HUMANIZAR O MONSTRO
(parabéns, Antena 1!)
Como se não bastasse a violência real, contida e expandida, na invasão ao Irão, por Israel e pelo seu patrão norte-americano, existe no plano simbólico uma agressão também violenta da comunicação social burguesa, hoje ao serviço, claro e evidente, do imperialismo norte-americano. Qualquer consideração opinativa praticada pelos comentadeiros, pretensos “informadores” (“formadores”) vem eivada de um moralismo sórdido e de uma putativa superioridade intelectual, tendente sobretudo a impressionar o consumidor ouvinte e espectador. Primeiro, as classificações. A forma como é construída a notícia começa pelas designações, por exemplo, assim: “...o exército israelita atacou, com o apoio norte-americano, objectivos estratégicos do regime teocrático do Irão”; basta a introdução do classificativo, que pode ser aquele, ou outro qualquer (já ouvi também “odioso”) para conspurcar a suposta “notícia”. Depois, a “vulgaridade”. Em Fevereiro de 2022, aquando da dita “intervenção militar especial” russa na Ucrânia, toda a comunicação social burguesa se apressou a transformá-la em “invasão em larga escala” (na verdade, não o foi, de facto), epitetando o regime da Federação Russa com os adjectivos mais sumptuosos, que levaram até ao “convite” para colocar bandeirinhas ucranianas nas janelas e nos edifícios públicos. Qualquer tentativa de sequer analisar o acto da administração russa e o que estava para trás, foi simplesmente banido, proibido e abjurado. Hoje, as últimas “acções” da administração norte-americana, citando apenas a invasão da Venezuela e o rapto do Presidente eleito e os bombardeamentos ao Irão, são apresentados como o haviam sido, as invasões ao Iraque, Síria, Afeganistão e a longa lista de crimes em todo o mundo, condenados apenas por alguns estados mais “ousados” e com o beneplácito dos basbaques da dita “união europeia” e da ONU.
Rádio pública, Antena 1. Nos noticiários, desde as nove da manhã, passam as palavras de um sujeito qualquer, português a trabalhar numa fábrica de armamento em Israel (“o seu trabalho não pode parar”, diz o “jornalista”) que nos informa que o governo para o qual trabalha tem como objectivo proteger o território e as pessoas. São peças como esta, repetidas nas horas seguintes, que representam o que se pode chamar a “normalização do monstro”: um trabalhador que até “trabalha” ao Domingo, para garantir que não falta armamento ao seu país e para que as “pessoas” possam dormir tranquilas, porque a arma estará no seu lugar, para poder, por exemplo, garantir que o ataque à escola em Minab, tenha sido um “êxito”, com mais de 100 crianças mortas. Ou aquele outro, feito a uma escola para mulheres jovens, onde morreram mais 85. Claro que, supostamente, os ditos ataques, não seriam propriamente para matar aquela gente toda, mas “apenas” para eliminar o nefasto, odioso e temido ditador Ali Khamenei, o aiatola. As meninas e crianças foram dizimadas? Sim, lamentamos, mas estariam provavelmente a prestar vassalagem ocasional ao dito senhor.
Muito importante e cirúrgica é a notícia sobre as posições de líderes europeus “impolutos”, tipo Macron, que alertaram para as "graves consequências" e pediram "máxima contenção", palavras muito sábias e que, aliadas às manifestações de júbilo pelo assassinato do Khamenei (“um pouco por toda a parte”, como se ouve e vê), transmitem aquela sensação que tem o mesmo valor da que é alvo a mulher violada em plena rua, que trajava vestido curto e apertado: “estava mesmo a pedi-las...”.
Está assim de parabéns a rádio pública “nacional”. Ouvir aquele senhor hoje na rádio equivale a instalar a banalidade do mal, que toma assim conta do microfone. Por vezes chego a pensar se aquelas pessoas existem mesmo ou se fazem parte de algo como uma “ficção conveniente”, que acontece naquele dia e naquela hora, tamanho é o despropósito e o mau gosto que lhes estão associados, assim a peça nua e crua, sem qualquer juízo crítico. O escritor e activista político palestiniano Edward Said falava no desequilíbrio narrativo que aqui identificamos: ao construir a imagem do Oriente (Médio Oriente, Ásia) como um lugar exótico, atrasado, irracional e perigoso, o Ocidente giza uma “construção” particular que é tudo menos inocente, servindo, hoje como sempre, para justificar o controlo e a violência sobre esses povos, supostamente para os "civilizar" ou "proteger". Serve, hoje como sempre, para justificar “a intervenção”.
Este é o discurso do monstro, impossível de ser humanizado.