08 maio 2026

A CIDADANIA CONFLITUAL

 

Existe, no governo de turno que o País vai tolerando, uma sanha estranha contra os emigrantes, fruto das ligações perigosas que mantém com uma extrema-direita desejosa de varrer tudo o que cheire a estrangeirismo, uma versão nacionalista-parola, retrógrada e chauvinista. Um dos governantes mais “esclarecido” nesta matéria é o ministro Amaro que nos vem dizer esta coisa extraordinária que só pode vir de uma mente cuja pequenez se vem tornando manifestamente irritante: esta lei é "pedida pelos portugueses". Com esta profunda redundância, quer de certo associar a ideia abstrusa que existe uma "vontade popular" subjacente a este endurecimento de posições, o que não deixa de ser uma alegação conveniente para um governo minoritário que precisa de justificar politicamente o seu alinhamento com a extrema-direita. 

 

O filósofo francês Jacques Rancière, escreveu em 1981 um texto delicioso a que chamou “La Nuit des prolétaires. Archives du rêve ouvrier (“A noite dos proletários. Arquivos do sonho operário”). O Autor desenvolveu, a partir do Maio 68, uma série de estudos sobre a história operária francesa, com base em extensa documentação, entre a qual se deve dar destaque a publicações operárias de meados do século IXX, que possibilitaram o vislumbre de concepções do mundo esboçadas ao largo de entidades representativas. A descrição das noites dos proletários na década de 1830 mostra como alguns trabalhadores decidiram não suportar mais a exploração laboral e dedicaram as suas noites a estudar, a embriagar-se, a discutir e a escrever sobre possíveis formas de mudar as suas vidas. E se podemos retirar algo das descrições de Rancière, é certamente a complexidade das lutas e aspirações dos trabalhadores, que o Autor considera e por vezes classifica como os sem-parte”, aqueles que, não tendo parte, tomam parte e que, ao fazê-lo, demonstram que a própria contagem das partes falha. Os “sem-parte” são sujeitos que não são contados, as suas falas não são reconhecidas como discurso, mas apenas como ruído. A lei agora promulgada, secamente definida pelo Presidente como uma aprovação "sem entusiasmo", tem um verdadeiro vício de origem que reside na exclusão, como sustentou, nos anos noventa do século passado, o filósofo italiano Giorgio Agambenou seja na excepção, na ideia de que a lei pode ser suspensa em nome de uma crise ou ameaça, como a putativa "imigração descontrolada", tornando-a assim como regra. Desta forma, os imigrantes são colocados numa zona de indeterminação legal, onde a força da lei pode ser aplicada de forma selectiva, sem o devido processo, instituindo-se o que Agamben chama de “vida nua”, uma espécie de vida humana destituída de direitos políticos e reduzida à uma mera existência biológica.

 

Porque precisamos de instalar uma cidadania conflitual? As razões oficiais invocadas por este governo obcecado, surgem ao que parece para responder a um conjunto de preocupações que, no seu entender, justificavam uma revisão profunda do regime de acesso à nacionalidade. A justificação, feita retórica assumida de "repor o consenso nacional quebrado", assenta no formalismo bacoco de Amaro sobre "facilitismo", na sua vocação para supostamente repor a exigência de ligação efectiva no acesso à nacionalidade e, pasme-se, para “definir” quem é o povo, quem pertence à comunidade e quem tem o leque máximo de direitos e deveres. Na verdade, esta lei não beneficia ninguém e prejudica duramente os imigrantes de países lusófonos, incluindo cidadãos brasileiros, imigrantes de outros países terceiros, filhos de imigrantes nascidos em Portugal, descendentes de judeus sefarditas (cujo regime especial foi encerrado) e cidadãos naturalizados em situação regular que aguardavam a nacionalidade. O acesso mais restrito à nacionalidade não resolve nenhum dos problemas concretos que afectam o dia a dia dos cidadãos portugueses, como habitação, saúde, educação e salários. Ao classificar esta lei como “cruel", José Manuel Pureza ironizou: "...não foi por causa da nacionalidade que as rendas se tornaram caras, ... nunca foi por causa da nacionalidade que deixou de haver médicos de família para toda a gente."

 

Existe na cidadania uma dimensão paradoxal. Tal posição foi defendida pelo  filósofo e professor universitário francês Étienne Balibar, colega de Jacques Rancière. Para o Autor, os processos de inclusão, como a concessão da cidadania, são actos de poder que podem conter violência simbólica e real. A nova lei, ao definir quem "pertence", exerce uma forma de violência estrutural sobre aqueles que são considerados "estranhos"(estrangeiros), mesmo quando, tecnicamente, "beneficia" alguns ao integrá-los. Na sua obra de 1991, "Racismo e Nacionalismo", Balibar refere um “racismo diferencialista”, um racismo sem raças, que não postula a superioridade biológica de um grupo sobre outro, mas a incompatibilidade absoluta entre modos de vida “autênticos” e a impossibilidade de viverem juntos.

 

Quando escreveu, em 1943, um poema épico a que chamou “La complainte du partisan”, o jornalista Emmanuel de La Vigerie, membro da Resistência Francesa, falava do “lamento” do partisan (o resistente) nestes termos: “J'ai changé cent fois de nom/J'ai perdu femme et enfants/Mais j'ai tant d'amis/J'ai la France entière” (Já mudei de nome centenas de vezes/Perdi a mulher e os filhos/Mas tenho tantos amigos/Tenho a França toda). Graças a Leonard Cohen, que a cantou e popularizou, a partir de 1969, o lamento (“complainte “) correu mundo e tornou-se em canção de resistência e homenagem às vítimas da exclusão. Claro que esse “lamento” será decerto inaudível para qualquer burocrata actual, chame-se Amaro ou outra coisa qualquer.

A lei tenta fixar uma hierarquia, quem merece, quem não merece. A política começa quando os excluídos recusam essa hierarquia e se afirmam iguais. A política existe quando a ordem natural da dominação é interrompida pela suposição de que qualquer um é igual a qualquer outro. A resposta à aparente inevitabilidade da exclusão parece agora mais clara. Os imigrantes afectados por esta lei podem ser reduzidos a vítimas ou podem tornar-se agentes políticos. A acção política começa quando os que não eram contados decidem contar-se.

30 abril 2026

MAIOS

 

Entra o novo mês, com a tradição renovada das giestas nas portas, abençoando Maio, que se foi fazendo “maduro” ao longo de tempos idos, celebrando a Primavera e esconjurando o mal, afastando os maus espíritos, invejas ou pragas e trazendo protecção e abundância para a casa. Na verdade, os “maios” são bonecos artesanais, feitos de palha de centeio, trapos velhos ou jornais, normalmente vestidos com trajes típicos de cada zona do País e que, no final do mês de Maio, substituem as flores. Consta que havia danças, era a festa com celebração pagã, extensiva ao hábito, feito sátira política, na criação artística representada, na vivência comunitária, pela participação popular. As “maias” (e os “maios”) à solta brindavam o arrojo e a ousadia, muitas vezes violentamente reprimidas, não fosse essa a essência dos poderes instituídos, sempre longe dos anseios e das vontades das classes populares. Não é despiciendo lembrar, entre as celebrações, a da fertilidade, aqui na acepção do novo ano agrícola. 

 

No Maio actual, é bom que analisemos por um momento a enorme desfaçatez dos gigantes capitalistas, para ver até que ponto vai a exploração e o seu aproveitamento. A EDP teve 1.150 milhões de euro em 2025, representando um crescimento de 44% face a 2024; enquanto as famílias pagavam tarifas recorde, a empresa aumentou dividendos para accionistas. O Millennium BCP  teve 1.018,6 milhões de euro em 2025, representando um aumento de 12,4% face a 2024. O Grupo Jerónimo Martins (Pingo Doce) teve lucros de 646 milhões de euro em 2025, representando um aumento de 7,9% face ao ano anterior, num ano de crise alimentar aumentou margens enquanto os preços dos produtos básicos disparavam. A Mota-Engil teve, em 2025, 133 milhões de euro, representando um crescimento de 9% face ao ano anterior e tem beneficiado de obras públicas e fundos europeus, mantendo práticas de despedimentos e pressão salarial. Segundo informação de ontem, o Grupo Santander registou lucros superiores a 5 mil milhões de euro, um acréscimo de mais de 60% em relação a 2025. Idem para o Grupo suíço UBS-AG, que registou lucros de mais de 2 mil milhões de euro, uma subida de 80%. E, a Iberdrola registou 1500 milhões de euro, adicionando 15% de aumento. E finalmente, o Grupo Total Energy, lucros de 5 mil milhões de euro, mais de 51% relativamente ao ano passado. 

Face a cenários deste tipo, como interpretar a situação de desequilíbrio completo que grassa no capitalismo do século XXI? Enquanto os trabalhadores vão pagando sempre mais um pouco, ou muito e muito mais pelos preços de produtos e serviços, com o mesmo salário e a mesma pensão, que se pode considerar de miséria.

 

O 1º de Maio não tem hoje nada para festejar. Apenas tem de evocar a data histórica e passar adiante, mobilizando para a luta feroz contra o Capital, contra o governo infame deste País de Abril, apostado em afrontar os trabalhadores, com uma agenda reaccionária e, porque não dizê-lo com toda a frontalidade, completamente alinhada com a extrema-direita. Neste Primeiro de Maio, o “pacote” estará no centro da luta, a sua rejeição completa será a urgência absoluta, uma vez que a sua intenção é reduzir a regulação das condições de trabalho, facilitar a utilização de contratos a prazo e vontade de restringir claramente a greve, a actividade sindical e a contratação colectiva. 

 

Saibamos ser denunciadores das misérias do capitalismo. Por exemplo, da baixeza moral da gente dos “galpes” e quejandos, cuja empresa-mãe teve, nos primeiros três meses deste ano, um resultado líquido ajustado de 272 milhões de euro, mais 41% do que no mesmo período do ano passado, aproveitando sobremaneira a guerra do imperialismo e fazendo subir artificialmente os preços dos combustíveis, com implicação directa nos aumentos imediatos dos bens de consumo e dos serviços associados, com a cumplicidade dos “reguladores”, os lacaios do capital travestidos de “serviço público”. Merecem, como resposta, a sabotagem económica legal, com greves, boicotes e todas as acções possíveis de desobediência colectiva. Atenção a empresas-abutre como as norte-americanas  BlackRock e a Vanguard Group, que não produzem rigorosamente nada a não ser acumulação desmesurada de lucros através dos designados “gestão de activos”, “gestão de riscos” ou “gestão de fundos de investimentos”, uma das muitas misérias do capitalismo predador. 

 

Entretanto, temos no Alentejo, trabalhadores imigrantes, nomeadamente do Nepal e Bangladesh, a receber dois euro por hora ou menos, sem contrato, nem subsídios, alojados em contentores superlotados, sem água potável, sem saneamento, em antigas fábricas ou estábulos, com jornadas de 12 a 16 horas sem folgas, especialmente na apanha da framboesa, amora, tomate e azeitona. Que, se reclamam, são muitas vezes agredidos, moral e fisicamente, despedidos e ameaçados de expulsão. Os governos, sempre cúmplices, fingem que não sabem e permitem situações de vergonha, onde os trabalhadores são mantidos na situação humilhante de servidão por dívida. Neste Primeiro de Maio deveriam ser lidos, em voz bem alta, os nomes dos muitos que morreram no trabalho, nos últimos anos, ilustrando para que dúvidas não restem, que o capitalismo continua a fazer escravos, hoje com medo e passaporte.

 

O matemático português, professor universitário e  intelectual comunista Bento de Jesus Caraça, disse sobre o Primeiro de Maio ser o dia daqueles que, só por si, não contam na sociedade, “...o dia daqueles que, sendo a própria substância da sociedade, são a única força capaz de a transformar.” As palavras deste Homem, ferozmente perseguido pela ditadura fascista, podem ser um farol para quem (ainda) precise de ser “esclarecido”. Acontece que os “maios” de hoje não são propriamente bonecos de palha para substituir as flores pisadas e vilipendiadas. Maias e Maios das novas gerações se devem impor, para que a Luta passe da dimensão platónica social-democrata para uma outra eminentemente interventiva e declaradamente revolucionária. 

25 abril 2026

A LEGITIMIDADE DA MODERNIDADE REVOLUCIONÁRIA

(52 anos do 25 de Abril)

 

 

É, sem qualquer dúvida, um contraponto, necessário e justo, em tempos de servidão, ao que se diz, voluntária, a defesa de uma nova modernidade, compatível com o 25 de Abril, na sua essência fundamental. Que, lembra-se, foi atacar e derrubar um regime que oprimia, torturava e matava. Muito embora a modernidade clássica se tenha arvorado em destruir as diversas estruturas de pensamento, sociais e culturais, a começar pela obstrução determinada à superstição e à crença, o facto é que o evoluir dos séculos a tornou “líquida”, por força de uma mudança de estado em que os indivíduos são naturalmente tentados a reduzir a complexidade de sua situação a fim de tornarem as causas do sofrimento inteligíveis. Neste segundo quartel de mais um século sobrevivem sucessivos e monstruosos atentados ao racionalismo. O que vem sendo designado como um recuo civilizacional não é mais que a tentativa de um regresso a um passado de trevas e a uma mística estupidificante que desmerece qualquer consideração e não é compaginável com qualquer diálogo. Apenas o combate frontal pode significar algum progresso e, qualquer concessão extra é perfeitamente dispensável. 

 

Quando somos transportados para o Abril da nossa memória, (re)encontramos o que podemos classificar de legitimidade de uma nova modernidade revolucionária. Da necessidade de a colocar como pilar base dos nossos propósitos. Porque, muito simplesmente, os poderes actuais no País nada têm a ver com o vinte e cinco de abril de 74. Antes pelo contrário, incarnam a “reacção” de uma forma tão coesa que até será injusto exigir-lhes algo que nada tem a ver com eles, quer no plano individual, quer nas organizações de que fazem parte, a começar pelos partidos políticos e outras associações corporativas. Mas, será bom admitir, são essas forças do passado que ocupam todos os postos disponíveis do estado burguês. É, por essa e outras razões que se torna perfeitamente escusado e até desgastante falar a essa gente em “democracia”, “valores democráticos”, ou outros qualificativos semelhantes. Quando entoamos hoje “25 de Abril sempre!” é a palavra de ordem velha de mais de cinquenta anos que ganha todo o seu significado: a destruição completa do regime podre da “vampiragem” que vai chupando o “...sangue fresco da manada”..., que afinal “...São os mordomos do universo todo / Senhores à força mandadores sem lei”. E que hoje, com nova roupagem, nos trazem gritaria, espectáculo e mentira, devem ser combatidos com firmeza, nos campos e nas fábricas, nas escolas e nas universidades, enfim, na rua e por todo o lado, sem tréguas nem concessões.             

 

Recuando ao ano de 1867, lembramos este escrito de Marx: o Capital é trabalho morto que, como um vampiro só ganha vida sugando trabalho vivo. Aqui está a metáfora, como uma seta, a apontar a realidade e que o Zeca resumiu no seu poema, em 1963: “Eles comem tudo, eles comem tudo / Eles comem tudo e não deixam nada”. Haverá melhor imagem para explicar actualmente às massas o que é o capitalismo predador? E que resulta na candente questão, o que mudou na prática, no que concerne à exploração e à dominação, hoje “temperada” com o perfume ilusório das “democracias liberais”? 

Exigir direitos pode hoje não ser suficiente, embora seja necessário. Pelo menos no imediato. Que se parta, a vinte e cinco de Abril, para a construção de uma nova modernidade revolucionária, em que prevaleçam a insubmissão e o espírito crítico como armas de destruição do medo e da indiferença. Uma nova atitude de desobediência mais que legítima se deve erguer, despertando as consciências e libertando os corpos, no coro dos caídos que se levantam.

SEMPRE VINTE E CINCO DE ABRIL!

 

 

17 abril 2026

ALIADOS


 

Aliados é nome de Avenida, no Porto, incarnando o coração cívico da cidade. Projectada no início do século XX, o seu nome evoca a aliança vitoriosa que derrotou Napoleão e, mais tarde, a tríplice entente da I Guerra Mundial, a avenida evoca diversas “alianças”, quiçá associadas a revoluções, do 31 de Janeiro de 1891 ao 25 de Abril de 1974, passando pela grande manifestação de apoio a Humberto Delgado a 14 de Maio de 1958. Aliados contra o medo e o fascismo, na avenida a que se associam a libertação, a união contra a tirania, num espaço de encontro e protesto cívico, um sentido que ainda hoje perdura e mantem viva a insubmissão.

 

Um dos cientistas político actuais que aborda a temática “aliança-aliados” é o professor de ciência política norte-americano John J. Mearsheimer, teórico e especialista em relações internacionais. A sua abordagem implica a consideração que as alianças não são comunidades de valores ou parcerias estáveis baseadas na confiança mútua, mas sim resultados de momentos conjunturais. Mearsheimer considera assim que as grandes potências estão permanentemente inclinadas a maximizar o seu poder e que a cooperação entre estados é intrinsecamente difícil. Particularmente crítico mordaz da NATO e da política do seu país, diz que aquela não tem qualquer razão de existir, por ser desnecessária, obsoleta e potencialmente perigosa, ao alimentar tensões com a Rússia. Para este Autor, o termo "aliado" é esvaziado de conteúdo substantivo. Não há verdadeira reciprocidade, partilha de encargos ou responsabilidades mútuas, existindo somente  "protectorados", ou seja, países que são defendidos pelos EUA e que, em troca, permitem que Washington lidere. Mearsheimer sugere até que, na retórica da hegemonia liberal, "aliado" é simplesmente qualquer país que “compre” o programa hegemónico americano e aceite que os EUA devem ser o polícia do mundo .

 

O tema “Aliados” constitui uma narrativa poderosa do Ocidente quando se associa basicamente a uma excrescência belicista chamada OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, em inglês), responsável pelas mais sacrossantos crimes de guerra, no ataque, ocupação e destruição de países e cuja materialização efectiva assentou, desde os anos sessenta do século passado, no Vietnam, Camboja, Balcãs, Iraque, Síria e Ucrânia, citando apenas os mais significativos. Esta putativa “aliança” não é apenas militar, é tudo menos “defensiva” e representa uma ofensa à integridade e às consciências, atingindo o bloqueio completo e cirúrgico da informação, sempre na esteira da obediência servilista ao Império. Serve hoje um propósito espúrio, que se traduz na “obrigatoriedade” de alocar os tais “cinco por cento para a defesa”, que, a serem aplicados, significariam a destruição sistemática do designado estado social, já de si parcialmente devastado pelos princípios e políticas neoliberais, adoptados por esta Europa manifestamente em fim de ciclo. A auto-proclamada “união europeia”, o maior embuste do final do século XX, não é mais que a tradução prática da assumpção da desigualdade feita dogma castigador para os trabalhadores.  A aliança do capital atinge nos nossos dias uma vitória retumbante sobre o trabalho, embora nunca lhe cheguem os milhares de milhões de lucros obscenos que fazem o modo de vida dos capitalistas do século XXI, oligarcas poderosos, “invisíveis” aos olhos fracos do estado burguês que afinal os usa como aliados da sua sobrevivência.

 

O termo bloqueio assume-se hoje como arma discursiva e efectiva, no plano operacional. Os “Aliados” usam-no de forma compulsiva para intimidar e, embora não sejam os únicos a fazê-lo, têm o infeliz destino de se auto-ridicularizarem. O caso bem recente da ameaça trumpista relativamente ao Estrito de Ormuz é um exemplo encantador do paradoxo de Teseu, afinal os “activos” navais norte-americanos abatidos podem ser recuperados para nova cruzada? A aliança, hoje furada, para varrer do mapa a civilização persa, encontrou o antídoto certo no propósito ridículo do “criador”. Assim, não foi possível ao Império reconstituir iraques, sírias e balcãs, por ainda restar algum sentido de respeito, em exemplos vindos de Espanha, Itália, Reino Unido e Turquia, que se contam (ou contavam) apesar de tudo, entre os ditos “Aliados”. Convém aqui citar a opinião de um atlantista “esforçado”, o diplomata e ensaísta e italiano Giovanni Jannuzzi, que desempenhou funções como representante italiano na NATO e que nos diz, com a maior das boas-vontades, que as crises são na Aliança e não da Aliança.

 

Sabe-se que, em matéria de facto, os EUA não têm aliados, têm protectorados e instrumentos, têm reflectores e canais, directos ou indirectos. E satélites, que, na maior parte das vezes, confundem a sua órbita com independência. Os “aliados” de Washington sabem sempre por antecipação o que vão pensar, o que vão votar e, por mais estranho que possa parecer, o que vão sofrer. A liberdade da “aliança”, neste mundo unipolar, é a liberdade de escolher entre obedecer ou ser abandonado. E o abandono, como os curdos, os vietnamitas do Sul ou os europeus em certas retiradas já aprenderam, é apenas a face visível da dominação. Um verdadeiro aliado seria aquele a quem se pergunta antes de agir, aquele que se ouve e a quem se revelam segredos e não apenas os que já foram roubados. Uma aliança autêntica é baseada em valores comuns, confiança e reciprocidade. Uma aliança espúria ou impura envolve tácticas por conveniência, onde o fim justifica os meios. 

 

Uma palavra será devida, em tempo oportuno, aos que estarão fora da “aliança”. Aos desalinhados, que recusam o sistema, por princípio, ou por isolamento estratégico. Outra ainda para os descartados, que são abandonados quando deixam de ser úteis. E uma última para os cães-de-fila, detentores da lealdade cega, executores sem questionar. Uns e outros estão marcados no seio da “aliança”, fazendo valer o seu preço (certamente débil) e a sua valia, mesmo que não queiram ser aliados.

 

Aliados sim, na essência da palavra, podem ser chamados todos os que se juntaram para responder ao miserável bloqueio imposto pela besta imperial a Cuba. Um sucesso completo, do fornecimento de petróleo, ao de alimentos e medicamentos, tudo o que o País estava tremendamente necessitado e que há décadas sofre de ataque cerrado dos que o consideram ameaça existencial. O mundo, habituado a alianças falsas (ou falsas alianças) assiste, ainda que incrédulo, à solidariedade de cidades, vilas e aldeias com o País sitiado, manifestações comprometidas com a Liberdade e o direito à vida, plenas de solidariedade. Aliados de princípio e com princípios. Aliados que mostram à besta imperial que ainda há esperança, que existe resistência e que nunca é tarde para mudar de atitude.

Aliados na Avenida, a rua é quem mais ordena, “dentro de ti, oh cidade”. 

12 abril 2026

 UM ENCANTADOR DE MARES

 

 

 


 

                                Escrever o teu nome sobre a água

                                                depois bebê-la até ao fim

                                                        até a terra ficar seca

                                                    e tu afogada em mim. 

                                                        Paulo Sucena (2011)


Imagino um mar imenso de palavras que me acolhem, de tal forma que sinto o bater das asas de um poema a procurar uma brisa suave de encantamento e surpresa. As palavras vêm de todo o lado, já devidamente pensadas, pesadas de rigor poético e conceptual. Nada aqui está ao acaso, muito embora o próprio acaso fique grato de tanta oportunidade. Os mestres da música fazem o seu melhor, encantados pelas palavras e prontos a envolvê-las na nota e no tempo certos. 

Deixa lá, Vitorino, que te “caem as palavras / na tarde fria”, imagino o Paulo a verter o adjectivo mais selecto e o verbo mais acutilante. Enquanto Dany canta “Ninguém sabe onde nasce a música”, Paulo diz-nos que há aqui “Uma celebração da amizade”. E quando Pepe nos traz “Cantiga de Amigos”, entendemos logo que este é “Portugal doutra maneira”. Bebemos a “Agua da manhã” e ficamos intrigando as horas, querendo também “...uma rosa que não há”.

 

É um mar de palavras, ditas e cantadas por gente de tantos mares. Estes, em vez de levarem as palavras nas ondas, juntam-nas numa onda imensa de AMOR, onde o adjectivo é uma onda sublime. 

Olha, Irmão Paulo, tu és um encantador de mares...

 


Imagino um 

03 abril 2026

A PROPÓSITO DE ATITUDES

 

Se quero falar de atitudes, possivelmente carregado de adjectivos pouco abonatórios para uma grande parte delas, será porque a carga que possuem no mundo de fantasia que habitamos é por demais violenta e castradora de consciências. Venham elas, estaremos eventualmente dispostos a acatá-las e a desconstruí-las, a bem da sanidade intelectual. 

Se assim se começa, para saber como se acaba é (também) uma questão de atitude. Falamos de atitudes” não propriamente no sentido psicológico individual, mas sim de posturas políticas materializadas em decisões. Uma atitude agressiva, belicista e arbitrária, não é um rasgo de temperamento, é antes um conjunto de políticas, como assassinatos, cirúrgicos ou nem por isso, aumento de arsenais, vetos a cessar-fogo, envio de armas, uso do espaço aéreo e toda uma série delas, que configuram crimes contra a humanidade e contra a consciência. Obviamente, contra a Liberdade e contra a dignidade, as atitudes torpes que caracterizam o Ocidente, como caso particular de estudo, sempre e há muito tempo no que parece ser o caminho para um abismo consciente, mas determinado na sua ridícula convicção  de ser o “farol” da democracia e da civilização.

 

Qualquer atitude transformadora não é solitária nem violenta por natureza. Pode ser afirmativa, colectiva no plano global e ética, na sua natureza. O filósofo francês Gilles Deleuze, numa atitude de confronto contra as ideias feitas, sempre defendeu que a filosofia serve para "denunciar a baixeza do pensamento" e "fabricar” homens livres. Na verdade, a filosofia “activa” de Deleuze é um bastião na luta contra a estupidez, personificada porventura no que se pode chamar o “pensamento banal”, típico da contemporaneidade pífia. Como bem sabemos, a “baixeza do pensamento" produz situações caricatas, como aquelas em que as vítimas defendem os seus próprios algozes. Muito antes de Deleuze, uma obra de meados do século XIX (1849) designada “A Desobediência Civil”, escrita pelo historiador e filósofo norte-americano Henry David Thoreau, haveria de servir de “conforto” a movimentos de cidadãos pela emancipação e, acima de tudo, à resistência contra governos que cometem injustiças, como, no seu caso particular, contra a escravidão e a guerra contra o México.

 

As atitudes nobres, as que dignificam quem as assume, embora muito raras na política actual, existem e sublinham posições de firmeza intelectual e de compromisso com a verdade. Tentam ir ao fundo das questões e são, consequentemente, radicais, muito embora este termo seja usado de forma espúria, na grande maioria dos casos. Veja-se, por exemplo, a atitude de Pedro Sanchez no que reporta à recusa em alinhar com o Império e como foi interpretada pelo ogre norte-americano, do alto de toda a sua arrogância cretina. O contraponto estará certamente na atitude canina do lacaio Rangel, sempre pronta a servir a guerra e o seu “dono”, cuja vontade muitas vezes precede, executando fielmente um guião que não é apenas a submissão para cima, representado também violência para todos os lados. 

As atitudes assassinas não são apenas o contraponto de atitudes nobres e funcionam através de uma moldura narrativa que enquadra os actos belicistas como "medidas de autodefesa". De cada vez que um político europeu aproveita a sua putativa influência para desviar o olhar ou suavizar a linguagem (Israel) está a contribuir para que a máquina belicista continue a trilhar o seu caminho destruidor. É aliás assim que o fracasso do projecto europeu não é um acidente, mas antes, o resultado de atitudes deliberadas. Fala-se hoje, de novo, na “unidade europeia” como se fosse um património a preservar. Mas como, e para quê, preservar o que nunca existiu?

 

Algo muito cruel deve estar em jogo para que as vítimas do capitalismo selvagem defendam os seus mentores. Se for apenas a “baixeza do pensamento", como sustentamos, talvez consigamos entender por quem somos, de momento, governados. Um primeiro-ministro que insiste em salientar a atitude do jogador de futebol português que é o actual emissário da Arábia Saudita para a lavagem de imagem através do desporto, diz tudo sobre a mediocridade e a escassez de recursos das pessoas em questão. 

 

Bem a propósito, aproveitando o cinquentenário da Constituição da República, se lembra aqui um dos artigos mais curiosos do texto, aquele que autoriza os cidadãos a desobedecer a ordens ilegítimas que violem os seus direitos e permite o uso da força em legítima defesa, embora apenas quando não for possível recorrer atempadamente às autoridades para obter protecção. É o Artigo 21º, chamado “Direito de resistência” e está inserido nos princípios gerais da primeira parte, os “Direitos e Deveres fundamentais”. Poderemos classificá-lo como um direito à insubmissão e, no limite, assumir a postura aristotélica de oposição à aceitação passiva da realidade, que conduz à desobediência civil, no que será porventura uma interpretação “alargada” e criativa do texto fundamental. Na verdade, o Artigo em questão não é mais que a consagração da atitude de um cidadão livre. Poderá ser ainda mais, uma assumpção do paradoxo: a lei manda, por vezes, desobedecer à lei (ou à ordem ilegítima). Se a defesa acérrima da Constituição for eventualmente interpretada como um acto revolucionário, então a  referência ao artigo passa a ser a primeira como atitude, ou mesmo a primeira das atitudes. Vamos tomar uma atitude? Poderá ser esse o sentido que se deve dar às manifestações de júbilo sobre os cinquenta anos? Não é certamente suficientemente mobilizadora a defesa abstracta de um qualquer diploma, mesmo sabendo que a Constituição da República não é um diploma qualquer. Então sim, a “descoberta” de um vigésimo primeiro que transmite confiança, a “potência de agir” de que falava Espinosa, ou mesmo o direito à desobediência civil, pode ser o móbil urgente e necessário. 

 

26 março 2026

         A PROPÓSITO DE IMAGENS (?)

 

Se há imagens que valem por não sei quantas palavras, outras há que se perdem, por gastas ou uso indevido. Há imagens boas e agradáveis, outras há de medo, que ferem a nossa tranquilidade. Há imagens de desespero, de guerras (santas ou não), que cortam a alma pelo horror e devastação que transportam. 

A imagem tem o poder de parecer mais “directa” que a palavra, quando na verdade é igualmente manipulável, muitas vezes em grau infinitamente superior. A imagem não é um espelho neutro do real. É sempre um recorte, um enquadramento, uma escolha. No contexto de guerras, agressões e crises, as imagens são produzidas, seleccionadas, difundidas ou censuradas com o objectivo claro de construir uma versão do acontecimento que sirva um determinado poder. A imagem funciona, tal como a palavra, através de um particular eufemismo: apresentar uma realidade violenta de modo a torná-la aceitável, se possível, banal. A imagem como ausência cumpre um papel fundamental na realidade actual, não a mostrar é uma escolha política. Não mostrar, por exemplo, os rostos das vítimas da fome causada por sanções, é uma forma de apagar o seu sofrimento.

 

O filósofo e historiador da arte francês Georges Didi-Huberman, professor na École des Hautes Études en Sciences Sociales em Paris é um estudioso da imagem e da teoria da arte e estética, analisando como as imagens produzem conhecimento, memória e reflexão política. Os seus trabalhos sobre a imagem em situações-limite, como o caso dos campos de concentração, conduzem-nos a territórios de resistência e confirmam as suas teses sobre a ocultação que o Poder pratica, muitas vezes de forma perfeitamente intencional. O que hoje vemos, todos os dias, nas rádios, televisões e jornais, controlados pelo poder do ocidente é sobretudo a intenção declarada de não mostrar uma realidade que lhe é perfeitamente hostil. A narrativa israelita e norte-americana sobre o que designam de “conflito no Médio Oriente” sustenta e é sustentada por imagens falsas ou arquitectadas de forma artificial, através de animações e gráficos para produzir  e simulações digitais “perfeitas” e “limpas”, uma estética que “higieniza” a violência. Assim se produz a guerra videojogo, em que o espectador é colocado na posição de quem observa de longe, como num centro de comando. E quando a imagem isola o gesto do seu contexto histórico e político, oferecendo uma leitura imediata, emocional, está criado o ambiente propício ao oposto da verdade. Mas é também o que não se vê. Tal como havia acontecido antes e acontece ainda, em Gaza, no Líbano ou na Síria, o acto deliberado de agressão ao Irão para matar não só líderes e dirigentes, mas também crianças, é paradigmático quanto à questão essencial: porque é que certas imagens não nos chegam?

 

Um dos lugares-comuns mais perigosos é a ideia de que “a imagem não mente”. Na verdade, a imagem mente constantemente, não porque seja falsa no sentido da montagem grosseira, mas porque a sua verdade é sempre enquadrada e o enquadramento é uma forma de discurso. Pode dizer-se até que a imagem pode mentir, com todos os meios técnicos que tem à sua disposição, tornando-se facilmente um documento manipulável, com a ajuda da inteligência artificial e da disseminação rápida nas redes sociais, constituindo assim uma nova camada de manipulação. A forma mais usual e a mais fácil, diga-se a propósito, a mais eficaz é, por exemplo, mostrar uma explosão, esconder o que a causou, ou mostrar um rosto em sofrimento, escondendo o motivo que o faz sofrer e quem é o responsável pelo sofrimento. Acrescente-se a figura execrável do ogre norte-americano, os seus gestos e expressões deploráveis, num cenário previamente estudado para transmitir força, determinação e até “honra”: a imagem resultante é a de um ser estranho que resiste à análise crítica, porque opera no registo da emoção primária.

 

A imagem continua, apesar de tudo, a desempenhar um papel primordial, no presente e no passado, dela vão “falando” a fotografia e o cinema. Estamos a pensar em profissionais da imagem, fotógrafos de guerra que se recusaram a mostrar apenas o “lado limpo” do conflito, ou em cineastas que deram voz e rosto aos que o sistema tenta tornar invisíveis. A imagem mostra a face de quem sofre a fome, a criança debaixo dos escombros, o olhar de quem perdeu tudo, devolvendo  humanidade ao que a propaganda desumanizou. Convém não esquecer que muitas das imagens que hoje nos permitem perceber a verdade de conflitos passados foram inicialmente censuradas ou ignoradas. Por isso e pela defesa da memória, a importância da construção um arquivo de “contra-imagens” é um acto político de grande significado. Na sua obra de 1977 “Sobre a Fotografia”, a ensaísta, cineasta e activista norte-americana Susan Sontag, analisou como as imagens moldam a percepção da realidade. Nesse livro, disse, “Ninguém que tenha visto fotografias de campos de concentração pode dizer que não sabia”. É o olhar crítico como exercício de prática social, na verdade, não basta ver, é preciso aprender a ver: ver e não esquecer, mas também não anestesiar.

 

A verdadeira questão da imagem parece residir na forma como se interpreta. A imagem é sempre uma arma, se a queremos “bem perfeita e oleada”, como a cantiga, na sublime interpretação do Zé Mário Branco, haverá que a preservar dos olhares obscenos e das versões mal-amanhadas daqueles que hoje dedicam um papel especial ao mal e à exploração.

A imagem da servidão permanente conduz hoje países e povos à ruína intelectual, produzindo monstros de trazer por casa, temo-los aos montes no nosso País e povoam os corredores da Assembleia e do Governo. Terão consciência da triste e miserável imagem que fazem e como nos envergonham? Citar-lhes os nomes seria decerto despiciendo. Contudo, a sua verrinosa influência, é um dado que não podemos descartar. Questão de imagem será decerto, bem a propósito.

19 março 2026

A PROPÓSITO DE PALAVRAS (?)

 

Evoquemos Barthes para recordar que as representações não seguem, como a ciência, um caminho rápido e directo, mas antes estarão “...estagnadas no erro pelo poder, pela grande imprensa e pelos valores da ordem”. Esta afirmação peremptória, que data de 1957, é para o Autor o espelho de uma das nossas principais servidões. É também o mito, como ferramenta ideológica que, levada ao delírio supremo, daria por exemplo, o sujeito da casa tida como “branca”, a afirmar que seria uma "grande honra tomar ou libertar Cuba”. Na prática, tal significa transformar um acto de arrogância imperial num gesto de nobreza, "naturalizando" o absurdo.


As palavras têm o significado que lhes é conferido, quer pelo contexto, quer pela posição social que decorre da sua utilização. Um exemplo que nos deveria preocupar hoje em dia é seguramente o que nos é legado pelo filólogo judeu alemão Victor Klemperer, num estudo seminal sobre como a linguagem nazi penetrou no quotidiano e o corrompeu por dentro. Na sua obra de 1947, “LTI-A Linguagem do Terceiro Reich”, Klemperer mostra como o nazismo moldou a mente alemã através da língua, possivelmente, um aviso do que acontece quando não se resiste à "questão das palavras". São imensos os casos que hoje constatamos de "veneno" doseado para alterar o pensamento e a cultura, assumido, como no caso da deputada municipal de Lisboa que pediu "uma cultura de direita" para a Capital.

Chomsky diria, a propósito da manipulação da opinião pública, que a linguagem poderá ser uma ferramenta de fabrico de consentimento. A deturpação activa da linguagem serve bem todas as narrativas do poder absoluto. O que está em causa não é um mero erro, mas uma estratégia. Como se chama o extermínio sistemático da população civil de Gaza? A palavra é genocídio. Mas o seu uso é evitado, substituído por uma névoa de termos técnicos e frios, do qual este é a suprema ironia: "conflito entre Israel e a Palestina". Nos casos da Venezuela e do Irão, onde se verificaram actos de invasão e agressão violentos, foram e são utilizadas palavras especiais que constam da linguagem da medicina ao serviço da guerra: “extracção” do Presidente Maduro e acção "cirúrgica" contra o Irão. Tal como o primeiro rouba a acção e a violência do acto, o segundo serve para anestesiar a consciência de quem a lê. Em ambos, o branqueamento da violência do Império, chefiado por criaturas cujas atitudes parecem desafiar os limites da nossa compreensão moral. Os casos particulares do norte-americano e do israelita representam um desafio para o dicionário se bem que a classificação de “ogre” lhes assente bem, na sua perspectiva não-imaginária de brutalidade e desumanidade. 


Ao escolher Cuba, o ogre agressor norte-americano não elegeu um alvo aleatório, mas sim um símbolo, sinónimo de revolução, de resistência anti-imperialista, de dignidade. Escolhendo o símbolo histórico da resistência à sua própria hegemonia, está a praticar um acto de profanação simbólica, como se quisesse, finalmente, "possuir" aquilo que sempre lhe escapou. A ideia pérfida de “governar Cuba” poderia ser “simplesmente” o descaramento como estratégia, mas vai mais longe, enquanto "excentricidade", assumindo claramente a expressão de um desejo criminoso que, repetido, se instala no imaginário, contendo um valor sinistro: a normalização do absurdo. Nesta vertente, ninguém melhor que Orwell para interpretar a monstruosidade evidente, a corrupção da linguagem pelo poder para tornar o absurdo plausível e a crueldade aceitável. Na sua obra “1984”, a "Novilíngua" não é uma ficção distópica, é o manual de instruções, com o objectivo de estreitar o horizonte do pensamento ao reduzir o número de palavras disponíveis. Quando aquele ser abjecto fala em "governar" Cuba com "honra", está a aplicar o princípio da novilíngua: anula-se a soberania (palavra incómoda) e substitui-se por um termo que soa a dever moral. Mais, usar a palavra "governar", é o mesmo que tentar apagar por completo a existência de Cuba como nação. Não se trata de invadir, ocupar, interferir ou impor sanções. Trata-se de "governar", como se Cuba fosse um território vazio à espera de um administrador, um condomínio ou, mais precisamente, uma plantação. A palavra transporta consigo o imaginário colonial do fardo do homem branco, a ideia de que aqueles povos precisam de ser tutelados.


Que sentido têm as palavras, não só na semântica, como ainda na prática da fala e da escrita? Assumo que escrever ou dizer a palavra certa é um acto de resistência semântica. É recusar-se a participar no jogo de linguagem do poder. É devolver ao horror o seu nome próprio.


A busca pela palavra exacta pode levar-nos para além do adjectivo simples, a uma justaposição, a imagens como "arquitectos do sofrimento", "mercadores da crueldade", ou "vendedores de ódio", procurando configurar uma linguagem quiçá metafórica, capaz de agarrar a realidade que tenta descrever. Todavia, hoje não se trata apenas de encontrar as palavras certas para descrever a realidade, mas também de denunciar a origem das palavras erradas. Trata-se de mostrar como a linguagem é uma ferramenta geopolítica e de como os seres abjectos usam eufemismos para justificar as suas políticas. Afinal, a questão não é apenas de palavras. A verdadeira questão é de poder, de ética e de humanidade. As palavras são o campo de batalha onde essas questões se travam. A missão de quem escreve, é a de um arqueólogo da linguagem: escavar por baixo dos escombros dos eufemismos e das mentiras institucionais para encontrar as palavras que dizem a verdade, por mais dura que ela seja. 

Este é hoje um acto de resistência e, acima de tudo, um acto de clareza.

 

 

 

 

09 março 2026

VAI MARCELO E VEM/BEM SEGURO

 

 

Por entre fotos e nomes

Os olhos cheios de cores

O peito cheio de amores vãos

Eu vou

Por que não, por que não...

Alegria, Alegria”, Caetano Veloso (1967)

 

 

 

 

Entre o provável colapso emocional e o lapso temporal da cerimónia ocasional, circula por toda a parte o cortejo interminável da parcimónia palavrosa e doutoral do cardápio político, sempre com a nação em fundo e em formato musical da incontornável banda da GNR.  País profundo enfiado em são bento, em tempos sequestrado pela populaça, alguém vociferava no dia de uma mais que provável ocupação. Alguém se havia de lembrar, enfim.

O Homem sai de cena e deixa um rasto de saudade e alívio. A saudade, lindo termo portuga, muito lusa e difusa, convive (ao que parece) bem com o alívio de quem sempre teme o pior, mesmo que algo melhor lhe seja apresentado na bandeja flutuante do património lusitano, o temível, mas bem-amado fado do “tem-que-ser”, ou “tem-de-ser”.

 

A janela fechou-se e a porta abre-se ora suavemente sobre a colina que se desenha à frente do nariz. Obstaculizado com tanto solilóquio, o Homem desconfia da sorte e mete-se no carro sozinho para ir às compras da semana, hoje é segunda-feira e há que alimentar a alma do corpo que transpira. Não há chama que resista a tanta pompa, mesmo na circunstância em que o vácuo imenso da fala do chefe-de-cerimónia se confunde com o espaço desocupado, num momento de hiato profundo e deletério. 

Há contudo que saber manter a calma necessária quando parece suficiente manter a distância diluente entre o nada e o vazio. As palavras são invariavelmente as mesmas, os abraços confundem-se com a torpeza, quando raia no horizonte partidário a surpresa dura e crua do habitual. Senta e levanta, passa, em figura de cadeiras, da direita para a esquerda ou tanto faz, a mulher do regedor está sempre lá, são claramente coisas do arco da velha , “boa, boa brincadeira/uns na guerra, outros na feira...”[1].

 

Abundam os salamaleques do chefe da banda , já sem o casaco na lapela, despede-se do primeiro, que venha o outro, já que até é seguro e é hora de comer qualquer coisinha, que isto dos copos de água não aquece a alma, até porque o que é servido frio se parece com a vingança impulsiva de estar parado e finge que está em movimento...

 



[1] Recordação do tema “A Mulher do Regedor”, do albúm “Coisas do Arco da Velha”, Banda do Casaco (1976)

08 março 2026

 UM DIA, ELA, NO PAÍS SEM AMOS

 


Há um gigante na serra!

É um gigante tamanho

Qu’a gente sente o gigante

Mas não lhe vê tamanho

A noite rimada”, José de Almada Negreiros (1922)

 

 

Entre o aplauso e a indignação, entre a conversa e o protesto, fica decerto e acima de tudo, a condição. De ser mulher, de ser quem arrasta um passado de luta, um presente cheio de dúvidas e um futuro quase sempre sem futuro. É a trabalhadora, a constante “dona-de-casa”, epíteto enganoso e cruel, de quem não é dona de coisa nenhuma. A não ser da sua condição, que repetidamente é objecto de estudo, académico e social e, na maior parte das vezes, postula o que conhecemos, apesar de representar a maioria, continua privada de direitos que são de todos.  Afinal, como os trabalhadores em geral, a maioria da sociedade que deveria usufruir do Poder e continua manietada e explorada, sempre a questão da condição.

 

Se pensarmos, com o Sérgio, “que força é essa?”, um grito no meio do nada, uma borboleta que “pousa agora, ...na pena deste poeta” e voamos com ela (a borboleta) até aquela outra, na voz da Ana Capicua, que diz assim: “Vi-te a trabalhar o dia inteiro/ A limpar a cidade dos homens/ Por amor ou por pouco dinheiro...”. E daí, vem-nos sempre à lembrança a Luísa a subir a calçada de Carriche e ao chegar a casa: “...lavou a loiça,/ varreu a escada;/ deu jeito à casa/ desarranjada;/ coseu a roupa/ já remendada;/ despiu-se à pressa,/ desinteressada;/ caiu na cama/ de uma assentada;/ chegou o homem,/ viu-a deitada;/ serviu-se dela,/ não deu por nada...”. Ainda que todas as possíveis caricaturas possam ter algum significado, não deixa de ser estranho que a condição se mantenha, na sociedade do desperdício que apenas valoriza o lucro, a propaganda e todos os amos. Opressão e pressão social, de mãos dadas com todos os panegíricos mais ou menos espalhafatosos, alguns de duvidosa reputação, contribuem para que tudo fique como sempre foi, a tradição burguesa assim o “determina”. Enquanto o vento sopra lá fora e às vezes dentro de casas desabrigadas, ouvimos e lemos e não podemos ignorar as notícias de um oriente tão distante quanto próximo, de centenas de meninas assassinadas pelo Império, num acto de guerra infame. Isto depois de sabermos como o estado terrorista de Israel se ocupa em matar mulheres e crianças, no que é hoje o extermínio ao telejornal, que alguns teimam em não querer ver.

 

Mulher, camarada e amiga, amante e companheira, este dia é para ti mais um, naquela que deve ser a Luta comum. Nada (ou muito pouco) mudou, desde que Rosa Luxemburgo falava, em 1904, da “...senhora burguesa entediada, cansada de seu papel de boneca ou de cozinheira do marido, corre, caprichosa, para todos os lados, em busca do espectáculo que preencha o vazio de sua vida e de sua mente.” Hoje em dia, como no tempo do fascismo, temos exemplares pífios dessas “senhoras”. Decerto lembramos a Supico Pinto do Movimento Nacional Feminino e a sua equivalente Jonet, que ostenta uma forma de vida à custa da miséria e do desespero dos outros, curtindo uma falsa imagem de solidariedade, na caridadezinha salazarista e bafienta e que tem um “banco”, que, como todos os bancos representa a miséria triste do capitalismo. Mulher trabalhadora, a luta é também contra estas excrescências untuosas da burguesia, nada como falar límpido e claro. 

 

Ela e tu também, no País Sem Amos. Dela diria Ary, evocando Catarina Eufémia, “Da palavra saudade, a mais bonita/a mais prenha de pranto, a mais novelo/da língua portuguesa fiz a fita/encarnada que ponho no cabelo”. Hoje, é mais um dia...

03 março 2026

O “ABRANHOS” DA POLÍTICA EXTERNA

 

O original era “conde”. Para o Eça, claro, que nele simbolizava um homem sem brio, um burocrata da diplomacia, um oportunista, ignorante e hipócrita, alguém que troca a dignidade do cargo por migalhas de protecção estrangeira, revelando uma falta de "ideias claras" sobre a nação. Em resumo, um "triste farçola" da política internacional. Diagnosticando o “problema” do coitado, parece sofrer da maleita do macaquinho repetidor, que vê o “gigante” trumpista e imediatamente trepa para cima dele, não para ver mais longe, mas para ficar mais quente. Senta-se no ombro do outro e grita aos que ficaram na planície: “Vede como sou grande, como estou perto do sol!”. E esquece-se, o pobre diabo, que ali está apenas como um animal de estimação, um bichinho exótico que o gigante atura enquanto lhe faz cócegas. Não é um aliado, é um pug de salão, um cãozinho de colo da política internacional. E o pior, o mais triste, o mais profundamente “sem brio”, é que ele parece genuinamente feliz a abanar o rabo.

 

Na verdade, a figura de Rangel não é um vilão digno de ódio, mas um triste boneco digno de sarcasmo, que encarna o provincianismo na era global: a mesma falta de grandeza que outrora nos fazia importar ideias e modas, agora faz-nos importar políticas e lealdades, sem qualquer escrutínio ou dignidade. Um ser que trocou a espinha dorsal por um lugar à sombra do poder alheio, um homem que confunde servir com ser servido pela “protecção” alheia. É a representação plena de um servilismo por amor à arte.

 

Apetece, porém, perguntar: Rangel é desmiolado, incapaz ou mesmo estúpido? De todo, nós é que somos. Assim ele o afirma, “...as pessoas não entenderam nada da minha posição”. O ajudante, o servo fiel, o canino de salão, pequeno e achatado (o “pug”), julga-se político, mas é apenas uma falha ética, uma "miséria moral". Se o Antero fosse vivo, designaria o sujeito como um "vendido", um filisteu da pior espécie, que troca a Verdade e a Justiça, pela conveniência, um "escravo voluntário" que envergonha a "dignidade da consciência" e a memória dos que lutaram pela autonomia da pátria. Enfim, um provinciano sem grandeza, acocorado perante o poder do dia.

 

Quando ele se vira para o PS e diz que o “este assunto não deve ser partidarizado”, que raio é que ele pensa que é um Partido Político? Na má consciência e na ignorância boçal reside a antítese do serviço público que, provavelmente, nem sabe o que significa. É a “personificação da decadência”, de que falava Oliveira Martins, um outro Homem da I República. Nele veria certamente um sintoma da "Europa enferma" que se submete, um homem que, ao invés de ser um Cidadão, é um mero "vassalo" dos tempos modernos, vergando a espinha perante o poder americano, traindo o "génio lusitano" que outrora se lançara ao mar sem pedir licença a ninguém.