rio torto

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29 maio 2015

Contributos Para O Desassossego (1)

De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida
Bertolt Brecht 



Para ler um deles (contributos), talvez não seja necessário ler o anterior. Ou então, sim.
Na aventura que ora inicio de me candidatar a Deputado da República, entendo dever esclarecer-me, primeira e sábia ideia que me passaram. Mas também contribuir para que seja entendível o meu pensamento sobre matérias consideradas de interesse. Ou apenas, as que eu entender que mereçam alguma reflexão. E, por algum motivo, escolho o pensamento do Brecht.
Descubro algumas afinidades com tanta gente boa que, militando em partidos políticos, ou simplesmente actuando politicamente na sua zona de influência, suportam dúvidas e incertezas que por vezes acumulam em desassossegos mais ou menos permanentes. Estou com elas e eles, não faço mais que isso, apenas de quando em vez me atrevo a transportar para o papel reflexões, que entendo de alguma utilidade prática. Ou não, se quiserem.
Assim constato existir em alguns sectores do Partido Socialista (PS) a tese de um pretenso aventureirismo de certas esquerdas, reactivando uma ideia antiga sobre o facto de esses partidos ou movimentos à esquerda do PS, poderem ser inclusivamente “aliados” da Direita, quando o PS está no governo. Ou simplesmente, para sacar um putativo “voto útil” para evitar o regresso ou a manutenção da Direita no Poder. No contexto actual, a questão da Grécia e tudo o que com tem a ver com o País, é paradigmático. Foi bom, mas depois estragaram tudo, o seu aventureirismo (lá está o busílis…) é evidente e, mais tarde ou mais cedo, vão ceder. É curioso que, nesta asserção, a Direita diz exactamente o mesmo, ainda que por outras palavras. O PS tem essa interpretação, em parte porque acredita que é alternativa. Uma situação que se pode aceitar filosoficamente, mas que a realidade se encarrega de refutar. E, o que acontece, é que o PS continua com imensa dificuldade em passar a mensagem, pelo menos para o exterior, a provar tal, é mesmo que não “descola” nas sondagens. E porque acreditam serem alternativa? Bom, porque sempre assim foi, porque se não é a Direita, são eles, e vice-versa, até ao infinito. Para tal, contribui a indesmentível circunstância de juntos dominarem todo o aparelho de Estado, as Empresas públicas, os Bancos e as suas administrações, a Justiça, as famigeradas entidades reguladoras (que regula coisa nenhuma…), enfim tudo o que mexe.
O PS apresenta de facto propostas muito mais próximas da Direita do que julga (…). Os seus responsáveis não rejeitam o Tratado Orçamental, aliás até evitam falar disso e, quando o fazem, escudam-se na premissa, melhor dizendo na falácia, “…estamos na Europa, não podemos sair”. Não fala (não pode ou não quer?) na auditoria da dívida, como uma atitude de cidadania, para que não se confunda nunca, no contexto de uma sociedade de mercado contemporânea, a questão da dívida com o acto de “honrar um compromisso”. E porque, esse “pequeno” passo teria um enorme significado político, quando muito ao nível do que é (ou deveria ser) a participação cidadã qualificada e condições de exercício do direito à informação de todos os cidadãos e cidadãs.
O PS tem um estranho discurso sobre a austeridade. Não basta dizer que é contra, é preciso ser mesmo contra. E ser contra, significa tomar medidas para tal e não somente um acto proclamatório, Um caminho diferente da austeridade…”, como se pode ler no Programa Eleitoral. Pode ou não ler-se aqui uma outra ideia, que tem a ver com menos um pouco de austeridade, o castigo iníquo aplicado aos povos pelos desmandos do capital financeiro. Menos um pouco, parece ser afinal o desígnio…
E sobre a TSU? Muita tinta vem correndo sobre esta matéria, mais uma em que o PS navega em águas turvas,  “À medida que se concretizem e consolidem as fontes de financiamento alternativas admite-se uma redução da taxa contributiva para a Segurança Social a cargo das empresas”. Pode perguntar-se afinal, se promover a sustentabilidade da Segurança Social é diminuir as receitas. Mas tal tem a ver, uma vez mais, com a cedência no plano laboral aos patrões. E assim, o PS não é capaz de dizer claramente que tal passa por um aumento significativo do salário mínimo nacional e pela “promoção do emprego através da dinamização das actividades de investigação associadas à produção[1]. E já agora (porque não?) pela afectação à Segurança Social de uma taxa sobre as transacções na Bolsa de Valores.
Mas há mais a dizer sobre o PS. Os seus apoiantes estão convencidos que existe uma dinâmica de discussão alargada subjacente a apresentação da proposta do grupo de economistas e ao documento de programa eleitoral. Mais um engano, entre tantos. Vejamos as questões que o PS propõe e pede resposta num documento que se chama “Programa Participativo de Governo” [2]: (1)O que deve ser feito para incentivar o regresso de emigrantes a Portugal?” (2)O PS defende que sejam disponibilizados serviços públicos junto de cidadãos seniores (mais de 65 anos) no local onde estes os solicitarem, evitando a sua deslocação. Qual a área onde é mais urgente iniciar este serviço?”; (3) “No sentido de promover o acesso de todos os cidadãos aos bens e serviços culturais, bem como para fomentar o desenvolvimento académico e criativo dos mais jovens, em qual das opções, na sua opinião, os esforços se devem concentrar?”; (4) “Para fazer face a contactos de marketing indesejados, o que será melhor?”; (5) “Em que área governativa do Estado deve ser realizado um primeiro orçamento participativo, à semelhança do que acontece já em alguns municípios?”; (6) “O PS defende que o próximo Governo deve voltar a apostar no SIMPLEX e nas políticas de simplificação administrativa que o Governo de direita desprezou. Qual a área/setor onde deve ser dada a máxima prioridade?”; (7) “O PS defende a redução nos preços de alguns registos. Uma vez que é possível a redução de preços nos registos das pessoas e das empresas e até um dado valor limite, o que é preferível?”. Por mais importantes que sejam (e serão decerto) estas questões, parecem no contexto actual pouco ajustadas a uma realidade que afecta milhões de portugueses sem emprego e alguns no limiar da pobreza.

O PS não é, nem nunca foi, capaz de promover convergências à sua esquerda, pelo menos a nível de governo do País. Aliás até há dirigentes que afirmam que a Esquerda é o PS, depois existe a Direita, com a qual outros (e não são poucos) dirigentes gostariam de se coligar e depois há a extrema-esquerda, assim classificada para ser acantonada de esquina para o qual a imensa sabedoria do PS a remete. E, com esta atitude, dita “moderada” e “sensata”, o PS consegue o quê? Nas últimas sondagens, uns míseros 4 ou 5% a mais que a Direita que diz renegar e da qual se diz demarcar completamente. A procura da consensualidade, assenta no pântano da indefinição permanente em que sucessivas direcções navegam, é um triste legado da história recente da Esquerda portuguesa. Como o é, em Espanha, na França, na Itália, para citar apenas exemplos da Europa do sul. E como foi na Grécia, sabendo-se da confrangedora prestação do PASOK. Uma consensualidade protagonizada por uma elite politicamente empenhada em defender privilégios e influências que reflectem na maioria da comunicação social, o espelho de uma realidade a que a maioria dos portugueses é perfeitamente alheia, mas que paga (e bem) os seus desmandos.

Na situação de destruição activa e sistemática do País, levada a cabo pela Direita, o PS deveria, até em termos de lógica discursiva, estar todos os dias e a toda a hora, no combate frontal ao governo. Mas de facto não é isso que acontece. O PS continua a pensar (vã ilusão) que é um partido “responsável”, que se distingue da “esquerdalha” que só vê a Grécia como resposta. O PS é na verdade um partido responsável. Responsável, pela degradação da forma de fazer política no nosso País, ajudando a criar a tese do “bloco central”, onde coexiste amigável e colaborante com a Direita. Responsável pela marginalização da Esquerda, assumindo-se como a única alternativa à Direita, cometendo os mesmos erros que apontam quando está na oposição, pactuando com ela quando está no Poder, subjugando-se aos mesmo interesses. Responsável ainda, pela relativa indiferença de uma grande maioria, “não vale a pena, são todos iguais…”
O PS não assume a necessidade da ruptura. E só a ruptura pode induzir uma alternativa política justa e eficaz. Justa, porque atenta as desigualdades e a urgência da erradicação da pobreza, como é defendido nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)[3], que sucedem aos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (UN, 2000). Eficaz, na medida em que não cria (não pode criar) qualquer tipo de ilusões quanto ao caminho a seguir, a saber, o desenlace total e completo com as políticas que atentam contra os direitos das pessoas e dos Estados Soberanos. A luta que se impõe é precisamente contra a imposição do pensamento único, uma dominação intolerável, quer do ponto de vista intelectual quer do ponto de vista da justiça. Marx escreveria em 1846, “Os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes …O pensamento daqueles a quem é recusado os meios de produção intelectual está submetido igualmente à classe dominante. Os pensamentos dominantes são apenas a expressão ideal das relações materiais dominantes concebidas sob a forma de ideias e, portanto, a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante; dizendo de outro modo, são as ideias e, portanto, a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante; dizendo de outro modo, são as ideias do seu domínio[4]. A actualidade deste pensamento é bem evidente, para quem esteja atento ao que se passa em Portugal e na Europa, no que respeita a dominação.
Mas o PS tem uma oportunidade única, a possibilidade de nos surpreender. De fazer uma inversão. E tal pode passar, por exemplo, pela afirmação de um alternativa clara à Direita. Ainda irá porventura a tempo de colocar no seu programa de governo, posições claras sobre uma auditoria cidadã à dívida e sobre a rejeição do tratado orçamental europeu. Faria, a bem dizer, a diferença. Em Portugal, mas também no espaço europeu. António Costa daria assim uma bofetada de luva branca nos barões do seu partido, comprometidos provavelmente com uma parte da divida privada acumulada e que oprime significativamente o nosso País. Contribuiria para o relançamento da esperança em milhões de portugueses que nele (ainda) apostam como alternativa. Subiria seguramente uns 8 a 10 pontos percentuais nas sondagens, descolando de vez desta Direita opressora.
Como (ainda) nos é permitido sonhar, fizemos aqui um exercício de análise possível. E como, do sonho à realidade vai um curto passo, o tal que “…comanda a vida”, é bem possível que consigamos cavalgar a onda de esperança que mora em cada um de nós. Porque entretanto, há uma Tabacaria[5] na esquina onde se lê “Não sou nada/à À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”…


[1] Proposta da minha candidatura: http://tempodeavancar.net/?page_id=8535       
[2] In: www.canalaberto.pt        
[4] In “A ideologia  Alemã” (1846), MARX, Karl & ENGELS, Friedrich, (1976: 55 e 56)
[5] Referência ao poema de Álvaro de Campos (1926), com o mesmo nome


03 maio 2015

O QUE MAIS IMPORTA

A glória em vida é algo problemático:
é aconselhável não se deixar deslumbrar por ela, muito menos estimular
Thomas Mann


Não estou aqui para vos entreter”, dizia esta semana aos jornalistas o senador independente do Vermont, Bernie Sanders, ao oficializar a sua candidatura à Presidência dos Estados Unidos. Com tal afirmação, pretenderia de certa forma chamar a atenção para o facto de os jornalistas tratarem os políticos como estrelas do mundo do espectáculo. Sanders parece ser uma figura diferente no panorama mais que cinzento das eleições americanas, mesmo sabendo que essa diferença será sempre cilindrada em favor do gosto local pelo estilo precisamente espectacular contra o qual Sanders falava.
Para entreter alguns espíritos de fino recorte, no panorama nacional, sem com isto lhe querer atribuir mérito especial no que escreve, temos o senhor Vasco Pulido Valente (VPV). Há quem defenda que VPV tem a língua afiada das figuras da I República e que utiliza o argumentário conhecido por “pessimista” para mostrar realidades que existem na sua própria cabeça e para escorrer teses e cenários que acolhem algumas cabeças pensantes, daquelas que não querem e se calhar não podem fazer melhor. Com todo o respeito, considero que VPV não passa de um sujeito mal-educado, uma figura triste do conservadorismo lusitano que tanto procura glorificar, nas suas crónicas azedas e algumas vezes eivadas de uma confrangedora falta de nível. Arrevesado. Parecendo propositadamente intolerante para esquerda e direita, a sua prosa acaba sempre por condescender para o lado dos que detêm o poder que, como se sabe, são quase sempre os mesmos.
Nos últimos tempos, VPV tem destilado um ódio mesquinho sobre a candidatura de Sampaio da Nóvoa. VPV considera a candidatura de Nóvoa fruto de um “tacticismo perceptível”. Claro que quem “percebe” é ele, o centro de toda a discussão. Que, como evidente se torna, nunca se fará sem ele e a sua inspiração, que apetecia classificar de divina, não fora a coisa um pouco obscena. De tão obstinado na sua “perseguição” a Nóvoa, “o total vazio”, o “homem que ninguém conhece”, VPV nem equaciona a possibilidade de estar a promover o candidato que abjecta. Dirige-se ao “povo miserável”, assim mesmo, sem qualquer sombra de respeito, do alto da sua mais que ridícula sobranceria. A sua última obra, simbolicamente editada a 1 de Maio 2015, dá pelo nome de “Degradação”. Singular? De todo, apenas uma auto-afirmação de deslumbramento do que pensa que é e de como vê a “canalha” que o rodeia.
Claro que Nóvoa também não está aqui para nos entreter, aproximando-se assim de Sanders, ainda que sem qualquer desejo expresso. Mas não deixa de ser de ser, no mínimo curioso, que algumas das teses do americano, nomeadamente o combate às desigualdades e a interferência do poder económico na política, sejam seguramente preocupações de Nóvoa.
Para quê perder mais tempo com VPV? Bem mais interessantes parecem ser a figura e as propostas de Nóvoa. No plano prático, mas também no simbólico. A referência a “palavra” e às “palavras” indiciam uma linguagem avessa a confusões, eivada de evidente vontade de mudança. Na realidade, o País mergulhou na discurso eminentemente “consensual”, com pensamentos primários e atafulhados de coisa nenhuma, de que é exemplo evidente a sentença espúria, “é preciso colocar os interesses nacionais acima dos interesses partidários”. Homem de palavra, mas também homem da palavra, Nóvoa procura um estilo e parece reeditar Flaubert, quando este o classificava como algo, “…que está sob as palavras como dentro delas, sendo igualmente a alma e a carne de uma obra.”

Podemos porventura pensar que o tempo muda tudo. Parece bem mais importante fazer alguma coisa para mudar algo. A proposta de Nóvoa parece ir por aí, vale a pena apostar…

24 abril 2015


Não bastam as palavras cândidas da deputada Inês Medeiros a descansar quem outra coisa possa pensar sobre a medida tomada ontem e divulgada hoje, pelo arco do poder que domina o País há 40 anos. Na data simbólica em que celebramos o 25 de Abril, eis uma reedição do 24 de Abril. Nem mais. Exame prévio é a realidade que conjecturaram para as condições especiais a observar para a cobertura da próxima campanha eleitoral. Que a direita aproveite este dia (o 24) para se reafirmar perante um eleitorado que ainda sonha porventura com um salazar em cada esquina, nada a estranhar. Que o Partido Socialista venha renegar mais uma vez os conceitos e princípios que levaram a sua constituição, já soa esquisito para um eleitorado que ainda acredita numa alternativa, ou seja que ele possa ser uma alternativa à direita. Que o cravo seja sempre vermelho e não se transforme na rosa que vai continuamente murchando, dia a dia, hora a hora, uma mutação completa, uma máscara assustadora, que veste pele de cordeiro e até parece ser simpático, falando para as pessoas, a cidadania no discurso pretensamente diverso de uma direita conservadora, castradora e socialmente devastadora.
Há agora, ou sempre houve mais ou menos disfarçado, um machado que quer mesmo cortar a raiz ao pensamento. E porque este é livre como o vento, “…não há morte para o vento, não há morte”, assim o diz o Poeta, “…Nada apaga a luz que vive num amor num pensamento”.
Quis saber quem sou, o que faço aqui…”, penso e canto baixinho a canção que anunciava a alvorada há 41 anos. A revolta de um povo, de um País amordaçado. E revoltado fico, sem encontrar resposta que não seja a permanente inquietação que o Moustaki tão bem relatava, mesmo sem lhe dizer o nome, mas que só podia ser um: Revolução.

O estado de indefinição constante do partido que quer o Poder, para manter as coisas mais ou memos na mesma, deveria merecer melhor atenção. Pelo menos aqueles que nele acreditam ainda, mas que pensam o mesmo que nós, que partilham em sucessivas eleições o mesmo desejo de mudança, um futuro diferente para o País que é o seu, que é o nosso. É mesmo triste que, não sendo capaz de proclamar, nem muito menos promover, a necessária ruptura, se veja constantemente a navegar nas águas turvas da consensualidade forçada, perigosa e enganadora. Não é austeridade, mas austeridadezinha, não é corte de salários, mas somente um pequeno congelamento, não é aumento da dívida, apenas uma ligeira adapatação, não há corte nas pensões, mas apenas pensões congeladas. Não são palavras duras para as pessoas, apenas um discurso mole, outrora devastador, agora muito mais simpático, com um rosto sorridente e pretensamente terno e enlevante.
Mas, de um momento para o outro, surge um ultra rápido consenso que mais parece uma medida de Marcelo Caetano. Uma tremenda provocação aos ideais da Liberdade consagrados pelo 25 de Abril. É com imensa tristeza lembrar desta forma o dia em que nos livramos da opressão. O centrão partidário mostra mais uma vez a sua verdadeira face, um acumular constante de submissão aos asfixiantes aparelhos que suportam, reféns dos grandes interesses e que alimentam personagens de baixo recorte, feitos à medida, uma tremenda mentira ao povo que os elege.

Quando mais logo, pela noite dentro, cantarmos “… o Povo é quem mais ordena, dentro de ti, oh cidade!”, sentiremos decerto um grande aperto na garganta, uma imensa mágoa. Que ao menos, ela se transforme em raiva e fúria e nos leve a agir. Em nome da Liberdade, da Democracia verdadeira, da Cidadania, do nosso 25 de Abril!

 

17 abril 2015




Seria a 28 de Maio de 1969 que a Academia de Coimbra decidia em Assembleia Magna a Greve aos Exames. Seriam mais de 5000 estudantes a votar favoravelmente a proposta da Direcção da Associação Académica de Coimbra. Os acontecimentos seriam precipitados, dia após dia, num frémito constante, num desafio a Salazar e ao poder de uma ditadura castradora e anquilosante. Dizer quando tudo começou seria eventualmente um exercício possível, historiando factos e acontecimentos que o ano de 69 deu à política portuguesa. Mas para muitos, como eu, significou a entrada na Universidade, na cidade onde tudo aconteceu, numa dimensão épica. Costumávamos dizer que só nesse ano viríamos a descobrir que havia ocorrido o Maio de 68 em França. Sim, exactamente 1 anos depois, tal era o nível de conhecimento das coisas naquela época.

Poderíamos então recorrer ao 17 de Abril. Já lá vão 46 anos e havermos de o recordar como se fosse hoje. A mobilização da malta para o edifício das Matemáticas seria trabalho de muitos dias e muitas noites. Sabíamos que viriam os odiosos Hermano Saraiva e Américo Tomás. Um como o outro representavam o pior de um regime caduco e podre. O primeiro, à época Ministro da Educação, era pela Academia chamado “Hermano I, o Firme”, título que obteve de uma famosa intervenção na Televisão, onde declarava “firmeza”, perante a luta estudantil. Seria uma manhã fantástica, com a imensa turbe a dirigir-se para as Matemáticas, mesmo ao cimo da escadaria monumental, um símbolo da Universidade. Tanta gente, tanto empenho, tanta e tamanha luta, um desafio à temível polícia e um regime que agonizava e ao qual demos um valente pontapé. A chegada da comitiva, primeiro em silêncio, depois na tremenda pedrada no charco, quando o Celso Cruzeiro incentiva a nossa entrada no edifício das Matemáticas. Depois lá dentro, os discursos pífios de sempre, a tremenda provocação de ver um estudante levantar-se e muito respeitosamente pedir para falar. Era o Alberto Martins, o nosso líder, o Presidente da Associação Académica, a cara de parvo do Tomás a dizer, “Bem, mas agora vai falar o senhor Ministro das Obras Públicas”. E, quando nos preparávamos para a provocação seguinte, eis que toda a mesa se precipita para a porta, sem qualquer explicação, fugindo dos estudantes, naquela que seria a suprema humilhação do regime. Lembro bem o sítio onde estava, ao pé da porta, eles passaram bem ao lado, uma revolta imensa que não tem descrição em palavras.
Deixamos sair a fantochada de governantes, pides e congéneres. Reentramos na Sala 17 de Abril e aí “inauguramos” o novo edifício. O dia continuaria depois nos jardins da Associação Académica, com intervenções, convívio, um mar de gente, uma imensa onda de solidariedade e ao mesmo tempo de revolta contra a situação.

Bertolt Brecht dizia “Apenas quando apreendemos a realidade é que seremos capazes de a mudar”. Naquele dia percebemos muita coisa. Hoje, 46 anos depois compreendemos o quanto falta mudar…

15 março 2015

O DIA DO PI

 
 
 
 
 
 
 
 
Torta feita pela Universidade Técnica de Delft no 'Dia do Pi'
(Foto: Wikimedia Commons)
A “irracionalidade” do valor da coisa (o ) contrasta com a putativa racionalidade de quem a usa. Seja no cálculo, seja na vida, qualquer número com 52 casas decimais é levado da breca para fixar. A parte aparentemente mais simples será porventura aquela que revela o conceito de aproximações sucessivas, ou se quiserem, séries infinitas de somas, multiplicações e divisões. Uma transcendência, dirão alguns, uma grande maçada, opinarão outros. Para uns e para outros, quer a Matemática ser a razão suprema de todas as coisas e, de uma certa forma, a razão de nos reconciliarmos com a existência, na medida em que entendemos as suas racionalidades. A espantosa ciência, de que muitos são afastados por uma incongruência, ou uma vez mais, irracionalidade desta feita sem comas, é a prova de que a mente humana é suficientemente capaz de interpretar a forma, a beleza e a cor. Para elas, a Matemática tem algumas interessantes respostas. Claro que um polígono será sempre um polígono e foi provavelmente socorrendo-se nisso, que Arquimedes formulou a representação matemática para o cálculo de , o que é designado agora como o método clássico para o respectivo cálculo.
Ao falarmos destas matemáticas curiosidades, lembramos um outro do mesmo nome, a que o realizador Ang Lee deu vida, no filme “A Vida de Pi”, um romance de Yann Martel.  Aqui já o nome se escreve com o alfabeto clássico, passando “Pi” a ser racional, ao contrário do outro, ao qual a Matemática chama “irracional”.

Assim são as vidas em universos distintos, aos quais a realidade que conhecemos assaca um valor determinado. Que, mesmo que não seja possível determinar, ao arrepio de uma quantas casas decimais, a vida atribui um valor certo. Parece contraditório, mas não o é, na exacta medida de que a relatividade das coisas lhe dá o peso que não parece ter. O pi matemático continuará a ser o que sempre foi. O pi da obra passará umas dezenas de dias no mar, num barco com um tigre de Bengala e após isso, na exacta dimensão do tempo que conhecemos, terá direito a umas dezenas de anos de vida, sem qualquer casa decimal a incomodá-lo.
Em vez de serdes só livres, esforçai-vos/Por criar uma situação que a todos liberte…”, opinava Bertolt Brecht. Libertar e mudar. Libertar, abrindo a mente para o que surgir como novo e analisar. Mudar, para que o sentido das coisas seja um desafio, dia após dia. Não vale a pena contrariar a Matemática. Mas vale decerto tentar libertar o que temos na mente, para mudar o rumo do barco, com ou sem um tigre lá dentro…

27 fevereiro 2015


O ano da Cabra, o Raio que o Parta…

 

O tempo das verdades plurais acabou.
Agora vivemos no tempo da mentira universal.
Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias.”
 José Saramago

Tabu, Lisboa, nº 84, Abril 2008
In José Saramago nas Suas Palavras


No ano chinês é a Cabra que manda. Aqui há uns anos atrás havia um Zé com o nome do bicho[1], lançado e apoiado por alguns free-lancers. Dizia ele que “…deixava tudo por ela”, num estertor de desritmo, a que alguns achavam piada. Mal sabiam que haveria de chegar uma altura em que se deixa tudo, por alguém ou por alguma coisa. Não dá para perceber a lógica de quem se quer estar contra e, num momento de fraqueza acaba por confessar, ainda que com elevado sentido de Estado, a favor. Dando até de barato que o termo “diferente” pode ser entendido para os dois lados, cujos parecem agora convergir para gáudio dos que acham que está tudo bem. “Chinesices”, diz o homem que ora bate com a porta, mesmo que a dita pareça estar trancada pelos cornos do bicho. Vêm então de tão longe os cidadãos que prestaram um serviço inefável a um país comprando, ainda que o preço de saldo, as principais empresas estratégicas, que ora irão florescer com uma bandeira vermelha, a qual ainda, bem desfraldada, causa algum arrepio.  

Vêm eles assim jantar num casino, onde um senhor lhes diz que o País está numa situação “…bastante diferente daquela em que estava há quatro anos”. O PM deste País que é nosso? O PR, prestimoso distraído que ainda se passeia nos jardins de Belém? Nada disso, apenas o putativo “líder da oposição” a ambos. Por isso Barroso, sem qualquer cerimónia, o manda “…para o raio que o parta, mais a canalha de direita que tomou conta do PS”. Se não fosse mesmo verdade, dava para pensar que se poderia estar perante um qualquer mal-entendido, desses em que o designado “arco do poder” é fértil e onde tudo e seu contrário acontecem, consoante vira o vento e muda a sorte. Ouvimos e portanto acreditamos que é possível a coexistência, declarada antes impossível, mas sempre possível neste universo da Cabra, que ora reina, para bendita ou desdita ventura. Todo é possível. E o seu contrário também. Esclarecidos estamos, oh brandos costumes que ditam a moderação de que tanto gostam.

Como nós dizemos em Portugal, os amigos são para as ocasiões…”, sentenciou Costa, aludindo a uma asserção popular. Continuando o seu raciocínio veio depois a proferir a tal chinesice que motiva crónicas como esta. Poderá a espuma dos dias varrer a sentença, para que tudo volta à calmaria de que aquela minoria que ocupa uns míseros metros quadrados entre o Terreiro do Paço e Belém gosta?  Ao proferir palavras de consideração e reconhecimento, Costa poderia estar a pensar “…Só amando os homens, as acções, a banalidade dos trabalhos/Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver...”[2]. A(s) resposta(s) estará(ão) eventualmente na Passagem Das Horas, dos dias, dos meses que ainda faltam para se submeter ao exame final, que em Setembro notará o melhor para “governar”. E se o Álvaro de Campos simpatizava “…com alguns homens pelas suas qualidades de carácter[3] e com outros “…pela sua falta dessas qualidades[4], Costa parece simpatizar com todos ao mesmo tempo, arrumando de vez as contradições antagónicas da retórica conhecida.

Difícil se calcula a resposta a quem o manda ao “…raio que o parta”. Barroso estaria provavelmente a pensar em Orwell, quando afirmava “Num tempo de engano universal, dizer a verdade é um acto revolucionário”. Nem toda a diplomacia do mundo, em que os mestres do centrão são exímios, conseguirá passar uma esponja ao que se passou na Póvoa do Varzim. O Ano da Cabra está aí, quem vier atrás que feche a porta…



[1] Referência ao “cantor” Zé Cabra, popular entre 2006 e 2010
[2] Extraído de “A Passagem Das Horas”, Álvaro de Campos, 1916
[3] Idem, ibidem
[4] Idem, ibidem

30 dezembro 2014


DANÇA 2014!

 

Hinos aos deuses, não.
Os homens é que merecem …
Apenas se os deuses querem
Ser homens, nós os cantemos.
E à soga do mesmo carro,
Com os aguilhões que nos ferem,
Nós também lhes demonstremos
Que são mortais e de barro
.”

“Cântico de Humanidade”, Miguel Torga, in 'Nihil Sibi', 1948





 Há quem tenha medo que o País pense”, uma frase que marca o ano que encerra. Quando os bolseiros do Ensino Superior em Portugal vieram para a rua mostrar a sua indignação perante as politicas aviltantes do Ministério da Educação, face a intenção declarada e assumida de eliminar 50% das unidades de investigação. Se isto não diz tudo sobre a governação do País, aí está, mesmo no final do ano, o anunciado corte de 100 milhões de euros na área social. Um ano (mais um…) de miséria completa, não só literalmente para a maior parte da população, mas também no domínio do simbólico, por representar a falência completa de uma política fundamentalista, dirigida contra os trabalhadores e destinada a transferir destes para o capital, mais rendas, mais proveitos e benefícios. Acordar todos os dias, durante um ano inteiro, com dois tipos de pesadelo, o de ir conhecendo mais cortes e menos direitos, por um lado e, por outro lado, a desdita de ouvir o primeiro-ministro nos órgãos de comunicação social a falar todos os dias, pronunciando-se sobre tudo e mais alguma coisa, no que constitui a mais escandalosa infâmia dos últimos tempos. Os mesmos tempos onde alguém se dá ao luxo de escrever “O poder negocial dos trabalhadores portugueses é demasiado elevado e prejudica os lucros das empresa…”, aconteceu no mês de Dezembro, num estudo de dois economistas do Banco Central Europeu (BCE), intitulado "Concorrência na economia portuguesa: estimativas para as margens de preço-custo em mercados de trabalho imperfeitos". Aqui está uma redundante afirmação que, a acreditar em quem a produz, classifica como “imperfeitos” os mercados de trabalho, muito embora a dita “imperfeição” não lhes seja (mesmo assim) favorável, entendendo-se então que a “perfeição” a atingir signifique no limite, “…a desregulamentação na formação de salários e a contratação colectiva, uma maneira de introduzir mais concorrência entre trabalhadores, em benefício do valor acrescentado das empresas.”, assim mesmo, sem tirar nem pôr.
Apesar de tudo, parece que o País realmente pensa. Não age, mas pensa. E pensa sobretudo no que futuro dos seus filhos e na forma como resolver a questão da crescente diminuição de rendimentos e na progressiva perda de direitos e de soberania. E pensa também, supõe-se, na tremenda injustiça da própria e, assim designada, Justiça. Embora rejubilante, em face da detenção de um ex-PM, tal não dá para que esconda a mais impudorada indecência em que pululam casos extremos e descarados de corrupção e de abuso, aos quais a resposta dada é protelamento, para posterior arquivamento; bem vistas as coisas, o que o País precisava mesmo, nesta altura, era do espectáculo deprimente de um batalhão de jornalistas a porta de uma prisão, enquanto o governo vai promovendo a política de terra queimada, aumentando a dívida externa, vendendo tudo o que mexe a preço de saldo, desacreditando as instituições públicas na Educação, na Saúde e na Segurança Social, promulgando sucessivamente a destruição do País,
Esta “A imagem de um País que mata devagar, por cansaço. Não a imagem de uma ditadura cruel e sanguinária, mas de uma ditadura oculta, em que, quem tem fome tem pudor em falar nisso e, no fim, nem se sabe se sucumbe a falta de alimento, ou ao silêncio a que se auto-impõe”, assustadora imagem de um Autor desconhecido(a) que, aproveita o final de 2014 para expressar publicamente a sua tristeza e revolta por o estado a que isto chegou.
Brindemos qualquer coisa tão simples com a dança. Um Amigo enviou-me a alegoria “Viver é aprender a dançar/com as dificuldades de todos os dias!/Boa Dança para 2015!”. De facto, um gesto higiénico e ao alcance de todos, mesmo daquelas e daqueles que nada têm a esperar da canalha que está aos destinos de um País que merece bem mais e melhor.
Dancemos pois!
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(a) Vasco Gato, “Fera Oculta”, Novembro 2014, Douda Correia Editora
 
 
 
 
 

21 novembro 2014


O ACORDO


De pé, cabeça baixa e orgulho na sua condição, as mulheres e os homens do bloco central haveriam de selar um compromisso. Importa lá que se diga tudo o que de mau nos vier á cabeça, indigno, infame, ilegítimo, irracional, iníquo, incrível, inapropriado, e outros começados ou não no “i” que inicia termos com os quais a gramática nos delicia, em bom português, sem acordo. Olhamos os céus e vemos disto. Parece que todos os dias alguém se quer aproximar, já o homem de Belém os chamaria, nos seus patéticos apelos de consenso. Mal sonharia decerto que nesta pequena ilha se poderiam encontrar e fazer as delícias hipócritas de uma (com)sensualidade inimaginável. Mas aí está, o karma pelos vistos existe e qualquer que seja o desfecho final, este namoro perdido deu o seu primeiro beijo e foi, foi sim, bonito de se ver, todos perfilhados, respondendo a uma chamada previsível, a qual respondem certinhas e certinhos, a espera de mais prebendas uns dos outros, uma das outras. Porque não chega acabar um mandato e aquilatar-se a um cargo numa empresa pública, num escritório de pro-legisladores, num conselho de administração, numa curadoria, numa fundação ou em qualquer posto ou cargo que seja inventado agora mesmo, simplesmente porque tem que ser por alguém preenchido. Não basta. Mas basta sim que, a 1 ano de terminar o seu mandato, o titular esteja a pensar o que vai ser da sua vida, da pobre da família por quem se sacrificou, do País que fez o sacrifício de o aguentar, enfim da condição de servidor de uma pátria que nunca se põe em causa, a não ser que o renegue.
Nada como estar de acordo em qualquer item, restaurando uma aberração política dos anos 80. Afinal os mesmos que a haviam determinado. Para o resto da vida, bastariam uns singelos 8 anos de serviço público, leia-se de deputado, para ter direito a uma subvenção. Uma tremenda agressão a todos quanto sofrem na pele os desmandos permitidos por politicas vergonhosas, no fundo da responsabilidade daquelas e daquelas que ora se arrogam de um direito que pensam universal, quando será no limite uma simples prenda de jogo, muitas vezes, como se sabe, bem sujo. Acordo sem negociação, ao que parece, já que a mesma nem sequer se coloca pelos visto, dada a “clareza” da matéria em questão. Acordo ou acordos que se abjuram quando se fala de temas em que deveriam acordar. Mas acordados estão para este, uma vez que os outros estão na linha do caça-votos, ora governas tu, ora governo eu, com algumas ligeiras diferenças de metodologia ou de cronograma, que no essencial a coisa vai dar ao mesmo, para que tudo fique na mesma é preciso mudar qualquer coisa.

Conjectura-se que hipoteticamente poderá esta medida desencadear uma onda populista, seja o que isso for, uma vez que ainda ninguém conseguiu definir muito bem a coisa. Ser populista é, para os comentadores do regime, tudo o que lhes foge da alçada, tudo a que seu pensamento restrito produz e decreta. É no fundo uma filosofia que o Guerra Junqueiro classificava como a “filosofia do porco: devorar[1]. “Um regímen corrupto só na corrupção subsiste. Mantém-se na corrupção como alguns bacilos na porcaria…Regímen sinistro, a tua sombra esterilizou o nosso campo. Quebrar-te um ramo ou espezinhar-te um fruto, para quê? Deitarás mais ramos, deitarás mais frutos…[2]. Falar assim, nos tempos de lume brando em que nos querem queimar, é provavelmente populismo. Mas contudo é demasiado real, embora raramente objecto de abordagem. Lemos os clássicos e encontramos por vezes respostas que encaixam, por isso é que são clássicos, porque “…constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições de apreciá-los[3].
Clássica é finalmente a atitude dos dois partidos centrões. Uma atitude que entronca no permanente assalto do aparelho de estado e na perpetuação de influências e congruências, que têm um denominador comum na dominação e na burocracia, que usam em seu benefício, com as leis que continuamente fabricam.

Continuando a seguir o Guerra Junqueiro, sobre o regímen que ele acusava, “…o que é preciso, árvore tenebrosa, é arrancar-te pela raiz e fazer contigo uma fogueira. Depois arearemos o campo, semearemos o trigo…”[4].


[1] Extracto de “O Regímen”, Manifesto escrito em 1899, e divulgado e distribuído a 25 de Novembro desse ano, por ocasião das eleições de deputados do dia seguinte. Foi publicado no dia 26 de Novembro, na 1ª página do Jornal  Voz Pública. O Manifesto está transcrito na íntegra, na obra “Horas de Combate”, de Guerra Junqueiro, edição da Lello & Irmãos, 1978
[2] Idem, ibidem
[3] Extracto da obra “Porquê Ler os Clássicos?”, Italo Calvino, edição Teorema, 1994, cap.1
[4] Idem, 1 e 2.