rio torto

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14 abril 2020

UMA "UNIÃO" SEM FUTURO, "FAZ" UM PAÍS ANDAR À DERIVA


Tudo o que se dizer, explicar e depois, fazer, “...faz parte da preparação da opinião pública para o que aí vem.”
Nós, de facto, não sabemos o que aí vem.
Não temos certeza alguma, ainda devido ao facto de estarmos a viver uma crise, sem paralelo, nos aspectos, sanitário, humanitário, social, económico e político.
Tudo junto e com a velocidade própria dos tempos, os cidadãos podem ter algumas (ou muitas, até) legítimas dúvidas sobre o que virá a seguir.
Pode duvidar-se se as pessoas pensam muito nestas andanças da política, se estão preocupadas, ou simplesmente estão atónitas com o que se está a passar, ou mesmo se porventura aceitam ser meros espectadores, numa teia de acontecimentos em que não parecem envolvidos, a não ser pela inculcação de um medo, processo muito usual nos tempos de chumbo.

Sim, voltamos a viver tempos de chumbo.
Por um lado, pela constante agressão a modos e estilos de vida, o “ocidental orgulhoso” de que falava o jornalista Sena Santos [1] , porventura “...a cair de um pedestal onde se exibia”, pela “simples razão que nem foi capaz de prestar a devida ajuda a um dos seus, a saber, a Itália.
Por outro lado, é o próprio sistema, tão meticulosamente arquitectado para funcionar através da “instalação do medo”, a cair aos pedaços, ameaçado afinal por dentro, como deixam antever as sucessivas reuniões das instâncias da dita “união europeia”, nomeadamente daquela estrutura que apareceu um dia do nada, sem qualquer existência legal, sequer sufragada por alguém, apenas imposta pelo directório financeiro, o auto-designado “eurogrupo”.
Porquê então, preparar a opinião pública para o que aí vem?
Porque assim o exige a situação.
Reparemos como o bloquista José Gusmão analisa, a 8 de Abril, a questão dos eurobonds: “Temos impasse no Eurogrupo sobre condicionalidade (austeridade) e coronabonds, com a Itália a liderar a oposição à proposta de Centeno e da Alemanha. Ou seja, na reunião dos Ministros das Finanças, temos um português a representar a Alemanha e um italiano a representar Portugal.”. E, continuando no BE, as afirmações de Marisa Matias: “A reedição do eixo franco-alemão só aceita empréstimos com a condição de mais austeridade. Suavizaram as palavras, mas mantêm as exigências que provocaram o colapso no nosso país. Lembramo-nos bem do que passámos com as últimas condições impostas e não podemos voltar a aceitá-lo.”
E não é por acaso que se transcrevem estas afirmações. Na realidade, num momento em que a Comissão está também a discutir a possibilidade de reforçar a capacidade do Quadro Financeiro Plurianual, o orçamento comunitário para os anos de 2021 a 2027, pode parecer estranho, à primeira vista, que os citados dirigentes não sejam capazes de entender o fracasso completo e a inevitabilidade de se conseguir sequer o tal acordo em que falava de “mecanismos financeiros inovadores”.
Não é com contributos titubeantes, ora quero o euro, ora não, ora quero a "união unida", ou não, ora contributo para uma saída à Esquerda, ora nem por isso. Parece quase a posição do Partido Socialista, que vocifera impropérios contra um funcionário holandês, mas aceita chefiar um eurogrupo, que dita (sempre) tudo o que é pior para o Estado português, fazendo antever já uma austeridade necessária, para dar saída “honrosa” a mais uma machadada na dívida pública, a seguir à pandemia.
Não, não pode ser assim.
Não é com posições como as que vão referidas, que virá alguma solução decente para o País.
Não é desta forma que a Esquerda pode preparar, como lhe compete, uma RESPOSTA.
Porque tem que haver uma resposta à Esquerda.
Porque a resposta da Direita, nem sequer existe, passando pela eterna submissão da social-democracia aos “populares europeus” e a única solução que parecem apontar é para a actuação da Presidente da Comissão, que faz lembrar aqueles xerifes de um qualquer filme rasca americano, que apenas mandam no povoado, enquanto os homens do dinheiro os apoiam.
Há porém uma outra resposta que se perfila. E não é certamente a melhor, porque estribada que está no populismo mais rasteiro do “contra o sistema de corruptos”, pretende afinal encontrar um qualquer salvini (perdão, salvador) que configure um projecto totalitário, de negação de direitos, de xenofobia, de racismo e avesso a toda e qualquer solidariedade internacional.
Por isso, é urgente, mudar as agulhas.
Se a Esquerda pretender ter uma resposta, ela só será possível, através da preparação de um Programa de Acção conjunto.
Porque o momento o exige, já houve outros assim, na História mais ou menos recente. Este é seguramente um deles.
Mostrar aos cidadãos que é possível viver sem euro é libertar as consciências de uma pesada herança, é ajudar a erradicar o medo e a submissão.
Mostrar aos cidadãos que o País não está a fazer rigorosamente nada dentro da dita “união”, a não ser a constante e, cada vez maior, humilhação.
Mostrar aos cidadãos que não é possível investir a sério na sua Escola Pública, no seu Serviço Nacional de Saúde, nos seus transportes, na cultura (na sua Cultura), nem pensar em qualquer melhoria das suas condições de vida dignas e devidas, em pleno século 21. A propósito, mostrar aos cidadãos o quanto significa o seu magro salário, basta a comparação com Espanha e França.
Mostrar aos cidadãos deste País, que é o nosso, e está a ser espezinhado por políticas que, mais dia menos dia, irão trazer mais pobreza e mais exclusão.
Porque, em qualquer crise, sabemos quem ganha sempre. Os trabalhadores, eternamente dependentes, vão pagando sempre e cada vez mais, à banca, às grandes empresas, que afinal vivem e engordam à custa das rendas, que são pagas com os impostos que pagamos.
Uma teia infinita, que é preciso romper.
À Direita, apenas o abismo, dar um passo em frente e afundamento completo. Quem assim pensa, está sempre seguro, porque não arrisca nada, apenas se alimenta com os fracassos de um sistema. Porque depende dele para sobreviver. E sobrevive sempre, indo pagar impostos à Holanda. Porque afinal, o tal sistema lhe permite fazer isso. E sempre, mais alguma coisa... 
A Esquerda tem hoje uma responsabilidade histórica. Em Portugal, as pessoas, organizações e partidos políticos que se reclamam de Esquerda, têm que assumir de vez essa responsabilidade, num Programa único, de resistência e, porque não dizê-lo mesmo assim, de salvação nacional.
Poderá acontecer, como diria Calvino [2], que “O desejo de um futuro a conquistar é garantido pela memória de um passado perdido
Perdemos um passado?
Perdemos oportunidades?
Perdemos causas, confundindo-nos com alguns efeitos?
Possivelmente tudo junto, numa resposta imediata, sem pensar muito.
Pois agora, o tempo é de pensar mesmo na mudança.
Este é mesmo, O MOMENTO!

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[1] “Opinião”, em: https://24.sapo.pt/…/a-licao-que-o-virus-nos-esta-a-dar-a-n…
[2] “Porquê Ler os Clássicos”, (1991), Italo Calvino, pág. 17

09 abril 2020

9 DE ABRIL - 102 ANOS DA BATALHA DE LA LYS

(que ocorreu na região da Flandres, na Bélgica)

[A imagem é da Exposição de 2018; o desdobrável tem a seguinte citação do “Livro do Desassossego:
As guerras e as revoluções — há sempre uma ou outra em curso chegam, na leitura dos seus efeitos, a causar não horror mas tédio. Não é a crueldade de todos aqueles mortos e feridos, o sacrifício de todos os que morrem batendo-se, ou são mortos sem que se batam, que pesa duramente na alma: é a estupidez que sacrifica vidas e haveres a qualquer coisa inevitavelmente inútil. Todos os ideais e todas as ambições são um desvairo de comadres homens. Não há́ império que valha que por ele se parta uma boneca de criança. Não há́ ideal que mereça o sacrifício de um comboio de lata. Que império é útil ou que ideal profícuo? Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma – variável, mas inaperfeiçoável, oscilante, mas improgressiva.” 
Bernardo Soares]

Neste dia 9 de Abril, assinala-se o 102º aniversário daquela batalha, na I Guerra Mundial.
Que causou 400 baixas às tropas portuguesas. 
Foi nessa batalha, que um soldado português, de seu nome, Aníbal Augusto Milhais, garantiu, sozinho, a retirada de parte das forças portuguesas e escocesas. 
Mais conhecido e, recentemente evocado em filme, o Soldado Milhões, chegou a ser um símbolo para a I República portuguesa.

Contudo, na realidade, esta batalha foi um desastre militar português, sob qualquer ponto de vista. É essa a perspectiva do historiador e jornalista António Louçã (*). Ele afirma que, “Na verdade, nem de uma batalha propriamente dita se tratou. Porque uma batalha é um confronto militar em que há dois lados, com tropas que obedecem aos comandos respetivos. E neste caso, a tropa portuguesa não obedeceu ao seu comando, nem o seu comando tinha ordens para dar nem pôde dar-lhe.” 
A LA LYS portuguesa, o 9 de abril, com nichos de resistência até o dia 10, foi um massacre. Houve sim uma batalha de LA LYS, mas entre alemães e ingleses, que durou três semanas. 

No Brasil, é comemorado neste dia, Dia Nacional do Aço 

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(*) o historiador e jornalista António Louçã realizou um documentário onde mostra que a tão evocada batalha, na verdade, não existiu: o ataque alemão deixou a tropa portuguesa sem comando, rendendo-se em massa.

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07 abril 2020

PEÇO DESDE JÁ DESCULPA PELO TEOR DESTA MENSAGEM

(aparentemente controverso)    


Com todo respeito que me possam merecer as senhoras Ministra da Saúde e Directora-Geral da Saúde, considero que se está a entrar num exagero colectivo, no que reporta à sua actuação à frente das respectivas administrações, Ministério e Direcção-Geral.
Noto que, após esta entrevista da Alexandra Tavares-Teles (dia 31 de Março), se multiplicam as mensagens e apoio, por vezes, em meu entender, perfeitamente desadequados. Expressões como as que Alexandra utiliza no seu discurso, de que posso destacar "...obrigadas à verdade e a evitar a disseminação do pânico, assumem a responsabilidade tamanha que lhes caiu em cima, sabendo que nunca mais serão as mesmas. Corredoras de fundo, a ministra e a diretora-geral da Saúde vivem dias sem fim - horas e horas em reuniões, conferências de imprensa, muito cansaço e preocupação."
A deificação das duas Senhoras, não é favorável à situação presente, nem a elas mesmas.

NÃO NOS PODEMOS DESVIAR, NEM ESQUECER DO ESSENCIAL. 
De que destaco, por exemplo, aquela que deveria ter sido a primeira medida do Ministério da Saúde e do Governo da República: A REQUISIÇÃO IMEDIATA DE TODAS CAMAS DISPONÍVEIS DOS HOSPITAIS PRIVADOS. 
Essa seria a primeira obrigação de um Governo que quis governar em excepção, mas se revelou (e se revela) fraco, fraquinho, sempre que há que tomar medidas imediatas, que dizem respeito a interesses privados. 
Aliás, ao que parece, o Ministério e o Governo andaram a negociar, pelo menos 2 semanas, com dois hospitais privados, enquanto pessoas são infectadas e algumas morrem mesmo.
A negociação a que me refiro foi feita com os Hospitais Trofa Saúde (de Famalicão) e com o Hospital do SAMS. De notar que estes 2 hospitais fecharam portas naquela altura, enviando os seus doentes, para o SNS!

Podem dizer o que disserem. 
Podem tornar as 2 Senhoras as madres teresas esta época. Isso é, no meu entender, enganar as pessoas. É um tremendo desvio da opinião pública, para ocultar e esquecer o essencial. 
E O ESSENCIAL, NÃO ESTÁ A SER FEITO, NOMEADAMENTE NO MINISTÉRIO DA SAÚDE.
Este Ministério cumpre o seu papel. As e os seus responsáveis não fazem mais que a sua obrigação cidadã. Aceitaram os cargos no Governo de livre vontade. 
Elogiar o seu papel? Sim, com certeza, quando necessário.
Não, sem qualquer dúvida NÃO, neste caso: esta “cena” dos 2 hospitais privados, é simplesmente inadmissível e isto passa despercebido à maioria dos cidadãos. 
Cidadãos que devem também saber, já agora, o que o Ministério da Saúde o Governo realmente fizeram: foi “pedir ajuda” aquelas unidades hospitalares.
PEDIR AJUDA???

Entretanto há centenas, milhares de cidadãos deste País, do nosso País, que já sofreram na pele, sem qualquer “pedido de ajuda”.
Quantos cidadãos deste meu País, poderiam alguma vez descrever o “dia perfeito” da senhora Directora da Saúde, “Acordar sem dores, tomar longamente um bom pequeno-almoço com café, pão, iogurtes, fazer uma caminhada, visitar a mãe, tratar das plantas e ler...”?
QUANTOS CIDADÃOS DESTE MEU PAÍS NÃO MERECIAM SER ENTREVISTADOS, PARA LHES DIZER REALMENTE O QUE LHES VAI NA ALMA?
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A ENTREVISTA

OS DIÁRIOS DE GUERRA DE GRAÇA E MARTA
31/Março/2020
Alexandra Tavares-Teles

A lupa com que as olhamos procura em cada palavra e em cada gesto sinais de insegurança, hesitação ou desespero. Ou, então, de conforto e milagre. Há semanas em julgamento público, Marta Temido e Graça Freitas, os rostos da resposta à pandemia, obrigadas à verdade e a evitar a disseminação do pânico, assumem a responsabilidade tamanha que lhes caiu em cima, sabendo que nunca mais serão as mesmas. Corredoras de fundo, a ministra e a diretora-geral da Saúde vivem dias sem fim - horas e horas em reuniões, conferências de imprensa, muito cansaço e preocupação. Com chocolates, lágrimas e flores à mistura.

Sábado, 21 de março. Pela primeira vez em muitos dias, a cientista Graça Freitas tem uma hora disponível para as orquídeas de que tanto gosta. “Há semanas que não regava as plantas, coitadas, estão a ficar amarelas. Depois do almoço estive a cortar as folhas velhas”, confidencia, ao telefone, a diretora-geral da Saúde. O boletim epidemiológico das últimas 24 horas revela números crescentes. Em Portugal, o dobro das mortes da véspera – de seis para 12 – e mais 260 infetados, num total de 1 280. Nesse dia, o Mundo conta, pelo menos, 12 725 perdas humanas e 291 mil pessoas atacadas pelo vírus que lhe tira o sossego e o sono. Todas as noites recomeça “Memórias de um Gato Viajante”, de Hiro Arikawa, leitura para dias de preocupação, propositadamente leve. “Mesmo assim” – diz – “ainda não consegui sair da página dez. Esqueço-me do que já li.”

Dorme da uma às cinco e meia da manhã. Na mesa de cabeceira, deixa os dois telemóveis, que nunca desliga. Quando dão sinal fora de horas, seguramente uma urgência, tenta não ceder ao sobressalto, mas vive em disponibilidade permanente para a função que desempenha, “que é apenas aquilo que se espera de um bom profissional”. Quer deixar clara a ideia. “Não estou a fazer nada de extraordinário.”

Dia seguinte, domingo. Portugal soma 14 mortos, são confirmados mais 320 contágios. É de manhã cedo e já Marta Temido está no Ministério. Na ausência de fins de semana, chega ao gabinete antes das 8 horas sem saber quando poderá regressar a casa, percurso que agora, contra o que é hábito, não pode ser feito a pé. Os telemóveis, sempre prontos – dezenas de telefonemas e mensagens de apoio, mas também propostas de negócio oportunistas e impensáveis -, acompanham-na para onde quer que vá. “Já dei com eles dentro da cama.” Desligar é verbo proibido.

A resistência
Ao telefone, da voz firme da ministra da Saúde não transparecem estados de alma. “Como estou eu? Deixe cá ver. Estou bem. Preocupada, mas a resistir, sempre, e preparada para o que é preciso fazer todos os dias.”

Dentro dos dias, momentos “muito, muito difíceis”. Alguns deles com dura carga simbólica – a primeira confirmação de contágio, no seu quadragésimo sexto aniversário, vivido longe da família e dos amigos. A primeira morte (Mário Veríssimo, de 80 anos). A assunção do estado de emergência, decretada a 19 de março. “Foi duro ouvir essa declaração. Nunca pensei que um dia passaria por tal.”
Difícil tem sido também “a sensação de quase impotência” perante a escassez no mercado de material essencial, falta que tem obrigado à procura de artigos “em lugares do Globo que nem sabíamos que existiam”.

Quem a tem acompanhado de perto descreve a segunda reunião do Conselho Nacional de Saúde Pública, até agora a mais complicada das reuniões. “Muito descontrolo e confusão, ninguém se entendeu. Nunca a vi tão desesperada.” Ela, que no primeiro encontro do Conselho “esteve perfeita a coordenar e a resumir a conclusão em cinco pontos, numa ótima síntese”.

“Como estou eu? Deixe cá ver. Estou bem. Preocupada, mas a resistir, sempre, e preparada para o que é preciso fazer todos os dias”
Marta Temido (Ministra da Saúde)
Também Graça Freitas não esconde preocupação e cansaço. Porém, tranquila. “Encontro-me a viver uma época única nas nossas vidas e a fazer o melhor que posso, e que sei, a parte pequenina que me compete.”

Quando a China identificou, em janeiro, cadeias de transmissão quadrinárias (um doente pode infetar até quatro pessoas), tomou consciência do drama exponencial que ia chegar. “No entanto, nunca pensei que fosse tão duro e atingisse tais proporções sanitárias, económicas e sociais.”

Os primeiros receios de Marta Temido datam da mesma altura. Se tivesse de escrever o diário da crise, começaria pelas notícias que chegaram da China, em dezembro, vistas pela ministra já com temor. “Sabia que ia chegar uma pandemia, e que seria apanhada no quadro das minhas responsabilidades.”


Duras quarentenas familiares
No dia 16 de fevereiro, no âmbito de um perfil para a “Notícias Magazine” e ainda sem registo de sintomas da Covid-19 em Portugal, a diretora-geral da Saúde descrevia um dia perfeito. “Acordar sem dores, tomar longamente um bom pequeno-almoço com café, pão, iogurtes, fazer uma caminhada, visitar a mãe, tratar das plantas e ler. Ouvir Jorge Palma. O que eu gosto de ‘Estrela do Mar’”, dizia.

Da música tem andado arredada. Refeições longas são um luxo nos dias de hoje e, sobretudo, estão proibidas as visitas à mãe. “Tem quase 90 anos, e em quarentena mal soubemos que um familiar nosso esteve em contacto com um doente.” Também as netas, logo que a escola que frequentam registou a presença do vírus, cumpriram o confinamento obrigatório.

Em casa, o marido assegura a logística. “Com muita competência, devo dizer.” Preocupada com o tempo que o companheiro passa nas filas, vai optar pela entrega das compras ao domicílio. A alimentação é simples. “Sem a senhora que nos ajuda nos trabalhos domésticos, tenho feito saladas, com feijão encarnado ou abacate, e uns grelhados.”

Em casa de Marta Temido é igualmente o elemento masculino quem se ocupa das compras. As visitas aos pais e à cidade onde nasceu, Coimbra, estão interrompidas há muitas semanas. Como todos, teme pelos seus. Pela irmã e a pela enteada, médicas do Serviço Nacional de Saúde, que não vê há muito. “Só contacto com o meu marido e com as pessoas do Ministério”, garante. “Um gabinete forte, gente amiga e solidária, que são quem me mantém.”

Nos últimos dias, as reuniões decorrem em videoconferência. Com exceção dos briefings diários, que juntam vários agentes (Infarmed, INSA – Instituto Ricardo Jorge, ou INEM) no Ministério. Cumprindo o protocolo: desinfeção anterior e posterior do espaço e distância adequada. “Há muito tempo que não abraço nem beijo. E que tento não falar de frente para as pessoas”, diz Graça Freitas, recordando os comentários irónicos quando há umas semanas pediu pela primeira vez distanciamento social.

Críticas, chocolates, lágrimas e flores
Está preparada para as críticas, ainda que sejam cruéis. “E algumas são. Vindas de alguns afetam nada, de outros, um pouco.” Dá um exemplo: “Fui muito criticada por ter dito na Assembleia da República que as pessoas, para evitar açambarcamento, podiam recorrer à horta de um amigo. Como se quem vive num apartamento não pudesse ter um amigo com horta. Pois bem, mandaram-me agora a notícia de que alguém arranjou maneira de distribuir cabazes de frutícolas e hortícolas, chamando ao projeto a horta do amigo”. Não cultiva ilusões. “Sei que há dias em que as pessoas vão gostar mais de mim e outros em que vão gostar menos.” Na vida, passou por demoradas adversidades. “Nem tudo são picos, nem tudo são vales.” Assume a resiliência. “É também demasiado condescendente com quem a maltrata”, acrescenta o professor catedrático e amigo Jorge Torgal. Graça Freitas sorri. “Santa não sou.” Os vizinhos deixam-lhe mimos na porta. Uma caixa de chocolates, bilhetes gratos, ramos de flores.

Há sensivelmente um ano, em entrevista à NM, Temido dizia: “Quem pensa que a ministra da Saúde fica fragilizada por aquilo que se escreve sobre ela, engana-se. Não sou surda nem sou cega. Como pessoa, sinto-me. Mas, como ministra, o que dizem de mim não me faz mossa”.

O que dela se diz nas redes sociais, que não frequenta, chega-lhe através dos assessores e da irmã. “Neste momento só atendo a críticas construtivas no sentido de ver em que é que podemos melhorar. Este não é tempo para mágoas.” Faz questão de agradecer “o enorme apoio dos profissionais de saúde, da Ordem dos Médicos e da dos Enfermeiros. O apoio dos veterinários e dos biólogos”.

Destes dias, guarda o gesto que mais a marcou: um e-mail reenviado por um amigo, em que uma médica do Hospital de São João, no Porto, descreve a reação de um doente no momento da alta. “As lágrimas de um homem com idade avançada, até ali convencido de que não iria sobreviver.”

Essa médica acrescenta que não consegue deixar de abraçar a família quando chega a casa. Abraços: “A senhora ministra da Presidência (Mariana Vieira da Silva) está sempre a lembrar que um dia voltarão a ser possíveis”.

Pior do que a guerra
Graça Freitas fala em “maratona no Evereste”. Cautelosa e pragmática, promete fôlego: “Como sociedade ainda estamos na fase inicial. Chegará o tempo de ficarmos cansados das restrições sociais e aí não podemos desistir. Uns dias estaremos mais cansados e desanimados, mas temos de reagir para ultrapassar esta prova”. No final, haverá “muito a aprender com o que foi este tempo”.

Quem alguma vez pensou que andar na rua era uma coisa extraordinária?”, pergunta Marta Temido, para concluir: “Depois disto não serei a mesma pessoa”. O vírus, muito competente, coloca-lhe enorme responsabilidade nos ombros. “Calhou-me este contexto, vamos a isso. A vida é o que é.”

Rejeita cedências à adversidade ou à euforia. Aos que comparam a pandemia a uma guerra, responde que não. Que é pior. “Uma guerra envolve a vontade humana. Aqui é a natureza a confrontar-nos com um imenso desafio.” Não sendo crente, lembra, a propósito dos tempos que vive: “Deus perdoa sempre, o homem às vezes, a natureza nunca. Não estou a dizer que estamos perante um castigo, mas há uma emergência da natureza em que se misturam clima e ambiente. Se alguém tinha dúvidas de que isto anda tudo ligado, penso que agora as desfez”.

Saber ouvir
A ministra não esconde – é dura e muito teimosa. Assume-se “pespineta” e resoluta, mas humilde e capaz de ouvir. Os críticos, que em tempos negavam essa capacidade, agora concordam. “Fartei-me de a criticar severamente, mas, reconheço, tenho gostado da atitude. Parece-me serena, muito sensata, preocupada em fazer as perguntas certas para decidir com segurança.” Filipe Froes, responsável pelo gabinete de crise da Ordem dos Médicos, dedicado à Covid-19, vai mais longe: “Tenho encontrado uma pessoa empenhada e determinada em vencer isto”. Para o pneumologista, “isto” é “o teste de algodão de um país inteiro”. E recorda que é em momentos de crise, como esta, que temos a “noção real da importância de um Serviço Nacional de Saúde forte”.

Ana Rita Cavaco, bastonária da Ordem dos Enfermeiros (OE), vê a ministra “mais tranquila”. Elogia “o esforço, bem-sucedido, no sentido de transmitir calma”. Reconhece a aparência cansada, mas pergunta “quem não estaria?”. Depois da tensão entre o Ministério e a OE, “é com muito agrado” que toma nota da gratidão da ministra.

Na linha da frente, há quem encontre uma Marta Temido mais cautelosa na gestão da imagem. “Resguarda-se, tenta não dar as notícias com o sorriso rasgado habitual, ainda que esse sorriso seja uma defesa perante o stresse.”

Graça Freitas autodefine-se em duas palavras: “Absolutamente normal”. Discordam amigos e subordinados. “Interessada, aplicada, estudiosa, rigorosa.” O médico e especialista em Saúde Pública Jorge Torgal, que foi quem a convidou para a DGS em finais dos anos 1990, tem estado em contacto com a amiga. “Ambas têm feito um papel muito importante. De tal maneira que andam com um ar muito cansado. Já o disse à Graça. Mas a verdade é que, quando começa a falar, o cansaço desaparece. ”Como vai a canseira?”, perguntei-lhe há dias. Respondeu-me que “o desafio é maior do que o cansaço.” O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, normalmente parco em elogios, salientava à NM, há pouco mais de um mês, “a serenidade e a confiança que transmite sempre que fala” e o trabalho “excecional” na DGS.

Podia estar mais bem-aconselhada, defendem algumas vozes. “Graça é das pessoas que depressa se torna a colaboradora ideal”, sublinha Jorge Torgal. Que o diga também Francisco George, antigo diretor-geral, que teve em Graça Freitas, diz Torgal, “o braço direito e o esquerdo”.

“Ambas têm feito um papel muito importante. De tal maneira que andam com um ar muito cansado. Já o disse à Graça. Mas a verdade é que, quando começa a falar, o cansaço desaparece”
Jorge Torgal (Médico, professor catedrático e especialista em Saúde Pública)
Francisco George não fala sobre a mulher que lhe sucedeu no cargo. Mas foi dar-lhe um abraço. “Nestes dias, visitei-a uma única vez. Fui à DGS abraçá-la e deixar uma mensagem de força.” Sobre Marta Temido, garante que não falta ânimo à amiga. “Ao longo deste processo, entre conselhos de ministros e outras reuniões demoradíssimas, que por vezes aparentam não ter fim, em bom estilo português, nunca lhe ouvi qualquer desabafo desanimador. Eu próprio fico espantado.” Quando lhe diz “vamos para frente”, recebe por resposta “não me falta energia”.

Críticas? “Estamos num país onde todos criticam todos. Mas nesta fase, [a Marta] recebe-as com um sorriso e o sentido de humor que nunca perdeu.”

Salgadinhos e batatas fritas
Reuniões matinais longas, conselhos de ministros de horas e horas, conferências de imprensa diárias, dezenas de e-mails a exigirem resposta rápida. Acima de tudo, o vírus competente, de contágio fácil. “Basta olhar para elas para ver que andam cansadas. Estão até a ficar magríssimas”, comenta Filipe Froes, dando-se a si como exemplo: “Ainda ontem regressei a casa às dez da noite e fui diretamente para a cama. Para acordar com igual cansaço, até porque levo logo com centenas de e-mails e mensagens. Imagino o estado de fadiga das duas”. Este é provavelmente, conclui, “o maior desafio da vida pessoal e profissional de todos os envolvidos e acima deles de Graça Freitas e Marta Temido, que têm a coordenação desta luta”.

A diretora-geral da Saúde confirma. “Já emagreci cinco a seis quilos desde o coronavírus. Mas como sou muito pragmática e sei que tenho de estar fisicamente bem, nesta semana incluí na dieta produtos que habitualmente não como.” Batatas fritas, por exemplo: “E que bem me souberam”.
Marta Temido tem dúvidas: “Sem balança em casa e com o ginásio fechado, não tenho como pesar-me. Cansada, sim, mais magra não sei. Tenho comido mal, não faço exercício físico, portanto, não sei”. Vários cafés, sobretudo durante a manhã. “E muitos salgadinhos, muitos, para enganar os nervos”, confessa a ministra.

Já emagreci cinco a seis quilos. Mas, como sei que tenho de estar fisicamente bem, incluí na dieta produtos que habitualmente não como
Graça Freitas (Diretora-geral da Saúde)
Não somos heroínas, nem mártires, nem supermulheres, nem magas”, dizem ambas. Há semanas em julgamento público, Marta Temido e Graça Freitas, os rostos da resposta à pandemia, obrigadas à verdade e a evitar a disseminação do pânico, assumem a responsabilidade tamanha que lhes caiu em cima, sabendo que nunca mais serão as mesmas. Corredoras de fundo, vivem dias sem fim. Duas mulheres pequenas, aparentemente frágeis, que fazem parte do dia a dia dos portugueses. “São pequenas, mas agigantam-se. Foi o que vi nas reuniões em que estive com ambas. O verdadeiro tamanho delas não é físico.” O elogio vem de quem tem acompanhado o trabalho de ambas nos últimos tempos. E tem resposta: “Estamos a fazer apenas o nosso trabalho”.

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03 abril 2020

AS “CADEIAS





















Não vou falar de reclusos, por mais que o título possa pesar (por isso o coloquei entre comas)

Escrevo porque tenho recebido algumas mensagens de pessoas de que gosto muito, solicitando-me a “postagem” de um texto, afim de compartilhar com mais uma quantas pessoas, neste caso, Amigos.
Por razões que não sei bem explicar e pela minha natural insubmissão, quando vejo um pedido destes, tendo a não o acatar.
Adpotei desta vez uma atitude diversa, publicando nesta página, uma posição que propõe até uma atitude assertiva.
Se forem tão (ou mais) insubmissos quanto eu, provavelmente tomarão a mesma atitude.
Como não peço nada a ninguém, estou de certa forma salvaguardado. Mas, para os que me conhecem, sabem que nada disto é inocente e que existe (nem que seja sob a forma subliminar), um apelo concreto.
Homero disse, “De muitos homens vi as cidades e conhecei os pensamentos”. Na sua “Odisseia” é afinal, no meu entender, o mito de todas as viagens.
De todas as travessias.

Estamos a fazer uma travessia. Provavelmente poucos de nós conheceram situações semelhantes. Pela parte que me toca, apenas por uma vez estive retido, numa situação de guerra. Foi em Timor-Leste, em Dili, durante uma rebelião. Mas foram apenas dois dias, sem poder sair do Hotel, um excelente hotel, curiosamente onde estava toda a malta da Cooperação, os GOES da GNR, todas e todos em alegre quarentena, dado que tínhamos as tropas fieis a cercar completamente o Hotel Timor.
Nada que se compare isto, rigorosamente nada. Esta travessia é (está e vai ser) longa e exige de nós algum sacrifício. Mas devemos pensar que, se calhar, somos privilegiados, em relação à grande maioria, que está a passar por situações anormais, de despedimento, de agressão aos seus direitos, devido ao aproveitamento que está a ser feito do estado de excepção, pelos que ainda se consideram "donos disto tudo", para impor uma vez mais a sua perversa influência na Sociedade. 
Aquilo que podemos fazer, nós que na maioria até já não estão no activo, é, pelo menos, denunciar situações que conheçamos, na defesa (mínima) daqueles que não têm voz, ou que o não possam fazer, pelo MEDO, que o ordoliberalismo instalou entre nós. 

Nesta travessia, aprendermos. Aprendemos sempre mais, porque a aprendizagem é uma dádiva da nossa inteligência. Que a saibamos utilizar, pelo menos por uma questão de sanidade mental... 



21 março 2020

PALAVRAS PERDIDAS (ou perdido por palavras?)


Protesto!
Formal e completamente
Com tanta coisa para escolher
havias de ir para aquilo
Aliás,
ando eu a escrever pela casa
e tu vais e limpas as palavras.
Não faz sentido
virei tudo do avesso
e só encontrei um “Não”
(sei que não preciso)
Que faço com ele
acho que está gasto,
usado
(lembro-me agora)
Despejado não sei quantas vezes,
talvez encontre debaixo da cama
a palavra que falta
piso agora algumas letras soltas
(amarfanhadas),
não sei como agrupá-las
alguém me ajude!
O gato levou-me o “k”
brinca com ele
dava-me jeito.
Uma chatice,
acordo agora
(um sonho desastroso)

Cantava “The Letter”[1]
acompanho-me à viola
ainda bem que acordei
havia uma canção.
De contrário, assassinava a canção
(havia palmas?)
Encontro agora na casa de banho
a palavra “descartado”
(molhada)
As voltas que eu dei e aparece-me isto,
que faço com ela?
(digam-me por favor)

Resolvo descartá-la
(é mais sensato)
De que vale o meu protesto?
(alguém me ouve?)
Vou formalizar devidamente a queixa
porque apareceu-me agora um “x”
(acho que fica bem assim)
Saio
Vou ao parque apanhar folhas
(não posso ficar o dia todo em casa...)
Pode ser que algumas palavras
tenham voltado
(que ingenuidade!)
O gato devolveu-me o “k”
(aos pedacinhos)
vá lá, nem tudo está perdido

Descubro agora um “sim”
no forno do fogão de lenha
Um “sim” chamuscado,
mesmo assim, um “sim”
Cheira-me a esturro...
não entendo porque ris,
não se brinca com o fogo
(sempre ouvi dizer).
Na casa de banho há sinais
de que por lá passou
algo que que já suspeitava
(mas não tinha coragem de admitir)

Mas que ousadia despejar pela sanita 
a “Cidade”...
que, porém, sobrevive,
apesar do cheiro óbvio
(as cidades cheiram todas assim?)
Uma catastrófica imagem
(estamos todos na merda?)
Vá lá saber-se porquê
À porta do quarto
sobrevive a “gente”


(termo estranho a muita gente...)
entra, não entra,
o vento atira a palavra fora,
escadas abaixo
(mais abaixo)
acaba no caixote do lixo
(gente atirada ao lixo!)
orgânico?

Salta-me para as costas
(solta-se do tecto)
a palavra “dignidade”
(parece)
mal escrita, faltam-lhe letras
(mas sei que é ela)
arroja-se aos pés,
quase que a pisava
(estranha sensação de culpa).
Afinal caem outras letras de cima
não sou capaz de as juntar
(mania das limpezas...)
Um caos completo, a outra sala
um atropelo de consoantes,
era bom que houvesse alguma calma
para encontrar sentido
onde ele desapareceu
(mistério?)

Continua a busca de letras perdidas
(ou de palavras, melhor)
É noite, esta casa tem pouca luz
Desisto!
(podia ir ver televisão)
Subo as escadas para o quarto,
a porta, meia-aberta
(um quarto vazio)
(já começo a ver mal)

A palavra perdida
“Eu”,
Já desconfiava...


[1]Lennon & McCartney

16 março 2020

A PROPÓSITO,


Do artigo “Polaridades Ideológicas Da Pandemia”, da autoria de Alexandre Weffort, publicado no LADO OCULTO, que deixo anexo, nas páginas seguintes.
Considero que é de leitura essencial para quem quiser entender (mais um pouco) dos contornos políticos da pandemia.
Todos os lamentos, todos os medos, não são, de forma alguma, despiciendos.
O ataque dos humanos contra o vírus maldito, tem que levar em linha de conta os contornos ideológicos e, se quiserem, sociológicos da questão.
A "instalação" das respostas, médica, sanitária e humanitária é fundamentalmente política, porque é ao Estado e às administrações e governos, que assiste a obrigação de prover a saúde e o bem-estar das pessoas, bem como das suas melhores condições de VIDA.      
Os Estados, administrações e governos devem socorrer-se das posições abalizadas das comunidades científicas, médicas e sanitárias: universidades e institutos públicos, devem prestar a melhor assistência, no plano da prevenção, da contenção e da cura.         
Qualquer hesitação das autoridades, qualquer erro assinalável, pode deitar a perder a luta. 

E aqui e agora (também) se fala de Portugal.  Mesmo sabendo que não é fácil, deve haver uma estratégia consistente do Governo, uma exigência suprema para aqueles que não se têm revelado à altura (como em outros casos, infelizmente).
Medidas avulsas e á deriva, como é habitual, só podem conduzir a maus resultados. 
Afinal, o "nosso" Governo responde aos cidadãos, ou ao directório europeu?
As verbas necessárias para o reforço do SNS são mais ou menos importantes do que "reforçar" o sistema bancário?     
Isto pode parecer injusto, mas é em momentos como este, que se destacam as lideranças positivas e assertivas. E isto, como é evidente, nada tem a ver com o chamado "estado de excepção".
A diferença entre duas atitudes diversas, será analisada quando tudo, como se espera, passar com o mínimo de perdas.           

E atenção, é mesmo de VIDAS que estamos a falar...

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POLARIDADES IDEOLÓGICAS DA PANDEMIA
15 Março 2020
Alexandre Weffort, O Lado Oculto

"Pandemia" é um termo que indica, desde logo, uma sua dimensão global, que diz respeito a todos. O vírus, colocada a questão de forma simples, é uma estrutura que não possui capacidade metabólica autónoma. Sendo inerte fora do ambiente intracelular, recorre às capacidades metabólicas do hospedeiro para a finalidade da sua reprodução. Assim, o vírus desenvolve-se e propaga-se em função da capacidade de interacção dos animais infectados (entre eles, o ser humano), daí que a quarentena se apresenta como o mais antigo e mais seguro meio de combate a um surto viral.

O surto de um vírus é, atingida a dimensão da "pandemia", um evento global, traço que o insere no âmbito dos fenómenos (culturais, económicos e sociais) que o termo “globalização” encerra, algo que decorre da superação das barreiras naturais de circulação dos seres humanos - as barreiras de circulação impostas às pessoas, considerados os limites geográficos naturais (aqueles que resultam da orografia) como aqueles que resultam das divisões políticas - as fronteiras entre os Estados.
A economia global deu especial suporte ao crescimento do turismo, indústria que irá transformar a paisagem local, com inúmeros hotéis e casas de hospedagem, recorrendo a meios de transporte de grande capacidade, como os navios de cruzeiro que literalmente despejam milhares de pessoas nas cidades portuárias como Lisboa (e a cultura local se adapta, homogeneizando o produto, para o consumo dos autênticos “enxames” de turistas oriundos de paragens economicamente mais fortes, sendo o mercado asiático um dos que registava forte presença na velha Olissipo. Para fazer circular os milhares de turistas, implantaram-se os “tuk-tuk” (numa versão modernizada do tradicional meio de transporte tailandês).
Se o desenvolvimento desenfreado do turismo é do agrado dos comerciantes locais (e também dos governantes, que o promovem, chamando os habitantes locais à lógica do serviço, pelo alojamento local), esse desenvolvimento, atingindo rapidamente o ponto de saturação que as condições locais permitem, provoca um desequilíbrio que irá prejudicar o modo de vida tradicional (uma perturbação que se instala ao nível do ecossistema).

Análise de comportamentos
O COVID-19, nome dado ao coronavírus que se dissemina hoje globalmente é um exemplo do que acima foi dito, mas apresenta outros traços que interessa analisar numa leitura ou corte ideológico. Como sugere o título deste texto, o vírus (ou, antes, a história do seu surgimento e propagação) é passível de uma leitura ideológica, que podemos realizar através da análise dos comportamentos que determinam, condicionam e acompanham a sua existência, bem como das suas consequências. 
Em Portugal, um traço de comportamento social surgiu em torno das decisões governamentais de encerramento das escolas com o objectivo de se limitar o contacto comunitário e a contaminação a esse nível. Libertos das aulas, número significativo de estudantes universitários foram...para a praia! Logo surgiram críticas à falta de responsabilidade evidenciada. Por outro lado, o ministro da Educação do Governo português, ao apresentar as decisões governamentais, fez questão de sublinhar que “os professores não estão de férias e que terão de se apresentar diariamente nas escolas”, numa afirmação mais de âmbito patronal que de Estado, obrigação sublinhada mesmo que isso implique sujeitar os professores à contaminação em meios de transporte normalmente lotados.
A decisão de fechar as escolas foi colocada pelo Governo português ao Conselho Nacional responsável pela saúde pública. O órgão consultivo deliberou unanimemente no sentido do não fechamento, enquanto o governo, apoiado em uma directriz da União Europeia, acabaria por decidir em sentido contrário. Fica a sensação de sermos todos “peões de jogo”.

A componente norte-americana
As dimensões ideológicas do problema em apreço são colocadas também em relação ao seu início. Um artigo publicado a 2 de Março, no site AbrilAbril, António Abreu apontava para a possibilidade de envolvimento de laboratórios norte-americanos no surgimento deste novo coronavírus. No artigo referido são alinhadas as coincidências temporais da publicação de um estudo elaborado pelo Instituto John Hopkins contemplando “uma simulação, com precisão, do coronavírus inicial” (em Outubro 2019). Refere-se ainda no artigo, a correlação temporal entre o surgimento do Covid-19 na China e a realização dos Jogos Militares Mundiais de 2019, “realizados em Wuhan em Outubro passado”, onde participaram também militares norte-americanos.
A questão, que nos remete para os meandros mais sórdidos da guerra biológica, aparece agora referida de forma expressa por um responsável do governo chinês que questiona: “O CDC [norte-americano] foi posto contra a parede. Quando o paciente zero começou nos EUA? Quantas pessoas estão infectadas? Quais são os nomes dos hospitais? Pode ter sido o Exército americano que levou a epidemia a Wuhan. Sejam transparentes! Tornem públicos seus dados! Os EUA devem uma explicação!”.
A questão, segundo a notícia, levantada pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China Zhao Lijian, em post publicado no dia 12 Março na plataforma Instagram, afirma que o “Exército dos EUA pode ter levado a nova doença do novo coronavírus (COVID-19) para a China”, algo que, a ser comprovado, obrigará a uma revisão profunda dos posicionamentos a nível global acerca desta "pandemia", da possibilidade de esta estar originariamente vinculada a uma dimensão ideológica no relacionamento entre nações e constituir mais um elemento da guerra (também) comercial a que temos assistido, sempre que os interesses norte-americanos à esfera global são postos sob pressão (no caso, pelo crescimento económico da China).
A dimensão militar assinalada, vista segundo este prisma das «polaridades ideológicas», ajuda a compreender também o modo e tempos de reacção chineses. E convidam a reflectir sobre a natureza ideológica dos comportamentos - da China face ao problema surgido no seu solo e da sua capacidade de reacção, da sua postura solidária face ao descontrolo que o mesmo apresenta na Europa, nomeadamente, em Itália - e da postura belicosa e irresponsável mantida por Trump e Bolsonaro, primeiro minimizando o significado da epidemia e depois, quando lhes bate dentro dos próprios gabinetes, assumindo discurso inverso.

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