26 março 2026

         A PROPÓSITO DE IMAGENS (?)

 

Se há imagens que valem por não sei quantas palavras, outras há que se perdem, por gastas ou uso indevido. Há imagens boas e agradáveis, outras há de medo, que ferem a nossa tranquilidade. Há imagens de desespero, de guerras (santas ou não), que cortam a alma pelo horror e devastação que transportam. 

A imagem tem o poder de parecer mais “directa” que a palavra, quando na verdade é igualmente manipulável, muitas vezes em grau infinitamente superior. A imagem não é um espelho neutro do real. É sempre um recorte, um enquadramento, uma escolha. No contexto de guerras, agressões e crises, as imagens são produzidas, seleccionadas, difundidas ou censuradas com o objectivo claro de construir uma versão do acontecimento que sirva um determinado poder. A imagem funciona, tal como a palavra, através de um particular eufemismo: apresentar uma realidade violenta de modo a torná-la aceitável, se possível, banal. A imagem como ausência cumpre um papel fundamental na realidade actual, não a mostrar é uma escolha política. Não mostrar, por exemplo, os rostos das vítimas da fome causada por sanções, é uma forma de apagar o seu sofrimento.

 

O filósofo e historiador da arte francês Georges Didi-Huberman, professor na École des Hautes Études en Sciences Sociales em Paris é um estudioso da imagem e da teoria da arte e estética, analisando como as imagens produzem conhecimento, memória e reflexão política. Os seus trabalhos sobre a imagem em situações-limite, como o caso dos campos de concentração, conduzem-nos a territórios de resistência e confirmam as suas teses sobre a ocultação que o Poder pratica, muitas vezes de forma perfeitamente intencional. O que hoje vemos, todos os dias, nas rádios, televisões e jornais, controlados pelo poder do ocidente é sobretudo a intenção declarada de não mostrar uma realidade que lhe é perfeitamente hostil. A narrativa israelita e norte-americana sobre o que designam de “conflito no Médio Oriente” sustenta e é sustentada por imagens falsas ou arquitectadas de forma artificial, através de animações e gráficos para produzir  e simulações digitais “perfeitas” e “limpas”, uma estética que “higieniza” a violência. Assim se produz a guerra videojogo, em que o espectador é colocado na posição de quem observa de longe, como num centro de comando. E quando a imagem isola o gesto do seu contexto histórico e político, oferecendo uma leitura imediata, emocional, está criado o ambiente propício ao oposto da verdade. Mas é também o que não se vê. Tal como havia acontecido antes e acontece ainda, em Gaza, no Líbano ou na Síria, o acto deliberado de agressão ao Irão para matar não só líderes e dirigentes, mas também crianças, é paradigmático quanto à questão essencial: porque é que certas imagens não nos chegam?

 

Um dos lugares-comuns mais perigosos é a ideia de que “a imagem não mente”. Na verdade, a imagem mente constantemente, não porque seja falsa no sentido da montagem grosseira, mas porque a sua verdade é sempre enquadrada e o enquadramento é uma forma de discurso. Pode dizer-se até que a imagem pode mentir, com todos os meios técnicos que tem à sua disposição, tornando-se facilmente um documento manipulável, com a ajuda da inteligência artificial e da disseminação rápida nas redes sociais, constituindo assim uma nova camada de manipulação. A forma mais usual e a mais fácil, diga-se a propósito, a mais eficaz é, por exemplo, mostrar uma explosão, esconder o que a causou, ou mostrar um rosto em sofrimento, escondendo o motivo que o faz sofrer e quem é o responsável pelo sofrimento. Acrescente-se a figura execrável do ogre norte-americano, os seus gestos e expressões deploráveis, num cenário previamente estudado para transmitir força, determinação e até “honra”: a imagem resultante é a de um ser estranho que resiste à análise crítica, porque opera no registo da emoção primária.

 

A imagem continua, apesar de tudo, a desempenhar um papel primordial, no presente e no passado, dela vão “falando” a fotografia e o cinema. Estamos a pensar em profissionais da imagem, fotógrafos de guerra que se recusaram a mostrar apenas o “lado limpo” do conflito, ou em cineastas que deram voz e rosto aos que o sistema tenta tornar invisíveis. A imagem mostra a face de quem sofre a fome, a criança debaixo dos escombros, o olhar de quem perdeu tudo, devolvendo  humanidade ao que a propaganda desumanizou. Convém não esquecer que muitas das imagens que hoje nos permitem perceber a verdade de conflitos passados foram inicialmente censuradas ou ignoradas. Por isso e pela defesa da memória, a importância da construção um arquivo de “contra-imagens” é um acto político de grande significado. Na sua obra de 1977 “Sobre a Fotografia”, a ensaísta, cineasta e activista norte-americana Susan Sontag, analisou como as imagens moldam a percepção da realidade. Nesse livro, disse, “Ninguém que tenha visto fotografias de campos de concentração pode dizer que não sabia”. É o olhar crítico como exercício de prática social, na verdade, não basta ver, é preciso aprender a ver: ver e não esquecer, mas também não anestesiar.

 

A verdadeira questão da imagem parece residir na forma como se interpreta. A imagem é sempre uma arma, se a queremos “bem perfeita e oleada”, como a cantiga, na sublime interpretação do Zé Mário Branco, haverá que a preservar dos olhares obscenos e das versões mal-amanhadas daqueles que hoje dedicam um papel especial ao mal e à exploração.

A imagem da servidão permanente conduz hoje países e povos à ruína intelectual, produzindo monstros de trazer por casa, temo-los aos montes no nosso País e povoam os corredores da Assembleia e do Governo. Terão consciência da triste e miserável imagem que fazem e como nos envergonham? Citar-lhes os nomes seria decerto despiciendo. Contudo, a sua verrinosa influência, é um dado que não podemos descartar. Questão de imagem será decerto, bem a propósito.

19 março 2026

A PROPÓSITO DE PALAVRAS (?)

 

Evoquemos Barthes para recordar que as representações não seguem, como a ciência, um caminho rápido e directo, mas antes estarão “...estagnadas no erro pelo poder, pela grande imprensa e pelos valores da ordem”. Esta afirmação peremptória, que data de 1957, é para o Autor o espelho de uma das nossas principais servidões. É também o mito, como ferramenta ideológica que, levada ao delírio supremo, daria por exemplo, o sujeito da casa tida como “branca”, a afirmar que seria uma "grande honra tomar ou libertar Cuba”. Na prática, tal significa transformar um acto de arrogância imperial num gesto de nobreza, "naturalizando" o absurdo.


As palavras têm o significado que lhes é conferido, quer pelo contexto, quer pela posição social que decorre da sua utilização. Um exemplo que nos deveria preocupar hoje em dia é seguramente o que nos é legado pelo filólogo judeu alemão Victor Klemperer, num estudo seminal sobre como a linguagem nazi penetrou no quotidiano e o corrompeu por dentro. Na sua obra de 1947, “LTI-A Linguagem do Terceiro Reich”, Klemperer mostra como o nazismo moldou a mente alemã através da língua, possivelmente, um aviso do que acontece quando não se resiste à "questão das palavras". São imensos os casos que hoje constatamos de "veneno" doseado para alterar o pensamento e a cultura, assumido, como no caso da deputada municipal de Lisboa que pediu "uma cultura de direita" para a Capital.

Chomsky diria, a propósito da manipulação da opinião pública, que a linguagem poderá ser uma ferramenta de fabrico de consentimento. A deturpação activa da linguagem serve bem todas as narrativas do poder absoluto. O que está em causa não é um mero erro, mas uma estratégia. Como se chama o extermínio sistemático da população civil de Gaza? A palavra é genocídio. Mas o seu uso é evitado, substituído por uma névoa de termos técnicos e frios, do qual este é a suprema ironia: "conflito entre Israel e a Palestina". Nos casos da Venezuela e do Irão, onde se verificaram actos de invasão e agressão violentos, foram e são utilizadas palavras especiais que constam da linguagem da medicina ao serviço da guerra: “extracção” do Presidente Maduro e acção "cirúrgica" contra o Irão. Tal como o primeiro rouba a acção e a violência do acto, o segundo serve para anestesiar a consciência de quem a lê. Em ambos, o branqueamento da violência do Império, chefiado por criaturas cujas atitudes parecem desafiar os limites da nossa compreensão moral. Os casos particulares do norte-americano e do israelita representam um desafio para o dicionário se bem que a classificação de “ogre” lhes assente bem, na sua perspectiva não-imaginária de brutalidade e desumanidade. 


Ao escolher Cuba, o ogre agressor norte-americano não elegeu um alvo aleatório, mas sim um símbolo, sinónimo de revolução, de resistência anti-imperialista, de dignidade. Escolhendo o símbolo histórico da resistência à sua própria hegemonia, está a praticar um acto de profanação simbólica, como se quisesse, finalmente, "possuir" aquilo que sempre lhe escapou. A ideia pérfida de “governar Cuba” poderia ser “simplesmente” o descaramento como estratégia, mas vai mais longe, enquanto "excentricidade", assumindo claramente a expressão de um desejo criminoso que, repetido, se instala no imaginário, contendo um valor sinistro: a normalização do absurdo. Nesta vertente, ninguém melhor que Orwell para interpretar a monstruosidade evidente, a corrupção da linguagem pelo poder para tornar o absurdo plausível e a crueldade aceitável. Na sua obra “1984”, a "Novilíngua" não é uma ficção distópica, é o manual de instruções, com o objectivo de estreitar o horizonte do pensamento ao reduzir o número de palavras disponíveis. Quando aquele ser abjecto fala em "governar" Cuba com "honra", está a aplicar o princípio da novilíngua: anula-se a soberania (palavra incómoda) e substitui-se por um termo que soa a dever moral. Mais, usar a palavra "governar", é o mesmo que tentar apagar por completo a existência de Cuba como nação. Não se trata de invadir, ocupar, interferir ou impor sanções. Trata-se de "governar", como se Cuba fosse um território vazio à espera de um administrador, um condomínio ou, mais precisamente, uma plantação. A palavra transporta consigo o imaginário colonial do fardo do homem branco, a ideia de que aqueles povos precisam de ser tutelados.


Que sentido têm as palavras, não só na semântica, como ainda na prática da fala e da escrita? Assumo que escrever ou dizer a palavra certa é um acto de resistência semântica. É recusar-se a participar no jogo de linguagem do poder. É devolver ao horror o seu nome próprio.


A busca pela palavra exacta pode levar-nos para além do adjectivo simples, a uma justaposição, a imagens como "arquitectos do sofrimento", "mercadores da crueldade", ou "vendedores de ódio", procurando configurar uma linguagem quiçá metafórica, capaz de agarrar a realidade que tenta descrever. Todavia, hoje não se trata apenas de encontrar as palavras certas para descrever a realidade, mas também de denunciar a origem das palavras erradas. Trata-se de mostrar como a linguagem é uma ferramenta geopolítica e de como os seres abjectos usam eufemismos para justificar as suas políticas. Afinal, a questão não é apenas de palavras. A verdadeira questão é de poder, de ética e de humanidade. As palavras são o campo de batalha onde essas questões se travam. A missão de quem escreve, é a de um arqueólogo da linguagem: escavar por baixo dos escombros dos eufemismos e das mentiras institucionais para encontrar as palavras que dizem a verdade, por mais dura que ela seja. 

Este é hoje um acto de resistência e, acima de tudo, um acto de clareza.

 

 

 

 

09 março 2026

VAI MARCELO E VEM/BEM SEGURO

 

 

Por entre fotos e nomes

Os olhos cheios de cores

O peito cheio de amores vãos

Eu vou

Por que não, por que não...

Alegria, Alegria”, Caetano Veloso (1967)

 

 

 

 

Entre o provável colapso emocional e o lapso temporal da cerimónia ocasional, circula por toda a parte o cortejo interminável da parcimónia palavrosa e doutoral do cardápio político, sempre com a nação em fundo e em formato musical da incontornável banda da GNR.  País profundo enfiado em são bento, em tempos sequestrado pela populaça, alguém vociferava no dia de uma mais que provável ocupação. Alguém se havia de lembrar, enfim.

O Homem sai de cena e deixa um rasto de saudade e alívio. A saudade, lindo termo portuga, muito lusa e difusa, convive (ao que parece) bem com o alívio de quem sempre teme o pior, mesmo que algo melhor lhe seja apresentado na bandeja flutuante do património lusitano, o temível, mas bem-amado fado do “tem-que-ser”, ou “tem-de-ser”.

 

A janela fechou-se e a porta abre-se ora suavemente sobre a colina que se desenha à frente do nariz. Obstaculizado com tanto solilóquio, o Homem desconfia da sorte e mete-se no carro sozinho para ir às compras da semana, hoje é segunda-feira e há que alimentar a alma do corpo que transpira. Não há chama que resista a tanta pompa, mesmo na circunstância em que o vácuo imenso da fala do chefe-de-cerimónia se confunde com o espaço desocupado, num momento de hiato profundo e deletério. 

Há contudo que saber manter a calma necessária quando parece suficiente manter a distância diluente entre o nada e o vazio. As palavras são invariavelmente as mesmas, os abraços confundem-se com a torpeza, quando raia no horizonte partidário a surpresa dura e crua do habitual. Senta e levanta, passa, em figura de cadeiras, da direita para a esquerda ou tanto faz, a mulher do regedor está sempre lá, são claramente coisas do arco da velha , “boa, boa brincadeira/uns na guerra, outros na feira...”[1].

 

Abundam os salamaleques do chefe da banda , já sem o casaco na lapela, despede-se do primeiro, que venha o outro, já que até é seguro e é hora de comer qualquer coisinha, que isto dos copos de água não aquece a alma, até porque o que é servido frio se parece com a vingança impulsiva de estar parado e finge que está em movimento...

 



[1] Recordação do tema “A Mulher do Regedor”, do albúm “Coisas do Arco da Velha”, Banda do Casaco (1976)

08 março 2026

 UM DIA, ELA, NO PAÍS SEM AMOS

 


Há um gigante na serra!

É um gigante tamanho

Qu’a gente sente o gigante

Mas não lhe vê tamanho

A noite rimada”, José de Almada Negreiros (1922)

 

 

Entre o aplauso e a indignação, entre a conversa e o protesto, fica decerto e acima de tudo, a condição. De ser mulher, de ser quem arrasta um passado de luta, um presente cheio de dúvidas e um futuro quase sempre sem futuro. É a trabalhadora, a constante “dona-de-casa”, epíteto enganoso e cruel, de quem não é dona de coisa nenhuma. A não ser da sua condição, que repetidamente é objecto de estudo, académico e social e, na maior parte das vezes, postula o que conhecemos, apesar de representar a maioria, continua privada de direitos que são de todos.  Afinal, como os trabalhadores em geral, a maioria da sociedade que deveria usufruir do Poder e continua manietada e explorada, sempre a questão da condição.

 

Se pensarmos, com o Sérgio, “que força é essa?”, um grito no meio do nada, uma borboleta que “pousa agora, ...na pena deste poeta” e voamos com ela (a borboleta) até aquela outra, na voz da Ana Capicua, que diz assim: “Vi-te a trabalhar o dia inteiro/ A limpar a cidade dos homens/ Por amor ou por pouco dinheiro...”. E daí, vem-nos sempre à lembrança a Luísa a subir a calçada de Carriche e ao chegar a casa: “...lavou a loiça,/ varreu a escada;/ deu jeito à casa/ desarranjada;/ coseu a roupa/ já remendada;/ despiu-se à pressa,/ desinteressada;/ caiu na cama/ de uma assentada;/ chegou o homem,/ viu-a deitada;/ serviu-se dela,/ não deu por nada...”. Ainda que todas as possíveis caricaturas possam ter algum significado, não deixa de ser estranho que a condição se mantenha, na sociedade do desperdício que apenas valoriza o lucro, a propaganda e todos os amos. Opressão e pressão social, de mãos dadas com todos os panegíricos mais ou menos espalhafatosos, alguns de duvidosa reputação, contribuem para que tudo fique como sempre foi, a tradição burguesa assim o “determina”. Enquanto o vento sopra lá fora e às vezes dentro de casas desabrigadas, ouvimos e lemos e não podemos ignorar as notícias de um oriente tão distante quanto próximo, de centenas de meninas assassinadas pelo Império, num acto de guerra infame. Isto depois de sabermos como o estado terrorista de Israel se ocupa em matar mulheres e crianças, no que é hoje o extermínio ao telejornal, que alguns teimam em não querer ver.

 

Mulher, camarada e amiga, amante e companheira, este dia é para ti mais um, naquela que deve ser a Luta comum. Nada (ou muito pouco) mudou, desde que Rosa Luxemburgo falava, em 1904, da “...senhora burguesa entediada, cansada de seu papel de boneca ou de cozinheira do marido, corre, caprichosa, para todos os lados, em busca do espectáculo que preencha o vazio de sua vida e de sua mente.” Hoje em dia, como no tempo do fascismo, temos exemplares pífios dessas “senhoras”. Decerto lembramos a Supico Pinto do Movimento Nacional Feminino e a sua equivalente Jonet, que ostenta uma forma de vida à custa da miséria e do desespero dos outros, curtindo uma falsa imagem de solidariedade, na caridadezinha salazarista e bafienta e que tem um “banco”, que, como todos os bancos representa a miséria triste do capitalismo. Mulher trabalhadora, a luta é também contra estas excrescências untuosas da burguesia, nada como falar límpido e claro. 

 

Ela e tu também, no País Sem Amos. Dela diria Ary, evocando Catarina Eufémia, “Da palavra saudade, a mais bonita/a mais prenha de pranto, a mais novelo/da língua portuguesa fiz a fita/encarnada que ponho no cabelo”. Hoje, é mais um dia...

03 março 2026

O “ABRANHOS” DA POLÍTICA EXTERNA

 

O original era “conde”. Para o Eça, claro, que nele simbolizava um homem sem brio, um burocrata da diplomacia, um oportunista, ignorante e hipócrita, alguém que troca a dignidade do cargo por migalhas de protecção estrangeira, revelando uma falta de "ideias claras" sobre a nação. Em resumo, um "triste farçola" da política internacional. Diagnosticando o “problema” do coitado, parece sofrer da maleita do macaquinho repetidor, que vê o “gigante” trumpista e imediatamente trepa para cima dele, não para ver mais longe, mas para ficar mais quente. Senta-se no ombro do outro e grita aos que ficaram na planície: “Vede como sou grande, como estou perto do sol!”. E esquece-se, o pobre diabo, que ali está apenas como um animal de estimação, um bichinho exótico que o gigante atura enquanto lhe faz cócegas. Não é um aliado, é um pug de salão, um cãozinho de colo da política internacional. E o pior, o mais triste, o mais profundamente “sem brio”, é que ele parece genuinamente feliz a abanar o rabo.

 

Na verdade, a figura de Rangel não é um vilão digno de ódio, mas um triste boneco digno de sarcasmo, que encarna o provincianismo na era global: a mesma falta de grandeza que outrora nos fazia importar ideias e modas, agora faz-nos importar políticas e lealdades, sem qualquer escrutínio ou dignidade. Um ser que trocou a espinha dorsal por um lugar à sombra do poder alheio, um homem que confunde servir com ser servido pela “protecção” alheia. É a representação plena de um servilismo por amor à arte.

 

Apetece, porém, perguntar: Rangel é desmiolado, incapaz ou mesmo estúpido? De todo, nós é que somos. Assim ele o afirma, “...as pessoas não entenderam nada da minha posição”. O ajudante, o servo fiel, o canino de salão, pequeno e achatado (o “pug”), julga-se político, mas é apenas uma falha ética, uma "miséria moral". Se o Antero fosse vivo, designaria o sujeito como um "vendido", um filisteu da pior espécie, que troca a Verdade e a Justiça, pela conveniência, um "escravo voluntário" que envergonha a "dignidade da consciência" e a memória dos que lutaram pela autonomia da pátria. Enfim, um provinciano sem grandeza, acocorado perante o poder do dia.

 

Quando ele se vira para o PS e diz que o “este assunto não deve ser partidarizado”, que raio é que ele pensa que é um Partido Político? Na má consciência e na ignorância boçal reside a antítese do serviço público que, provavelmente, nem sabe o que significa. É a “personificação da decadência”, de que falava Oliveira Martins, um outro Homem da I República. Nele veria certamente um sintoma da "Europa enferma" que se submete, um homem que, ao invés de ser um Cidadão, é um mero "vassalo" dos tempos modernos, vergando a espinha perante o poder americano, traindo o "génio lusitano" que outrora se lançara ao mar sem pedir licença a ninguém.

 

01 março 2026

HUMANIZAR O MONSTRO

(parabéns, Antena 1!)

 

Como se não bastasse a violência real, contida e expandida, na invasão ao Irão, por Israel e pelo seu patrão norte-americano, existe no plano simbólico uma agressão também violenta da comunicação social burguesa, hoje ao serviço, claro e evidente, do imperialismo norte-americano. Qualquer consideração opinativa praticada pelos comentadeiros, pretensos “informadores” (“formadores”) vem eivada de um moralismo sórdido e de uma putativa superioridade intelectual, tendente sobretudo a impressionar o consumidor ouvinte e espectador. Primeiro, as classificações. A forma como é construída a notícia começa pelas designações, por exemplo, assim:  “...o exército israelita atacou, com o apoio norte-americano, objectivos estratégicos do regime teocrático do Irão”; basta a introdução do classificativo, que pode ser aquele, ou outro qualquer (já ouvi também “odioso”) para conspurcar a suposta “notícia”. Depois, a “vulgaridade”. Em Fevereiro de 2022, aquando da dita “intervenção militar especial” russa na Ucrânia, toda a comunicação social burguesa se apressou a transformá-la em “invasão em larga escala” (na verdade, não o foi, de facto), epitetando o regime da Federação Russa com os adjectivos mais sumptuosos, que levaram até ao “convite” para colocar bandeirinhas ucranianas nas janelas e nos edifícios públicos. Qualquer tentativa de sequer analisar o acto da administração russa e o que estava para trás, foi simplesmente banido, proibido e abjurado. Hoje, as últimas “acções” da administração norte-americana, citando apenas a invasão da Venezuela e o rapto do Presidente eleito e os bombardeamentos ao Irão, são apresentados como o haviam sido, as invasões ao Iraque, Síria, Afeganistão e a longa lista de crimes em todo o mundo, condenados apenas por alguns estados mais “ousados” e com o beneplácito dos basbaques da dita “união europeia” e da ONU. 

 

Rádio pública, Antena 1. Nos noticiários, desde as nove da manhã, passam as palavras de um sujeito qualquer, português a trabalhar numa fábrica de armamento em Israel (“o seu trabalho não pode parar”, diz o “jornalista”) que nos informa que o governo para o qual trabalha tem como objectivo proteger o território e as pessoas. São peças como esta, repetidas nas horas seguintes, que representam o que se pode chamar a “normalização do monstro”: um trabalhador que até “trabalha” ao Domingo, para garantir que não falta armamento ao seu país e para que as “pessoas” possam dormir tranquilas, porque a arma estará no seu lugar, para poder, por exemplo, garantir que o ataque à escola em Minab, tenha sido um “êxito”, com mais de 100 crianças mortas. Ou aquele outro, feito a uma escola para mulheres jovens, onde morreram mais 85. Claro que, supostamente, os ditos ataques, não seriam propriamente para matar aquela gente toda, mas “apenas” para eliminar o nefasto, odioso e temido ditador Ali Khamenei, o aiatola. As meninas e crianças foram dizimadas? Sim, lamentamos, mas estariam provavelmente a prestar vassalagem ocasional ao dito senhor.

Muito importante e cirúrgica é a notícia sobre as posições de líderes europeus “impolutos”, tipo Macron, que alertaram para as "graves consequências" e pediram "máxima contenção", palavras muito sábias e que, aliadas às manifestações de júbilo pelo assassinato do Khamenei (“um pouco por toda a parte”, como se ouve e vê), transmitem aquela sensação que tem o mesmo valor da que é alvo a mulher violada em plena rua, que trajava vestido curto e apertado: “estava mesmo a pedi-las...”.

 

Está assim de parabéns a rádio pública “nacional”. Ouvir aquele senhor hoje na rádio equivale a instalar a banalidade do mal, que toma assim conta do microfone. Por vezes chego a pensar se aquelas pessoas existem mesmo ou se fazem parte de algo como uma “ficção conveniente”, que acontece naquele dia e naquela hora, tamanho é o despropósito e o mau gosto que lhes estão associados, assim a peça nua e crua, sem qualquer juízo crítico. O escritor e activista político palestiniano Edward Said falava no desequilíbrio narrativo que aqui identificamos: ao construir a imagem do Oriente (Médio Oriente, Ásia) como um lugar exótico, atrasado, irracional e perigoso, o Ocidente giza uma “construção” particular que é tudo menos inocente, servindo, hoje como sempre, para justificar o controlo e a violência sobre esses povos, supostamente para os "civilizar" ou "proteger". Serve, hoje como sempre, para justificar “a intervenção”. 

Este é o discurso do monstro, impossível de ser humanizado.