rio torto

rio torto

06 fevereiro 2013


O Sal da Ilha

“… Deu-me conta dessas ilhas
arquipélagos ao luar
com os areais estendidos
contra a cegueira do mar
Esperando veleiros perdidos…”
 A Ilha”, Carlos Tê e Rui Veloso



 


Passeio na Ilha por 18 €. Saímos 9 e meia da manhã, com atraso não significativo, no stress, recolha à porta, passagem pelos hotéis de nome, meliás, barracudas, morabezas e quejandos, quase exclusivamente destinados aos turistas de topo, ingleses, alemães, holandeses e franceses; de topo é uma maneira de dizer, pois como mais adiante se verá, o “topo” é apenas uma forma de medida de ter mais dinheiro. 
As passagens sucessivamente escalonadas pelo Olá, o nosso guia de serviço, incluíam Murdeira, Aeroporto Amílcar Cabral, Palmeira, Buracona, Terra-Boa, Espargos, Salinas (Pedra do Lume). Espargos é a capital da ilha, a Esplanada Bom Dia é o ponto de encontro obrigatório, para quem chega e para quem parte, fica a uns 5 km do Aeroporto, daqui a Santa Maria são 12 km, a ilha é pequena. Infelizmente, mas sem surpresa, a Hiace enche-se de turistas dos ditos hotéis e, quando Olá aponta para a esquerda, dizendo que tem uma primary school, de imediato surge a pergunta de uma parola alemã, querendo saber se era a única da ilha… E aqui é de assinalar os comentários racistas das outras e dos outros passageiros, tanta ignorância, tanta estupidez, que mete dó. Esta gente ignora, por exemplo, o fortíssimo investimento feito na educação, pelo Estado cabo-verdiano, nos últimos anos e, que se traduz na escolarização de toda a população. Pobres diabos, que Deus, se existe, lhes perdoe, que eu por acaso, não. 
Buracona, assim mesmo, uma maravilha de paisagem, após uma travessia, que merecia ser feita num todo-o-terreno, que por sinal se faz, mas por um preço fora do nosso bolso de português roubado a toda a hora. As crateras de um solo vulcânico podem ver-se um pouco por todo o lado e há mesmo uma que alguns mais afoitos se debruçam, mesmo ao pé do enorme fosso, aqui não vou, só de longe, com muito respeito.
E, na volta, a surpresa, no meio do deserto, a Terra Boa, onde se pára, para de cócoras se apreciar a miragem: num tufo mais além, a água é uma miragem, onde somente a areia marca terreno.

Salinas. Minas de sal, que dá nome a ilha, era no tempo colonial uma fonte de receita, ainda se podem ver no local, os postes de madeira que suportavam uma espécie de teleférico para transporte do material. As minas de sal datam de 1778, por iniciativa do português Manuel António Martins, ao tempo um empreendedor, promove a exploração das minas, abre túnel, recorrendo aos “seus escravos”. No início do século passado (1920) a companhia francesa Salan du Cape Vert implanta a estrutura de um teleférico (resíduos na foto). Nos anos 90, a companhia italiana Sphanina, compra a concessão e explora a seu belo prazer a entrada na mina, para que as pessoas possam nadar na boca do extinto vulcão e, apreciar a forma como, sem nada fazer, o corpo flutuar, dada a fortíssima concentração de sal; a entrada custa 5 €, e para quem quiser, mais 1€ para tomar um chuveiro rápido, para tirar o sal do corpo. Procuro encontrar uma explicação para tão insólito caso, o guia não hesita em avançar uma explicação pouco ortodoxa, que aponta para a corrupção entre o privado e o público, com nomes e tudo, no que parece mais uma cópia grosseira dos maus hábitos europeus, nomeadamente portugueses.
Enfim, Lá longe / Inventei o dia azul /E o desejo de partir /Pelo prazer de chegar /Ao Sul(a)

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(a)       Extracto de “Ao Sul”,  João Monge e João Gil, 1998

04 fevereiro 2013

O Sal da Terra Cabo-Verde

 
 
 
 
 
 
 
 
Uma ilha que marca o Atlântico. Chego bem cedo ao Aeroporto Internacional Amílcar Cabral, a tempo de tomar o pequeno-almoço em Espargos. Passo, após uma pequena paragem, ao transporte para Santa Maria, viagem rápida no transporte colectivo, nada de táxi, falámos com as pessoas, sempre simpáticas e acolhedoras. Fica o registo para o condutor, que insiste em me deixar a porta do Hotel. Tranquilo, no stress, o lema que parece ser da ilha, está escrito por todo o lado, as pessoas terminam uma frase desta forma, fantástico.
Uma volta de reconhecimento pela cidade, depressa se torna um encanto a vista, as cores da água, as cores do peixe, as cores das pessoas, os pescadores, os mirones. A praia, um descanso, o sol, a água, o som da música sempre. A noite, o jantar num tasco, os bares, agora a música mais forte, o grogue, enfim agora o outro descanso de um dia cheio. Havia ainda de contar o jogo com o Gana, uma pena, os Tubarões mereciam muito mais, o árbitro a roubar do princípio ao fim, e no final, a festa, sim a festa, pois aqui há sempre festa, porque merece ver a forma como as gentes se manifestam, com aquelas danças que mexem connosco, uma autêntica maravilha.
Uma Terra de sal, um sal da Terra, que entra pela gente. Aqui fuma-se muito, E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro / Ninguém segura esse rojão… (a). Enfim, há que ir temperando as angústias, a paixão pela Vida. Esta é a verdade: a vida começa quando a gente compreende que ela não dura muito… (b)
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(a)    Extracto de “Meu Caro Amigo”, Chico Buarque / Francis Hime
(b)   Pensamento de Millôr Fernandes, escritor, cartoonista e humorista brasileiro (1924/2012)

 

 

Praia, cidade irmã

 
 
 
 
 
 


Lua, vagabunda de espaço. Imagem das ilhas plantadas no Atlântico, de sol quente e acolhedor. Praia, nome de cidade que acolhe como ninguém, os amigos que nos recebem, os irmãos, os novos que fazemos e com quem partilhamos conhecimento, angústias, alguns sonhos.
Andamos ruas e avenidas, o sol, as noites, o Fogo d´Africa, os sons das mornas e coladeras, um encantamento contínuo que só Cabo Verde é capaz de transmitir. Mas, tudo tem si prezu (a), os filhos de África sofrem e pagam também a ganâncias dos donos de um mundo desumanizado. Domingo, 27 Janeiro, a cidade exulta com a vitória sofrida dos Tubarões Azuis sobre os Palankas Negras, todo mundo na rua, canta-se, dança-se, grita-se, e claro, bebe-se e come-se, por esta ordem. Sim, porque do mundo nada se leva, mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus (b).

Meu caro amigo eu quis até telefonar / Mas a tarifa não tem graça (c), só não estou aflito p´ra fazer você ficar / A par de tudo que se passa (c), vai no Facebook, que é de borla, está lá tudo, ou quase…
Aqui percorremos alguns trilhos de solidariedade, a sociedade civil está bem consciente do seu papel e mobiliza-se pelas mesmas causas e mais por aquelas que emanam de um país (ainda) em desenvolvimento. Apesar de todas as dificuldades, a confiança reside nas pessoas e exprime-se na divisa: Nu cré! (d). 

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(a)       Em português: tudo tem o seu preço

(b)      Pensamento de Millôr Fernandes, escritor, cartoonista e humorista brasileiro (1924/2012)

(c)       Extractos de “Meu Caro Amigo”, Chico Buarque / Francis Hime

(d)      Em português: nós acreditamos!

30 dezembro 2012


Estamos confortavelmente entorpecidos?


 
“… Now I've got that feeling once again
I can't explain, you would not understand
This is not how I am
I have become comfortably numb…
 
Gilmour /Waters, “The Wall”, Pink Floyd, 1979


 
 
 
 
 
 
A Praça da Cidade ostenta um objeto tridimensional, uma esfera com estrelas onde, ao contrário do sólido geométrico que lhe corresponde, se pode entrar e sair, com a mesma facilidade com que se circula, aqui as leis da física poderão não ter aplicação prática, apenas a matemática da vida merece lugar de destaque. Podes então entrar na esfera e deliciar-te com a vista exterior ou, simplesmente ficar de fora, comtemplando o interior, onde tudo se passa. Opções, portanto, apenas isso, podes fazer o que quiseres, sabendo de antemão que nada mais acontece, a não ser uns passos a mais no mosaico. Aliás, o mesmo que todas as situações da vida. Andamos mais um ano a entrar e a sair de situações mais ou menos complicadas, confortavelmente entorpecidos numa languidez de que só damos conta quando alguém providencialmente nos sacode. E, quando tal acontece, vamos para a praça manifestar a nossa ira que, por mistério, amouxa no dia seguinte. Insubmissão e desassossego não podem contudo ser simples palavras, que de vento em vento, agitam as consciências. Certos devemos estar pois de que, entrando numa luta, não mais dela saímos, a não ser quando os seus propósitos estão alcançados.  
Neste mundo terrivelmente ao contrário, que seja então raiva em vez de torpor, denúncia em vez de silêncio, luta em vez de marasmo. A uma verdade que dia a dia impunemente nos impõem, sem que se veja uma luz, uma ténue esperança de mudança, saibamos dizer definitivamente não. E porque, ao que parece, eles não ouvem, não querem ouvir, remetidos que estão ao silêncio da sua própria voz, cegos e surdos, detentores da tal verdade, que julgam absoluta, numa terrível ditadura branca, impregnada de terror, que sejamos capazes de gritar uma voz discordante, que produza impacto para uma estratégia de viragem.

Conveniente seria agora, em tempo de balanço final de ano, varrer tudo de uma ponta a outra, lavando pedras e calçadas com as águas de um Tejo inquieto, “Lava bancos e empresas/dos comedores de dinheiro/que dos salários de tristeza/arrecadam lucro inteiro.. ” [1] assim proclamava Adriano um símbolo do inconformismo e da resistência. Ainda o continuamos a ouvir, pelo menos para não entorpecer. 
A noite vem chegando e, com ela, os fantasmas que povoam o desconhecido. Falemos então. Hello/Is there anybody in there?/Just nod if you can hear me/Is there anyone at home?, assim começa sempre um chamamento providencial. Que alguém consiga ouvir e venha então para a rua, dizer o que de facto o atormenta, eu estou aqui contigo, disposto a ouvir e a partilhar o que te atormenta. Não desistas, que é cedo ainda, para um amanhecer duvidoso. Beber um copo na noite, pode ser uma saída. Ou uma entrada, para um diálogo que é urgente. E às tantas, proclamar “Nessun dorma!/Nessun dorma!” Que ninguém durma pois, remédio para uma noite gloriosa, que culminará num All'alba vincerò![2]

Estamos então confortavelmente entorpecidos? Provavelmente. Nada que não tenha remédio. Acordar é preciso, porque viver também é preciso. E agora que acordaste e provavelmente passeias na praça, entrando e saindo da esfera, aceita esta “receita”: “Para ganhar um Ano Novo/que mereça este nome/você, meu caro, tem de merecê-lo/tem de fazê-lo novo/Eu sei que não é fácil/mas tente, experimente, consciente/É dentro de você que o Ano Novo/cochila e espera desde sempre" [3]


[1] Referência ao poema “Tejo que levas as águas”, de Manuel da Fonseca e Adriano Correia de Oliveira, 1942

[2 ]Referência a ária da ópera Turandot de Pucini, 1924 (proclamação da princesa Turandot, determinando que ninguém deve dormir..): “Que ninguém durma!/Que ninguém durma!.../ Ao amanhecer eu vencerei!
[3]Extracto do poema “Receita de Ano Novo”, Calos Drumond de Andrade, 1967

24 dezembro 2012

NATAL 2012
 
 
Que saibamos construir pontes, em vez de muros!
 
Boas Festas!

20 dezembro 2012


0 FIM, OU TALVEZ SIM: UMA PROVOCAÇÃO?


 
Burn down the mission
If we're gonna stay alive
Watch the black smoke fly to heaven
See the red flame light the sky…”
 
 
“Burn down the mission”,  
Elton John / Bernie Taupin,
Tumbleweed Connection
© 1970

Fazendo jus a uma profecia antiga, tudo acaba amanhã. Numa versão mais suave e que adquire porventura aqui contornos de coisa simples e, de certa forma prometedora: o mundo acabará da forma que o conhecemos.

De conhecimento se trata então. Da raiz do saber, de todas e mais algumas proposições que suportam princípios, teorias e conceitos, guardados ou simplesmente protegidos. De maus-olhados? De outros sóis? De uma outra luz?

Ou das trevas. Da névoa que ensombra, de algum tempo a esta parte, uma humanidade inquieta, de pessoas que não estavam preparadas para o assalto que lhes bateu á porta. Que nunca acreditavam que seria possível. Que ainda tinham uma esperança que nunca seria possível. Que sonhavam alto, dizendo que não seria possível.
Mas foi. E a realidade é sempre cruel. Às vezes mata. Embora por vezes, cure. O antagonismo, que de tão evidente, ofusca.
Então, advém a necessidade de construir um novo conhecimento. Para o qual aportará decerto toda a gama de códigos, que até agora parece emergir, na confusão aparente das sociedades. Que podem estar ainda mal preparadas. Ou simplesmente surdas. Algumas decerto que sim.

A teia complexa de informações circula impunemente, numa cadência incontrolável. Se, por alguma obra do acaso fosse possível parar o tempo, como o conhecemos, as leis da física acordariam para um novo estado, questionariam a origem e projetariam, com parâmetros diversos, uma nova equação de continuidade.

Sonho ou apenas uma nova projecção do real? As duas coisas, ou nenhuma delas, respostas quiçá encontradas na teia de comunicação global que enforma o universo, como o conhecemos. Sim, como o conhecemos.

Sobra agora a parte que não conhecemos. Melhor ainda, vamos então a tempo...


06 dezembro 2012


 
“… E senti que o museu seria bonito e tão diferente dos outros que ricos e pobres teriam prazer em visitá-lo”.
NIEMEYER, Oscar, sobre o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, 1997
 

Óscar Niemeyer, construtor e arquitecto de mundos e sonhos, deixou a sua obra ligada à luta por uma sociedade igualitária. “Minha posição diante do mundo é de invariável revolta”, inspiradora máxima que haveria de guiar a sua longa vida, de sucessos e de uma carreira brilhante. A curva sensual que sempre o orientou, inspiradora obra retratada e pousada nos edifícios no seu País, na França, Argentina, Líbano, Portugal ou Argélia, fez passar ao Mundo a mensagem humana e ambiental, de uma simplicidade notável: “Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida…”. O homem, sensível á miséria, afirmava que “Escravo existe sempre, o sistema é que muda…”, defensor de uma sociedade sem classes, nunca hesitou em lutar por um mundo melhor,  a Arquitectura é um passatempo…”.

O sopro. "A vida é um sopro…", dizia, "O mais importante não é a arquitectura mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar". Soprando, sempre na imperdível dissonância que o define, Chico Buarque havia um dia de dizer, "Quando a minha música sai boa, penso que parece música de Tom Jobim. Música de Tom, na minha cabeça, é casa do Óscar".

O arquitecto de Brasília, penso que é assim que todo mundo o conhece, 104 anos de vida, mais de mil projectos, por um Brasil ora diferente, pela mudança por que sempre lutou, o samba também desenhou: a nova quadra da escola de samba Vila Isabel, a pedido do amigo Martinho da Vila.

Bem hajas camarada!

01 dezembro 2012


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 








As voltas de uma vida levam-nos a Bissau.
Na chegada, o bafo quente daquela África que sempre fascina de cada vez que dela nos aproximamos. Agora que a conhecemos melhor, agora que nunca podemos dizer que a conhecemos bem. Porque ela está para as pessoas com a mãe está para o filho. Parece que chama por nós. Não saberemos nunca o porquê, apenas temos certeza de que o chamamento corresponde a qualquer coisa, que de tanto apelativa, nos queima as entranhas, nos coloca num patamar estranho. Agora que diariamente fazemos amigos, compreendemos melhor a cidadania global, a partilha de sentimentos e de angústias, que passam a ser nossas também. O Sul que há em nós, as cores e os aromas, em cada esquina. A marcha constante para um mundo melhor, sonhamos quiçá, o sonho é sempre constante na vida, vive connosco e aquece a luta. Quem sabe onde está agora o conhecimento, de tão delapidado por sucessivas névoas, que ensombram as manhãs do presente, as tardes do futuro, as noites que teimam em não passar. Quem sabe?

Quem sabe onde está a razão, há quem a queira ver sempre na sua própria perspetiva. Mas quem anda por cá, habitua-se a questionar sempre. E sempre fica algo por saber, encontramos pessoas, não encontramos respostas. Todavia deparamos aqui e além uma clareira, onde nos sentamos, rigorosamente para fazer nada, um privilégio único no Sul. E, quando isso acontece, habituamo-nos a pensar, porque aí nem temos tempo para tal, sobrecarregados que andamos com agendas, quantas vezes inúteis.

Não encontramos Bissau. A cidade faz questão de guardar algum mistério, aqui sofre-se. Mas dança-se. E canta-se. Há quem os queira calar mas, como em todo lado, não resulta. Então partilham-se, com amigas e amigos novos, angústias e desejos comuns. Alguma receita? De todo, basta querer e saber ouvir…

A praça, a rua cheia de gente, os putos querem vender qualquer coisa, as mulheres carregam baldes de água, os homens fazem negócio. Uma cidade que vive, e que às vezes não deixa viver.

Queremos ajudar? Sabemos lá se querem ajuda. É que pode esconder alguma coisa. Aqui cabe talvez a máxima de Sofia, Vemos, ouvimos e lemos /não podemos ignorar / Nada pode apagar /O concerto dos gritos/ O nosso tempo é /Pecado organizado.(1)

 

(1)    In: “Cantata da Paz”, Sophia de Mello Breyner Andersen, 1968
       (2)   Poeta Guineense

16 novembro 2012


DESASSOSSEGO SIM E A QUEM O APOIAR!

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome,
essa coisa é o que somos
 
 Ensaio Sobre A Cegueira”, José Saramago, 1995
 
 
 
 
 
Desassossego. Hoje é decretado o dia do Desassossego.
Disseste, ao receber o Nobel em 1998, citando o avô analfabeto, O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever", lembrando talvez sabedoria e conhecimento, mesclados com alguma angústia. Do saber e do provir, que ficará?
 Conquistei, palmo a pequeno palmo, o terreno interior que nascera meu. Reclamei, espaço a pequeno espaço, o pântano em que me quedara nulo. Pari meu ser infinito, mas tirei-me a ferros de mim mesmo.” [1]
Basta uma palavra, um arremesso súbito de esperança, para sair de um pântano que não escolhemos, embora sejamos a reclamar um pequeno espaço. Apenas um pequeno espaço. Porque sabemos que ele pode ser infinito, pela forma como o soubermos utilizar. De perto ou de longe virá sempre quem nos avise de alguma impossibilidade, algum equívoco, alguma perturbação que, no entender de alguém, nos impede de sermos nós, da forma como tal é universalmente aceite. Há quem lhe chame direitos, coisa vilipendiada à socapa, de forma literal e elegantemente designada de restrição temporária.
Há quem esteja atento e fale em insubmissão. Tu próprio foste um insubmisso. E lutaste e denunciaste, foste de certa forma colocado naquele limbo onde se situa o grau zero da inteligência, circunscrito a poderes que, de pequenos se podem tornar influentes, quando a casta que domina é do tipo amestrada. Não pode haver comiseração possível para com esses, que ora estão em cima de nós, quais abutres, feras fastientas, canídeos sem raça, todavia hienas sequiosas. Pena não estares aqui, que os classificarias melhor que ninguém.
O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios…[2], oh semente que se pega, vai levar algumas inteligências a descrerem de forma sistemática e a interrogarem-se sobre o que andam por cá a fazer. Porém, duvido sempre que lá consigam chegar, é tão longe para o limitado universo em que se movem. Enfim…
Basta um gesto, uma estranha forma de olhar, para entrar na ilha que constantemente nos oprime, mas sempre nos atrai. O Homem diz entretanto que, “Saber interpor-se constantemente entre si próprio e as coisas é o mais alto grau de sabedoria e prudência[3]. Será que lá chegamos e concretizamos algo entre nós próprios e as tais coisas de que ele fala? Estaremos atentos, ensina alguém: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara[4].
E contudo, se desassossega.





[1]Livro do Desassossego”, Bernardo Soares / Fernando Pessoa, 1927/1934
[2] Idem,ibidem
[3] Idem
[4] Do Livro dos Conselhos, citado José Saramago, em “Ensaio Sobre A Cegueira”, 1995, ibidem

08 novembro 2012


Hoje encontrei um Amigo…



“A vida é a arte do encontro,

embora haja tanto desencontro pela vida…”


Samba da Bênção”, 1965, Vinícius de Moraes e Baden Powell

http://www.youtube.com/watch?v=wNRH7_Kd5Yc



De volta em volta, a vida nos reserva uma surpresa.

Como dizia o Sérgio, Porque hoje encontrei um amigo / e coisa mais preciosa no mundo não há, acabamos por nos encontrar num sítio improvável, ou talvez não. Quase o não reconhecia, de fato e gravata, coisas que há muito abandonamos, por opção metodológica. Momento que registo agora, com indescritível satisfação, não há já forma de atrás voltar, falo dos loucos anos 80, onde tudo nos era permitido, também por mera opção metodológica. Era o tempo da partilha, para nós, quiçá uma juventude readquirida aos 30 anos, era assim mesmo, na altura. E fica desse tempo uma memória bem viva: as festas em tua casa, uma forma de vida, uma referência, bastava falar a uma ou a outro e lá estamos às sextas ou aos Sábados, com a alegria incontida de um tempo onde só contava o dia de hoje, ou provavelmente o amanhã seguinte. E cantávamos, ao som da tua viola, que sempre dizias desafinada, mas que servia de mote aquilo que queríamos saltar cá para fora, com muita alegria, sentados no chão, ou lá onde calhasse, que o que interessava era estarmos juntos e darmos umas valentes gargalhadas. E por isso, me lembro desta música inócua, mas cheia de humor, temperado com uma espécie de coboiada maluca e que conta a história do Rocky e da sua Nancy, com um malandro pelo meio que acaba por lhe dar um tiro… Uma estória negra, do álbum mais branco de todos os tempos, assim se chamava, e com as suas músicas nos divertíamos, em longas noites, em que se partilhava tudo, bem, quase tudo…

Estaríamos então (ainda) à procura de um qualquer tempo perdido, sabe-se lá porquê, entretanto estávamos conscientes que Happiness is a warm, yes it is...(1). E, um pouco á semelhança do Vinicius, se calhar era, e é, mesmo preciso encontrar as coisas certas na vida, para que elas tenham o sentido que se deseja.


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(1) Referência ao poema Happiness Is A Warm Gun”, White Album, The Beatles, 1968

14 outubro 2012


 

 
Apenas mais um homem do regime…

É uma pena ver Jorge Sampaio (JS), entrevista SIC (http://www.dn.pt/politica/interior.aspx?content_id=2827672)  cometer erros sucessivos numa análise pouco cuidada, mal preparada, os simplesmente comum. É confrangedora a vulgaridade de JS, ao defender “… a capacidade das principais forças partidárias em criarem uma plataforma de entendimento e de concertação para a próxima década”. Quem são, para JS, as “principais forças partidárias”? As do governo actual, mais o PS. O “resto” não conta, nem uma referência sequer. Pensará JS que está a contribuir para alguma solução, com esta “inovadora” solução, estará porventura a perfilar-se…? As "plataformas de entendimento e concertação" que o centrão político defende e de que JS é um lídimo representante, são responsáveis pelo pântano que dura há mais de 30 anos e que conduziu o País à situação actual. Veja-se, a título de exemplo, o pacto para a justiça entre PS e PSD: o descalabro completo do sistema judiciário e a descrença total dos operadores judiciários.
Que pena ver JS embrenhado na teia asquerosa do pacto mais colaboracionista com a direita. Nem o facto de vir a terreiro dizer, como se fosse uma grande novidade, que é preciso “… um plano para reduzir as desigualdades sociais e a pobreza”, o salva. JS encaixa agora nas elites situacionistas e conservadoras, dizendo até que “… a crucial importância política de 2011 não advém, assim, tanto de actos eleitorais que tenham ou possam ter lugar”, remetendo as respostas ou soluções ou lá o que seja (…) para o tal “entendimento”.
Na verdade, não parece ser este o entendimento da grande maioria, que: (a) não quer este governo, (b) não acredita nesta maioria, (c) não quer o PS, pelo menos um PS colaboracionista, abortivamente liderado por interesses iguais aos da direita. Quer, ou parece configurar-se querer, novas soluções para os antigos e os novos problemas.
Sempre very british, JS diz que o País “está em apuros”. JS está na fase de “apuramento”, junto e ao vivo com os “comentadores oficiais” do regime. Até já aplaude o Cavaco! Confrangedora vulgaridade, que pena!