"Do rio que tudo arrasta, se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem" Berthold Brecht
rio torto
14 fevereiro 2021
13 fevereiro 2021
É O DIA DA RÁDIO!
Se puderes, ouve.
Ouve a rádio que ciranda por aí, possivelmente num transístor perto de ti. Está provavelmente presa em qualquer esquina, mas passa por aí. Não tem imagem, mas pode albergar belas alegorias, ao contrário da concorrência, onde se vê, a toda a hora, o horror do espectáculo, a vilania da agressão que entra pelos olhos dentro. A rádio que um dia libertou o País, à custa de tantos subterfúgios, de tanto enredo, na imaginação fértil de tanta gente, que nos deliciava com a doce amargura dos tempos de cólera. A rádio que um dia nos dava a voz da liberdade e no outro passava o discurso hostil da mentira.
A doce ilusão.
“bic laranja, bic cristal, duas escritas à vossa escolha”, “o boca-doce é bom é, diz o avô e diz o bebé” e esta que afinal quase parecia dar cartas, mas que se perdeu na espuma dos dias cinzentos, onde ficou a soberania, “o que é Nacional é bom”. Os jingles, assim ditos, perdidos na noite?
Perdoem-me se insisto, há uma beleza imensa na rádio, um afrontar constante à lembrança remota que vive em nós. Perdoem-me se invoco a corrente, e diga, “A rádio vai em ondas como o mar”[i], frase evidentemente roubada ao Fernando, um Amigo que rema invariavelmente contra uma maré de marasmo e nos convoca sempre ao desassossego. E se com ele vou nessa maré, que tem tanto de vaza, como de deliciosa correnteza, posso quedar-me, por exemplo, ao pé do mar da palha, ou “...daquela janela virada p´ró mar”[ii], ou de qualquer doca seca que me acolha, em dias de servidão.
Vê se consegues ver-me de lá, com o rádio de pilha ou, na versão digital do celular com fones. Estou penosamente à espera de mim, ou sagitando no ar, “Há sempre alguém que semeia/Canções no vento que passa.”[iii]
Que a rádio pode passar.
Quem não passa é esta saudade daqueles tempos em que o ouvido se colava, para escutar o som do silêncio, ou o barulho das luzes, quando as havia. Andávamos “Em Órbita”, ou no “Limite”, com “Tempo Zip” ou “Pão com Manteiga”[iv], no rádio clube ou nos associados de Lisboa, que a nacional emissora não atracava nas nossas vidas, a não ser para a propaganda.
A rádio que nos ensinou já não mora aqui, mas pode morar em qualquer canto deste País, como ele, sempre presente, sempre adiado.
Deixa que te cite Amigo meu, que falas de uma “longínqua casa dos prodígios”, ou da “plasticidade das palavras”. Como tu acredito “...que a rádio vê e dá a ver no escuro.”[v]
[i] Crónica do meu Amigo Fernando Alves, TSF, 30 Junho, 2020, às 08:50 horas
[ii] Excerto de “Aquela Janela Virada P'ro Mar”, Frederico de Brito/Tristão da Silva
[iii] Excerto de “Trova do Vento que Passa”, Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira
[iv] Nomes de programas da rádio, dos anos 60 e 70
[v] Idem nota 1
29 janeiro 2021
PRESIDENTE DA REPÚBLICA: UM PROJECTO PARA O PAÍS?
“Quem luta, pode perder.
Mas aquele que não luta, já perdeu”
Bertholt Brecht
Tenho seguido, com a maior atenção, os escritos e as crónicas das rádios e TV, a propósito dos resultados das eleições presidenciais. Comentários que me merecem todo respeito e consideração, em particular daqueles que o merecem. De uma forma geral, constato alguma convergência e similitude com o que penso.
Tomo por base três conceitos da avaliação de projectos, para uma breve análise das eleições de Domingo passado e da sua potencial influência, no possível desenho de um projecto para o País. Reputo como fundamental a existência de tal projecto, bem como da importância de ser a Esquerda a propor e a protagonizar a sua possível implementação. Porque, a não ser assim, e a propensão da Esquerda em continuar a viabilizar as propostas (e mesmo a governação) do Partido Socialista, tudo continuará mais ou menos na mesma, arrastando o País para o marasmo habitual, e a consequente degradação das situações política e social.
Os parâmetros que vou utilizar nesta análise, são a relevância, a eficácia e a sustentabilidade. Qualquer deles faz parte da avaliação de um projecto. É com base na apreciação de cada um, que é possível qualificar e quantificar o valor do mesmo e, em casos específicos, determinar se o projecto deve ser (ou não), objecto de financiamento.
A Relevância
Precisamente por ser relevante, o que afirmo atrás, este parâmetro de avaliação é de primordial importância. E, para começar, começo por colocar a questão seguinte: qual dos candidatos apresentou um projecto relevante? A resposta a tal questão é, para mim, bastante óbvia. Só existiu verdadeiramente um projecto relevante para Presidente da República e foi protagonizado por João Ferreira. Claro e preciso, foi até alvo de elogios por parte de insuspeitos comentadores da nossa praça. Mereceu até o epíteto de “Candidato da Constituição”. Nenhum dos concorrentes apresentou uma proposta com a relevância daquela. E, alguns dos candidatos, não apresentaram sequer um projecto, digno dessa significância.
Num projecto, a relevância é medida pela pertinência em relação a alguns sub-parâmetros, como por exemplo, necessidades e limitações, tipologia dos participantes e beneficiários e outros elementos de valor acrescentado, dos quais destaco, pela sua aplicabilidade, as condições de vida, habitação, educação e saúde das populações, as necessidades de pessoas com deficiência, os direitos das minorias,. Mesmo sabendo que não é o Presidente que governa, basta dizer que é a ele que compete a fiscalização e a promulgação de leis e diplomas, para perceber o alto significado do projecto do Presidente da República. E da sua relevância.
A Eficácia
O “prémio”, a que reporta este parâmetro vai direitinho para Marcelo. Na verdade, sem fazer campanha, abdicando de tempos de antena, fugindo sistematicamente a discutir fosse o fosse, distribuindo elogios e sorrisos por quase todos os concorrentes, desarmando os adversários, driblando o confronto e preferindo a concordância com cada um, subestimando a sua própria candidatura, porque era afinal ele, o Presidente em exercício. Mesmo que acordemos em dizer que Marcelo desvalorizou completamente o acto eleitoral, temos de concluir que essa possível “estratégia” resultou em pleno, indo até ao limite de votação, que terá ultrapassado mesmo as melhores expectavas. Na prática, conseguiu uma votação, em números e em percentagem, superior à da primeira eleição, o que não deixa de ser notável.
Em nome da Eficácia, supõe-se que seja respondida a pergunta, os resultados desejados estão a ser alcançados? Assim sendo, em breve o saberemos, com Marcelo reeleito e agora na posse de uma maioria significativa, que possa até dar corpo a uma qualquer recomposição da Direita, esfrangalhada nesta eleição, sem um líder capaz e reconhecido, pelo contrário, parecendo ser refém de um arrivista, com contornos fascizantes e de duvidosa reputação.
A Sustentabilidade.
Manda o critério, que seja possível saber até que ponto e de que forma, o impacto do projecto é (ou não) sustentável. Exige-se ainda que a proposta apresentada seja de tal forma convincente, que leve um possível financiador a apostar no projecto, desde que fique amplamente demonstrado que o desenvolvimento posterior de actividades consegue “sustentar” a proposta, de tal forma que o projecto continue o seu caminho, mesmo depois de o financiamento terminar. Aqui impõe-se dizer que talvez não tenha estado em jogo, um verdadeiro projecto sustentável, que a existir, seria o garante de uma estabilidade política, tão a gosto do centrão partidário, que o Partido Socialista insiste em corporizar, mesmo sem “parceiro” conveniente. Não, de facto não tivemos um projecto sustentável para o País e é deste ponto que quero partir, para afirmar que somente a Esquerda pode fazê-lo, ainda que não estejam ainda reunidas as condições subjectivas, para que tal aconteça.
Alguém então se quer “atravessar”, para financiar este projecto, deste Presidente, ainda que impondo regras e critérios rígidos, para acautelar um desempenho dos actores envolvidos?
Apenas a evolução dos acontecimentos, particularmente neste tempo de incerteza permanente, no curso de uma pandemia que teima em manter-se, poderá avançar uma resposta. Só que este não é um projecto qualquer, um mero exercício de actividades. Aqui joga-se a sobrevivência dos cidadãos, em que uma parte significativa está, de há muito tempo a esta parte, sistematicamente a perder direitos e possibilidades de ter uma viga digna. Haverá, a história assim o diz, quem se aproveita da situação, para lançar a confusão, o pânico, o medo, semeando o ódio e propondo confrontos de difícil previsão.
Será mesmo “isto” que os portugueses querem?
A resposta a esta questão provavelmente não existe.
Existem, isso sim, algumas aproximações que, deveremos considerar como pontos de partida para o debate, para o diálogo entre actores diversos, para convergências (mesmo que de ocasião), para o desenho de algumas prováveis soluções, ou no mínimo, para conseguir que os actuais intervenientes no campo da Esquerda, aceitem vir ao terreno, ainda que “agarrados” a uma qualquer agenda de circunstância.
Pode perguntar-se ainda, como aliás o fizeram alguns comentadores políticos, qual a verdadeira intenção de milhões de pessoas que saíram de suas casas, onde estão confinados, para ir exercer o seu direito de voto? Qual o sentido do seu voto? Como distribuíram as suas “preferências”, sobre as propostas que ouviram dos candidatos? Se porventura mudaram o seu voto, após o decurso de uma campanha atípica? Poderia multiplicar aqui este exercício, por grupos etários, por distritos, por concelhos, etc..., etc... Certamente veremos trabalhos específicos, nomeadamente académicos, nesse e noutros sentidos.
Todavia, há questões que nos assaltam. Uma pessoa, um cidadão, uma família, que ganha o ordenado mínimo, para sustentar uma casa, que vê esse salário (quando existe, claro) subir apenas uns míseros euros, enquanto as coisas que precisa comprar, os serviços que pensa adquirir, aumentarem todos os anos de tal forma que a sua vida, a vida dos seus, não tem forma nem rumo, não podem pagar, não podem poupar, não podem ir a um teatro, a um cinema, a um espectáculo, a casa onde vive (se casa for...) não tem condições para se protegerem, para se aquecerem do frio e da chuva. Que podem pensar? Que e como podem decidir, quando o Estado não cuida de si e dos seus? Que ouvem, que vêm um governo fazer, para melhorar (ainda que apenas um pouco) a sua condição?
Será que, num estertor de fúria se viram para alguém que, apesar de não lhe prometer coisa alguma, fala do Poder como um conjunto de bandidos e de culpados que apenas pensam em se manterem lá, para se servirem dos cargos e possivelmente enriquecerem, à custa de malfeitorias várias?
As políticas de tibieza até agora levadas a cabo, com pequenos avanços ao sabor de correntes de ocasião, sempre com recuos, quando se tratar de afrontar (quer dizer, de não afrontar) os interesses rentistas habituais, só podem conduzir ao estado em que ora nos encontramos.
Aí, a questão que coloquei, pode adquirir uma importância devastadora.
Há um projecto para o País?
O País pode ser um projecto, mas para isso precisa de autonomia, que, em termos da Constituição da República, adopta a designação de Soberania.
É mesmo muito difícil encontrar uma saída (airosa?), sem abordar de frente, com a tal frontalidade que se exige, sem deixar de lado a ideia, o conceito, o significado verdadeiro de soberania.
Aqui a interpreto como verdadeira alternativa.
Aqui a deixo para reflexão, a quem lhe queira pegar. Sem receitas, sem preconceitos.
Passa (deve passar), em primeiro lugar pela definição de uma estratégia. Uma estratégia de Esquerda. Ou, se preferiram, das Esquerdas.
A definição de uma estratégia para o País será a melhor das respostas que a Esquerda pode dar. Até porque, o que falta ao País é, sem qualquer dúvida, uma estratégia. Que o governo actual não tem, nunca teve, nem nunca terá.
Para tal, será necessário, antes de mais, encetar um diálogo com todos aqueles, pessoas individuais, associações e cooperativas, organizações sociais, empresas e sindicatos, partidos políticos e outras entidades, que fazem da Cidadania, a sua verdadeira função. Sem querer citar aqui nenhuma, sempre digo que todos as conhecemos, “passamos por elas”, reportam-nos a elas, citámo-las tantas vezes. Talvez seja a hora de as convocarmos.
Quem terá a “coragem” necessária para fazer isto?
Talvez seja a hora, finalmente, de pensar que vale a pena.
23 janeiro 2021
“PLEASE, COME TALK TO ME”
O meu é hoje, interdito e circunscrito, esperando melhores sortes. Aproveito o ensejo, meu Caro Amigo, “...o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”. Sim, “...Aqui na terra 'tão jogando futebol/ Tem ...muito choro.../Uns dias chove, noutros dias bate sol”. Falta-nos, é verdade, o samba e o rock'n'roll. Falta-nos também a morna, a salsa e o eterno tango, num corridinho de movimentos perpétuos, uma dança. A menina dança?
Sinto falta de inteligência, sem ser artificial. E de sabedoria também. Recorro ao Eco, ao Saramago, ao Torga, sei lá a quantos mais. Calvino e Mann, talvez. Os Poetas, quiçá. Yeats e a sua sabedoria e rebeldia, “...A sabedoria é uma borboleta/Não uma sombria ave de rapina”. Ou esta, “Oh, há sabedoria, sim,/Naquilo que os sábios diziam;/Mas entra essa corpo por instantes/E deixa passar a tua cabeça/Até que eu tenha contado aos sábios/Onde acha o homem o seu consolo”.
“Podes falar comigo?”, diz e canta o Peter, que tem sabedoria e inteligência, coisa que parece não abundar por aí. “…Come down, come talk to me/In the swirling curling storm of desire /Unuttered words hold fast/With reptile tongue, the lightning lashes/Towers built to last/Darkness creeps in like a thief”
O medo do escuro, que falta me faz o contacto, a cena do abraço, que estreita o que há de melhor em nós. Rir, dançar e recusar o óbvio e o redundante. Talvez desobedecer. O sentido da obediência traduz-se, segundo Frédéric Gros, em uma “...relação que forças a agir segundo a vontade doe um outro, de modo que, quando ajo permaneço passivo”.
No dia em que nos “convidam” a alguma “passividade”, saibamos desobedecer, sejamos (ainda que um pouco) insubmissos, o dom da eterna liberdade de pensar, agir e intervir na comunidade. Manda a sanidade mental, a inteligência.
“Eu quero apenas ser cruel naturalmente/E descobrir onde o mal nasce e destruir sua semente”.
O canto doloso dos profetas, ditos salvadores, enleado na teia “enternecedora” da obediência, não é para aqui chamado. Deixa-me rir, “Pois é, pois é/Há quem viva escondido a vida inteira/Domingo sabe de cor o que vai dizer/Segunda-feira”.
É já amanhã!
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Contribuições, ainda que involuntárias, de José Saramago, Chico Buarque de Holanda, Peter Gabriel, William Butler Yeats, Frédéric Gros, Ivan Lins e Jorge Palma.
17 janeiro 2021
VOTO JOÃO FERREIRA!
A última coisa que esperaríamos confinar seria mesmo a esperança.
Por isso, hoje, no dia em que se antecipa o voto nas eleições presidenciais, deixo aqui o meu apoio ao JOÃO FERREIRA.
Porque dele espero, a defesa, o aprofundamento e ampliação do regime democrático consagrado na Constituição, como se pode ler na declaração de princípios da sua candidatura.
Porque considero fundamental combater o medo, que como ele afirma, “...é exacerbado e manipulado para restringir direitos e liberdades. A pretexto do combate ao vírus e da garantia de uma alegada “segurança”, impuseram-nos estados de emergência que nada tinham a ver com a observância de normas que a população já cumpria (e continuou a cumprir depois de abandonados), mas que visavam restringir o protesto e a luta, contra os abusos, os aproveitamentos, o oportunismo dos que querem continuar a enriquecer à custa da exploração dos trabalhadores e do saque dos recursos do Estado.”
Ainda, as suas palavras: “...Num mundo onde se tenha acabado a esperança, como o retratou Saramago no seu “Ensaio sobre a cegueira”, deixamos de olhar para o futuro, deixamos de o ver. “A cegueira também é isto”, dizia.”
A defesa da Constituição que, no seu Art.1º, consagra o nosso País, como uma “...República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.”, tem no JOÃO FERREIRA, a melhor e mais correcta interpretação
É na luta por uma Esquerda que terá a verdadeira maioria, quando souber assumir a defesa do País, enquanto República Soberana, quando denunciar eficazmente as políticas económicas de empobrecimento e miséria, mascaradas de soluções tecnocratas, quando apresentar soluções credíveis, entendíveis e viáveis, que deixem sem resposta os falsos profetas e aqueles que querem hoje falar em nome do povo.
Por isso e pela “...força que há em todos, em cada um de nós”, o meu voto e o meu apelo: Vota JOÃO FERREIRA!
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Nota: todas as citações são extraídas da Declaração de Candidatura de João Ferreira, disponível em: https://www.joaoferreira2021.pt/declaracao-de-candidatura
15 dezembro 2020
O CLUBE DAS PALAVRAS PERDIDAS
(para o meu Amigo Fernando Alves)
Esta escrita, mais ou menos errante, vem do fundo do coração, num impulso momentâneo, incontido desejo de soltar palavras, agarrando particularmente as que se perdem.
O Fernando é o Homem da rádio, que nos inquieta há tanto tempo, como os seus “Sinais” e que mais recentemente inventou, para nós, uma “Rede Social”, onde as malhas, apertadas ou largas, são tecidas com mãos de veludo, na passagem das horas.
Uma maravilha de desassossego.
Aqui se fala com o João Pimentel[i], e da sua obra “Cancioneiro de Rua”[ii], recentemente editado. O João é livreiro, músico e professor de história. Um livreiro esquisito, “eu gosto é de comprar livros e não de os vender”, mas é, como professor que gosta de se dizer, “é sinal de que estou sempre a aprender”.
Não se poupam as palavras, assim não há risco de se perderem.
Mas, se perdidas forem, lá está o Clube para as resgatar. Aqui não se fala de transição digital, mas ganha-se uma nova dimensão ao ouvir a Ana cachuchar e assim se “transita” para aquela Lisboa, que se calhar, não passa de um mito, existe ainda?
Resgatamos “publicista” e “cacharolete”, procurem se faz favor, elas andam por aí escondidas. Lembra-se o “sonoro”, e vem á liça talvez o Teodoro, que era convidado, na cantiga, a não ir lá, “Se fores ao sonoro não gostas de mim...”[iii].
Irrompendo pela sala dentro, da livraria que fecha, em Lisboa, uma facada na cultura, são já tantas que não têm conta, na voragem impune, na fúria de um turismo sem alma, nem virtude, possivelmente o outro diria, é sinal dos tempos, estúpido!
Devera alguém escrever uma cantiga como a outra, pedindo ao amante para não ir, por exemplo, ao centro comercial, podia ser que desse resultado e que não se perdesse o tempo das palavras, de uma cultura verdadeira, que para o ser, diz o João, implica educação.
Já lá dizia Pessoa, “Quem faz quadras/Portuguesas comunga a alma
do povo, humildemente de todos/nós e errante dentro de si próprio”. O Fernando soltou as palavras do João, que afinal acabam por ser de todos nós. Possivelmente deste Povo.
Pensando bem, vou alistar-me no Clube das Palavras Perdidas, pode ser que me encontre...
[i] João Pimentel, escreveu música para teatro e cinema, e participou em diversas gravações como guitarrista e arranjador, acompanhou, nos anos 70, grandes nomes da música popular portuguesa, como, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Francisco Fanhais, Francisco Naia, Pedro Barroso e Manuel Freire,
[ii] Edição Fabula Urbis, propriedade do Autor, capa e ilustrações de Pierre Pratt, (2020). O trabalho é uma contribuição para a divulgação de cantigas de rua dos séculos XVII e XIX, interpretadas pela soprano Ana Baptista.
[iii] O tema “Teodoro não vás ao sonoro”, foi escrito e deitado em 1932, por Fernando Carriedo, cantado por Corina Freire, com orquestração de Resende Dias e edição da Sassetti, e fez parte da Revista “O Mexilhão”, em 1932.
11 dezembro 2020
OS DIREITOS
OS DIREITOS HUMANOS – lembrados a 10 Dezembro
Haverá porventura melhor dia para recordar o que se passa à nossa volta?
Bem perto de nós, os ataques contra os DIREITOS, sucedem-se a um ritmo alucinante.
Falamos do que sabemos, do que ouvimos dizer, do que sabemos que acontece, aqui e ali, pasmamos como é possível, mas consentimos, sempre consensualizamos, sempre desmerecemos, por omissão, ou simplesmente por não ser directamente connosco.
Claro que ficamos perplexos, ao saber do cidadão ucraniano, assassinado pelo Estado português e que foram precisos 9 meses para a responsável se demitir e, ainda por cima, saber que o fez para poupar um ministro.
Claro que ficamos a saber um pouco do que se passa nessa dita “união europeia”, na forma abjecta como trata pessoas, no campo de refugiados da ilha de Lesbos, um campo, com capacidade para 3 mil pessoas, onde viviam cerca de 13 mil (!), em condições precárias, num espaço sobrelotado. Soubemos um pouco mais, por força de uma catástrofe, a 9 de Setembro, um incêndio de grandes dimensões, que acabou por trazer, para o mundo inteiro, as deploráveis condições de vida que os “campeões europeus” dos DIREITOS humanos criaram dentro do “espaço europeu”, o tal que quer ser um exemplo, sabe-se lá para quem.
Sabemos tanto e tão pouco que acabamos por banalizar o mais sagrado dos DIREITOS, o direito à vida, em segurança e com dignidade. Mas banalizamos mais. Porque aceitamos as desigualdades, as injustiças, a exclusão. Aceitamos que, bem perto de nós, existam quase 2 milhões de pessoas que vivem abaixo dos limiares mínimos de subsistência. Aceitamos que nos falem de coisas como, por exemplo, a “transição digital”, quando alguns dos nossos concidadãos ainda não “transitaram” da sua situação de miséria potencial.
No futuro, quando ouvirmos falar, de coisas como, por exemplo, o aumento do salário de um trabalhador poder significar desemprego para outro trabalhador, e não formos capazes de soltar um grito de revolta, estamos a contribuir para um futuro negro de dependência e de submissão.
E, para que esse futuro possa ser melhor do que a actual situação, precisamos de lembrar os DIREITOS, e do respeito que nos merece a pessoa humana, particularmente quando não tem voz, nem força para se defender das arbitrariedades.
E, claro está, que não é decerto com atitudes convencionais, como a caridade e a compreensão para com as desigualdades (porque, como alguns infelizmente proclamam, sempre existiram...), que modificamos a situação.
A defesa dos DIREITOS HUMANOS passa seguramente pela luta constante, diária e persistente contra todas as formas de discriminação, de injustiça e de desigualdade, sem tibiezas e sem a hipocrisia habitual que conduz ao esquecimento e à desresponsabilização.
Veja-se, a título de exemplo, a posição da Comissão Europeia, ao aconselhar, em Março passado, “cautela” perante as últimas imagens da violência na fronteira entre a Grécia e a Turquia e a recusa em censurar o comportamento das autoridades gregas, e a sua política de dissuasão dos migrantes que procuram aceder ao território europeu.
A melhor forma de lembrar este dia é fazer da luta pelos DIREITOS HUMANOS, a nossa LUTA!
01 dezembro 2020
O HOMEM DO NAVIO-NAÇÃO
Nunca mais irá reflectir sobre o seu País, seria precisamente no dia da Restauração que se lembraria de morrer, ele que via o além como uma projecção do aquém, com imagens idênticas. A morte que o veio literalmente buscar, tal como ele dizia, “não vale a pena pensar na morte, porque a morte vem ter connosco.”[i]
Vivemos hoje, dizia, “...tempos melhores do que os que conhecemos no nosso passado recente, e só quem não passou por eles pode desvalorizar esta evolução. Não podemos ser tão pessimistas, talvez tenhamos de reconhecer que os intelectuais, e eu também, sofrem por vezes de um excesso de espírito sonhador, até com uma carga utópica. Depois desiludimo-nos porque a realidade não desaparece e está onde está para nos tirar as ilusões.”[ii]
Sempre e agora, as ilusões.
Que bem falava e escrevia sobre o seu Portugal, de que esteve afastado, por exílio, durante tantos anos, mas que pensava e descrevia: “Mas a classe historicamente privilegiada é herdeira de uma tradição guerreira de não-trabalho e parasitária dessa atroz e maciça «morte de trabalho» dos outros. Não trabalhar foi sempre, em Portugal, sinal de nobreza e quando, como na Europa futuramente protestante, o trabalho se converte por sua vez em sinal de eleição, nós descobrimos colectivamente a maneira de refinar uma herança ancestral transferindo para o preto essa penosa obrigação. É mesmo essa a autêntica essência dos Descobrimentos, o resto, embora imenso, são adjacências. Seria de uma provocação sem alcance exaltar o trabalho em si ou a ética do trabalho (dos outros), independentemente do contexto social onde se insere, tal como a ideologia puritana do liberalismo a cultivou. Colectiva e individualmente, os Portugueses habituaram-se a um estatuto de privilégio sem relação alguma com a capacidade de trabalho e inovação que o possa justificar, não porque não disponham de qualidades de inteligência ou habilidade técnica análoga à de outra gente por esse mundo, mas porque durante séculos estiveram inseridos numa estrutura em que não só o privilégio não tinha relação alguma com o mundo do trabalho, mas era a consagração do afastamento dele.”[iii]
Disse, no distante ano de 1997, que os portugueses se haviam perdido “...no mundo e refluíram ao seu território de origem, tantas vezes de modo trágico e sem glória, nação-navio que regressa ao cais”[iv]
Julgava-se, “...em dívida para com a humanidade inteira”, ele que fez tudo pela Humanidade e pelo Humanismo, ao simplesmente existir. Ele que pensou, como poucos, o seu País e a sua gente, a este Homem se devolve o que ele próprio escreveu um dia:
“CUMPRIU-SE O MAR E O IMPÉRIO SE DESFEZ. SENHOR FALTA CUMPRIR-SE PORTUGAL.”[v]
[i] Fonte: TSF, “Pessoal e Transmissível”, de Carlos Vaz Marques, Maio 2003
[ii] Fonte: Jornal Público, entrevista de J. M. Fernandes (Público) e Graça Franco (Rádio Renascença), Outubro 2008
[iii] In: “O Labirinto da Saudade”, Eduardo Lourenço, Pub. Dom Quixote, 1978, pág. 130
[iv] In: “Nós Como Futuro”, Eduardo Lourenço, Ed. Assírio & Alvim, 1997, pág. 28
[v] Idem, ibidem, pág. 2
28 novembro 2020
28 Novembro 2020
O Homem da máscara é (pode ser) a imagem difusa de uma realidade, ou da realidade, que se nos apresenta e para a qual nos preparamos, na defesa da saúde, com os cuidados devidos do chamado distanciamento social.
Sendo hoje um dia especial, o Homem da máscara pensa como seria sem ela e parece querer fechar os olhos, para porventura poder reflectir melhor, deixando-se embalar na doce austeridade da excepção que lhe tolhe os direitos.
Porque, eles (direitos) estão ameaçados, sempre e todos os dias, pese embora a canção de embalar dos tolos e dos que gostam de multiplicar, “...num ritmo exasperado, sondagens, conjecturas e previsões”, num desejo indelével de “...dominar o futuro pior, de calculá-lo para o controlar.”[i]
Contudo, o Homem da máscara não quer, hoje no 28 de Novembro, criticar nem verberar a sua fúria. Apenas pretende SAUDAR TODOS OS QUE SE LEMBRARAM DELE, sem máscara, ou agora com ela, e SAUDAR AINDA TODOS AQUELES QUE DEFENDEM A LIBERDADE E QUE LUTAM (como ele sempre fez) POR ELA.
Muito grato!
[i] Citações de “Vírus Soberano? A Asfixia Capitalista”, de Donatella Di Cesare, (Jul. 2020), Edições 70, pág. 21
25 novembro 2020
25 EM NOVEMBRO DE 1975
“As lembranças tornam-se perigosas
quando deixamos de as falsificar”
Adriano Santiago
In “O Mapeador de Ausências”, (2020), Mia Couto, Ed. Caminho pág.73
Fica dito aqui que o Adriano é o pai do Diogo, sendo que este é professor universitário e escritor. Os 2 Santiagos vivem na memória do Autor, que nos transporta à Cidade da Beira colonial, com as suas vivências são o seu Universo, quiçá na necessidade de voltar atrás, a uma infância vivida.
Vem isto a propósito das tais lembranças que, segundo o Adriano, se podem tornar perigosas, quem sabe à custa de um peso que carregamos, assim a modos que ligeiro, mas cuja “matéria” acaba por nos importunar.
São 45 anos, é muito tempo, vai tão longe a memória, que parece que foi ontem, está tudo aqui. Sei que para alguns, este vinte e cinco diz mais que o outro de Abril, pensam e sustentam que o de Novembro veio resgatar o que chamam de “espírito da liberdade e da democracia”, até o querem festejar.
Não é esse seguramente o meu ponto de vista. Estive lá, lutei, sofri e fui penalizado por isso, com a expulsão da tropa, a qual não haveria de causar danos de maior, a nível profissional, mas deixaria outros, cuja medida não sei bem definir, não o sabia na altura, hoje muito menos. Alguém falou, e dessa malfeitoria surgiria o “castigo”, nada a acrescentar, que a estória é conhecida de um círculo restrito, que nunca seria alargado.
As “evidências” viriam depois.
Ao silenciamento das vozes da revolução, bem gostariam os autores do golpe de juntar outros, poderia ter acontecido, não fora algum recato de oficiais conhecidos. Mas bem sabemos, como disse na altura o Chico, que a Festa seria “murchada”[i], embora a semente esquecida num canto de jardim, fosse determinante, pelo menos, para a resistência.
Muita coisa mudou, o sistema acabou por se regenerar, os privilegiados voltaram, sabemos bem para quê, vieram os “mandadores da alta finança” que “Fazem tudo andar pra trás”, na sábia sentença do Zeca[ii], recompôs-se o “aparelho reprodutor” do capitalismo, vieram de todo o lado os “amigos”, jurando fidelidade à nova situação, erradicados que haviam sido os “males da Revolução”. Uns anos mais tarde, mais concretamente em 1979, o Zé Mário Branco haveria de transportar para o monólogo “FMI”, a mais “bela” e aterradora imagem do Portugal saído do 25 de Novembro.
Nem vale a pena dizer mais, ora que passados tantos anos e até parece que a semente do Chico, ou se plantou em solo desconhecido, ou murchou de vez, para sempre...
Nada mais errado.
É que a semente está connosco!
22 novembro 2020
A FÚRIA E O CONGRESSO (OU O CONGRESSO DA FÚRIA)
"Mas por hoje basta
Hoje é já muito tarde
Já se esgotam todas as esperanças que havia para hoje"
José de Almada Negreiros
De tanto falar no Congresso, fica-se com a sensação que ele, por um lado, determina as nossas vidas e, por outro lado, que ele é o grande motivo da fúria de quase todos os comentadores encartados, da Direita toda em uníssono e, para espanto meu, de alguns cidadãos menos atentos.
Nada mais certo.
O Congresso do PCP determina, em grande parte, a nossa existência. Pelo “simples” facto que é a sua realização um símbolo de Liberdade, em tempos em que ela está confinada, restringida, de forma arbitrária e sem razão maior que a justifique. Nem sequer que a explique, como provam os últimos dados da DGS.
E agora, o motivo da fúria. Nem mais nem menos que a impotência que demonstram os detractores. Antes era a Festa, agora o Congresso. O que aconteceu de prejuízo para a saúde pública naquela, foi zero. O que irá acontecer naquele, será decerto a mesma coisa.
Os menos avisados, ou distraídos, poderão dizer qualquer coisa como isto: “não está em causa se a lei permite a realização do evento em questão, o que está em causa é se, no actual contexto, ele deveria ser adiado”. Alguns aventam o chamado “bom senso”, para aconselhar o Partido. Outros dizem que irá ser, por isso, penalizado, em termos eleitorais. A estas (ou outras) posições, poderá dizer-se o mesmo que da Festa. É uma afirmação política com os seus riscos, como aliás são todas as decisões, em termos de política partidária. Só para aqueles menos atentos, sempre se pode dizer que o PCP tomou sempre posições incómodas para o Poder, com elevados riscos, a começar, em alguns casos, pela própria vida dos seus militantes.
Lembrando o passado
Giogio Agambem[i] teorizou sobre o “estado de excepção”, dizendo que ele se tornou regra, nos tempos de correm. Foi em 1995, tão perto de hoje. Então o que vemos hoje? Um Presidente a propor estados de emergência de 15 em 15 dias, anunciando uma 3ª vaga para daqui a um mês e dizendo que não hesitará em voltar a propor até não se sabe bem quando. Justificações? Apenas as que resultam da sua percepção, sem qualquer base científica, esquecendo a pedagogia, a informação correcta e a formação. Podia lembra-se, por exemplo, de promover brigadas móveis, para estar em contacto directo com a população, ensinando o que deve ser ensinado. Ao contrário disso, vem assustar os cidadãos, com as “promessas” de uma 3ª vaga sabe-se lá para quando, mais aquela que gosta tanto: o estado de emergência será prorrogado as vezes que forem necessárias. Mas necessárias para quê? Talvez a mais patética de todas será a que tem a ver com a de um Natal como os outros, se todos nos portarmos bem atá lá.
Por que razão não se publicam dados corretos sobre a covid-19?
Porque é que devemos estar em casa a partir das 13:00 aos Sábados e Domingos?
Apenas porque é essa a regra, agora, no estado de excepção.
Ainda bem que temos gente que pensa...
Num comunicado emitido há uns dias atrás, um movimento de cidadãos, critica as medidas adotadas no âmbito do estado de emergência, salientando "É com profunda consternação que a Plataforma Cívica Cidadania XXI assistiu ao anúncio de uma série de novas medidas desproporcionais no combate à pandemia do vírus SARS-CoV-2. É com frustração que vemos o pro-fundo impacto que estas medidas terão na sociedade portuguesa, e por isso desde já manifestamos a nossa total solidariedade com todos os comerciantes, lojistas, empresários e demais trabalhadores dos sectores de atividade que serão fortemente penalizados pelas novas medidas do Governo - a terminar um ano já terrível a vários níveis"[ii].
Este Movimento apela ao Governo para que faça “...uma gestão equilibrada deste desafio, com honestidade e transparência e minimizando todos os danos humanos, sociais e económicos que possam advir”.
Nada mais que isto.
Pensar, analisar e decidir (bem)
Numa obra que se impõe ler, neste dias de sombra, em que nos obrigam a ficar em casa, a ensaísta e filósofa Donatella di Cesare, diz, a certo passo, referindo-se ao estado de excepção e ao que chama “vírus soberano”, “...a figura da excepção soberana persiste mesmo nos regimes modernos...passa a ser o pano de fundo, ...submerge na prática administrativa” ..., em suma, a instituição democrática baseia-se, embora de maneira inconfessável, na excepção soberana”[iii]. “Não se pode ignorar que o perigo de contágio traz consigo a epidemia paralela de medidas repressivas e contraditórias.”[iv], palavras avisadas e sábias, que deveriam merecer a maior das atenções, particularmente de quem nos governa, mesmo sabendo de antemão que podem (e estarão decerto) eivados das melhores intenções.
Afinal, porquê a “fúria”?
Não admira, vinda de onde vem, diríamos até, ainda bem que se manifesta.
E outro ainda bem: temos um partido que vai contra a correnteza, essa malfadada unanimidade que Marcelo tanto gosta.
E quanto à pergunta, poderia (ou deveria) o PCP adiar o Congresso? Claro que sim. Mas ainda bem que o não faz, assim está a defender, uma vez mais, a Liberdade. E a Democracia também. Assim mesmo é que é.
Se o Congresso for o da fúria, que o seja, no combate sem tréguas às manifestações que a extrema-direita, com todos os amigos do costume, arriscam hoje, para ensaiar mais além e que exigem uma acção pedagógica de luta contínua e constante.
Mas, por hoje basta...
[i] Giorgio Agamben (Roma, 1942) é italiano, licenciado em Direito, autor de várias obras, das quais se destaca a sua investigação sobre os conceitos de Estado de excepção
[ii] In: https://expresso.pt/coronavirus/2020-11-08-Covid-19-Grupo-de-cidadaos-questiona-opcoes-do-Governo
[iii] “Vírus Soberano? A Asfixia Capitalista”, tradução de António Guerreiro, Edições 70, Julho 2020, pág. 39
[iv] Idem, ibidem, pág. 51






