
"Do rio que tudo arrasta, se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem" Berthold Brecht
rio torto
12 junho 2011

06 junho 2011

a linha mais curta entre dois pontos pode ser a curva…"
Bertolt Brecht, in: “Vida de Galileu”
Fecha-se um ciclo político, com o apuramento dos resultados do acto eleitoral de 6 de Junho. Pela primeira vez, a direita consegue o “sonho” de Sá Carneiro, uma maioria, um governo, um presidente. Quaisquer que sejam as ilações, diferentes obviamente segundo a perspectiva, a verdade é que o País foi sistemática e criteriosamente conduzido a uma situação de ruptura das finanças públicas, pela governação dos 3 partidos do convencionado arco do poder. Atribuo inteira responsabilidade da situação a que chegamos à politica desastrosa do Partido Socialista e à diletante prestação de José Sócrates, que agora sai de cena, deixando o Partido num estado de indefinição, contrariando as expectativas legítimas de milhões de portugueses, que nele (partido) depositaram alguma esperança de mudança. A atitude de permanente aproximação à direita liberal, significa numa palavra, a traição. Tudo foi permitido, durante os 6 anos de governação: banca agarrada ao poder, alimentando-o e alimentando-se dele, não contribuindo (como qualquer empresa) com o pagamento do imposto devido, destruição do aparelho produtivo, com o inevitável decrescimento e aumento do desemprego, diminuição crescente do poder de compra, descrédito completo do sistema de justiça, ausência de vontade politica de combater a corrupção, enfim, o assalto sistemático ao aparelho de Estado, para contrabalançar a quota relativamente ao PSD – CDS. O horror à esquerda, tantas vezes manifestado pela liderança do secretário-geral, numa arrogante manifestação, que ele próprio designava de coragem. Tudo era afinal contrariado pela prática constante de multiplicação de institutos e agências, com uma plêiade de acólitos, geralmente pagos a peso de ouro, num País que cada vez foi ficando mais desigual.
Mas este acto eleitoral confirma uma democracia cada vez mais fragilizada. As maiorias são agora criteriosamente fabricadas por uma comunicação social cúmplice do poder económico das grandes empresas, com o seu séquito de comentadores e analistas, confortavelmente acomodados, e ainda pelas empresas de sondagens que, sob a capa diáfana da auscultação do eleitorado, mais não fazem de que orientar, dia a dia, semana a semana, o sentido de voto. Contudo, esta maioria que ora se apresenta, pode ter legitimidade politicamente assegurada por uma minoria de votantes. Mas não tem seguramente uma maioria social. E porque uma democracia, como a entendemos, não se esgota no voto, vamos esperar a resposta social que aí vem. Diria, mais que esperar, vamos como é dever de cidadania, fazer o que for possível, para modificar o estado da arte desta politica, no sentido da mudança social.
Tal como quase 8% dos portugueses dei o meu voto, como habitualmente, à CDU. Que cresceu mais um pouco, contrariando uma sempre anunciada morte, ou declínio. A expectativa de uma alternativa (?) à esquerda gorou-se e terá deixado em muita gente boa, um amargo de boca. Os dias que virão, se não significarem o desengano e até uma desmobilização, poderão servir para uma reflexão profunda no seio da Esquerda em geral. Embora não reste muito tempo para pensar, porque é preciso agir, mal não faz certamente reflectir.
O profundo sentimento de desalento não deve durar mais uns dias de luto, porque a luta (essa sim) é que interessa!
04 junho 2011
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence…”
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(a ) A propósito do Festival do Silêncio, Lisboa Capital da Palavra, Festival do Silêncio, 15 a 25 Junho (http://www.festivalsilencio.com)
24 maio 2011
A noticia do EXPRESSO “Lavagem de dinheiro em Portugal é preocupante, dizem EUA” é soberba! Então, o
Departamento de Estado norte-americano considera Portugal como um país preocupante ao nível do crime de "lavagem de dinheiro". O primeiro dos países a instituir a lavagem de dinheiro, a permitir o tráfico desenfreado de armas e de drogas, a ser o responsável numero 1 por todas as atrocidades económicas e até de direitos humanos, vem agora “… aconselhar que os países mais vulneráveis a este crime devem criar sistemas de combate à lavagem de capitais, de acordo com as leis internacionais.”Estão a gozar com quem???
23 maio 2011
"Perante um obstáculo, a linha mais curta entre dois pontos pode ser a curva."
Bertolt Brecht, in “Vida de Galileu”
Nada melhor para um início de campanha para que nos atiraram… Uma que ora começa, devidamente “preparada” pelas agências de sondagem, para nos convencer que a direita é que é preciso, que tem as soluções que melhor se enquadram na austeridade que nos querem impor, mais de nada, menos de quase tudo. Na rua, poderá haver uma outra campanha, que não a deles, na rua estará porventura a resposta, para a maioria que silenciosa não o é, felizmente. Para que o dia do voto, não seja mais uma vez, a consumação do mesmo que temos tido, há mais de 30 anos, de sonho de qualquer coisa melhor que isto. Enquanto os fanáticos da inevitabilidade se passeiam em praças e avenidas que não lhes pertencem, tentando legitimar a sua estratégia de assalto ao poder, a proposta de lhes cortar a palavra de circunstância, parece ser mais interessante. Outros passos e outras portas poderão despontar com a voz daquelas e daqueles que ora se mostram, dizendo que o sonho comanda a vida.
Assim se pode também fazer a Luta!
02 maio 2011

Sem estar em causa a morte de um fanático, convém não esquecer os outros, como ele, produtos de uma sociedade transviada de valores democráticos e de solidariedade. Quem se lembra do outro 11 de Setembro, Santiago do Chile 1973, do assalto a La Moneda, do assassínio de Salvador Allende, perpetrado pela CIA, ou seja, pelos EUA?
O mundo não fica assim mais seguro após esta morte, aliás nenhuma morte faz mais seguro o que quer que seja. Para seguir a lógica da administração americana, que se havia de fazer a criminosos como Bush, Donald Rumsfeld ou Dick Cheney? E a todas aquelas e aqueles que defenderam a teoria do "eixo do mal"?
O que assistimos é de facto, os americanos espalharem durante décadas, a miséria e a guerra pelo mundo inteiro, a troco de aparentemente nada á vista, que não sejam, a fúria armamentista, a fome do lucro e da exploração, mescla do sonho americano, agora como sempre….
01 maio 2011

Para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
Que levavam História na mão
…
Sobre as águas calmas
Um vulcão de fogo
Toda a terra treme
Nas vozes deste povo
….
Só a nosso mando
É que há liberdade
Vamos lá lutando
P’ra mudar a sociedade…”
“Eu Vi Este Povo A Lutar (Confederação)”, José Mário Branco
25 abril 2011

Dois homens na margem estão
Se um dá um passo o outro hesita
Será um valente? O outro não?
Bom negócio faz um deles
Tem o triunfo na mão
Do outro lado do rio
Só um come o fruto, o outra não
Ao outro passo o perigo
Novos castigos virão
Se ambos venceram o rio
Só um tubo ganha o outro não
Na margem já conquistada
Só um venceu a valer
Perdeu o outro a saúde
Mas nada ganhou p´ra viver
Quem diz "nós" saiba ver bem
Se diz a verdade ou não
Ambos vencemos o rio
A mim quem me vence é o patrão”
“Ali Está O Rio”, Zeca Afonso
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Referências:
• “Ali Está O Rio”, in: “Enquanto Há Força”, Zeca Afonso, Lisboa, 1978
• “Por este Rio acima”, Fausto Bordalo Dias, Lisboa, 1982
18 abril 2011
08 abril 2011
25 março 2011

És tu que me livras da ambição do poder,
PROUDHON, J.[1809-1865]
Quis o destino que saísse de cena num dia de sol, ofuscado porventura pela claridade de inexistentes holofotes de uma fama efémera. Sempre foram 6 anos de circunstâncias contraditórias que, em alguns deixou marcas encantatórias, não suficientes contudo para lhe conferir o lugar que quiçá ambicionaria para si e para o séquito de aprendizes que constituiu. Com tiques e truques que, diga-se de passagem, produziram alguns efeitos especiais num universo limitado, que muitas vezes confundiu com uma realidade que raramente se deixa trair. Traição sim, já que personagens assim merecem o julgamento de quem os pôs em cena, o preço que se paga pela negação de princípios e pela violentação de aspirações legítimas. Quem fala e age com a autoridade de uma razão, disfarçada com aquele rigor que tantas vezes invocou para tomar as tais medidas que todos deveriam aceitar, porque provinham de um desígnio nacional, muito acima dos pequenos interesses, sonha e acorda agora, aparentemente espezinhado por aqueles que sempre protegeu e acarinhou. Quatro longos anos confortado por uma maioria, que esperaria algo diferente, não foi capaz de construir um edifício seguro para uma família desfavorecida, preferindo alimentar interesses, apadrinhar medíocres funcionários, proteger protectorados instalados, cimentar desigualdades. No limite, contribuiu para teorizar um paradigma de desencanto, protótipo de um desengano generalizado. Quem porventura levantasse a voz dentro de casa, era imediatamente silenciado, renegado para o armário das recordações, ou mesmo atirado borda fora, devidamente epitetado de extremista, radical, ou qualquer coisa do género.
Os que protegeu, agora querem mais, sempre mais, uma desmedida ganância que vem de trás, de muito longe. Que sempre se aproveitam da desgraça alheia, para se alcandorarem na cena, um patético espectáculo de mentira, alimentado pelos comentadores arregimentados pelas agências para-governamentais que, todos os dias, nos entram pelos ouvidos, pelos olhos, distorcendo a realidade.
Antes de sair de cena, digamos que preparou o terreno. Ninguém melhor que ele, para alimentar o paradigma do desengano. Uma brilhante jogada, alicerçada na tese de que os culpados da dívida pública são os funcionários, os reformados e os doentes. A realidade é contudo bem diferente, já que foram as políticas de redução fiscal que obrigaram as administrações públicas a endividar-se junto dos agregados familiares favorecidos, através dos mercados financeiros, de modo a financiar os défices gerados. Ou seja, com o dinheiro poupado nos seus impostos, os ricos puderam adquirir títulos (portadores de juros) da dívida pública, emitida para financiar os défices públicos provocados pelas reduções de impostos. De facto, o aumento da dívida pública é o resultado de uma política que favorece as camadas sociais privilegiadas: as “despesas fiscais” (descida de impostos e de contribuições) aumentaram os rendimentos disponíveis daqueles que menos necessitam, daqueles que desse modo puderam aumentar ainda mais os seus investimentos, sobretudo em títulos do tesouro, remunerados em juros pelos impostos pagos por todos os contribuintes. Este é pois um perverso mecanismo de redistribuição invertido, das classes populares para as classes mais favorecidas, através da dívida pública, cuja contrapartida é sempre o rendimento privado.
A cena, agora em regime de vacatura, está aberta a novos protagonistas. Aqueles que se perfilam, acobardam-se na mentira, na corrupção, no favorecimento de negócios especulativos e na destruição das políticas de desenvolvimento. Desses, não é de esperar coisíssima nenhuma, a não ser a malfadada austeridade, que recairá sempre e mais uma vez sobre os culpados do costume.
Recuando seria bom ao tempo das Farpas, onde se apelidavam alguns personagens da cena de canalhas, bandalhos e outros epítetos, ora politicamente incorrectos, mas cuja transposição não seria de todo despicienda…
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Referências:
Askenazy , P., (2009) “De la dette et la crise en Europe”
Ziegler, J., (2002), “Les Nouveaux maîtres du monde et ceux qui leur résistent“
21 janeiro 2011
exprime melhor do que a verdade
aquilo que se passa na alma”
Do Livro dos Conselhos
É bom que saiba que alguma comunicação social o leva ao colo. O grupo Marketest fez, uma vez mais, a encenação para a montagem de uma putativa vitória. E logo à primeira volta. Numa sondagem do inicio da semana, a empresa, aliada à TSF e Diário Económico atribui a vitória a Cavaco, com mais de 70% dos votos. Esta sondagem é feita com base numa ficha técnica onde, por exemplo, são inquiridas 155 pessoas no Litoral Norte, sem inclusão do Grande Porto, quase no mesmo número que em Lisboa, onde existem 2,5 milhões de eleitores e onde o Interior Norte tem 181, ou seja mais 25 que a Grande Lisboa. Isto não é uma sondagem, mas muito simplesmente uma fraude montada por quem de direito (!) para manipular o eleitorado e condicionar o seu voto. Aliás, o “parceiro” TSF tem vindo a desenvolver uma insidiosa campanha de manipulação da opinião pública, desde há muito tempo, valendo-se do estatuto que julga ter, de maior rádio do País. Diz a Marketest “Desenvolvemos Estudos para fornecermos aos nossos clientes Informação com Qualidade, Rigor e Independência prestando assim, um serviço de reconhecido valor acrescentado” (a) . Nota-se mesmo o Rigor, com maiúscula e tudo! Em sucessivas eleições, as suas “sondagens”, nunca sequer se aproximaram da realidade. “Aldrabice pura e dura” (b) , assim o classifica hoje, de forma clara, António Vilarigues. Nem mais!
Estes são os agentes dos donos de Portugal. Desmascará-los é pois a palavra de ordem. Bem vistas as coisas, num estado de Direito, esta empresa e os seus aliados deveriam ser avaliados pelo mau serviço que fazem e que prestam ao País. Estamos no direito de presumir por quem são pagos para emitirem tais desmandos. A forma como transmitem as notícias, a interpretação que delas fazem, a forma como as apresentam (Cavaco chega aos tantos por cento, Alegre não consegue mais que…, Francisco só atinge…), sem o mínimo de rigor e imparcialidade, com toda uma carga intencional onde se discorre um único objectivo.
Uma vergonha!
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(a) Site da Marketest, in: http://www.marktest.com/wap/a/q/id~c7.aspx
(b) Jornal “Público”, 21 Janeiro 2011, página 38
18 janeiro 2011

a mais segura é a dúvida”
Do Livro dos Conselhos
Fez a desdita que um dia subisse das profundezas do País obscuro, o personagem cinzento que, a propósito da rodagem de um vulgar automóvel e encalhasse algures na Figueira da Foz, para salvar o partido e, quem adivinharia então, a pátria. Saber-se-ia depois o seu apego às coisas singelas da vida pequeno-burguesa, quiçá retrato de um País ainda mal refeito de uma revolução, cujas marcas por ele não teriam eventualmente passado. Do pouco que dele se conhecia, ficariam entretanto tristemente célebres os registos do tabu, do homem que não tinha dúvidas e raramente se enganava, que não lia jornais. Professor de Finanças, 1º Ministro, um caminho curto e rápido, para meter o país na ordem, dos desvarios revolucionários, radicais e extremistas. Expressão firme e hirta, fala contida, tremeliques de palavra, algum desdém pelas regras democráticas, desprezo quase constante pelo contraditório, termo que aliás não caberá no seu parco vocabulário. Após um interregno sabático, em que se terá dedicado ao aprovisionamento de alguns duvidosos títulos da banca, eis que o homem consegue a Presidência, fruto de uma dádiva confucionista da esquerda maioritária, num arremesso de autoridade que, no final do mandato era por demais notório, Se tivessem ouvido os meus conselhos…
Do outro lado, enterrado pela História, o outro ele poderia segui-lo com alguma expectativa, se a natureza não fosse o que é. O mesmo percurso, a mesma contenção, os tiques mais ou menos autoritários, uma assustadora réplica que, podendo parecer desajustada, não o é contudo na forma e quiçá no conteúdo. Dois exemplos porventura significativos. A forma como ambos se referem à Mulher e à Pobreza. Que bem que ficaria Maria, nos chás de caridade do Movimento Nacional Feminino, a recitar banalidades e a arranjar madrinhas para os soldados. O ele da direita poderia fácilmente dizer da governanta, “Esta é a minha senhora. Esta senhora trabalhou praticamente a vida toda. Sabe qual é a reforma dela? Não chega a 800 euros por mês. Foi professora em Moçambique, em Portugal, nunca descobriram a reforma dela. Portanto depende de mim, tenho de trabalhar para ela. Mas como ela está sempre ao meu lado e não atrás, merece a minha ajuda” (a) . As palavras valem o que valem, não merecem qualquer comentário, mostram porém a pequenez de espírito e a moral de quem as profere.
Do ele da esquerda, salvo seja, diria Defensor porventura a frase mais emblemática da campanha, “Não suportou que eu o olhasse nos olhos…” (b) . Desconcertante constatação, o homem de facto não olha para nós, aliás não é capaz de sorrir, apenas de um esgar de tédio mal disfarçado. Gosta de mandar, pois pensará, como o outro, que é um desígnio dos homens providenciais, “Se soubesses o que custa mandar, gostarias de obedecer toda a vida” (c) .
Num gesto incontido, como na imagem, a mão direita levantada poderia, talvez um pouco mais esticada, assemelhar-se à saudação preferida do outro, num arrebato típico do palhaço Strangelove (d) . A distância que os separa, que nos separa, não permite devaneios destes, que nos perdoe a asserção, fica somente o registo, só para se saber que a gente não esquece.
O ele que já foi, quando confrontado, mandava-nos para a PIDE, o ele que existe, quando acossado, manda-nos para o site. Sublime diferença, típica da era digital, da sociedade dita da informação. Sobre ela, e nela, tudo é aparentemente viável. Tudo é virtualmente possível. Até fabricar e manipular sondagens que, desde muito antes do início das campanhas, orientam o dito eleitorado, figura suprema da democracia representativa, guindada aos píncaros da bondade do voto directo e isento. Nada mais falso, há agora, muito mais que no tempo do outro ele, todas as possibilidades de eleger um macaco para presidente, se essa for a vontade dos donos de um qualquer poder.
Num exercício de liberdade criativa o ele vivo decerto iria subscrever, como muitos já o fazem e não pensam nisso, a sentença fatal do ele já morto, “Quem se coloca no terreno nacional não tem partidos, nem grupos, nem escolas...” (e).
Alguma coisa de válido neste ele que ora se perfila para mais 5 anos? Nada encontro, por mais que procure. Fez roteiros para a inclusão, pois sim, só se foi para nos incluir no seu pensamento retrógrado e retorcido. Com ele, Portugal ficará decerto mais cinzento, mais injusto e mais desigual. Haverá quem nele encontre algo de interessante? Claro que sim, o termo não é pacífico sequer, uma vez que deriva de interesse; e ele defende mesmo interesses, só que nenhum dos interesses que lhe interessam, me interessa particularmente. De todo.
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(a) Discurso de Cavaco Silva, Ponte de Lima, 14 Janeiro 2011
(b) Revista “Visão”, 13 Janeiro 2011
(c) Referência a uma das “máximas” da A. Oliveira Salazar
(d) Referência à obra co-escrita, dirigida, produzida e realizada por Stanley Kubrick , “Dr. Strangelove”; filme, EUA, 1989
(e) Salazar, A. Oliveira, "Discursos”, Lisboa, 1935
31 dezembro 2010
dos rossios de guitarras à janela…
Foi por ela que eu passo coisas graves
e passei passando as passas dos Algarves
com tanto santo milagreiro todo o ano
foi por milagre que eu até nasci profano…”
“Foi Por Ela”, Fausto Bordalo Dias
Se há um ano atrás esperávamos mudar o Mundo, ou simplesmente alguma coisa para melhor, encalhamos hoje num porto que de seguro nada tem, a não ser a amarra que nos liga teimosamente à luta. Já não há rossios de guitarras à janela, que foi por ela (a luta) que eu passei das minhas contas, canto que é de Amor, mas de Luta também, precisa mais que nunca, como resposta à ignóbil ameaça que enfrentamos. Pois que acabamos o ano como começamos, será uma sina, será que é fado, será que ainda é o bolorento e cinzento ar dos brandos costumes do fascismo, agora temperados pela voz de um senhor que manda e quer mandar mais, candidato que nos quer calar, porque diz, fala-se muito e muito alto, ora essa, mas a gente quer é gritar que não está de acordo! Não senhor, embora possa parecer, a gente quer é varrer isto tudo, a gente quer dizer aoTejo, “lava a cidade de mágoas / leva as mágoas para o mar / lava-a de crimes e espantos / de roubos, fomes, terrores, / lava a cidade de quantos / do ódio fingem amores / Afoga empenhos favores / vãs glórias, ocas palmas/ leva o poder dos senhores / que compram corpos e almas…” . Esperança é aquilo por que se luta, passar a palavra, porque amanhã pode ser tarde demais, hoje pois, é como se fosse já amanhã, nem tarde nem cedo, espero que estejas sempre comigo, que não percas nunca este rumo, simples acorde, qualquer que seja a letra, é a tua porque sabes o que queres, que mais se pode desejar para um ano que à porta está e tens que o deixar entrar. Frio no Norte, ou trinta e tal graus no Sul, desde que não se deixe esvair o tropical sentido na lapela, ontem mesmo hoje e sempre ainda agora…
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Referências:
o “Foi Por Ela”, Fausto Bordalo Dias, “Para além das cordilheiras”, 1987
o “Tejo Que Levas As Águas”, Manuel da Fonseca e Adriano Correia de Oliveira, “Que nunca mais”,1975
12 dezembro 2010

“… E, contudo, cada indivíduo parece trazer à sua volta um halo de intangibilidade divina…”
Placa à entrada da aldeia, de Miguel Torga, in “Diário VII, 3ª edição revista, pág. 185/186”
Brava era a Avelã. Em tempos porventura remotos, que difícil é sempre medir o Tempo, em tempos que outros valores se parecem levantar. Deles entretanto fala sempre a natureza agreste da Terra Fria, onde quentes são as gentes e os modos como nos recebem e acarinham. E há os cheiros e os sabores, misturados com os vinhos, as aguardentes que temperam os repastos a qualquer hora. Porque andamos sem relógio, sem tempo determinado, sem aquelas obrigações que tolhem o dia-a-dia e, por vezes, as consciências. Recordamos os tempos da Guerra Civil espanhola, onde tantos resistentes foram assassinados, a aldeia guarda as memórias de algumas e alguns que defendiam a liberdade sem fronteiras, quando estas eram implacáveis para quem ousasse atravessá-las. Lembramos tempos em que o contrabando era uma arte, de fuga às regras das ditaduras de cá e de lá. De trás dos montes surgiam de quando em vez, sinais de revolta às tiranias, dos ecos poderiam falar as velhas pedras, caso lhes fosse possível o devaneio. O Pinto que o diria, se cá ainda estivesse, as estórias que contaria, das fugas e das traições, das cumplicidades dos camaradas das mesmas lutas de outrora e que hoje nos conta o Zé, nosso anfitrião. Ele e a Carminda, amigos de longa data, que souberam transformar as casas antigas em atraentes lares de refúgio, que desafiam a paisagem da albufeira, acrescentando valor ao belíssimo enquadramento daquela com a serra. Não há nada que falte, está tudo lá, a terra faz o resto: o limonete e o hipericão do Gerês, para o chá, a couve para a sopa, o tronco para a lareira., que quente faz o frio lá fora. Lembro Miguel Torga que à entrada da aldeia, atesta na pedra. “Por mais que tente, não consigo reduzir estas vidas de planalto a uma escala de valores comuns…”
Avelã Brava, Negrões, uma força incomensurável da Natureza…
22 novembro 2010

“Pactos e alianças são um bom remédio
Para entreter marechais e lhes combater o tédio…”
“Máquina Zero”, Rui Veloso, in “Guardador de Margens”, 1983
A ocidente nada de novo. As mesmas ideias, os mesmos conceitos, os mesmos intervenientes, a mesma presunção de sempre: o domínio do Mundo, uma estratégia conhecida, a organização totalitária da violência belicista. Ainda que mascarada, pela “nova” linguagem da direita, uma “Aliança de Democracias”. Passearam-se em Lisboa, a alta velocidade, teóricos, militares de carreira e de caserna, consultores de segurança e claro, políticos empenhados na “causa”. A bem da “estabilidade”, do "diálogo constante", da “concertação”, cortaram a 2ª Circular, o Eixo Norte-Sul, ocuparam com pompa e circunstância uma cidade, um simbolismo que mais parece um paradoxo. Houve quem dissesse que tinham “…transformado o Parque das Nações no mais belo bunker do Ocidente”(1) . Isolados das pessoas comuns, eles são mesmo assim, ao fim e ao cabo são essas pessoas comuns que lhes pagam a factura da “segurança”, eles têm que ter segurança, a sua defesa pessoal não pode ser ameaçada. Esse, parecendo que não, é um cerne da questão: somos nós que pagamos sempre a segurança deles, neste e noutros cenários.
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(1) Fonte: Fernando Alves, TSF, “A semana passada”, 19 Novembro
(2) Fonte: Jornal Público, 20 Novembro
14 novembro 2010

Parte 4: o Bando dos 4
Onde não de fala (como poderia parecer…) da ala radical do regime na Revolução Cultural Chinesa, mas sim do apoio mais que necessário à banca “nacional”
Um bando. Não propriamente de pardais à solta, que esses são ainda os putos da nossa melhor memória. Estes são peixe graúdo. Dão pelos seus nomes, sobejamente conhecidos: Ricardo Salgado, Faria de Oliveira, Santos Ferreira Fernando Ulrich, patrões do BES, CGD, BCP e BPI. Chamemos-lhe o Bando dos 4, designação que de inventada já que não por mim, adopto sem a licença devida, sabendo que a usurpação não constituirá decerto notícia, a tal não aspiro. Este Bando nunca será objecto de qualquer investigação, não há necessidade, são decerto cidadãos acima de qualquer suspeita, a sua credibilidade é infinita, as suas influências e opiniões são apenas para consolidar o interesse nacional, os superiores interesses do País. Um País que nunca seria capaz de sobreviver sem a sua prestação, o seu empenhado esforço em salvar os portugueses, todos os portugueses claro, da terrível ameaça de uma crise, para a qual eles nada contribuíram, antes pelo contrário, que sempre avisaram do que era preciso: mais flexibilidade laboral, menos Estado Social, menos salários, menos despesa pública; sempre avisaram que vivíamos desde há muito acima das nossas possibilidades, menos eles está visto, dado que auferem, todos eles, salários baixíssimos, apesar de serem muito competentes, eficientes, eficazes e providenciais. Longe do pensamento deles exercer pressão alguma sobre os governos e demais acólitos. Absolutamente impolutos, movidos pelos superiores desígnios de justiça social, pretendendo apenas salvar o País da crise
07 novembro 2010
Parte3: “Acordo” e Orçamento: para o abismo, um passo em frente, se faz favor
(onde se fala de telemóveis, da casa do Catroga, de personagens providenciais e outras coisas mais….)

Acordamos na passada semana para o “Acordo”. Passamos dias a fio acordados, com a perspectiva de um não-acordo, uma novela contínua de desavenças mal disfarçadas, de avanços e recuos, de declarações de amor e ódio, sempre a bem da nação, na linguagem cifrada do centrão, “a bem de todos os portugueses”, do “interesse nacional”, da "abertura para o compromisso", da “concertação”, do “equilíbrio” e outras baboseiras para enganar a grande maioria dos portugueses. Inquietos que somos, de procurar algum sentido, no meio de tanta confusão, descortinamos algumas cenas patéticas, como a da foto de Eduardo Catroga, a “mais importante da minha vida…”, a frase de Cavaco “Em que situação se encontraria o País sem a acção intensa e ponderada, muitas vezes discreta, que desenvolvi ao longo do meu mandato?”. Nada a amenizar a situação catastrófica anunciada já pelas inefáveis agências de rating, de penalizar o país com juros mais altos, a intolerante pressão dos mercados financeiros a quem está entregue a dívida soberana. A encenação completa, a mais vergonhosa campanha levada a cabo pela comunicação social com sondagens insidiosas, declarações dos mesmos economistas de sempre, dos mesmos comentadores políticos, a reforçar a inevitabilidade: é duro, mas tem que ser, vivemos há muito acima das nossas possibilidades, o país afunda-se cada vez mais. A panaceia: cortar nos salários, reduzir as prestações sociais, redução as despesas no âmbito do Serviço Nacional de Saúde, aumentar (sempre mais) o IVA, …
Como é possível exigir sacrifícios sempre aos mesmos, sem oferecer contrapartida alguma às pessoas, a não ser a degradação progressiva das suas condições de vida? Como é possível “convencer” alguém com a medida de aumento da taxa do IVA em 2 pontos, “esquecendo” que, a partir daí, os aumentos dos bens essenciais, os transportes, os combustíveis, aumentarão em flecha? Como é possível, com estas medidas combater a pobreza e a pobreza extrema? Como é possível cortar salários a quem legitimamente tem as suas expectativas, em termos mínimos de qualidade de vida, a sua prestação da casa, do carro?
17 outubro 2010
Um post do desassossego
O desassossego de um post

Imagem: http://blog.umfernandopessoa.com/
In “Tabacaria”, Álvaro de Campos
Fica bem Amigo, eu aprendi a lição! "Claro em pensar, e claro no sentir, / e claro no querer".
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Citações e referências:
o “Mensagem”, Fernando Pessoa
o "Livro do desassossego", Fernando Pessoa
o “Tabacaria”, Álvaro de Campos
o “Poesia”, Fernando Pessoa
o "Vidas", Plutarco
05 outubro 2010

Insubmissão; o ser crítico, atento e não confortado com a realidade, que é para transformar e não para aceitar como inevitabilidade; o ser livre de espírito e corpo, o querer participar e intervir como agente de transformação; o “ser realista, exigir o impossível” (2); quando Sócrates se “revolta” contra a “agitação irresponsável e demagógica”, está a dizer precisamente que nos acomodemos, que sejamos submissos; é contra tal, que somos contra!
Para os que pensam que os desmandos da I República contribuíram para o golpe fascista de 28 de Maio, diremos simplesmente a verdade: o golpe não foi feito contra a situação, mas sim contra os ideais e os conceitos. Essa a verdade.
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(1) Jornal Expresso, in: http://aeiou.expresso.pt/cavaco-e-socrates-querem-coesao-nacional=f607440
(2) Pensamento de Herbert Marcuse (Maio 68)


