deposto no 25 de Abril de 1974.


21 novembro 2019

COISAS QUE (se calhar) NEM SE DEVIAM ESCREVER..


Devo confessar que nunca gostei muito de polícias.
Uma afirmação que, admito, pode até gerar algum desconforto a quem me lê (se é que existe esse alguém...).
Contudo, vou até amplificar a minha asserção. Nem de polícias, nem da polícia. Fui habituado, desde a tenra idade dos tempos da Faculdade, em Coimbra, no Porto, em Lisboa, a fugir deles e dela. 
Assim como que um destino, quiçá fatal, que me leva a uma estória, que remonta ao dia 26 Abril de 1974. Descíamos a Rua dos Clérigos, cidade do Porto, até que vindos nem sei bem de onde, uma boa vintena de polícias PSP se preparava (digo eu) para nos reprimir. Ainda não deviam ter acordado bem, na véspera do dia glorioso, e vai de querer bater na malta, uma coisa que lhes estava no sangue (e que provocava sempre bastante sangue...). Até que, ao cimo da rua, mesmo ao pé da Igreja, vem descendo a tropa. E então surge a (tal) bela imagem: os polícias, recolhendo os bastões, desatam a fugir para todos os lados e nós, rindo e festejando o insólito acontecimento.

Então se começa a compreender...
Depois desses dias, melhor, durante esses dias e muitos dias depois, uma das palavras de ordem da Esquerda era “Polícia Fascista, Assassina!”. E uma outra, bem mais ponderada, “Dissolução imediata da PSP e da GNR”. Creio que havia ainda uma outra, completamente reformista à altura, que se ficava por “Desarmamento imediato da PSP e da GNR”.

Uma polícia democrática?
Nada do que se pedia, ou exigia, foi feito. Entendeu o novo regime, que lidar com uma nova versão das polícias, seria a melhor forma de “integrar” as ditas “forças” na novel democracia, dando de barato que era sensato “educar” os profissionais daquelas “corporações”, para servir as populações, no limite até de os considerar como uma segurança de proximidade.
Mas, com todo o respeito pelas pessoas que decidem ser polícias, quem poderá dizer que nunca foi incomodado por um tipo qualquer de farda, que multa à má fila? Que chateia, por aquelas pequenas coisas que a gente sabe?
Alguém poderá dizer que a polícia está sempre (vá lá, às vezes...) no sítio certo para reprimir quem merece? 
E já agora, a pergunta marota, acham mesmo que a Democracia educou as polícias?

Em que ficamos?
Agora se “lamenta” que as polícias estejam infiltradas (creio ser este o termo) por perigosos grupos de extrema-direita, nazi-fascistas e epítetos do género. Embora não seja crente, admito tudo e mais alguma coisa, a saber, a deriva autoritária e repressiva das/dos polícias. Coisa espantosa, mas não sabíamos já disso? Porventura podemos esquecer as múltiplas agressões de agentes policiais (como eu adoro esta designação...) a cidadãos aparentemente inofensivos, mas com um “pequeno pormenor” distintivo, a cor da pele mais ou menos bronzeada, a “raça” que não é caucasiana, a forma ousada de vestir, enfim, aquele ar de culpado antecipado, que é um perigo imediato para o burguês bem-comportado e para a autoridade engravatada e/ou fardada?

Poderíamos (eventualmente) aventar...
Que as polícias existem para justificar, defender e preservar a autoridade do Estado (mesmo que seja democrático), para legitimar a dominação da classe tal e qual, para reprimir todo e qualquer acto que atente contra a segurança do dito (Estado). 
Mais, poderíamos até defender que os apelos à violência vêm normalmente do lado dos que se dizem defender o contrário, ao fim e ao cabo entidades cuja estrutura determinante é impor lógicas de silenciamento daqueles que são e foram historicamente marginalizados e que ensaiam normalmente movimentos de rebeldia que não devem ser tolerados.

Mas até podemos não dizer isso...
E então, a segurança das pessoas? E os ladrões, que assaltam e roubam a propriedade (mesmo que seja um pão). E o crime organizado, que desfaz completamente o tecido social, a droga meu deus? E os violadores (violadoras, também?), os assassinos de criancinhas, de mulheres indefesas, de velhinhas e velhinhos, enfim, quem nos protege dessa marginalidade que desfeia qualquer sociedade bem-comportada e crente em qualquer divindade?

Acreditam mesmo que é a polícia?
Acreditam mesmo que são os polícias?
Àquelas e àqueles que assim pensam, sugiro delicadamente que vão hoje mesmo tentar subir a escadaria da AR, trepando o tal muro com 2 metros de altura.
Estão à espera de quê?


20 novembro 2019

PARA TI!



No dia de ontem, que marca a minha tristeza, não consegui escrever mais do que estas palavras, que deixei no Facebook:
Se uma morte custa aceitar muito, uma morte destas deixas-nos arrasados.
“Qual é a tua, oh meu”, partires assim, sem estarmos preparados?
Tu, que escreveste a melhor definição para essa coisa tenebrosa que era (é) o FMI!
Lembro-me como te conheci, no longínquo ano de 1975, em reuniões partidárias, tu na tua UDP, eu na minha LCI: num primeiro impacto, achei que eras o tipo mais antipático do mundo.
Hoje, com uma terrível sensação de perda irreparável, penso que és o maior artista do mundo.
Lembrar-me-ei sempre de ti, assim, como nesta bela foto!
Adeus Camarada!












Hoje, ainda que não refeito da perda, quero deixar a inquietação, porque “Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer/ Qualquer coisa que eu devia perceber”, eu sei que sei, mas se calhar não sei. 
Morre o Homem, não morre a ideia, uma frase feita, por quem espera sempre um mundo melhor, que só o será, pela mudança, pela transformação, quiçá mesmo pela Alegria, que o Zé Mário queria já e agora. Subscrevo também que, “Com tantas guerras que travei/Já não sei fazer as pazes”, já não tenho sequer paciência para ouvir certas coisas, tantas que passam por mim e me tentam impingir sei lá o quê.
Tantas “partidas” nos últimos anos, cansam-me, não sei dizer como. Pois se calhar, algum egoísmo, é mesmo difícil ultrapassar, a gente diz que sim, mas fica cá dentro aquela sensação que as “almas jovens”, mesmo as “censuradas” se foram e não voltam, pelo menos a frequentar o mesmo espaço que nós ainda pensamos que é finito. 

O pouco tempo (muito pouco) com que privei contigo, leva-me (nostalgia, pois) para trás, quando quero andar para a frente, que fizemos nós para assim ser, como ultrapassamos?
Quem mais seria capaz de confessar, “Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grândola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois”. Olho para a outra margem e vejo apenas a sombra da tua inquietação. Porventura minha, nossa, que arrepio imenso, diz-me que continuas, vá lá, preciso mesmo.

Numa das últimas entrevistas dizias, sobre a política, que “O capitalismo é que vai conseguir levar à prática aquele apelo do Marx do século XIX: "Proletários de todo o mundo, uni-vos". E os capitalistas de todo o mundo já estão unidos há muito tempo.” Apesar de tudo, continuavas a ser um político.  Andavas por aí a incomodar consciências, ora bem.

Apanhas agora outro barco, sequer sabes do rumo, mas que importa? O que conta é que “Entre a rua e o país/ vai o passo de um anão/ vai o rei que ninguém quis/ vai o tiro dum canhão...”E, claro, o trono é de quem? Pois, e a propósito, farias um “inocente” comentário, “Esta coisa podre em que a gente vive agora faz com que não me sinta bem a cantar as coisas do costume”.

E agora? Olha, eu também “...não meti o barco ao mar/p´ra ficar pelo caminho”, ora porra!

---
(*) Imagens escritas de “Inquietação”, “FMI”, “O Charlatão” e entrevista de 2018

10 novembro 2019

A TAL CIDADE (sempre) MARAVILHOSA 

A Favela da Rocinha
10 minutos a descer, vinte minutos a subir
Podia ser a imagem, de tantas vezes repetida pelo nosso guia Leopoldino, um local, morador na Favela da Rocinha. Ele e a nossa recepcionista do Hotel, que só mostra um sorriso quando lhe manifestamos satisfação, perante um passeio tão maravilhoso, quanto a Cidade onde mora.
Nas restantes cidades do mundo, quem tem dinheiro mora no alto, aqui na Rocinha é mais ou menos o inverso, quem mais tem que subir é quem tem menos hipótese de pagar uma renda, que pode oscilar ente 100 ou 500 reais. Mas, quem pode pagar 500 reais, quando ganha isso, ou pouco mais? Ou menos, ainda haverá casos desses, ou que não conseguem um emprego. Leopoldino é parco em palavras, ou melhor, apesar de dizer muitas palavras, parece falar apenas o suficiente. Todavia, quando tivemos oportunidade, a meio da tarde, de tomar uma caipirinha e falar com o homem do boteco, de uma forma aberta e franca e o ouvimos falar contra o Governo, então a partir daí, o nosso Guia começa outro discurso, a fala de uma homem que vive dos expedientes do turismo, mas que habita a favela, com os irmãos que sobem e descem. O homem da agência fala agora de como era, antes de Lula e como é agora. Leva-nos a ver as ruas novas que foram reconstruídas e a quantidade enorme de habitações que foram atribuídas aos cidadãos. É que acontece que sua avó também recebeu uma, precisamente aquela onde ele vive, porque os pais já se passaram. Diz, “...vê como é rua, dantes era quase nem metade, mal passava um carro”, agora pelo menos há uma (ainda que pequena) mudança.
Um pouco antes, Leopoldino, havia de nos abrir as “Portas do Céu”, onde mora um ancião que tem a chave. Diz que devemos contribuir com 2 reais (45 cêntimos) para a “abertura”. Uma porta que é um bocado de chapa, e que uma vez aberta, nos irá presentear com uma das paisagens mais belas que a Natureza pode oferecer, o Rio a nossos pés, os morros, a Lagoa no seu esplendor, as praias, o mar.


E diz ainda, “o que quer e pode este homem, um ex-capitão, realmente com o mesmo pensar dos antigos coronéis?”. Mesmo admitido que alguns dos da Rocinha, tenham votado (enganados) nele e nos seus capangas. Cedo irão perceber o que ele é e o que representa. 
Mostra-nos com orgulho algumas obras de Oscar Niemeyer, o homem de Olinda e de Brasília, o arquitecto comunista, aquele que sofreu na pele na Ditadura e que foi obrigado ao exílio pelos fascistas, durante 16 anos e que morreu no seu Brasil, com 104 anos.

As visitas
As deambulações pelo Rio levam-nos ao Real Gabinete Português de Leitura , fundado em 1837, situado num edifício meio escondido do século XVIII,  mesmo por trás de um teatro de arquitectura duvidosa e que ostenta uma biblioteca fabulosa.
Uma rua perigosa onde não se deve circular depois do entardecer, segundo consta e aconselha o bom-senso local. Mas era ainda relativamente cedo e decidimos arriscar um pouco e percorrer a rua que leva à praça da estação de metrô Uruguaiana.  Onde vive uma das mais famosas feiras do rio e onde se compra tudo e mais alguma coisa pelo preço da uva mijona. Na rua surge então uma porta que ostenta o significativo o nome de Letra Viva.  Era obrigatório entrar fotografar e curtir mais alguns minutos os livros as revistas novos e usados, de onde aparece um “Assim Falava Zaratustra”, do Nietzsche, por apenas 25 reais, ou seja, mais ou menos, 5 euro e meio.
A biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura conta com 350.000 volumes, sendo a mais valiosa biblioteca de obras de autores portugueses fora de Portugal. São centenas de prateiras de madeira, distribuídas por 3 pisos, num edifício de indiscutível beleza e elegância, de um gótico tardio português do século XVIII (neomanuelino) e que incorpora muitos motivos marinhos e, no exterior, as estátuas de Pedro Álvares Cabral, do Infante Dom Henrique e de Vasco da Gama que alimentam a pedra da fachada exterior do edifício em 1935. Para além do fantástico vitral, envolvido pela abóboda, o nosso olhar queda-se nas prateleiras em castanho e em umas escrivaninhas simplesmente deliciosas.  
Os livros misteriosos, objetos que fascinam e enriquecem a nossa imaginação, como que dançam sem sair do sítio, um desafio permanente para serem tocados e desvendados.

O Tom Jobim
Copacabana princesinha do mar /Pelas manhãs tu és a vida a cantar/E a tardinha o sol poente /Deixa sempre uma saudade /na gente”, é um perturbante esplendor de 8 km, entre Ipanema e Leme. 

O Tom está (ainda) presente neste Rio de Janeiro, qual o mestre que, de qualquer ângulo, ensina a cantar e canta a ensinar. Ele, como as outras e com os outros que neste momento resistem contra a besta que mora no Planalto, vivem no dia a dia sonhando com dias melhores, para sua terra, para suas gentes. Elas e eles que são hoje perseguidos, como no tempo dos coronéis, até mesmo assassinados, como Marielle ou  Anderson Gomes. E mesmo que não tenha sido o Poder a matar, ele é o primeiro responsável, pelo ódio que espelha e que espalha.

E eu vou...
Sim, eu vou, talvez com Caetano,” Caminhando contra o vento /Sem lenço e sem documento/ No sol de quase dezembro...”, pensando em quase nada, a não ser o tal sol (ainda em Novembro, quase Dezembro), vendo os meninos da rua, os sem-abrigo que dormem encostados a qualquer prédio, vendo os fortes gradeamentos nos prédios perto da praia, cheirando os fortes odores a mijo, isso mesmo, no centro da cidade e na praia de Copacabana. Apreciando as muitas e muitas feirinhas de rua, quase tudo nos parece barato, depois da desvalorização do real, comendo fruta que por cá assusta de tão cara, bebendo sumos e água de coco, que cá não há.
Pensando, “Tanto Mar” que nos separa, tanta simpatia das gentes que nos fala, que nos atende, que nos guia, que nos orienta, sempre com aquele sorriso, sempre com o tal sotaque, apesar de, para eles, nós é que temos sotaque. 
Nós, sempre a aprender. Ceto dia, ma praia um carioca explica a duas argentinas, “não se diz eu vou no metro, metro é uma medida, deves dizer, eu vou no metrô”. E não é que tem razão?

Registo devido
Tantas e tantas que falaram e disseram de suas vidas, que poderíamos escrever, nunca mais acabaríamos. Mas mal ficaríamos sem deixar de citar o Leopoldino da Rocinha, a Eliane e o André, com quem trocamos mensagens e sempre ficarão no nosso coração. Eles são tão queridos como este Brasil, esse Rio de Janeiro que nos fascina, que nos aperta, tentamos não moralizar. Daquelas e daqueles que não sabemos o nome de quem lembramos um rosto ou um singelo sorriso, que ficarão sempre connosco.
E de novo eu vou, “... Por entre fotos e nomes /Os olhos cheios de cores...”




05 outubro 2019





Nem o adiantado da hora me impede de vociferar contra a “reflexão”. 
Não é o dia em si, que tem de mal a implantação da República e que tem a ver com a “coisa”, que não deixa que se fala dela, sem ferir os sentimentos pífios do legislador, sensível de tão idiota, estúpido que nem uma porta? 
Porta que fica aberta, para dizer o que me apetece sobre a coisa, de tão gasta pela media (ou midia?) que fica suja de mau uso e não permite limpeza possível. Que me valha, sei lá, santa apolónia, que tem cara de estação e que é rija que nem uma locomotiva! 
Se a futura composição da AR, está dentro (ou fora) da reflexão, que reflictam aqueles (e àquelas) que fizerem a dita prescrição. No seu perfeito juízo, mais valera virem para rua gritar o nome do seu partido, pregando uma partida aquelas (e aqueles) que descansam no pensamento pífio de votar (por exemplo) PRP e se arrependam, pela noite fora, da sua lucubração. Se pensáramos o contrário, lá está o Poeta [1] a avisar “Querer não é poder. Quem pode, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer, nunca há-de poder, porque se perde em querer.”
Ao atacar a instituição respeitável, em coisa tão parva, estamos a praticar a saudável loucura da desobediência, a palavra que os burocratas execram, de tão ofensiva à sua mentalidade de dois neurónios, um pequeno e outro assim-assim.
Mandemos pois às malvas a reflexão, só iremos reflectir quando nos aprouver. Era até simpático que me viessem impor uma multa, que nunca seria paga, à luz do altíssimo e digníssimo estupor que mora na cabeça do legislador, morto que está na sua toca onde ninguém ousa entrar de tão fétido que caga as tais postas da pescada mais podre do mercado de futuros, perdão do futuro.
Disse.

---
[1] Fernando Pessoa

17 setembro 2019

ESQUERDA: REFORMISTA OU REVOLUCIONÁRIA?

 
A aproximação do acto eleitoral de 6 de Outubro 2019, coloca questões novas, porventura não discutidas ou simplesmente ignoradas antes. Talvez porque a conjuntura político-partidária do nosso País induza a necessidade de abordagem e ainda de juntar a essa análise alguns elementos adicionais, que remontam à história das ideias e dos conceitos, que fazem parte do imaginário colectivo das pessoas e dos partidos que supostamente as representam.
Esquerda e Direita que já foram declaradas como mortas em tempos de “aproximação das ideologias”, ganham força e estatuto, no início do seculo XXI, determinam e são determinadas por conjunturas próprias e bem definidas, nos países desenvolvidos e naqueles que são considerados em desenvolvimento, em todos os continentes, ganhando naturalmente no chamado mundo ocidental, a relevância que lhe é reconhecida. Por factos concretos, avanços e recuos do processo de transformação das sociedades, têm lugar nos quadrantes políticos, nas mais diversas movimentações, tendo em vista um posicionamento determinado e que lhes confere a importância de representação de interesses sociais bem definidos.
 
Após as crises recentes do capitalismo, que determinaram o reforço do chamado ordoliberalismo, o mundo ficou porventura mais rico, em termos de contributos da Esquerda. Esta continua a fazer um caminho difícil, mas decisivo, em prol da defesa da emancipação dos trabalhadores e da definição de propostas políticas que visam a libertação e a autonomia das pessoas e dos Estados, face à dominação do capital e à exploração que subsiste, em pleno século XXI e que determina, em alguns casos, a condição sub-humana de populações inteiras, fome e miséria nos mais desfavorecidos, pobreza encapotada em situações conhecidas e, ao reverso, ricos cada vez mais ricos, salários de luxo e rendas distribuídas, maus negócios para o sector público, ao mesmo tempo que se ataca este, para prover a negócios privados de reconhecido significado.

A prevalência de um cenário pré-eleitoral induz a manifestação de posições. Pessoas e organizações vão produzindo opinião, as redes sociais são inundadas por declarações mais ou menos esclarecidas. Talvez um denominador comum a muitas delas seja a circunstância da produção de balanços e comparações, no que concerne ao País e à sua situação em concreto. Por um lado é reconhecido que recuperamos salários e pensões, que foi melhorada a “imagem externa do País”, que se avançou em sectores como os transportes e o passe social, a recuperação de algum terreno no campo da educação e formação e que, em alguns casos, a soma dos votos à esquerda na AR, foi capaz de aprovar algumas medidas concretas, em favor dos trabalhadores. Contudo, por outro lado, continuam a verificar-se profundas desigualdades e uma enorme fraqueza no que toca às posições, sempre conflituais entre trabalho e capital, com o Governo do PS sempre ao lado deste e em desfavor dos trabalhadores. Os constrangimentos causados pelo profundo seguidismo das políticas do europrupo, são exactamente as mesmas que no tempo do governo PSD/CDS, apenas a conjuntura mudou, o resto permanece exactamente na mesma. A perspectiva rentista do capital continua a nortear as políticas económicas e, no plano financeiro, nada mudou, é a mesma submissão à dominação, o mesmo enlace. Também, no que reporta ao plano internacional, a mesma subserviência às políticas de guerra da NATO e dos seus aliados. Sempre que foi necessário “afrontar”, mesmo que de mansinho, os poderes instituídos, o Partido Socialista mostrou a sua face pior, nada diversa da Direita tradicional: saúde, banca, dívida, uma primeira (quase) aceitação de posições da Esquerda e depois, no ajuste final, a capitulação face aos interesses económicos estabelecidos. As últimas declarações do PM são demasiado esclarecedoras, “...nada de aumentos que afectem a competitividade das empresas e a estabilidade macroeconómica em Portugal”, “...somos o partido do bom-senso”. Afinal, para provar o que é esperado, manutenção de uma “ordem social” perversa e sempre em favor do capital e da banca. 

O cenário pré-eleitoral e uma interpretação das famílias políticas
Faltam 20 dias para o acto eleitoral e a única dúvida, com diversas interpretações, parece ser se o Partido Socialista terá ou não a maioria absoluta. Tudo se parece resumir a isto e parece que não há mais nada para discutir, para debater, para analisar, para considerar. O debate político confina-se a saber se a maioria absoluta, que alguns dizem estar perto, outros nem por isso, é ou não solução para o País. Muito embora se conheça a experiência de uma maioria absoluta do PS e alguns “intérpretes” (incluindo o actual PM) continuem a ser Poder. Muito embora as declarações até agora produzidas sejam suficientemente claras quanto a intenções (...).
Levanta-se hoje uma questão que pode ser considerada nova, no panorama partidário português. Um partido (PAN), que até agora era marginal, é catapultado para um patamar “superior”, por se admitir que é capaz de ser importante para a definição de uma nova maioria parlamentar, por um lado insólita, por outro lado, realmente possível. E só isso, diz muito da verdadeira natureza do Partido Socialista, que parece ver na Esquerda um suposto empecilho, a acreditar na mensagem passada por um militante, que pode dizer aquilo que um dirigente (nomeadamente Costa) não pode.
Resumir o debate político à questão da governação, é redutor e banalizador. Contudo, é o que temos, no momento presente.

É possível um cenário diferente?
Mas há ainda uma questão nova. Porque parece configurar-se uma aproximação entre a ala esquerda do PS e o BE, que pode significar uma reconfiguração no cenário partidário, uma certa tendência de interpretação de uma “social-democracia de esquerda” que, a ser viável e organizacionalmente realizável, poderia ser um Sirysa português. E, por outro lado, poderia levar a uma outra aproximação, entre a ala centrista e direitista do PS e o sector reformista de Rio no PSD, um novo partido político de características “populares”, encostando o CDS à extrema-direita (ou a interpretação da mesma, à portuguesa)
A ser assim, um hipotético cenário idílico de famílias políticas próximas estaria no horizonte no futuro próximo. Quem duvidaria da eficácia de uma tal solução, que inclusivamente serviria para desenhar melhor os contornos do panorama partidário em Portugal e poder realizar ou melhor concretizar os ensaios de uma pequena burguesia conservadora, imobilista e com horror ao vazio?
E, a ser assim, poderia desenhar-se, num futuro próximo, o renascer de uma possível dualidade de poderes entre dois blocos, um “trabalhista-reformista” e o outro, popular de direita, ou seja, social-democrata de direita.
 E finalmente tudo voltaria a ser o que era dantes, dado que as reais considerações de base, assentes num “reformismo pragmático” sejam do real acordo de uns e de outros, afinal uma prática conhecida de alguns países da Europa dentro de uma União contrária às transformações e ao conflito social.

Explorando a noção de “conflito social”
Enquanto o sonho não se transforma em realidade, caso seja essa a orientação do futuro próximo, começa a adquirir algum sentido, uma real definição de uma linha orientadora que se pretende necessariamente conflitual e, eventualmente, desrespeitadora da ordem social estabelecida pela burguesia e pelo capital. É útil e urgente, equacionar tal perspectiva, naquilo que pode ser considerado um desvio necessário no campo da Esquerda.
Para lhe definir os contornos e para o revestir de uma verdadeira matriz política, há que definir, à Esquerda, um autêntico programa político. Esse programa é necessariamente a base de uma política, programática e ideológica. Que marca bem a diferença entre opções de Esquerda e opções de Direita.
E a base deste desse programa, deve ter em linha de conta a “desobediência institucionalizada”, para necessariamente chamar a atenção e para ser capaz de polarizar as franjas da pequena burguesia, eventuais apoiantes de uma linha política não-reformista.


A questão de fundo: uma Esquerda reformista ou revolucionária?
É, a nosso ver, a questão central e que determina, quer o programa, quer a acção prática, estratégia e táctica, de uma Esquerda que queira assumir-se como alternativa ao Poder, autónoma e sem concessões, com um programa próprio, que lhe proporcionará respaldo suficiente para estabelecer acordos e parcerias.
Que seja capaz de romper com a Europa, com os tratados europeus e com a moeda única, com a NATO, enfim com a ordem social que neste momento se apoia na dominação, na exploração e no medo. O traçado das linhas orientadoras das políticas deve ser cuidadosamente considerado como o primeiro fundamento conceptual.
Paralelamente, devem ser incluídas na análise, as bases fundamentais de contestação política, nomeadamente aos seguintes níveis:
·      nas questões sociais e de cidadania, onde se inserem, o trabalho e emprego, a educação e a formação, a participação comunitária, o desporto e o lazer e que implicam necessariamente a critica profunda aos baixos salários, à condição tipificada na concepção “trabalhar mais e cada vez mais tempo” e à designada “concertação social”.
·      nas questões ambientais, assentes na base da ecologia profunda, agindo sobretudo nas causas, mais que simplesmente nos efeitos e que ultrapasse o designado “ambientalismo”, na denúncia do sistema capitalista, como responsável primeiro pela degradação da Natureza e da Vida, e da denúncia de todos os agentes, que legitimam as opções pelo capitalismo ordoliberal, numa perspectiva de luta contra os efeitos maléficos das alterações climáticas: superprodução de bens, concentração da distribuição, sinónimos de um modelo de desenvolvimento baseado no crescimento infinito e a qualquer preço;
·      nas questões da cultura e do direito à sua fruição.
·      nas questões da saúde e da defesa efectiva do SNS.
·      nas questões de território, onde as políticas de direito ao espaço público, de habitação e de descentralização efectiva, ganham foros de importância acrescida. E onde cabe naturalmente, a definição de políticasde transportes e comunicações, para mais e melhor mobilidade dos portugueses e adequado transporte de mercadorias;
·      nas questões da energia, assentes nas premissas da eficiência, da soberania energéticae do aproveitamento dos recursos endógenos;
·      nas questões da Ciência, ligadas ao ensino superior e à investigação e pesquisa;
·      nas questões da deficiência e dos direitos das pessoas.
Uma solução deste tipo, longe de ser popular, longe de ser consensual, pode contar com adeptos seguros em partidos, organizações ou associações, conotados com a Esquerda, uma vez que só à Esquerda será possível resolver as questões da dominação, da exploração, da desigualdade e miséria.
A Esquerda deve encontrar o seu próprio caminho e deve ter ambição de tomar, de facto, o Poder, consolidando e dando corpo a uma democracia consentânea com um novo modelo de desenvolvimento, assente no equilíbrio entre as nações, na solidariedade internacionalista dos trabalhadores, na Paz e nos Direitos Humanos.

Poderá ser esta, uma proposta para uma autêntica campanha eleitoral?