rio torto

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13 fevereiro 2018

RADIO GAGA












Posso pedir um disco? Daqui Rádio Voz da Liberdade, amigos, companheiros e camaradas. Teatro Tide apresenta. Daqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas. Os tempos de ontem, mais ou menos assim, ou muito mais, que havia o entremetimento ou a mensagem a passar, consoante o distrair, ou o lembrar. A Rádio sempre esteve lá, a contar como foi, como era, ou como parecia ser. Ou uma rádio algo artesanal, com pouquíssimos meios de produção, ou uma potente máquina de propaganda. De uma forma ou de outra, era rádio, acontecia qualquer coisa.
(Uma marca que vinha do éter) 
 "I'd sit alone and watch your light // My only friend through teenage nights // And everything I had to know// I heard it on my radio…", ouvindo o "Em Órbita", a minha companhia de adolescente, o nosso refúgio, era o Dylan e a Joan Baez, todos os anos, o melhor e o pior, lembro o Atlantis do Donovan, tanta música, tanto poema, a guerra do Vietnam, a contestação permanente. Uma forma de ver e ouvir.
(Dantes nada era contado)
Era tudo às avessas, para tornear a máquina censória, que envergonharia o País e que torturava e matava os dissidentes, a rádio passeava os do governo e ignorava tudo à volta. A Rádio? Não, era apenas mais um instrumento de opressão do regime. E nos anos de estertor do fascismo, vinha o ZipZip e o desfilar de todas as mágoas, de todos os cantos, a heroica e a satírica, as armas e os barões misturados com a anarquia de uma paisagem, onde se alcançava tudo e quase nada. Os relatos do Artur Agostinho e a classe do Pessa, a voz que lembrava a britânia. 
(Até ao Dia)
Em que a Rádio salta todos os muros e vai a todo o lado com a malta, porque faz falta agitá-la e dar-lhe Poder. Aí, temos rádios aqui e ali, uma teia de fios ténues, valia tudo, era a libertação. A cadeia humana que deu voz a Timor Lorosae, a luta e a esperança.
(Radio GaGa)
Tudo isto é rádio, um bla-bla contínuo, a conjugação de tantos interesses e a voz suave e meiga do jornalista ou a voz poderosa e estridente do agitador.
O respeito pelo silêncio, a música do vento, a chamada sincopada dos encontros imediatos, a denúncia, o reconhecimento, a abstracção, o torpedear constante da propaganda, o anúncio estúpido da pasta de dentes, a voz do mestre, o arroto do político menor, os jingles da rádio.  Há uma rádio que passa um programa chamado "Informação Inútil", por sinal bem mais útil do que a informação sobre a bolsa (mas quem raio é que se interessa pela bolsa?), ou do que os "comentários" idiotas de meia dúzia (se calhar mais...) de "residentes", que sabem falar de tudo e parecem viver num planeta distante.
 "All we hear is radio ga ga // Radio goo goo// Radio ga ga// All we hear is radio ga ga //Radio blah blah // Radio what's new? // Radio, someone still loves you!"
A Rádio faz-nos companhia, se não gostas, desliga. Só ela nos pode transportar a universos desconhecidos, e tem a música, essa linguagem universal, que um dia poderá ser quiçá mais estimada e reconhecida.
Eu gosto da Rádio!

28 janeiro 2018

CAPTURA


A noção de captura tem, no espaço mediático, um assentido restrito, que nos transporta para universos bem conhecidos e próprios de sociedades em contínua e sistemática degradação.  Que o é, nas vertentes política, sociológica e cultural. Sentir-se capturado significa hoje em dia, em primeira instância, estar cercado de uma informação medíocre, insidiosa e sem qualquer valor aparente, que não seja o primado do espectáculo e do sensacionalismo.
Configura-se pacífica e despudoradamente, uma estranha figura de estupidez simbólica, caracterizada pela deificação da tecnologia e pela velocidade furiosa, numa voragem contínua de acontecimentos fúteis e mesmo, em determinados casos, perfeitamente inúteis.

Pare-se para ver (e é mesmo necessária alguma coragem para tal), o imenso lixo televisivo, radiofónico, falado e escrito, a propaganda mais perniciosa. Identificam-se, nos dias de hoje, de uma forma muito clara, sinais evidentes de manipulação e industriação de consciências, através da presença de conteúdos sáfaros, naturalmente orientados para sectores da sociedade mais permeáveis e que a "bebem", por vezes de uma forma asfixiante. Depois, o efeito que normalmente se traduz na diabolização de determinadas figuras (públicas) e de situações da vida corrente, que são por sua vez transformados em "sérios problemas", com a capa de promover uma politização, no pior sentido possível, o da banalização de conceitos, ou de um hipotético sentido pragmático, estribado em paradigmas praticistas e conducentes invariavelmente a um raciocínio reducionista e inevitável. É uma espécie de lei da "ordem prática", ou na designação de Kant, uma lei moral que, segundo ele, representava uma lei universal.
E quando os fenómenos estupidificantes se multiplicam, tendem a criar uma cadeia contínua de asserções e conceitos "leves", desprovidos de qualquer sentido crítico. Convém entretanto dizer, que a sucessão de acontecimentos e "incidentes" ligados a considerações de índole afectiva (e consequentemente, moral), não é de forma alguma casual. Significa antes, que é real a tendência para um abaixamento de nível, de análise e discussão, visível particularmente no palco da política. Poderia eventualmente argumentar-se que a "simplificação" de termos e conceitos, conduziria a uma apropriação da coisa pública pela maioria da sociedade, não fora ela o sinal mais evidente de uma brutal banalização. 
Vem a propósito algumas manifestações de estupidez massificada, como é (ou foi) o caso da chamada "supernanny", quiçá um dos exemplos vivos de um populismo pretensamente democrático, mas que não passa de um jogo de índole perigosa e intrusiva. Ainda que recusemos entrar no palco lodoso da mediocridade e da estupidez colectiva, acabamos por ter que abordar questões que nos escapam, mas que afinal nos cercam bem de perto.
Daí então, a captura, uma das componentes da "democracia", dura e ao mesmo tempo leve, com contornos digitais atraentes e contorcionistas. Somos colocados numa situação delicada, entre ter que optar entre alternativas pífias, correndo inclusivamente o risco de sermos considerados verdadeiros aliens.

Poderá ainda ser considerada como prática marginal, defender princípios sólidos e balizados em conceitos definidos, como a luta contra as desigualdades, o fim dos privilégios de meia dúzia de abastados, o fim dos paraísos fiscais, ou simplesmente uma ética republicana. O proclamado fim das ideologias, a "aproximação" entre trabalhadores e patrões, baptizados agora de "colaboradores", o esbatimento das fronteiras entre Esquerda e Direita, são apenas a faceta que quer parecer simpática, sobretudo aos que não conseguem ascender, porque sistematicamente capturados, na escala social.

O ensaísta alemão Hans Enzensberger dizia , "...ainda é cedo demais para fazer alguma coisa, mas já é tarde demais para fazer alguma coisa", mostrando alguma apreensão por fenómenos a que chamou de industrialização da consciência, um "jogo perigoso" (palavras suas) entre o poder estabelecido e os lideres de opinião, intelectuais e artistas, supostamente capturados numa imensa teia de interesses e contradições. 
É particularmente significativa ainda a sua afirmação, precisamente na linha da primeira, num poema publicado em finais dos anos setenta do século passado, "..não somos responsáveis por sermos culpados e somos culpados por não sermos responsáveis".

16 janeiro 2018

Meus Caros AMIGOS(*),



















Como uma noite pode ser fabulosa. Ou misteriosa, quiçá. O ambiente aquece na sala de cortiça, a expectativa é imensa, os Caros Amigos são afinal os nossos amigos, a nossa cultura, a nossa cumplicidade colectiva, responsabilidade também por uma sociedade que queremos transformar, Augusto disse-o a tanta gente.

E foi afinal essa gente, que a Maria do Céu evocou, na sua simplicidade, na sua imensa classe, na sua capacidade de nos transmitir (ou melhor, fazer sentir) as vivências, as lições de um Mestre, aquele que, mais que ensinar, é capaz de formar e enquadrar na realidade. Sim, a realidade, que anda nas bocas de tanta gente que vai sobrevivendo num mar imenso de benesses e privilégios. Mas essa não é seguramente a mesma que no dia a dia, as pessoas “comuns” vão vivendo. E sofrendo e amando, “...que também sem um carinho ninguém segura este rojão”. 

Meus caros amigos, não sou capaz de vos transmitir, nem numa cassete (que já não se usa), as novidades, embora queira que vocês fiquem a par de tudo o que se passa. O que vos posso dizer? "Que a coisa aqui está preta", agora não, mas tal não quer dizer que baixemos a guarda, não. O Oprimido continua ser delicadamente oprimido, e há até quem o culpe de o ser, porque sim. 

As cartas do Augusto ao Chico e deste para ele estão lá. Vocês têm mesmo que as ler, não há forma de vos contar. Uma daquelas preciosidades que se devem saborear, não só para lembrar as terríveis ditaduras, separadas por "Tanto Mar" e apenas “suportadas” por “...algum cheirinho de alecrim”. 

Sim, "foi bonita a Festa, pá". O Loio esteve lá e o Lucas também, que bom foi ouvi-los e cantar com eles. A Cecília não, mas está sempre connosco, porque é uma Mulher de acção e de luta, não certamente de Atenas, que essas serviam seus maridos e tinham medo, apenas.

(Tinha tanto para vos dizer, mas:
Eu sou como o vento
que foi e não veio…”)

Meus caros Amigos, me perdoem por favor se não vos faço uma visita. Mas como aqui não há tarifa, venham vocês. Por favor.
Alf.
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Citações do Zeca e do Chico. Perfeitamente identificáveis
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(*) A propósito do evento "Meus Caros Amigos - Augusto Boal- Cartas do Exilio", ontem, 15 Janeiro 2018, no Espaço MIRA-ARTES Performativas, Rua Padre António Vieira, 68, Campanhã Porto.

15 janeiro 2018

UM “RIO” VISCOSO E POLUÍDO  

Deixem-me ganhar, que vai ver como as coisas são
Se Passos Coelho era um politico sem qualidades, este senhor é uma qualidade entre os políticos. E essa “qualidade” reside em raciocínios simples, sem dialéctica subjacente, sem margem para contraditório, até porque não assenta em ideais (nem ideias).
Importa salientar aqui algumas componentes da chamada lógica RR, que tem por base uma concepção muito concreta e definida, como deixar o Parlamento com lugares vazios, que “representem” os votos em branco, na opinião dele, uma “ideia disruptiva”, mas que o Partido deverá aceitar. Sabendo à partida que existe (ainda) algum incómodo popular com os deputados da Assembleia da República, que proposta melhor que esta se poderia congeminar? Mas há mais, como por exemplo, definir um tecto mínimo para as pensões, mas com componente variável associada ao PIB e ao desemprego, ou seja, que parte das pensões varie em função da economia, uma medida perfeitamente estúpida, opinião até partilhada por alguns militantes do seu Partido.

A viscosidade do pensamento político de RR é uma tremenda poluição na tradição social-democrata. Não será uma perversão, pelo menos no sentido estrito, uma vez que a social-democracia enferma há muito de uma absurdidade, que tem a ver essencialmente com a visão oclusiva da economia e da sua relação com a política. Mas é certamente uma depreciação qualitativa, na medida em que a afunila para o campo liberal e canaliza o mais rasteiro populismo. O Partido já terá perdido toda e qualquer matriz ideológica e funcionará apenas como uma máquina de poder e na medida directa de um certo (e sempre frágil) equilíbrio entre interesses corporativos. Ou então, na asserção de Max Weber sobre o Poder, uma vez escolhido o líder, este diz, “agora calem a boca e obedeçam-me”. E assim se esfuma a “liberdade de escolha” de que a Direita tanto gosta. E desta forma toma todo o sentido a frase que escolhemos, dita pelo próprio, uma exaltação grotesca da mais intolerável arrogância.

Uma voz tão insuspeita como a de José Pacheco Pereira, pouco antes da eleição, afirmava a propósito da política actual e dos intuitos da Direita, “...que o País está condenado a ter a mesma política durante décadas para que ela possa ter resultados, em particular dando prioridade ao pagamento da dívida, por meio de uma austeridade assente na contenção de salários e pensões, diminuição das funções do Estado, pobreza assistida e desregulação e baixa de impostos para as empresas, na esperança de que talvez isso possa significar algum incremento económico...”. 

RR não tem (como poderia ter?) um pensamento estruturado sobre o País. As suas teses configuram um populismo de matriz autoritária, com base num hipotético bloqueio do País, num cisma generalizado dos partidos, numa atitude moralista sistemática, numa visão censória da liberdade de imprensa.

A pretensa visão liberalizada de certos costumes, pode conferir-lhe uma pitada de modernidade. Só mesmo na aparência. Uma poluição permanente e um perigo constante, a tal viscosidade um “rio” que não flui, apenas escorrega.  O senhor goza, nos meios populares, de uma certa imagem de “rigor” e “competência”. Contudo, RR considera, por exemplo, que a justiça funcionava melhor antes do 25 de Abril, o que o aproxima de certa visão salazarista da sociedade. Ou não sabe, ou finge não saber nada, nem de política, nem de sociologia, nem muito menos do que é realmente, a sociedade civil.

Alguém disse(1), que RR poderia bem ser “o nosso Trump”. Na altura, daria um pouco para pensar. Hoje, com a mediatização e o estreitamento das fronteiras entre pensamentos com alguma convergência, dá para temer. 
Palavra tão desquerida no Brasil, como em Portugal.

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(1) “Rui Rio pode ser o nosso Trump”, artigo de Ana Sá Lopes, 13 Novembro 2016

14 janeiro 2018

“CARVÃO DE AÇO”


















Minas do Pejão,  Lugar de Germunde, freguesia de Pedorido , concelho de Castelo de Paiva.
Estivemos com mineiros do Pejão, na exposição “Carvão de Aço”, do Autor Adriano Miranda, no Espaço MIRA.

Falamos com alguns deles, sentimos o calor do carvão, o orgulho da uma profissão de alto risco, que diariamente colocava em perigo, cidadãos trabalhadores de um País, onde a esperança de vida (para eles) era, nos anos 50 do século passado, à volta dos 40 anos!
A mina poderia ser uma morte lenta, para quem aspirava os gases, na maior parte das situações, sem sequer uma protecção de rosto.

A Empresa, um consórcio entre a Companhia Portuguesa de Carvão e a Anglo-Portuguesa Colliers, Lda, que iria explorar a mina, entre 1908 e 1917, daria lugar à Carbonífera do Douro, Lda, que atravessaria a 1ª Guerra Mundial e viria a falir em 1933. A empresa seria então, nesse ano, adquirida por um grupo Belga, liderado por Jean Tyssen. Na opinião de Renata Santos, autora da tese “Caracterização Hidrogeológica e Hidrogeoquímica da Área Mineira de Germunde, Pejão”, “...a empresa sofreu uma enorme evolução, quer a nível de produção, quer a nível de desenvolvimento de infraestruturas, quer a nível social”. De referir, durante a 2ª Guerra Mundial (1939/45), o desenvolvimento que a Empresa conheceu, com uma actividade multiplicada por 2 minas.

Já depois do 25 de Abril de 1974, mais concretamente no ano de 1977, a Carbonífera do Douro, seria nacionalizada, embora permanecesse com o estatuto de sociedade anónima adquirido em 1963.

Em 1984, a Empresa passaria a integrar a Ferrominas, através de um convénio celebrado com o Instituto de Participações do Estado.

As Minas do Pejão foram encerradas a 29 de Dezembro de 1994, após a intervenção do Governo de Cavaco Silva, com o desemprego de 500 trabalhadores, na linha das decisões de desmantelamento da economia nacional, também sentida noutros sectores, como o caso da a agricultura ou das pescas, uma submissão à politica da Comunidade Europeia. Na altura, a incompetência do Governo foi de tal ordem, que nem sequer cumpriu a sua parte no que reportava à implementação do programa especial de incentivos à fixação de indústrias alternativas, perdendo assim a oportunidade de financiamento através dos fundos europeus. Ficaria para a história, a revolta dos mineiros que ocuparam a EN 222 que liga Castelo de Paiva a Santa Maria da Feira para, junto à porta da mina fazerem ouvir o seu grito contra o Governo que, à altura importava toneladas de carvão, mais caro e pago em dólares e destruía, sem apelo nem agravo, postos de trabalho e lançava trabalhadores e famílias na exclusão. A luta, que viria a prolongar até finais de Janeiro de 1995, foi manifestamente perdida pelos trabalhadores. O jornal Público, diria a 27 de Janeiro, que “As regalias conquistadas pelos mineiros resumem-se a um regime especial de reformas, que abrange pouco mais de meia centena de pessoas, e ao pagamento de um mês de salário suplemento aos 380 mineiros despedidos no último dia do ano passado”.

Mesmo sem discutir as questões jurídicas da propriedade do subsolo e da actividade do aproveitamento da energia que lhe é inerente, notamos que mesmo a Constituição de 1933 faz alusão directa e objectiva ao subsolo, dizendo que este constitui “propriedade do domínio público do Estado” e que, a Constituição de 1976, refere que “A organização económica e social da República Portuguesa assenta no desenvolvimento das relações de produção socialistas, mediante a apropriação colectiva dos principais meios de produção e solos...”

A história da mina é feita pelos trabalhadores e pela luta pelos seus direitos. São afinal eles, a força do trabalho, aproveitada pelo capital...

28 novembro 2017

A MARCHA-ATRÁS


Se pudéssemos voltar atrás. 
Pensar melhor, honrar os compromissos, constatar que o nosso voto iria contribuir para melhorar de forma significativa a situação de milhares e milhares de famílias do nosso País, diminuindo uma factura energética que é das mais gravosas em toda a Europa. E que, ao fazer assim, estaríamos a dar uma enorme machadada naquela que é talvez a mais injusta das situações em Portugal: a perspectiva rentista. Atente-se que quando se fala de rentismo, estamos a referir todas as tentativas e pressões de grupos privados sobre um governo, no sentido de obterem privilégios legais, e/ou monopólios significativos. 
(Se pudéssemos voltar atrás...)
Poderíamos perceber como em 2 ou 3 dias se muda uma posição que parecia acordada, para não permitir mais prebendas a quem usufrui já de favores do Estado, à custa de dinheiros públicos. Quando ouvimos a toda a hora, todos os dias, agentes e comentadores clamarem que não há dinheiro para ... nada, custa saber que não podemos voltar atrás. Afinal cedemos. Afinal, era tudo encenado naquela 6ªfeira? Afinal, onde está o equilíbrio, onde está a dita “palavra honrada”? 
(Se pudéssemos voltar atrás...)
E resistir a não ser (sempre) subserviente aos poderes das empresas. Que aliás gastam milhões a fazer lobby, para obter benefícios, pelos vistos vale mesmo a pena, porque afinal somos nós a pagá-los, quando pagamos a mais (sempre a mais) pelos seus serviços. Uma coisa assim apresentada a 10 portugueses anónimos (um pequeno focus group...) receberia certamente um comentário robustamente zangado (no mínimo). Ouvimos a Mariana, uma espécie de porta-voz de uma indignação colectiva, ““...uma contribuição solidária sobre as energéticas para a extinção do défice tarifário, responde por quem trabalha, pela economia, pelo ambiente e não custa um cêntimo aos cofres do Estado...” e ficamos a pensar como fomos capazes de voltar atrás.
Depois de tanto conseguir, um tanto que é apenas muito pouco, mas para muitos, é muito. Foi a justiça para os trabalhadores, foi a retribuição devida para quem trabalhou tanto tempo e agora tem idade para tranquilamente descansar, foi a Escola reconhecida como pública, reafirmando a sua importância e prestígio, foi o Serviço Nacional de Saúde “reconquistado”. 
(Se ainda pudéssemos voltar atrás...)
E permitir que a medida chumbada (com o apoio da Direita) permitiria ir buscar 250 milhões de euros às empresas produtoras (nomeadamente à EDP Renováveis, que vende para Espanha com mais 20% de lucro) para baixar o preço da eletricidade no nosso País. Se fizessem outro (pequeno) focus group, obteriam decerto 100% de acordo garantido em respostas “sim”. 
Agora não podemos voltar atrás. Mas podemos dormir descansados porque não teremos em cima dezenas (talvez centenas) de processos judiciais colocados pelas empresas de energia ao Estado que é (dizem) nosso. Afinal as EDP, as Galp e as REN são mais portuguesas que todos nós, apesar de serem estrangeiras. Choca, não é?
César diz que não cede a lobbys. A César o que é de César, assim diz o ditado. Quem somos nós para o desmentir? Apesar de parecer que a realidade o desmente mesmo. Mas quem somos nós, afinal???
Pelos menos não fomos nós que voltamos atrás...

14 novembro 2017

É “ISTO” UM DIRECTOR DE JORNAL? DO DN? FRANCAMENTE...


O costumeiro fraseado do “País a sério” é um dos mitos criados pela pequena-burguesia insatisfeita com quase tudo e sempre incapaz de compreender as mudanças sociais, porque não tem consciência de classe e aspira sempre ao que nunca irá conseguir. As vozes que constroem este mito, são incapazes de ir além de um raciocínio de baixo perfil, habituadas a moverem-se no círculo tortuoso da ignorância consentida. 

Este indivíduo é um bom exemplo. Escreve mal, raramente apresenta uma ideia medianamente elaborada, utiliza jargões vulgares e raramente é capaz de um comentário coerente e justificado. Só de pensar que é director de um jornal, ainda por cima de um periódico com a tradição que tem o DN, sente-se um certo desânimo e tristeza pela mediocridade gritante da grande maioria da comunicação social em Portugal. 
Atente-se na asserção, “Nesta hipocrisia de um país que se alimenta de todas as polémicas, nem vale a pena perder tempo com o debate político assente no passa-culpas”. Mesmo que se admita que o País se alimenta de polémicas, quer saber-se quem “fornece a comida”, usando (mesmo que custe fazê-lo) a terminologia rasca do sujeito. Ora é por demais sabido que são personagens como ele os verdadeiros responsáveis por essas “polémicas”. E deve saber-se ainda que a maioria dos portugueses estão a milhas destas polémicas e não querem saber delas para nada, porque têm mais com se preocupar e diga-se de arrasto, têm seguramente mais que fazer. 
Mas, sujeitos (malformados) como este têm uma característica comum, que os aproxima de cabeças perigosas de cariz censório e ditatorial: a arrogância mal disfarçada e claramente expressa em frases chave com esta, “? O poder político, maioria e oposição, precisa mesmo que se lhes recorde a lista de prioridades.”. Aqui está o convencimento maior que reside na putativa capacidade do autor se considerar com “categoria” capaz de sugerir (ainda que seja ao de leve) recomendações. Em situações como esta, a arrogância mistura-se com a prepotência, muito próprias (ambas) de espíritos menores, ignorantes e desprovidos de razão própria, incapazes de mexer um neurónio que seja para pensar no ridículo que significa a sua existência terráquea.
Um exemplo mais, retirado desta miséria de crónica que facilmente seria (digo eu) chumbada em qualquer primeiro ano de uma escola de jornalismo, “...faça-se então o que o povo indignado diz que tem de ser feito. Proíba-se!”. Um possível comentário a “isto” poderia ser simplesmente: o povo não está minimamente indignado, o autor é que está, e nem sequer sabe muito bem porquê, nem porque escreve um emaranhado de asneiras, atropelando-se constantemente (sem dar conta disso, porque não é mesmo capaz de o fazer) na mais pobre da argumentação e no discurso mais torpe que é possível imaginar.
Se quiséssemos porventura seguir (cousa difícil) a lógica deste sujeito, seriamos obrigados a dizer que “num País a sério” era impossível que um exemplar destes chegasse a jornalista, quanto mais a director de um jornal. Mas não somos capazes de utilizar lógica tão rasteira e tão deprimente...
Já lemos por mais que uma vez escritos deste sujeito. Já ouvimos a sua voz aos microfones da rádio, lembrando que já foi director da TSF. Já pudemos aquilatar das suas posições reaccionárias, por exemplo, sobre os professores ou sobre os funcionários públicos, alimentadas pelo preconceito pequeno-burguês liberal sobre o papel do Estado Social. E sentimos então uma vergonha imensa, pensando na qualidade sublime de tantas mulheres e homens deste País, que são e foram progressivamente afastados das redacções, em proveito desta gente menor e sem qualidade. 

Afirmamos então que em termos de prioridades (tantas que são), poderíamos eleger uma educação cívica permanente, desde os primeiros anos da Escola, até a um Ensino Superior de enorme exigência e qualidade, nomeadamente na formação dos quadros para os profissionais da comunicação social. Mas também (se é que isso é mesmo possível) o direito que temos a uma informação digna e descomprometida com os interesses dos grandes grupos económicos, sabendo, entretanto, que quando aí chegarmos, será mesmo impossível que um exemplar deste jaez se digne sequer pensar em escrever para alguém.

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A COISA:

Num país a sério...
Num país a sério, não gastávamos tanto tempo a discutir uma questão de lana-caprina. Não queremos jantares no Panteão Nacional? Gerou-se nas redes sociais um consenso generalizado sobre esta matéria? Está decidido, não haverá mais jantares no Panteão. Ponto final, parágrafo. Também é verdade que, num país a sério, não deixamos que sejam as redes sociais a governar, tanto mais que a intensidade da indignação contra o dito jantar é proporcional à indignação dos que não percebem que se perca tempo a discutir o dito jantar. Num país a sério, toda a gente sabe que se a diretora do Panteão tivesse proibido o dito jantar estaria agora a ser crucificada por ter impedido o repasto da Web Summit, depois de outros jantares terem sido permitidos. É que convém não esquecer: a Web Summit é a "feira" que recebe todos os apoios possíveis e imagináveis do Estado, no pressuposto de que tudo lhe deve ser permitido porque o país tem tudo a ganhar com a "feira". Nesta hipocrisia de um país que se alimenta de todas as polémicas, nem vale a pena perder tempo com o debate político assente no passa-culpas. Ninguém passa fome, todos conseguem atirar polémica para cima dos outros. Entre quem fez o despacho e quem autorizou o evento com base no despacho, não existem uns que são mais culpados do que outros. Até agora estava tudo bem, a festa e a festança onde estava sempre a Dona Constança era boa para o país porque ajudava a manter de pé os monumentos. A indignação coletiva diz que tem de ser posta ordem na balbúrdia, faça-se então o que o povo indignado diz que tem de ser feito. Proíba-se! Agora, não estranhem que as mesmas redes sociais, depois de se terem mostrado indignadas com o jantar, se manifestem agora indignadas com a importância que lhe está a ser dada. Num país a sério, há prioridades. O problema gravíssimo da seca está resolvido? No calor infernal que se vai fazer sentir no próximo verão, a prevenção e o combate aos fogos vão funcionar? A tropa agora já guarda como deve ser os seus quartéis? O SNS que existe para nos salvar, não está ele à espera de que o salvem? O poder político, maioria e oposição, precisa mesmo que se lhes recorde a lista de prioridades.”

11 novembro 2017

NEM ME CHAMASTE PADRINHO...

(ou de como um erro de casting pode confundir a pátria)


Puxaste dos galões, pensaste porventura que me impressionaria ver-te de sotaina, a reclamar atenção a qualquer causa que te apresentasse. Decidias e pronto. Acima a Família, com os seus valores tradicionais que nunca enjeitamos, mesmo que derivas imensas se aposentem em cenários diversos.
(Nem precisavas disso)
A Madrinha estava lá, serena na sua postura apostólica, que não romana, esteta que era, na sua louca complacência. Não sabia rir, de tanta laca e creme, mas associava-a sempre ao bondoso, embora circunspecto, sorriso da cabrinha mansa, oh senhora minha que pariste a mais pífia imagem de presépio decadente.
Alguém se lembrou que poderias ser elevada num pedestal de barro preto, que partisse à primeira investida, bufando simplesmente caía.
(Olhe que não)
Pensamos nisso montes de vezes, faltando-nos porém aquele rasgo, típico de seres privilegiados, que descobrem o sentimento colectivo, qual fatia de queijo, à mercê de qualquer rato de esquina. 
(Como foste capaz de dizer aquilo?)
Eu, na verdade, pensando bem, é que poderia ser o figurante siciliano, esta palavra agrada-me imenso, sabe-se lá porquê. Mas Ele lembrou-se dela, ficando eu quedo e mudo, ao canto da marquise, comendo de boca aberta o pão que o diabo rejeitou. Assim dito, fica bem melhor que o clássico.
(O homem está bem, mesmo?)
Vendo as coisas como o são, Ele tem que dizer qualquer coisa todos os dias, não interessa bem o conteúdo, o importante é a postura afectuosa, que lembra sempre o primo do Brasil, quando chega à província.
Agora terei de enviar aerogramas, exactamente a quem? Nem sei muito bem o que direi, mas posso falar de solidão, de como vivemos com as parcas reformas que o sistema nos destinou, nós que demos o corpo ao manifesto, seja lá o que isso for. Era bom que Ele ressuscitasse o Movimento, coisa linda que os militares da abrilada comunista renegaram. Ele pode fazer isso, não pode?

(Oh mulher, que raio...)
Haja respeito, ao menos pelo teu marido, eu nunca gostei dele, isto cheira-me a assédio, acho que que é assim que se diz. Fecha a marquise e vem preparar o discurso, não me deixes ficar mal.
(Podia ter-me chamado Padrinho...)

  

27 outubro 2017

AS SINISTRAS VOZES DA REACÇÃO














As “velhas senhoras” assentaram arraial na cena política. As “novas” também. Fica-lhes bem aquele ar enfastiado, que podia ser de “tias”, ou simplesmente de molengonas urbanas que pensam (e dizem) que têm uma missão a cumprir em prol do País. O género delas (ou a sua qualidade) não é naturalmente para aqui chamado, a não ser em alguns casos, em que corresponda. Elas ou Eles, pois. O que conta afinal é mesmo a atitude ou a falta dela, compreende-se bem quando ou como se aplica. 
Estão em todo o lado. Passeiam displicentemente a sua ignorância, deixando de quando em vez aquele toque de pretensiosismo que tão bem as caracteriza. Invejosas e arrogantes, vão arengando nos palcos onde são sempre bem-recebidas e misturam-se tão bem com a mediocridade, até se confundirem com ela.

(Elas e Eles, portanto)
Se toca a rebate por alguma “causa popular”, é vê-las à frente do touro, na rua, em casa ou nos gabinetes, infestando o (nosso) ambiente com o bafo e o hálito podre de má-língua e do comentário de baixo nível. 
Não sabem nada de coisa nenhuma, mas sabem (ou pensam que sabem) sempre de tudo um pouco. Não jogam, nem arbitram, nem sequer servem para apanhar bolas, de tão desengonçado que é o seu jeito abstruso. No entanto, irão sempre pôr-se em bicos de pés, para levarem com as palmas que são para os outros. A sua imbecilidade produz um incrível ruído, incapaz de ser qualificado e quantificado. Na prática são lixo, daquele tipo não reciclável, daquele que impesta. 

(E contudo, movem-se)
Quando estão com a corda toda, pulam e saltitam, cheios de afectos e de consensos. Quando lhes falta a dita, recorrem aos escravos que as rodeiam para lhes fazerem o trabalho sujo. Aprenderam nos bancos de escola a filosofia barata do deixa-andar, temperada aqui e além com doses pífias de social-democracia, a mais balofa das filosofias políticas, cheia de lugares-comuns e de conversa da treta para enganar, mas que é todavia, a fonte de inspiração e de conteúdo para as diversas tribunas, comissariados e redacções. Tentam produzir (e conseguem) factos rasteiros na cena político-social e atropelam-se uns aos outros, na ânsia de construir cenários artificiais, com um objectivo imediato e que apenas existem nas suas mentes distorcidas. São os burgueses, do saudoso Brel, a quem apetece “mostrar as boas maneiras” e não só. Afinal, “Les bourgeois c'est comme les cochons/Plus ça devient vieux plus ça devient bête”. Nada do que dizem, pensam ou fazem interessa à imensa maioria das pessoas. O país delas e deles existe noutra dimensão.

(Princípios?)
Em princípio não os têm de todo. A elas e eles se aplica o que dizia Grouxo Marx, “Estes são os meus princípios, mas para quem não gosta, tenho outros”. A mesquinhez de carácter e o vazio completo dos seu pensamento, são traços fundamentais de personalidades distorcidas. Será difícil encontrar alguma lógica interna de raciocínio no seu pensamento, a não ser a voraz gritaria demagógica, ou a esperteza velhaca e torpe da sua presença. Nessa linha de raciocínio, a sua função confunde-se com a acção, o que em última instância significa uma completa ausência de estratégia, e uma submissão voraz ao mais puro tacticismo. Assumem-se, entretanto, como representantes do povo e capazes de interpretar a “vontade colectiva”, uma coisa que aliás nem sequer existe, já que a sociedade sempre terá conflitualidade de interesses. E, ao “interpretar” à sua maneira, provocam um desastre imenso ao avanço das civilizações. São Elas e Eles que (desgraçadamente) comandam movimentos, partidos, estados e nações, causando uma distorção completa no relacionamento com os cidadãos. São obstinados e consequentemente perigosos, quer à saúde pública, quer à saúde mental. Misturam-se e fundem-se com sociedades anónimas, dando origem a uma estranha estirpe de seres andróginos e apedeutas, verdadeiramente inaptos para aceder à noosfera.
Mesmo queimados e destituídos, querem sempre incendiar tudo que lhes apareça à frente, ao lado, em cima e em baixo, para depois se lançarem contra tudo aquilo que conflitue com os seus pérfidos interesses.

Cuidado com Elas/es!

20 outubro 2017

A CHAMA INDELÉVEL DA PROPAGANDA


Toda a propaganda de guerra, toda a gritaria, as mentiras e o ódio, 
vêm invariavelmente das pessoas que não estão na luta
George Orwell

Se porventura fosse fácil escrever no meio de tanta tragédia, poderia bastar colar aqui e ali meia dúzia de palavras de circunstância, misturadas talvez por declarações mais ou menos correctas, do ponto de vista político, produzindo um texto equilibrado e sensato, como nos habituaram a ler, de há muitos anos a esta parte. A mistura de palavras-chave, devidamente escolhidas e tratadas, com o sensacionalismo barato da parafernália tabloide, entre imagens abusivas e comentários balofos e desprovidos de humanidade, constitui um caldo de cultura bem cozinhado, na era da pós-verdade. A grande maioria da comunicação social portuguesa enquadra-se nesta perspectiva, servindo a causa da inevitabilidade, como convém ao sistema de dominação intelectual (pelo menos) de uma população que podendo parecer acrítica, vai, entretanto, “aprendendo”, como teria que ser e sempre assim foi.
Se a memória é curta, tanto melhor. A apreensão da notícia é mais eficaz, tem mais impacto, é certeira quanto ao alvo e produz facilmente estragos, são breves momentos de lucidez colectiva, a bem do sistema de dominação. Não há contraditório possível, quando a notícia, deixa de o ser e passa a incorporar a “verdade” do sujeito que a produz. Porque, ao produzi-la, tem como objectivo, a manipulação. 

Parece sempre bem fazer afirmações que configuram “dados adquiridos”, como por exemplo, “a Ministra não está no lugar certo, é um erro de casting”, “a Ministra tem que ser demitida, ou demitir-se”, “o Estado não cumpriu o seu papel” e outras do género. Ficam bem, parecem ser consensuais, embora apenas o sejam no círculo restrito de corredores das redacções e de algumas sedes partidárias referenciadas. Contudo, devidamente e meticulosamente trabalhadas, são amplificadas e chegam aos lugares mais recônditos. Esse é o papel daqueles que têm nas suas mãos o poder da comunicação, do dinheiro e da finança, que detêm e passeiam nos ditos “corredores”. Assinala-se que tudo isto acontece num reduzidíssimo número de quilómetros quadrados, na capital de um País que arde, com a enorme responsabilidade deles próprios. O aproveitamento político, que facilmente se classificaria de vergonhoso e de despudorado sentido de horror, é a face visível desses “agentes”, que afinal nada têm a oferecer ao País, a não ser, menos Estado, mais miséria e pobreza, mais cortes, menos respeito por quem trabalha, mais submissão, mais dívida, e sem sombra de dúvida, mais tristeza. O espectáculo mediático montado nos últimos tempos pelos ditos “agentes”, que agora parecem constituir-se num clube privado de contras, é a prova da sua indigência política. Nada lhes interessa o que arde ou deixa de arder, fica muito longe deles, não se querem “queimar”, embora tenhas as mãos queimadas de subjugação.

Na vertigem do seu incomensurável ego, artificialmente forjado diante das câmaras da TV, dos microfones da Rádio e das redacções dos jornais, os agentes comentadores-analistas cavalgam diariamente um discurso ascético, desprovido de linguagem, a qual deveria ser o verdadeiro cerne da política. A primeira função da maioria da acção desses agentes parece confinar-se à construção de cenários artificiais que são montados com afinco, numa afanada senha de tentar reconstruir uma realidade que lhes seja tão ou mais próxima da sua racionalidade limitada. Uma vez que não capazes de entender a política na sua dimensão sistémica, analisam e/ou comentam sempre de forma autoritária, forjando e encorajando sentimentos primários nas massas, que é suposto não entenderem a dominação a que estão sujeitas. Afinal o tal populismo, que dizem querer combater. 

Nos últimos tempos, após se ter estabelecido o acordo parlamentar das Esquerdas, os agentes analistas-comentadores têm tentado desesperadamente redesenhar a cena que lhes seja mais favorável. De facto, as épocas já idas dos variados “blocos centrais” constituíam o seu terreno preferencial, um pântano imenso onde florescia a gestão do mais-ou-menos-na-mesma e da querida inevitabilidade, ao sabor da corrente indelével da austeridade consentida.
Exemplos recentes, que vão desde a “crise dos incêndios” à gestão da discussão do OE, passando pelo “roubo” de Tancos, são paradigmáticos, na sua forma, conteúdo e, claro, intenção. Se atentarmos em títulos como “OE18-Continua o sobe-e-desce dos impostos” (DN, 14 Outubro), “Inimputáveis?” (Público, 15 Outubro), “Isto para não falar de Tancos” (Público, 15 Outubro), mostram claramente uma atitude primária, mas persecutória, com intenções evidentes de colagem ao discurso da Direita e não para informar, ou mesmo comentar. Sempre e somente para produzir manifestos, qual discursos panfletários de comício ou manifestação. Aliás, para tal se encontra devidamente formado o novel clube privado de contras, já referido, com base no projecto “Observador”, uma clara opção da Direita conservadora e que já estende os seus tentáculos (garras?) a órgãos de comunicação social  como o DN, o Público, a TSF e a SIC, para citar apenas aqueles que têm alguma influência no nosso País e/ou detinham alguma tradição de qualidade e/ou por onde passaram (antes de serem meticulosamente “afastados”) jornalistas, editores ou analistas de reconhecido prestígio.
Os membros desse clube, “agentes de informação”, julgam-se intérpretes da vontade popular e de um alegado sentimento colectivo a que pretendem dar voz. O exemplo mais comum é, entre nós, a promoção de fóruns ou painéis, onde se “dá” a voz aos cidadãos, não sem antes se promover, através de um agente, a lavagem prévia das consciências, sob a forma de uma “opinião” tida como de um “especialista”. Estão, para todos os efeitos, bem longe dos cidadãos, dos seus anseios e preocupações, nem sabem como vivem, onde vivem e como por vezes trabalham em condições infra-humanas. Contem pelos dedos, aquelas e aqueles que se dedicam a escrever e a investigar sobre a matéria.

Um outro espectáculo tem, entretanto, lugar em Belém. O inquilino actual, homem de muito saber e “sabedoria”, demonstrados durante anos a fio com a fabricação de “factos políticos”, aproveita para embarcar na onda. Sob uma pretensa neutralidade e usando (por vezes, abusando) da força da palavra e da coloquial eloquência, misturada com um notável sentido de oportunidade, vai tentando desenhar uma presidência com contornos peronistas, cuja perigosidade é por demais conhecida. Desde o início do mandato, que a sua interpretação do uso do poder se baseia no contacto directo com as massas, fazendo-se “um amigo pessoal”, preocupando-se com cada situação individual, estabelecendo laços especiais com as classes médias e baixas, criando condições para que se exerça o que se pode designar por autoritarismo consentido. O ensaísta e escritor Umberto Eco introduziu, nos anos 90, um conceito a que chamou Ur-Fascismo, que teria como base e sustentáculo, um “populismo qualitativo”, que não reconhece, ou “desconhece”, os Direitos Humanos e que concebe “o povo” como “...uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime a vontade comum”, e que derivaria de uma “frustração individual ou social”. Então, em momentos determinados, surge um líder (assim?), que se assume naturalmente como intérprete directo do povo.

Interessante o aforismo popular, “Brincar com o fogo queima”. O brincar até que é bom, se não queimar. E, para queimar, temos os “agentes incendiários” que (infelizmente) pululam por aí.
Até ver.

08 outubro 2017

Se fosse homem, fumava!

Dêem um passo em frente 
e ...calem-se!"
.Karl Krauss (*)









Acontece, de quando em vez. Uma expressão, uma ideia, uma palavra que seja, que podem mudar uma cena, ou pelo contrário, entrar nela.
(Ai, quem me dera ser...)
Se o ser for o que parece ser, mas contudo não o é, porque sim, então o que não é, pode vir a ser, porque não.
Se tantos “ses” se acumularem na consciência pode muito bem acontecer que o estado de alma se sobreponha ao conceito. E daí poderá advir uma passagem, mesmo que inconsciente, a uma outra dimensão, onde tudo o que queremos que aconteça, acontece mesmo, porque o imaginário tem mais força que o real.
(Agora que estou além...)
Se fosse homem, fumava. Pois sim, também eu fumo, independente do meu atributo, masculino, feminino, ou outro qualquer que se proporcione. E que ninguém se obrigue a declarar o género (por exemplo), nem que seja (aí está) para pegar um cigarro e dar umas passas.
(Passo bem sem isso)
Aqui (ou seja, no tal “além”) não existem aparentemente regras abstrusas que queiram (possam) ditar obrigações de espécie nenhuma.
Digamos que existem bichos domésticos elevados à categoria suprema de “adjuntos”, ou até de improváveis emplastros, que sempre se intrometem.
(Vivo bem sem eles)
A Revolução está outra vez (outra vez?) na ordem do dia. Se fosse mulher, fumava, pois claro!
(Para não dizer que não falei de política...)

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(*) Poeta, dramaturgo, e jornalista satírico austríaco (1874-1936)



01 outubro 2017

Musicando(...ouvindo as águas do Douro)


A parte boa da música é que, 
quando te atinge, não sentes dor alguma...”
Bob Marley

Hoje é o Dia Mundial da Música!
Estivemos ontem em reflexão, para saber o que deveríamos hoje ouvir. Uma sinfonia de Stravinsky, uma área de Puccini ou de Offenbach, uma canção do Zeca Afonso? Sem prejuízo de qualquer um destes (tanta escolha), recomendo a Bella Ciao, uma canção popular do século XIX, que depois, em plena 2ª Guerra, se tornou um símbolo de luta e da Resistência contra o nazi-fascismo. 
Precisamos da Música, não só para ouvir (há quem não o consiga), mas também para sentir, seja de que maneira for. Escolhemos sempre a música que queremos ouvir e/ou sentir. Conforme o nosso estado de espírito optamos, romanticamente por uma "Barcarolle”, por um “The Dock of the Bay”, para a solidão, por um “Danúbio Azul”, para dançar, ou por um “Roadhouse Blues”, para simplesmente ir por aí... 
(A música é uma escolha)
Selectiva, sim.  Decidimos por nós próprios, temos então a música que queremos. Outra coisa muito diferente é alguém que nos quer dar música. Aí, temos também que decidir, ou aceitamos a música que nos querem dar, ou recusamos de todo.
Vivemos constantemente no delírio de uma sociedade de consumo que, por vezes nos “delicia” com toneladas de música, como o objectivo de nos moldar a um sistema que tentamos repelir.
(Como é diferente a nossa música...)  
No dia em que a imaginação nos leva da freguesia à Catalunha, há tanta “música” no ar. Que sentimos, mesmo sem a ouvir. Fala-nos da igualdade social, da democracia popular, da reversão de políticas perversas, do respeito pelas pessoas. Mas há também falas diversas, de intolerância, de ressentimento, de privilégios, de rendas para uns poucos, necessárias para “alimentar” a economia.
Na impossibilidade prática de assimilar informação tão distinta, há quem prefira nem ouvir, nem sentir. Ficam no sofá, digerindo um qualquer reality show, uma conversa de treta, ondem entram todas as queixas e onde se diz que são todos iguais, que querem é mandar, etc..., etc...
Nós não!
Então, voltamos ao início. Lembramos o “Pássaro de Fogo“ e dançamos com o Rei, no seu reino mágico. E pedimos, com o Zeca, que venham mais cinco (pelo menos), porque parece que há por aí “...quem queira deitar abaixo o que eu levantei”.
(E, na freguesia)
Lembramos o Douro (poderia ser o Tejo) e o rio que corre pela minha aldeia, discordando do Poeta ou concordando, quando ele se desdiz: “É mais livre e maior o rio da minha aldeia”.
(E pensamos em Barcelona)
Que "Nessun dorma" (ninguém durma), evocando a proclamação da Princesa e pensando num amanhã diferente, quiçá livre da submissão, livres de um governo tenaz e corrupto.  

(Hoje há música!)
Pode ou não estar do nosso lado, como o tempo. Mesmo assim, música. Porque eu a escolhi. Porque eu decidi. Porque eu também conto, é o meu poder a falar mais alto.
Nesta manhã de Outono, os catalães saudaram o Sol, pelas 5 da manhã. Quem sabe se cruzaram com algum invasor, oh Bella Ciao:
Una mattina mi son svegliato,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Una mattina mi son svegliato,
e ho trovato l'invasor...”

Musicando, decidindo e ...VOTANDO!

26 setembro 2017

DAQUI TANCOS, A TSF ESTÁ EM TODAS!


















O contributo inestimável que a TSF dá, uma vez mais, para a informação populista e demagógica, esteve hoje (como sempre) no “Fórum do Acácio” (vulgo Fórum TSF).
Ardilosamente configurado e engalanado com a presença de 2 comentadores habituais, o ex-Director (e agora Director do DN) Paulo Baldaia e ainda o Pedro Marques Lopes, o “Fórum” não é (como até poderia ser) uma forma de “ouvir a opinião dos ouvintes”. É, antes pelo contrário, uma sucessão de dislates e disparates populistas, devidamente orquestrado pelo(s) comentador(es) de serviço, bem como pela forma grosseira como a questão central é colocada à “discussão”

Mas a questão até poderia admitir-se “per si”, não fora a circunstância (central) que os ditos “comentadores” exprimem invariavelmente o mesmo discurso de uma (inédita) oposição ao Governo e ao acordo parlamentar das Esquerdas.  Chega a ser penoso ouvir os argumentos, as “preocupações”, as “recomendações” de uma putativa posição “independente”, reproduzindo inclusivamente estados de espírito.

Hoje, o assunto do dia, “Tancos e o roubo das armas”. Os “preocupados comentadores” preocupam-se (assim mesmo, com redundância) com a “gravidade”, com a “falta de sentido de estado” (do Ministro e do Governo), com a “ausência de informação” e outras. Exactamente as mesmas que a Direita. Nunca se questiona, neste caso em concreto, por exemplo, se houve mesmo um furto, ou se tudo não passa de (mais) uma encenação. Que por sinal até faria sentido, bastando atentar no facto de o insuspeito “Expresso” publicar “aquilo” (o dito relatório) a poucos dias das eleições. E quanto a este “estimado” periódico, que dizer da “coincidência” entre a classificação de “prestigiado jornal”, por parte de toda a Direita e pelo lado dos ditos “comentadores”?

Curioso? Acidental? Ocasional?
De todo, apenas a forma habitual de desinformar, de manipular e, digo mais, de adulterar factos, produzindo outros que, não existem, mas “têm” que existir, em favor de uma estratégia, de uma linha orientadora, de um desígnio. Quiçá perversos. Os seus mentores e/ou autores, decididamente não “encaixam” na realidade actual, no novo figurino do Poder, habituados desde Novembro de 1975 à alternância de um bloco central que, dava para o lado com que acordava, curiosamente sempre para o mesmo. A “fabricação” da informação é apenas uma parte da tentativa de enformar consciências, manipular a opinião pública, induzindo claramente, por exemplo, o sentido de voto nos actos eleitorais. E quando, em ultima instância, o não conseguem fazer, o recurso à falsa informação é corrente e “legítimo”.

Para nós, NÃO!



03 agosto 2017

(Afinal) Existe Pecado Ao Sul do Equador


Quando escreveu, o poema “Não Existe Pecado Ao Sul do Equador”, Chico Buarque de Holanda quis transportar para a época (final dos anos 70, 1978) um aforisma do pensador holandês Gaspar Barlaeus (1584-1648) que, entre outras obras, escreveu um relato do Império colonial holandês no Brasil. Precisamente esse, que dá título ao poema e que se apoia na tese “Como se a linha que divide os hemisférios separasse também a virtude do vício”. Quando, em meados do século XX, começaram a brotar na América do Sul, movimentos sociais de oposição ao capitalismo e ao imperialismo, no sentido da libertação dos povos e de uma justiça social diversa, desenhou-se no horizonte, um “pecado”. Em quase toda a América Latina o Exército era, em meados do século passado, a única força social organizada, estando o Estado à disposição dessa força, cujo objectivo seria o de “...proteger a sociedade contra a desordem”. A tese resultante do “corolário Roosevelt”, que assimilava a América Latina como “quintal dos EUA”, conduziria ao relativo sucesso da primeira revolução proletária no continente (Bolívia, 1952), na vitória da primeira revolução socialista (Cuba, 1959), na aniquilação Guarda Nacional de Somoza (Nicarágua, 1979), [Coggiola, 2014].

Argumentos novos?

Todos os que ora se apresentam a zurzir sobre Maduro, fizeram exacatamente o mesmo aquando da ascensão de Hugo Chávez ao poder, em 1999. Os mesmos argumentos, a mesma “velocidade de raciocínio”, a mesma vontade de ser contra a diferença. Mas então, contra quê, afinal? Começado obviamente pelo principio, deve dizer-se que ele não é mais que o preconceito burguês, anquilosado e mesquinho do sentido estrito do poder. Segundo este conceito, o poder do Estado deve ser baseado no equilíbrio entre as forças sociais e reprodutivas, alicerçado numa pretensa “democracia” que legitima a dominação do capital sobre o trabalho, ou mais recentemente, da predominância da finança, como motor único de desenvolvimento. Este poder deve ser, nessa perspectiva, exercido por uma elite consensual, que deverá estar em tudo alinhada com as “sagradas” regras de mercado, da livre concorrência. Tal implica, na “moderna” concepção neoliberal, uma série de condições objectivas, como sejam a fraca (ou nula) intervenção do governo no mercado de trabalho, a política de privatização de empresas estatais, a livre circulação de capitais internacionais e a adopção de medidas contra o protecionismo econômico, a abertura da economia para a entrada de multinacionais e a diminuição dos impostos e tributos.
Apelidado sempre de “palhaço” pela burguesia dominante, ou de “populista”, pelos donos da comunicação social e por muitos politólogos ocidentais, Chavez foi, acima de tudo, um estratega político brilhante, tendo conseguido e renovado de forma sistemática, alianças improváveis e aparentemente imprevisíveis. Salienta-se por exemplo, a proximidade entre Diosdado Cabello (Presidente da Assembleia Nacional até Dezembro 2015) e muitos colectivos da esquerda radical [Migus e Rebotier, 2014]. Habilidade política que haveria de justificar de certa forma o sucesso do chavismo e a defesa cerrada das conquistas populares, desde o início da década de 2000. Estávamos então em plena ascensão do “socialismo do século XXI”, que levaria a uma drástica redução da pobreza e das desigualdades.

Esquecendo o que se fez, desde 1999?

Na realidade, em 18 anos do processo bolivariano, “...a Venezuela aprovou a mais avançada Lei Fundamental da sua história, reduziu substancialmente os índices de pobreza, elevou os rendimentos do trabalho, diminuiu de forma marcante o desemprego e a precariedade laboral, alargou a milhões de idosos o direito a pensões de reforma, garantiu a ampliação e universalização de sistemas públicos de saúde e educação, liquidou o analfabetismo. Reduziu a desigualdade social a um dos níveis mais baixos numa região que ostenta os índices mais elevados do planeta. O Estado investiu na alimentação, habitação e cultura como nunca antes acontecera. Abriram-se novos espaços de participação popular e democracia participativa.”. Difícil de desmentir, ainda “...o registo de décadas de ditaduras e poder serventuário das oligarquias, já para não referir os séculos de domínio colonial, com todo o historial e cadastro de atrocidades e repressão, de detenções arbitrárias, torturas, desaparecimento e assassinatos políticos de dirigentes e activistas populares, de que a «democracia» venezuelana foi quiçá precursora na América do Sul, antes dos anos negros do Plano Condor, orquestrado por Henry Kissinger.”

O papel da “comunicação social” vendida e manipulada

A informação sobre a Venezuela raramente é fidedigna, é sempre do mesmo teor e reflecte sempre os pontos de vista da oposição e dos seus “parceiros” nacionais e internacionais. A exploração contínua de notícias sobre a inflação, ou as previsões que são feitas para o respectivo valor, variam de dia para dia, mas têm em comum um traço: a passagem para a opinião pública da catástrofe iminente. Alguns exemplos datados, pela disparidade ou pela falta de rigor, demonstram de forma clara o papel da informação que existe ao dispor, quer em formato escrito, quer nos media:
Jornal “El País”, 13 Abril 2016, sob o título “Venezuela terá inflação de 2.200% em 2017, prevê FMI”: “A economia venezuelana entrou numa espiral inflacionária que não parece mais ter fim. O Fundo Monetário Internacional (FMI) já havia previsto em janeiro um recorde de inflação neste ano no país, com a estimativa de 720% – ou seja, que os preços seriam multiplicados por mais de oito. Nesta terça-feira, porém, um novo relatório divulgado pelo Fundo em Washington foi além, ao prever uma taxa de até 2.200% no final de 2017. Para os anos seguintes, o problema se agrava até chegar a 4.600% de inflação anual em 2021.”
Jornal “Diário Económico”, 24 Janeiro 2017, com o título “Inflação na Venezuela vai em 800%, mas ainda não parou”, e sempre o FMI que prevê “...um agravamento das condições económicas do país”, e que diz que “...a contração económica será acompanhada de um cenário de hiperinflação, prevendo valores superiores a 1600%,” e finalmente, na sua previsão de outubro de 2016, “colocava a fasquia da inflação para 2017 nos 1660,05%”, 
Jornal “Folha de S. Paulo”, 10 Abril 2017, sob o título “Inflação pulveriza dinheiro na Venezuela” e se “sentencia” desta forma: “O bolívar é a cara mais visível da inflação na Venezuela. A alta de preços de 25% ao ano, sob Hugo Chávez, se acentuou com Nicolas Maduro e hoje se aproxima de 500%.”
Sabendo como funcionam as previsões do FMI, podemos dormir descansados. Não é por aí que virá qualquer mal ao mundo. O mal pior é essa perversa instituição ainda existir. Desafia-se então a curiosidade de encontrar na comunicação social um estudo sério, rigoroso e credível sobre a evolução da situação económica na Venezuela, desde a instauração do chavismo. Assinalamos aqui, como exemplo raro, o artigo de Renaud Lambert, na edição portuguesa do jornal “Le Monde Diplomatique” e onde se procuram analisar, quer a perspectiva económica, quer a evolução da situação politica, após a morte de Hugo Chávez em 2013, e se apresentam números e factos que são praticamente impossíveis de “encontrar” noutros media.
Por outro lado, existe ocultamento de notícias. Como por exemplo, o caso que ocorreu, no passado mês de Junho, no Estado de Anzoátegui, onde grupos da "oposição" incendiaram armazéns de alimentos e cadeias de distribuição, onde foram destruídas 50 toneladas de alimentos. O armazém em questão servia 278 escolas, 31 centros de diagnóstico médico, 3 prisões, 1 lar de terceira idade entre outras instituições.
A fabricação de notícias e a sua manipulação por um lado e as tentativas permanentes de desestabilização por outro lado, ajudaram a montar um clima de suspeição sobre o regime. 

Os “verdadeiros” defensores da “Democracia”

São vários, embora sejam invariavelmente os mesmos de sempre.
A União Europeia, que protagonizou a mais terrível crise de refugiados desde a segunda guerra mundial, que cauciona e apoia regimes fascistas no seu seio, que tenta impor a austeridade permanente a milhões de cidadãos, que criou uma espécie de regime imperial na Alemanha, vem agora pronunciar-se sobre a “validade” das eleições na Venezuela. Chega a ser patético, no mínimo de uma hipocrisia mal disfarçada, a ameaça de sansões. Sansões e embargos, penalizações sempre na senda da opressão dos povos e da minagem do aparelho económico, para desestabilizar o poder constituído.   A União Europeia, arroga-se no direito de não legitimar a Assembleia Constituinte resultante das eleições de 31 de Julho. Com que direito e com que moral?
O chefe corrupto do Governo de Espanha, um dos primeiros a pôr-se em bicos de pés contra a situação na Venezuela. Será que ainda sonha com o passado?
O fantoche americano, sobre o qual já se disse tudo, mas que continua no seu posto. Conhece-se bem o “trabalho” das diversas administrações americanas, desde o final da segunda guerra, para minar e destruir os regimes progressistas da América do Sul, os boicotes, assassínios e violações perpetrados, nomeadamente em Cuba, Chile, Nicarágua, Bolívia ou Equador, utilizando a CIA e grupos armandos clandestinos, quer na acção directa naqueles países, quer na destruição do aparelho económico, através nomeadamente da acção cirúrgica e certeira do FMI.

Instalação do medo e do “pecado”

Acresce a tudo isto, a inabilidade política de Maduro, incapaz de se mover num cenário controverso e ainda de dar resposta às sucessivas manobras de sabotagem do capital internacional. Tal e qual como no Chile, entre 1972 e 1973, um ano antes do assassinato do regime democraticamente eleito de Salvador Allende. 
Maduro não é Chávez, muito embora a questão fundamental não seja, embora ajude, de características pessoais e habilidades de negociação. O regime foi sabotado por dentro e por fora. A dita oposição, onde se encontram todos aqueles que, gritando por “liberdade” e “democracia”, mais não pretendem que seja “pôr o povo de joelhos”. A sua agenda, mais ou menos escondida, contém a reversão completa das conquistas da revolução, nos campos da economia, saúde, educação e ainda da destruição dos CLAP. Mais, os actuais contestatários do regime são mais ou menos os mesmos que intentaram o golpe de estado (falhado) de 2002, o povo da Venezuela não os deve ter esquecido tão depressa...
Finalmente e uma vez mais, o pecado, que afinal existe a Sul do Equador. É, na terminologia católica, um “pecado original”, ou apenas um “pecado venial”, para o qual sempre existirá um perdão? Seja qual for a resposta, o certo é que os oprimidos são de facto culpados da sua opressão. Ultimamente até, responsabilizados pelas crises do capitalismo, incapazes de assumir a sua culpa por pretenderem uma melhor distribuição da riqueza que eles próprios produzem. Nunca os ilibarão desta (e provavelmente de outras) culpa(s). Qualquer que seja a tentativa de encontrar uma alternativa, ao menos para uma melhor qualidade de vida, pela dignidade do ser humano, lá estará sempre alguém para lhes recordar o “pecado”. 
Não só afinal, a sul do Equador..

22 junho 2017

  PARA UM NOVO PARADIGMA DE DESENVOLVIMENTO 


Agir para não deixar ninguém para trás!
As palavras são retiradas do Relatório de Portugal que reúne os resultados do processo de consulta à Sociedade Civil, relativo às recomendações para implementação dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), no nosso País. Os 17 ODS constituem uma resolução da cimeira da ONU de Setembro 2015, que aponta um “…novo modelo global para acabar com a pobreza, promover a prosperidade e o bem-estar de todos, proteger o ambiente e combater as alterações climáticas[1].










O processo de consulta pública, que decorreu em 2016, foi construído e implementado por um conjunto de Plataformas e Redes da Sociedade Civil portuguesa[2], tendo em vista produzir um contributo estruturado comum das diversas organizações e, simultaneamente, influenciar a definição da Estratégia Nacional para a Implementação dos ODS, dando voz às aspirações e expectativas da Sociedade Civil relativamente à implementação da Agenda 2030 em Portugal. Os resultados apontam para a necessidade de sintetizar uma estratégia nacional, acompanhada por um plano global para implementação dos ODS, um documento programático de longo prazo. Foi com essa intenção que se realizou, no passado dia 19 de Abril, na Assembleia da República (AR), um Seminário para apresentação das recomendações para implementação dos ODS em Portugal. Na sessão foi salientado que o Plano deveria ser construído de forma participada, bem como ter em conta as dimensões nacional, regional e local e ainda a necessidade de se integrar com outros programas, nomeadamente PT 2020, Habitat III, e Estratégia de Desenvolvimento Local. O Plano deve estabelecer prioridades em função de necessidades localizadas, e utilizar uma linguagem simples e propositiva para o público em geral e ter uma abordagem holística. Deve ainda ter força vinculativa e não apenas persuasiva. Deve pressupor uma monitorização permanente e uma avaliação regular e participativa. Deve promover o conceito “Place-based approaches”, que significa “…a transposição e adaptação dos objectivos ao nível local, incentivando a criação de Planos Locais de intervenção integrada e a consciência da interligação dos problemas (e soluções) locais aos problemas (e soluções) globais.”[3]. Deve também “…reforçar o combate à corrupção, à regulação efectiva dos paraísos fiscais e respectiva regulamentação fiscal”.[4] E deverá criar ainda “…condições e incentivos para que o sector empresarial se posicione como investidor social e ambiental e/ou financiador de intervenções sociais e ambientais...” Deverá finalmente “…apoiar a Sociedade Civil dos países em desenvolvimento na influência dos respectivos Governos e estruturas de decisão[5].
Na sessão abordou-se ainda a necessidade de a AR: (a) conferir força vinculativa ao Plano, através de uma Resolução ou de um Decreto-Lei, (b) desenvolver uma acção permanente de fiscalização do Governo, (c) promover uma Comissão Parlamentar permanente para os ODS.

    O Pacto Global das Nações Unidas
    Merece particular referência o designado Pacto Global das Nações Unidas (UN), lançado em Julho 2000, em Nova Iorque. Havia sido anunciado por Kofi Annan[6] no Fórum Económico Mundial, em Davos, a 31 de Janeiro 1999. Esta iniciativa das UN teve como objectivo primeiro mobilizar a comunidade empresarial internacional para a adopção, nas práticas de negócios, de valores fundamentais e internacionalmente aceites nas áreas de direitos humanos, relações de trabalho, meio ambiente e combate à corrupção, contando com a participação de empresas, sindicatos, organizações não-governamentais e demais parceiros necessários para a construção de um mercado global mais inclusivo e igualitário. Uma rede que hoje se alarga a mais de 12 mil organizações, articuladas em cerca de 150 redes. O Pacto Global contempla 10 princípios que derivam de declarações universais, como a Declaração Universal de Direitos Humanos, a Declaração da Organização Internacional do Trabalho sobre Princípios e Direitos Fundamentais do Trabalho, a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento e ainda, a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção. Não sendo um instrumento regulatório, nem um código de conduta obrigatório, parece constituir mais uma iniciativa voluntária que procura fornecer directrizes para a promoção do crescimento sustentável e da cidadania. Eis os princípios. Direitos Humanos: (1) As empresas devem apoiar e respeitar a protecção de direitos humanos reconhecidos internacionalmente, (2) Assegurar-se de sua não participação em violações destes direitos; Trabalho: (3) As empresas devem apoiar a liberdade de associação e o reconhecimento efectivo do direito à negociação colectiva, (4) A abolição de todas as formas de trabalho forçado e obrigatório, (5) A abolição efectiva do trabalho infantil, (6) Eliminar a discriminação no emprego; Meio Ambiente: (7) As empresas devem apoiar uma abordagem preventiva aos desafios ambientais, (8) Realizar iniciativas para promover a responsabilidade ambiental, (9) Encorajar o desenvolvimento e a difusão de tecnologias amigas do ambiente; Contra a Corrupção: (10) As empresas devem combater a corrupção em todas as suas formas, incluindo extorsão e suborno. O Pacto Global configura à escala mundial, a Global Compact, organizada em redes, locais ou regionais, que permitem estreitar laços entre as empresas e outras partes interessadas e que, ao mesmo tempo, promovem uma partilha de experiências e desenvolvimento colectivo. No nosso País, existe a rede nacional do Global Compact, a Global Compact Network Portugal (UN GCNP), que reúne os subscritores da iniciativa com sede ou que operam em Portugal e que foi constituída formalmente em 2007.

Questionar o modelo actual de Desenvolvimento
Retomando algumas das premissas que parecem estar subjacentes às recomendações internacionais e que estão plasmadas nos ODS, a saber, a luta pela erradicação da pobreza, a promoção da prosperidade e do bem-estar de todos, a protecção do ambiente e combate às alterações climáticas”, encontramos porventura uma excelente base para tentar aproximar um modelo para o Desenvolvimento.
Em primeiro lugar haverá que redefinir o termo “Desenvolvimento”. Porque, apropriado de forma inadequada, pode dar origem a algumas confusões e ser inclusivamente fonte de equívocos. Qualquer dicionário da língua portuguesa poderá apresentar a designada “acção ou resultado de (se) desenvolver”, quer ao nível do significado, quer ao nível dos seus sinónimos, adjectivos como avanço, prosperidade, evolução ou progresso; mas também, propagação ou desdobramento; ou ainda, elaboração,  evolução,  explanação ou prolongamento. E finalmente um termo que encerra um conceito e que tem provocado uma tempestade de ideias, nem sempre aproveitadas da melhor forma: crescimento.
Mesmo que, como em muitos autores, lhe juntemos o termo “Sustentável”, poderemos talvez ficar pela rama do conceito, se o associarmos a uma “…forma de desenvolvimento e crescimento económico que tem como objectivo garantir a preservação adequada dos recursos naturais e do meio ambiente, tanto em termos espaciais como em termos temporais[7]
É necessário antes de mais, questionar o próprio modelo de desenvolvimento. Uma série, que parece não terminar, das chamadas “crises” na última década é tão só o resultado de uma concepção de desenvolvimento que ignora os dados naturais e sociais[8]. Baseiam-se na premissa dos recursos inesgotáveis, a prevalência do valor de troca em detrimento do valor de uso e, invariavelmente a acumulação de lucro e do capital. Resultado, uma acumulação de riqueza, sob a forma de produtos transaccionáveis, que conduz a uma tremenda desigualdade social, entre países e, principalmente nos países periféricos, a um enorme gap entre ricos e pobres, agravados ainda por cima por sucessivas políticas que, favorecendo sempre a finança, conduzem a situações de injustiça permanente. Ao renegar para segundo plano as pessoas, o modelo vigente de desenvolvimento, esgota os recursos do planeta, destrói a vida natural, produz situações de catástrofe e conduz uma imensa maioria da população mundial ao ostracismo e à pobreza. De facto, o modelo de desenvolvimento actual é baseado sobretudo na lógica do crescimento económico, com a sucessiva produção de bens. Calcula-se que, a continuidade daquela lógica, acarretaria no futuro mais 3 planetas Terra para a albergar. Produzindo demais e esgotando os recursos naturais, a consequência primeira é a de uma sociedade em luta constante pela sobrevivência. “Por um lado produzem-se necessidades artificiais e compulsivas que geram destruição enquanto as necessidades básicas (alimentação, saúde e cultura) não são satisfeitas em largos sectores da sociedade” [Rodrigues, J., 2007]. Dados publicados em 2010 mostram que, entre 1950 e 2005, a produção de metais cresceu 6vezes, o consumo de petróleo subiu 8 vezes e o de gás natural, 14 vezes. Actualmente, um europeu consome em média 43 quilos em recursos naturais diariamente, enquanto um americano consome 88 quilos, mais do que o próprio peso da maior parte da população[9]. O relatório elucida ainda que “Em 2006, os 65 países com maior renda, em que o consumismo é dominante, foram responsáveis por 78% dos gastos mundiais em bens e serviços, mas contam com apenas 16% da população mundial. Somente os americanos, com 5% da população mundial, ficaram com uma fatia de 32% do consumo global. Se todos vivessem como os americanos, o planeta só comportaria uma população de 1,4 bilhão de pessoas.”



                            




Isabel do Vale, Natura, (2013)
     O caminho do Ecodesenvolvimento
O pensamento dominante, suportado por uma imensa máquina de comunicação social, pretende criar a ilusão de que não existe alternativa (T.I.N.A.). Ele é de facto suportado por uma lógica de causalidade li near, excluindo propostas ou soluções que possam, em qualquer caso, prejudicar a continuidade das políticas desastrosas para a maioria da sociedade. Todavia, a consciência da necessidade de mudança começa a enraizar-se em sectores cada vez mais vastos, a começar pelos mais jovens e aproveitando a difusão permanente de informação sobre as questões sociais, ambientais e de políticas do território.
Opor o pensamento sistémico ao pensamento linear é o primeiro passo para a mudança civilizacional. É cada vez mais necessário cimentar um modelo de tipo novo, baseado em um paradigma de desenvolvimento que faça o contraponto com o actual. “Um modelo civilizacional que regenere o capital natural criando um metabolismo biológico circular que permita reciclar os nutrientes invertendo o processo linear de esgotamento e contaminação [Rodrigues, J., 2012]. O que nos leva a considerar a necessidade de pensar de uma forma sistémica, numa perspectiva ecológica e de desenvolvimento sustentável nela baseado: o desenvolvimento ecologicamente sustentado.
Uma das questões emergente é sem dúvida a da energia. A crise de energia advém do esgotamento dos recursos naturais explorados pelo modelo de desenvolvimento actual. Calcula-se que, num horizonte temporal de 4 ou 5 décadas, terão de ser alteradas as fontes de energia habituais, devido ao fatal esgotamento de petróleo, urânio e gás. Da falência das políticas baseadas nos combustíveis fósseis, emergem novas fontes como a solar, eólica, hidrogénio, biomassa, geotérmica, ondas, agro-combustíveis, fusão nuclear, … O nosso País viu nascer, em finais do século IXX[10], um cientista fabuloso que, na opinião de Jacinto Rodrigues[11] possuía uma visão muito particular do mundo, “… uma forma pré-ecológica que o tornou pioneiro desta concepção orgânica do planeta e da abrangência aos ecossistemas e à biosfera em geral.” Mais conhecido no estrangeiro que na sua terra, o Padre Himalaya, foi o primeiro responsável pela divulgação das energias renováveis, particularmente da energia solar, para além dos estudos e práticas, em naturopatia, em particular da fitoterapia e da hidroterapia.
O caminho passa naturalmente pela proposta de uma visão holística, combinando e correlacionando os aspectos económicos, políticos, culturais, sociais, ambientais, utilizando uma abordagem sistémica, uma análise da forma como as diferentes dimensões se interpenetram e interdependem. Fundamentalmente, trata-se de posição ética que advoga um desenvolvimento voltado para as necessidades sociais mais abrangentes, que dizem respeito à melhoria da qualidade de vida da maior parte da população, e o cuidado com a preservação ambiental como uma responsabilidade para com as gerações futuras. Trata-se então "…gerir a natureza de forma a assegurar aos homens de nossa geração e a todas as gerações futuras a possibilidade de se desenvolver” [Sachs, I., 1981].
Definido como Ecodesenvolvimento, um termo introduzido pelo economista e ecologista alemão, Karl Kapp, representa um conceito novo de desenvolvimento e defende a integração das vertentes  do bem-estar social e da preservação ambiental, no desenvolvimento.

    Alternativa ao conceito de Crescimento: o Decrescimento Sustentável
As razões pelas quais um determinado paradigma é escolhido em detrimento de outro não são apenas teóricas, mas também epistemológicas. A economia neoclássica está estreitamente vinculada ao positivismo lógico e favorece a concepção de que o crescimento económico virtualmente ilimitado seria condição necessária para o desenvolvimento económico [Fernandez, B., 2011]. Existe na sociedade civil, muito por força dos sucessivos apelos ao designado “crescimento económico”, uma permanente submissão das pessoas e dos Estados, aquele que parece ser um desígnio dos povos, para o crescimento. No ano 2002, o pensador austríaco Ivan Illich, o homem que defendia a desescolarização da sociedade, falaria em público pela última vez, num colóquio intitulado “Desfazer o desenvolvimento, refazer o mundo”, vincando uma posição que o título do evento esclarece de forma inequívoca: os recursos naturais são limitados não permitindo o crescimento infinito.
A necessidade de uma (ou mais) alternativas ao antigo paradigma, havia sido anunciada já nos anos 70 do século XX, por alguns autores, das áreas da Economia, Sociologia, História e Filosofia, que advogavam uma abordagem holística, dos quais se destacam, por exemplo, Nicholas Georgescu Roegen, Ernst Fritz Schumacher, Rachel Louise Carson, Cornelius Castoriádis. E na actualidade, Maurizio Pallante, Serge Latouche, William Rees e Jacinto Rodrigues.
A luta pela sobrevivência está na ordem do dia. Actualmente estamos a produzir demais, e se a população mundial chegar, como se prevê, aos 9,6 biliões em 2050, serão necessários (como já referimos) “…quase três planetas Terra para proporcionar os recursos naturais necessários a fim de manter o anual estilo de vida da humanidade”[Banco Mundial, 2010]. Foi aliás esta uma das premissas fundamentais para que fosse incluído o tema “consumo” na preparação e discussão dos ODS para 2030. Na realidade, o que está em causa não é somente uma questão de defesa dos direitos das pessoas, do ponto de vista da sua autonomia, dos laços que estreitam, da distribuição de renda, da fragilização das relações sociais e da exclusão a que estão sujeitos. É também a questão dos limites biofísicos do planeta Terra e dos impactos resultantes da degradação permanente do ambiente.

A transição de um antigo para um novo paradigma é uma revolução científica. Os cientistas sociais de um conceito diverso, tomam a defesa explícita pelo aumento das actividades económicas que fortalecem a saúde humana e a diminuição das que intoxicam a sociedade e defendem uma ruptura. E como de uma ruptura se trata, não basta reproduzir conceitos enganosos como “crescimento verde” ou “desenvolvimento sustentável”. É o Decrescimento, um conceito sócio-político-económico, que se baseia nas testes da Bioeconomia e que advoga que o crescimento económico, entendido como aumento constante do PIB[12] dos Estados, não é sustentável pelo ecossistema global. Serge Latouche[13] chama a atenção para o facto de o Decrescimento ser a bandeira de um projecto alternativo para uma política do pós-desenvolvimento.  Segundo ele, o Decrescimento é uma das formas de fazer ver que um crescimento ilimitado não é possível num mundo com recursos limitados. e mais, que a melhoria das condições de vida deve ser obtida sem aumento do consumo, mudando-se o paradigma dominante.
o decrescimento económico propõe a diminuição das actividades económicas e financeiras à escala mundial, com implicações à escala de cada país; menos produção de bens comerciáveis, menos deslocamentos, diminuição do horário de trabalho, menos poluição e desmatamento. ivan illich utiliza o exemplo do caracol que constrói a sua concha adicionando uma a uma, espirais cada vez maiores até parar bruscamente e começar a fazer voltas decrescentes cada vez menores. apenas uma espiral a mais faria com que sua concha fosse 16 vezes maior, sobrecarregando o caracol. com uma concha 16 vezes maior, todo o seu esforço seria direccionado para aliviar as dificuldades criadas por esse erro de cálculo. com esse tamanho, os problemas multiplicam-se em progressão geométrica, enquanto a capacidade biológica do caracol só poderá crescer em progressão aritmética. o decrescimento utiliza como símbolo de suas ideias a sábia figura do caracol [Franco, E, 2011].

       

  






Jacinto Rodrigues, Deserto, (2012)

     Do Consumismo à Sustentabilidade, uma questão de Cultura
Um dos mais felizes conceitos elaborados para uma estimativa do impacto que o nosso estilo de vida tem sobre o Planeta, é o de Pegada Ecológica. Desenvolvido no ano 1996 pelos especialistas William Rees e Mathis Wackernagel, ajuda a perceber “…a quantidade de recursos naturais que utilizamos para suportar o nosso estilo de vida, onde se inclui a cidade e a casa onde moramos, os móveis que temos, as roupas que usamos, o transporte que utilizamos, o que comemos, o que fazemos nas horas de lazer, os produtos que compramos, entre outros. A Pegada Ecológica não procura ser uma medida exacta mas sim permitindo avaliar até que ponto a nossa forma de viver está de acordo com a sua capacidade de disponibilizar e renovar os seus recursos naturais, assim como absorver os resíduos e os poluentes que geramos ao longo dos anos.” [Quercus]. O Relatório Brundtland[14], elaborado pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, “…faz parte de uma série de iniciativas, anteriores à Agenda 21, as quais reafirmam uma visão crítica do modelo de desenvolvimento adoptado pelos países industrializados e reproduzido pelas nações em desenvolvimento, e que ressaltam os riscos do uso excessivo dos recursos naturais sem considerar a capacidade de suporte dos ecossistemas”[Wikipedia].
Este e outros conceitos, que facilmente poderíamos integrar, numa perspectiva de Educação Permanente, deveriam fazer parte de uma agenda global que poderíamos designar de Educação para o Ambiente e o Consumo. Essa agenda seria iniciada no Ensino Escolar nos primeiros níveis da Educação oficial. A sensibilização para as diversas temáticas ligadas aos conceitos e à realidade actual seriam a melhor resposta contra o processo de formatação das consciências, sistematicamente levado a cabo, quer pelos desvarios do economês[15], quer pela desinformação da comunicação social controlada por grandes grupos financeiros.
Mais e melhor Educação significam menos sujeição e menos dependência. O cidadão informado e devidamente formado, é potencialmente um agente de transformação, a nível local, nacional e internacional. Neste momento, a indústria detém (ainda) um monopólio radical sobre as necessidades humanas, a técnica industrial cria necessidades fictícias para as pessoas, e sugere que apenas  os bens e serviços produzidos por ela são capazes de atender essas necessidades.
O actual modelo de desenvolvimento não consegue encontrar qualquer saída para as sucessivas crises, que não seja “austeridade em cima de austeridade”, sempre paga pelos trabalhadores de todos os Países. E não apresenta soluções concretas, para além de um turbilhão de fantasias, que entretanto vão mudando de formato a toda a hora, na tentativa (vã) de dar resposta imediata aos interesses dos detentores dos meios de produção.
O Novo modelo de Decrescimento Sustentável, prevendo quer a mudança radical da essência do modelo socioeconómico, quer aquela que reporta aos valores pessoais e uma nova atitude perante a Natureza, significa um caminho para a preservação dos recursos e para uma qualidade de vida consentânea com a dignidade do ser humano.

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Fontes e Referências
·     Centro Informação Regional das Nações Unidas para a Europa Ocidental, “Guia sobre Desenvolvimento Sustentável - 17 objetivos para transformar o nosso mundo”, (2016), 3-34
·     Jackson, T., “Prosperidade sem crescimento, Economia para um Planeta Finito”, (2013), 155-160, 201-216
·     Latouche, S., “Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno”, (2012), 6-8, 25-26, 108-110 
·     Rodrigues, J, “Crescimento, Decrescimento Sustentável e Desenvolvimento Ecologicamente Sustentável”, (2013), 13-15
·     Rodrigues, J, “Sociedade e Território, Desenvolvimento Ecologicamente Sustentado”, (2006), 35-43
·     Sachs, J. “A Era do Desenvolvimento Sustentável”, (2017), 25-28 
·     Worldwatch Institute, “Transformando Culturas - Do Consumismo à Sustentabilidade”, (2010), 3-8, 38-42, 127-128.
·     Sites consultados:
×    http://conservacao.quercus.pt/content/view/46/70/
×    http://globalcompact.pt/
×    http://www.monde-diplomatique.fr/2003/11/LATOUCHE/10651#nb7
×    http://www.pactoglobal.org.br/artigo/56/Os-10-principios
×    http://www.unric.org/pt/objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel
×    https://br.boell.org/pt-br/2015/03/04/decrescimento-uma-proposta-alternativa-ao-desenvolvimentismo
×    https://nacoesunidas.org/banco-mundial-serao-necessarios-3-planetas-para-manter-atual-estilo-de-vida-da-humanidade/
×    https://pt.wikipedia.org/wiki/Ivan_Illich
×    https://pt.wikipedia.org/wiki/Nicholas_Georgescu-Roegen
×    https://en.wikipedia.org/wiki/Cornelius_Castoriadis


[1] Introdução ODS, disponível em: http://www.unric.org/pt/objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel
[2] ANIMAR, Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local; Centro Português de Fundações; CGTP-IN , Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional; CNJ, Conselho Nacional de Juventude; CONFAGRI, Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas de Portugal; Minha Terra , Federação Portuguesa de Associações de Desenvolvimento Local; Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres, Plataforma Portuguesa das ONGD.
[3] Excerto do documento “Em Direção ao Desenvolvimento Sustentável – Agir para não Deixar Ninguém Para Trás- Consulta Pública à Sociedade Civil Portuguesa sobre a implementação dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)
[4] Idem, ibidem
[5] Idem, ibidem
[6] Secretário-Geral das Nações Unidas, à época
[7] Dicionário de Português on-line
[8] Habitualmente designadas “externalidades”
[9] Relatório “Estado do Mundo – 2010, da autoria do Worldwatch Institute (WWI), disponível em: http://wwiuma.org.br/estado_2010.pdf
[10] Manuel António Gomes (1868-1933), mais conhecido como Padre Himalaya.
[11] Professor Jubilado da Universidade do Porto, pensador e filósofo. Biógrafo do Padre Himalaya
[12] Produto Interno Bruto de um país é o montante dos bens e serviços por ele produzidos num dado ano, ie, o somatório dos consumos público e privado, do investimento das empresas e das exportações líquidas. Fonte Infopédia
[13] Filósofo, Ensaísta e Economista francês, nascido em 1940, é professor emérito da Faculdade de Direito, Economia e Gestão Jean Monnet da Universidade de Paris XI e um dos contribuintes históricos de “La Revue du MAUSS” (Mouvement anti-utilitariste en sciences sociales). Fonte Wikipédia
[14] Documento intitulado Nosso Futuro Comum (Our Common Future), publicado em 1987.
[15] Termo depreciativo/irónico dado a uma” linguagem” com expressões próprias, das áreas da Economia e Finanças, de difícil compreensão. Fonte Wikipedia