26 maio 2017

NATO, não, por favor!
























A Organização do Tratado do Atlântico Norte /North Atlantic Treaty Organization, ou simplesmente  NATO, por vezes chamada Aliança Atlântica, é uma aliança militar intergovernamental baseada no Tratado do Atlântico Norte, que foi assinado em 4 de Abril de 1949. 
Esse ano (1949) iria marcar a história da Europa, devido em primeiro lugar ao facto de ter sido assinada a Convenção de Genebra sobre o direito humanitário nos conflitos armados. É o ano da criação do Conselho da Europa, em que se incluem princípios como "… a defesa dos direitos humanos, o desenvolvimento democrático e a estabilidade político-social na Europa". É ainda neste ano que é criado o COMECON, o Conselho para Assistência Económica Mútua que visava a integração económica das nações do Leste Europeu. É também o ano em que é fundada a República Popular da China. E que, na Europa se institucionalizam a RFA, República Federal da Alemanha e a RDA, República Democrática Alemã
O nosso País vivia sob a ditadura fascista, o tal Estado Novo, inventado por Salazar e fiel a todos os regimes autoritários e nazis, de Espanha, Itália e Alemanha. É de recordar, com alguma ironia, que o regime vai contribuir para a formação da NATO, cujo tratado (Tratado do Atlântico Norte) incluía a adesão aos princípios da Carta das Nações Unidas e o desejo de viver em paz com todos os povos e com todos os Governo, quando nem sequer era membro da ONU.

A “cooperação pela Paz”, um compromisso que, nas palavras do Secretário Rasmussen, em Maio de 2009,  "…ultrapassasse fronteiras e divisões ideológicas do passado e que contribuísse para construir a paz e a segurança através da consulta, da cooperação e acções comuns baseadas nos valores comuns da democracia, das liberdades fundamentais e dos direitos humanos", é hoje, com aliás sempre o foi, a manifestação da mais descarada hipocrisia e o embuste mais abjecto do lado negro de uma Europa, que caminha a passos largos para o abismo das desigualdades e das injustiças e do domínio imperial.

A NATO é na actualidade, como sempre o foi desde a sua criação, um bloco político-militar destinado a servir a dominação do imperialismo norte-americano. Sempre subordinada a uma feroz campanha anti-soviética movida pelos EUA, mantém ainda hoje as características de uma aliança belicista de cariz reaccionário e anti-comunista. Durante anos a fio, a NATO sempre tentou impedir qualquer transformação de carácter progressista nos países signatários, não sendo preciso invocar aqui o caso do nosso 25 de Abril…

A história da NATO está na realidade manchada de sangue. De terror e corrupção também. Chamando as coisas pelos nomes, a NATO é um instrumento de ingerência e agressão. Inúmeros exemplos de criação de exércitos clandestinos para desenvolvimento de operações terroristas, por toda a Europa atestam a forma como paulatinamente a guerra voltou à Europa. Invoca-se como “bom exemplo”, a responsabilidade da NATO no desmantelamento da Jugoslávia, um horror de atrocidades e crimes que despoletou e patrocinou. Lembra-se também a complacência da NATO com a invasão de Chipre pela Turquia. Ou ainda, a campanha de massivos bombardeamentos aéreos da NATO, executada à revelia da ONU e em violação das próprias normas internas da Aliança, para além dos milhares de vítimas civis – designados por “danos colaterais” – e do alto grau de destruição causados, até à ocupação ilegal e secessão da província sérvia do Kosovo e pela sua transformação numa enorme base militar da NATO.

A defesa da Paz e dos Direitos Humanos nada tem a ver com este instrumento bélico e imperialista que dá pela designação de NATO. A defesa do seu desmantelamento completo é um princípio da mais elementar justiça e da manifestação da aspiração dos povos de toda a Europa. É apenas uma fase da sua própria libertação.

Não esqueçamos que o verdadeiro desígnio da NATO é apenas um: emergir como força de “segurança global”, substituindo, subalternizando e instrumentalizando ainda mais a Organização das Nações Unidas (ONU).

Hoje, como ontem, como sempre, manifestarmo-nos contra a NATO é uma afirmação de LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE!




09 maio 2017

En Marche”, Europa?


O tema da “Europa connosco” remonta há 30 anos atrás, quando do Partido Socialista inventou aquilo que se poderia designar como um dos slogans propagandísticos de Mário Soares e do próprio partido, e representaria (na altura) a passagem do País para um patamar civilizacional que até então lhe era vedado, ou mesmo simplesmente desconhecido. Deu para tudo, incluindo sempre o eleitoralismo fácil das vantagens dos fundos estruturais, que haveriam de mudar radicalmente a face do País, malgrado naturalmente a enorme fragilidade, pelo menos em termos económicos. Na altura ainda não se falava, como agora a todo o pretexto, em populismo; de contrário poderíamos encontrar com muita facilidade indícios do dito em muitas proclamações oriundas sempre do centrão político-partidário, do qual Soares foi o maior protagonista e que viria a renegar nos anos de chumbo.

O “mal” porém já estava feito e durante anos e anos a prometer a chamada “convergência”, a mesma viria a esfumar-se por completo, dando lugar ao policiamento da Comissão Europeia, com o Tratado Orçamental à cabeça de uma séria de medidas restritivas do desenvolvimento, sempre em prejuízo dos estados e das regiões mais carenciadas. Segundo um estudo de Setembro de 2005, das Universidades de Porto e Lisboa,  “…a partir do início dos anos 90, verificou-se um abrandamento no processo de convergência e o desempenho das regiões mais pobres, mesmo que significativo ao nível da criação e reestruturação do emprego, não foi suficiente para atingir os níveis de desenvolvimento das regiões mais ricas, tendo-se acentuado o gap entre elas[1].

Se fosse possível viajar no tempo seria decerto interessante um “Regresso ao Futuro”, com a máquina do Doc[2] a transportar-nos, por exemplo, de 1995 a 2015”. Daria decerto para verificar in-loco como vai a dita União. É bom recordar também que no já longínquo ano de 1975 foi elaborado um relatório onde se afirmava, logo na introdução, "Se o pleno emprego, e uma melhor distribuição de recursos e de lucros para investimento não podem ser salvaguardados, medidas que apenas restrinjam a procura vão chocar cada vez mais com as expectativas sociais de uma melhoria na qualidade de vida." Foi elaborado pelo cidadão belga Robert de Maldague, um democrata-cristão, que integrava um grupo restrita, onde estava o socialista Jacques Delors, conhecido como “pai” da EU e que viria a ser presidente da Comissão, entre 1985 e 1995. O relatório, baptizado com o seu nome (Relatório Maldague) avisava, “A não ser que sejam levadas a cabo reformas de longo alcance há um grande risco de que métodos autoritários - aberta ou dissimuladamente - possam gradualmente controlar as nossas sociedades democráticas". E o que fez então a Comissão? Nada mais, nem menos, recolheu todos os exemplares em que podia pôr as mãos, trancou-os numa cave do Berlaymont e destruiu-os. E porque o relatório dizia textualmente, referindo-se à liberalização dos mercados de capitais e à forma como aquela estava a minar a autoridade dos governos democráticos, “Estes fenómenos são manifestações claras de uma transformação profunda na forma como a democracia funciona nos nossos países".

Uma profecia? De todo. Apenas a constatação da realidade, a colagem das “famílias” centristas, a saber, os “sociais-democratas e socialistas” e toda a direita conservadora, liberal e defensora da desregulação dos mercados. Há quem lhe chame outra coisa, quiçá esclarecedora, a traição da social-democracia. Por cá, nem dá para contar os exemplos, estão à vista de todos e foram um pântano desde finais de 1975.
Tivemos o grato prazer de ouvir ontem, no fórum da TSF, o senhor Moedas[3], que se recorda como agente da Goldman Sachs e no Deutsche Bank/Eurohypo Investment Bank e que Passos Coelho escolheu como representante de Portugal na Comissão Europeia e a quem Juncker[4] entregou a pasta de Comissário para a Investigação, Ciência e Inovação, para a gestão do maior programa-quadro de sempre de investigação e inovação da UE.  Diz o senhor Moedas que é a favor da Europa, ao contrário dos outros que são contra, um raciocínio linear e bacoco, todavia conveniente para esconder todas as investidas da EU contra os direitos e liberdades das pessoas e dos Estados. E todos os falhanços, desde a incapacidade manifesta em lidar com o problema dos refugiados, nomeadamente ao inqualificável acordo de 2016 com a Turquia, até ao apoio aos regimes ditatoriais, fascistas ou fascistóides da Hungria e da Polónia, passando pela gestão da crise das dívidas soberanas e pelo chamado "ajustamento estrutural", transformado em austeridade permanente pelas regras do euro e que aprofundou o fosso entre o centro e as periferias. Apenas para citar estes, a lista é de facto interminável e levou, ano após anos, dia após dia, ao (re)nascimento de movimentos nacionalistas, que espelham o descontentamento generalizado das pessoas, sobretudo as mais desfavorecidas. A celebração dos 60 anos do Tratado de Roma, mostra que, ao contrário das promessas de coesão e democracia, as instituições europeias sobrepuseram a lógica liberal e autoritária de Maastricht, aprofundada pela União Económica e Monetária. O ser contra, na opinião do Moedas, é ser da esquerda radical, ele é a favor. Só não diz de que é a favor, embora toda a gente saiba o que ele defende. Não o querendo dizer, utiliza a tese habitual, para industriar consciências, de “mais Europa” e do seu apoio incondicional a Macron, agora que este é já o Presidente da França. Claro que, como diz o chefe Juncker, “…a França é a França”., que permitiu e caucionou a hegemonia alemã, que domina o euro, através de uma política de asfixia das outras economias, incluindo a francesa. A França de Hollande que “ajudou” na falência completa da moeda única como instrumento de coesão social, transformada agora em mais uma forma de dominação e submissão. O “distinto” Moedas fala no “perigo dos populismos” e compara sempre a extrema-direita à extrema-esquerda (o que é isto?), “esquecendo” que é ele afinal um populista barato, que fala do alto de uma cátedra que lhe foi oferecida e que não sabe minimamente o que é a vida real de milhões de cidadãos. O inefável Acácio[5] deu-lhe toda a cobertura, como é seu apanágio, em mais de metade de tempo de antena.

En marche“, a voz de Macron que é somente um sucedâneo da elite burocrática francesa formada na  École Nationale d’Administration, misturada com a experiência na gestão de fundos de investimento (Rothschild). Entretanto, para conseguir formar o seu “movimento”, Macron reúne à sua volta, donos de grupos de comunicação social, banqueiros e financeiros e as maiores fortunas de França. Para uns, uma réplica do trabalhista Tony Blair, para outros a redenção dos falhanços e trapalhadas do Partido Socialista Francês. A tempo, porque é oportuno, Manuel Valls já lhe deu o devido apoio.

A Europa das democracias entra em mais uma derrapagem. Os franceses, aliviados do espectro Le Pen, voltam-se para as eleições legislativas. A crise dos refugiados continua, os atentados também. Os “sociais-democratas” e os conservadores parecem ter um objectivo comum: manter o défice zero inscrito no Tratado Orçamental. As excepções são para salvar bancos e a pele dos banqueiros. A moeda única, criada à imagem e semelhança do marco alemão, obriga o nosso País a negociar numa moeda 50 mil vezes mais forte do que a sua economia. O brexit é um mistério, que esconde uma total incapacidade de resposta.
Há alternativas, apesar das conhecidas resistências. A elas estaremos atentos, nunca desistindo da Luta.



[1] Marques C. e Fonseca P., (2005), “Convergência económica e coesão social e territorial da Península Ibérica na União Europeia”, Universidades de Lisboa e do Porto)
[2] Referência à personagem Doutor Emmett Lathrop, ou simplesmente “Doc”, um dos personagens principais da série de filmes Back to the Future, realizados por Robert Zemeckis, 1985 a
[3] Carlos Moedas
[4] Jean-Claude Juncker, Presidente da Comissão Europeia
[5] Manuel Acácio, Jornalista TSF e responsável pela rubrica “Forúm”

05 março 2017

PEQUENOS DRAMAS DE UM PAÍS QUE NÃO ESTÁ À BEIRA-MAR PLANTADO, MAS QUE TEM UM CLUBE QUE CHAMA BEIRA MAR


Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara
Do Livro dos Conselhos, citado José Saramago, em “Ensaio Sobre A Cegueira”, 1995 

Pode nada ter a ver com o assunto. O certo e é verdade, o Beira-Mar existe e o País já foi (há muito tempo) plantado, não há razão para voltar a ser. Plantadas foram (umas há muito tempo, outras nem tanto) algumas espécies que entretanto floresceram numa época para esquecer, vingaram, ficaram na sombra (porque ao Sol deterioravam), encheram-se de brios e vá de atacar a perigosíssima invasão dos alienígenas vermelhos, ou mais ou menos disfarçados, não tementes a Deus e à virgem Maria, que apareceu em Fátima e agora não aparece mais porque (há muito tempo) não há vagas nos hotéis da vila. Algumas e alguns, até têm uma certa piada, há quem ainda se ria, porque afinal é uma boa receita e não precisa ser aviada na botica. Me perdoem os crentes, não é meu propósito atacar, nem a crença em si (uma vez que em mim não pega…), nem a pessoa em particular que crê, no sentido em que o Beira-Mar existe e o resto não se sabe bem. Pululam alegremente pelos sítios bem frequentados e pelas redacções, não aquelas que as meninas e os meninos faziam dantes, mas umas outras que são ocupados por meninas e meninos pagas e pagos abaixo da média e que estão de facto abaixo da média (bastante abaixo…) num outro sentido. Descansem que são poupados todos aqueles que nada fazem por mudar, porque dá muito trabalho mexer neles (porque simplesmente já nem se mexem). Mudar de vida é uma coisa complicada, embora valha a pena seguir o António, que assim canta (cantava aliás…), “Muda de vida/se tu não vives satisfeito/Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
1. TEODORA, VAI-TE EMBORA!
Para que serve uma Teodora, quando a casa vai para fora? Oh Teodora, olha que é verdade, já querem importar a nossa solução. Só que tu Teodora, não és solução, és um problema. Acordaste agora Teodora, com medo dos socialistas, que não passam de comunistas travestidos e de brinco na orelha.
(Ai, o meu tempo, os santinhos, o doutor caetano, o doutor Salazar, era outra coisa, havia respeito…)
Teodora, até o Presidente de Direita goza contigo.
A ascensão do sonoro (início dos anos 30) trouxe o Teodoro (…não vás ao sonoro), parodiando a ascensão do cinema com som.
A ascensão da Esquerda, trouxe a Teodora. Agora como antes, a paródia. Só que agora, apetece fazer de novo o apelo, que poderia ser:
Teodora, não fiques cá, vai-te embora!
2. NÚNCIO, ÉS CAVALEIRO OU APOSTÓLICO?
Oh homem, após estudar com algum detalhe a tua história e o teu “apego” à causa pública, fico estarrecido e nem sei que diga.
Mas digo.
Digo então que a lata é maior que a linha. Vais ter que fazer melhor, porque toda a gente ficou a perceber que estiveste pura e simplesmente nas tintas para a populaça. E nem sequer te safas com a demissão dos altos cargos no partido, o tal que quer (ou queria, já nem sei bem) ser dos contribuintes. Aqueles (contribuintes) para quem te estiveste nas tintas durante o teu mandato.
E vem agora, (cuidado!) o ex-director-geral da Autoridade tal e coisa, afirmar ter solicitado por duas vezes, autorização para publicar dados referentes às transferências de dinheiro para paraísos fiscais, mas que em nenhum dos casos viu os seus pedidos deferidos.
Da história reza a ilustre família das tauromaquias, a nobre arte dos cavaleiros lusitanos, agora caída em desgraça (digo eu). Ou a história do apostólico dito, coisa que não domino suficientemente bem, para aqui abordar com clareza, mas que li na Wikipedia que é uma coisa que “…que goza dos mesmos privilégios e imunidades que uma embaixada”.
Isto é muito sério.
3. CRISTA TEM CRISTA OU É SACRISTA?
De ti me lembro muitas vezes a propósito do decreto sobre o número de gatos ou cães preconizados em diploma governamental. Ou de com o pedias chuva ao reino dos céus, oh gente de fé.
Se calhar não estavas à espera disto.
Diz o significado, que “Sacrista” é aquela ou aquele que é “…responsável pela limpeza, organização ou guarda de uma igreja ou da sacristia”. E diz também, em sentido figurado que pode ser uma “pessoa que finge ser beata, mas não é”. E diz outras coisas que aqui não são citadas, por mero decoro.
Oh Cristas, andas mesmo a limpar a “sacristia”? O Portas deixou-te um lindo serviço.
Desconheço, e não estou nada interessado, na tua beatitude, ou se é sincera ou não. Tanto me faz. Apenas sei que, de cada vez que levantas a crista, a coisa dá para o torto.
Vê se metes na linha o Motoreta Soares, que aquilo que ele anda a dizer sobre ordenados altos nas empresas públicas, dá mesmo (vindo de quem vem) vómitos.
.   4. RANGEL É UM TIGRE DE PAPEL
Não é para forçar uma singela rima, mas ninguém dá crédito aquela figura que, faz agora a campanha maior pelo descrédito do Governo e das Esquerdas.
Sempre que estala uma notícia, aí está o homem, de pena em punho ou de viva voz, uma vez que consegue estar em tudo quanto é sitio e sirva para a má-língua política.
Tu que fazes parte da caterva mais fanática de que há memória, oh Rangel, queres levar para a Europa o que de pior em Portugal? Não tens vergonha de “proteger” o comissário Oettinger, xenófobo, nazi declarado e amigo de corruptos e autoritários? Pelos visto só te interessa a demissão do Centeno.
Oh Rangel, não passas de um tigre de papel, uma marioneta nas mãos da turba que rapidamente, quando for o tempo, alegremente te “dispensará”.
5. O GOMES FERREIRA É LIXO OU POLÍTICA TRAULITEIRA?
Bem, as duas coisas, se não se importam. Este indivíduo cumpre o papel do velhaco que não se conforma com a realidade. E está sempre do mesmo lado da luta, que para ele é cobrar ao patrão a factura que outros não podem cobrar.
Oh Ferreira, mas que grande bandalheira. Então vais dizer que a emissão de dívida subordinada se destinava a “enganar velhinhas”, porquê meu deus, isso é coisa que se diga em público, e ainda por cima alcovitado que estavas por aqueles dois acólitos?
Tu devias era ser director do Povo Livre, ou lá como se chama aquilo…
Mas tu lá vais levando a água ao teu moinho, ou seja ao moinho da São Caetano, eles precisam já que metem água todos os dias e aquilo às tantas vai mesmo afundar-se.
És o verdadeiro tipo às direitas, agora rebaptizado de “tipo das Direitas”.
Deixa que a gente percebe-te e compreende-te.
Oh Ferreira, em quanto é que está a tua cláusula de rescisão?
6. O BRAGA FADISTA DE OUTROS TEMPOS
No fado se firmou a partir de um tempo que era outro quando ele era o mesmo. Confuso? Talvez sim ou talvez não, para mal dos nossos pecados. Sim porque somos todas e todos uns grandes pecadores que, a seu devido tempo, irão prestar contas à senhora do Sameiro. Ele que é Braga de nome, o sabe melhor que todas e todos nós. Pretos e gays misturados ou sozinhos invadiram o teu espaço puritano, oh Braga! E ainda por cima cheios de Óscares, quando deviam eram estar a levar porrada, em qualquer cela, que melhor não merecem. Andam tranquilos por tudo quanto é sítio, ofendendo os brandos costumes dos portugueses de bigode farfalhudo que vão às touradas e batem na mulher, mesmo que só de vez em quando.
Oh Braga, foste longe demais, mas preservas de facto bem viva a verdadeira e pura missão da raça, fado maior (ou menor não sei bem) lusitano, pátria minha (quero dizer, tua) bem-amada, com licença, amém.

Assim se inscrevem na história 6 portugueses de quem nos devemos orgulhar. De gerações diversas, afinal manifestam uma constância de cariz conservador, que sinceramente lhes assenta muito bem. Cada uma e cada um, na sua esfera de influência, nos faz diariamente rir. E isso, não é mau. Pode não ser muito bom para a sua causa (a deles, claro), mas ficam bem. É quase como gostarmos muito do treinador da equipa adversária, porque está fazer um péssimo trabalho e nós gostamos disso, porque é bom para a nossa equipa.
Assinale-se para finalizar que o autor da figura do “beira mar plantado” era um romântico dos finais do século IXX, um ilustre conservador que, ao seu tempo, clamava contra a falta de respeito dos jovens para com as cãs e glórias proclamadas e reconhecida.
Estas e estes estão a repescar o Tomás Ribeiro, viva a Nação!
E, caso não sejam de Aveiro, esqueçam o Beira-Mar.

19 fevereiro 2017

O QUE É UM JALALI (?)

Não, não é engano. Não é “javali”, não é “vou já ali”. Nada disso.
Explico que se trata de uma espécie em vias de ascensão, ou mesmo já devidamente ascensionada.
Porque alguém assim quis, o jalali[1] aproveitou o ensejo e, cheio de ciência empacotada da politiquice, traçou um percurso académico porventura eivado do sucesso fátuo da oportunidade, surge no espaço hertziano, fala suave, diz pouco ou quase nada, como acontece com quase todos os primatas que habitam o tal espaço, agora privado e suportado por grandes e poderosos donos do capital e da capital e arredores.
O jalali vomita lugares-comuns povoados de coisa nenhuma e dita, não do alto da cátedra, mas do lado de lá do microfone, uma verborreia pastosa, onde a mediocridade é um epíteto suave para classificar a mesquinhez mais tacanha.
(Isto é o jalali)
É ouvi-lo na electromagnética frequência, convidado de “fóruns” que são assim uma coisa mal parida, onde se decreta que “…a voz é dos ouvintes”, mas que é sempre antecedida de um monólogo de uns “escassos” 15 a 20 minutos de um “especialista”. Para “animar”, dizem eles, a “discussão”.
E aqui reina um qualquer jalali.
Fala num tom monocórdico, um discurso paternalista e padrético, uma cândida voz, segura na sua visão cinzenta do mundo, projectada no fundo da caverna, que Platão ilustra[2], quando fala das sombras que parecem mais verdadeiras do que os objectos. Que acontecerá ao jalali, quando o tirarem da caverna do estúdio?
Entretanto vai vomitando insignificâncias, com a tranquilidade olímpica de quem tem audiência garantida, a troco de alguns patacos, que usa para polir a mais rasteira e bafienta postura.
Numa manhã perto de si, o jalali aparece sempre protegido debaixo da capa de “politólogo”, a tal espécie recentemente inventada e que serve fundamentalmente para classificar incertos e indeterminados indivíduos que interpretam uma realidade que arquitectaram para si próprios. Em pleno século XXI, um politólogo, vale muito mais que um astrólogo, que um psicólogo, ou até mesmo que um metodólogo.
O jalali articula o conhecimento ao nível do pequeno burguês, sentado no barbeiro (agora diz-se cabeleireiro), enfarinhado na “Maria” ou na “Nova Gente” (não sei se agora se chamam assim…).
O jalali fala do “papão” do populismo como a beata fala do inferno. Sem qualquer base de sustentação que não seja a sórdida posição redonda do “moderno” sistema de análise que simplisticamente caracteriza as mentes balofas de uma Direita anquilosada, o jalali deriva para cima e para baixo e ainda para o lado (direito, claro) no que é de facto o populista. Curioso, ou nem por isso?
Entretanto, as mentes menos sadias e mais dadas à magia efémera das novas tecnologias ditas libertadoras, efabulam um jalali e exultam com as suas derivas. Crescem em número, que não em qualidade, postulam verdades mentirosas e compram (e vendem) a não-ideologia.
Talvez não lhes fizesse mal nenhum ler alguns livros, sobretudo daqueles que houvessem constituído “…uma riqueza para quem os tenha lido e amado[3]. Todavia não parece ser essa a vocação dessa espécie.
Pior para os seus representantes.
Atenção para nós que a repugnamos e à qual não queremos pertencer.

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NOTA: Este texto é especialmente dedicado ao meu Amigo Licínio Lima, que dedica sempre alguma atenção a ler as minhas crónicas, “perdendo” eventualmente tempo que poderia ocupar em tarefas bem mais profícuas (digo eu…)





[1] Uma personagem inspirada no senhor Varqa Carlos Jalali, Professor Auxiliar da Universidade de Aveiro, Diretor do Programa Doutoral em Ciência Politica (UA-UBI), Diretor do Mestrado em Ciência Política e Coordenador do grupo de investigação em Políticas Públicas Instituições Inovação (PI2) do GOVCOPP (fonte Universidade de Aveiro, in: https://www.ua.pt/dcspt/person/cjalali  

[2] Referência à obra “A República, Livro VII”, de Platão (século IV A.C), considerado um dos suportes básicos sobre Teoria do Conhecimento
[3]  Referência à obra “Porquê ler os Clássicos?”, de Italo Calvino, (1991), 4-5

13 fevereiro 2017

A RÁDIO É VOCÊ!



Foi assim mesmo que em 2011, o 13 de Fevereiro foi proclamado pela UNESCO, o Dia Mundial da Rádio.
É dentro da rádio, uma vez que estamos dentro dela ou está vem ao nosso encontro, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, sempre que a deixamos entrar. “A rádio vê no escuro” diz o meu Amigo Fernando Alves, ele que é (para mim) uma voz e uma presença inesquecível e que semeia diariamente o desassossego nas manhas da rádio. Apetece diz, pois vê!
A rádio está onde deveria estar ou apenas está porque quer estar? 
A rádio é também, muitas vezes, uma cúmplice do pensamento dominante. Quantas vezes aconteceu, outras vezes (lá está uma vez mais o escuro) a ouvimos no silêncio das noites do medo, confortando a esperança e atiçando a revolta.

Quero pensar no que a rádio contribui para a minha (e para a de muitos) formação integral. Nos tempos da escuridão (lá está, o escuro) a rádio era “Em Órbita”, era “Página 1”, era “Limite”, era tantas coisas que nos sussurrava e assim ia plantando em nós o vício da contestação, do contraditório que não havia, e sim, da revolta contínua. Porque havia rádio, aquela coisa que se ouve alto e baixinho, consoante nos dá gozo ou nos é permitido.
A rádio que diz, na madrugada gloriosa, “Aqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas…”, é o Furtado, sim. É Abril, é a Liberdade, pois então. A rádio é o direito das pessoas à informação, um direito que deve ser protegido e acarinhado. E estudado também.
A rádio salva vidas. E pode também promover e capacitar as pessoas mais vulneráveis e mais sujeitas a desvarios de poderes, mesmo de alguns, supostamente democráticos. 
A rádio és tu! 
Sabe-se lá como, mas tu estás lá, agora em tempos de meia-verdade ou mesmo de “falsa verdade”. Porque és uma peça do enorme círculo, onde campeia muitas vezes o silêncio ajustado de uma TINA qualquer. 

As rádios são casas onde as palavras ganham asas…”, uma vez mais me socorro do Fernando, porque é mesmo assim, porque é língua e movimento. 
E sonho, também.

28 novembro 2016

DECLARAÇÃO (28 Novembro 2016)

Declaro por este meio que nasci há 7 horas atrás.
Nestas horas de vida, já aconteceu muita coisa, nomeadamente muitas chamadas telefónicas, muitos emails, muitos posts facebook, coisas que percebo agora são essenciais a sobrevivência da espécie. Lá fora está um bonito sol de inverno que nos dá calor e alimenta animais e plantas. Assim mesmo parece que há quem prefira viver na sombra. De outros, claro. Da janela aprecio a vida, nas suas formas mais estimulantes. Efectivamente, “Adoro o campo, as arvores e as flores, jarros e perpétuos amores[1] e já aprendi, como diz a canção, a moralizar. Conheço outras canções, que me transportam para um mundo diferente, que entretanto devo vir a conhecer também. Quero, por exemplo, “…The delight alone or in the rush of the streets, or along the fields and hill-sides/The feeling of health, the full-noon trill, the song of me rising from bed and meeting the sun.”[2]

Declaro ainda que já nasci outras vezes.
De umas vezes gostei, de outras talvez nem tanto. Existi por aí, corri montes e vales a procura de coisas diferentes, algumas encontradas, outras nem por isso, a busca continua, de vida em vida renovada, renascida.
Aprendi.
Em outras vidas percorri e corri e terras e lugares que conservo na memória. E onde volto sempre que tenho tempo, que dizem que é sempre curto. Ou breve. Em breves momentos percebi que outras gentes, outras sensibilidades e outras vivências são demasiado importantes, para que as esqueçamos. Fazem parte de nós, mexem connosco, arrepiam-nos às vezes. Aquecem-nos no frio e confortam-nos a noite para não ficarmos sozinhos. Dão-nos o alento que precisamos para continuar a nascer. Fazem parte dos nossos dias, falam connosco, brigam também, riem e choram ao nosso lado, crescem connosco. Nascem de novo também.

Declaro finalmente estar pronto a assumir todos os compromissos que esta declaração acarreta, ou seja, nenhum.
Declaro que nasci para ser livre e selvagem, no sentido poético do termo. Tal e qual, como na canção. Vim de uma terra provavelmente assombrada e “…do ventre de minha mãe / não pretendo roubar nada / nem fazer mal a ninguém[3].
Não me comprometo pois em quaisquer actividades ou iniciativas que possam de alguma forma colocar em perigo a minha frágil existência (apenas 7 horas), bem como todas aquelas que me impeçam de ter em mim “…todos os sonhos do mundo[4]. Bem sei, ou penso que sei (é ainda cedo para saber) que tenho deveres sociais a cumprir, mas quero saborear a ideia de não fazer nada que me perturbe ou me prejudique. O meu primeiro dia vai ser assim.
Sei entretanto que vou estar com quem gosto de estar e que gostam que eu esteja com eles. Mas sei também que gostaria de estar hoje com muito mais Amigos, embora de facto esteja mesmo, porque nunca os esquecerei.

Declaro, e com isto termino, afirmando que estou cá.
Atenção, estou mesmo!
Alf.



[1] Extracto de “Efectivamente”, álbum “Psicopátria”, GNR, 1986        
[2] Extracto de “Song  of Myself”, Walt Whitman, 1892
[3] Extracto de “Fala do Homem Nascido”, António Gedeão, 1958
[4] Extracto de “Tabacaria”, Álvaro de Campos 1928

21 novembro 2016

POBREZA ENERGÉTICA CADA VEZ MAIS PERTO DAS NOSSAS CASAS

 http://www.edificioseenergia.pt/pt/a-revista/artigo/pobreza-energetica-cada-vez-mais-perto-das-nossas-casas


O conceito de “pobreza energética” foi introduzido pela investigadora britânica Brenda Boardman, nos anos 90 do século XX. Retrata a situação das famílias que possuem uma renda limitada, ou mesmo nenhuma, para pagar as necessidades de energia doméstica. A pobreza energética também é considerada quando as famílias não podem dispor de (pelo menos) 10% do seu rendimento para custear a factura energética. O trabalho de investigação de Brenda, que já foi directora do Lower Carbon Futures e assessora da direcção do UK Energy Research Center, é dirigido para a redução da demanda de energia em toda a economia do Reino Unido, em particular para o edificado. Em 2008, existiam só na Inglaterra, 5 milhões de famílias em situação de pobreza energética.

Com a aproximação do Inverno, rigoroso em algumas zonas do nosso País de que Trás-os-Montes é um bom exemplo, imaginamos pelo menos 30% da população dessa região, passando muito frio e entregue a sua sorte, por não possuir as condições mínimas para se aquecer. O caso particular da freguesia de Rio de Onor, em Bragança, retrata 75% dos habitantes em pobreza energética. Os dados da OMS para Portugal, datados do ano 2008, já revelavam uma taxa de 28% da população portuguesa em situação de pobreza energética. Não esqueçamos que a situação de desemprego continuado, que afecta muitas famílias, acarreta necessariamente incapacidade para pagar água e luz, uma dramática tragédia social dos tempos que correm, onde as necessidades básicas deveriam estar protegidas e devidamente salvaguardadas. Estamos na Europa, em pleno século XXI.
Um estudo recente, integrado no projecto ClimAdaPT.Local – Estratégias Municipais de Adaptação às Alterações Climáticas, uma parceria de 26 autarquias portuguesas e da Agência Portuguesa do Ambiente, concluiu que, em média, 29% da população não tem capacidade de aquecer as casas no Inverno nem arrefecê-las no Verão.

Vale a pena lembrar um dos compromissos, a nível mundial, traduzido no Objectivo número 1, dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), “Erradicar a pobreza em todas as suas formas e em todos os lugares”. A luta por este objectivo passa necessariamente pela consideração da pobreza energética, como uma das facetas preocupantes da pobreza em geral.

Fernando Alves, na sua crónica (Sinais) de hoje na TSF, fala da pobreza energética como um epidemia, que atinge hoje em Espanha, aqui tão perto, 5 milhões de pessoas, a propósito da morte de uma ansiã de 81 anos de Reus, por incêndio provocado pelas velas que usava em sua casa, após o corte de energia por falta de pagamento. “Velando a noite antiga” chamou ele a sua crónica, onde diz que “velar é permanecer aceso”…



14 novembro 2016

UM ESTRANHO NO MEIO DE NÓS?

Uma estranha revolução cinzenta, um pestilento odor, uma paralisia completa, uma muda revolta, poderiam ser a chave para abrir algumas consciências. Um mundo esquisito, onde o poder do voto completamente agrilhoado, ostenta uma vitória que pode significar tudo ou simplesmente nada. Mas será porventura ainda cedo para avaliar o tremendo pontapé que levamos. Ou que nos quiseram dar. No século onde tudo parece ser possível, brilha uma estrela podre, balofa, triste e quiçá repelente. Dizemos, em primeira mão, que não temos palavras, que não é possível, que parece mais um pesadelo do qual queremos acordar depressa. Mas ele lá está, o símbolo da intolerância, da mais boçal intransigência, da linguagem rude e seca, contra os mais elementares princípios de cidadania. Que despreza todas as minorias, que o século XX timidamente a princípio, de uma forma expressa depois, vieram conquistar. Ele aí está, proclamando muros e expulsões em massa, em nome da “defesa intransigente” do estado americano. Levou uma significativa margem de votantes a aderir a um discurso primário, arrebatado e pueril, muitas vezes obsceno e doentio.
Existem muitos trumps por aí. Escondidos quiçá num discurso pacífico alguns. Outros, porventura mais ousados, envoltos numa capa de nacionalismo radical. Muitos, são hoje, os lídimos representantes de uma direita passadista, que encontraram um lugar nas chamadas “democracias ocidentais” e que representam a franja lúmpen de uma pequena e média burguesias desencantadas com o “progresso” do capitalismo agonizante.
O discurso oficial é porém hoje muito mais poderoso. O discurso da subjugação ao poder da finança é amparado e confortado por uma elite da comunicação social, entretanto agrilhoada pelo poder férreo de empresas privadas que foram crescendo à medida que se desenvolvia uma teia de interesses confessados. Se tal não bastasse, a circunstância de uma pérfida manipulação de consciências, levada sistematicamente a peito durante aproximadamente as duas últimas décadas, acabou por traçar o cenário ideal para o esvaziamento completo do esquema formal de funcionamento dessas “democracias”. Vale tudo para esses agentes infiltrados do capital. Redacções completamente acéfalas produzem diariamente em programas de rádio e de televisão a mais rasteira informação, eivada de pequenos factos, subjugada ao poder do futebol, interessada na pequena intriga e , muitas vezes, na mais despudorada mentira. Que alimentam nos cidadãos, no mínimo, a convicção da inevitabilidade, a mais poderosa das armas que invoca, subtil ou expressamente, a indiferença.
Os dados estariam potencialmente lançados para colocar no poder uma besta. Não difere em nada de um Pinochet, ou de um Obiang, ou até de um Erdogan que, de forma subtil, caminha a passos largos para uma ditadura feroz, a pretexto da luta contra o terrorismo. Aparenta semelhanças com todos os representantes da extrema-direita, na França e no Reino Unido. Significativamente ou não, o seu primeiro gesto político foi precisamente com estes últimos. E continuará decerto com todas e todos aqueles que, em qualquer parte do mundo, se dedicam à “doce tarefa” do extermínio de todas as resistências. Acaso será inocente o apoio desse grupo abjecto que dá pelo nome de Ku Klux Klan e a festa que fizeram após a “eleição”?
A ilusão aparente de que seria um anti-sistema apenas cai nas consciências vazias da ignorância a que foram reduzidas algumas franjas do eleitorado do seu País. A fantochada, idiota de tão evidente, que significa uma eleição nos EUA, produziu o resto. Está para se saber se o pretenso falhanço de todas as sondagens não foi senão mais uma das encenações em que o sistema é pródigo. O anti-sistema é então uma máscara, um embuste completo, que apenas representa a tábua de salvação possível para uma “causa” que parecia perdida. O personagem não passa de um testa de ferro do sistema mais corrupto e indigno, que é no fundo o sistema financeiro, que gera crises em seu próprio proveito, semeando crimes impunes e desigualdades permanentes.

Ana Sá Lopes diz hoje, na sua cronica do Jornal i, que o “… trumpismo sempre esteve no meio de nós, glorioso mundo ocidental. Está no meio de nós e basta olhar para o lado”. Nada mais certo então que olhar mesmo para o lado e estar atento.  


23 outubro 2016

O IDIOTA FUNCIONAL


Sou da geração sem remuneração
E nem me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
...”
Parva Que Eu Sou”, Pedro Silva Martins, Porto 2011












Assim se define, assim se apresenta.
Ele faz parte do mobiliário urbano, das cidades onde passeia a sua existência efémera. Tratado e preparado nos laboratórios da pretensa inovação, polvilhado de lugares-comuns, etiquetado à maneira, preso por fios ténues de uma esperança que raramente encontra. Receita normalmente a doxa, ilustrando termos e frases, fora do contexto, que captou e interiorizou, em sessões contínuas de powerpointes com cores berrantes e setas e setinhas para baixo, para cima e para o lado e estrelinhas a pulsar. Os mentores falam, exultando as virtudes do empreendedorismo, como tábua miraculosa de salvação universal, nesta sociedade em que se perderam os valores e já não faz sentido (para elas e para eles) distinguir direitas e esquerdas, patrões e trabalhadores, ricos e pobres, a classe média é tudo o que resta. Viver na mediocridade, para um sucesso prometido, mas tão distante como a Terra da Lua.

O idiota funcional é culpado de tudo, incluindo o de não ter lugar onde, de não ter emprego, e claro, de sempre se confinar a sua zona de conforto, seja lá o que isso for. Culpado, sujeita-se ao rigor invernoso da conformidade e à canícula sufocante da prevalência.

Millor Fernandes disse um dia que “quando um técnico vai tratar com imbecis, deve levar um imbecil como técnico”, ironia suprema que poderia ilustrar os montes de sessões de preparação para “jovens empreendedores”, onde a insignificância é directamente proporcional à dose de imbecilidade do discurso da classe dominante e da camarilha de actores que constantemente manipula e oprime.

Os perdedores deste mundo são todos, com raríssimas excepções, empreendedores. Que são paridos para implementar, um termo tão idiota, mas sempre e sempre declaradamente funcional. Do outro lado emergem “empreendedores de palco que vendem palestras e enchem salas de congressos, com um discurso que está normalmente mais próximo do de um pastor evangélico do que de um professor de economia” [Soeiro, 2016].

Se ao menos de autonomia das pessoas se tratasse. Bem pelo contrário, a teoria da subjugação e da impotência contra o sistema, floresce num pretenso imaginário económico e social, criando o idiota funcional, um triste retrato que pretendem pintar os seus perigosos ideólogos.
As papas e os bolos que enganam os tolos, do saber popular, terão neste particular a lição máxima que a vida acaba por ensinar.


Ouve a canção, fica atento e (se puderes) muda de figura!

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