rio torto

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27 outubro 2014


E você, sabe mesmo o que é o stress?
 
 
 
 
 
 
 
 
A gente pensava saber o que o termo diz e supõe. Até ao momento em que nos informaram que os mercados (aqueles) ficavam, de vez em quando nervosos, sempre que havia uma mijadela qualquer de um animal destreinado, ou descontrolado. Fosse lá o animal quem fosse, desde a vulgar besta de carga, até um ministro liberal, aliás agora, neoliberal. Mas havia de haver mais, para nosso desconforto (ou não). Agora parece ser os bancos, não os de jardim, mas os outros que se alimentam do nosso dinheiro, que passam a estar sujeitos a testes de stress.  Uma breve, mas profícua, pesquisa encontramos, no Dicionário da Porto Editora, o significado do termo: “conjunto de perturbações psíquicas e fisiológicas, provocadas por agentes diversos, que prejudicam ou impedem a realização normal do trabalho; tensão, pressão”. E ficamos felizes, porque (concluímos) que os ditos (bancos) se estão humanizando (assim, á brasileira, fica melhor), através da aquisição de competências dignas do humano, tais com as psíquicas e fisiológicas. Uma forma de estar que os aproxima de nós. Nem que tal tenha a ver com a circunstância, nada despicienda, de tal aproximação ter como consequência a melhor “extracção” de capital, motivada pelos tempos que correm, em que como se sabe, fica bem “desviar” capitais de um lado para o outro, de modo a permitir que os tais 1% vivam de facto com a abundância digna de senhores, que o são, pelo simples facto de o terem que ser. Até aqui, nada de especial, nada de novo. De estranhar era ser o contrário, hipótese nada usual e que a ser verdadeira significaria uma inversão completa de valores, o que não se ajusta de todo aos tempos que correm. Concluímos ainda que quando os bancos entram em stress, não devem ser atormentados com outras preocupações, porque podem simplesmente dar-lhes assim uma coisinha má e colapsarem. E, ao colapsar, podem arrastar atrás de si (ou à frente de si?) toda uma série de coisinhas más. Para nós, claro. Porque, e aqui reside a diferença fundamental ao humano ser, quando colapasam, nós é que temos o remédio santo para resolver a coisa: mais dinheiro. Chegada a coisa a estes termos, pergunta-se: vale a pena colapsar? Resposta mais que evidente, também ao contrário do humano ser que pode mesmo ir desta para melhor (ou pior, conforme a crença): sim, vale a pena. Conhecidos e detectados já alguns exemplos, no nosso País, confirmam a sentença. Um há até que passou a ser “bom” e “novo”, depois de lhe ter dado a tal coisinha má, que poderá até ser boa, conforme a crença, cuja neste caso vertente, tem a ver com a chamada supervisão, que é uma coisa complicada e que não vou abordar nesta redacção, por falta de linhas.
Qualquer visão, porventura catastrofista, que pretenda associar este fenómeno a um novo ataque à população mais desfavorecida, será então pura maledicência. Até porque, distintas figuras públicas se apressam a dizer que podemos todo ficar tranquilos. E quando essa (e outras) figuras falam, devemos ouvi-las, porque estão sempre a defender os superiores interesses da nação, acima de interesses partidários. Mesmo que essas figuras, que alguns dizem ser tristes, pertençam aos tais partidos, podendo parecer estranho que, se pertencem aos ditos, não defendam os interesses daqueles. Mas, tal como o outro assunto, é por demais complicado me propor abordá-lo. Bem vistas as coisas, eles cuidam bem de nós, para que havemos de querer perceber tudo e mais alguma coisa, em vez de trabalhar para pagar impostos, a bem da nação? E sabemos finalmente que se trabalharmos bem e denunciarmos aqueles que o não querem fazer, e que estão sempre no contra, podemos ter acesso a uma prendinha, mesmo não sabendo quando nem como.

Explicado assim, porque as coisas devem ser claras, podemos antever um risonho futuro para todos nós, caso cuidemos bem, tratando bem, depositando bem, transmitindo assim ao “nosso” banco a calma necessária para o stress não se manifeste. Porque, repito, caso ele se manifeste mesmo, quem paga somos mesmo nós. E, atenção, caso saibamos de algum que esteja a ser submetido a um teste (de stress), rezemos por ele a nossa senhora, para que nada de mal lhe aconteça e que regresse, são e salvo, ao nosso terno convívio, para bem de todos nós.

Se entretanto não ficaram convencidos com a minha redacção, descansem que eu também não…

22 setembro 2014


 
 
 
 
 
 
 
 
Às vezes é bom rever a história do nosso País.
No final do século XXI e inicio do século XX, podemos encontrar belos exemplos de patriotas e democratas que, sem papas na língua, brandiam na decrépita monarquia e depois, nos traidores da Pátria, no alvorecer da I República. Não existia o politicamente correcto, não havia o famigerado “centrão”, despontava o ideal socialista na sua pureza, os revolucionários não tinham medo de o ser, a política ganhava estatuto, os cidadãos começavam a compreender a cidadania.

Guerra Junqueiro (1850-1923), poeta revolucionário, autor também de bela e inspirada prosa, foi uma dessas figuras, tendo contribuído com a sua acção cívica e politica para o derrube da monarquia. O texto que se segue é uma colagem de palavras integralmente suas, vai devidamente citado e datado, dá ganas de o tomar por actual, e como tal faço, com a devida vénia, a minha:

 PROCLAMAÇÃO 

Caros Concidadãos,

O que há de mais baixo no homem, a imbecilidade, a vaidade, a inveja, a hipocrisia, a cobiça –gula de porco,, veneno de réptil, cinismo de macaco, rancor de fera – eis o governo da nação, eis a norma da Pátria. Quem nos governa, quem nos tem governado? Ladrões! Mas, nem só ladrões, também idiotas vulgares, ambiciosos medíocres, a farsa além da infâmia, a estupidez além do crime.
Mas, uma ordem social, que eleva criminosos a martiriza justos, é a negação das leis humanas, e cumpre-nos arrasá-la de alto a baixo, a ferro e fogo, até aos alicerces[1]. “A sociedade portuguesa está organizada para o mal. Não é já o mal esporádico e fortuito, em casos isolados que rapidamente se combatem. Não, é o mal colectivo, o mal em norma de vida, o mal em sistema de governo. Porque o mal são eles e querem conservar-se. Um regímen corrupto só na corrupção subsiste. Mantém-se na corrupção, como alguns bacilos na porcaria. A filosofia de vida de um tal regímen é a filosofia do porco: devorar. O regímen, pelos homens que o exercem, denota um fim: viver estupidamente, clinicamente, a vida bruta da matéria. Os deputados são, ordinariamente, os lacaios do regímen. Dão-lhes decretos a aprovar, como dão botas a engraxar. Regímen sinistro! A tua sombra esterilizou o nosso campo; os teus frutos gelaram o nosso coração. Quebrar-te um ramo ou espezinhar-te um fruto, para quê? Deitarás mais ramos, deitarás mais frutos, o que é necessário, árvore tenebrosa, é arrancar-te pela raiz, e fazer contigo uma fogueira.” [2].

Há tiranias dominadoras e fulgurantes, de olhos de águia, e tiranias lívidas, oblíquas, de olhar de hiena. Ambas trágicas.” [3]
A tirania de engorda e de vista baixa, uma fase indecorosa? Jamais! As palavras são indecorosas, quando há mentira nas palavras. A nossa língua é indecorosa, quando segrega embustes e veneno. E se é temível o veneno da serpente, porque mata um homem, que veneno infernal o de um homem, quando perturba ou mata milhões de almas.” [4]

Viva a República! Viva Portugal!
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Fonte: Junqueiro, A.G., “Horas de Combate”, Lello & Irmãos Editores, Porto 1978


[1] Extracto de Discurso pronunciado num Comício do Partido Republicano, a 27 de Julho 1897, onde estavam presentes personalidades como Manuel de Arriaga, Teófilo Braga e Afonso de Lemos, in:
[2] Extracto do Manifesto “O Regímen”, publicado no Jornal Voz Pública, a 25 de Novembro 1899
[3] Extracto do Discurso pronunciado a 2 de Dezembro 1906, no Porto, na Rua da Alegria e que foi publicado no Jornal Voz Pública, em cabeçalho desse dia.
[4] Extracto da defesa em Tribunal, a 10 de Abril 1907, de Guerra Junqueiro, acusado pelo Ministério Público de ofensas a el-rei D. Carlos, feitas na Câmara dos Deputados, em Abril do ano anterior.

21 setembro 2014

NUNO PAULA DO CRATO TEIXEIRA DA CRUZ







 
 
 
 
 
Unidos numa simbiose pífia, eivada de lugares comuns de gosto duvidoso, Paula e Nuno de seus nomes, interpretam a inesquecível peça de pedir perdão. Bons costumes, lição estudada para consumo eleitoral, acto de contrição de contornos inexauríveis. Há coisas piores, como por exemplo, a dissonância. Ele fala da incongruência da fórmula, ela confessa-se surpreendida pelo afundamento do sistema. Ambos protagonizam um interessante “estado de citius”, em que o denominador comum é a monstruosidade passa-culpas, com uma demissão de um ou outro técnico, na boa pinta nacional, de uma forma de fazer política e lidar com adversidades tidas como naturais. Peço desculpa, fico de bem com a minha pobre consciência e tudo continua mais ou menos na mesma, a justiça como uma vontade do regime, que parvo que eu sou…

Mas vendo bem as coisas, um e outro são titulares nesta famigerada “selecção nacional”, onde o treinador vale ainda menos (se possível) que o Paulo Bento e que não se demite, nem é demitido, monstruosa figura, que nem de estilo, porque nenhum tem que não seja o de uma mediocridade extensiva a todo o plantel. E, por falar em congruência, manda a Matemática que, sendo a e b números inteiros, “a” é congruente com “b” para o módulo “k” (diferente de zero), se a diferença entre a e b, for divisível por k. Como a diferença entre o Nuno e a Paula é zero, qualquer que seja a capa (k), existe congruência absoluta, a que se pode chamar, sem qualquer rebuço, mediocridade.

A circunstância, decerto falaciosa, de um banal pedido de desculpas, não encaixa neste bando de deploráveis criaturas. Podem continuar a falar, até ao fim, seja ele qual for. Já ninguém, nem sequer os seus apaniguados, os leva a sério. Nem merecem a mínima credibilidade, pena é que não paguem ao País, o preço da sua incompetência.

29 agosto 2014

Um Alien revivalista, aqui…
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aterrado no cruzamento, o personagem ressuscitava Azimov [1], transportando-o debaixo do braço, sob a forma de livro, unido a ele pelas leis da física que conhecemos. O mentor haveria de supor, há 50 anos, um ano de 2014 com casas debaixo de terra e cidades no mar. E, curiosamente, a acentuação das desigualdades entre ricos e pobres. Nos 4 caminhos, o personagem rodava quando o automóvel se aproximava, escondendo dos terrestres a sua verdadeira face. Um fenómeno que Azimov bem poderia ter imaginado, quando dedicou a sua vida a nobre causa da bioquímica, temperada com a ficção científica, circunstância que o levaria até a ser considerado um mestre, equiparado a Artur C. Clark [2]. Bem vistas as coisas, a maldade de esconder a face acaba por ser uma constante dos tempos que correm, em que um rosto invisível e de contornos mal definidos domina as vidas daqueles que ainda sonham com a luz. Ingrata, a passagem das horas, remete-nos para uma realidade sinistra, que renegamos inconscientemente. O personagem, em vez de nos convidar a entrar na sua nave, roda 180 graus sobre si próprio, apenas permitindo ver o autor do livro que transporta. Que, por sua vez, nos remete para um afastamento da natureza, quiçá um Império Galáctico [3], sob a égide de uma qualquer Goldman Sachs. Assim, o dia em que personagem passou por aqui, ficará marcado pela certeza e pela incerteza. Quanto a primeira, dificilmente se poderia imaginar o fim de tarde atribulado que provocou. No que concerne a segunda, daremos como adquirida a dúvida legítima “estivemos realmente lá?”. “Sentir tudo de todas as maneiras / Viver tudo de todos os lados / Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo…[4], sentenciou o Poeta, na sua fase decadentista. Comungamos com ele porventura, ao deparar com o personagem? Ou, por outro lado, “matamos” o personagem, simplesmente por incomoda a nossa débil existência? De qualquer forma, pelas dezassete horas e trinta minutos do tempo que conhecemos, no cruzamento assinalado no mapa, haveria de ocorrer um fenómeno. Fica o registo de um protagonista ansioso, mesmo sem saber muito bem de quê…
 


[1] Azimov, Isaak Yudavich (1920/1992), escritor e bioquímico americano, nascido na Rússia, autor de obras de ficção científica e divulgação científica.
[2] Clarke, Arthur Charles (1917/2008), escritor e inventor britânico, autor de obras de divulgação científica e de ficção científica
[3] Referência a uma série de contos de ficção científica, com esse nome, do autor Azimov
[4] Excerto de “A Passagem das Horas”, Álvaro de Campos, 1916

10 agosto 2014


O vento não mudou…
 
 
 
 
 
 
 
 
Na canção ele mudava e ela não voltava. Estávamos em 1967 e havia um Festival com grande impacto social, já que tudo o resto era vedado na “democracia orgânica” da época.
A SillySeason, uma coisa instituída na “democracia liberal” imposta pelo poder do capital do século XXI, brinda anualmente a praça dos que se entretêm a exercer o poder sobre a populaça, servindo o País acima dos seus interesses. Aparece sem se dar conta neste mês de Agosto, do qual se diz que nada se passa. Trás sempre uma “bomba” que rebenta e cujos danos colaterais vão invariavelmente na mesma direcção. Mais um banco no lamaçal e desta vez o cujo dito em que o seu patrão natural era o dono disto tudo, na vox populis abalizada de todos os seus pares.

Interessa entretanto saber se afinal, neste Agosto esquisito com chuva e sol á mistura, se o vento mudou ou não. Que sim, mas que talvez, o próximo mais do “nim”, aliás uma instituição interessante da “democracia liberal”. Zola dizia a certo passo a Flaubert, a propósito do Naturalismo, “…considero o termo tão ridículo como você, mas irei continuar a repeti-lo vezes sem conta, porque têm de ser dados novos nomes às coisas, para que o público pense que são novas”. Mesmo que o vento não mude, mudaremos o nome das coisas, para que tudo fique na mesma. E é esta a tese substantiva da direita estúpida e cega que tiraniza a populaça.
A casa onde o pai matou a família toda e tentou alastrar a matança a longínquas paragens, vai agora ser dividida em duas, por ordem de um governo que lhe prestou ao tempo a mesma vassalagem que outros lhe foram prestando. Será então uma “casa boa” e uma “casa má”, um exercício de maniqueísmo que não orgulharia decerto o seu mentor, de tão rasteiro e pusilânime. Supõe-se, na simplicidade de quem tem apenas 2 ou 3 neurónios a funcionar, como a canalhada que ocupa as cadeiras do poder, que na casa boa ficam as coisas boas e na casa má, o resto que é mau. O curioso é que as pessoas até acreditam, com a beneplácita ajuda de comentadores, jornalistas vendidos e outros acólitos, que subscrevem as teses oficiais, com um descaramento que enoja. Para completar o quadro, nada como a putrefacta figura do regulador, que faz tudo menos regular, e que lembra o professor que descobre no final do ano que afinal a turma é um bando de assaltantes e filhos da dita, capazes de semear a confusão na escola toda.

Do lado de cá, a mesma sina, a mesma sorte. A de pagar os estragos do assaltante, para que a casa seja de novo “boa” e sirva para recolher os parcos proveitos dos que pagam, até ao dia em que volte tudo ao mesmo, porque ao velho ladrão há-de suceder um outro, dado que a fonte de recrutamento dos representantes dos patrões é sempre a mesma e gere os recursos que tem à mão, no ensino da ganância e da pilhagem. A solução é a única possível, como todas as soluções deste grupo de ladrões e corruptos. Nunca existe alternativa possível, porque nem sequer é ouvida qualquer voz que se permita discordar. É mesmo que seja ouvida é o mesmo que nada.
O vento afinal não mudou, nem ELA (Je voudrais sans la nommer vous parler d'elle) voltou. Pena…


 

 

 

 

27 junho 2014


PIRRO ou PORRA?

 
 
 
 
 
 
 
 
Só a ideia de ter como “representantes” uma boa dúzia de meninos ricos e mimados, cujo “valor” flutua na relva do mercado (ou no mercado da relva), assusta qualquer um. A pompa aqui ajusta-se a circunstância. O conjunto das chamadas figuras públicas e comentadores pagos que vieram a terreiro atestar a mais-valia desta selecção, mais valia que estivessem calados, foi tempo perdido, ilusões vendidas a preço de saldo e que talvez tenham deslumbrado as estrelas que penosamente se arrastaram pelos Brasis.
E aquele a chamam o “melhor do planeta” e que raramente consegue articular 2 frases sem sentido, como irá lidar com este rotundo fracasso? Afinal, mais uma vez, acaba por ficar aquém das expectativas.
Mas falemos de atitude. Com todas as cambiantes possíveis e imaginárias, houve de tudo, desde a arrogância (vai ser o ano de Portugal, somos melhores,…) até a resignação pura e dura (sabíamos que havia outros melhores que nós…), patente aliás no ultimo jogo. Mas há mais atitudes, como a do inefável Bento, “…não me demito, aconteça o que acontecer”. Tal com o outro, que também não, nem mais ou menos, apesar do/s fracasso/s evidente/s. Também, tal como o outro, tem um desígnio, pelo menos nacional, quiçá europeu, ou mesmo mundial, quem sabe? É também isso que irrita, de tão diletante.
A pífia campanha publicitária à volta da coisa quer sobretudo alimentar o incontido brio lusitano, ferido em tempos de servidão. Para fora, com algumas adendas, para dentro com prebendas e comendas, como iremos ver…

PIRRO na vitória, ou PORRA para isto tudo?

16 junho 2014



“FAZER UM GOL NESSA PARTIDA NÃO É FÁCIL, MEU IRMÃO…"(1)

Por ser dia de jogo, lembro o Afonsinho, aliás Afonso Celso Garcia Reis, o primeiro jogador de futebol no Brasil a conseguir o passe livre (…não preso a nenhuma equipa), na década de 70 do século passado, numa época que o Brasil vivia uma repressão feroz, sob a Ditadura Militar.

Afonsinho tornou-se conhecido pela luta contra duas ditaduras, a dos militares e a que escravizava os jogadores de futebol naquela época, o passe. E tudo isso aconteceu por conta de um episódio no Botafogo, quando ele ainda muito jovem, já havia liderado os seus companheiros de equipa contra os dirigentes do clube, por pagamentos de prémios atrasados. Mais, os dirigentes do clube e o técnico Zagallo blindaram a sua ida a selecção, por usar barba e cabelo comprido, um visual subversivo, segundo eles.

Afonsinho representava, por assim dizer, uma alma. Uma chama diferente, porque contra a corrente. A sua luta abriu caminho para que outros jogadores também lutassem pelos seus direitos.

E digo com ele (Gilberto), "Prezado amigo Afonsinho/eu continuo aqui mesmo/aperfeiçoando o imperfeito/dando um tempo, dando um jeito desprezando a perfeição/que a perfeição é uma meta/ defendida pelo goleiro/ que joga na selecção/e eu não sou Pelé nem nada…”.

Talvez aquele que hoje é “entronizado”, como melhor do mundo, o salvador da pátria (do futebol, pelo menos), não conheça Afonsinho, nem muito menos o que ele representou. Talvez porque a cultura seja a inversa. Ele, como a maioria dos seleccionados, ricos e mimados, investidos de um poder fátuo, por força da propaganda e dos milhões, a que devem obediência.

Apenas um jogo de futebol. Contra os dominadores da Europa e quiçá, arredores? De todo, apenas uma equipa de futebol, adversária e não inimiga, segundo as “boas regras” do desporto.

Se for então difícil “fazer um gol nessa partida…” é porque – apenas – não foram capazes de “…aperfeiçoar o imperfeito”, que é o zero-a-zero, o empate constante do meio-termo, do tal meio-campo em que se joga a/o tempo inteiro. O jogo, tal como a vida, é sempre p´ra frente, ao ataque, seja qual for o adversário, marcar golo é vencer, as lutas são para ganhar.

Afonsinho, meu irmão!
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(1)     “Meio de Campo”, Gilberto Gil
 
 

10 junho 2014


DESFALECER…
















Uma palavra esquisita. Deveria querer significar o contrário. Como desnaturado que, segundo o dicionário da língua portuguesa, significa “que se desnaturou, que não tem os sentimentos naturais”. Ou desfazer, que é naturalmente o contrário de fazer. O prefixo “des” refere separação ou acção contrária.
Acima de tudo, como diria o outro, “… é melhor que falecer”.
Este, ao que consta, desfaleceu hoje. Numa cerimónia pública em que mais uma vez, o governo foi mandado para a rua. O homem que, paulatinamente desfez o País, desde que esteve ao leme, durante 2 mandatos: indústrias, agricultura, pescas,... Gabando-se de ser o único a ter razão, nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, “deixem-nos trabalhar…”. Trabalhou de facto para a destruição, para transformar o País num deserto de serviços, muitos inúteis, como agora se prova. Ajudado e amparado por uma maioria fictícia, que talvez hoje nele nem se reveja, é um homem acossado. Governou e governou-se, tentando ostentar uma máscara de seriedade, institucional ou não, acima de barões e baronetes. A quem recorreu, quando necessário e que o premiaram no caso que todos conhecem.

Uma tristeza. Um País que desfalece aos poucos, por causa dele e dos que hoje o suportam. Que continuaram a obra do chefe, e que agora suportamos.
Desfalecemos um pouco, todos os dias, martelados e subjugados, pela notícia sempre igual, pelo comentário comprado e bem pago, pela medida sempre mais austera, que é necessário, para bem da nação. Este e os outros todos que pululam alegremente sobre a nossa tristeza, com a linguagem maldita da ficção de um mundo só para alguns.

Desfaleceu? Se disséssemos que era bem feito, estaríamos porventura a incorrer em pecado mortal. Como, apesar de não perfilharmos as teses da maldição, somos pessoas de bem, desejamos que não desfaleça mais. Que faleça de vez no cargo que ocupa, politicamente falando, claro…

28 abril 2014

25 ABRIL 2014

Ao rigor do tempo serão 40 anos.
Parece entretanto que foi ontem, pelo sentimento que colocamos, tanta coisa em jogo naquele tempo, onde o tempo apenas parecia contar para uma festa de sentimentos, esperança e desejo de um País melhor, livre da tutela dos senhores do dinheiro e da exploração.
A festa que o Chico dizia ser bonita pá.
Ganhava valor o trabalho, o capital olhava para o lado, esperando melhores dias em que pudesse voltar a tomar as rédeas.
Viemos de longe para aqui chegar, sonhando que a luta seria o sustentáculo dos direitos que pareciam ganhar terreno. Mas a luta ainda estava para vir.
 Hoje, dia 25 de Abril, longe da pátria, mas entre irmãos de luta que falam a mesmo língua, apenas sou capaz de sentir a saudade que a Cesária falou: sôdade.
Percorro o meu País. Em vez de pessoas com alegria de viver, deparo com “Gente que hoje anda / Falando de lado /E olhando pro chão, viu”. E sei que, como bem diz o Chico, “Apesar de você/Amanhã há de ser/Outro dia” e que
Quando chegar o momento/Esse meu sofrimento/Vou cobrar com juros, juro”.
As voltas com a injustiça e a ignominia que campeiam, lembro o Adriano exortando o Tejo,  “Lava bancos e empresas /dos comedores de dinheiro / que dos salários de tristeza /arrecadam lucro inteiro / Lava palácios vivendas /casebres bairros da lata / leva negócios e rendas /que a uns farta e a outros mata

Mas sei que quero a mudança. Porque já Luís de Camões a dizia: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / Muda-se o ser, muda-se a confiança / Todo o mundo é composto de mudança / Tomando sempre novas qualidades”.

Mas também sei que não quero a mudança que um punhado de gente sem escrúpulos escreve, com letras de fome e de pobreza. Essa a novidade que eles fizeram. E que Camões também avisou: “Continuamente vemos novidades / Diferentes em tudo da esperança / Do mal ficam as mágoas na lembrança / E do bem, se algum houve, as saudades”
Neste dia recordo, como seria de esperar, o Zeca Afonso. “A velha história ainda mal começa /Agora esta voltando ao que era dantes / Mas se há um camarada à tua espera / Não faltes ao encontro sê constante”.

25 de Abril sempre!

26 março 2014


O CABEÇA DA LISTA

Espezinhado pela sucessão crescente de eventualidades, algumas delas fortuitas, o candidato vacilou. Torpedeado pela comunicação social, hesitou, mas rapidamente se compôs, afinal era considerado mestre da palavra, pelo menos no que toca a velocidade com que dispara, salvo seja. Emagrecido, porventura após tratamento direccionado para abater gorduras, cujas são entendidas como tal pela análise da conjuntura, que por sinal são dirigidas à estrutura. Para quem considere que isto é um pouco complicado, aconselha-se a opinião, sempre conceituada, dos mais que muitos consultores que pululam por aí. Um pequeno parêntesis, para corrigir, de opinião, para da opinião, uma vez que é o sistema que está instituído e para o qual não há alternativa a curto prazo.

Saiu para a rua, vagueou sem direcção, assim o conta o poeta, na canção. O tema é sempre o mesmo, para o cabeça da lista. Consenso entre os do arco, cuja governação conhecemos há tanto tempo, que já lhe perdemos a conta. Ainda, os superiores interesses que se sobrepõem a não sei o quê, e que também sabemos de quem são, onde estão e como são cuidadosamente garantidos, a troca de rendas surripiadas sempre aos mesmos. Finalmente, a necessidade do controle, que diz ser orçamental, o esforço em reduzir a dívida, que a gente vê aumentar todos os dias, uma espécie de pinha que lhe cai sempre na cabeça. Do cabeça. Da lista.

Pudera ser dois, e desdobrar-se, num contorcionismo perfeito, e daria então ao eleitorado uma espécie de bipolaridade, à primeira vista atraente, para públicos menos avisados. Daria então duas faces, embora sempre a mesma, em matéria de facto. O cabeça pensou nisso, obviamente. E analisou essa possibilidade com a sua gente, consultores, intermédios dirigentes, superiores, e demais quadros que sabemos serem pintados com muita perícia e cuidado. E pagos, claro, aqui não há gordura, só músculo.

Após encontros promovidos para o efeito, eis que surgem então as duas faces, ambas oculadas, uma veloz e incisiva, outra fanhosa e paulatina. As duas querem aparentemente o mesmo, mas aos olhos da populaça, supõe-se que seja exactamente o contrário, sendo que convém que apareçam sob a capa de insanáveis divergências, baralhando assim o jogo que, sem ter começado no campo, se desenrola em plena bancada.

A cabeça pesa ao cabeça, porque o peso do discurso pesa na consciência, muito embora lhe tenham aconselhado deixar esse tipo de coisa, fora da coisa. Assim, passará ao ataque da lista, sempre com a cabeça no superior interesse que, como já se viu, é intenso. Mas, como tem 2 cabeças, poderá acontecer que uma delas se esvaia na ventania do Tempo, ou conforme o vento que passa, da trova que o pariu.

10 fevereiro 2014


Não, senhora Esteves!

A sucessão de protestos levou a presidente da Assembleia da República a admitir a necessidade de repensar as regras de acesso às galerias. Agora que os deputados já receberam um estudo sobre o que acontece noutros parlamentos, queremos ouvir a sua opinião. São aceitáveis os protestos a que temos assistido no Parlamento?”

Assim foi o Fórum de hoje na TSF. Já fui mais assíduo nestes fóruns. E já tive oportunidade de, de certa forma, denunciar a forma como são programados estes debates, sempre favoráveis ao poder instituído, uma vez que a estação de rádio em questão, opta por introduzir o debate, de forma sorrateira, através de posições de comentadores, quase sempre contratados para induzir posições (…)

Devo dizer que não me espanta a atitude da presidente da AR. Pena é que a República tenha figuras destas a frente dos seus destinos. A senhora em questão, além de ser desprovida da classe exigível ao cargo que ocupa, é (mais) um excelente exemplo de falta de transparência na coisa pública. Uma (mais uma) reformada de luxo, detentora de uma linguagem rasca, inapropriada e em nada condizente com a Democracia, apesar de encher o seu vazio discurso com a palavra, que lhe deveria merecer algum respeito. Chegou ao desplante de utilizar uma asserção de Simone de Beauvoir, for de qualquer contexto, para se insurgir contra os protestos, mais que legítimos, dos manifestantes. Triste exemplo, triste interprete, só possível mesmo nos tempos que correm e que transformam o nosso País no mais simplório exemplo de seguidismo às políticas de agressão internacional contra as populações. Estulto será pois perder tempo com esta personagem menor.

No entanto, enquanto ela lá está, necessário será fazer-lhe frente. E, uma das premissas que é preciso desmontar, é que os políticos, os deputados, são todos iguais e só lá estão para defender os seus interesses privados e particulares. Se bem que tal seja de facto verdade, talvez até para uma significativa maioria delas e deles. Embora possa parecer contraditório, urge demonstrar, pelo exemplo, uma coisa e a outra, ao mesmo tempo. Tal significa, denunciar casos evidentes como este, em que ex-Ministros, ex-Secretários de Estado e outros altos cargos, quando cessam são os únicos cidadãos que podem legalmente acumular 2 salários do erário público. Ou, a quantidade de escritórios de advogados “representados” na AR, que elaboram as leis e os decretos que vão proteger interesses privados de grandes empresas.

O que está, ou pretende estar, em jogo é, mais uma vez, um atentado a liberdade de expressão. Acontece que este é um dos aspectos do fascismo social que graça por toda (ou quase toda) a Europa. Embora grande parte dos intérpretes não saibam o que é a vida, sabem bem o papel que lhes está destinado. E esse é, neste momento, “apenas” o de contribuir de alguma forma para a transferência das rendas do trabalho para o capital, no feroz ataque as estruturas do designado Estado Social, que era o apanágio da Europa do pós-guerra. Silenciar protestos, limitar o direito a manifestação, reduzir o poder das estruturas representativas dos trabalhadores, reduzir salários e pensões, retirar os poucos benefícios ao desemprego, facilitar este, são alguns dos papéis que cabem a esta gente. E que, de facto temos que reconhecer, que os estão a desempenhar de forma exemplar. Acreditar que tudo o que se passa em Portugal, como na Europa, é um sinal de incompetência técnica, ou até funcional, é cair no mesmo erro.

Há pois que ser, agora mais que nunca, competente na forma ou formas utilizadas para o protesto cidadão. Ele tem que ser cuidadosamente atestado, diversificado e sobretudo útil. Em causa deveria estar, uma opinião que ainda não parece ter vingado ainda, é a desobediência civil. Talvez uma das mais eficazes atitudes da cidadania activa. Emprego aqui uma designação que parece ser redundante (toda a cidadania, para o ser, deverá ser activa). Se o for, será todavia uma forma de reforço voluntário, quando a indiferença prossegue assustadoramente o seu maléfico caminho…

O País tem uma Assunção que assume o seu papel de tentativa de destruição das bases do estado democrático. Tem uma Esteves, que sempre esteve do mesmo lado. Sabemos bem qual. E serve-se, ao que parece muito bem, do Estado. A solução é não votar em personagens como esta. Parece simples, mas não o é, na realidade. Porque o voto (ainda) não é a arma do Povo, mas sim uma arma atirada à cara do Povo. Também me parece que não é preciso dizer porquê. Se assim fosse, como seria possível votar no homem que tem “10 secretárias, 9 auxiliares e 12 funcionários que prestam apoio técnico-administrativo e que, parecem não ser o suficiente para suplantar as necessidades de atendimento telefónico no Palácio de São Bento(1) ? E que “alega “a ausência de recursos próprios” para sustentar a premência deste contrato, que custou aos cofres públicos cerca de 25 mil euros(2). E que finalmente, “este é o 5º contrato celebrado com a empresa em causa, tanto pelo gabinete do primeiro-ministro, como pela secretaria-geral da Presidência do Conselho de Ministros, desde 2011, o que perfaz um montante total fixado em 95 mil euros (3)

Estaremos pois (mais ) atentos a esta tentativa. Estaremos, sempre que necessário nas galerias da AR, porque é a Casa da Democracia. Daremos a entender a actual presidente que somos nós que defendemos uma Assembleia da República e não a Assembleia Nacional (4) com que ela parece mais identificada…

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(1) Notícia do Jornal i, 10 Fevereiro 2014

(2 idem, ibidem)

(3) idem, ibidem)

(4) Referência ao parlamento do tempo do fascismo

03 fevereiro 2014



  Sim, senhor doutor!




Devo uma explicação. Só hoje falo das praxes, dado que nos últimos dias estive a modos que “raptado”. Acontece que, sem que fosse minha intenção, fui apanhado por um grupo de doutores e caloiras, que me fizeram uma espécie de lavagem ao cérebro, fazendo-me acreditar que o relógio do Portas tinha saltado no tempo e ainda estávamos sob ocupação da troika e que o meu salário havia encurtado 36,32%, em apenas 2 anos. Incrível, não é?
Na Academia onde vou ocupando o meu tempo, cruzo-me diariamente com pequenos, às vezes mais grandes, de alunos, que dão pontapés violentos na língua materna, vilipendiando costumes tão queridos a nossa Pátria. Uma vez, ao passear numa praça pública, no fim do jantar, o chão de terra batida no jardim completamente enlameado, um grupo de caloiros arrastava-se pelo chão, gritando vigorosamente a frase do título. Parei para ver esse lindo espectáculo e, comovido, lá me juntei a eles e a elas, puxando as orelhas, havendo de jurar fidelidade aos doutores, que como eu, fazem as venturas da Academia. Uma vez, numa reunião de um dos órgãos de decisão, respondi a um colega, que me afrontava, sim senhor doutor!  Apesar de ele ter ficado com cara de parvo, foi uma maravilha.


Devo dizer, é tão bonito dizer isto, no meu tempo não era assim. Em Coimbra, não me foi permitido ser caloiro a sério, era um “caloiro estrangeiro”, nem vos digo porquê. Em vez da tradicional “rapadela” de cabelo, apenas “apanhava nas unhas”, quando pela noite me aventurava na “baixinha”. Serei pois, deixem que vos diga, um tremendo apaixonado pelos rituais académicos mais ilustres, como por exemplo, almoçar na cantina, com o tabuleiro em cima das pernas cruzadas, cu no chão, limpando o soalho para não dar trabalho às senhoras da limpeza. Sim senhor doutor!


À entrada do anfiteatro acumulam-se meninas e meninos, nem dá para tentar entrar. Não faz mal, a faculdade não é só aulas, a queima é muito mais importante e, que pena, ainda faltam uns meses… Acostumado ao barulho ensurdecedor, mas decerto estimulante,  nem dou pela passagem do tempo, hoje é mais cedo que ontem, que baralhada.


Há quem diga, há sempre gente assim, que a praxe a que sujeitam os caloiros é uma forma de iniciar a submissão, em termos sociais. Que nada, faz bem que os universitários, futuro de um país, se habituem ao lugar que vão desempenhar. Se não for cá dentro, que seja lá fora, também o País é tão pequeno, que se ficássemos todos em casa, era uma tremenda confusão, o dinheiro não chega, vivemos tanto tempo acima das nossas possibilidades, assim nos ensinam os que governam que, com grande sacrifício pessoal, se entregam a tão nobre tarefa.


Finalmente, há sempre gente maldosa a dizer, que o “sim, senhor doutor” é uma manifestação de cariz fascizante, pelo que engloba de aceitação tácita de autoridade. Que exagero, apenas vejo nisso um sinal de respeito. E, o respeitinho é muito bonito, disse já não sei quem. Ontem, a propósito, um aluno atirou-me a porta na cara, tropecei , dei com as fuças no chão, espalhei a papelada toda, ele nem deu conta, coitado, ia com pressa certamente, é a vida.


 Cheguei ao gabinete, porra que frio!