rio torto

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05 março 2017

PEQUENOS DRAMAS DE UM PAÍS QUE NÃO ESTÁ À BEIRA-MAR PLANTADO, MAS QUE TEM UM CLUBE QUE CHAMA BEIRA MAR


Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara
Do Livro dos Conselhos, citado José Saramago, em “Ensaio Sobre A Cegueira”, 1995 

Pode nada ter a ver com o assunto. O certo e é verdade, o Beira-Mar existe e o País já foi (há muito tempo) plantado, não há razão para voltar a ser. Plantadas foram (umas há muito tempo, outras nem tanto) algumas espécies que entretanto floresceram numa época para esquecer, vingaram, ficaram na sombra (porque ao Sol deterioravam), encheram-se de brios e vá de atacar a perigosíssima invasão dos alienígenas vermelhos, ou mais ou menos disfarçados, não tementes a Deus e à virgem Maria, que apareceu em Fátima e agora não aparece mais porque (há muito tempo) não há vagas nos hotéis da vila. Algumas e alguns, até têm uma certa piada, há quem ainda se ria, porque afinal é uma boa receita e não precisa ser aviada na botica. Me perdoem os crentes, não é meu propósito atacar, nem a crença em si (uma vez que em mim não pega…), nem a pessoa em particular que crê, no sentido em que o Beira-Mar existe e o resto não se sabe bem. Pululam alegremente pelos sítios bem frequentados e pelas redacções, não aquelas que as meninas e os meninos faziam dantes, mas umas outras que são ocupados por meninas e meninos pagas e pagos abaixo da média e que estão de facto abaixo da média (bastante abaixo…) num outro sentido. Descansem que são poupados todos aqueles que nada fazem por mudar, porque dá muito trabalho mexer neles (porque simplesmente já nem se mexem). Mudar de vida é uma coisa complicada, embora valha a pena seguir o António, que assim canta (cantava aliás…), “Muda de vida/se tu não vives satisfeito/Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
1. TEODORA, VAI-TE EMBORA!
Para que serve uma Teodora, quando a casa vai para fora? Oh Teodora, olha que é verdade, já querem importar a nossa solução. Só que tu Teodora, não és solução, és um problema. Acordaste agora Teodora, com medo dos socialistas, que não passam de comunistas travestidos e de brinco na orelha.
(Ai, o meu tempo, os santinhos, o doutor caetano, o doutor Salazar, era outra coisa, havia respeito…)
Teodora, até o Presidente de Direita goza contigo.
A ascensão do sonoro (início dos anos 30) trouxe o Teodoro (…não vás ao sonoro), parodiando a ascensão do cinema com som.
A ascensão da Esquerda, trouxe a Teodora. Agora como antes, a paródia. Só que agora, apetece fazer de novo o apelo, que poderia ser:
Teodora, não fiques cá, vai-te embora!
2. NÚNCIO, ÉS CAVALEIRO OU APOSTÓLICO?
Oh homem, após estudar com algum detalhe a tua história e o teu “apego” à causa pública, fico estarrecido e nem sei que diga.
Mas digo.
Digo então que a lata é maior que a linha. Vais ter que fazer melhor, porque toda a gente ficou a perceber que estiveste pura e simplesmente nas tintas para a populaça. E nem sequer te safas com a demissão dos altos cargos no partido, o tal que quer (ou queria, já nem sei bem) ser dos contribuintes. Aqueles (contribuintes) para quem te estiveste nas tintas durante o teu mandato.
E vem agora, (cuidado!) o ex-director-geral da Autoridade tal e coisa, afirmar ter solicitado por duas vezes, autorização para publicar dados referentes às transferências de dinheiro para paraísos fiscais, mas que em nenhum dos casos viu os seus pedidos deferidos.
Da história reza a ilustre família das tauromaquias, a nobre arte dos cavaleiros lusitanos, agora caída em desgraça (digo eu). Ou a história do apostólico dito, coisa que não domino suficientemente bem, para aqui abordar com clareza, mas que li na Wikipedia que é uma coisa que “…que goza dos mesmos privilégios e imunidades que uma embaixada”.
Isto é muito sério.
3. CRISTA TEM CRISTA OU É SACRISTA?
De ti me lembro muitas vezes a propósito do decreto sobre o número de gatos ou cães preconizados em diploma governamental. Ou de com o pedias chuva ao reino dos céus, oh gente de fé.
Se calhar não estavas à espera disto.
Diz o significado, que “Sacrista” é aquela ou aquele que é “…responsável pela limpeza, organização ou guarda de uma igreja ou da sacristia”. E diz também, em sentido figurado que pode ser uma “pessoa que finge ser beata, mas não é”. E diz outras coisas que aqui não são citadas, por mero decoro.
Oh Cristas, andas mesmo a limpar a “sacristia”? O Portas deixou-te um lindo serviço.
Desconheço, e não estou nada interessado, na tua beatitude, ou se é sincera ou não. Tanto me faz. Apenas sei que, de cada vez que levantas a crista, a coisa dá para o torto.
Vê se metes na linha o Motoreta Soares, que aquilo que ele anda a dizer sobre ordenados altos nas empresas públicas, dá mesmo (vindo de quem vem) vómitos.
.   4. RANGEL É UM TIGRE DE PAPEL
Não é para forçar uma singela rima, mas ninguém dá crédito aquela figura que, faz agora a campanha maior pelo descrédito do Governo e das Esquerdas.
Sempre que estala uma notícia, aí está o homem, de pena em punho ou de viva voz, uma vez que consegue estar em tudo quanto é sitio e sirva para a má-língua política.
Tu que fazes parte da caterva mais fanática de que há memória, oh Rangel, queres levar para a Europa o que de pior em Portugal? Não tens vergonha de “proteger” o comissário Oettinger, xenófobo, nazi declarado e amigo de corruptos e autoritários? Pelos visto só te interessa a demissão do Centeno.
Oh Rangel, não passas de um tigre de papel, uma marioneta nas mãos da turba que rapidamente, quando for o tempo, alegremente te “dispensará”.
5. O GOMES FERREIRA É LIXO OU POLÍTICA TRAULITEIRA?
Bem, as duas coisas, se não se importam. Este indivíduo cumpre o papel do velhaco que não se conforma com a realidade. E está sempre do mesmo lado da luta, que para ele é cobrar ao patrão a factura que outros não podem cobrar.
Oh Ferreira, mas que grande bandalheira. Então vais dizer que a emissão de dívida subordinada se destinava a “enganar velhinhas”, porquê meu deus, isso é coisa que se diga em público, e ainda por cima alcovitado que estavas por aqueles dois acólitos?
Tu devias era ser director do Povo Livre, ou lá como se chama aquilo…
Mas tu lá vais levando a água ao teu moinho, ou seja ao moinho da São Caetano, eles precisam já que metem água todos os dias e aquilo às tantas vai mesmo afundar-se.
És o verdadeiro tipo às direitas, agora rebaptizado de “tipo das Direitas”.
Deixa que a gente percebe-te e compreende-te.
Oh Ferreira, em quanto é que está a tua cláusula de rescisão?
6. O BRAGA FADISTA DE OUTROS TEMPOS
No fado se firmou a partir de um tempo que era outro quando ele era o mesmo. Confuso? Talvez sim ou talvez não, para mal dos nossos pecados. Sim porque somos todas e todos uns grandes pecadores que, a seu devido tempo, irão prestar contas à senhora do Sameiro. Ele que é Braga de nome, o sabe melhor que todas e todos nós. Pretos e gays misturados ou sozinhos invadiram o teu espaço puritano, oh Braga! E ainda por cima cheios de Óscares, quando deviam eram estar a levar porrada, em qualquer cela, que melhor não merecem. Andam tranquilos por tudo quanto é sítio, ofendendo os brandos costumes dos portugueses de bigode farfalhudo que vão às touradas e batem na mulher, mesmo que só de vez em quando.
Oh Braga, foste longe demais, mas preservas de facto bem viva a verdadeira e pura missão da raça, fado maior (ou menor não sei bem) lusitano, pátria minha (quero dizer, tua) bem-amada, com licença, amém.

Assim se inscrevem na história 6 portugueses de quem nos devemos orgulhar. De gerações diversas, afinal manifestam uma constância de cariz conservador, que sinceramente lhes assenta muito bem. Cada uma e cada um, na sua esfera de influência, nos faz diariamente rir. E isso, não é mau. Pode não ser muito bom para a sua causa (a deles, claro), mas ficam bem. É quase como gostarmos muito do treinador da equipa adversária, porque está fazer um péssimo trabalho e nós gostamos disso, porque é bom para a nossa equipa.
Assinale-se para finalizar que o autor da figura do “beira mar plantado” era um romântico dos finais do século IXX, um ilustre conservador que, ao seu tempo, clamava contra a falta de respeito dos jovens para com as cãs e glórias proclamadas e reconhecida.
Estas e estes estão a repescar o Tomás Ribeiro, viva a Nação!
E, caso não sejam de Aveiro, esqueçam o Beira-Mar.

19 fevereiro 2017

O QUE É UM JALALI (?)

Não, não é engano. Não é “javali”, não é “vou já ali”. Nada disso.
Explico que se trata de uma espécie em vias de ascensão, ou mesmo já devidamente ascensionada.
Porque alguém assim quis, o jalali[1] aproveitou o ensejo e, cheio de ciência empacotada da politiquice, traçou um percurso académico porventura eivado do sucesso fátuo da oportunidade, surge no espaço hertziano, fala suave, diz pouco ou quase nada, como acontece com quase todos os primatas que habitam o tal espaço, agora privado e suportado por grandes e poderosos donos do capital e da capital e arredores.
O jalali vomita lugares-comuns povoados de coisa nenhuma e dita, não do alto da cátedra, mas do lado de lá do microfone, uma verborreia pastosa, onde a mediocridade é um epíteto suave para classificar a mesquinhez mais tacanha.
(Isto é o jalali)
É ouvi-lo na electromagnética frequência, convidado de “fóruns” que são assim uma coisa mal parida, onde se decreta que “…a voz é dos ouvintes”, mas que é sempre antecedida de um monólogo de uns “escassos” 15 a 20 minutos de um “especialista”. Para “animar”, dizem eles, a “discussão”.
E aqui reina um qualquer jalali.
Fala num tom monocórdico, um discurso paternalista e padrético, uma cândida voz, segura na sua visão cinzenta do mundo, projectada no fundo da caverna, que Platão ilustra[2], quando fala das sombras que parecem mais verdadeiras do que os objectos. Que acontecerá ao jalali, quando o tirarem da caverna do estúdio?
Entretanto vai vomitando insignificâncias, com a tranquilidade olímpica de quem tem audiência garantida, a troco de alguns patacos, que usa para polir a mais rasteira e bafienta postura.
Numa manhã perto de si, o jalali aparece sempre protegido debaixo da capa de “politólogo”, a tal espécie recentemente inventada e que serve fundamentalmente para classificar incertos e indeterminados indivíduos que interpretam uma realidade que arquitectaram para si próprios. Em pleno século XXI, um politólogo, vale muito mais que um astrólogo, que um psicólogo, ou até mesmo que um metodólogo.
O jalali articula o conhecimento ao nível do pequeno burguês, sentado no barbeiro (agora diz-se cabeleireiro), enfarinhado na “Maria” ou na “Nova Gente” (não sei se agora se chamam assim…).
O jalali fala do “papão” do populismo como a beata fala do inferno. Sem qualquer base de sustentação que não seja a sórdida posição redonda do “moderno” sistema de análise que simplisticamente caracteriza as mentes balofas de uma Direita anquilosada, o jalali deriva para cima e para baixo e ainda para o lado (direito, claro) no que é de facto o populista. Curioso, ou nem por isso?
Entretanto, as mentes menos sadias e mais dadas à magia efémera das novas tecnologias ditas libertadoras, efabulam um jalali e exultam com as suas derivas. Crescem em número, que não em qualidade, postulam verdades mentirosas e compram (e vendem) a não-ideologia.
Talvez não lhes fizesse mal nenhum ler alguns livros, sobretudo daqueles que houvessem constituído “…uma riqueza para quem os tenha lido e amado[3]. Todavia não parece ser essa a vocação dessa espécie.
Pior para os seus representantes.
Atenção para nós que a repugnamos e à qual não queremos pertencer.

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NOTA: Este texto é especialmente dedicado ao meu Amigo Licínio Lima, que dedica sempre alguma atenção a ler as minhas crónicas, “perdendo” eventualmente tempo que poderia ocupar em tarefas bem mais profícuas (digo eu…)





[1] Uma personagem inspirada no senhor Varqa Carlos Jalali, Professor Auxiliar da Universidade de Aveiro, Diretor do Programa Doutoral em Ciência Politica (UA-UBI), Diretor do Mestrado em Ciência Política e Coordenador do grupo de investigação em Políticas Públicas Instituições Inovação (PI2) do GOVCOPP (fonte Universidade de Aveiro, in: https://www.ua.pt/dcspt/person/cjalali  

[2] Referência à obra “A República, Livro VII”, de Platão (século IV A.C), considerado um dos suportes básicos sobre Teoria do Conhecimento
[3]  Referência à obra “Porquê ler os Clássicos?”, de Italo Calvino, (1991), 4-5

13 fevereiro 2017

A RÁDIO É VOCÊ!



Foi assim mesmo que em 2011, o 13 de Fevereiro foi proclamado pela UNESCO, o Dia Mundial da Rádio.
É dentro da rádio, uma vez que estamos dentro dela ou está vem ao nosso encontro, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, sempre que a deixamos entrar. “A rádio vê no escuro” diz o meu Amigo Fernando Alves, ele que é (para mim) uma voz e uma presença inesquecível e que semeia diariamente o desassossego nas manhas da rádio. Apetece diz, pois vê!
A rádio está onde deveria estar ou apenas está porque quer estar? 
A rádio é também, muitas vezes, uma cúmplice do pensamento dominante. Quantas vezes aconteceu, outras vezes (lá está uma vez mais o escuro) a ouvimos no silêncio das noites do medo, confortando a esperança e atiçando a revolta.

Quero pensar no que a rádio contribui para a minha (e para a de muitos) formação integral. Nos tempos da escuridão (lá está, o escuro) a rádio era “Em Órbita”, era “Página 1”, era “Limite”, era tantas coisas que nos sussurrava e assim ia plantando em nós o vício da contestação, do contraditório que não havia, e sim, da revolta contínua. Porque havia rádio, aquela coisa que se ouve alto e baixinho, consoante nos dá gozo ou nos é permitido.
A rádio que diz, na madrugada gloriosa, “Aqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas…”, é o Furtado, sim. É Abril, é a Liberdade, pois então. A rádio é o direito das pessoas à informação, um direito que deve ser protegido e acarinhado. E estudado também.
A rádio salva vidas. E pode também promover e capacitar as pessoas mais vulneráveis e mais sujeitas a desvarios de poderes, mesmo de alguns, supostamente democráticos. 
A rádio és tu! 
Sabe-se lá como, mas tu estás lá, agora em tempos de meia-verdade ou mesmo de “falsa verdade”. Porque és uma peça do enorme círculo, onde campeia muitas vezes o silêncio ajustado de uma TINA qualquer. 

As rádios são casas onde as palavras ganham asas…”, uma vez mais me socorro do Fernando, porque é mesmo assim, porque é língua e movimento. 
E sonho, também.

28 novembro 2016

DECLARAÇÃO (28 Novembro 2016)

Declaro por este meio que nasci há 7 horas atrás.
Nestas horas de vida, já aconteceu muita coisa, nomeadamente muitas chamadas telefónicas, muitos emails, muitos posts facebook, coisas que percebo agora são essenciais a sobrevivência da espécie. Lá fora está um bonito sol de inverno que nos dá calor e alimenta animais e plantas. Assim mesmo parece que há quem prefira viver na sombra. De outros, claro. Da janela aprecio a vida, nas suas formas mais estimulantes. Efectivamente, “Adoro o campo, as arvores e as flores, jarros e perpétuos amores[1] e já aprendi, como diz a canção, a moralizar. Conheço outras canções, que me transportam para um mundo diferente, que entretanto devo vir a conhecer também. Quero, por exemplo, “…The delight alone or in the rush of the streets, or along the fields and hill-sides/The feeling of health, the full-noon trill, the song of me rising from bed and meeting the sun.”[2]

Declaro ainda que já nasci outras vezes.
De umas vezes gostei, de outras talvez nem tanto. Existi por aí, corri montes e vales a procura de coisas diferentes, algumas encontradas, outras nem por isso, a busca continua, de vida em vida renovada, renascida.
Aprendi.
Em outras vidas percorri e corri e terras e lugares que conservo na memória. E onde volto sempre que tenho tempo, que dizem que é sempre curto. Ou breve. Em breves momentos percebi que outras gentes, outras sensibilidades e outras vivências são demasiado importantes, para que as esqueçamos. Fazem parte de nós, mexem connosco, arrepiam-nos às vezes. Aquecem-nos no frio e confortam-nos a noite para não ficarmos sozinhos. Dão-nos o alento que precisamos para continuar a nascer. Fazem parte dos nossos dias, falam connosco, brigam também, riem e choram ao nosso lado, crescem connosco. Nascem de novo também.

Declaro finalmente estar pronto a assumir todos os compromissos que esta declaração acarreta, ou seja, nenhum.
Declaro que nasci para ser livre e selvagem, no sentido poético do termo. Tal e qual, como na canção. Vim de uma terra provavelmente assombrada e “…do ventre de minha mãe / não pretendo roubar nada / nem fazer mal a ninguém[3].
Não me comprometo pois em quaisquer actividades ou iniciativas que possam de alguma forma colocar em perigo a minha frágil existência (apenas 7 horas), bem como todas aquelas que me impeçam de ter em mim “…todos os sonhos do mundo[4]. Bem sei, ou penso que sei (é ainda cedo para saber) que tenho deveres sociais a cumprir, mas quero saborear a ideia de não fazer nada que me perturbe ou me prejudique. O meu primeiro dia vai ser assim.
Sei entretanto que vou estar com quem gosto de estar e que gostam que eu esteja com eles. Mas sei também que gostaria de estar hoje com muito mais Amigos, embora de facto esteja mesmo, porque nunca os esquecerei.

Declaro, e com isto termino, afirmando que estou cá.
Atenção, estou mesmo!
Alf.



[1] Extracto de “Efectivamente”, álbum “Psicopátria”, GNR, 1986        
[2] Extracto de “Song  of Myself”, Walt Whitman, 1892
[3] Extracto de “Fala do Homem Nascido”, António Gedeão, 1958
[4] Extracto de “Tabacaria”, Álvaro de Campos 1928

21 novembro 2016

POBREZA ENERGÉTICA CADA VEZ MAIS PERTO DAS NOSSAS CASAS

 http://www.edificioseenergia.pt/pt/a-revista/artigo/pobreza-energetica-cada-vez-mais-perto-das-nossas-casas


O conceito de “pobreza energética” foi introduzido pela investigadora britânica Brenda Boardman, nos anos 90 do século XX. Retrata a situação das famílias que possuem uma renda limitada, ou mesmo nenhuma, para pagar as necessidades de energia doméstica. A pobreza energética também é considerada quando as famílias não podem dispor de (pelo menos) 10% do seu rendimento para custear a factura energética. O trabalho de investigação de Brenda, que já foi directora do Lower Carbon Futures e assessora da direcção do UK Energy Research Center, é dirigido para a redução da demanda de energia em toda a economia do Reino Unido, em particular para o edificado. Em 2008, existiam só na Inglaterra, 5 milhões de famílias em situação de pobreza energética.

Com a aproximação do Inverno, rigoroso em algumas zonas do nosso País de que Trás-os-Montes é um bom exemplo, imaginamos pelo menos 30% da população dessa região, passando muito frio e entregue a sua sorte, por não possuir as condições mínimas para se aquecer. O caso particular da freguesia de Rio de Onor, em Bragança, retrata 75% dos habitantes em pobreza energética. Os dados da OMS para Portugal, datados do ano 2008, já revelavam uma taxa de 28% da população portuguesa em situação de pobreza energética. Não esqueçamos que a situação de desemprego continuado, que afecta muitas famílias, acarreta necessariamente incapacidade para pagar água e luz, uma dramática tragédia social dos tempos que correm, onde as necessidades básicas deveriam estar protegidas e devidamente salvaguardadas. Estamos na Europa, em pleno século XXI.
Um estudo recente, integrado no projecto ClimAdaPT.Local – Estratégias Municipais de Adaptação às Alterações Climáticas, uma parceria de 26 autarquias portuguesas e da Agência Portuguesa do Ambiente, concluiu que, em média, 29% da população não tem capacidade de aquecer as casas no Inverno nem arrefecê-las no Verão.

Vale a pena lembrar um dos compromissos, a nível mundial, traduzido no Objectivo número 1, dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), “Erradicar a pobreza em todas as suas formas e em todos os lugares”. A luta por este objectivo passa necessariamente pela consideração da pobreza energética, como uma das facetas preocupantes da pobreza em geral.

Fernando Alves, na sua crónica (Sinais) de hoje na TSF, fala da pobreza energética como um epidemia, que atinge hoje em Espanha, aqui tão perto, 5 milhões de pessoas, a propósito da morte de uma ansiã de 81 anos de Reus, por incêndio provocado pelas velas que usava em sua casa, após o corte de energia por falta de pagamento. “Velando a noite antiga” chamou ele a sua crónica, onde diz que “velar é permanecer aceso”…


14 novembro 2016

UM ESTRANHO NO MEIO DE NÓS?

Uma estranha revolução cinzenta, um pestilento odor, uma paralisia completa, uma muda revolta, poderiam ser a chave para abrir algumas consciências. Um mundo esquisito, onde o poder do voto completamente agrilhoado, ostenta uma vitória que pode significar tudo ou simplesmente nada. Mas será porventura ainda cedo para avaliar o tremendo pontapé que levamos. Ou que nos quiseram dar. No século onde tudo parece ser possível, brilha uma estrela podre, balofa, triste e quiçá repelente. Dizemos, em primeira mão, que não temos palavras, que não é possível, que parece mais um pesadelo do qual queremos acordar depressa. Mas ele lá está, o símbolo da intolerância, da mais boçal intransigência, da linguagem rude e seca, contra os mais elementares princípios de cidadania. Que despreza todas as minorias, que o século XX timidamente a princípio, de uma forma expressa depois, vieram conquistar. Ele aí está, proclamando muros e expulsões em massa, em nome da “defesa intransigente” do estado americano. Levou uma significativa margem de votantes a aderir a um discurso primário, arrebatado e pueril, muitas vezes obsceno e doentio.
Existem muitos trumps por aí. Escondidos quiçá num discurso pacífico alguns. Outros, porventura mais ousados, envoltos numa capa de nacionalismo radical. Muitos, são hoje, os lídimos representantes de uma direita passadista, que encontraram um lugar nas chamadas “democracias ocidentais” e que representam a franja lúmpen de uma pequena e média burguesias desencantadas com o “progresso” do capitalismo agonizante.
O discurso oficial é porém hoje muito mais poderoso. O discurso da subjugação ao poder da finança é amparado e confortado por uma elite da comunicação social, entretanto agrilhoada pelo poder férreo de empresas privadas que foram crescendo à medida que se desenvolvia uma teia de interesses confessados. Se tal não bastasse, a circunstância de uma pérfida manipulação de consciências, levada sistematicamente a peito durante aproximadamente as duas últimas décadas, acabou por traçar o cenário ideal para o esvaziamento completo do esquema formal de funcionamento dessas “democracias”. Vale tudo para esses agentes infiltrados do capital. Redacções completamente acéfalas produzem diariamente em programas de rádio e de televisão a mais rasteira informação, eivada de pequenos factos, subjugada ao poder do futebol, interessada na pequena intriga e , muitas vezes, na mais despudorada mentira. Que alimentam nos cidadãos, no mínimo, a convicção da inevitabilidade, a mais poderosa das armas que invoca, subtil ou expressamente, a indiferença.
Os dados estariam potencialmente lançados para colocar no poder uma besta. Não difere em nada de um Pinochet, ou de um Obiang, ou até de um Erdogan que, de forma subtil, caminha a passos largos para uma ditadura feroz, a pretexto da luta contra o terrorismo. Aparenta semelhanças com todos os representantes da extrema-direita, na França e no Reino Unido. Significativamente ou não, o seu primeiro gesto político foi precisamente com estes últimos. E continuará decerto com todas e todos aqueles que, em qualquer parte do mundo, se dedicam à “doce tarefa” do extermínio de todas as resistências. Acaso será inocente o apoio desse grupo abjecto que dá pelo nome de Ku Klux Klan e a festa que fizeram após a “eleição”?
A ilusão aparente de que seria um anti-sistema apenas cai nas consciências vazias da ignorância a que foram reduzidas algumas franjas do eleitorado do seu País. A fantochada, idiota de tão evidente, que significa uma eleição nos EUA, produziu o resto. Está para se saber se o pretenso falhanço de todas as sondagens não foi senão mais uma das encenações em que o sistema é pródigo. O anti-sistema é então uma máscara, um embuste completo, que apenas representa a tábua de salvação possível para uma “causa” que parecia perdida. O personagem não passa de um testa de ferro do sistema mais corrupto e indigno, que é no fundo o sistema financeiro, que gera crises em seu próprio proveito, semeando crimes impunes e desigualdades permanentes.

Ana Sá Lopes diz hoje, na sua cronica do Jornal i, que o “… trumpismo sempre esteve no meio de nós, glorioso mundo ocidental. Está no meio de nós e basta olhar para o lado”. Nada mais certo então que olhar mesmo para o lado e estar atento.  

23 outubro 2016

O IDIOTA FUNCIONAL


Sou da geração sem remuneração
E nem me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
...”
Parva Que Eu Sou”, Pedro Silva Martins, Porto 2011












Assim se define, assim se apresenta.
Ele faz parte do mobiliário urbano, das cidades onde passeia a sua existência efémera. Tratado e preparado nos laboratórios da pretensa inovação, polvilhado de lugares-comuns, etiquetado à maneira, preso por fios ténues de uma esperança que raramente encontra. Receita normalmente a doxa, ilustrando termos e frases, fora do contexto, que captou e interiorizou, em sessões contínuas de powerpointes com cores berrantes e setas e setinhas para baixo, para cima e para o lado e estrelinhas a pulsar. Os mentores falam, exultando as virtudes do empreendedorismo, como tábua miraculosa de salvação universal, nesta sociedade em que se perderam os valores e já não faz sentido (para elas e para eles) distinguir direitas e esquerdas, patrões e trabalhadores, ricos e pobres, a classe média é tudo o que resta. Viver na mediocridade, para um sucesso prometido, mas tão distante como a Terra da Lua.

O idiota funcional é culpado de tudo, incluindo o de não ter lugar onde, de não ter emprego, e claro, de sempre se confinar a sua zona de conforto, seja lá o que isso for. Culpado, sujeita-se ao rigor invernoso da conformidade e à canícula sufocante da prevalência.

Millor Fernandes disse um dia que “quando um técnico vai tratar com imbecis, deve levar um imbecil como técnico”, ironia suprema que poderia ilustrar os montes de sessões de preparação para “jovens empreendedores”, onde a insignificância é directamente proporcional à dose de imbecilidade do discurso da classe dominante e da camarilha de actores que constantemente manipula e oprime.

Os perdedores deste mundo são todos, com raríssimas excepções, empreendedores. Que são paridos para implementar, um termo tão idiota, mas sempre e sempre declaradamente funcional. Do outro lado emergem “empreendedores de palco que vendem palestras e enchem salas de congressos, com um discurso que está normalmente mais próximo do de um pastor evangélico do que de um professor de economia” [Soeiro, 2016].

Se ao menos de autonomia das pessoas se tratasse. Bem pelo contrário, a teoria da subjugação e da impotência contra o sistema, floresce num pretenso imaginário económico e social, criando o idiota funcional, um triste retrato que pretendem pintar os seus perigosos ideólogos.
As papas e os bolos que enganam os tolos, do saber popular, terão neste particular a lição máxima que a vida acaba por ensinar.


Ouve a canção, fica atento e (se puderes) muda de figura!

14 outubro 2016

Hey, Mr. Tambourine Man, play a song for me



















Longe vão os tempos da revolução cantada, tocada e brandida pela animosidade de uma burguesia acomodada, mas firme no seu posto. As guerras do Vietname e da Coreia traziam os vozes, no vento, do protesto e da insubmissão.
Dylan foi, provavelmente sempre, um insubmisso. A sua voz foi mudando ao longo de um tempo que mudava também. Mas como se sabe, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, assim como a vontade de mudança parece mudar também. Dizia ele que os tempos estão a mudar, antecipando quiçá a adaptação que o tradicionalismo burguês ia fazendo a novas formas de conhecimento e de discurso formal.

Agora Dylan é Nobel de uma literatura, que vai conhecendo novos e improváveis intérpretes. Se soubesse cantar, Dario Fo, que recentemente nos deixou, talvez conseguisse melhor “questionar a autoridade e o apoio à dignidade dos caídos”.Ou que a voz sempre surda dos oprimidos fizesse chegar à Academia Sueca mais e melhores intérpretes da Revolução inacabada, mas sempre e cada vez mais, Permanente. Se pudera falar dela sem lhe dizer o nome, diria o grande Mustaki.

Misturaram-se em Dylan todas as contradições sociais. Todos cantávamos nos anos loucos, algumas das suas canções, sabíamos as letras de cor e salteado, ao som dos acordes da viola que nos acompanhava para todo o lado, “Knock, knock, knockin' on heaven's door”, as portas de um céu em que não acreditávamos e que a outros parecia então sorrir.
Sentados agora as portas de um outro céu em que todas as respostas estão soprando no vento, sentimos que se calhar também fomos laureados. Tenho para mim, lembrando o “Em Órbita”, que passava as 7 da tarde no antigo Rádio Clube Português, no final dos anos 70 e onde Dylan passava à margem das classificações para os melhores do ano, que a nomeação vem precisamente desses anos.


Para o Poeta vai a glória. Para nós, a secreta lembrança, a cumplicidade assumida.

08 outubro 2016
































PIRELIÓFERO
Nome pouco comum, que evoca o “pir” de fogo e o “hélios” de sol e liga “forus” que conduz. A máquina que conduz o fogo do sol.
Em quatro fantásticos dias, dos Arcos de Valdevez a Sorède, atravessando a Espanha, calcorreando a Catalunha e os Pirenéus Orientais, tanta gente boa que conhecemos ou simplesmente reencontramos. Fizemos a homenagem ao Homem que desde finais do século IXX até aos anos trinta do século XX, de Portugal a França aos Estados Unidos da América, haveria de levantar bem alto a bandeira do Conhecimento. E ainda, as bandeiras do Desenvolvimento e da Sustentabilidade, da Ecologia, da Ecosofia, enfim da Ciência, da Técnica e da Tecnologia no espírito do Humanismo.
O dia 29 de Setembro 2016 ficará marcado pela inauguração do Pireliófero. As intervenções desse dia haveriam de lembrar como foi possível chegar até aqui e ter diante de todos, não só a máquina, mas também aquelas e aqueles que contribuíram para que tal fosse agora possível. 
Jacinto Rodrigues, o académico português que há muitos anos vem pesquisando e divulgando a obra do Padre Himalaya, brilhou em Sorède, como só ele sabe, historiando e contando estórias. Filosofando sobre a sustentabilidade, rebuscando a vida do MAG Himalaya, trazendo para o sol do dia, o sol da energia aplicada mesmo ali na sua frente.
Estivemos em Sorède em homenagem ao Homem, ao cientista e a sua obra. Uma réplica da máquina, que haveríamos de apreciar, na sua imponência majestática e na sua tremenda presença. Todos os que estiveram na manhã de 29 de Setembro puderam testemunhar a figura incontornável daquele que bem poderia figurar como o Leonardo Da Vinci português, dada a sua capacidade de antecipar questões ligadas ao Desenvolvimento, nas mais variadas esferas do conhecimento, da química à electricidade, da mecânica à termodinâmica. Mas ainda, da arquitectura dos territórios à hidrografia, das questões económicas e sociais.
O denominador comum de todas as intervenções centrou-se no paradigma "Usando o passado para construir o futuro, " tendo por base as energias renováveis e naturalmente, o forno, como precursor para o meio ambiente e desenvolvimento sustentável, a natureza, elemento do nosso planeta.

No dia seguinte, subimos a 750 metros de altitude para ver o local onde o Padre Himalaya construiu o primeiro forno solar. Caminho de pedras, caminho de cabras, sempre a subir, tal como o encanto e a emoção. Imagino o Manuel Gomes a subir, quiçá com um burro carregado de espelhos e outras peças de maquinaria. Tudo para conseguir captar ou capturar um sol que nunca o abandonaria e que ele “perseguia” com o intuito de poder desvendar a sua enorme força energética, ainda para mais ao alcance de todos, de uma forma sustentável. Pedras e mato, no caminho da energia, esta a espreitar por entre a imensa floresta, escondida no mais recôndito sítio. Ela que se oferece a quem a quiser entender, a quem a quiser aqui buscar. E usar, a bom proveito para os fins que se entender.
A natureza a funcionar, sim. Sobes e sentes oxigénio a mais, num ar mais difícil de respirar, as pernas a tremer. Lá em cima o sítio exacto, onde no ano longínquo de 1900, o Padre Himalaya haveria de construir a primeira máquina que conduz o fogo do sol.

Vale sempre a pena lembrar a Obra e o Homem. O evento de Sorède foi um exemplo vivo da Ciência, Técnica, Tecnologia e Humanismo. Face ao já previsto esgotamento dos bens naturais e das energias convencionais ou fósseis e ainda a destruição alargada da biodiversidade, é imperioso abordar todas as questões ligadas ao Desenvolvimento. Sob os seus mais variados ângulos como a que reporta à contaminação tóxica e à poluição global do ar, da água, da terra e dos organismos vivos. Um desenvolvimento sustentável, ecologicamente sustentável, social, ambiental e politicamente empenhado, na construção de um novo modelo global para erradicar a pobreza, na promoção da prosperidade e o bem-estar de todos, na protecção do ambiente e no combate às alterações climáticas, seguindo assim o compromisso da cimeira das Nações Unidas de Setembro de 2015.

Aquilo que possamos fazer pela Natureza e pelo Homem, nela enquadrado e cúmplice directo da sua sustentabilidade, decerto determinará o futuro do planeta.

Padre Himalaya!

03 outubro 2016

A ENTREVISTA


Na entrevista ao Jornal Público de hoje (3 Outubro) ao PM do Governo de Portugal, existem várias “armadilhas” montadas pelo jornalista de serviço. Nada que seja incomum. Apenas para registar a enorme manipulação de grande parte da comunicação social e particularmente deste periódico.

A primeira questão e a forma como é colocada são assaz paradigmáticas. O jornalista David Diniz (DD) afirma “…sem dinheiro e com Bruxelas a condicionar a política orçamental”. O chavão “não há dinheiro” é um (apenas um) dos pontos de convergência entre os chamados “jornalistas económicos” e a Direita radical. Trata-se de uma invenção que enforma a propaganda mediática para assustar a população menos avisada, que constitui, a acreditar nas sondagens, a massa votante nos partidos do centro partidário. Tal propaganda acaba mesmo por funcionar, fundamentalmente por duas ordens de razões, sendo a primeira o simples facto de que a forma como é exposto ser de tal forma redundante a positiva que parece mesmo verdadeira. A segunda razão é do foro psicológico e funciona exactamente da mesma maneira que a asserção passista[1]vivemos acima das nossas possibilidades”, punitiva e castradora de consciências. De tal forma são as pessoas massacradas com este tipo de publicidade enganosa, que acabam por a interiorizar.

A organização da entrevista obedece a um formato ardiloso. Começa por perguntas e respostas a ocupar o lado esquerdo, páginas 2, 4 e 6. E no lado direito, páginas 3 e 5 são apresentados textos onde são inseridas afirmações do PM, mas onde não existe contextualização a não ser a “verdade” discursiva do autor da peça. Um evidente exemplo é a forma como a questão das pensões é abordada. Na página 3 é elaborada uma pretensa posição do Partido Socialista, ou neste caso particular do António Costa (AC), que o Jornal tenta “opor” às posições concernentes do PCP e do BE. Todo o texto, a 3 colunas, é uma montagem abstrusa, com uma única finalidade (sempre a mesma) de tentar mostrar à opinião pública eventuais discrepâncias, neste caso concreto chamam-lhe “dissabores”, entre os partidos da Coligação.

Na página 5, a mesma situação, agora acerca do famigerado “índice de crescimento” da economia. Este é aliás um tema (mais um) recorrente e que integra um discurso catastrofista, afinal o “cântico” da Direita. Uma vez mais. O título “Economia deverá crescer pouco acima de 1% este ano” é da autoria de DD. É o que se lê quando se olha a página 5. O restante, o que diz o PM, acaba por não-se-ler, no sentido do condicionamento do que o artigo “obriga” a ler. O exemplo do que pensa AC e toda a Coligação está de facto lá, “o que vai permitir às nossas empresas serem mais competitivas é terem pessoal mais qualificado”. Tal é porém ofuscado pelo citado título.

Na página 6 há uma questão que, da forma como é colocada, não passa de uma vulgar provocação. Ao PM e ao país inteiro. Vejamos, relativamente a uma putativa posição de P. Passos Coelho (PPC), “…tem medo que as contas não batam certo no fim de 2016 e que ele tenha razão?”. E, no final da resposta de AC, DD ataca “…não vale a pena repetir”, soberba arrogância. Mesmo ao lado, a montagem do Jornal coloca uma foto de PPC. E a investida de DD continua, depois de AC explicar o seu ponto de vista sobre a forma como tem sido construída uma imagem negativa do País, o jornalista volta á carga, “…a verdade é que a economia não está propriamente em aceleração, o investimento…” . O restante conteúdo da página 6 é, segundo a “cartilha Gomes Ferreira[2]”, não propriamente uma entrevista, mas sim a afirmação constante da “verdade”, segundo DD, ao bom estilo do outro (o da cartilha). O que parece (…) é que a DD não interessa propriamente ouvir o que pensa o PM, mas sim afirmar a sua posição própria, punitiva e passista de toda a Direita. Brilhante.

A contribuição do Jornal Público para o esclarecimento da população é rematada, de forma redundante, com a publicação de “cinco gráficos para perceber como está a economia ao fim de um ano”, sem qualquer referência a uma fonte. A “verdade” está sempre nos gráficos, interpretados aliás de forma grosseira. A posição do Governo aparece sempre como contraponto, desmontada pelo autor Sérgio Aníbal, presumível autor dos gráficos (?) que encimam a página 8: “1,1% para o crescimento de 2016 e 2,8% para o défice público durante a primeira metade de 2016”.
O Jornal Público nem se dá ao trabalho de disfarçar a sua simpatia (e apreço?) a PPC, ao dar-lhe mais de metade da página 10 (Política), uma bela foto “institucional” a entrar para uma viatura que se presume “oficial” e ainda as habituais afirmações rascas que o caracterizam, menção especial para a “acusação ao Governo e dos partidos que o apoiam de quererem construir uma sociedade mais pobre e mais injusta”. É mesmo preciso muita lata…

Como bem disse António Barreto, “Quase não há comentadores isentos, ou especialistas competentes, mas há partidários fixos e políticos no activo, autarcas, deputados, o que for, incluindo políticos na reserva, políticos na espera e candidatos a qualquer coisa![3].
E assim se faz Portugal. Ou o querem fazer…



[1] Passista, de Passos e C&a
[2] Do autor José Gomes Ferreira, jornalista de “análises económicas” da SIC, licenciado em Comunicação Social pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa, onde se “notabilizou” como um aluno mediano a Matemática e com dificuldade em perceber equações (informação Wikipedia)

[3] In “As notícias na televisão”, artigo de opinião, DN, 25 Setembro 2016

29 agosto 2016

FORA DE SERVIÇO


Ouço a rádio
Não vejo televisão.
Passa por mim qualquer coisa como uma sombra de um tempo passado. Entre festivais de verão e fogos florestais, existe uma secreta tradição de passadismo, misturada com uma dose extra de estupidez de verão. Desculpável, pois claro.
Que dizer de tanta verborreia, do Brasil à Europa, que caiba em linhas singelas, para entreter incautos cidadãos e cidadãs, enlevados entre um banho de mar e uma toalha estendida ao vento? Fiquem onde estão, nem precisam sequer fazer um pequeno esforço de se levantarem, alguém vela por todos vós, a segurança social está firme no seu posto, não resta uma sombra por ocupar, vá lá, afirma-se que lá mais para Setembro rebenta tudo com a proposta de orçamento. Sentença, mais uma, de painelistas profícuos, que antevêem (outra vez) num qualquer Pontal a esperança ultima da nação, ao mesmo tempo que relatam “Mata mulher com caçadeira e suicida-se”.
Passa a vida estival em burkini e se calhar apanhas uma multa, poderia ser uma das frases da actualidade, que retiradas do contexto, produzem o mesmo efeito que fora dele. Ainda bem que há Algarve, todos por lá passam e também eu, embora possamos encontrar em uns e outros razões diversas. Mas nada disso interessa, estamos (estivemos) enlevados nos olímpicos jogos, esperamos tudo de atletas distintos, fizemos o choradinho do costume e aterramos na Liga NOS, que se perdeu o Campeonato Nacional de tempos idos, que é o que conta, por mais promessas e juras que façamos sobre a importância dos outros “esportes”.
Em tempo de férias, uma inevitabilidade constante, penso sempre nas palavras do sábio Zaratustra, que “Fora de Serviço”, dizia “Agora, porém, estou fora de serviço; encontro-me sem amo, e, apesar disso, não sou livre; por isso só me comprazo nas minhas recordações(a)

A vida flui como dantes, será “… sempre a perder” como diz a canção (b)?
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(a)   In “Assim Falava Zaratustra”, pág. 403, F. Nietzsche ( 1883/85)

(b)   Referência a letra de “Homem do Leme” dos Xutos & Pontapés