"Do rio que tudo arrasta, se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem" Berthold Brecht
rio torto
27 setembro 2011
23 setembro 2011
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“Sai de casa e vem comigo para a rua,
vem, q'essa vida que tens, por mais vidas que tu ganhes, é a tua que, mais perde se não vens…”
Deolinda – “Um contra o outro”, 2009
“O
destino pouco importa, o que conta é a viagem”
Do Livro dos Conselhos
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12 setembro 2011
Passados 10 anos, ainda pouco se sabe sobre o que realmente aconteceu naquele dia. Sabemos da tragédia, em que milhares de pessoas perderam a vida, de forma inglória. Sabemos do aproveitamento político subsequente, por parte da administração americana e da quase totalidade dos governos do ocidente, unânimes no discurso, cúmplices na atitude. Sabemos ainda, porque aqui vivemos, de como o mundo ficou amarrado na presa securitária, de contornos neofascisantes, que nada acrescenta, nem resolve. Mas de facto não sabemos, porque talvez isso não convenha, como aquilo aconteceu, porque aconteceu, quem são os responsáveis. Muito fácil, a explicação americana, muito conveniente. Convém recordar a administração Bush, o seu chefe alcoólico e demente, bem como todo o seu séquito de malfeitores, criminosos de guerra e traficantes de armas. Convém reafirmar que, desde os anos 50 do século passado, os EUA têm praticado por todo o lado, uma politica de destruição maciça de tudo o que mexe no mundo: Cuba, Coreia, Vietname, Chile, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, Líbia, Haiti, Iraque, Afeganistão. Antes, como agora, sempre para “salvar democracias”, leia-se, proteger ditaduras obsoletas, tiranias absolutas, ou salvaguardar duvidosos interesses financeiros. Dominar os recursos, em última instância, o petróleo, os seus protectorados, as suas benesses, os frutos de uma exploração sem limites, a bem do jugo imperial e da sobranceira forma como encaram o resto do mundo.
A história nunca se repete. De qualquer forma, não deixa de ser curiosa a coincidência de datas, no 11 de Setembro. De 1973, em Santiago do Chile a 2001em Nova Iorque, vão 28 anos de intervenções desastrosas. A intromissão americana no Chile, em favor do ultra fascista Pinochet, para derrubar o governo legítimo de Salvador Allende, ficará marcada para sempre, como um dos episódios mais sangrentos do século XX. Estará o povo americano ainda a pagar pelas políticas imperialistas das sucessivas administrações?
Mas, ao que parece, a administração americana não é capaz de compreender, nem aprender. As ténues esperanças de mudança, desde que Obama chegou ao poder, vão-se desvanecendo uma a uma. As intervenções falhadas no Iraque e Afeganistão continuam, tal como antes. A base de Guantanamo resiste às vãs promessas e permanece como símbolo da vergonha, do autoritarismo e da arbitrariedade. A notícia da United Press de que o Presidente se iria encontrar, lado a lado, com o antecessor, não deixa de ser preocupante, pela simbologia que representa.
O mundo não está de facto melhor. Está, na realidade pior. De um lado o intolerável e insuportável fundamentalismo muçulmano. Do outro lado, a arrogância imperial dos EUA e os seus seguidores, na Europa, África e Ásia. Comparada com a Guerra Fria da última metade do século passado, a situação actual é assustadora, sobretudo num aspecto: a facilidade e o despudor com que se mata, em nome de qualquer coisa. A inversão desta situação, só será possível num quadro de desenvolvimento global da comunidade das nações, no respeito pelos Direitos Humanos, da luta contra a pobreza, da eliminação progressiva das desigualdades sociais, enfim, na procura de condições para desenvolver uma parceria global para o desenvolvimento, um compromisso das Nações Unidas, inscrito no último dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, aprovados há exactamente 11 anos atrás.
11 setembro 2011

“Se sonhar um pouco é perigoso,
a solução não é sonhar menos, é sonhar mais …”
do Livro dos Conselhos
E se sabemos que verdadeiramente nunca reencontramos o que porventura procuramos, o certo é que voltamos às deliciosas paragens de Vila Real de S. António, perdida no limiar do país real, mesmo no limite territorial sudoeste. E se é certo também que Os verdadeiros paraísos são os paraísos que se perderam (1) , ainda restam algumas lembranças da última estadia, como esta, numa breve paragem que tenta reconfortar o corpo e (se calhar) o espírito. E é assim que voltam as voltas da vida, aos mesmos sítios e paragens, quiçá ora mais inquietos, pela passagem dos dias em que tudo é breve, assim se analisam os tempos que correm, mais depressa do que desejaríamos. E assim também o sentem os espíritos inconformados, que tudo colocam em causa, como convém aos que ainda acreditam na mudança. Tudo é igual e diferente ao mesmo tempo, em cambiantes dissimulados pela crise que abala tudo, para deixar tudo cada vez pior. Que o diga o homem da ligadura na perna, que percorre a praia, para um e para o outro lado, num registo diário constante, sempre no mesmo local, que cuidadosamente assinala no final do dia, para que não perca um norte que do sul advém e que as marcas na face não conseguem esconder. E que o ateste o comboio Tschu- Tschu, que antes de borla era e que agora se paga, pudera que a produção do país se vai especializando cada vez mais em prestações de serviços, óbvios de tão óbvia a riqueza nacional se reclama. E, se agradecer devemos à bondade extrema de quem superiormente nos dirige, lembramos, por um feliz acaso, a “doce” melodia Kanimanbo, do tempo colonial, em que o intérprete Tudela se esforça em tentar mostrar que o que era não era o que podia parecer, afinal apenas rimas mais ou menos parvas, que nos servem para soltar gargalhadas imensas, que rir assim é preciso, para soltar amarras do stress que nos quer consumir. Para a história fica também a eterna angústia da lula que quer ser calamar e da outra, que é pota e nunca chegará a lula, numa cefalópoda simetria bilateral e mimetizante postura, que nada significaria, não fora a importância de estas e estes espécies se moverem “por intermédio de propulsão, ejectando grandes quantidades de água armazenadas na cavidade do manto, através de um sifão de grande mobilidade e capacidade de direcionamento dos jactos” "(2) , e sabendo finalmente o quanto dependemos das tecnologias de deslocação rápida, tipo TGV dos mares, para acompanhar os submarinos do Portas.
De tanto rebolar nas areias quentes da imensa praia, e de tão distantes que estão as fontes habituais de informação, que da rádio só as ondas de Espanha se aventuram, não nos embrenhamos, como se calhar deveríamos, na disputadíssima venda (ou compra???) do BPN, onde mais uma vez se demonstra a bondade dos nossos servidores públicos, naquela que poderia ser a fraude do século, um descarado roubo de igreja, Valha-me deus, e que não passou de mais um episódio de uma novela peessediana, com cavacos à mistura, Mira que nos parió, diria um espanhol que vinha comprar tabaco ao quiosque da antiga fronteira. Passariam, ainda por nós despercebidos, os reforços de verão da CGD, que terá adquirido os passes de alguns conhecidos consultores em final de contrato e que terão sido contratados a peso de ouro, que aqui é mais ou menos ao contrário do futebol. E, bem a propósito, resta a casa do Glorioso, este ano com menos trânsito que no ano passado, pode ser que seja sinal de sucesso, nas marcas de um tempo que pensamos ser perdido, mas que dia a dia encontramos por aí…--------------
(1) in “O Tempo Redescoberto”, Marcel Proust, Lisboa 1998
(2) fonte Wikipedia, in: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lula
23 julho 2011
…
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem
dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade.
E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade. …”
“Poema de agradecimento à corja” (Excerto), Joaquim Pessoa, Barreiro 2010
Curioso notar (ou não) que, todos os dias, o jornal ostenta as fotografias dessas espécies de luxo que são os 4 líderes (ou CEO) dos 4 designados maiores bancos portugueses. Pelas razões mais diversas, sejam as notações das agências de rating, os aumentos de taxas do BCE, as perdas/ganhos dos ditos, a colocação da dívida, as exportações ou importações, ou quem mais ou menos importa, tudo serve para a fotografia. Ainda estou à espera, um dia quem sabe, de abrir o DE e descobrir que não aparece a foto de nenhum (pelo menos de 1, vá lá) deles, aí estou convencido que o periódico vai perder a sua (dele) identidade. E depois, quer dizer, além das fotos dos referidos senhores, vem o séquito de opiniões “independentes”, que defendem que o que é preciso é mais estabilidade e mais solidez, mais robustez, da banca, porque é assim que se vai ultrapassar a crise, pois é a banca que sustenta a economia. E daí, a solução para todos os problemas do País e arredores, que diga-se de passagem, não são nem mais nem menos que as coutadas desses senhores e dos que se alimentam deles, leia-se, lhes vão comer à mão. Eles e elas (poucas elas, aliás…) que são os analistas, comentaristas, economistas, politólogos (espécie recente), que também são quase todos ex-qualquer-coisa, vindos sempre do mesmo centrão, cinzento, pálido, obscuro, primário, previsível, inevitável. As posições diferentes são sempre curiosamente iguais: as medidas de austeridade são porventura injustas, mas (e o mas é sempre redundante) necessárias, porque de interesse nacional; aqui, a coisa às vezes varia, ou é o “interesse colectivo”, o “interesse do país”, o “interesse público”, ou o avassalador “superior interesse nacional”, umas décadas atrás seria “a bem da nação” e está tudo dito.
Coisas simples, corriqueiras talvez, como por exemplo, taxar em 1% as operações bolsistas, significa exactamente a mesma receita para o Estado que o roubo do 13º mês (1.050 milhões), aplicar 20% de taxa sobre as transferências para off-shores, equivale ao dobro daquele valor, não significam nada para os comentadores do regime. O Diário de Notícias adiante hoje, que “Tributar dividendos rendia mais 50 milhões que taxar reformados”. Mas, claro está, aplicar um imposto extraordinário sobre capitais, à semelhança do que se quer fazer para os trabalhadores, está positivamente fora de causa, já que tal implicaria a famigerada fuga de capitais para o exterior. Como se ela não esteja a acontecer, como toda a gente sabe. E para onde, aliás… Esconjurem-se então tais medidas e quem as apoiar!
Mas, ironia das ironias, por mais PECs e/ou mais medidas para diminuir (artificialmente) o défice e/ou impor mais austeridade, os famigerados mercados, sempre inquietos, irrequietos ou qualquer coisa que o valha, desconfiam (o termo é fantástico) da dita recuperação do País e, vai daí, as temíveis agencias de rating americanas, que baixam a cotação da República, condenando a pátria ao lixo comum.
Então ficamos – os simples mortais que pagam – ou baralhados, ou pasmados, ou plasmados, ou outra-coisa-qualquer que não se escreve assim ao de leve. E pensamos, porque ainda nos damos a esse luxo (!), Mas afinal o que é isto?
O entulho liberal e ultra-liberal apresenta-se agora sob a capa diáfana daquele senhor das finanças que fala devagar e explica tudo (mas afinal ele diz a mesma coisa, não é?), do outro que quer que o tratem pelo nome e não por doutor e da outra que dispensa as gravatas dos colaboradores, entre 1 de Junho e 30 de Setembro. Sérios, competentes e rigorosos, assim nos ensina um dos articulistas de serviço do DE, os novos intérpretes da recessão, do desemprego e da desgraça, têm ainda a suprema virtude: são novos, meu deus! Ao fim e ao cabo, tal como o de Santa Comba que, em 1928, aos 37 anos foi convidado para as Finanças…
Todas e todos têm agora o “conforto” do chefe da Republica, o de Boliqueime, esse mesmo que começou a destruiu o País nos anos 80, durante 2 mandatos, desbaratando fundos em betão e favores, matando as pescas, a agricultura, a indústria e tudo o que mexesse, distribuindo benesses e formando quadros e parceiros como os do BPN.
A triste imagem do país, humilhado e amordaçado, contrasta com o semblante promissor dos 4 banqueiros, um bando que vai a pouco e pouco sugando o que resta. Basta-lhes de facto saber que, por um lado, o estado protector de que se alimentam, os acolhe e lhes paga os prejuízos e que, por outro lado, lhes vai dar na mão os negócios rentáveis (para eles, não para o Estado) das privatizações que se avizinham.
Este é apenas um exemplo da comunicação social que temos e que pagamos. Para além de transmitir e vincular a voz dos donos e o pensamento único, também fabricam sondagens, para orientar o eleitorado para o lado (do centrão) que mais lhes convier, no momento adequado. Esta é também uma falsa democracia, aqui e em toda a Europa, que não tem o mínimo significado para quem trabalha. Todavia eles precisam de quem lhes pague os vícios…
12 junho 2011

06 junho 2011

a linha mais curta entre dois pontos pode ser a curva…"
Bertolt Brecht, in: “Vida de Galileu”
Fecha-se um ciclo político, com o apuramento dos resultados do acto eleitoral de 6 de Junho. Pela primeira vez, a direita consegue o “sonho” de Sá Carneiro, uma maioria, um governo, um presidente. Quaisquer que sejam as ilações, diferentes obviamente segundo a perspectiva, a verdade é que o País foi sistemática e criteriosamente conduzido a uma situação de ruptura das finanças públicas, pela governação dos 3 partidos do convencionado arco do poder. Atribuo inteira responsabilidade da situação a que chegamos à politica desastrosa do Partido Socialista e à diletante prestação de José Sócrates, que agora sai de cena, deixando o Partido num estado de indefinição, contrariando as expectativas legítimas de milhões de portugueses, que nele (partido) depositaram alguma esperança de mudança. A atitude de permanente aproximação à direita liberal, significa numa palavra, a traição. Tudo foi permitido, durante os 6 anos de governação: banca agarrada ao poder, alimentando-o e alimentando-se dele, não contribuindo (como qualquer empresa) com o pagamento do imposto devido, destruição do aparelho produtivo, com o inevitável decrescimento e aumento do desemprego, diminuição crescente do poder de compra, descrédito completo do sistema de justiça, ausência de vontade politica de combater a corrupção, enfim, o assalto sistemático ao aparelho de Estado, para contrabalançar a quota relativamente ao PSD – CDS. O horror à esquerda, tantas vezes manifestado pela liderança do secretário-geral, numa arrogante manifestação, que ele próprio designava de coragem. Tudo era afinal contrariado pela prática constante de multiplicação de institutos e agências, com uma plêiade de acólitos, geralmente pagos a peso de ouro, num País que cada vez foi ficando mais desigual.
Mas este acto eleitoral confirma uma democracia cada vez mais fragilizada. As maiorias são agora criteriosamente fabricadas por uma comunicação social cúmplice do poder económico das grandes empresas, com o seu séquito de comentadores e analistas, confortavelmente acomodados, e ainda pelas empresas de sondagens que, sob a capa diáfana da auscultação do eleitorado, mais não fazem de que orientar, dia a dia, semana a semana, o sentido de voto. Contudo, esta maioria que ora se apresenta, pode ter legitimidade politicamente assegurada por uma minoria de votantes. Mas não tem seguramente uma maioria social. E porque uma democracia, como a entendemos, não se esgota no voto, vamos esperar a resposta social que aí vem. Diria, mais que esperar, vamos como é dever de cidadania, fazer o que for possível, para modificar o estado da arte desta politica, no sentido da mudança social.
Tal como quase 8% dos portugueses dei o meu voto, como habitualmente, à CDU. Que cresceu mais um pouco, contrariando uma sempre anunciada morte, ou declínio. A expectativa de uma alternativa (?) à esquerda gorou-se e terá deixado em muita gente boa, um amargo de boca. Os dias que virão, se não significarem o desengano e até uma desmobilização, poderão servir para uma reflexão profunda no seio da Esquerda em geral. Embora não reste muito tempo para pensar, porque é preciso agir, mal não faz certamente reflectir.
O profundo sentimento de desalento não deve durar mais uns dias de luto, porque a luta (essa sim) é que interessa!
04 junho 2011
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence…”
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(a ) A propósito do Festival do Silêncio, Lisboa Capital da Palavra, Festival do Silêncio, 15 a 25 Junho (http://www.festivalsilencio.com)
24 maio 2011
A noticia do EXPRESSO “Lavagem de dinheiro em Portugal é preocupante, dizem EUA” é soberba! Então, o
Departamento de Estado norte-americano considera Portugal como um país preocupante ao nível do crime de "lavagem de dinheiro". O primeiro dos países a instituir a lavagem de dinheiro, a permitir o tráfico desenfreado de armas e de drogas, a ser o responsável numero 1 por todas as atrocidades económicas e até de direitos humanos, vem agora “… aconselhar que os países mais vulneráveis a este crime devem criar sistemas de combate à lavagem de capitais, de acordo com as leis internacionais.”Estão a gozar com quem???
23 maio 2011
"Perante um obstáculo, a linha mais curta entre dois pontos pode ser a curva."
Bertolt Brecht, in “Vida de Galileu”
Nada melhor para um início de campanha para que nos atiraram… Uma que ora começa, devidamente “preparada” pelas agências de sondagem, para nos convencer que a direita é que é preciso, que tem as soluções que melhor se enquadram na austeridade que nos querem impor, mais de nada, menos de quase tudo. Na rua, poderá haver uma outra campanha, que não a deles, na rua estará porventura a resposta, para a maioria que silenciosa não o é, felizmente. Para que o dia do voto, não seja mais uma vez, a consumação do mesmo que temos tido, há mais de 30 anos, de sonho de qualquer coisa melhor que isto. Enquanto os fanáticos da inevitabilidade se passeiam em praças e avenidas que não lhes pertencem, tentando legitimar a sua estratégia de assalto ao poder, a proposta de lhes cortar a palavra de circunstância, parece ser mais interessante. Outros passos e outras portas poderão despontar com a voz daquelas e daqueles que ora se mostram, dizendo que o sonho comanda a vida.
Assim se pode também fazer a Luta!
02 maio 2011

Sem estar em causa a morte de um fanático, convém não esquecer os outros, como ele, produtos de uma sociedade transviada de valores democráticos e de solidariedade. Quem se lembra do outro 11 de Setembro, Santiago do Chile 1973, do assalto a La Moneda, do assassínio de Salvador Allende, perpetrado pela CIA, ou seja, pelos EUA?
O mundo não fica assim mais seguro após esta morte, aliás nenhuma morte faz mais seguro o que quer que seja. Para seguir a lógica da administração americana, que se havia de fazer a criminosos como Bush, Donald Rumsfeld ou Dick Cheney? E a todas aquelas e aqueles que defenderam a teoria do "eixo do mal"?
O que assistimos é de facto, os americanos espalharem durante décadas, a miséria e a guerra pelo mundo inteiro, a troco de aparentemente nada á vista, que não sejam, a fúria armamentista, a fome do lucro e da exploração, mescla do sonho americano, agora como sempre….
01 maio 2011

Para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
Que levavam História na mão
…
Sobre as águas calmas
Um vulcão de fogo
Toda a terra treme
Nas vozes deste povo
….
Só a nosso mando
É que há liberdade
Vamos lá lutando
P’ra mudar a sociedade…”
“Eu Vi Este Povo A Lutar (Confederação)”, José Mário Branco
25 abril 2011

Dois homens na margem estão
Se um dá um passo o outro hesita
Será um valente? O outro não?
Bom negócio faz um deles
Tem o triunfo na mão
Do outro lado do rio
Só um come o fruto, o outra não
Ao outro passo o perigo
Novos castigos virão
Se ambos venceram o rio
Só um tubo ganha o outro não
Na margem já conquistada
Só um venceu a valer
Perdeu o outro a saúde
Mas nada ganhou p´ra viver
Quem diz "nós" saiba ver bem
Se diz a verdade ou não
Ambos vencemos o rio
A mim quem me vence é o patrão”
“Ali Está O Rio”, Zeca Afonso
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Referências:
• “Ali Está O Rio”, in: “Enquanto Há Força”, Zeca Afonso, Lisboa, 1978
• “Por este Rio acima”, Fausto Bordalo Dias, Lisboa, 1982
18 abril 2011
08 abril 2011
25 março 2011

És tu que me livras da ambição do poder,
PROUDHON, J.[1809-1865]
Quis o destino que saísse de cena num dia de sol, ofuscado porventura pela claridade de inexistentes holofotes de uma fama efémera. Sempre foram 6 anos de circunstâncias contraditórias que, em alguns deixou marcas encantatórias, não suficientes contudo para lhe conferir o lugar que quiçá ambicionaria para si e para o séquito de aprendizes que constituiu. Com tiques e truques que, diga-se de passagem, produziram alguns efeitos especiais num universo limitado, que muitas vezes confundiu com uma realidade que raramente se deixa trair. Traição sim, já que personagens assim merecem o julgamento de quem os pôs em cena, o preço que se paga pela negação de princípios e pela violentação de aspirações legítimas. Quem fala e age com a autoridade de uma razão, disfarçada com aquele rigor que tantas vezes invocou para tomar as tais medidas que todos deveriam aceitar, porque provinham de um desígnio nacional, muito acima dos pequenos interesses, sonha e acorda agora, aparentemente espezinhado por aqueles que sempre protegeu e acarinhou. Quatro longos anos confortado por uma maioria, que esperaria algo diferente, não foi capaz de construir um edifício seguro para uma família desfavorecida, preferindo alimentar interesses, apadrinhar medíocres funcionários, proteger protectorados instalados, cimentar desigualdades. No limite, contribuiu para teorizar um paradigma de desencanto, protótipo de um desengano generalizado. Quem porventura levantasse a voz dentro de casa, era imediatamente silenciado, renegado para o armário das recordações, ou mesmo atirado borda fora, devidamente epitetado de extremista, radical, ou qualquer coisa do género.
Os que protegeu, agora querem mais, sempre mais, uma desmedida ganância que vem de trás, de muito longe. Que sempre se aproveitam da desgraça alheia, para se alcandorarem na cena, um patético espectáculo de mentira, alimentado pelos comentadores arregimentados pelas agências para-governamentais que, todos os dias, nos entram pelos ouvidos, pelos olhos, distorcendo a realidade.
Antes de sair de cena, digamos que preparou o terreno. Ninguém melhor que ele, para alimentar o paradigma do desengano. Uma brilhante jogada, alicerçada na tese de que os culpados da dívida pública são os funcionários, os reformados e os doentes. A realidade é contudo bem diferente, já que foram as políticas de redução fiscal que obrigaram as administrações públicas a endividar-se junto dos agregados familiares favorecidos, através dos mercados financeiros, de modo a financiar os défices gerados. Ou seja, com o dinheiro poupado nos seus impostos, os ricos puderam adquirir títulos (portadores de juros) da dívida pública, emitida para financiar os défices públicos provocados pelas reduções de impostos. De facto, o aumento da dívida pública é o resultado de uma política que favorece as camadas sociais privilegiadas: as “despesas fiscais” (descida de impostos e de contribuições) aumentaram os rendimentos disponíveis daqueles que menos necessitam, daqueles que desse modo puderam aumentar ainda mais os seus investimentos, sobretudo em títulos do tesouro, remunerados em juros pelos impostos pagos por todos os contribuintes. Este é pois um perverso mecanismo de redistribuição invertido, das classes populares para as classes mais favorecidas, através da dívida pública, cuja contrapartida é sempre o rendimento privado.
A cena, agora em regime de vacatura, está aberta a novos protagonistas. Aqueles que se perfilam, acobardam-se na mentira, na corrupção, no favorecimento de negócios especulativos e na destruição das políticas de desenvolvimento. Desses, não é de esperar coisíssima nenhuma, a não ser a malfadada austeridade, que recairá sempre e mais uma vez sobre os culpados do costume.
Recuando seria bom ao tempo das Farpas, onde se apelidavam alguns personagens da cena de canalhas, bandalhos e outros epítetos, ora politicamente incorrectos, mas cuja transposição não seria de todo despicienda…
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Referências:
Askenazy , P., (2009) “De la dette et la crise en Europe”
Ziegler, J., (2002), “Les Nouveaux maîtres du monde et ceux qui leur résistent“
21 janeiro 2011
exprime melhor do que a verdade
aquilo que se passa na alma”
Do Livro dos Conselhos
É bom que saiba que alguma comunicação social o leva ao colo. O grupo Marketest fez, uma vez mais, a encenação para a montagem de uma putativa vitória. E logo à primeira volta. Numa sondagem do inicio da semana, a empresa, aliada à TSF e Diário Económico atribui a vitória a Cavaco, com mais de 70% dos votos. Esta sondagem é feita com base numa ficha técnica onde, por exemplo, são inquiridas 155 pessoas no Litoral Norte, sem inclusão do Grande Porto, quase no mesmo número que em Lisboa, onde existem 2,5 milhões de eleitores e onde o Interior Norte tem 181, ou seja mais 25 que a Grande Lisboa. Isto não é uma sondagem, mas muito simplesmente uma fraude montada por quem de direito (!) para manipular o eleitorado e condicionar o seu voto. Aliás, o “parceiro” TSF tem vindo a desenvolver uma insidiosa campanha de manipulação da opinião pública, desde há muito tempo, valendo-se do estatuto que julga ter, de maior rádio do País. Diz a Marketest “Desenvolvemos Estudos para fornecermos aos nossos clientes Informação com Qualidade, Rigor e Independência prestando assim, um serviço de reconhecido valor acrescentado” (a) . Nota-se mesmo o Rigor, com maiúscula e tudo! Em sucessivas eleições, as suas “sondagens”, nunca sequer se aproximaram da realidade. “Aldrabice pura e dura” (b) , assim o classifica hoje, de forma clara, António Vilarigues. Nem mais!
Estes são os agentes dos donos de Portugal. Desmascará-los é pois a palavra de ordem. Bem vistas as coisas, num estado de Direito, esta empresa e os seus aliados deveriam ser avaliados pelo mau serviço que fazem e que prestam ao País. Estamos no direito de presumir por quem são pagos para emitirem tais desmandos. A forma como transmitem as notícias, a interpretação que delas fazem, a forma como as apresentam (Cavaco chega aos tantos por cento, Alegre não consegue mais que…, Francisco só atinge…), sem o mínimo de rigor e imparcialidade, com toda uma carga intencional onde se discorre um único objectivo.
Uma vergonha!
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(a) Site da Marketest, in: http://www.marktest.com/wap/a/q/id~c7.aspx
(b) Jornal “Público”, 21 Janeiro 2011, página 38
18 janeiro 2011

a mais segura é a dúvida”
Do Livro dos Conselhos
Fez a desdita que um dia subisse das profundezas do País obscuro, o personagem cinzento que, a propósito da rodagem de um vulgar automóvel e encalhasse algures na Figueira da Foz, para salvar o partido e, quem adivinharia então, a pátria. Saber-se-ia depois o seu apego às coisas singelas da vida pequeno-burguesa, quiçá retrato de um País ainda mal refeito de uma revolução, cujas marcas por ele não teriam eventualmente passado. Do pouco que dele se conhecia, ficariam entretanto tristemente célebres os registos do tabu, do homem que não tinha dúvidas e raramente se enganava, que não lia jornais. Professor de Finanças, 1º Ministro, um caminho curto e rápido, para meter o país na ordem, dos desvarios revolucionários, radicais e extremistas. Expressão firme e hirta, fala contida, tremeliques de palavra, algum desdém pelas regras democráticas, desprezo quase constante pelo contraditório, termo que aliás não caberá no seu parco vocabulário. Após um interregno sabático, em que se terá dedicado ao aprovisionamento de alguns duvidosos títulos da banca, eis que o homem consegue a Presidência, fruto de uma dádiva confucionista da esquerda maioritária, num arremesso de autoridade que, no final do mandato era por demais notório, Se tivessem ouvido os meus conselhos…
Do outro lado, enterrado pela História, o outro ele poderia segui-lo com alguma expectativa, se a natureza não fosse o que é. O mesmo percurso, a mesma contenção, os tiques mais ou menos autoritários, uma assustadora réplica que, podendo parecer desajustada, não o é contudo na forma e quiçá no conteúdo. Dois exemplos porventura significativos. A forma como ambos se referem à Mulher e à Pobreza. Que bem que ficaria Maria, nos chás de caridade do Movimento Nacional Feminino, a recitar banalidades e a arranjar madrinhas para os soldados. O ele da direita poderia fácilmente dizer da governanta, “Esta é a minha senhora. Esta senhora trabalhou praticamente a vida toda. Sabe qual é a reforma dela? Não chega a 800 euros por mês. Foi professora em Moçambique, em Portugal, nunca descobriram a reforma dela. Portanto depende de mim, tenho de trabalhar para ela. Mas como ela está sempre ao meu lado e não atrás, merece a minha ajuda” (a) . As palavras valem o que valem, não merecem qualquer comentário, mostram porém a pequenez de espírito e a moral de quem as profere.
Do ele da esquerda, salvo seja, diria Defensor porventura a frase mais emblemática da campanha, “Não suportou que eu o olhasse nos olhos…” (b) . Desconcertante constatação, o homem de facto não olha para nós, aliás não é capaz de sorrir, apenas de um esgar de tédio mal disfarçado. Gosta de mandar, pois pensará, como o outro, que é um desígnio dos homens providenciais, “Se soubesses o que custa mandar, gostarias de obedecer toda a vida” (c) .
Num gesto incontido, como na imagem, a mão direita levantada poderia, talvez um pouco mais esticada, assemelhar-se à saudação preferida do outro, num arrebato típico do palhaço Strangelove (d) . A distância que os separa, que nos separa, não permite devaneios destes, que nos perdoe a asserção, fica somente o registo, só para se saber que a gente não esquece.
O ele que já foi, quando confrontado, mandava-nos para a PIDE, o ele que existe, quando acossado, manda-nos para o site. Sublime diferença, típica da era digital, da sociedade dita da informação. Sobre ela, e nela, tudo é aparentemente viável. Tudo é virtualmente possível. Até fabricar e manipular sondagens que, desde muito antes do início das campanhas, orientam o dito eleitorado, figura suprema da democracia representativa, guindada aos píncaros da bondade do voto directo e isento. Nada mais falso, há agora, muito mais que no tempo do outro ele, todas as possibilidades de eleger um macaco para presidente, se essa for a vontade dos donos de um qualquer poder.
Num exercício de liberdade criativa o ele vivo decerto iria subscrever, como muitos já o fazem e não pensam nisso, a sentença fatal do ele já morto, “Quem se coloca no terreno nacional não tem partidos, nem grupos, nem escolas...” (e).
Alguma coisa de válido neste ele que ora se perfila para mais 5 anos? Nada encontro, por mais que procure. Fez roteiros para a inclusão, pois sim, só se foi para nos incluir no seu pensamento retrógrado e retorcido. Com ele, Portugal ficará decerto mais cinzento, mais injusto e mais desigual. Haverá quem nele encontre algo de interessante? Claro que sim, o termo não é pacífico sequer, uma vez que deriva de interesse; e ele defende mesmo interesses, só que nenhum dos interesses que lhe interessam, me interessa particularmente. De todo.
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(a) Discurso de Cavaco Silva, Ponte de Lima, 14 Janeiro 2011
(b) Revista “Visão”, 13 Janeiro 2011
(c) Referência a uma das “máximas” da A. Oliveira Salazar
(d) Referência à obra co-escrita, dirigida, produzida e realizada por Stanley Kubrick , “Dr. Strangelove”; filme, EUA, 1989
(e) Salazar, A. Oliveira, "Discursos”, Lisboa, 1935
31 dezembro 2010
dos rossios de guitarras à janela…
Foi por ela que eu passo coisas graves
e passei passando as passas dos Algarves
com tanto santo milagreiro todo o ano
foi por milagre que eu até nasci profano…”
“Foi Por Ela”, Fausto Bordalo Dias
Se há um ano atrás esperávamos mudar o Mundo, ou simplesmente alguma coisa para melhor, encalhamos hoje num porto que de seguro nada tem, a não ser a amarra que nos liga teimosamente à luta. Já não há rossios de guitarras à janela, que foi por ela (a luta) que eu passei das minhas contas, canto que é de Amor, mas de Luta também, precisa mais que nunca, como resposta à ignóbil ameaça que enfrentamos. Pois que acabamos o ano como começamos, será uma sina, será que é fado, será que ainda é o bolorento e cinzento ar dos brandos costumes do fascismo, agora temperados pela voz de um senhor que manda e quer mandar mais, candidato que nos quer calar, porque diz, fala-se muito e muito alto, ora essa, mas a gente quer é gritar que não está de acordo! Não senhor, embora possa parecer, a gente quer é varrer isto tudo, a gente quer dizer aoTejo, “lava a cidade de mágoas / leva as mágoas para o mar / lava-a de crimes e espantos / de roubos, fomes, terrores, / lava a cidade de quantos / do ódio fingem amores / Afoga empenhos favores / vãs glórias, ocas palmas/ leva o poder dos senhores / que compram corpos e almas…” . Esperança é aquilo por que se luta, passar a palavra, porque amanhã pode ser tarde demais, hoje pois, é como se fosse já amanhã, nem tarde nem cedo, espero que estejas sempre comigo, que não percas nunca este rumo, simples acorde, qualquer que seja a letra, é a tua porque sabes o que queres, que mais se pode desejar para um ano que à porta está e tens que o deixar entrar. Frio no Norte, ou trinta e tal graus no Sul, desde que não se deixe esvair o tropical sentido na lapela, ontem mesmo hoje e sempre ainda agora…
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Referências:
o “Foi Por Ela”, Fausto Bordalo Dias, “Para além das cordilheiras”, 1987
o “Tejo Que Levas As Águas”, Manuel da Fonseca e Adriano Correia de Oliveira, “Que nunca mais”,1975
12 dezembro 2010

“… E, contudo, cada indivíduo parece trazer à sua volta um halo de intangibilidade divina…”
Placa à entrada da aldeia, de Miguel Torga, in “Diário VII, 3ª edição revista, pág. 185/186”
Brava era a Avelã. Em tempos porventura remotos, que difícil é sempre medir o Tempo, em tempos que outros valores se parecem levantar. Deles entretanto fala sempre a natureza agreste da Terra Fria, onde quentes são as gentes e os modos como nos recebem e acarinham. E há os cheiros e os sabores, misturados com os vinhos, as aguardentes que temperam os repastos a qualquer hora. Porque andamos sem relógio, sem tempo determinado, sem aquelas obrigações que tolhem o dia-a-dia e, por vezes, as consciências. Recordamos os tempos da Guerra Civil espanhola, onde tantos resistentes foram assassinados, a aldeia guarda as memórias de algumas e alguns que defendiam a liberdade sem fronteiras, quando estas eram implacáveis para quem ousasse atravessá-las. Lembramos tempos em que o contrabando era uma arte, de fuga às regras das ditaduras de cá e de lá. De trás dos montes surgiam de quando em vez, sinais de revolta às tiranias, dos ecos poderiam falar as velhas pedras, caso lhes fosse possível o devaneio. O Pinto que o diria, se cá ainda estivesse, as estórias que contaria, das fugas e das traições, das cumplicidades dos camaradas das mesmas lutas de outrora e que hoje nos conta o Zé, nosso anfitrião. Ele e a Carminda, amigos de longa data, que souberam transformar as casas antigas em atraentes lares de refúgio, que desafiam a paisagem da albufeira, acrescentando valor ao belíssimo enquadramento daquela com a serra. Não há nada que falte, está tudo lá, a terra faz o resto: o limonete e o hipericão do Gerês, para o chá, a couve para a sopa, o tronco para a lareira., que quente faz o frio lá fora. Lembro Miguel Torga que à entrada da aldeia, atesta na pedra. “Por mais que tente, não consigo reduzir estas vidas de planalto a uma escala de valores comuns…”
Avelã Brava, Negrões, uma força incomensurável da Natureza…




