rio torto

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01 setembro 2022

 A MORTE E O DISPARATE

 

Sendo a morte já de si um disparate, ao que parece e para já, inevitável, o disparate não padece da mesma enfermidade, a tal que um dia leva ao fim. Padece de outra, sim senhor, ela mesmo consequência da falibilidade do ser humano. Hegel diz, na “Fenomenologia do Espírito” que, “A única obra e acção da liberdade universal  é,  por  conseguinte,  a morte, ... da morte  mais  fria  e mais  banal,  sem  mais  significado  do  que  o  corte  de uma  cabeça  de couve, ou do que um gole de água”. Há quem, nestas alturas da morte de alguém com destaque social e político, se coloque sempre em bicos de pés, mostrando a sua natural propensão para o disparate. Apeteceria dizer, pobres deles, não sabem o que fazem. Mas tal não corresponde à realidade, eles sabem bem o que dizer, insistem no disparate, essa é a sua enfermidade permanente. não parece haver, para ela, qualquer cura.

 

A morte de Mikhail Gorbachev provocou uma onda de solidariedade para o Homem que acabou com a URSS. Seria provavelmente fastidioso, porventura até desnecessário, evocar o percurso do falecido, já muito foi escrito sobre ele e a sua obra. Recorda-se apenas que, com a queda do império soviético, ocorreu o desmantelamento do chamado Pacto de Varsóvia, uma das condições (dizia-se) absolutamente necessárias para o tão desejado desarmamento. Pese o facto de as suas intenções serem boas (é sempre difícil avaliar), a realidade demonstrou que acabou por abrir caminho a uma casta de burocratas pouco credíveis, à corrupção e a ... Putin.

Acabou um império. Contudo, o outro, bem mais influente e poderoso, continuava e continua de pé, causando os males que são conhecidos em todo o mundo, incluindo na actualidade, bem presente no nosso quotidiano.

Contudo, não deixa de ser curiosa a reacção de toda a Direita mundial, ucranizada e americanizada, no que parece ser o apoio ao que foi o reinado do falecido. Ele é hoje, na visão dessa gente, o herói que representava o "ideal comunista", da liberdade, igualdade e Paz. Tudo muito estranho, não é verdade?

 

O disparate

Nestas alturas, o inefável Presidente da AR, que foi, durante anos Ministro dos Estrangeiros (Negócios, diz-se), vem à boca de cena “disparar” a sua verborreia habitual e conhecida, que é, exactamente e para todos os efeitos, igual à de toda a direita e extrema-direita. Diz o Senhor, basicamente, que a melhor forma de preservar a memória do falecido é defender a Ucrânia. Aliás, sobre qualquer assunto que se lhe apresente, a melhor forma de o ultrapassar é mesmo defender a Ucrânia. O mestre da ucranização em Portugal (se calhar o epíteto é injusto, mas enfim...) aproveita todas as oportunidades para repetir disparates e vulgaridades, pensando que, com isso, está a preparar outros voos, que lhe reserva a mediocridade da política nacional e europeia.

Outro disparate             
Diz o actual MNE, "Em tempo de guerra, a acção e o contributo para a Paz do último líder da URSS devem, mais do que nunca, ser um exemplo a seguir”.
O que pode parecer um dito aparentemente pacífico, acaba por não o ser, vindo de quem vem. Se há pessoa que sem tem multiplicado a dizer disparate sobre disparate, é este Ministro, defensor acérrimo da políticas norte-americanas, que diz democráticas e pró-liberdade. Ele é ainda um dos pontas de lança das irresponsáveis políticas europeias das sanções criminosas contra os cidadãos. Então os contributos que o dito Senhor terá dado pela Paz, como diz Cravinho (que é o que diz Santos Silva) são o quê, afinal? Pelos vistos são, mais armamento, mais dinheiro não se sabe bem para quê, mais sanções. Será que o apelo constante à guerra e à agressão são contributos para a Paz?        

Tanto disparate.               
Tanta hipocrisia.              
Tanta ignorância.            
Esta Europa diz o mesmo, em uníssono, pela voz de uma líder não-eleita, que é quem “manda” na Europa, (juntamente com o secretário-geral da NATO). Veja-se o expoente máximo da vulgaridade: Gorbachev, um "líder de confiança e respeitado" que "teve um papel crucial para acabar com a Guerra Fria e derrubar a Cortina de Ferro" e que "abriu o caminho para uma Europa livre". 

O desmantelamento  
Diz-se que o império, dito soviético, foi desmantelado pelo falecido. E que hoje há quem o queira erguer de novo. Tudo conjecturas de quem está ao lado do verdadeiro império que teimosamente se impõe, a nível mundial, e que domina, oprime e subjuga Estados e povos, através de um sistema que só provoca fome e miséria e que promove milionários e fortunas desmedidas. E isto não são conjecturas, mas sim a realidade concreta. O verdadeiro perigo está em quem faz a guerra e a promove, todos os dias e a toda a hora. Quem aceita como normal a corrupção e o negócio das armas.              
O verdadeiro desmantelamento é o desarmamento imediato e total, em todo o mundo.
Os que (ainda) estão vivos devem deixar de dizer disparates e empenharem-se na Paz.
Todavia, acreditar que estes que hoje disparatam são capazes de mudar, é porventura o mesmo que acreditar na quadratura do círculo.

25 agosto 2022

 FALEMOS (a sério) de CRIMES CONTRA A HUMANIDADE


 

A jornalista Isabel Lindim publica hoje, no Jornal electrónico Setenta e Quatro um artigo, sob o título “Ilhas Marshall: O Paraíso Tropical Que Virou Um Inferno De Radiação”, onde denuncia a política criminosa dos EUA na Ásia Pacífico, onde a administração norte-americana realizou 67 testes nucleares, entre os anos 1946 e 1958, com efeitos que “...ainda hoje se fazem sentir junto das populações: doenças dermatológicas e cancro, crianças com malformações, ecossistemas contaminados e muita pobreza. Os militares norte-americanos usaram-nas como cobaias para estudar o impacto da radioatividade.”

 

O cenário:

Alimentavam-se do que a terra lhes dava e pescavam nas águas cristalinas do Oceano Pacífico. Seguiam as tradições familiares que os seus antepassados, lá chegados há centenas de anos, lhes passaram. A população das Ilhas Marshall vivia em comunidade e em harmonia com a Natureza. Mas tudo isso mudou abruptamente em 1946. Derrotado o Japão, os Estados Unidos transformaram as Ilhas Marshall no seu protetorado. As Nações Unidas concederam-lhe o mandato e, em troca, deveriam proteger as populações. Não o fizeram, bem pelo contrário.”

 

Isabel Lindim conta a história das ilhas Marshall, que, em 1946, “...foram designadas pelos Estados Unidos da América (EUA) como zona para testes nucleares. A partir desse momento, aqueles cenários paradisíacos que pontuavam o Oceano Pacífico, entre as Filipinas e o Havai, seriam alvo de detonações de bombas atómicas de grande amplitude. Os 167 habitantes do atol de Bikini, um dos locais escolhidos para as experiências, foram alojados noutro local. Antes disso, foram “instruídos” sobre a importância destes testes por militares norte-americanos. Era suposto poderem voltar para as suas casas.”

 

Continua, dizendo que, “Durante doze anos, a vida dos atóis de Bikini e de Enewetak foi literalmente bombardeada. Na primeira explosão, a experiência envolveu cerca de cinco mil animais amarrados aos convés de navios de guerra. Vacas, ovelhas, cabras, porcos, ratos… todos estavam imobilizados. Alguns tinham a pele coberta com um creme “protetor”. A mega explosão deixou um rasto de destruição. As imagens foram captadas por drones - os militares norte-americanos modificaram, pela primeira vez na história, caças F6F Hellcat para serem guiados exclusivamente por sinais de rádio - os militares norte-americanos modificaram, pela primeira vez na história, caças F6F Hellcat para serem guiados exclusivamente por sinais de rádio. O enorme cogumelo não só matou parte dos animais isolados nos navios (10%), como contaminou toda a vida das ilhas próximas do atol. Os animais que não morreram ficaram sob observação, mas apenas 28 viveram mais três anos.”

 

A administração norte-americana considerava as explosões e as suas consequências como uma “oportunidade” para a ciência descobrir o nível de contaminação em humanos.

A Jornalista diz que “Durante anos, a população viveu sob observação médica. As crianças nasciam com problemas de saúde, a predominância de abortos espontâneos aumentou. Quando pediram para ser realojadas novamente, a administração ignorou-os. Foi só em 1985 que a Greenpeace, que fez uma operação de resgate no navio Rainbow Warrior,  levou os 300 habitantes de Rongelap para Majetto, uma ilha não contaminada. Foi a última ação deste navio. Em julho do mesmo ano, a ação prevista pela organização ambiental nunca chegou a acontecer, porque dois comandos franceses fizeram explodir a embarcação. O destino teria sido uma contestação no atol de Mururua, na Polinésia, onde iriam ocorrer testes nucleares.”

 

A descrição é no mínimo dantesca: “Enquanto os militares e cientistas se escondiam no bunker Building 70 (mais tarde retirados de helicóptero envoltos em lençóis) e navios com laboratórios ao largo de Bikini, a população esteve totalmente exposta, assim como os 23 pescadores japoneses que se encontravam muito perto do local onde explodiu a bomba Bravo, no barco Lucky Dragon - mais tarde, depois de muita discussão, chegou a ser sugerido pela administração norte-americana que este barco levava espiões comunistas que se aproximaram demais. As questões que surgiram em primeiro lugar foram as de pele despigmentada com escaras e o cabelo a cair, devido às partículas absorvidas. As partículas beta são as mais perigosas para o corpo humano, explica o jornalista no seu livro. Penetram na pele, destruindo as células e impedindo um novo crescimento. No entanto, este não é o único problema de saúde que resulta desta exposição à radiação, como concluíram os cientistas na altura. Outros dos fatores identificados foi o elemento iodo, que se concentra na tiróide. O iodo emite metade da sua radioactividade em raios gama nos primeiros oito dias.”

 

As administrações dos EUA sucedem-se, a política é sempre a mesma: dominação, submissão e terror. 

Quem apoia este tipo de política está a caucionar esta política, mas não só. Está a caucionar a atitude permanente de CRIMES CONTRA A HUMANIDADE.

 

Não há outra forma de interpretar uma monstruosidade como esta!

 

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Obs.: a leitura do artigo completo pode ser feita subscrevendo o Jornal, em: https://setentaequatro.pt/contribuir  

 


 

ILHAS MARSHALL: O PARAÍSO TROPICAL QUE VIROU UM INFERNO DE RADIAÇÃO

25 AGOSTO 2022

Isabel Lindim – Setenta e Quatro

 

Entre 1946 e 1958, os Estados Unidos realizaram 67 testes nucleares na Ásia Pacífico. Os seus efeitos ainda hoje se fazem sentir junto das populações: doenças dermatológicas e cancro, crianças com malformações, ecossistemas contaminados e muita pobreza. Os militares norte-americanos usaram-nas como cobaias para estudar o impacto da radioatividade.

 

Em 1946, as ilhas Marshall foram designadas pelos Estados Unidos da América (EUA) como zona para testes nucleares. A partir desse momento, aqueles cenários paradisíacos que pontuavam o Oceano Pacífico, entre as Filipinas e o Havai, seriam alvo de detonações de bombas atómicas de grande amplitude. Os 167 habitantes do atol de Bikini, um dos locais escolhidos para as experiências, foram alojados noutro local. Antes disso, foram “instruídos” sobre a importância destes testes por militares norte-americanos. Era suposto poderem voltar para as suas casas.

 

Durante doze anos, a vida dos atóis de Bikini e de Enewetak foi literalmente bombardeada. Na primeira explosão, a experiência envolveu cerca de cinco mil animais amarrados aos convés de navios de guerra. Vacas, ovelhas, cabras, porcos, ratos… todos estavam imobilizados. Alguns tinham a pele coberta com um creme “protetor”. A mega explosão deixou um rasto de destruição. As imagens foram captadas por drones - os militares norte-americanos modificaram, pela primeira vez na história, caças F6F Hellcat para serem guiados exclusivamente por sinais de rádio - os militares norte-americanos modificaram, pela primeira vez na história, caças F6F Hellcat para serem guiados exclusivamente por sinais de rádio. O enorme cogumelo não só matou parte dos animais isolados nos navios (10%), como contaminou toda a vida das ilhas próximas do atol. Os animais que não morreram ficaram sob observação, mas apenas 28 viveram mais três anos. 

 

A administração norte-americana viu nos efeitos das explosões uma “oportunidade” para a ciência descobrir o nível de contaminação em humanos.

 

Em 1954, os EUA realizaram o maior teste de todos, apelidado de “Operation Castle Bravo”: a detonação de uma bomba mil vezes mais potente que a bomba nuclear que explodiu em Hiroshima em 1945 (ou o equivalente a 15 milhões de toneladas de TNT). A população de Bikini e Enewetak tinha sido deslocada, mas a de Rongelap, a 160 quilómetros do local da explosão, permaneceu nas suas habitações. A bola de fogo atingiu um diâmetro de dez milhas. Os detritos radioactivos espalharam-se por uma área muito maior. A bomba termonuclear era composta por urânio e lítio. 

 

No documentário The Coming War on China, realizado pelo jornalista John Pilger em 2015, são várias as testemunhas que relatam esta explosão, assim como os doze anos de testes nucleares que se seguiram. O medo, as doenças, as mortes e a pobreza. As consequências desde o último teste, em 1958. John Pilger faz um levantamento do cerco norte-americano no Mar da China Meridional e começa por contar este episódio bizarro e remetido ao esquecimento. 

 

Quando os Estados Unidos assumiram nos anos pós II Guerra Mundial o controle das Ilhas Marshall, sob o protetorado das Nações Unidas, uma das condições era garantir o bem estar da população. O que na verdade aconteceu é que ainda hoje, 74 anos depois, é o local no planeta com mais nível de radiação nuclear (bastante mais do que Chernobyl, na Ucrânia, ou Fukushima, no Japão) e onde se concentraram mais casos de cancro da tiróide em mulheres - houve até crianças a nascerem com malformações. 

 

Em 2019, um estudo da Universidade da Columbia, nos Estados Unidos, avaliou e comparou os efeitos radioativos que existem nas Ilhas Marshall. Todas as ilhas foram atingidas pelos efeitos de longa duração, detectáveis principalmente no solo e na cadeia alimentar. Não é possível viver em Bikini, apesar da sua aparência paradisíaca, com águas transparentes e uma vida marinha que começa a ressurgir no abismo criado pela bomba Bravo.

 

ARQUIPÉLAGO-LABORATÓRIO

Enquanto os habitantes de Bikini sofriam as consequências do maior teste atómico alguma vez realizado pelos Estados Unidos, na Europa um designer francês fazia deste grande acontecimento o mote para a sua invenção: o biquíni. Na publicidade a este novo conjunto que contribuiu para  a emancipação de tantas mulheres, chegaram a usar imagens de manequins com biquíni em cima de uma bomba atómica como símbolo de sensualidade. 

 

Exilados para outras ilhas, os habitantes de Rongelap foram autorizados a voltar para a sua terra natal em 1957. Este acto de benevolência, ou compensação, ficou mais próximo do que se pode considerar um presente envenenado. O objetivo era aproveitar o facto da população ter sido atingida pelos efeitos radioactivos para a estudar. Era uma “oportunidade” para a ciência descobrir o nível de contaminação em humanos, uma ciência orientada pelos militares norte-americanos.

 

Anos mais tarde, em 1969, quando a população de Bikini teve autorização para regressar às suas antigas casas, a radiação surtiu tantas consequências que acabaram por ficar apenas oito anos. E assim tem sido até hoje. Este “programa científico” foi mantido como Projecto 4.1., descrito pelo Departamento de Defesa como forma de “avaliar a gravidade da lesão por radiação nos seres humanos envolvidos; fornecer todos os cuidados médicos necessários; e realizar um estudo científico de lesões por radiação em seres humanos”. 

 

O Laboratório de Energia Atómica de Chicago chegou a receber um grupo de sete homens das Ilhas Marshall. Vestiram fato e gravata emprestados no Havai, que devolveram quando voltaram às ilhas. Foram fechados numa sala de ferro que media a radiação. Num programa de televisão John Anjain, o presidente da Câmara de Rongelap, era apresentado como “um selvagem feliz e amistoso”. “O homem branco trouxe dinheiro, religião e um mercado para os seus côcos”, diziam ainda no anúncio propagandístico. 

 

Mais tarde, um grupo de habitantes foi também a Nova Iorque, acompanhado por um dos cientistas que mais relatórios produziu durante as experiências: Robert Conard. Funcionário da Marinha dos EUA, este cientista seguiu atentamente os efeitos na população durante três décadas. Tinha um especial interesse pelas crianças com cerca de um ano de idade quando se deu a explosão. Examinava a pele, a queda de cabelo e fazia exames médicos. Foi desta forma que chegou à conclusão da alta incidência do cancro da tiróide em crianças e mulheres adolescentes e adultas, por vezes da mesma família: avós, mães, filhas… 

 

Durante anos, a população viveu sob observação médica. As crianças nasciam com problemas de saúde, a predominância de abortos espontâneos aumentou. Quando pediram para ser realojadas novamente, a administração ignorou-os. Foi só em 1985 que a Greenpeace, que fez uma operação de resgate no navio Rainbow Warrior,  levou os 300 habitantes de Rongelap para Majetto, uma ilha não contaminada. Foi a última ação deste navio. Em julho do mesmo ano, a ação prevista pela organização ambiental nunca chegou a acontecer, porque dois comandos franceses fizeram explodir a embarcação. O destino teria sido uma contestação no atol de Mururua, na Polinésia, onde iriam ocorrer testes nucleares.

 

Uma série de imagens foi reunida pelo radiologista Lauren L. Donaldson, da Universidade de Washington e estão agora disponíveis online. A coleção mostra fotografias e publicações relacionadas com o assunto. Numa newsletter de 1958 da universidade, descrevia-se a importância deste estudo como essencial para obter dados “da radioatividade em várias formas de vida (...) num mundo que está a avançar rapidamente para a era das maravilhas nucleares”.

 

UMA VIDA EXILADA

Todo o quotidiano das populações das Ilhas Marshall foi alterado a partir de 1946. Antes daquela zona do Pacífico se tornar um alvo de testes nucleares, alimentavam-se do que a terra lhes dava e pescavam. Eram auto-suficientes no seu pequeno paraíso. Os homens eram velejadores exímios, com conhecimentos ancestrais. A terra era rica em fruta e vegetais. Quando tiveram de mudar de ilha e deixar as suas casas, passaram a depender das autoridades, perderam a sua autonomia e os seus recursos.

 

Muito rapidamente alguns dos habitantes deslocados caíram numa situação de pobreza. Para agravar a difícil adaptação, tiveram de lidar com novas doenças que alastravam entre as suas famílias, consequência de terem ficado imunodeprimidos com a radiação. No livro Blown to Hell - America's Deadly Betrayal of the Marshall Islanders, publicado em 2021, o jornalista Walter Pincus, do Washington Post e especialista em questões de Segurança Nacional, descreve minuciosamente a situação antes e depois dos testes nucleares. O título é uma alusão a uma piada do comediante Bob Hope: “Assim que a guerra acabou, localizámos o único sítio na Terra que ainda não tinha sido tocado pela guerra e rebentámos com ele”.  

 

Em 1954, os EUA realizaram o maior teste de todos, apelidado de “Operation Castle Bravo”: a detonação de uma bomba mil vezes mais potente que a bomba nuclear que explodiu em Hiroshima em 1945.

 

Walter Pincus, jornalista premiado pelo prémio de jornalismo Pulitzer, fez uma longa investigação convertida numa narrativa fluida e de proximidade, repleta de informação. É um livro imersivo que nos relata o enquadramento geopolítico do pós-II Guerra Mundial, os esforços para alcançar a primazia e liderança nuclear e como aquela zona do Pacífico norte foi negligenciada e usada para testes, depois de ser conquistada ao Japão pelos Estados Unidos. E hoje, quando olhamos para a realidade que persiste na Ásia-Pacífico, o que se conclui é que para Washington a presença naquele lado do mundo continua a ser uma demonstração de poder, de manutenção de uma hegemonia que não abdica de manter, inclusive pelo uso da força se assim tiver de ser. Das 750 bases militares norte-americanas espalhadas por vários países (pelo menos 80), cerca de 120 estão em território japonês. 

 

A introdução começa precisamente com a história de John Anjain, o presidente da Câmara de Rongelap, no dia 1 de Março de 1954, quando a bomba Bravo foi detonada. Rongelap é um dos 29 atóis que formam as Ilhas Marshall (juntamente com mais cinco ilhas, uma delas também com o nome Rongelap). A família de John é uma das que têm ascendência neste pequeno arquipélago, ocupado desde há dois/três mil anos por navegadores que chegaram do sudeste asiático. 

 

Naquele dia, 82 pessoas estavam no atol de Rongelap, nas suas casas feitas de folhas de palmeira e madeira. Os testes já decorriam desde 1946, o atol já tinha sido evacuado uma vez, mas os habitantes voltaram. As rotinas tinham regressado e os militares avisaram que haveria mais testes, mas que estes não ofereciam qualquer perigo. Ninguém esperava que o mundo abalasse com uma bomba de quinze megatoneladas, e que chovesse um pó branco espesso altamente tóxico durante várias horas. 

 

A primeira parte deste livro é dedicada aos testes nucleares, onde o autor descreve em pormenor tudo o que envolveu as detonações, assim como aquilo que chegava ao conhecimento público - durante anos, o acontecimento manteve-se oculto ou exaltado como uma demonstração de poder e até de beleza estética (no próprio dia 1 de Março de 1954, as notícias incidiram sobre quatro porto-riquenhos que dispararam dentro do Capitólio). “Como podem ver pelas imagens, senhoras e senhores, estamos a tentar um pouco de inovação”, dizia o presidente Eisenhower numa conferência de imprensa no dia 31 de Março de 1954.

 

Na segunda parte do livro, Walter Pincus retrata os problemas imediatamente visíveis e os que se prolongaram durante anos, com efeitos que duram até hoje. “Como a maioria das partículas radioativas emite raios gama e beta, os seus efeitos nas células e tecidos circundantes ocorrem lentamente por longos períodos e podem não ser aparentes por dias, semanas ou até anos”, explica o autor. 

 

Enquanto os militares e cientistas se escondiam no bunker Building 70 (mais tarde retirados de helicóptero envoltos em lençóis) e navios com laboratórios ao largo de Bikini, a população esteve totalmente exposta, assim como os 23 pescadores japoneses que se encontravam muito perto do local onde explodiu a bomba Bravo, no barco Lucky Dragon - mais tarde, depois de muita discussão, chegou a ser sugerido pela administração norte-americana que este barco levava espiões comunistas que se aproximaram demais. 

 

As questões que surgiram em primeiro lugar foram as de pele despigmentada com escaras e o cabelo a cair, devido às partículas absorvidas. As partículas beta são as mais perigosas para o corpo humano, explica o jornalista no seu livro. Penetram na pele, destruindo as células e impedindo um novo crescimento. No entanto, este não é o único problema de saúde que resulta desta exposição à radiação, como concluíram os cientistas na altura. Outros dos fatores identificados foi o elemento iodo, que se concentra na tiróide. O iodo emite metade da sua radioactividade em raios gama nos primeiros oito dias. 

 

“Quero que as pessoas percebam o perigo das armas nucleares”, disse Walter Pincus numa das entrevistas que deu o ano passado, quando a obra foi publicada. “Nada acontece num vácuo. Muitas vezes esquecemo-nos disso quando olhamos para factos históricos”, escreve na sua obra. 

 

Depois de várias deslocações e já sob contaminação, a população das ilhas e atóis atingidos pela radiação acabou por não voltar ao seu local de origem, ficaram a viver em diversos sítios, por vezes retidos em bases militares para observação. No documentário de John Pilger, é possível ver e ouvir estas vítimas que falam sobre a longa jornada que dura há décadas. O cenário é de pobreza, sedentarismo, emigração e más recordações. O número de diabéticos cresce todos os anos.

 

Em 1986, durante a administração de Ronald Reagan, os Estados Unidos declararam independência limitada às Ilhas Marshall (sob o termo em inglês Compact of Free Association), com a condição de aceitarem a compensação de 150 milhões de dólares pelos danos dos testes nucleares. Esse valor rapidamente se esgotou, e um pedido de recurso enviado ao Congresso ainda aguarda resposta. A questão do dinheiro é levantada desde 1956, quando o acordo financeiro começou com o pagamento de 325 mil dólares ao povo de Bikini para poder usar o atol. Entretanto, qualquer habitante tem, à partida, acesso a visto de residência nos Estados Unidos.

 

Depois de várias deslocações e já sob contaminação, a população das ilhas e atóis atingidos pela radiação acabou por não voltar ao seu local de origem.

 

Mas o dinheiro não é tudo para as populações afetadas pelos testes nucleares. Em 1977, John Anjain, o presidente da Câmara de Rongelap, que entretanto perdeu um filho de 19 anos com leucemia, surgiu perante uma delegação do Comité do Senado para a Energia e Recursos Naturais. No seu discurso disse: “O dinheiro não pode trazer meu filho de volta. Não me pode devolver vinte e três anos da minha vida. Não pode tomar o veneno dos caranguejos de coqueiros. Não pode impedir de sentirmos medo.”

 

Um relatório das Nações Unidas em 2012 deixa claro que os efeitos dos 67 testes nucleares realizados de 1946 a 1958 duram até hoje. Um dos autores, Calin Georgescu, afirmou ao jornal The Guardian que a “contaminação ambiental quase irreversível” levou à perda de meios de subsistência e muitas pessoas continuaram a sofrer “deslocamento indefinido”. 

 

A reportagem remonta a 2014, quando se assinalavam os 60 anos da detonação da bomba Bravo. A população das Ilhas Marshall continua a exigir justiça e a manifestar-se anualmente nas ruas. Mas não é só esta comunidade que mostra a sua mágoa. No Japão, a data não é esquecida pelos familiares dos pescadores que se encontravam a 60 quilómetros do atol de Bikini quando se deu a explosão. Na data que marcou as seis décadas, cerca de duas mil pessoas marcharam em protesto. O barco Lucky Dragon está em exibição em Tóquio desde 1976, no parque Yumenoshima, para lembrar os visitantes da tragédia nuclear. 

 

No momento em que vivemos, com novas ameaças de se usar armas nuclear, vale a pena recordar as palavras de Walter Pincus no seu livro: “a lógica distorcida para o uso de armas nucleares - e por enquanto o seu único uso - é a de serem armas de terror, não para lutar numa guerra”.

 

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In: https://setentaequatro.pt/enfoque/ilhas-marshall-o-paraiso-tropical-que-virou-um-inferno-de-radiacao

 

31 julho 2022

UMA QUESTÃO DE LINGUAGEM OU DE ESTILO?


O ministro Medina falou.
O ministro Medina contudo não falou para o País. Não falou aos seus concidadãos. Não falou aos portugueses.
O ministro Medina, à semelhança da direita neoliberal, à semelhança dos ministros de Passos Coelho, falou para os tais mercados a quem deve respeito e subserviência.
O ministro Medina falou.
E disse que não haveria governo algum do mundo que conseguisse dar resposta.
Para começar, o ministro Medina mente.
E mente, porque "ignora", ou melhor quer que a gente ignore, que muitos países europeus adoptaram algumas medidas, ainda que parcas, no tempo devido.
O ministro Medina, bom e fiel "acompanhante" do seu chefe, andou mais de 4 meses à deriva, sem saber bem o que fazer.
O ministro Medina nada fez.
E, como se isso não bastasse, engendrou, com o seu chefe, um discurso enganoso, mentiroso, para dourar as medidas pífias que se conhecem, tarde e a más horas, esperando que os cidadãos batessem palmas e o levassem aos ombros. 
Os trabalhadores e os cidadãos que mais precisam tiveram do ministro Medina a mesma resposta que teriam dado os ministros da troika.
O ministro Medina volta a negar que pensionistas e reformados tenham qualquer perda, admitindo "que é preciso fazer reflexão sobre a fórmula de actualização das pensões, com tempo e com ponderação". Aqui, o ministro Medina, para além de insultar a inteligência dos cidadãos, adopta, uma vez mais, o discurso da Direita, para um dia destes, abrir a porta à capitalismo das pensões. 
O ministro Medina é um joguete do capital financeiro e dos privados: enfim, sempre o neoliberalismo, puro e duro.
Agora que o Partido Socialista se "livrou" da Esquerda, usa a maioria absoluta como poder absoluto e governa para os mercados e para o capital.
A linguagem de Medina, nem sequer tem um estilo próprio. É a linguagem da direita neoliberal. É o princípio da autopenalização dos cidadãos. É o desrespeito pela cidadania. É o reinado do enriquecimento dos ricos. É o caminho da submissão e da pobreza.

24 julho 2022

A TESE DA CULPABILIZAÇÃO INDIVIDUAL


Pode, em primeira instância, causar uma certa estranheza que o primeiro-ministro António Costa tenha produzido declarações pretensamente assertivas a propósito dos habituais fogos de verão. Por muito que custe ouvir ou ler, afirmações como “não são precisos mais meios, é preciso é mais cuidado”, ou mesmo a acusação directa aos cidadãos de “falta de cuidado”, elas são contudo fruto de um discurso aparentemente elaborado de culpabilização individual, muito em voga nos tempos que correm. E que resultam, em certa medida,  de uma falta de capacidade ou inteligência para lidar com situações, decorrentes da ausência de políticas, quer de prevenção estrutural, quer de resposta imediata. 

 

A culpabilização do cidadão é, por um lado, uma estratégia de uso do poder de forma abusiva e, por outro lado, a demonstração da ineficácia ou incompetência das administrações e governos. A forma típica de culpabilização individual centra-se porventura na Escola e estará no cerne do próprio imaginário escolar, que culpa o indivíduo pelo seu próprio fracasso. Existe aqui um sentimento de culpabilização individual. A associação de um sentimento de culpa, contribui decisivamente para a dependência psicológica e para a subsequente auto-penalização.  

Não ficará de fora a influência negativa de determinado tipo de práticas, associadas à vertente psicológica. A responsabilização do cidadão, que sempre ocorre nas situações ligadas à ecologia, às alterações climáticas ou catástrofes, naturais ou provocadas, supõe  aquela vertente, fazendo cair sobre o cidadão a responsabilidade do que acontece, penalizando-o e culpabilizando-o. Veja-se, por exemplo, como funcionou esta armadilha, na política pura e dura, no tempo da troika. Na realidade, os cidadãos foram responsabilizados por “viverem acima das possibilidades”, pelos responsáveis europeus e também pelos nacionais. Assim funciona o neoliberalismo, é esta a sua cartilha, impregnada de falácias e de um sentimento de inculcação ideológica propositada e dirigida à culpabilização.  Que constitui, juntamente com a tese da desgraça, uma das suas “armas”. Que não hesitam em utilizá-las, particularmente em momentos de crise, com apelos à “unidade nacional”, situação bem notória quando falam de despesismo, que é válido quer na perspectiva individual, quer na global, contra os estados que, na sua opinião, desperdiçam verbas para o sector público, que deviam ficar ao livre-arbítrio do funcionamento dos mercados.

O direito civil incorpora uma modalidade designada “culpa in vigilando”. Significa, em linguagem corrente, que os que têm a obrigação de vigiar são civilmente responsáveis pelos actos daqueles que deixam de vigiar de forma adequada. E, como resultado, quem tiver em sua posse algo que tem o dever de vigiar, deve responder pelos danos que daí derivam, salvo se provar que não houve culpa da sua parte, ou que os danos se teriam igualmente produzido ainda que não existisse culpa própria. (art.º. 493º do Código Civil). Parece óbvio que administrações e governos estão obrigados a este preceito. Uma eventual dose de esquecimento daqueles princípios apenas vexa os seus autores.

 

Embora se diga, em linguagem popular, que a culpa morre solteira, a sua passagem para o campo estritamente individual, tende a induzi-la no cidadão, responsabilizando-o. O designado sentimento de culpa, que, segundo certas correntes da psicologia, é um conceito necessário para o arrependimento, uma espécie de epifania, em face da qual, o  indivíduo seria levado a reconhecer as diferenças entre valores e atitudes, tornando-se mais consciente e até humilde. 

Somos todos culpados de tudo e de todos perante todos, e eu, mais do que os outros”, dizia Dostoievski, em “Os Irmãos Karamazov”, uma aproximação irónica sobre as posições anti-éticas do autor, que revela entretanto um certo sentimento de culpa e uma necessidade pungente de alcançar um qualquer perdão.

 

Heidegger caracterizou o ser humano de uma forma aparentemente cruel, já que falava da culpa como fundamento da decadência, incorporada numa tipologia de existência humana, baseada na facticidade, ou o ser um facto. As nossas escolhas seriam assim determinadas pela confrontação dos factos, nas situações em que nos encontramos. Para o filósofo alemão, a facticidade é muito importante, porque constitui a base necessária de todas as nossas acções. Para ele, a culpa é o fundamento da decadência. 

 

Pode existir uma certa culpa política no cidadão, que tem algum sentido quando aquele reflecte sobre o verdadeiro sentido do voto que depositou em urna e carrega em si a responsabilidade dos erros cometidos pelos governantes que elegeu. Claro que esta forma de ver a situação carrega em si mesma um ónus estranho, uma vez que quem comete a perversão não é o cidadão. E aqui estará muito provavelmente a chave da questão. O governante culpa o cidadão pelos erros que ele comete, transmutando assim a culpa política, a sua culpa política.

 

Mesmo partilhando da tese de Ramuz, quando afirma “Sentirmo-nos inúteis ainda é pior do que nos sentirmos culpados”, preferiremos decerto que culpas que eventualmente carreguemos sejam as nossas e não as que nos querem impor.

A RÁDIO TRANSFORMA

 

“...Que o poema seja microfone e fale

uma noite destas de repente às três e tal

para que a lua estoire e o sono estale

e a gente acorde finalmente em Portugal...” 

“Poemarma”, Manuel Alegre (1964)

 

 

Do sítio onde nos movemos, ou onde simplesmente estamos, ouve-se uma estação de rádio. Passa música e algumas notícias breves. Crónicas de vida, resultados de alguma investigação, relatos de cidadãos a quem é dada a voz, algo raro por estes tempos. Trespassa uma aparente calma, no meio da frenética propaganda, que se distingue do resto, que repete vezes sem conta o mesmo discurso, que é substancialmente pior que a publicidade da mais recente marca de qualquer coisa, a que facilmente fechamos os ouvidos. Faz que fala connosco, quando nos transmite a alegria do golo, gritado a plenos pulmões, ou quando nos dá a notícia triste da morte do Poeta. Nunca saberemos porventura medir a potência forte da rádio, quando nos perturba sem imagens, quando nos encanta com a abertura de uma ópera antiga, onde a voz da soprano lírica transpassa mais brilho, no tom mais alto que do mundo. 

 

A rádio

No ano de 1887, o físico alemão Heinrich Hertz construiu um aparelho para gerar e detectar o que chamamos hoje de ondas de rádio. Hertz inferiu que as ondas viajavam à velocidade da luz (cerca de 300 000 km/s) e demonstrou que a dita radiação poderia ser reflectida e refractada, da mesma forma que a luz visível. As ondas de rádio, também são conhecidas como ondas hertzianas, em homenagem ao seu descobridor. Mas, vinte e quatro anos antes, James Maxwell, professor escocês de física experimental, havia dado a sua contribuição, unificando de certa forma as teorias de Faraday, Lorentz, Gauss e Ampere, ao demonstrar teoricamente a provável existência das ondas eletromagnéticas. O que Hertz, um admirador de Maxwell fez foi, na realidade, provar experimentalmente a teoria de Maxwell.

Associados à rádio serão sempre os nomes dos percursores  Nikola Tesla (1856-1943) e Guglielmo Marconi (1874-1937). Contudo, a transmissão de sons acabaria por só ser possível, por volta de 1906, após o surgimento do tríodo, uma válvula de três elementos (grelha, placa e filamento), desenvolvida pelo físico norte-americano Lee de Forest (1873-1961), utilizada  para amplificar e produzir ondas eletromagnéticas de forma contínua.

Desde então até hoje, a rádio entrou na vida das pessoas e teve particular destaque na difusão de notícias nas guerras mundiais do século XX. 

 

O bichinho da rádio

Pode ser nome de um programa de rádio. E pode, simultaneamente, atestar quanto ficamos presos por algo que passa na rádio, criando assim o tal “bichinho” que inquieta. Quem poderá esquecer o filme de Barry Levinson, “Bom dia Vietnam”, onde o radialista de serviço, interpretado por Robin Williams, tenta passar a sua esfusiante alegria crítica aos soldados no terreno, enquanto as chefias tremiam, perante o “perigo” dessa passagem. 

Aprendíamos, com aqueles programas da rádio, que, antes do 25 de Abril, nos davam a música que precisávamos, como o “Em Órbita”, do Rádio Clube Português, ou que nos brindavam com verdadeiras pérolas, como o “Pão Com Manteiga”, da Comercial ou o “Tempo Zip”, da Renascença. E lembramos o Leite de Vasconcelos, que no programa “Limite” da Renascença, anunciou o 25 de Abril. E alguns outros, que fizeram da rádio um enorme espaço de liberdade e imaginação, como Manuel Alegre, Fernando Pessa, Fialho Gouveia, Raul Solnado, José Nuno Martins, Mário Zambujal, João David Nunes e Cândido Mota. E ainda o Pedro Rolo Duarte, prematuramente falecido (em 2017), que foi um Homem da rádio que lutou, na opinião de António Pascoal, “...contra a cultura do vazio e da boçalidade profissional no seu meio”. 

 

A rádio transforma

A rádio pode transformar a nossa vida. Mesmo quando nela prolifera, por vezes, a democracia do palavreado e da imbecilidade, a rádio é sempre o aviso ou o alerta para estarmos atentos e para podermos exercer algum direito, quando se abre à nossa voz.

O respeito pelo silêncio, a música do vento, a chamada sincopada dos encontros imediatos, a denúncia, o reconhecimento, a abstracção, o torpedear constante da propaganda, o anúncio estúpido da pasta de dentes, a voz do mestre, o arroto do político menor, os jingles da rádio.  

Há uma rádio que passa um programa chamado “Informação Inútil”, por sinal bem mais útil do que, por exemplo, a informação sobre a bolsa ou do que os “comentários” insidiosos de meia dúzia de “residentes”, convencidos que sabem falar de tudo e parecem viver num planeta próprio.

É a rádio que nos desenha uma ideia de rosto a partir da voz, de quem “...vê a rádio que nós ouvimos”. Ou aquela de um conto de Michel Tournier: “Percorre o mundo de equívocos, e quase mistério que rodeava as personagens da rádio, nesse tempo em que a imagem não impusera ainda a sua diáfana tirania”.

 

A Rádio Transforma

Uma rádio do Porto para o mundo. A Rádio Transforma (http://radiotransforma.net) surge na sequência da publicação da revistaInComunidade (www.incomunidade.com), “…uma revista online de pensamento e criação que aborda áreas como a Política, a Economia, o Direito, Ciência..., não havendo limitação de temas, excepto se atentarem contra a dignidade humana.” A revista leva já onze anos de publicação online. 

Os impulsionadores da revista sentiram, na opinião do Director Henrique Prior, “...a necessidade de avançarem com um projecto mais ambicioso do que essa revista, que seria uma rádio que estivesse presente não só num canal áudio, mas ainda em todas as redes sociais, em particular no Youtube, ambicionando mesmo evoluir para uma televisão por cabo.” E continua, afirmando que “...apesar dos limitados meios financeiros, conseguiu sobreviver à pandemia, e a sua audiência encontra-se em franca expansão, sendo os seus programas seguidos, poder-se-á dizer, por pessoas nos mais variados países, da Europa às Américas, da África à Asia.”

A programação musical da Rádio Transforma é de elevada qualidade, abrangendo a música ligeira, música portuguesa, brasileira, a chamada música do mundo e ainda o jazz  e a música clássica. Os programas de vídeo (audíveis no canal da rádio em áudio), no Youtube, no Instagram Reels, nomeadamente, atraem pela elevada qualidade da cultura e da informação que transmitem. O programa ENFOQUE, que tem uma audiência considerável, não só em Portugal, mas também no Brasil, representa a ligação ao mundo lusófono, que é um dos objectivos sempre presentes na programação.

Henrique Prior diz que a Rádio Transforma “...está nos primeiros tempos de existência. Mas a força e a entrega ao bem comum de quem nela trabalha e com ela colabora são a garantia de que será longa a sua vida.” Na sua visão, o Projecto pretende “...contribuir para a transformação deste mundo num mundo melhor e socorre-se daqueles princípios em que assentou a Revolução Francesa e que, cada vez mais aprofundados, devem nortear todas as sociedades: liberdade, igualdade e fraternidade. Liberdade porque sem liberdade somos todos escravos e não verdadeiros homens responsáveis pelo seu destino e capazes de o moldar, transformando o mundo num mundo melhor. Igualdade porque nenhum privilégio de qualquer espécie deve ter qualquer homem em relação ao outro. Fraternidade porque só com fraternidade poderão existir os outros dois princípios. E, ligados a estes, outros princípios essenciais: sabedoria, força, beleza; honra, verdade, justiça, progresso.” E conclui, dizendo que apesar de “...todas as nossas limitações financeiras, nunca abdicamos de colocar na nossa programação, quer de áudio quer de vídeo, estes princípios.”

 

Se puderes, ouve. 

Ouve a rádio que ciranda por aí, possivelmente num transistor perto de ti. Está provavelmente presa em qualquer esquina, mas passa por aí. Não tem imagem, mas pode albergar belas alegorias, ao contrário da concorrência, onde se vê, a toda a hora, o horror do espectáculo, a vilania da agressão que entra pelos olhos dentro. A rádio que um dia ajudou a libertar o País, à custa de tantos subterfúgios, de tanto enredo, na imaginação fértil de tanta gente, que nos deliciava com a doce amargura dos tempos de cólera. A rádio que um dia nos dava a voz da liberdade e no anterior passava ainda o discurso hostil da mentira.

Há uma beleza imensa na rádio, um afrontar constante à lembrança remota que vive em nós. Uma corrente imensa de palavras e sons. Perdoem-me se invoco a corrente, e diga, “A rádio vai em ondas como o mar”, frase roubada ao Fernando Alves, um Amigo que rema invariavelmente contra uma maré de marasmo e nos convoca sempre ao desassossego. E, se hoje o cito, é porque ele sempre fala de uma “longínqua casa dos prodígios”, ou da “plasticidade das palavras”. 

Como ele, acredito “...que a rádio vê e dá a ver no escuro.”

 

 

 LIBERDADE E PENSAMENTO CRÍTICO (LPC 2022)


 
















Em Abril de 2018 haveria de ser tornado público um documento, um Manifesto, intitulado “Liberdade e pensamento crítico”.

 

Estávamos a comemorar os quarenta e quatro anos de Abril e a Revolução. No Manifesto poderia ler-se “A liberdade povoa todos os espaços da vida; não pode ter quartos escuros”, “A liberdade só existe quando se exerce contínua e diariamente, em cada gesto, em cada ideia, em cada sentimento” e ainda, “A liberdade é o direito à igualdade com o reconhecimento da diferença.”

 

Constatando uma realidade que, com 4 anos de diferença, é exactamente a mesma, o documento afirma, “Há milhões de pessoas que nascem e morrem sem nunca terem sido felizes, porque é impossível sê-lo nas condições em que vivem. As crianças que nascem na pobreza têm fome pela escassez de alimentos ou da sua qualidade. O acesso à chamada solidariedade é sentido desde a infância como um estigma e a desigualdade com os outros da mesma idade não é perceptível por qualquer racionalidade, o que leva à revolta e à tristeza. As situações de desemprego, a precariedade, as pensões de miséria, os idosos dependentes e os incapacitados geram um ambiente que dura vidas inteiras, sem uma abertura, sem um pequeno projecto de alegria. Também nas chamadas classes médias a vida é desumana. O trabalho humano tornou-se mercadoria e o critério de produtividade dos accionistas das empresas cabe num programa de computador. As oito horas de trabalho, que a tantas condenações à morte levou em 1886, foram esquecidas e as empresas privadas alargam com ameaças a jornada de trabalho às dez, 12 horas. Esta é a realidade que impede uma vida pessoal condigna...”

 

Sendo o LPC um Movimento que se posiciona com objectivos bem claros de reactivar a democracia representativa e de defesa dos valores de Abril, a realização do IV Fórum Liberdade e Pensamento Crítico foi um acontecimento ímpar, num contexto em que reina o desinteresse pela política e em que muitos cidadãos se sentem ameaçados nos seus direitos.

Assim foi no dia 23 de Julho, um Sábado quente, a convidar outras paragens, no Liceu Camões.

 

Houve um pouco de tudo, exposições temáticas e de pintura, poesia, música, dança, debates e actividades culturais e onde estiveram presentes diversas associações cívicas e culturais com mostras gastronómicas, livros e outros produtos. 

 

O tema geral do Fórum foi “Informação e Desinformação”. Com ele se procurou, “...fomentar uma reflexão conjunta sobre a verdade e a ética em confronto com a falsidade, as notícias falsas, manipuladas; a verdade que colide com os interesses do poder político e que é sonegada; a verdade como ameaça pela confrontação entre interesses e valores, a manipulação da opinião pública e os jogos de poder.”

 

Num dos debates, muito animado, onde se falou de “Democracia, Liberdade e Pensamento Crítico”, foram avançadas algumas ideias e propostas, no sentido de fazer sentir que as necessárias mudanças a nível político, só serão uma realidade se os cidadãos participarem na vida política, nas empresas, na saúde e na escola, no dia-a dia. Não havendo “receitas”, há experiências que vale a pena conhecer e caminhos que vale a pena trilhar, para a libertação do jugo neoliberal que domina o País e o Mundo.

 

Assistimos, debatemos, convivemos. Também ouvimos poesia e performances diversas. Dançamos forró e apreciamos os Artistas que nos brandaram a com a sua música. 

 

Apesar do elevado grau de interesse  deste evento, não consta que a comunicação social tivesse comparecido. Confirma-se assim que tem mais com que se “preocupar”, afinal ali não havia nada que os pudesse interessar...


26 junho 2022

MENTIRAS E VIDEO (aqui não há sexo)


 











Vídeos aos montes.

Mentiras a rodos.

Se há asserção que melhor assente ao tema, que venha e mostre o seu valor.

A histeria continua. 

Primeiro, o “encanto” pela “causa” da Ucrânia, da resistência ao invasor, da “neutralidade” daquela agremiação “pacífica” que começa por “N” e termina em “O”, ao envio maciço de armas, de milhões de milhões de dólares, euros e libras, vindos de todo o lado (onde os há), dos passeios do jovem comediante, marionete de Washington, pela europa de bem, os parlamentos a babarem-se todos com as patranhas mais primárias, ...

Segundo, a adesão ao clube dos “bons”, a pré-adesão, antes da dita, a maior das mentiras, coisa em que não sei se há alguém que acredite e que representa o maior dos enganos, possivelmente para o desgraçado povo ucraniano, obrigado a sofrer por força de uma guerra e de uma liderança irresponsável, que, a pouco e pouco, lhe vai retirando os direitos mínimos a uma qualquer democracia que se preze, os direitos de trabalho e os de organização política. Pensar que aquele país, onde campeia a corrupção, cumpre algum critério para “entrar no clube” será o mesmo que acreditar que o pai natal anda por aí a distribuir rublos.

No filme há um engano fatal, o personagem que grava vídeos com mulheres que falam sobre sexo tem um fetiche por algo que não atinge. Na vida real, não há paradoxo nenhum, a tal de união europeia manda gravar vídeos, prometendo algo que não existe, nem provavelmente existirá tão cedo, nem sequer com nenhum dos medíocres personagens actuais.

Com tanta trapalhada, que se junta às “terríveis sanções” que só atingem os trabalhadores e os cidadãos carenciados, o invasor deve rir a bandeiras despregadas e depreciar ainda mais o dito ocidente, de que afinal também faz parte, pelo menos, no sistema económico que produz a desgraça em todo o mundo.

Não há sexo, como no filme. Pelo menos que se saiba, uma vez que a impotência é muito superior à capacidade de fazer. A falência completa desta casta dirigente, já vem de longe, é um tenebroso filme de terror, em que a guerra serve para encobrir o seu fracasso. Não querem a paz, porque lhes tira o vergonhoso protagonismo do espectáculo e da mentira.  

Seja o que vier, não deverá contar com a realização superior de Steven Soderbergh. 

É, quando muito, um filme foleiro de série negra, num cinema (país) ao pé de si. 

Desgraçadamente.

 

 

 

19 junho 2022

PASSEIO AO CAMPO (minado)


 









Num belo dia de sol, os líderes meteram pés a cominho, para uma viagem-surpresa ao campo (minado). Com eles levavam a certeza do “apoio”. Que tem (ou terá) a dupla face, uma é o dinheiro, sempre mais dinheiro, a outra são as armas, que o aliado americano tem forçosamente que escoar, que vender. Chegaram bem, visitaram as cenas do costume, aliás devem visitar todos o mesmo, ou seja, vêm aquilo que querem ver, interessa pouco o quê, eles também mostram aquilo que querem. Todos felizes, multiplicaram-se depois na costumeira lengalenga da “defesa da liberdade” na europa, do “campo democrático” (lá está o campo...), dos crimes que estão a ser cometidos e que o são pelos “maus”. E terminam com as juras habituais da integração na dita união, ou, no mínimo, na promessa do “candidato à adesão”.


É difícil descrever este estado de coisas, sem a inabalável “certeza” de defender os “bons”, em oposição aos “maus”. Este é sobretudo a demonstração do primarismo mais rasteiro, da prova de que se acredita numa narrativa. Que, entretanto, começa a esboroar-se. 

Mesmo aqueles que no início do ano, ou seja, em Fevereiro passado, iniciaram, aproveitando a invasão, a cruzada pela instalação do pensamento “único”, começam a dar sinais de mudança, tal e qual ratos de porão, quando o navio começa a afundar.

Dizer que a situação é simples, quer do ponto de vista analítico, quer até do intuitivo, pode ser redutor. Contudo, se colocarmos as questões de uma forma objectiva e clara, poderemos de alguma forma encontrar respostas, sobretudo para quem gosta de ver as coisas de uma perspectiva simplista. Duas questões. (1) invasor tem motivos para temer um assalto ao seu território, pelo cerco que lhe foi (e é) feito? (2) esses eventuais motivos justificam uma invasão? As respostas são mais que óbvias. À primeira, sim, sem qualquer dúvida. À segunda, um não rotundo.


Mas o passeio dos líderes, parece ter um outro objectivo. Conhecendo as ordens a que caninamente obedecem, sem qualquer sentido crítico, do ouro lado do “campo”, parecem assim ser (também) duas as premissas a considerar: (1) o comandante do dito “campo” poderá ter mudado de posição, (2) a NATO quer “muitos anos de guerra”, cumprindo escrupulosamente a sua natureza bélica e sua função guerreira. 

Há, porém, brechas nas fileiras “aliadas”, que nunca o foram e agora querem ser. A sua “aliança” acaba por funcionar ...contra eles próprios: as ditas sanções, que continuam a defender e a aplicar, têm sobretudo efeitos nos cidadãos mais carenciados e não sobre o país invasor. A bem dizer, a posição “europeia” é sempre de dar tiros no pé e proteger sempre os mesmos, ou não fosse ela mesma a incarnação do neoliberalismo mais venenoso. E, a bem dizer também, uma posição mentirosa e hipócrita, no que reporta à sua política para os refugiados.


O passeio dos líderes, é necessariamente uma demonstração da política de vassalagem ao império do outro lado, não fossem eles afinal feitos da mesma “massa” que os outros, que declararam guerra ao Iraque, na obediência cega ao militarismo americano.

Cabe aqui, uma vez mais, a referência aos que, toldados pela propaganda e pela histeria mais grosseira que alguma vez se viu, continuam a confundir tudo, querendo (e fazendo mesmo) a acusação que resulta de um pensamento primário que assim reza: “se não apoias a Ucrânia, então és apoiante da Rússia, ou pior ainda apoiante de Putin”. Embora seja difícil sustentar esta ideia, afinal o caldo propagandístico ocidental, arrogante e, ao mesmo tempo, ingénuo, o que é certo é que passa como legítimo. E produz o efeito pretendido: o “mal” incarnado é todo o mal do mundo, o resto não interessa, dure o tempo que durar.


Entretanto, vão-se conhecendo alguns pormenores “interessantes”:

(1) em Itália, sabe-se que a embaixada da Rússia pagou a viagem do líder da extrema-direita e da sua comitiva a Moscovo, muito embora a viagem não se tenha realizado;

(2) a secretária de estado americana Victoria Nuland ter-se-á gabado de ter investido (quantas centenas de milhões?) nos partidos neonazis da Ucrânia; esta é uma demonstração evidente da forma como “eles” entendem a democracia;

(3) em Março de 2021, a administração americana incentivou o seu “peão” Zelensky, a lançar a ofensiva militar contra o Donbass, consubstanciado num ataque relâmpago organizado por conselheiros norte-americanos e britânicos.

O passeio ao campo foi (mais uma) encenação grotesca da manifesta incapacidade da dita “união” em produzir e aplicar, ao menos, políticas coerentes. Há nestes líderes um misto de impotência e hipocrisia, que enganam os povos e que sustentam uma democracia musculada e incapacitante. Todos nos lembramos, por exemplo, do episódio grotesco e anti-democrático que conduziu à “invasão” da Grécia, um país membro, pelo directório da troika e que destruiu um governo legitimamente eleito, lançando na miséria milhões de cidadãos e impondo a sua “lei” e a sua “ordem”. 


Se bem que se impõe o combate contra todos os imperialismos e suas as acções directas sobre os trabalhadores, o imperialismo que nos atinge directamente é mesmo o imperialismo americano. E os saudosos ingénuos que hoje ainda dizem, “...ai, se não fossem os americanos”, parecem esquecer-se do inferno devastador que foram as acções das administrações americanas em todo o mundo, no Vietnam, Coreia, Chile, Iraque, Jugoslávia, Palestina, entre tantos outros. Sempre com a tenebrosa NATO, que deveria ter sido dissolvida, aquando da dissolução do Pacto de Varsóvia. Sempre para alimentar o comércio das armas, que alimentam os seus oligarcas. Aliás, enquanto tal prevalecer, é a lógica da guerra e não da paz, que dominará sempre a cena internacional. Em qualquer ponto do planeta.


A dita união europeia é uma mentira pouco piedosa. Não há união alguma a não ser uma dominação forçada e anti-democrática de um directório não-eleito sobre os países periféricos, através de um sistema de moeda única que continua a produzir, todos os dias, ricos e desigualdades permanentes. É uma união sem futuro nenhum, a não ser a de uma imposição de um modelo desigual e de pensamento único. Tenderá a desfazer-se, mais cedo ou mais tarde, uma vez que está agarrada permanentemente aos interesses dos ricos e poderosos e não defende os mais elementares direitos dos cidadãos. Como é possível aceitar, por exemplo, que desde o início do mês de Março, o referencial das margens de refinação das petrolíferas no mercado europeu aumentou tenha aumentado mais de 200%?

Os líderes foram passear ao campo. Quando assim acontece, convém acautelar o perigo de sujar as botas na trampa. É que ela abunda no campo onde decidiram passear...