rio torto

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24 abril 2013

25 ABRIL NA RUA

Mesmo que o povo saia a rua num dia assim, o assombramento do país continuará e poucos serão os que se lembrem da palavra Revolução. Ao contrário dos situacionistas, que acreditam piamente que o estado sempre lhe dará alguma benesse, qualquer coisa que sirva para que continuem a alimentar e serem alimentados. Uma gamela que aos poucos vai ficando mais exígua, mas que em tempos difíceis é uma espécie de tábua de salvação. As portas abertas por Abril, que o Ary falava, estão dia a dia a ser fechadas e há que abri-las de novo para que o sol inunde as praças e avenida. O direito a ser feliz é também uma das conquistas de Abril. Agora há um tempo de solidão e de silêncio. As pessoas, ou melhor aquelas que vivem do seu trabalho, estão tremendamente deprimidas, um fenómeno de galopante incerteza, perante o bombardeio de informação negativa e que induz uma auto culpabilização. Uma campanha insidiosa de uma comunicação social vendida ao capital e que vai desempenhando o seu papel de flagelação permanente. E há quem se deixe vencer pelo medo. Pelos medos, de perder o emprego mesmo que precário, de perder o parco subsídio, de não ter dinheiro para pagar a casa, para comprar alimentos, para ir á consulta, tanto medo… Um País que sofre uma agressão nunca vista, sequestrado pela finança, que alguns chamam ajuda externa. É que se assim não for, cedo acabará o dinheiro para pagar salários e pensões, a mais terrível mentira, perpetrada pelo poder instituído e que já deveria ter sido… destituído. Haverá alguma consideração possível para com esta gente que quer – e está – a destruir o sonho, a liberdade e a alegria. Nem isso, nem sequer respeito, a vossa mediocridade é assustadora, nem imagino o destino que vos espera.


Haverá saída para isto? Uma resposta que saberemos encontrar na medida possível do desespero. Entretanto, enquanto há força, Levanta o braço/Faz dele uma barra/Seremos muitos/Seremos alguém. E, Na cidade/Sem muros nem ameias/Toma o fruto da terra/É teu a ti o deves
lança o teu desafio
(a). Abril, apesar de tudo está aí mesmo à mão. O encontro com a esperança, um desenlace fatal. Poderá ser o encontro para todos os desencontros…
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(a) referências aos poemas do Zeca Afonso, “Enquanto há Força”(1978) e “Utopia”(1983)

 

17 março 2013


O ALMA tem alma?



São Pedro de Atacama, Montanha de Chajnantor, deserto de Atacama, 1600 kum da capital Santiago, República do Chile. Este deserto é o lugar na Terra que passou mais de 1400 anos sem indícios de chuva, considerado o deserto mais alto e árido do Mundo. No passado 13 Março 2013, é inaugurado o observatório ALMA, iniciais de Atacama Large Millimeter/submillimeter Array. Trata-se uma infraestrutura astronómica internacional, parceria entre a Europa, a América do Norte e o Leste Asiático, em cooperação com a República do Chile. O ALMA é financiado na Europa pelo Observatório Europeu do Sul (ESO), na América do Norte pela Fundação Nacional para a Ciência dos Estados Unidos (NSF) em cooperação com o Conselho Nacional de Investigação do Canadá (NRC) e no Leste Asiático pelos Institutos Nacionais de Ciências da Natureza (NINS) do Japão em cooperação com a Academia Sínica (AS) da Ilha Formosa. Um contrato de um milhão de euros, mas cujo valor global do projecto ascende a mil milhões, obra do European Southern Observatory. São 66 antenas gigantes interligadas, um grande telescópio que será capaz de observar o Universo com uma sensibilidade e resolução sem precedentes, com uma nitidez que será dez vezes superior à do telescópio Espacial Hubble. Vai permitir, segundo os promotores, estudar os blocos de estrelas em crescimento, sistemas planetários, galáxias e a própria vida. Há um filme espectacular disponível na internet (http://www.eso.org/public/portugal/videos/eso1312a/) que conta a história do Projeto desde os seus primórdios,“... quando a Europa, América do Norte e Leste Asiático desenvolveram um conceito comum para um novo e enorme telescópio, no milímetro e submilímetro, que pudesse observar os objetos mais frios e mais distantes do Universo. Mostra também a busca do local perfeito e os desafios técnicos e logísticos originados pela construção duma infraestrutura tão grande num lugar remoto e sob condições extremamente rigorosas.“

A pesquisa e investigação científicas constituem desde sempre uma das conquistas civilizacionais e um orgulho da Humanidade. Avanços científicos, técnicos e tecnológicos foram até agora possíveis, graças ao esforço e ao pensamento criativo de pessoas e organizações, escolas e instituições do ensino superior, institutos de investigação. Doadores internacionais e estados conjugaram esforços no sentido do desenvolvimento, muitas vezes com objectivos humanistas, cuja meta seria criar condições para que as pessoas vivessem melhor e mais tempo, com uma qualidade superior, adequada à dignidade da pessoa humana. Pesquisas inacreditáveis levariam a que se duplicasse a esperança média de vida ente os séculos XX e XXI, um espantoso avanço, difícil de prever. As médias entretanto valem o que valem e os números não têm o mesmo peso nos hemisférios Norte e Sul, as diferenças transformam-se em desigualdades, todos os anos, por exemplo morrem, por razões relacionadas com a pobreza, cerca de 18 milhões de pessoas (50 mil por dia), sendo a maioria mulheres e crianças e as estatísticas ainda dizem que, todos os anos morrem 11 milhões de crianças antes de completarem 5 anos e que, finalmente, 1 bilião e 100 milhões de pessoas, vive com menos de 1 dólar por dia, cerca de um sexto da humanidade.
As ciências ditas exactas, como a Matemática, a Física e a Química, aliadas à Biologia à Estatística e às ciências da Computação, confluem no que se pode considerar a Engenharia moderna. Por outro lado as “ciências da compreensão”, em que se incluem Ciência Política, a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia, a Economia e a Arqueologia, ajudam a interpretar um mundo que se pretende melhor. E a Ciência no seu conjunto pode contribuir para encontrar respostas e soluções para um novo equilíbrio, a nível mundial. Parece dado adquirido ter de haver uma certa distanciação da realidade, para melhor a interpretar, nomeadamente através de sinais que formos capazes, dia a dia, de recolher. Novo paradigma de conhecimento? O ALMA pode dar respostas a esse nível, pese mesmo a ingenuidade da questão?

Filosofia? Séneca diz, "Foges em companhia de ti próprio: é de alma que precisas de mudar, não de clima." No clima mais seco do Mundo, o ALMA ficará à espera que mudemos, ou mudará ele próprio as antenas, em função das “respostas” que consiga obter dos “…objetos mais frios e mais distantes do Universo?

Dizem que os extremos acabam por se tocar, aqui sim, parece ser verdade, neste lugar inóspito, onde as temperaturas variam entre 0ºC à noite e 40ºC durante o dia. Diz o matemático que, àquela altitude não é possível a resolução de problemas, os técnicos descem ao centro de pesquisa situado a 2.440 metros e voltam depois ao local, com as contas feitas.

Filosofia? Einstein diz "Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta."Será que o ALMA andará a procura do fim do Universo, já que, relativamente a estupidez humana, não valerá a pena procurar muito, já que a temos sempre invariavelmente ao virar da esquina.

A curiosidade da busca de elementos sobre este fantástico Projecto, conta que os 180 quilómetros de cabos isolados de média tensão, incluídos na construção, foram fornecidos por uma empresa portuguesa e destinam-se ao transporte de energia a 30 quilovolts entre a central de produção de energia e o planalto, através da instalação de dois circuitos paralelos de extensão aproximada de 30 quilómetros.


Filosofia?
Francisco, o homem que em Roma será entronizado como o chefe de uma das mais poderosas e ricas “empresas” do mundo, faz um apelo, quiçá patético, para uma igreja mais pobre. E já que a prometida salvação para os católicos, parece vetar o reino dos céus aos ricos, é caso para perguntar se a alma tem preço. O telescópio também não dará decerto resposta a esta, como a muitas outras questões da vida…

04 março 2013


A vergonha suprema de um País

5 milhões de desempregados em Espanha, notícia do dia. A comunicação social dá conta de que o número de desempregados inscritos, aumentou quase 60 mil em Fevereiro 2013, para os 5,04 milhões. Um número superior a um quarto da população (26,2%).
As políticas de austeridade, de natureza ideologicamente identificáveis com o neoliberalismo, a cegueira completa do défice público, a imposição de uma política de ataque às classes trabalhadoras, têm conseguido nos 3 últimos anos, o que se vê. Desde a Grécia a Portugal, passando pela Itália e pela Espanha, as mesmas soluções, os mesmos erros, as mesmas aparentes “teimosias” de uma direita profunda e vincadamente reacionária, contudo eficaz e muito competente na forma de gerir a “crise” e de aportar mais benefícios, vantagens e acumulações para o grande capital. Destruir o estado social na Europa, anular as conquistas dos trabalhadores, estrangular a democracia, estes os grandes objectivos de um programa global, que está em curso, sob a batuta da administração alemã. Para daí tirar vantagem, aliás óbvia: a Alemanha está a lucrar imenso com a gestão das dívidas públicas dos países do Sul.
Para além de colocar em risco a coesão social e a própria democracia representativa, o epifenómeno do desemprego galopante, na Europa do Sul, pode dar origem ao aparecimento de soluções de extrema-direita. Exemplos não faltam.
A situação assustadora em que as famílias são colocadas, pelo desemprego, é aflitiva. Significa em primeiro lugar, a carência absoluta em termos de meios de sobrevivência. Significa ainda a dependência em que são colocados perante outros ou outrem. Significa finalmente uma fragilidade psicológica, cujo grau pode variar de caso para caso, mas que no limite, é o espelho do desalento, da incapacidade de resposta e da indiferença. Mas, em termos sociais, o desemprego é a vergonha suprema de um País. Qualquer governo, de qualquer país, deveria parar para pensar as razões para este flagelo. Não param, não pensam, por isso, há que os parar à força, para depois ser possível pensar o País…

03 março 2013


O povo é quem mais ordena?
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Devia ser!
Não é, de facto e disso lamentamos, sofremos, verberamos. O povo nada ordena, antes é ordenado de uma forma vil, aterradoramente subjugado, como antes talvez não tenha acontecido. Atado a grilhões que desenham a mais terrífica campanha contra o ser humano que, ao invés de ser protegido, ao abrigo dos mais elementares direitos, é vilipendiado, sugado e triturado numa poderosa máquina, construída precisamente para esse fim. Vai longe o tempo em que curiosamente cantávamos Vila Morena, Terra da Fraternidade. Com alegria, orgulho de ser português aqui. Cantamos de novo, agora com a mágoa, a garganta presa, de raiva. De medo, ali ao virar da esquina, o perigo espreita, não estamos preparados para tanta repressão, disto se trata afinal, parece não haver regras para nada, no que toca a cortar na dignidade mínima, na vida. De forma cega, cuidadosa e meticulosamente dirigida, para os que trabalham e fazem enriquecer o País. E que agora, de novo, vão enriquecer uma clique cada vais mais infame, mais bruta, disfarçada. Aqui e além de laranja e cor-de-rosa foram pintando o mais cinzento panorama de que há memória, ocuparam tudo que havia para ocupar e agora, de forma mais ou menos enviesada, defendem o seu território, como hienas famintas de mais e mais. Sabemos lidar com tanta ignomínia? Que direitos nos são sucessivamente sonegados, o custo de vida aumenta e o vencimento diminui. Pagamos a factura mais cara da Europa em impostos e não chega. Temos o salário mais baixo da Europa e não dá. Somos o país mais desigual e a resposta é mais e mais desigualdade. Com a cabeça fria da elite mais cretina e rasteira de que há memória, a mandar licenciados para as matas, formados para a emigração, professores para a caixa do supermercado, o saber e o conhecimento de uma geração, de várias gerações, para o caixote do lixo, que eles é que sabem, desde que lhes esteja garantido a palavra, a declaração sem sentido, a mais assustadora mediocridade, o lugar-comum mais estreito, a estuporada máxima de servir o País, a pífia e abjecta frase feita, a desprezível opinião formatada pela trela do insulto à inteligência. O ponto a que se chega é o ponto donde se parte, nada se resolve, a não ser mais e mais injustiça, aguentas não é verdade, se eu aguento também, a lógica infame de um bando de ladrões, pior que ladrões em bando. O bando do banco, da banca, essa sim devidamente protegida, adulada, acamada na doce reserva da protecção. O estado do Estado a que estamos assistindo, onde um burlão descansa em Cabo Verde, outro parte para negócios em Moçambique e um outro está de pedra e cal num governo de símios inferiores. Agarrados ao poder, para um lado e para o outro da miséria de um país, que sofre, que se deprime só de olhar para as imagens da TV e ver como é possível que Grândola ainda esteja cá e não tenha sido exportada para um qualquer paraíso fiscal, ou medida de alto a baixo pela polícia, como no tempo do outro. No entanto, dentro de ti, ó cidade, há ainda gente armada que te possa defender. A cantiga, que de arma foi feita é agora evocada, renascida, trazida para um tempo amargo. Em cada esquina se cruza e traz decerto outro amigo também. O povo acorda, nunca é tarde, mesmo que não haja pequeno-almoço para tomar, já que pelos visto é preciso começar de novo, com o pão, a paz, a saúde e a educação. Esta corja não sabe o que isso é, porque nunca lhes foi necessário, tudo têm à mão, porque o subtraíram a quem trabalha. Muitos delas e deles foram-nos alimentando sem saber, fizeram-lhes a cama sem gorjeta, levaram-nos ao colo para onde agora estão. Acordaram agora?  Indignados, Indignai-vos!, poderia dizer o Homem que partiu (a), deixando o apelo mais digno, mais necessário, mais urgente. Como ele, afirmamos seguramente, "A minha longa vida deu-me uma série de motivos para me indignar".
Destruir. E construir o que é preciso. Em cada rosto igualdade, isso é que está certo, foi para isso que fizemos a revolução. Para então, ser de novo, O povo é quem mais ordena!

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(a)  Referência a Stéphane Hessel, Diplomata, ex-combatente da Resistência, que morreu em Paris, na semana passada

06 fevereiro 2013


O Sal da Ilha

“… Deu-me conta dessas ilhas
arquipélagos ao luar
com os areais estendidos
contra a cegueira do mar
Esperando veleiros perdidos…”
 A Ilha”, Carlos Tê e Rui Veloso



 


Passeio na Ilha por 18 €. Saímos 9 e meia da manhã, com atraso não significativo, no stress, recolha à porta, passagem pelos hotéis de nome, meliás, barracudas, morabezas e quejandos, quase exclusivamente destinados aos turistas de topo, ingleses, alemães, holandeses e franceses; de topo é uma maneira de dizer, pois como mais adiante se verá, o “topo” é apenas uma forma de medida de ter mais dinheiro. 
As passagens sucessivamente escalonadas pelo Olá, o nosso guia de serviço, incluíam Murdeira, Aeroporto Amílcar Cabral, Palmeira, Buracona, Terra-Boa, Espargos, Salinas (Pedra do Lume). Espargos é a capital da ilha, a Esplanada Bom Dia é o ponto de encontro obrigatório, para quem chega e para quem parte, fica a uns 5 km do Aeroporto, daqui a Santa Maria são 12 km, a ilha é pequena. Infelizmente, mas sem surpresa, a Hiace enche-se de turistas dos ditos hotéis e, quando Olá aponta para a esquerda, dizendo que tem uma primary school, de imediato surge a pergunta de uma parola alemã, querendo saber se era a única da ilha… E aqui é de assinalar os comentários racistas das outras e dos outros passageiros, tanta ignorância, tanta estupidez, que mete dó. Esta gente ignora, por exemplo, o fortíssimo investimento feito na educação, pelo Estado cabo-verdiano, nos últimos anos e, que se traduz na escolarização de toda a população. Pobres diabos, que Deus, se existe, lhes perdoe, que eu por acaso, não. 
Buracona, assim mesmo, uma maravilha de paisagem, após uma travessia, que merecia ser feita num todo-o-terreno, que por sinal se faz, mas por um preço fora do nosso bolso de português roubado a toda a hora. As crateras de um solo vulcânico podem ver-se um pouco por todo o lado e há mesmo uma que alguns mais afoitos se debruçam, mesmo ao pé do enorme fosso, aqui não vou, só de longe, com muito respeito.
E, na volta, a surpresa, no meio do deserto, a Terra Boa, onde se pára, para de cócoras se apreciar a miragem: num tufo mais além, a água é uma miragem, onde somente a areia marca terreno.

Salinas. Minas de sal, que dá nome a ilha, era no tempo colonial uma fonte de receita, ainda se podem ver no local, os postes de madeira que suportavam uma espécie de teleférico para transporte do material. As minas de sal datam de 1778, por iniciativa do português Manuel António Martins, ao tempo um empreendedor, promove a exploração das minas, abre túnel, recorrendo aos “seus escravos”. No início do século passado (1920) a companhia francesa Salan du Cape Vert implanta a estrutura de um teleférico (resíduos na foto). Nos anos 90, a companhia italiana Sphanina, compra a concessão e explora a seu belo prazer a entrada na mina, para que as pessoas possam nadar na boca do extinto vulcão e, apreciar a forma como, sem nada fazer, o corpo flutuar, dada a fortíssima concentração de sal; a entrada custa 5 €, e para quem quiser, mais 1€ para tomar um chuveiro rápido, para tirar o sal do corpo. Procuro encontrar uma explicação para tão insólito caso, o guia não hesita em avançar uma explicação pouco ortodoxa, que aponta para a corrupção entre o privado e o público, com nomes e tudo, no que parece mais uma cópia grosseira dos maus hábitos europeus, nomeadamente portugueses.
Enfim, Lá longe / Inventei o dia azul /E o desejo de partir /Pelo prazer de chegar /Ao Sul(a)

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(a)       Extracto de “Ao Sul”,  João Monge e João Gil, 1998

04 fevereiro 2013

O Sal da Terra Cabo-Verde

 
 
 
 
 
 
 
 
Uma ilha que marca o Atlântico. Chego bem cedo ao Aeroporto Internacional Amílcar Cabral, a tempo de tomar o pequeno-almoço em Espargos. Passo, após uma pequena paragem, ao transporte para Santa Maria, viagem rápida no transporte colectivo, nada de táxi, falámos com as pessoas, sempre simpáticas e acolhedoras. Fica o registo para o condutor, que insiste em me deixar a porta do Hotel. Tranquilo, no stress, o lema que parece ser da ilha, está escrito por todo o lado, as pessoas terminam uma frase desta forma, fantástico.
Uma volta de reconhecimento pela cidade, depressa se torna um encanto a vista, as cores da água, as cores do peixe, as cores das pessoas, os pescadores, os mirones. A praia, um descanso, o sol, a água, o som da música sempre. A noite, o jantar num tasco, os bares, agora a música mais forte, o grogue, enfim agora o outro descanso de um dia cheio. Havia ainda de contar o jogo com o Gana, uma pena, os Tubarões mereciam muito mais, o árbitro a roubar do princípio ao fim, e no final, a festa, sim a festa, pois aqui há sempre festa, porque merece ver a forma como as gentes se manifestam, com aquelas danças que mexem connosco, uma autêntica maravilha.
Uma Terra de sal, um sal da Terra, que entra pela gente. Aqui fuma-se muito, E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro / Ninguém segura esse rojão… (a). Enfim, há que ir temperando as angústias, a paixão pela Vida. Esta é a verdade: a vida começa quando a gente compreende que ela não dura muito… (b)
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(a)    Extracto de “Meu Caro Amigo”, Chico Buarque / Francis Hime
(b)   Pensamento de Millôr Fernandes, escritor, cartoonista e humorista brasileiro (1924/2012)

 

 

Praia, cidade irmã

 
 
 
 
 
 


Lua, vagabunda de espaço. Imagem das ilhas plantadas no Atlântico, de sol quente e acolhedor. Praia, nome de cidade que acolhe como ninguém, os amigos que nos recebem, os irmãos, os novos que fazemos e com quem partilhamos conhecimento, angústias, alguns sonhos.
Andamos ruas e avenidas, o sol, as noites, o Fogo d´Africa, os sons das mornas e coladeras, um encantamento contínuo que só Cabo Verde é capaz de transmitir. Mas, tudo tem si prezu (a), os filhos de África sofrem e pagam também a ganâncias dos donos de um mundo desumanizado. Domingo, 27 Janeiro, a cidade exulta com a vitória sofrida dos Tubarões Azuis sobre os Palankas Negras, todo mundo na rua, canta-se, dança-se, grita-se, e claro, bebe-se e come-se, por esta ordem. Sim, porque do mundo nada se leva, mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus (b).

Meu caro amigo eu quis até telefonar / Mas a tarifa não tem graça (c), só não estou aflito p´ra fazer você ficar / A par de tudo que se passa (c), vai no Facebook, que é de borla, está lá tudo, ou quase…
Aqui percorremos alguns trilhos de solidariedade, a sociedade civil está bem consciente do seu papel e mobiliza-se pelas mesmas causas e mais por aquelas que emanam de um país (ainda) em desenvolvimento. Apesar de todas as dificuldades, a confiança reside nas pessoas e exprime-se na divisa: Nu cré! (d). 

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(a)       Em português: tudo tem o seu preço

(b)      Pensamento de Millôr Fernandes, escritor, cartoonista e humorista brasileiro (1924/2012)

(c)       Extractos de “Meu Caro Amigo”, Chico Buarque / Francis Hime

(d)      Em português: nós acreditamos!

30 dezembro 2012


Estamos confortavelmente entorpecidos?


 
“… Now I've got that feeling once again
I can't explain, you would not understand
This is not how I am
I have become comfortably numb…
 
Gilmour /Waters, “The Wall”, Pink Floyd, 1979


 
 
 
 
 
 
A Praça da Cidade ostenta um objeto tridimensional, uma esfera com estrelas onde, ao contrário do sólido geométrico que lhe corresponde, se pode entrar e sair, com a mesma facilidade com que se circula, aqui as leis da física poderão não ter aplicação prática, apenas a matemática da vida merece lugar de destaque. Podes então entrar na esfera e deliciar-te com a vista exterior ou, simplesmente ficar de fora, comtemplando o interior, onde tudo se passa. Opções, portanto, apenas isso, podes fazer o que quiseres, sabendo de antemão que nada mais acontece, a não ser uns passos a mais no mosaico. Aliás, o mesmo que todas as situações da vida. Andamos mais um ano a entrar e a sair de situações mais ou menos complicadas, confortavelmente entorpecidos numa languidez de que só damos conta quando alguém providencialmente nos sacode. E, quando tal acontece, vamos para a praça manifestar a nossa ira que, por mistério, amouxa no dia seguinte. Insubmissão e desassossego não podem contudo ser simples palavras, que de vento em vento, agitam as consciências. Certos devemos estar pois de que, entrando numa luta, não mais dela saímos, a não ser quando os seus propósitos estão alcançados.  
Neste mundo terrivelmente ao contrário, que seja então raiva em vez de torpor, denúncia em vez de silêncio, luta em vez de marasmo. A uma verdade que dia a dia impunemente nos impõem, sem que se veja uma luz, uma ténue esperança de mudança, saibamos dizer definitivamente não. E porque, ao que parece, eles não ouvem, não querem ouvir, remetidos que estão ao silêncio da sua própria voz, cegos e surdos, detentores da tal verdade, que julgam absoluta, numa terrível ditadura branca, impregnada de terror, que sejamos capazes de gritar uma voz discordante, que produza impacto para uma estratégia de viragem.

Conveniente seria agora, em tempo de balanço final de ano, varrer tudo de uma ponta a outra, lavando pedras e calçadas com as águas de um Tejo inquieto, “Lava bancos e empresas/dos comedores de dinheiro/que dos salários de tristeza/arrecadam lucro inteiro.. ” [1] assim proclamava Adriano um símbolo do inconformismo e da resistência. Ainda o continuamos a ouvir, pelo menos para não entorpecer. 
A noite vem chegando e, com ela, os fantasmas que povoam o desconhecido. Falemos então. Hello/Is there anybody in there?/Just nod if you can hear me/Is there anyone at home?, assim começa sempre um chamamento providencial. Que alguém consiga ouvir e venha então para a rua, dizer o que de facto o atormenta, eu estou aqui contigo, disposto a ouvir e a partilhar o que te atormenta. Não desistas, que é cedo ainda, para um amanhecer duvidoso. Beber um copo na noite, pode ser uma saída. Ou uma entrada, para um diálogo que é urgente. E às tantas, proclamar “Nessun dorma!/Nessun dorma!” Que ninguém durma pois, remédio para uma noite gloriosa, que culminará num All'alba vincerò![2]

Estamos então confortavelmente entorpecidos? Provavelmente. Nada que não tenha remédio. Acordar é preciso, porque viver também é preciso. E agora que acordaste e provavelmente passeias na praça, entrando e saindo da esfera, aceita esta “receita”: “Para ganhar um Ano Novo/que mereça este nome/você, meu caro, tem de merecê-lo/tem de fazê-lo novo/Eu sei que não é fácil/mas tente, experimente, consciente/É dentro de você que o Ano Novo/cochila e espera desde sempre" [3]


[1] Referência ao poema “Tejo que levas as águas”, de Manuel da Fonseca e Adriano Correia de Oliveira, 1942

[2 ]Referência a ária da ópera Turandot de Pucini, 1924 (proclamação da princesa Turandot, determinando que ninguém deve dormir..): “Que ninguém durma!/Que ninguém durma!.../ Ao amanhecer eu vencerei!
[3]Extracto do poema “Receita de Ano Novo”, Calos Drumond de Andrade, 1967

24 dezembro 2012

NATAL 2012
 
 
Que saibamos construir pontes, em vez de muros!
 
Boas Festas!

20 dezembro 2012


0 FIM, OU TALVEZ SIM: UMA PROVOCAÇÃO?


 
Burn down the mission
If we're gonna stay alive
Watch the black smoke fly to heaven
See the red flame light the sky…”
 
 
“Burn down the mission”,  
Elton John / Bernie Taupin,
Tumbleweed Connection
© 1970

Fazendo jus a uma profecia antiga, tudo acaba amanhã. Numa versão mais suave e que adquire porventura aqui contornos de coisa simples e, de certa forma prometedora: o mundo acabará da forma que o conhecemos.

De conhecimento se trata então. Da raiz do saber, de todas e mais algumas proposições que suportam princípios, teorias e conceitos, guardados ou simplesmente protegidos. De maus-olhados? De outros sóis? De uma outra luz?

Ou das trevas. Da névoa que ensombra, de algum tempo a esta parte, uma humanidade inquieta, de pessoas que não estavam preparadas para o assalto que lhes bateu á porta. Que nunca acreditavam que seria possível. Que ainda tinham uma esperança que nunca seria possível. Que sonhavam alto, dizendo que não seria possível.
Mas foi. E a realidade é sempre cruel. Às vezes mata. Embora por vezes, cure. O antagonismo, que de tão evidente, ofusca.
Então, advém a necessidade de construir um novo conhecimento. Para o qual aportará decerto toda a gama de códigos, que até agora parece emergir, na confusão aparente das sociedades. Que podem estar ainda mal preparadas. Ou simplesmente surdas. Algumas decerto que sim.

A teia complexa de informações circula impunemente, numa cadência incontrolável. Se, por alguma obra do acaso fosse possível parar o tempo, como o conhecemos, as leis da física acordariam para um novo estado, questionariam a origem e projetariam, com parâmetros diversos, uma nova equação de continuidade.

Sonho ou apenas uma nova projecção do real? As duas coisas, ou nenhuma delas, respostas quiçá encontradas na teia de comunicação global que enforma o universo, como o conhecemos. Sim, como o conhecemos.

Sobra agora a parte que não conhecemos. Melhor ainda, vamos então a tempo...


06 dezembro 2012


 
“… E senti que o museu seria bonito e tão diferente dos outros que ricos e pobres teriam prazer em visitá-lo”.
NIEMEYER, Oscar, sobre o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, 1997
 

Óscar Niemeyer, construtor e arquitecto de mundos e sonhos, deixou a sua obra ligada à luta por uma sociedade igualitária. “Minha posição diante do mundo é de invariável revolta”, inspiradora máxima que haveria de guiar a sua longa vida, de sucessos e de uma carreira brilhante. A curva sensual que sempre o orientou, inspiradora obra retratada e pousada nos edifícios no seu País, na França, Argentina, Líbano, Portugal ou Argélia, fez passar ao Mundo a mensagem humana e ambiental, de uma simplicidade notável: “Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida…”. O homem, sensível á miséria, afirmava que “Escravo existe sempre, o sistema é que muda…”, defensor de uma sociedade sem classes, nunca hesitou em lutar por um mundo melhor,  a Arquitectura é um passatempo…”.

O sopro. "A vida é um sopro…", dizia, "O mais importante não é a arquitectura mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar". Soprando, sempre na imperdível dissonância que o define, Chico Buarque havia um dia de dizer, "Quando a minha música sai boa, penso que parece música de Tom Jobim. Música de Tom, na minha cabeça, é casa do Óscar".

O arquitecto de Brasília, penso que é assim que todo mundo o conhece, 104 anos de vida, mais de mil projectos, por um Brasil ora diferente, pela mudança por que sempre lutou, o samba também desenhou: a nova quadra da escola de samba Vila Isabel, a pedido do amigo Martinho da Vila.

Bem hajas camarada!

01 dezembro 2012


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 








As voltas de uma vida levam-nos a Bissau.
Na chegada, o bafo quente daquela África que sempre fascina de cada vez que dela nos aproximamos. Agora que a conhecemos melhor, agora que nunca podemos dizer que a conhecemos bem. Porque ela está para as pessoas com a mãe está para o filho. Parece que chama por nós. Não saberemos nunca o porquê, apenas temos certeza de que o chamamento corresponde a qualquer coisa, que de tanto apelativa, nos queima as entranhas, nos coloca num patamar estranho. Agora que diariamente fazemos amigos, compreendemos melhor a cidadania global, a partilha de sentimentos e de angústias, que passam a ser nossas também. O Sul que há em nós, as cores e os aromas, em cada esquina. A marcha constante para um mundo melhor, sonhamos quiçá, o sonho é sempre constante na vida, vive connosco e aquece a luta. Quem sabe onde está agora o conhecimento, de tão delapidado por sucessivas névoas, que ensombram as manhãs do presente, as tardes do futuro, as noites que teimam em não passar. Quem sabe?

Quem sabe onde está a razão, há quem a queira ver sempre na sua própria perspetiva. Mas quem anda por cá, habitua-se a questionar sempre. E sempre fica algo por saber, encontramos pessoas, não encontramos respostas. Todavia deparamos aqui e além uma clareira, onde nos sentamos, rigorosamente para fazer nada, um privilégio único no Sul. E, quando isso acontece, habituamo-nos a pensar, porque aí nem temos tempo para tal, sobrecarregados que andamos com agendas, quantas vezes inúteis.

Não encontramos Bissau. A cidade faz questão de guardar algum mistério, aqui sofre-se. Mas dança-se. E canta-se. Há quem os queira calar mas, como em todo lado, não resulta. Então partilham-se, com amigas e amigos novos, angústias e desejos comuns. Alguma receita? De todo, basta querer e saber ouvir…

A praça, a rua cheia de gente, os putos querem vender qualquer coisa, as mulheres carregam baldes de água, os homens fazem negócio. Uma cidade que vive, e que às vezes não deixa viver.

Queremos ajudar? Sabemos lá se querem ajuda. É que pode esconder alguma coisa. Aqui cabe talvez a máxima de Sofia, Vemos, ouvimos e lemos /não podemos ignorar / Nada pode apagar /O concerto dos gritos/ O nosso tempo é /Pecado organizado.(1)

 

(1)    In: “Cantata da Paz”, Sophia de Mello Breyner Andersen, 1968
       (2)   Poeta Guineense