rio torto

rio torto

25 abril 2011

SEMPRE!








Ali está o rio
Dois homens na margem estão
Se um dá um passo o outro hesita
Será um valente? O outro não?
Bom negócio faz um deles
Tem o triunfo na mão
Do outro lado do rio
Só um come o fruto, o outra não
Ao outro passo o perigo
Novos castigos virão
Se ambos venceram o rio
Só um tubo ganha o outro não
Na margem já conquistada

Só um venceu a valer
Perdeu o outro a saúde
Mas nada ganhou p´ra viver
Quem diz "nós" saiba ver bem
Se diz a verdade ou não
Ambos vencemos o rio
A mim quem me vence é o patrão


Ali Está O Rio”, Zeca Afonso


Sempre, a palavra que acompanha o 25 de Abril. Sempre. Nunca nos cansamos de descer a Avenida, com palavras-chave, uma ordem de liberdade não concedida, porém conquistada. Ano após ano renovamos a esperança com cantos de luta, a cantiga sempre foi uma arma, contra o esquecimento a indiferença. Tanto mar, aqui e além, tão longe e tão perto que nos assusta a velocidade do tempo, um contra-relógio, turbilhão de ideias e sentimentos encontrados. Sempre, vá lá saber-se porquê, desencontrados, desenquadrados do pensamento oficial, de uns quantos que parecem ser proprietários disto tudo, distorcendo o que construímos dia a dia, desde que selamos o pacto contra a ditadura fascista, naquela manhã. Sempre do lado esquerdo de um rio com “… barcos pintados de muitas pinturas”, desafiando o tempo que é sempre o nosso, igual e todos os dias diferente. Desde que subimos o rio, deparamos com os escolhos de um tempo austero, um esforço titânico de sobrevivência difícil, escolhas de percurso quiçá mal definidas, ao sabor de uma maré que nos disseram ser a corrente que convinha. Sempre duvidamos, sempre questionamos. Agora que muito tempo passou, não temos já a mesma força, nem temos connosco quem mais gostaríamos, poderíamos questionar se ainda vale a pena descer a Avenida. Então, vem à memória a mesma palavra batida: SEMPRE. Porque, a rua é nossa e a liberdade que nela mora, não é de forma alguma negociável. E se pensamos o que nos resta, lembramos a indignação e levantamos bem alto a bandeira vermelha da insubmissão e da revolta. Porque, neste rio, “… isto que é de uns / também é de outros / não é mais nem menos…”. Das memórias que guardamos, fica uma que teimosamente nos acompanha, hora a hora, dia a dia, por este rio acima. Sempre!
----
Referências:
• “Ali Está O Rio”, in: “Enquanto Há Força”, Zeca Afonso, Lisboa, 1978
• “Por este Rio acima”, Fausto Bordalo Dias, Lisboa, 1982


18 abril 2011

NOBRE?



“… Chegam depois boas maneiras

Com anéis e pulseiras,

de sapatos de salto

São as bichas matreiras,

que só dizem asneiras

São rapazes pescados no alto E o que resta

É pó de talco…”


Café”, José Carlos Ary dos Santos, 1973



Da nobreza da atitude, pouco sobra para o que quer ser tribuno, mas o maior de entre eles. De tal forma, que não deixa espaço de manobra aos demais: se não o elegerem como chefe máximo, os abandona, porque o seu anseio não é sentar-se com eles. Enfim, um nobre. Não de atitude, mas sim daquela nobreza bafienta, de uma monarquia obsoleta, porque quem sempre demonstrou simpatia. Mistura tudo e todos, numa amálgama esquizóide, com uma linguagem que não difere muito de um Berlusconi, ou dos “modernos” populistas trauliteiros no norte da Europa. Salvaguardadas s as devidas diferenças, que muitas serão, na forma de ver um mundo em mudança, mais valera que continuasse a fazer o que bem fazia, em vez de se tornar naquilo que se vê: um palhaço (sem ofensa para os que o são, na arte) que come da mão de quem lhe acena, mais um aninhado à vergonha da mesquinha e oportunista política, mais um cinzento (pintado agora de laranja…) a acrescentar à longa lista de incompetentes.

Só para lançar a confusão? Manobra publicitária negativa? Contra-informação? Ou o homem está mesmo convencido daquilo, a mais abstrusa retórica, levado ao extremo do risível. O Poeta tem razão: afinal, o que resta, é mesmo…. pó de talco!

08 abril 2011


A ignóbil ameaça

Parte 5: os Abutres Onde se fala de quem se alimenta dos despojos, aqui e ali, sempre dos mesmos…





Abutres da pior espécie. Estes horrendos personagens que se dedicam á pilhagem organizada, através de uma actividade negocial perfeitamente legalizada, com esta divisa: enriquecer o mais rapidamente possível, sem olhar a meios e pagando ao Estado o mínimo possível, com a complacência completa dos responsáveis máximos deste e de outros governos cúmplices. Estado que sempre lhes vai prestando vassalagem, com argumentos que roçam o ridículo, não fora a gravidade da situação. Há uns meses atrás, o governo “socialista” dizia que era necessário ter (leia-se, o País) uma banca forte, para aguentar tempos de crise. Os sinais vindos a público em Fevereiro, confirmavam: “Quatro bancos lucraram 3,9 milhões de euros por dia” e ainda “BCP, BPI, BES e Totta tiveram um resultado líquido positivo de 1,43 mil milhões de euros em 2010” e mais ainda, que tal se deveu fundamentalmente ao que pagaram de imposto “…, no total o imposto pago somou 134,8 milhões de euros, que representa uma descida de 56% face a 2009(1) . Para finalizar este leque de dados, ficava a saber-se que “o BCP sobe os lucros e aumenta capital em 120 milhões de euros, aumentando os resultados em 34%(2) . A avaliar pelos dados, a banca está portanto forte, como Sócrates pretendia, engordando sucessivamente, tal como sanguessuga muito pior que a outra, porque se alimenta da miséria. Repito, está duplamente forte: porque, os fabulosos lucros que detém, não são taxados como deveriam ser e ainda, porque montam engenhosos processos financeiros para colocar esses lucros, em off-shores e paraísos fiscais. A notícia vinda a público de que a banca portuguesa não estaria na disposição de financiar o Estado, uma vez que “deixou de haver condições…” é de um requinte malévolo, acintoso e repugnante. O terrível Bando dos 4 , já deve neste momento ter definida a estratégia de assalto final às finanças públicas esperando a melhor oportunidade para atacar de novo, no momento propício, na nova cena(seja ela qual for) que se desenha. Dos 3 leaders dos bancos privados não era de esperar outra coisa, afinal: eles controlam, como marionetes todas/os, as/os políticas/as profissionais do centrão ( PS+PSD) ; controlam e dão ordens directas e cirúrgicas, definem as regras, encenam com a devida antecedência todos os cenários, estão presentes sem o mínimo pudor, em todos os palcos de decisão, deste País no qual põem e dispõem, cada vez com mais …. Do leader da C.G.D. , o banco do Estado, a única resposta possível seria o imediato afastamento compulsivo do cargo que ocupa, sem direito a indemnização alguma; este aspecto é muito importante, uma vez que tal verba deve ultrapassar largamente o que o governo “socialista” queria retirar às pensões mais modestas, no “falecido” PEC IV. Atrevo-me a propor uma nova versão daquele, porventura com outra terminologia mais adequada ao momento. De facto PEC, querendo traduzir a ideia de Plano de Estabilidade e Crescimento, redundou exactamente no oposto. Ironia suprema: não é Plano, apenas uma manta de retalhos que parece(ia) não ter fim, trouxe mais instabilidade e recessão, em vez de crescimento. Aposto pois num PNB que, embora já tenha patente consignada, na gíria económico-financeira, passa a ser sumariamente: Plano de Nacionalização da Banca. E, para que seja possível, viável, aplicável e devidamente ajustável e enquadrável numa putativa resposta à ”crise deles” proponho ainda o PSE, simplesmente: Plano de Saída do Euro, uma meda que a todos (?) inebriou no longínquo 2002 e que, para mais não serviu que aprofundar a pobreza dos pobres e enriquecer diariamente a riqueza dos ricos, redundância já perdoada pelos leitores mais simpáticos. Otelo, volta, estás perdoado! Não queres meter estes (e mais outros que depois te direi…) no Campo Pequeno? Não, não é no Centro Comercial, é mesmo na Praça de Touros, que poderá ser renomeada para PS-PSD-CDS: PRAÇA SOCIAL para PESSOAS SEM DESCARAMENTO: CATIVEIRO DEVIDAMENTE SELECIONADO -------

(1) JN, de 9 Fevereiro 2011, página 4

(2) Diário Económico, de 3 Fevereiro 2011, página 34

25 março 2011

O PARADIGMA DO (DES)ENGANO



Ironia, verdadeira liberdade!
És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos, da veneração da rotina,
do pedantismo das ciências, da admiração das grandes personagens, das mistificações da política, do fanatismo dos reformadores, da superstição deste grande Universo, e da adoração de mim mesmo

PROUDHON, J.[1809-1865]







Quis o destino que saísse de cena num dia de sol, ofuscado porventura pela claridade de inexistentes holofotes de uma fama efémera. Sempre foram 6 anos de circunstâncias contraditórias que, em alguns deixou marcas encantatórias, não suficientes contudo para lhe conferir o lugar que quiçá ambicionaria para si e para o séquito de aprendizes que constituiu. Com tiques e truques que, diga-se de passagem, produziram alguns efeitos especiais num universo limitado, que muitas vezes confundiu com uma realidade que raramente se deixa trair. Traição sim, já que personagens assim merecem o julgamento de quem os pôs em cena, o preço que se paga pela negação de princípios e pela violentação de aspirações legítimas. Quem fala e age com a autoridade de uma razão, disfarçada com aquele rigor que tantas vezes invocou para tomar as tais medidas que todos deveriam aceitar, porque provinham de um desígnio nacional, muito acima dos pequenos interesses, sonha e acorda agora, aparentemente espezinhado por aqueles que sempre protegeu e acarinhou. Quatro longos anos confortado por uma maioria, que esperaria algo diferente, não foi capaz de construir um edifício seguro para uma família desfavorecida, preferindo alimentar interesses, apadrinhar medíocres funcionários, proteger protectorados instalados, cimentar desigualdades. No limite, contribuiu para teorizar um paradigma de desencanto, protótipo de um desengano generalizado. Quem porventura levantasse a voz dentro de casa, era imediatamente silenciado, renegado para o armário das recordações, ou mesmo atirado borda fora, devidamente epitetado de extremista, radical, ou qualquer coisa do género.

Os que protegeu, agora querem mais, sempre mais, uma desmedida ganância que vem de trás, de muito longe. Que sempre se aproveitam da desgraça alheia, para se alcandorarem na cena, um patético espectáculo de mentira, alimentado pelos comentadores arregimentados pelas agências para-governamentais que, todos os dias, nos entram pelos ouvidos, pelos olhos, distorcendo a realidade.

Antes de sair de cena, digamos que preparou o terreno. Ninguém melhor que ele, para alimentar o paradigma do desengano. Uma brilhante jogada, alicerçada na tese de que os culpados da dívida pública são os funcionários, os reformados e os doentes. A realidade é contudo bem diferente, já que foram as políticas de redução fiscal que obrigaram as administrações públicas a endividar-se junto dos agregados familiares favorecidos, através dos mercados financeiros, de modo a financiar os défices gerados. Ou seja, com o dinheiro poupado nos seus impostos, os ricos puderam adquirir títulos (portadores de juros) da dívida pública, emitida para financiar os défices públicos provocados pelas reduções de impostos. De facto, o aumento da dívida pública é o resultado de uma política que favorece as camadas sociais privilegiadas: as “despesas fiscais” (descida de impostos e de contribuições) aumentaram os rendimentos disponíveis daqueles que menos necessitam, daqueles que desse modo puderam aumentar ainda mais os seus investimentos, sobretudo em títulos do tesouro, remunerados em juros pelos impostos pagos por todos os contribuintes. Este é pois um perverso mecanismo de redistribuição invertido, das classes populares para as classes mais favorecidas, através da dívida pública, cuja contrapartida é sempre o rendimento privado.

A cena, agora em regime de vacatura, está aberta a novos protagonistas. Aqueles que se perfilam, acobardam-se na mentira, na corrupção, no favorecimento de negócios especulativos e na destruição das políticas de desenvolvimento. Desses, não é de esperar coisíssima nenhuma, a não ser a malfadada austeridade, que recairá sempre e mais uma vez sobre os culpados do costume.

Recuando seria bom ao tempo das Farpas, onde se apelidavam alguns personagens da cena de canalhas, bandalhos e outros epítetos, ora politicamente incorrectos, mas cuja transposição não seria de todo despicienda…
-----------
Referências:
Askenazy , P., (2009) “De la dette et la crise en Europe
Ziegler, J., (2002), “Les Nouveaux maîtres du monde et ceux qui leur résistent

21 janeiro 2011

Manipulação, aldrabice, descaramento…

Por vezes a mentira
exprime melhor do que a verdade
aquilo que se passa na alma


Do Livro dos Conselhos

Ultimo dia de campanha, marcado pela desfaçatez de Cavaco ao propor um imposto extraordinário sobre os rendimentos e ao dizer que havia outras soluções que não os cortes de vencimentos. Criar um imposto para os ricos, ele que patrocinou sempre a defesa dos interesses daqueles é, para além de um exercício rasca de demagogia e de caça ao voto dos incautos, um descaramento só possível de um homem que mente, que engana, que insulta aqueles que julga representar. Envolvido, se sabe hoje, em mais uma data de ilegalidades e de fraudes fiscais relacionadas com a moradia do Algarve, o homem tem ainda a ousadia de ameaçar o País com o fantasma patético de uma subida das taxas de juros da divida soberana, caso haja uma segunda volta.

É bom que saiba que alguma comunicação social o leva ao colo. O grupo Marketest fez, uma vez mais, a encenação para a montagem de uma putativa vitória. E logo à primeira volta. Numa sondagem do inicio da semana, a empresa, aliada à TSF e Diário Económico atribui a vitória a Cavaco, com mais de 70% dos votos. Esta sondagem é feita com base numa ficha técnica onde, por exemplo, são inquiridas 155 pessoas no Litoral Norte, sem inclusão do Grande Porto, quase no mesmo número que em Lisboa, onde existem 2,5 milhões de eleitores e onde o Interior Norte tem 181, ou seja mais 25 que a Grande Lisboa. Isto não é uma sondagem, mas muito simplesmente uma fraude montada por quem de direito (!) para manipular o eleitorado e condicionar o seu voto. Aliás, o “parceiro” TSF tem vindo a desenvolver uma insidiosa campanha de manipulação da opinião pública, desde há muito tempo, valendo-se do estatuto que julga ter, de maior rádio do País. Diz a Marketest “Desenvolvemos Estudos para fornecermos aos nossos clientes Informação com Qualidade, Rigor e Independência prestando assim, um serviço de reconhecido valor acrescentado(a) . Nota-se mesmo o Rigor, com maiúscula e tudo! Em sucessivas eleições, as suas “sondagens”, nunca sequer se aproximaram da realidade. “Aldrabice pura e dura(b) , assim o classifica hoje, de forma clara, António Vilarigues. Nem mais!

Estes são os agentes dos donos de Portugal. Desmascará-los é pois a palavra de ordem. Bem vistas as coisas, num estado de Direito, esta empresa e os seus aliados deveriam ser avaliados pelo mau serviço que fazem e que prestam ao País. Estamos no direito de presumir por quem são pagos para emitirem tais desmandos. A forma como transmitem as notícias, a interpretação que delas fazem, a forma como as apresentam (Cavaco chega aos tantos por cento, Alegre não consegue mais que…, Francisco só atinge…), sem o mínimo de rigor e imparcialidade, com toda uma carga intencional onde se discorre um único objectivo.

Uma vergonha!
-----------
(a) Site da Marketest, in: http://www.marktest.com/wap/a/q/id~c7.aspx
(b) Jornal “Público”, 21 Janeiro 2011, página 38

18 janeiro 2011

Ele e Ele…



De todas as coisas seguras,
a mais segura é a dúvida


Do Livro dos Conselhos





Fez a desdita que um dia subisse das profundezas do País obscuro, o personagem cinzento que, a propósito da rodagem de um vulgar automóvel e encalhasse algures na Figueira da Foz, para salvar o partido e, quem adivinharia então, a pátria. Saber-se-ia depois o seu apego às coisas singelas da vida pequeno-burguesa, quiçá retrato de um País ainda mal refeito de uma revolução, cujas marcas por ele não teriam eventualmente passado. Do pouco que dele se conhecia, ficariam entretanto tristemente célebres os registos do tabu, do homem que não tinha dúvidas e raramente se enganava, que não lia jornais. Professor de Finanças, 1º Ministro, um caminho curto e rápido, para meter o país na ordem, dos desvarios revolucionários, radicais e extremistas. Expressão firme e hirta, fala contida, tremeliques de palavra, algum desdém pelas regras democráticas, desprezo quase constante pelo contraditório, termo que aliás não caberá no seu parco vocabulário. Após um interregno sabático, em que se terá dedicado ao aprovisionamento de alguns duvidosos títulos da banca, eis que o homem consegue a Presidência, fruto de uma dádiva confucionista da esquerda maioritária, num arremesso de autoridade que, no final do mandato era por demais notório, Se tivessem ouvido os meus conselhos


Do outro lado, enterrado pela História, o outro ele poderia segui-lo com alguma expectativa, se a natureza não fosse o que é. O mesmo percurso, a mesma contenção, os tiques mais ou menos autoritários, uma assustadora réplica que, podendo parecer desajustada, não o é contudo na forma e quiçá no conteúdo. Dois exemplos porventura significativos. A forma como ambos se referem à Mulher e à Pobreza. Que bem que ficaria Maria, nos chás de caridade do Movimento Nacional Feminino, a recitar banalidades e a arranjar madrinhas para os soldados. O ele da direita poderia fácilmente dizer da governanta, “Esta é a minha senhora. Esta senhora trabalhou praticamente a vida toda. Sabe qual é a reforma dela? Não chega a 800 euros por mês. Foi professora em Moçambique, em Portugal, nunca descobriram a reforma dela. Portanto depende de mim, tenho de trabalhar para ela. Mas como ela está sempre ao meu lado e não atrás, merece a minha ajuda(a) . As palavras valem o que valem, não merecem qualquer comentário, mostram porém a pequenez de espírito e a moral de quem as profere.


Do ele da esquerda, salvo seja, diria Defensor porventura a frase mais emblemática da campanha, “Não suportou que eu o olhasse nos olhos…” (b) . Desconcertante constatação, o homem de facto não olha para nós, aliás não é capaz de sorrir, apenas de um esgar de tédio mal disfarçado. Gosta de mandar, pois pensará, como o outro, que é um desígnio dos homens providenciais, “Se soubesses o que custa mandar, gostarias de obedecer toda a vida(c) .


Num gesto incontido, como na imagem, a mão direita levantada poderia, talvez um pouco mais esticada, assemelhar-se à saudação preferida do outro, num arrebato típico do palhaço Strangelove (d) . A distância que os separa, que nos separa, não permite devaneios destes, que nos perdoe a asserção, fica somente o registo, só para se saber que a gente não esquece.
O ele que já foi, quando confrontado, mandava-nos para a PIDE, o ele que existe, quando acossado, manda-nos para o site. Sublime diferença, típica da era digital, da sociedade dita da informação. Sobre ela, e nela, tudo é aparentemente viável. Tudo é virtualmente possível. Até fabricar e manipular sondagens que, desde muito antes do início das campanhas, orientam o dito eleitorado, figura suprema da democracia representativa, guindada aos píncaros da bondade do voto directo e isento. Nada mais falso, há agora, muito mais que no tempo do outro ele, todas as possibilidades de eleger um macaco para presidente, se essa for a vontade dos donos de um qualquer poder.


Num exercício de liberdade criativa o ele vivo decerto iria subscrever, como muitos já o fazem e não pensam nisso, a sentença fatal do ele já morto, “Quem se coloca no terreno nacional não tem partidos, nem grupos, nem escolas...” (e).


Alguma coisa de válido neste ele que ora se perfila para mais 5 anos? Nada encontro, por mais que procure. Fez roteiros para a inclusão, pois sim, só se foi para nos incluir no seu pensamento retrógrado e retorcido. Com ele, Portugal ficará decerto mais cinzento, mais injusto e mais desigual. Haverá quem nele encontre algo de interessante? Claro que sim, o termo não é pacífico sequer, uma vez que deriva de interesse; e ele defende mesmo interesses, só que nenhum dos interesses que lhe interessam, me interessa particularmente. De todo.

-----------
(a) Discurso de Cavaco Silva, Ponte de Lima, 14 Janeiro 2011
(b) Revista “Visão”, 13 Janeiro 2011
(c) Referência a uma das “máximas” da A. Oliveira Salazar
(d) Referência à obra co-escrita, dirigida, produzida e realizada por Stanley Kubrick , “Dr. Strangelove”; filme, EUA, 1989
(e) Salazar, A. Oliveira, "Discursos”, Lisboa, 1935

31 dezembro 2010

A Voz que é preciso em 2011!
“…Em Lisboa fica o Tejo a ver navios
dos rossios de guitarras à janela…

Foi por ela que eu passo coisas graves
e passei passando as passas dos Algarves
com tanto santo milagreiro todo o ano
foi por milagre que eu até nasci profano
…”

“Foi Por Ela”, Fausto Bordalo Dias













Se há um ano atrás esperávamos mudar o Mundo, ou simplesmente alguma coisa para melhor, encalhamos hoje num porto que de seguro nada tem, a não ser a amarra que nos liga teimosamente à luta. Já não há rossios de guitarras à janela, que foi por ela (a luta) que eu passei das minhas contas, canto que é de Amor, mas de Luta também, precisa mais que nunca, como resposta à ignóbil ameaça que enfrentamos. Pois que acabamos o ano como começamos, será uma sina, será que é fado, será que ainda é o bolorento e cinzento ar dos brandos costumes do fascismo, agora temperados pela voz de um senhor que manda e quer mandar mais, candidato que nos quer calar, porque diz, fala-se muito e muito alto, ora essa, mas a gente quer é gritar que não está de acordo! Não senhor, embora possa parecer, a gente quer é varrer isto tudo, a gente quer dizer aoTejo, “lava a cidade de mágoas / leva as mágoas para o mar / lava-a de crimes e espantos / de roubos, fomes, terrores, / lava a cidade de quantos / do ódio fingem amores / Afoga empenhos favores / vãs glórias, ocas palmas/ leva o poder dos senhores / que compram corpos e almas…” . Esperança é aquilo por que se luta, passar a palavra, porque amanhã pode ser tarde demais, hoje pois, é como se fosse já amanhã, nem tarde nem cedo, espero que estejas sempre comigo, que não percas nunca este rumo, simples acorde, qualquer que seja a letra, é a tua porque sabes o que queres, que mais se pode desejar para um ano que à porta está e tens que o deixar entrar. Frio no Norte, ou trinta e tal graus no Sul, desde que não se deixe esvair o tropical sentido na lapela, ontem mesmo hoje e sempre ainda agora
----
Referências:
o “Foi Por Ela”, Fausto Bordalo Dias, “Para além das cordilheiras”, 1987
o “Tejo Que Levas As Águas”, Manuel da Fonseca e Adriano Correia de Oliveira, “Que nunca mais”,1975

12 dezembro 2010

Brava era a Avelã



“… E, contudo, cada indivíduo parece trazer à sua volta um halo de intangibilidade divina…”

Placa à entrada da aldeia, de Miguel Torga, in “Diário VII, 3ª edição revista, pág. 185/186”
















Brava era a Avelã. Em tempos porventura remotos, que difícil é sempre medir o Tempo, em tempos que outros valores se parecem levantar. Deles entretanto fala sempre a natureza agreste da Terra Fria, onde quentes são as gentes e os modos como nos recebem e acarinham. E há os cheiros e os sabores, misturados com os vinhos, as aguardentes que temperam os repastos a qualquer hora. Porque andamos sem relógio, sem tempo determinado, sem aquelas obrigações que tolhem o dia-a-dia e, por vezes, as consciências. Recordamos os tempos da Guerra Civil espanhola, onde tantos resistentes foram assassinados, a aldeia guarda as memórias de algumas e alguns que defendiam a liberdade sem fronteiras, quando estas eram implacáveis para quem ousasse atravessá-las. Lembramos tempos em que o contrabando era uma arte, de fuga às regras das ditaduras de cá e de lá. De trás dos montes surgiam de quando em vez, sinais de revolta às tiranias, dos ecos poderiam falar as velhas pedras, caso lhes fosse possível o devaneio. O Pinto que o diria, se cá ainda estivesse, as estórias que contaria, das fugas e das traições, das cumplicidades dos camaradas das mesmas lutas de outrora e que hoje nos conta o Zé, nosso anfitrião. Ele e a Carminda, amigos de longa data, que souberam transformar as casas antigas em atraentes lares de refúgio, que desafiam a paisagem da albufeira, acrescentando valor ao belíssimo enquadramento daquela com a serra. Não há nada que falte, está tudo lá, a terra faz o resto: o limonete e o hipericão do Gerês, para o chá, a couve para a sopa, o tronco para a lareira., que quente faz o frio lá fora. Lembro Miguel Torga que à entrada da aldeia, atesta na pedra. “Por mais que tente, não consigo reduzir estas vidas de planalto a uma escala de valores comuns…”

Avelã Brava, Negrões, uma força incomensurável da Natureza…

22 novembro 2010

NÃO AO TOTALITARISMO ORGANIZADO (NATO)


Pactos e alianças são um bom remédio
Para entreter marechais e lhes combater o tédio
…”

Máquina Zero”, Rui Veloso, in “Guardador de Margens”, 1983








A ocidente nada de novo. As mesmas ideias, os mesmos conceitos, os mesmos intervenientes, a mesma presunção de sempre: o domínio do Mundo, uma estratégia conhecida, a organização totalitária da violência belicista. Ainda que mascarada, pela “nova” linguagem da direita, uma “Aliança de Democracias”. Passearam-se em Lisboa, a alta velocidade, teóricos, militares de carreira e de caserna, consultores de segurança e claro, políticos empenhados na “causa”. A bem da “estabilidade”, do "diálogo constante", da “concertação”, cortaram a 2ª Circular, o Eixo Norte-Sul, ocuparam com pompa e circunstância uma cidade, um simbolismo que mais parece um paradoxo. Houve quem dissesse que tinham “…transformado o Parque das Nações no mais belo bunker do Ocidente”(1) . Isolados das pessoas comuns, eles são mesmo assim, ao fim e ao cabo são essas pessoas comuns que lhes pagam a factura da “segurança”, eles têm que ter segurança, a sua defesa pessoal não pode ser ameaçada. Esse, parecendo que não, é um cerne da questão: somos nós que pagamos sempre a segurança deles, neste e noutros cenários.


Tolerância de ponto, outrora um sacrilégio à produtividade, que dizem baixa. Eles, claro. É preciso afastar as pessoas da rua, a contestação deve ser abafada, assim determina o poder supremo. Lisboa é, apesar de tudo, uma cidade calma, apenas algumas e alguns deitados na via pública, nada de especial. Sim? Não, o perigo espreita a qualquer esquina e, por isso, há que encomendar 5 novos blindados para a polícia poder reprimir à vontade. Não chegam a tempo, vem a saber-se agora, depois da cimeira. Nada que constitua problema para o ministro das polícias. Tal como os submarinos, decerto haverá cenários de guerra no País profundo para intervir, aliás até mais simples, dado que andam em terra firme: Cova Moura, Bela Vista, Musgueira, Lóios, bem precisam de repressão, com blindados ainda melhor. Alguém sustentou: e se a cimeira fosse numa ilha? Ou num porta-aviões. Ou, porque não, na Casa Branca, não é de lá que emana todo o poder?


Os cães de fila do costume perfilham-se em declarações sobre hipotéticas opções, sempre orientado para essa coisa dos “valores ocidentais”. O caso do Luis Amado será porventura o mais significativo, até pelo tempo de antena que lhe vêm concedendo, desde que se prestou à defesa do bloco central. Esse mesmo que ocultou os voos da CIA, que pretende que a Constituição consagre um limite ao défice, que enfim, considera “… a partilha de valores civilizacionais comuns entre os EUA e a Europa continua a ser um princípio fundamental de organização do mundo ocidental na relação com o resto do mundo(2) ; e ainda que Portugal deve ser “…um aliado leal e firme da Aliança(2). Não poderia haver melhor exemplo de cão de fila: acrítico, seguidista e lambe-botas.


A Europa nunca foi, nem nunca provavelmente será, unida. E é por essa razão que os EUA têm conseguido manter uma política de expansionismo declarado. A maior vergonha da última década, foi o aplauso á invasão do Iraque, realizada e produzida por G.W. Bush, contracenada por Aznar, Blair e Durão Barroso e apadrinhada por esta Aliança, que agora se diz de defesa da segurança dos cidadãos. Nunca existiu qualquer tratado do atlântico norte, para essa finalidade. O que existiu foi uma santa aliança contra a União Soviética, um pacto político contra o comunismo. Como tal já não fará sentido na actualidade, há que reinventar um inimigo qualquer. Dos EUA, claro. E que a dita União Europeia, que não existe, vá atrás. Para isso, deverá bastar a NATO. Já está formalizada, implementada, cimentada nas consciências, não será necessário grande esforço para se afirmar. “Quem ataca um, ataca os outros(2), assim o diz Obama; mas esta era a teoria de Bush, não era? E diz mais, “a NATO é a aliança mais bem sucedida da história humana” (2). A esta hora, aquelas e aqueles que acreditaram no “Yes, we can”, estarão porventura a pensar melhor… Para ajudar, acrescento mais ainda, segundo Obama: “… ao avançarmos com a colaboração sobre o sistema de defesa anti-míssil, podemos transformar aquilo que foi fonte de tensão no passado numa fonte de cooperação contra a ameaça comum(2) e finalmente “o nosso trabalho conjunto promove os nossos interesses e protege as liberdades que acarinhamos enquanto democracias”. G.W. Bush diria exactamente o mesmo, se é que não o disse, na altura, da mesma forma.


A NATO conta nas suas fileiras com quase 1 milhão e 400 mil efectivos dos EUA, cerca de 40% do total de efectivos de 28 países. Há 6 países que contam 70% do total: EUA, Turquia, Alemanha, França, Itália e Reino Unido. Uma espécie de donos da guerra. Apesar das evidências de quem manda de facto na NATO, do que é a dita Aliança há algumas posições, no mínimo interessantes, sobre a matéria. Os casos de Nuno Severiano Teixeira (NST) e de Ana Gomes (AG). Ambos partem de uma premissa falsa: a de que está cometida à NATO a gestão de crises e a da manutenção da paz, a nível europeu. AG diz mesmo que “o principal desafio que (a NATO) enfrenta é liderar pelo exemplo para defender os Aliados e contribuir para a segurança global(2). Nada mais enganador, basta ver os “exemplos” das desastradas intervenções nos Balcãs e no Afeganistão. NST interroga-se “E nós, o que queremos da NATO?(2), para depois encontrar uma resposta evasiva: “todos estes pontos do novo conceito são do interesse nacional e Portugal deve aproveitar esta oportunidade para valorizar a sua posição na Aliança(2). Isto quer dizer exactamente o quê? Absolutamente nada, ou então exactamente tudo: seguidismo cego, surdo e mudo.


No meio da confusão, registe-se que 30 mil pessoas se manifestaram contra a NATO em Lisboa. 400 polícias armados e mais de cem carros para “manter a ordem”. Domingo, 20 Novembro, céu muito nublado. Pois!
--------
(1) Fonte: Fernando Alves, TSF, “A semana passada”, 19 Novembro
(2) Fonte: Jornal Público, 20 Novembro

14 novembro 2010


A ignóbil ameaça
Parte 4: o Bando dos 4


Onde não de fala (como poderia parecer…) da ala radical do regime na Revolução Cultural Chinesa, mas sim do apoio mais que necessário à banca “nacional”




Um bando. Não propriamente de pardais à solta, que esses são ainda os putos da nossa melhor memória. Estes são peixe graúdo. Dão pelos seus nomes, sobejamente conhecidos: Ricardo Salgado, Faria de Oliveira, Santos Ferreira Fernando Ulrich, patrões do BES, CGD, BCP e BPI. Chamemos-lhe o Bando dos 4, designação que de inventada já que não por mim, adopto sem a licença devida, sabendo que a usurpação não constituirá decerto notícia, a tal não aspiro. Este Bando nunca será objecto de qualquer investigação, não há necessidade, são decerto cidadãos acima de qualquer suspeita, a sua credibilidade é infinita, as suas influências e opiniões são apenas para consolidar o interesse nacional, os superiores interesses do País. Um País que nunca seria capaz de sobreviver sem a sua prestação, o seu empenhado esforço em salvar os portugueses, todos os portugueses claro, da terrível ameaça de uma crise, para a qual eles nada contribuíram, antes pelo contrário, que sempre avisaram do que era preciso: mais flexibilidade laboral, menos Estado Social, menos salários, menos despesa pública; sempre avisaram que vivíamos desde há muito acima das nossas possibilidades, menos eles está visto, dado que auferem, todos eles, salários baixíssimos, apesar de serem muito competentes, eficientes, eficazes e providenciais. Longe do pensamento deles exercer pressão alguma sobre os governos e demais acólitos. Absolutamente impolutos, movidos pelos superiores desígnios de justiça social, pretendendo apenas salvar o País da crise

E foi, precisamente nesse sentido, que o Bando atacou, ou seja actuou na altura certa, no momento oportuno, na cena política, junto dos 2 partidos do poder. Nada tendo a ver com a especulação contínua dos mercados financeiros, longe da lamacenta e pantanosa área que nos ameaça, eles foram absolutamente firmes (e provavelmente hirtos…), "Há que ter confiança no futuro", disse Ricardo Salgado. Também Ulrich adiantou, para que todos fiquemos descansados, "A situação do País é séria, mas estamos todos a trabalhar". Supremos homens estes, que pensam e “trabalham” por todos nós, os malandros que por aí pululam, a viver do rendimento mínimo sem quererem aceitar os empregos que lhes oferecem, não sabem o que é vida de um banqueiro, sempre com o fio da navalha sobre as suas cabeças penteadas ou simplesmente rapadas (…), os neurónios em actividade permanente para engendrar as melhores soluções para o País. Uma putativa hipótese de temer dificuldades no crédito, caso o OE não passasse, foi logo afastada por Ricardo Salgado, Apenas especulações, disse ele, com toda a razão. Afinal, os especuladores são sempre os outros, a saber, aqueles que se atrevem a desconfiar da isenta e descomprometida posição de quem mais não faz que seja o Bem. Que deve dizer-se a propósito, se consubstancia em oferecer crédito barato a pessoas e empresas, enviando (por exemplo) simpáticas cartas, eu que o testemunhe, tenho recebido muitas, convidando ao endividamento, perdão, ao acesso a créditos na casa dos 27 a 31%, sempre abaixo dos 32% permitidos pelo Banco de Portugal. Enfim, pessoas de bem, que injectam no BPN 4,6 mil milhões de euros, prestando assim um assinalável benefício a Portugal e a um dos bancos mais sólidos no mercado. Não pensem, não questionem sequer, lembrem-se que dilectas figuras nacionais, como por exemplo Cavaco Silva, o nosso Presidente, têm lá as suas fracas posses, que seria de um Presidente na penúria, deus sabe o que poderia acontecer ao País.

Nos primeiros nove meses do ano, os quatro maiores bancos privados a operar no mercado nacional alcançaram um lucro conjunto de 1,12 mil milhões de euros. O montante representa uma subida de 5%, face aos 1,07 mil milhões de euros arrecadados em igual período do ano passado, o que, na prática, significa que os cofres do BCP, do SANTANDER Totta, do BPI e do BES encaixaram 5,7 milhões por dia”, podia ler-se no Diário Económico de 3 de Novembro. E depois? Não são estes bancos (pelo menos) a sustentar o desenvolvimento económico do País, a apostar no incremento do sector produtivo? Não há exemplos mais que evidentes disso mesmo? Não? Está bem, não há de facto, mas podia haver se porventura estivéssemos mais atentos. Problema nosso, não acreditamos, não temos confiança e por isso estamos como estamos. Depois deste esforço de banqueiros, governantes, partido da oposição, que um só há, o resto é conversa, todos de acordo em aplicar o devido correctivo a quem andou por aí a gastar o que não devia, todos e todas nos centros comerciais, nos supermercados, a passear de borla nas SCUT, a comprar medicamentos comparticipados, a fazer asneiras todos os dias gozando os senhores que mandam em nós, sem respeito nenhum, enfim á espera de um FMI para meter tudo na ordem.

O País muito deve a este Bando. Longa vida a homens (são todos homens…) como estes. É deles o futuro da Nação. Não duvidem. Dou-vos um exemplo que baste: um destes homens, precisamente o Ricardo Salgado, encabeça a lista dos donos dos bancos que vão “colocar a dívida”, “ajudando Portugal a acompanhar a evolução dos mercados financeiros” (Diário Económico, 11 Novembro 2010, pág. 6).

Vergados pela força da razão e sabendo que a razão tem força, não temos mais que prestar-lhes a homenagem devida. Ninguém se lembrou disto, no passado 6 de Novembro, na Manifestação Nacional das 2 Centrais Sindicais. Uma injustiça!

07 novembro 2010

A ignóbil ameaça
Parte3: “Acordo” e Orçamento: para o abismo, um passo em frente, se faz favor

(onde se fala de telemóveis, da casa do Catroga, de personagens providenciais e outras coisas mais….)



Acordamos na passada semana para o “Acordo”. Passamos dias a fio acordados, com a perspectiva de um não-acordo, uma novela contínua de desavenças mal disfarçadas, de avanços e recuos, de declarações de amor e ódio, sempre a bem da nação, na linguagem cifrada do centrão, “a bem de todos os portugueses”, do “interesse nacional”, da "abertura para o compromisso", da “concertação”, do “equilíbrio” e outras baboseiras para enganar a grande maioria dos portugueses. Inquietos que somos, de procurar algum sentido, no meio de tanta confusão, descortinamos algumas cenas patéticas, como a da foto de Eduardo Catroga, a “mais importante da minha vida…”, a frase de Cavaco “Em que situação se encontraria o País sem a acção intensa e ponderada, muitas vezes discreta, que desenvolvi ao longo do meu mandato?”. Nada a amenizar a situação catastrófica anunciada já pelas inefáveis agências de rating, de penalizar o país com juros mais altos, a intolerante pressão dos mercados financeiros a quem está entregue a dívida soberana. A encenação completa, a mais vergonhosa campanha levada a cabo pela comunicação social com sondagens insidiosas, declarações dos mesmos economistas de sempre, dos mesmos comentadores políticos, a reforçar a inevitabilidade: é duro, mas tem que ser, vivemos há muito acima das nossas possibilidades, o país afunda-se cada vez mais. A panaceia: cortar nos salários, reduzir as prestações sociais, redução as despesas no âmbito do Serviço Nacional de Saúde, aumentar (sempre mais) o IVA, …

Suprema e ignóbil ameaça!

Nada sobre alternativas. Nada sobre as propostas apresentadas, por exemplo, pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda. Ninguém fala nisso. Nem sequer se equaciona analisar e discutir propostas concretas que, a serem aplicadas, mudariam a face de um país subjugado pelo capital financeiro, pela ditadura do sector bancário, pela vergonha dos favores e contrapartidas das “parcerias público-privadas”, pelo off-shore da Madeira, pelos ordenados faustosos nas empresas públicas, intervencionadas ou privadas, pelos conselhos de administração repletos de consultores, assessores e outros parasitas. Nada interessa a não ser a inevitabilidade. De PEC em PEC até á derrocada final: um orçamento de miséria para os trabalhadores, da perda de autonomia das famílias da classe média, do agravamento da situação de pobreza extrema de 2 milhões de portugueses.

Mas há alternativas. A começar por medidas concretas como por exemplo: a criação de um imposto sobre transacções financeiras, a tributação extraordinária do património imobiliário de luxo, a tributação agravada sobre a aquisição ou posse de bens de luxo, a tributação das mais-valias bolsistas, incluindo rendimentos das SGPS, a aplicação de uma taxa de IRC de 25% ao sector bancário e grupos económicos com lucros superiores a 50 milhões de euros. Paralelamente, iniciar a recuperação do Estado social, aumentando o salário mínimo nacional para 500 euro, promover o investimento para o emprego, única forma de valorizar o trabalho e assegurar a legítima expectativa de aproximar o nível de vida das populações mais desfavorecidas para a média europeia. Só alguns exemplos concretos, para os quais existe quantificação devida e que, por si só, garantiriam uma quebra no défice, superior á que o governo pretende. E que, diga-se desde já, não vai decerto conseguir.
Como é possível exigir sacrifícios sempre aos mesmos, sem oferecer contrapartida alguma às pessoas, a não ser a degradação progressiva das suas condições de vida? Como é possível “convencer” alguém com a medida de aumento da taxa do IVA em 2 pontos, “esquecendo” que, a partir daí, os aumentos dos bens essenciais, os transportes, os combustíveis, aumentarão em flecha? Como é possível, com estas medidas combater a pobreza e a pobreza extrema? Como é possível cortar salários a quem legitimamente tem as suas expectativas, em termos mínimos de qualidade de vida, a sua prestação da casa, do carro?

A conclusão que se pode legitimamente tirar é a de que, na realidade, os promotores destas medidas não estão minimamente interessados em combater a pobreza, em lutar contra as desigualdades, contra as injustiças. A sua luta é outra: manter os privilégios e, como se isso não bastasse, aumentar o fosso entre ricos e pobres, engrossando os lucros das grandes empresas, dos bancos, dando sempre mais a quem mais tem, orientando a sua política para enriquecer mais e mais os senhores do capital.

Os culpados têm nome. O Partido Socialista sempre na frente, seguindo aliás o (mau) exemplo de praticamente todos os seus congéneres europeus e o seu aliado PSD. O PS manifesta nos momentos decisivos a sua perigosa inclinação para a direita, desde Soares a Sócrates, passando por Guterres e Sampaio. Sempre com o mesmo agastado discurso dos “superiores interesse do País”, do “interesse nacional acima dos interesses do partido”. A linguagem do engano, do desencanto a quem votou à espera da mudança. O “elevado sentido de Estado”, a capitulação aos interesses da banca e do sector financeiro, em linguagem travestida de social e de moderação. Uma suprema traição, este partido do “socialismo na gaveta”, porque ainda temos memória e não esquecemos, nunca esqueceremos, a verdadeira face de quem nos trai. Dos outros (o aliado), nem merece perder muitas palavras: estão em todo o lado, do lado de lá, que é obviamente o dos interesses dos lucros desmedidos, da economia da ganância e do desperdício, dos escândalos do BPN, do BCP, das empresas públicas, dos off-shores, das parcerias, das super-reformas. Protestam, vociferam, fazem birras, muito fumo, para no final se amarem, irmanados, de mãos dadas para o abismo a que condenam o País. Se a coisa porventura falhar, lá estarão, como sempre fazem a culpar-se uns aos outros e fazendo sempre exactamente as mesmas coisas, a mesma política, os mesmos interesses, a mesma crença na providencialidade do mercado e do capital, o supremo bem que os vai aguentando no Poder, lhes vai dando todas as benesses, lhes vai alimentando corpo, alma e carteira de títulos.

Em sua casa, Teixeira & Catroga selaram o acordo para a capitulação. Provavelmente com chá e scones, a foto não mostra. Mas mostra um dos homens de Cavaco, com um percurso impressionante, da CUF à SAPEC, passando pela Quimigal, acumulando (todos eles acumulam…) funções de administrador da Nutrinveste, do Banco Finantia e membro do Conselho Geral e de Supervisão da EDP, para além da dita SAPEC. Privado, empresas públicas e bancos, os donos de Portugal são assim, recebem em sua casa por vezes, aprendizes como o senhor Ministro, que quando cessar as funções terá á sua espera um cargo qualquer, como o senhor que o recebeu.

São os homens providenciais. Deles devemos esperar que salvem o País. Leia-se, que salvem os bancos falidos, os administradores corruptos e os consultores e comentadores pagos para semearem a inevitabilidade. Cavaco é um bom exemplo, podia dizer, após uma longa reflexão, decido candidatar-me para defender o meu dinheiro no BPN e as minhas não-sei-quantas-reformas-douradas. Desculpem, o que eu queria dizer não era bem isto, entusiasmei-me…

Entretanto, a realidade do País, aí está para quem quiser estar acordado. Já a 29 de Julho deste ano, o Diário de Notícias titulava “BCP, BES e BPI ganharam três milhões por dia mas pagaram menos um terço de impostos”, e escrevia depois, “Três milhões de euros por dia. Foi este o lucro líquido registado pelos três maiores bancos privados portugueses no primeiro semestre do ano, num contexto de crise que levou a banca a apertar as condições de acesso ao crédito às empresas e famílias”.

Quem explica isto? Tentarei voltar para tentar.

17 outubro 2010

O post do desassossego
Um post do desassossego
O desassossego de um post





Imagem: http://blog.umfernandopessoa.com/




Tenho em mim todos os sonhos do mundo…”

In “Tabacaria”, Álvaro de Campos


Do livro fez um filme. Do filme nasceu este post. O João dizia que é um filme bonito, que não sabe se será um filme bom, que serão precisos 20 anos para saber isso. Talvez. O que conta é a obra. E essa dá para ver, para pensar, para inquietar. Para desassossegar, como convém, em tempos de calmaria, de recusa ao acto de questionar, porque é mais fácil deixar andar, deixar de pensar. "Benditos os que não confiam a vida a ninguém", dizia o Bernardo Soares. Como o Filme é actual, a asserção é mais actual ainda, um sinal de inconformismo, tens que ser tu o dono do teu próprio destino, tens que ser tu a viver, muito embora “Viver não é preciso, navegar é preciso”. Naveguemos pois como fez o João, pela arte do cinema, pela democracia da luz, no contraste com as sombras. Sombras de um tempo difícil, mas sempre necessário para a descoberta, quanto mais não seja de si próprio. É na sombra que descobrimos a luz que outros nos parecem querer subtrair. Bernardo “encontra” Fernando e entrega-lha o texto. Do desassossego. Da ironia ou da utopia? Ambas e uma só, transportadas para uma actualidade “Irrita-me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são infelizes. Por isto, contudo, amo-os a todos. Meus queridos vegetais!”. João transporta Bernardo á Lisboa actual, do restaurante da lagosta à sopa dos pobres, colocando nas vozes a democracia da palavra, a ironia do gesto, a utopia dos sonhos: “Alguns têm na vida um grande sonho e faltam a esse sonho. Outros não têm na vida nenhum sonho, e faltam a esse também." E depois, "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce". Coragem é a OBRA do João, sublime protótipo do desassossego!

Fica bem Amigo, eu aprendi a lição! "Claro em pensar, e claro no sentir, / e claro no querer".
------
Citações e referências:
o “Mensagem”, Fernando Pessoa
o "Livro do desassossego"‎, Fernando Pessoa
o “Tabacaria”, Álvaro de Campos
o “Poesia”, Fernando Pessoa
o "Vidas", Plutarco

05 outubro 2010

VIVA A REPÚBLICA I.R.C!



Uma república sem cidadãos de boa reputação
não pode existir nem ser bem governada;
por outro lado, a reputação dos cidadãos
é motivo de tirania das repúblicas…”
Maquiavel











Quero também celebrar os 100 anos da República em Portugal, de uma forma especial. Que pode ser apenas a minha interpretação. Que espero não seja só a minha interpretação. Que sirva para passar uma palavra de ordem. Estranha que seja á primeira vista, tem uma razão de ser. E não é aquela que pode transparecer da sigla que levará a interrogações legítimas a quem lê. Insubmissão, Radicalismo e Cidadania poderá então ser o lema, para lembrar as mulheres e os homens que a 5 de Outubro de 1910 tiveram a lucidez e a ousadia de derrubar a monarquia e proclamar a República em Portugal. 100 anos é tempo suficiente para pensar pelas linhas tortas. Pensar e agir. Penso agora, imagine-se, nas palavras “sensatas” de Cavaco Silva: “é preciso rigor, bom senso e contenção verbal”. E ainda na unanimidade entre Cavaco e Sócrates, recolhida na comunicação social de hoje: “As comemorações oficiais do Centenário da República ficaram hoje marcadas pela convergência do Presidente da República e do Primeiro-Ministro em torno da necessidade de "coesão nacional", para enfrentar as dificuldades que o país atravessa.” (1) Contraponho:


Insubmissão; o ser crítico, atento e não confortado com a realidade, que é para transformar e não para aceitar como inevitabilidade; o ser livre de espírito e corpo, o querer participar e intervir como agente de transformação; o “ser realista, exigir o impossível(2); quando Sócrates se “revolta” contra a “agitação irresponsável e demagógica”, está a dizer precisamente que nos acomodemos, que sejamos submissos; é contra tal, que somos contra!

Radicalismo; ser radical, defender as suas ideias, mesmo que sejam aparentemente contra o pensamento dominante, único, tão perigoso nos tempos que correm; eram assim os pensadores da República; lutar contra a demagogia “moderna” que tenta confundir radicalismo com fundamentalismo, sabe-se bem porquê.

Cidadania; o ser cidadã(ao) de pleno direito: exigir direitos, sem esquecer os deveres; contra quem quer impor deveres e esquece sistematicamente os direitos; direitos a que temos direito: um salário digno, a igualdade perante a justiça, a inclusão social, a educação e a saúde para todos, uma vida plena de satisfação, numa sociedade igualitária e global.
Para os que pensam que os desmandos da I República contribuíram para o golpe fascista de 28 de Maio, diremos simplesmente a verdade: o golpe não foi feito contra a situação, mas sim contra os ideais e os conceitos. Essa a verdade.

Viva pois a REPÚBLICA I.R.C!
----------
(1) Jornal Expresso, in: http://aeiou.expresso.pt/cavaco-e-socrates-querem-coesao-nacional=f607440
(2) Pensamento de Herbert Marcuse (Maio 68)

01 outubro 2010

A ignóbil ameaça
Parte2: onde se fala de comoção, submarinos, insónias e FMI


Foi muito comovente ver o PM de Portugal “de coração partido” ao anunciar as Medidas de Consolidação Orçamental para o Orçamento de Estado (OE) 2011. Igualmente confrangedor foi a revelação do ministro Teixeira dos Santos ao afirmar que tinha dormido mal, mas que não era capaz de dormir (…) se não tomasse as ditas medidas. Adensa-se a nuvem negra que sobre este Governo cai, ao ver o seu principal parceiro, “o principal partido da oposição”, um “partido responsável”, insensível á comoção e a insónia. Cairá então em saco roto o pedido patético de Almeida Santos “não se pede ao PSD que concorde e ou que se responsabilize pelas duríssimas medidas que o Governo anunciou, apenas que viabilize o OE”? É uma pena, uma dor de alma tremenda ver tamanha insensibilidade da parte do parceiro privilegiado. Uma injustiça, portanto.

Sabemos bem o quanto o PSD se preocupa com os trabalhadores e as camadas mais desfavorecidas da população portuguesa. E o CDS também, ao glorificar a “lavoura”, ao penalizar os malandros que auferem subsídios para não trabalhar, eles que tanto trabalham para o povo, a começar pelo glorioso líder Paulo Portas que se preocupou em adquirir submarinos, que tanta falta fazem ao povo trabalhador, a ponto de ter endividado o País, em mais de 1.000 milhões de euro, só para proteger a costa portuguesa dos ataques mais que prováveis dos perigosos comunistas que andam por todo o lado a destabilizar e a fazer greves. Eles, todos juntos, aliados, coligados ou simplesmente amigados, que há 34 anos a esta parte determinam o futuro do País, sempre em nome do “interesse nacional”, do “sentimento patriótico”, colocando sempre “o interesse nacional acima do interesse partidário”. E que dizer do seu dilecto presidente, esse homem que foi ao Congresso da Figueira da Foz apenas para fazer a rodagem do carro e, por lá ficou durante dois mandatos e que, com a autoridade de grande economista, apesar de não ser executivo, ainda dita os seus pareceres, na defesa da pátria?

Algumas curiosidades, apenas para lembrar, para recordar, ou simplesmente para acordar consciências, quiçá menos atentas.
1. O custo dos tais submarinos, um valor aproximado de 1,3 mil milhões de euro, equivale à poupança contidas nas “medidas” nos cortes de salários e benefícios sociais, 1.000 milhões de euro. Contudo, àquele valor deveremos acrescentar a despesa operacional estimado neste tipo de navio de guerra em 10% do custo em estaleiro por ano, ou seja, em 20 anos, 1,8 mil milhões de euros, o que daria 3,75 mil milhões, quase sem impostos porque é tudo feito no estrangeiro.
2. Idem para a receita prevista com o aumento de 2 pontos percentuais da taxa normal do IVA, 1.040 milhões de euro. Todavia, este valor poderá ter efeitos recessivos no consumo das famílias e no aumento da evasão fiscal.
3. Com os cortes sociais anunciados, 383 mil crianças e jovens vão ficar sem abono de família. 4. A transferência do fundo de pensões dos trabalhadores da PT para o Estado permite um encaixe imediato na casa dos 1.600 milhões de euros, com a vantagem de assegurar a descida do défice deste ano de 9,3% para 7,3%. Claro que tal não é senão um truque contabilístico usado in extremis por um partido que sempre criticou Manuela Ferreira Leite ou Bagão Félix por causa da "manigância" das receitas extraordinárias. Quem se lembra ainda da titularização da dívida fiscal ao CITIBANK?
5. Em 2009, 9,5% do PIB português foi transferido para o estrangeiro para pagar juros e lucros, a banca financia-se a 1% e cobra uma taxa de juros 6 vezes superior. Segundo o Prof. Jacinto Numes, antigo governador do Banco de Portugal, “a dívida da banca portuguesa ao Banco Central Europeu (BCE) deverá corresponder a 30% do PIB, ou seja, a cerca de 50.000 milhões de euro”. O grande negócio actual da banca a operar em Portugal é o seguinte: financia-se junto do BCE pagando uma taxa de juro de apenas 1%, e depois empresta aos portugueses e ao Estado esse dinheiro cobrando uma taxa de juro muito mais elevada.
6. O digníssimo FMI afinal não concorda com as “medidas”, porque considera que vão no sentido da recessão económica, ao invés do que era (é?) pretendido. Então em ficamos? Não era esta uma das imposições?
7. A redução do défice orçamental traduz-se no seguinte: em cada 10 euro, 7 são pagos por cidadãos e empresas e os outros 3, resultam de poupanças do Estado. No total, a diminuição dos gastos de funcionamento será de 0,6% do PIB - o corte nos salários, do qual resulta uma redução de 5% na massa salarial (cerca de 435 milhões de euros só contando com Administração Central) é a maior fatia.

Para aprofundar a situação das famílias, em termos do que terão que pagar a mais, daqui por diante, temos a notícia de 30 de Setembro, relativa aos aumentos previstos nas taxas Euribor, no valor de 0,16%. E já agora, a nota do IEFP (mesma data) que dá conta do aumento do período que os desempregados levam a encontrar emprego: 13,4 meses, contra 12,5 meses em finais de 2009; a nota do IEFP acrescenta que existem neste momento 90,4 mil pessoas sem emprego há mais de 2 anos. Qual a resposta a estas (e outras mais) situações? Cortes no subsídio de desemprego e redução das prestações sociais, ou seja: atingir precisamente as vítimas da crise.

A ironia será porventura uma das formas que poderemos utilizar para demonstrar (se tal é necessário…) a incoerência militante deste Governo e ainda mais a hipocrisia da direita que temos em Portugal. Uns e outros irão um destes dias acordar mais um orçamento de miséria que penalizará os mais desfavorecidos e que, pelos vistos, nada irá resolver, em termos substantivos.
A ignóbil ameaça, entretanto, continua.
----

Fontes:
Portal do Governo: http://www.portugal.gov.pt/pt/GC18/Governo/Ministerios/MF/Documentos/Pages/20100929_MFAP_Doc_OE2011.aspx
Banco de Portugal, “Indicadores de conjuntura”, pág. 6: http://www.bportugal.pt/ptPT/EstudosEconomicos/Publicacoes/IndicadoresConjuntura/Publicacoes/ind_set10_p.pdf
Eugénio Rosa: http://www.eugeniorosa.com/Page/1050/ÚLTIMO-ESTUDO.aspx
Luís Ferreira Lopes, Editor de Economia, SIC
Bruno Faria Lopes, Jornal i
Sandra A. Simões, Semanário Económico

30 setembro 2010

A ignóbil ameaça

As medidas hoje anunciadas pelo Primeiro-Ministro confirmam as previsões dos analistas sobre o já designado PEC 3, ou seja, um terceiro assalto ao bolso dos portugueses mais desfavorecidos, em nome da “consolidação orçamental”, do “interesse nacional”, ou no limite, recordando tempos passados, “a bem da nação”. Convém desde já ler como deve ser, não esquecendo que tudo isto vem sendo devidamente preparado, nos jornais, na rádio e na TV, por comentadores políticos e económicos sobejamente conhecidos pelo seu horror aos trabalhadores. De facto, Medinas, Catrogas, Miras Amarais, Salgueiros, Cadilhes e outros da mesma laia, a quem é dado tempo de antena de forma vergonhosa, foram destilando a pouco e pouco a sua verborreia, induzindo medidas que agora são uma realidade. Esses embaixadores da desgraça, que recebem mais que uma reforma dourada, acabam por convencer a opinião pública da inevitabilidade de uma situação que ajudaram de forma velada a criar. E agora aí está: os cortes nos salários, o aumento escandaloso do IVA, os cortes nos benefícios sociais, tudo devidamente quantificado. Tudo, menos uma tímida medida, designada “imposto sobre os serviços financeiros”, decerto para ficar na sombra, numa névoa suficientemente light, para disfarçar o resto.

A “consolidação orçamental”, não passa de um mito. A obsessão pelo défice vai até ao limite de matar a economia pela raiz, destruir o aparelho produtivo, em nome de uma terciarização sem bases sustentáveis, seguindo as ordens de uma confederação de interesses de uma União Europeia verdadeiramente fracassada, enquanto projecto e vendida ao poder do sector financeiro especulativo, produtor da crise e protegido pelos Estados e pelos Governos centrais. Como interpretar, por exemplo a protecção oferecida à Banca, em Portugal, que pagou ao Estado 5%, em 2009, menos 20% que qualquer empresa? Quem dita o que se deve fazer é a OCDE: “O esforço de consolidação orçamental de que a economia nacional necessita é considerável e, por isso, o Governo português deve estar pronto para aumentar impostos” (27/Setembro 2010).

O “interesse nacional”, uma figura de estilo utilizada pelo Governo, para pedir sacrifícios ao povo, reforça a ideia da inevitabilidade. Mas o que é de facto o interesse nacional? O interesse de um trabalhador que ganha o salário mínimo nacional será o mesmo que o de um gestor da Banca, de uma grande Empresa, de um seleccionador nacional de futebol? Só mesmo um parvo, ou demente mental pode acreditar em semelhante alegoria. Mas é assim que se constrói mais um mito, ao tentar meter no mesmo saco tudo e todos. Por isso, é que esta treta é rigorosamente a mesma coisa que a figura abjecta, utilizada por Salazar: “a bem da Nação”. Um exemplo bem recente veio precisamente do Ministro dos Negócios Estrangeiros que defendia a imposição do limite do défice, na própria Constituição da República…

Por essa Europa, os governos aparentados com a designação “socialista”, são os melhor cumprem a tarefa de aprofundar a diferença abissal entre ricos e pobres. Utilizando uma linguagem “social” e “reformista”, vão levando a cabo uma vergonhosa política de submissão aos interesses do capital, desvalorizando o valor do trabalho, reduzindo a margem de manobra das organizações dos trabalhadores, promovendo de facto a precariedade e, no limite, o desemprego. Tem sido esta a linha do Partido Socialista no nosso País, sempre aliado à direita parlamentar, elegendo sempre os mesmo, como parceiros para aprovação de orçamentos, PECs e outras medidas penalizadoras dos trabalhadores. Aí sim, está a olhos vistos, uma conjugação de interesses, já que, na prática, são invariavelmente os mesmos: vão dividindo entre si os postos-chaves do aparelho de estado, da cúpula das empresas públicas e dos bancos, fontes propícias ao esbanjamento de recursos, espaços de partilha de regalias incomensuráveis e no limite, de escândalos sucessivos, alguns deles com resultados bem conhecidos.

A ameaça é mesmo ignóbil. Aos direitos dos trabalhadores, à sua dignidade pessoal e profissional. A redução progressiva do poder de compra e da estabilidade no emprego, induz o receio e o medo de represálias. O poder reivindicativo dos trabalhadores nestas condições é praticamente nulo. A sua inserção numa sociedade de liberdade e democracia é ferida de morte. Em Portugal, convém não esquecer, há 2 milhões de pessoas, perfeitamente arredadas de direitos, vivendo em condições de pobreza e/ou de pobreza extrema. Aquela que é apresentada agora pelo Governo como uma medida “patriótica e de interesse nacional”, o aumento do IVA para 23%, vai significar o aumento de preço dos bens essenciais, dos transportes, dos medicamentos, enfim de praticamente tudo, penalizando as camadas mais desfavorecidas da população.

A ameaça, para além de ignóbil, é também imoral. Estimula e amplifica as desigualdades. Merece repúdio generalizado. Implica uma resposta rápida e eficiente das organizações dos trabalhadores e outras organizações da sociedade civil. Como hoje já aconteceu em toda a Europa, nomeadamente em Bruxelas, com 100 mil manifestantes vindos de toda a União Europeia.

15 setembro 2010

Goodbye Stranger!

"Like a ship without an anchor
Like a slave without a chain
Just the thought of those sweet ladies
Sends a shiver through my veins
And i will go on shining
Shining like brand new
I´ll never look behind me
My troubles will be few
…”
Goodbye Stranger” Rick Davies e Roger Hodgson (SUPERTRAMP), “Breakfast in America”, 1979






Goodbye stranger it´s been nice / Hope you find your paradise / Tried to see your point of view / Hope your dreams will all come true”. Fica a mensagem redundante que porventura cada um de nós gostaria de deixar a um estranho, um qualquer estrangeiro, quiçá simpática(o), porque no fundo cada um acaba por encontrar (descobrir?) o seu paraíso próprio, segundo o seu ponto de vista. E que temos direito a sonhar; sonhos reais ou idílicos, mas sempre a mesma sensação de que o voltaremos a encontrar um dia, mesmo sem para tal termos traçado qualquer plano. Poderá até dar-se o caso de cruzarmos caminhos nunca dantes percorridos. Como um barco sem âncora, como um escravo sem correntes, está tudo lá, na mensagem. Nostalgia? Talvez, ao revisitar uma banda com 40 anos, no Rosa Mota, nos dê para sentirmos uma juventude perdida e achada no tempo. Que apesar de não voltar para trás, alguém o disse, é ainda o nosso Tempo. Que vivam pois os homens, que parecem frescos como uma alface, que com a sua tremenda ironia e inteligência, brindaram que os quis ver e ouvir. E pular também, porque não?

Foi assim, tal e qual, fica o testemunho e já agora um convite para quem não consegue descobrir as cores da vida, para quem o inesperado causa medo ou estranheza: “Take a dream on a Sunday / Take a life, take a holiday / Take a lie, take a dreamer”. Se com isso ficar feliz, bom sinal. É porque ainda está acordado, ainda é capaz de descobrir coisas interessantes. Até será porventura capaz de tentar transformar qualquer coisa. Por mais pequena que seja. Por mais insignificante que possa parecer. A tal vida que passa por nós a correr, porque simplesmente achamos que não temos tempo. Não, ainda vamos a tempo….





11 agosto 2010

Mais um ciclo de crise do Sistema (3)


























O excelente artigo de António Vilarigues (AV) no Jornal PÚBLICO do passado dia 6 de Agosto, com o título “A culpa é do «Sistema» ”, na asserção futebolística, termina com nota em que o Autor faz referência à base de licitação do BPN, proposta pela CGD, no valor de 180 milhões de euros; curiosamente, AV invoca “a educação e o decoro”, como impedimento de escrever o que pensa sobre a matéria em apreço, deixando “à imaginação do leitor”, o resto… Claro que diz ainda, como é do conhecimento público, mas que vale sempre a pena lembrar, que o banco público injectou no BPN, 4 mil e quinhentos milhões de euros para sanear as contas, valor que é exactamente 25 vezes superior ao da base de licitação referida. Não custa muito utilizar o termo “escândalo”, para classificar o que AV decerto considera esta “golpada”, atrevendo-me a adivinhar, e já que não tenho quaisquer problemas de educação e o decoro, embora compreenda perfeitamente o Autor. A “golpada” é no fundo mais um roubo aos contribuintes e mais uma prova da falta de credibilidade de um poder subjugado à Banca, sempre negado pelos responsáveis, mas que a prática confirma em todas, repito, todas as situações. Este apenas um dos indicadores da falência do «Sistema» e da crise que arrasta irremediavelmente aquelas e aqueles que vivem do produto do seu trabalho e que curiosamente são as e os que pagam sempre, desmandos como este.

Compartilho com AV a tese que considera como a principal prioridade da organização económica, a satisfação das necessidades humanas e do trabalho social de uma sociedade. Mais, a criação de condições objectivas para a transformação da sociedade, só é possível através da valorização do trabalho. AV afirma então que é necessário “colocar como objectivo das relações sociais de produção, da actividade económica, não o lucro, mas a satisfação das necessidades humanas”. E ainda que “… o aumento dos salários e das pensões é uma condição essencial para o desenvolvimento económico e social. O aumento do poder de compra das pessoas e da satisfação das suas necessidades, fomenta a procura interna e consequentemente a actividade económica. Gera novos empregos e contribui de forma efectiva para a sustentação da segurança social. Mas também é uma condição para afirmação e fruição de direitos políticos, sociais e culturais.”

Os números que apresenta são redundantes: “A humanidade iniciou o século XXI com as 280 (!!!) maiores fortunas do planeta a deterem mais riqueza do que 2 mil milhões de pessoas (30% da população do globo…). Dez anos depois a situação alterou-se para pior”. Atenta ainda que “No final de 2010 o número de desempregados, só nos países do chamado G7, pode ultrapassar os 36 milhões (o dobro de 2007). E a nível mundial a OIT prevê que sejam 240 milhões. O produto mundial contrai-se pela primeira fez desde a segunda guerra mundial. Em 2009 a redução em 12% do comércio mundial foi a maior dos últimos 80 anos(1). Considerando que existe um capital de conhecimento mais que suficiente para erradicar a pobreza e a miséria, consubstanciado aliás, na Declaração do Milénio das Nações Unidas, aprovado na cimeira do Milénio, realizada em Setembro de 2000, em Nova Iorque, onde se reconhece a necessidade da “cooperação internacional para resolver os problemas internacionais de carácter económico, social, cultural ou humanitário”. Particularmente no que concerne à erradicação da pobreza, diz-se “Não pouparemos esforços para libertar os nossos semelhantes, homens, mulheres e crianças, das condições abjectas e desumanas da pobreza extrema, à qual estão submetidos actualmente mais de 1000 milhões de seres humanos. Estamos empenhados em fazer do direito ao desenvolvimento uma realidade para todos e em libertar toda a humanidade da carência(2).

Em completa contradição com princípios e declarações, constata AV “Os activos detidos pelas CINQUENTA maiores empresas multinacionais não financeiras representavam em 2008 14% do produto mundial e era equivalente aos activos detidos pelas CINCO maiores empresas multinacionais financeiras”. No nosso País, segundo AV “Em 1975 a parte que as remunerações, sem incluir as contribuições sociais, representavam do PIB (Produto Interno Bruto) era de 59%. Depois assistiu-se a uma diminuição sistemática, alcançando com o governo de Sócrates, em 2009, menos de 34%! O país tornou-se mais desenvolvido com esta brutal inversão na distribuição da riqueza? É óbvio que não. Mas, em paralelo, os grandes grupos económicos e financeiros entre 2004 e 2009 tiveram 32,8 mil milhões de euros de lucros líquidos. E as fortunas das QUATRO famílias portuguesas mais ricas totalizam 7,4 milhares de milhões de euros (quase metade do défice!!!). E um gestor executivo de uma empresa do PSI 20 ganha, em média, mais de 50 mil euros brutos mensais (1 666 euros por dia). Há quem, com mais sorte, chegue aos 8 500 euros/dia”.

O Autor conclui, afirmando que “A prática de quase 200 anos demonstra que tal (a satisfação das necessidades humanas) não será possível sem que a questão da propriedade e da apropriação privada das condições de produção seja posta em causa. Ou seja, pôr em causa a relação social (de exploração) que o capital corporiza. Qualquer outro caminho será sempre uma «fuga para frente». Conjunturalmente até poderá apresentar uma «saída», mas que não resolverá os limites e as contradições internas do sistema.”

Para quem ainda “acredita” nas virtualidades de um sistema (agora sem comas) corrupto, injusto e não-inclusivo, convém estar atento, por exemplo, às sucessivas declarações e tomadas de decisão dessa figura aterradora que é o Banco Central Europeu e da personagem ridícula que é o seu presidente. Agora sim, recorro mais uma vez, com a devida vénia, a AV: “a educação e o decoro impedem-me de escrever o que penso”…

----
(1) In: alínea 4 do ponto I- Valores e Princípios da “Declaração do Milénio das Nações Unidas
(2) In: alínea 11 do ponto III – O Desenvolvimento e a Erradicação da Pobreza da “Declaração do Milénio das Nações Unidas
(3) Um agradecimento especial a António Vilarigues (Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação). Artigo completo, disponível em: http://ocastendo.blogs.sapo.pt/978210.html

08 agosto 2010

Intimissi to me?


Um homem sonha acordado
Sonhando, a vida percorre
E deste sonho acordado
Só acorda quando morre


António Aleixo



Como tudo que acaba / como pedra rolando numa fraga / como fumo subindo no ar / assim estou quase indiferente / caminhando sem mais notar a gente / que por mim vejo passar(1), oh, oh, é pois o Verão da canção, rima e é quase verdade, as coisas acontecem sem que a gente faça nada, quase nada, por isso, os corpos e o resto ao sol para, dizem, recarregar as baterias, qual aparelho eléctrico ou electrónico, com o qual nos comparam, vá lá saber-se porquê. Na mui digna Vila Real de Santo António, fomos parar, não para pensar, como também se usa dizer, mas simplesmente para curtir uns singelos dias de merecidas férias, privilégio de alguns, nos tempos difíceis que nos cabem em sorte. No extremo sudeste do País, zona raiana, cidade do Marquês de Pombal, conquilhas e bolas de Berlim, licores e amarguinhas que haveríamos de usar apenas para servir de apoio a conversas da treta pela noite fora, algumas compras, ao que parece mais baratas, jantares em deliciosas esplanadas, outros em casa, porque isto de jantar fora custa dinheiro (…), ele que está cara à brava, muito embora os portugueses estejam ora mais satisfeitos que nunca, já se escreveu sobre o tema, valha-me deus, que alguns ainda acreditam nisso, mas enfim, férias. Há ainda que dizer que, nesta terra, como em muitas outras aliás, manda o meu Benfica, é uma delícia para o ego, refiro-me ao meu, fomos ver o torneio, golos a rodos, até quem não é, passa a ser, devaneio que arrogo, ora os do Sporting que têm por lá uma pequena barraca, onde imagine-se se pratica uma coisa nunca vista que dá pelo nome de “futebolim”, os “nossos” têm uma Casa com gabarito. Mas há mais, que esta cidade traz á memória a minha querida Lisboa, capital que foi do império, capital que é do nosso Portugal, onde todos, que dizer a grande maioria, trabalha dia a dia por dias melhores. Melhor ainda, a memória do grande poeta Aleixo, com um Centro Cultural instituído à memória do Poeta, ostentando numa das praças centrais um monumento onde se pode ler o poema de apoio desta crónica de silly season, que serve, entre outras utilidades mais ou menos parvas como a época, para evocar outras mais ou menos sérias, se tal for o caso, fica ao arbítrio livre de cada um, pois livre é o pensamento e o sonho, sendo que este “É uma constante da vida / tão concreta e definida /como outra coisa qualquer”, que o Freire diz na sua filosofia da Pedra.

As pedras da calçada. Como as palavras se soltam, tal como elas, vem ainda á liça, muito a propósito o “absolutismo esclarecido”, que do Marquês aqui fazem testemunho, mas que, no espírito iluminista revitalizado pelos governantes, ditos socialistas, bem assentaria porventura ao chefe (deles), nesta fase do campeonato, apesar de o dito só começar para a semana que vem…

Ficam para memória dos dias, que a têm sem qualquer dúvida, o sol, sempre o sol, o Caminho dos Paus, o senhor Lidl, as arenguisses gitanas, as suas cantorias de vão de escada, os sempre atentos e atarefados mosquitos, as caminhadas para a bica em Monte Gordo, as alforrecas, os esbeltos corpos das raparigas que sempre apreciamos, a areia que se vai entranhando como que fazendo parte de nós, os jogos da bola na dita, a imaginação ao poder pois claro que, num arrebato retórico nos transportam ao Táxi Driver onde, ao que consta, Scorsese terá dito a De Niro para improvisar e dizer o que quisesse, na célebre frase do espelho, ora transformada no título mais parvo escolhido, diria melhor recolhido, ao mirar uma loja de roupa interior: “Intimissi to me?”


…………

(1)Citada de: “O verão”, por Carlos Mendes, Pedro Osório e José Alberto Diogo, 1968

04 julho 2010

Ao meu Amigo ZeTó
























Uma cidade de azul pintada
, aqui e além “um céu de palavras paradas”, esperando sorrisos, mãos que se apertam, outras que se desencontram, um misto de cheiros, cores e poemas. E quadros que alguém sempre vai pintando, avisando a nossa memória colectiva, baralhando sons que se misturam, que nos alertam para a vida que vale a pena. O artista, “Cavaleiro”de “Montanhas”, sempre “O Pensador” da cidade das “praças de palavras abertas”, atento a todos os desvios, “à procura da sombra de uma luz que não há” . Porque se desprende dos ambientes do fausto, volta às origens “...já o meu pai pintava”, conhece novas realidades que transmite á sua obra, um “Encontro” com as suaves presenças de uma Angola recente que marca as pessoas, porque as pessoas marcam mesmo quando são distantes, a distância que importa? Ao "Ego declara Morte", alguma coisa tem que se apagar, renascendo porém a cada momento na dialéctica permanente da cidade, passa as palavras para a tela, reinventa poemas em aguarela e acrílico, “… não há céu de palavras que a cidade não cubra”.

A cidade Vive, pensa e luta, espera palavras novas em tempos difíceis, os “Nascentes” , as novas esperanças de “Campos de Flores”, de brilhos intensos, de sensações profundas, de cumplicidades óbvias. Sempre buscando o “Encontro”?

Colaboração:
• palavras do Zeca Afonso
• palavras e títulos das obras do ZéTó Passos, em Exposição no Museu Bernardino Machado, V. N. de Famalicão