30 abril 2026

MAIOS

 

Entra o novo mês, com a tradição renovada das giestas nas portas, abençoando Maio, que se foi fazendo “maduro” ao longo de tempos idos, celebrando a Primavera e esconjurando o mal, afastando os maus espíritos, invejas ou pragas e trazendo protecção e abundância para a casa. Na verdade, os “maios” são bonecos artesanais, feitos de palha de centeio, trapos velhos ou jornais, normalmente vestidos com trajes típicos de cada zona do País e que, no final do mês de Maio, substituem as flores. Consta que havia danças, era a festa com celebração pagã, extensiva ao hábito, feito sátira política, na criação artística representada, na vivência comunitária, pela participação popular. As “maias” (e os “maios”) à solta brindavam o arrojo e a ousadia, muitas vezes violentamente reprimidas, não fosse essa a essência dos poderes instituídos, sempre longe dos anseios e das vontades das classes populares. Não é despiciendo lembrar, entre as celebrações, a da fertilidade, aqui na acepção do novo ano agrícola. 

 

No Maio actual, é bom que analisemos por um momento a enorme desfaçatez dos gigantes capitalistas, para ver até que ponto vai a exploração e o seu aproveitamento. A EDP teve 1.150 milhões de euro em 2025, representando um crescimento de 44% face a 2024; enquanto as famílias pagavam tarifas recorde, a empresa aumentou dividendos para accionistas. O Millennium BCP  teve 1.018,6 milhões de euro em 2025, representando um aumento de 12,4% face a 2024. O Grupo Jerónimo Martins (Pingo Doce) teve lucros de 646 milhões de euro em 2025, representando um aumento de 7,9% face ao ano anterior, num ano de crise alimentar aumentou margens enquanto os preços dos produtos básicos disparavam. A Mota-Engil teve, em 2025, 133 milhões de euro, representando um crescimento de 9% face ao ano anterior e tem beneficiado de obras públicas e fundos europeus, mantendo práticas de despedimentos e pressão salarial. Segundo informação de ontem, o Grupo Santander registou lucros superiores a 5 mil milhões de euro, um acréscimo de mais de 60% em relação a 2025. Idem para o Grupo suíço UBS-AG, que registou lucros de mais de 2 mil milhões de euro, uma subida de 80%. E, a Iberdrola registou 1500 milhões de euro, adicionando 15% de aumento. E finalmente, o Grupo Total Energy, lucros de 5 mil milhões de euro, mais de 51% relativamente ao ano passado. 

Face a cenários deste tipo, como interpretar a situação de desequilíbrio completo que grassa no capitalismo do século XXI? Enquanto os trabalhadores vão pagando sempre mais um pouco, ou muito e muito mais pelos preços de produtos e serviços, com o mesmo salário e a mesma pensão, que se pode considerar de miséria.

 

O 1º de Maio não tem hoje nada para festejar. Apenas tem de evocar a data histórica e passar adiante, mobilizando para a luta feroz contra o Capital, contra o governo infame deste País de Abril, apostado em afrontar os trabalhadores, com uma agenda reaccionária e, porque não dizê-lo com toda a frontalidade, completamente alinhada com a extrema-direita. Neste Primeiro de Maio, o “pacote” estará no centro da luta, a sua rejeição completa será a urgência absoluta, uma vez que a sua intenção é reduzir a regulação das condições de trabalho, facilitar a utilização de contratos a prazo e vontade de restringir claramente a greve, a actividade sindical e a contratação colectiva. 

 

Saibamos ser denunciadores das misérias do capitalismo. Por exemplo, da baixeza moral da gente dos “galpes” e quejandos, cuja empresa-mãe teve, nos primeiros três meses deste ano, um resultado líquido ajustado de 272 milhões de euro, mais 41% do que no mesmo período do ano passado, aproveitando sobremaneira a guerra do imperialismo e fazendo subir artificialmente os preços dos combustíveis, com implicação directa nos aumentos imediatos dos bens de consumo e dos serviços associados, com a cumplicidade dos “reguladores”, os lacaios do capital travestidos de “serviço público”. Merecem, como resposta, a sabotagem económica legal, com greves, boicotes e todas as acções possíveis de desobediência colectiva. Atenção a empresas-abutre como as norte-americanas  BlackRock e a Vanguard Group, que não produzem rigorosamente nada a não ser acumulação desmesurada de lucros através dos designados “gestão de activos”, “gestão de riscos” ou “gestão de fundos de investimentos”, uma das muitas misérias do capitalismo predador. 

 

Entretanto, temos no Alentejo, trabalhadores imigrantes, nomeadamente do Nepal e Bangladesh, a receber dois euro por hora ou menos, sem contrato, nem subsídios, alojados em contentores superlotados, sem água potável, sem saneamento, em antigas fábricas ou estábulos, com jornadas de 12 a 16 horas sem folgas, especialmente na apanha da framboesa, amora, tomate e azeitona. Que, se reclamam, são muitas vezes agredidos, moral e fisicamente, despedidos e ameaçados de expulsão. Os governos, sempre cúmplices, fingem que não sabem e permitem situações de vergonha, onde os trabalhadores são mantidos na situação humilhante de servidão por dívida. Neste Primeiro de Maio deveriam ser lidos, em voz bem alta, os nomes dos muitos que morreram no trabalho, nos últimos anos, ilustrando para que dúvidas não restem, que o capitalismo continua a fazer escravos, hoje com medo e passaporte.

 

O matemático português, professor universitário e  intelectual comunista Bento de Jesus Caraça, disse sobre o Primeiro de Maio ser o dia daqueles que, só por si, não contam na sociedade, “...o dia daqueles que, sendo a própria substância da sociedade, são a única força capaz de a transformar.” As palavras deste Homem, ferozmente perseguido pela ditadura fascista, podem ser um farol para quem (ainda) precise de ser “esclarecido”. Acontece que os “maios” de hoje não são propriamente bonecos de palha para substituir as flores pisadas e vilipendiadas. Maias e Maios das novas gerações se devem impor, para que a Luta passe da dimensão platónica social-democrata para uma outra eminentemente interventiva e declaradamente revolucionária. 

25 abril 2026

A LEGITIMIDADE DA MODERNIDADE REVOLUCIONÁRIA

(52 anos do 25 de Abril)

 

 

É, sem qualquer dúvida, um contraponto, necessário e justo, em tempos de servidão, ao que se diz, voluntária, a defesa de uma nova modernidade, compatível com o 25 de Abril, na sua essência fundamental. Que, lembra-se, foi atacar e derrubar um regime que oprimia, torturava e matava. Muito embora a modernidade clássica se tenha arvorado em destruir as diversas estruturas de pensamento, sociais e culturais, a começar pela obstrução determinada à superstição e à crença, o facto é que o evoluir dos séculos a tornou “líquida”, por força de uma mudança de estado em que os indivíduos são naturalmente tentados a reduzir a complexidade de sua situação a fim de tornarem as causas do sofrimento inteligíveis. Neste segundo quartel de mais um século sobrevivem sucessivos e monstruosos atentados ao racionalismo. O que vem sendo designado como um recuo civilizacional não é mais que a tentativa de um regresso a um passado de trevas e a uma mística estupidificante que desmerece qualquer consideração e não é compaginável com qualquer diálogo. Apenas o combate frontal pode significar algum progresso e, qualquer concessão extra é perfeitamente dispensável. 

 

Quando somos transportados para o Abril da nossa memória, (re)encontramos o que podemos classificar de legitimidade de uma nova modernidade revolucionária. Da necessidade de a colocar como pilar base dos nossos propósitos. Porque, muito simplesmente, os poderes actuais no País nada têm a ver com o vinte e cinco de abril de 74. Antes pelo contrário, incarnam a “reacção” de uma forma tão coesa que até será injusto exigir-lhes algo que nada tem a ver com eles, quer no plano individual, quer nas organizações de que fazem parte, a começar pelos partidos políticos e outras associações corporativas. Mas, será bom admitir, são essas forças do passado que ocupam todos os postos disponíveis do estado burguês. É, por essa e outras razões que se torna perfeitamente escusado e até desgastante falar a essa gente em “democracia”, “valores democráticos”, ou outros qualificativos semelhantes. Quando entoamos hoje “25 de Abril sempre!” é a palavra de ordem velha de mais de cinquenta anos que ganha todo o seu significado: a destruição completa do regime podre da “vampiragem” que vai chupando o “...sangue fresco da manada”..., que afinal “...São os mordomos do universo todo / Senhores à força mandadores sem lei”. E que hoje, com nova roupagem, nos trazem gritaria, espectáculo e mentira, devem ser combatidos com firmeza, nos campos e nas fábricas, nas escolas e nas universidades, enfim, na rua e por todo o lado, sem tréguas nem concessões.             

 

Recuando ao ano de 1867, lembramos este escrito de Marx: o Capital é trabalho morto que, como um vampiro só ganha vida sugando trabalho vivo. Aqui está a metáfora, como uma seta, a apontar a realidade e que o Zeca resumiu no seu poema, em 1963: “Eles comem tudo, eles comem tudo / Eles comem tudo e não deixam nada”. Haverá melhor imagem para explicar actualmente às massas o que é o capitalismo predador? E que resulta na candente questão, o que mudou na prática, no que concerne à exploração e à dominação, hoje “temperada” com o perfume ilusório das “democracias liberais”? 

Exigir direitos pode hoje não ser suficiente, embora seja necessário. Pelo menos no imediato. Que se parta, a vinte e cinco de Abril, para a construção de uma nova modernidade revolucionária, em que prevaleçam a insubmissão e o espírito crítico como armas de destruição do medo e da indiferença. Uma nova atitude de desobediência mais que legítima se deve erguer, despertando as consciências e libertando os corpos, no coro dos caídos que se levantam.

SEMPRE VINTE E CINCO DE ABRIL!

 

 

17 abril 2026

ALIADOS


 

Aliados é nome de Avenida, no Porto, incarnando o coração cívico da cidade. Projectada no início do século XX, o seu nome evoca a aliança vitoriosa que derrotou Napoleão e, mais tarde, a tríplice entente da I Guerra Mundial, a avenida evoca diversas “alianças”, quiçá associadas a revoluções, do 31 de Janeiro de 1891 ao 25 de Abril de 1974, passando pela grande manifestação de apoio a Humberto Delgado a 14 de Maio de 1958. Aliados contra o medo e o fascismo, na avenida a que se associam a libertação, a união contra a tirania, num espaço de encontro e protesto cívico, um sentido que ainda hoje perdura e mantem viva a insubmissão.

 

Um dos cientistas político actuais que aborda a temática “aliança-aliados” é o professor de ciência política norte-americano John J. Mearsheimer, teórico e especialista em relações internacionais. A sua abordagem implica a consideração que as alianças não são comunidades de valores ou parcerias estáveis baseadas na confiança mútua, mas sim resultados de momentos conjunturais. Mearsheimer considera assim que as grandes potências estão permanentemente inclinadas a maximizar o seu poder e que a cooperação entre estados é intrinsecamente difícil. Particularmente crítico mordaz da NATO e da política do seu país, diz que aquela não tem qualquer razão de existir, por ser desnecessária, obsoleta e potencialmente perigosa, ao alimentar tensões com a Rússia. Para este Autor, o termo "aliado" é esvaziado de conteúdo substantivo. Não há verdadeira reciprocidade, partilha de encargos ou responsabilidades mútuas, existindo somente  "protectorados", ou seja, países que são defendidos pelos EUA e que, em troca, permitem que Washington lidere. Mearsheimer sugere até que, na retórica da hegemonia liberal, "aliado" é simplesmente qualquer país que “compre” o programa hegemónico americano e aceite que os EUA devem ser o polícia do mundo .

 

O tema “Aliados” constitui uma narrativa poderosa do Ocidente quando se associa basicamente a uma excrescência belicista chamada OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, em inglês), responsável pelas mais sacrossantos crimes de guerra, no ataque, ocupação e destruição de países e cuja materialização efectiva assentou, desde os anos sessenta do século passado, no Vietnam, Camboja, Balcãs, Iraque, Síria e Ucrânia, citando apenas os mais significativos. Esta putativa “aliança” não é apenas militar, é tudo menos “defensiva” e representa uma ofensa à integridade e às consciências, atingindo o bloqueio completo e cirúrgico da informação, sempre na esteira da obediência servilista ao Império. Serve hoje um propósito espúrio, que se traduz na “obrigatoriedade” de alocar os tais “cinco por cento para a defesa”, que, a serem aplicados, significariam a destruição sistemática do designado estado social, já de si parcialmente devastado pelos princípios e políticas neoliberais, adoptados por esta Europa manifestamente em fim de ciclo. A auto-proclamada “união europeia”, o maior embuste do final do século XX, não é mais que a tradução prática da assumpção da desigualdade feita dogma castigador para os trabalhadores.  A aliança do capital atinge nos nossos dias uma vitória retumbante sobre o trabalho, embora nunca lhe cheguem os milhares de milhões de lucros obscenos que fazem o modo de vida dos capitalistas do século XXI, oligarcas poderosos, “invisíveis” aos olhos fracos do estado burguês que afinal os usa como aliados da sua sobrevivência.

 

O termo bloqueio assume-se hoje como arma discursiva e efectiva, no plano operacional. Os “Aliados” usam-no de forma compulsiva para intimidar e, embora não sejam os únicos a fazê-lo, têm o infeliz destino de se auto-ridicularizarem. O caso bem recente da ameaça trumpista relativamente ao Estrito de Ormuz é um exemplo encantador do paradoxo de Teseu, afinal os “activos” navais norte-americanos abatidos podem ser recuperados para nova cruzada? A aliança, hoje furada, para varrer do mapa a civilização persa, encontrou o antídoto certo no propósito ridículo do “criador”. Assim, não foi possível ao Império reconstituir iraques, sírias e balcãs, por ainda restar algum sentido de respeito, em exemplos vindos de Espanha, Itália, Reino Unido e Turquia, que se contam (ou contavam) apesar de tudo, entre os ditos “Aliados”. Convém aqui citar a opinião de um atlantista “esforçado”, o diplomata e ensaísta e italiano Giovanni Jannuzzi, que desempenhou funções como representante italiano na NATO e que nos diz, com a maior das boas-vontades, que as crises são na Aliança e não da Aliança.

 

Sabe-se que, em matéria de facto, os EUA não têm aliados, têm protectorados e instrumentos, têm reflectores e canais, directos ou indirectos. E satélites, que, na maior parte das vezes, confundem a sua órbita com independência. Os “aliados” de Washington sabem sempre por antecipação o que vão pensar, o que vão votar e, por mais estranho que possa parecer, o que vão sofrer. A liberdade da “aliança”, neste mundo unipolar, é a liberdade de escolher entre obedecer ou ser abandonado. E o abandono, como os curdos, os vietnamitas do Sul ou os europeus em certas retiradas já aprenderam, é apenas a face visível da dominação. Um verdadeiro aliado seria aquele a quem se pergunta antes de agir, aquele que se ouve e a quem se revelam segredos e não apenas os que já foram roubados. Uma aliança autêntica é baseada em valores comuns, confiança e reciprocidade. Uma aliança espúria ou impura envolve tácticas por conveniência, onde o fim justifica os meios. 

 

Uma palavra será devida, em tempo oportuno, aos que estarão fora da “aliança”. Aos desalinhados, que recusam o sistema, por princípio, ou por isolamento estratégico. Outra ainda para os descartados, que são abandonados quando deixam de ser úteis. E uma última para os cães-de-fila, detentores da lealdade cega, executores sem questionar. Uns e outros estão marcados no seio da “aliança”, fazendo valer o seu preço (certamente débil) e a sua valia, mesmo que não queiram ser aliados.

 

Aliados sim, na essência da palavra, podem ser chamados todos os que se juntaram para responder ao miserável bloqueio imposto pela besta imperial a Cuba. Um sucesso completo, do fornecimento de petróleo, ao de alimentos e medicamentos, tudo o que o País estava tremendamente necessitado e que há décadas sofre de ataque cerrado dos que o consideram ameaça existencial. O mundo, habituado a alianças falsas (ou falsas alianças) assiste, ainda que incrédulo, à solidariedade de cidades, vilas e aldeias com o País sitiado, manifestações comprometidas com a Liberdade e o direito à vida, plenas de solidariedade. Aliados de princípio e com princípios. Aliados que mostram à besta imperial que ainda há esperança, que existe resistência e que nunca é tarde para mudar de atitude.

Aliados na Avenida, a rua é quem mais ordena, “dentro de ti, oh cidade”. 

12 abril 2026

 UM ENCANTADOR DE MARES

 

 

 


 

                                Escrever o teu nome sobre a água

                                                depois bebê-la até ao fim

                                                        até a terra ficar seca

                                                    e tu afogada em mim. 

                                                        Paulo Sucena (2011)


Imagino um mar imenso de palavras que me acolhem, de tal forma que sinto o bater das asas de um poema a procurar uma brisa suave de encantamento e surpresa. As palavras vêm de todo o lado, já devidamente pensadas, pesadas de rigor poético e conceptual. Nada aqui está ao acaso, muito embora o próprio acaso fique grato de tanta oportunidade. Os mestres da música fazem o seu melhor, encantados pelas palavras e prontos a envolvê-las na nota e no tempo certos. 

Deixa lá, Vitorino, que te “caem as palavras / na tarde fria”, imagino o Paulo a verter o adjectivo mais selecto e o verbo mais acutilante. Enquanto Dany canta “Ninguém sabe onde nasce a música”, Paulo diz-nos que há aqui “Uma celebração da amizade”. E quando Pepe nos traz “Cantiga de Amigos”, entendemos logo que este é “Portugal doutra maneira”. Bebemos a “Agua da manhã” e ficamos intrigando as horas, querendo também “...uma rosa que não há”.

 

É um mar de palavras, ditas e cantadas por gente de tantos mares. Estes, em vez de levarem as palavras nas ondas, juntam-nas numa onda imensa de AMOR, onde o adjectivo é uma onda sublime. 

Olha, Irmão Paulo, tu és um encantador de mares...

 


Imagino um 

03 abril 2026

A PROPÓSITO DE ATITUDES

 

Se quero falar de atitudes, possivelmente carregado de adjectivos pouco abonatórios para uma grande parte delas, será porque a carga que possuem no mundo de fantasia que habitamos é por demais violenta e castradora de consciências. Venham elas, estaremos eventualmente dispostos a acatá-las e a desconstruí-las, a bem da sanidade intelectual. 

Se assim se começa, para saber como se acaba é (também) uma questão de atitude. Falamos de atitudes” não propriamente no sentido psicológico individual, mas sim de posturas políticas materializadas em decisões. Uma atitude agressiva, belicista e arbitrária, não é um rasgo de temperamento, é antes um conjunto de políticas, como assassinatos, cirúrgicos ou nem por isso, aumento de arsenais, vetos a cessar-fogo, envio de armas, uso do espaço aéreo e toda uma série delas, que configuram crimes contra a humanidade e contra a consciência. Obviamente, contra a Liberdade e contra a dignidade, as atitudes torpes que caracterizam o Ocidente, como caso particular de estudo, sempre e há muito tempo no que parece ser o caminho para um abismo consciente, mas determinado na sua ridícula convicção  de ser o “farol” da democracia e da civilização.

 

Qualquer atitude transformadora não é solitária nem violenta por natureza. Pode ser afirmativa, colectiva no plano global e ética, na sua natureza. O filósofo francês Gilles Deleuze, numa atitude de confronto contra as ideias feitas, sempre defendeu que a filosofia serve para "denunciar a baixeza do pensamento" e "fabricar” homens livres. Na verdade, a filosofia “activa” de Deleuze é um bastião na luta contra a estupidez, personificada porventura no que se pode chamar o “pensamento banal”, típico da contemporaneidade pífia. Como bem sabemos, a “baixeza do pensamento" produz situações caricatas, como aquelas em que as vítimas defendem os seus próprios algozes. Muito antes de Deleuze, uma obra de meados do século XIX (1849) designada “A Desobediência Civil”, escrita pelo historiador e filósofo norte-americano Henry David Thoreau, haveria de servir de “conforto” a movimentos de cidadãos pela emancipação e, acima de tudo, à resistência contra governos que cometem injustiças, como, no seu caso particular, contra a escravidão e a guerra contra o México.

 

As atitudes nobres, as que dignificam quem as assume, embora muito raras na política actual, existem e sublinham posições de firmeza intelectual e de compromisso com a verdade. Tentam ir ao fundo das questões e são, consequentemente, radicais, muito embora este termo seja usado de forma espúria, na grande maioria dos casos. Veja-se, por exemplo, a atitude de Pedro Sanchez no que reporta à recusa em alinhar com o Império e como foi interpretada pelo ogre norte-americano, do alto de toda a sua arrogância cretina. O contraponto estará certamente na atitude canina do lacaio Rangel, sempre pronta a servir a guerra e o seu “dono”, cuja vontade muitas vezes precede, executando fielmente um guião que não é apenas a submissão para cima, representado também violência para todos os lados. 

As atitudes assassinas não são apenas o contraponto de atitudes nobres e funcionam através de uma moldura narrativa que enquadra os actos belicistas como "medidas de autodefesa". De cada vez que um político europeu aproveita a sua putativa influência para desviar o olhar ou suavizar a linguagem (Israel) está a contribuir para que a máquina belicista continue a trilhar o seu caminho destruidor. É aliás assim que o fracasso do projecto europeu não é um acidente, mas antes, o resultado de atitudes deliberadas. Fala-se hoje, de novo, na “unidade europeia” como se fosse um património a preservar. Mas como, e para quê, preservar o que nunca existiu?

 

Algo muito cruel deve estar em jogo para que as vítimas do capitalismo selvagem defendam os seus mentores. Se for apenas a “baixeza do pensamento", como sustentamos, talvez consigamos entender por quem somos, de momento, governados. Um primeiro-ministro que insiste em salientar a atitude do jogador de futebol português que é o actual emissário da Arábia Saudita para a lavagem de imagem através do desporto, diz tudo sobre a mediocridade e a escassez de recursos das pessoas em questão. 

 

Bem a propósito, aproveitando o cinquentenário da Constituição da República, se lembra aqui um dos artigos mais curiosos do texto, aquele que autoriza os cidadãos a desobedecer a ordens ilegítimas que violem os seus direitos e permite o uso da força em legítima defesa, embora apenas quando não for possível recorrer atempadamente às autoridades para obter protecção. É o Artigo 21º, chamado “Direito de resistência” e está inserido nos princípios gerais da primeira parte, os “Direitos e Deveres fundamentais”. Poderemos classificá-lo como um direito à insubmissão e, no limite, assumir a postura aristotélica de oposição à aceitação passiva da realidade, que conduz à desobediência civil, no que será porventura uma interpretação “alargada” e criativa do texto fundamental. Na verdade, o Artigo em questão não é mais que a consagração da atitude de um cidadão livre. Poderá ser ainda mais, uma assumpção do paradoxo: a lei manda, por vezes, desobedecer à lei (ou à ordem ilegítima). Se a defesa acérrima da Constituição for eventualmente interpretada como um acto revolucionário, então a  referência ao artigo passa a ser a primeira como atitude, ou mesmo a primeira das atitudes. Vamos tomar uma atitude? Poderá ser esse o sentido que se deve dar às manifestações de júbilo sobre os cinquenta anos? Não é certamente suficientemente mobilizadora a defesa abstracta de um qualquer diploma, mesmo sabendo que a Constituição da República não é um diploma qualquer. Então sim, a “descoberta” de um vigésimo primeiro que transmite confiança, a “potência de agir” de que falava Espinosa, ou mesmo o direito à desobediência civil, pode ser o móbil urgente e necessário.