25 julho 2021

 ASSIM MORRE UM POUCO DE ABRIL...

 


 


























OTELO SARAIVA DE CARVALHO

 

Otelo partiu hoje.

Atrás dele está toda a preparação e execução do 25 de Abril. 

Com ele, estão aqueles que acreditaram sempre que era possível derrubar a ditadura fascista. Dele irão guardar a memória do golpe militar que se transformou numa revolução popular, pela liberdade, pelos direitos e pela transformação social.

 

Dele falou a Isabel do Carmo, com aquela autoridade que lhe reconhecemos, dizendo sobre a parte dita não-consensual do Homem de Abril, que nada é, na realidade, consensual, a começar pelo próprio 25 de Abril, com a imagem tão simples, que ele não é de todos, não é o Natal.

Sobre ele opinou, com alguma emoção, o Sousa e Castro, com o à-vontade de quem o prendeu naquele dia triste de Novembro 75, “...estou psicologicamente preparado para ver e ouvir os pulhas que, vivendo em liberdade, vão cuspir de forma grosseira no prato de quem tudo fez e arriscou para lhes dar a liberdade, a liberdade até de serem pulhas...”.

 

Otelo partiu.

Deixa um rasto de saudade, assim o disseram hoje homens e mulheres do meu País, que não esquecem a Revolução, por mais voltas que ela tenha dado, a maioria das quais, a desmerecerem-na. E que também lembram ainda os tempos em que a liberdade estava coarctada e o fascismo encarcerava, torturava e matava indiscriminadamente. 

Dele foi dito que era generoso e afável, até na altura em que foi preso, dizendo sempre que “estava bem”. 

 

Otelo partiu, mas é, sem sombra de dúvida, um HERÓI NACIONAL.

Que os pulhas se alimentem e, como chacais, que façam o seu papel, acicatando as consciências frágeis. Afinal, continuarão a existir e a cumprir o desígnio de encantar, elaborando fábulas sobre um destino que nada nos diz.

A melhor forma de lembrar Otelo, será hoje, defender os que a sociedade rejeita, com falas mansas, luvas e colarinhos brancos. Será, por exemplo, ocupar uma casa devoluta, para alojar um sem-abrigo ou uma família. Será defender sempre os trabalhadores, que tudo produzem e com pouco ficam. Será lutar pela integração, pela diferença, pela verdadeira igualdade.

 

LEMBRAR OTELO, SERÁ LEMBRAR SEMPRE O 25 DE ABRIL DE 1974!

 


19 julho 2021

ESBURACA TOUPEIRA

 

A toupeira saiu à rua num dia assim-assim, deu logo, à esquina do buraco, com merda de cão. E disse (sim, porque a toupeira diz), que merda! 

Óbvio, pois não podia ser de outra maneira. Mas por que raio havia de me calhar isto? Parvo será o dono, que não o cão, que naturalmente caga em tudo quanto é sítio. 

Eu esburaco, sim senhor e lá vou descobrindo alguma coisa. Para além da merda de cão, digo eu. Pois sim, a jogar com as palavras, disso a toupeira não sabe, não tem estudos, não encontra decerto a melhor forma de dizer as coisas.  Mas esburaca, sim senhor. 

Perdi o número de vezes que, ao esburacar, vem logo alguém tapar o buraco. Não sei porquê, mas acredito que há sempre algo a esconder, a tapar ou coisa assim. Toupeira sim, estúpida não, se assim fora, o Zeca não teria dito que queria ser como eu, que bem lembro aquele natal em 72, quando o disco dele saiu e haveria de provocar mais ondas de choque que qualquer buraco que eu possa fazer, mesmo com a ajuda de muitas colegas minhas.

Quem mais esburaca, mais merda encontra, podem crer. 

A melhor forma de tal não acontecer é seguramente deixar de escavar. Mas há tanta coisa que deveríamos descobrir e não conseguimos porque há sempre alguém a tentar desfazer o que, com alguma coragem e sacrifício, vamos fazendo, precisamente quando esburacamos, como a toupeira.

Sejamos então toupeiras, digo eu.

 

 


27 junho 2021

 VÍCIO INERENTE 

 

Com este magnífico título, o realizador norte-americano Paul Thomas Anderson, realizou,  quando tinha apenas 44 anos, um filme[i] que é especial, na exacta medida do misto entre a ironia e o ridículo. Atente-se na cena de “reposição” da "Santa Ceia" transformada em pizzada, o suficiente para desconverter o discurso do mítico sonho americano.

 

Há de facto vícios inerentes. Vícios que são privados, outros que foram há muito “nacionalizados” e assim se tornaram públicos. Tal como as possíveis virtudes, inerentes aos privados (vícios) que ora (não) abundam e deixam os seus mentores desapossados. A bem dizer.

 

Vem a rábula cinematográfica a propósito do discurso pífio da neutralidade. É, como todos os vícios, inerente ao estado de alma dos dirigentes que, a propósito de qualquer coisa que possa mexer em altos interesses, ou em discutíveis opções que os possam ferir, decidem ser “neutros”. Aos factos, respondem invariavelmente da forma mais mesquinha, ficando quietos e mudos, numa pertença posição, que de neutra apenas tem a hipócrita face do ilusório.

Do ministro Augusto não se pode esperar nada que não seja a cartilha gasta e putrefacta da mediocridade. Às utopias, diz nada, aos direitos quase nada, que não seja a linguagem politicamente condicionada pelos altos ditames de uma coisa que nem sequer existe, como o é, por exemplo, a “amizade” de amigos mal-recomendados.

De um governo que ocupa, a presidência da “coisa”, deveria esperar-se uma tomada de posição, ou, no mínimo, um alinhamento com a moção que condenava a mais descarada homofobia. Pois não. A invocação da neutralidade, em matéria de Direitos Humanos é a maior vergonha a que o País foi sujeito e demonstra, para além do evidente erro de palmatória, uma falta de nível tremenda, dando de barato ao infractor uma vantagem inequívoca.

Colaboracionismo. Esta é mesmo a única interpretação e classificação possíveis. Uma mancha indelével, para quem tem nas palavras e nos actos, a demonstração evidente do alinhamento mais descarado. 

 

Nada poderá “salvar” a indigência. Não se pode ser neutro, em matéria de Direitos Humanos. Nem o uso eventual de uma pesada droga, poderá justificar tamanho disparate institucional. Uma qualquer ilusão de querer “ficar bem”, cai na terra pantanosa da indiferença generalizada, a que mereciam ser “condenados”. Quem não sabe semear o pão, não merece comê-lo, diz a sabedoria popular, que é tudo menos neutra.

 

Quem está do lado “neutro”, está objectivamente do mesmo lado dos que tentam subjugar os outros, pelas ilusões de domínio e do poder fátuo da repressão. Está claramente a colaborar, no dito caso que é muito concreto, com a arbitrariedade e a repressão, está a colaborar na mais nefasta campanha pela Liberdade da pessoa humana, os seus gostos e a sua orientação, moral, social e sexual. Quem quer ser neutro, em matéria de Direitos Humanos, está a mostrar verdadeira face, abjecta sempre, do colaboracionista.

 

Na outra fita[ii], o herdeiro do trono austro-húngaro dedica-se à libertinagem e ao deboche, um sinal que lhe é “transmitido” e, de certa forma, permitido. Aqui não há liberdade, apenas a demonstração cabal do poder dos ricos e poderosos.

 

No filme de Anderson, o intérprete está sempre limitado, pela dificuldade constante de compreender o global, um vício”, “inerente” à sua própria condição. Na cena do ministro Augusto, o que torna o “vício inerente” não é decerto a incapacidade de ler e fazer melhor. É apenas e só a manifestação da falta de vontade política de lutar pelos direitos e pelas causas. Por defeito crónico de não querer assumir uma identidade própria. São pessoas meias-tintas, os ditos nem-nem, os que melhor atestam a sociedade do consumo imediato e de certa forma, de uma pobreza de espírito, que jamais os alcandorará a um lugar na História, pelo nítido desprezo a que devem ser votados.  

São a escala mínima do ser humano. 

 


[i] Vício Inerente” (2014), argumento e direcção de Paul Thomas Anderson, com Joaquin Phoenix, Josh Brolin, Jena Malone, Katherine Waterston, Owen Wilson, Benício del Toro, Maya Rudolph, Sean Penn, Reese Witherspoon e Martin Short

[ii] Vícios Privados, Públicas Virtudes (1976), direcção de Miklos Jancso, com Lajos Balazsovits, Pamela Villoresi, Franco Branciaroli, Teresa Ann Savoy, Laura Betti, Ivica Pajer.

 

 


20 junho 2021

 GEOGRAFIA DO SILÊNCIO


 

















Sabe-se que há silêncios mais eloquentes que palavras.

Guarda-se silêncio, por isto ou por aquilo, por vezes nem sequer sabemos porque o fazemos, tamanho é o espanto perante o que se passa à nossa volta, estranha realidade que se quer imiscuir no nosso quotidiano e nos perturba o dia a dia.

Direito a um silêncio que reputamos imprescindível, perante a vozearia que perpassa por todo o lado, num crescendo de tal forma violento, que parece querer destruir o pouco que ainda temos, de algum recato a que temos direito.

Pensamos aí, se ainda nos resta algum direito, que se pode resumir em simplesmente não querer mais. O direito de não querer saber. De não querer saber dos desastres, das tricas e das disputas, das hipotéticas desavenças, dos ditos “factos”, arquitectados em gabinetes de fala-baratos e profetas da desgraça.   

Se vantagens houve no mediatismo social das últimas décadas, eis que ora escapam por entre os dedos e confundem-se com a mexeriquice das tias das várias linhas, em mapas desenhados com mesquinhice e cretinice. 

Ouvem-se a eles próprios, convencidos que representam alguém, como se houvesse alguéns que queiram ser representados. Aliás, a suposta representação escapa e estingue-se, no momento preciso em que abrem a boca e vomitam estupidez, em forma de informação. Alguns até piscam o olho, num assomo supremo, misto de ignorância e ignomínia. Que lhes valha a tela que têm pela frente e os protege da ira popular, se ela existe e tem força, ainda que contida. 

 

Daí que o silêncio pode construir uma geografia eloquente, perante tanta falta de sabedoria. Assim, talvez venha a obter um estatuto, capaz de ombrear com tanta pequenez, moral e intelectual. Valha-nos a razão de não querer, assista-nos o direito de não alinhar. Haverá algures um mapa, ao qual a geografia presta contas, ainda que seja desenhado com uma qualquer geometria variável, onde caiba, pelo menos, a diversidade que nos querem subtrair, sob a forma recente da auto-proclamada “resiliência”. 

Iremos por aí, encontrando esta e aquele, tu e mais alguém que resista, recordando os tempos de uma noite triste, onde apenas havia escuro e perfídia. E, como o Poeta nos ensinou, “...há sempre alguém que diz não”, recusando em definitivo, toda e qualquer servidão. 

 

Apenas murmúrios, vindos de outras terras, relatam dores e prantos, por vezes invisíveis aos ouvidos. Respostas não existem, apenas um perplexo estado de mutismo, quiçá insensibilidade, perigo constante que espreita as sociedades que fazem do lucro e do consumo, o supremo estado de alma. 

Deixem vir até nós as vozes de quem tem algo para dizer, talvez um “...desafio pairando sobre o rio”. Talvez uma miragem...

 


26 maio 2021

 UM POTE COM MAIS OU MENOS “MEL”


 









A imagem do cartaz, profusamente instalado no País, cai, como sopa no MEL, no regaço das direitas. Ora refastelados em poltronas, ora da janela de uma penthouse, na administração de uma grande empresa, num banco, ou simplesmente gozando uma reforma de mais de 20 mil euro, com muita grana ou muito MEL, eis os novos senhores que, conforme os ventos e as tempestades, vão ditando a sua lei, construindo a falácia mais bem tecida, ou apenas gozando com a pobreza.

 

Por vezes elevam a voz, num clamor constante. Contra o Estado, contra o que chamam a subsidiodependência, contra tudo que cheire a protecção de quem trabalha. Muitas vezes contra a Vida e contra o ser humano, que apelidam de “bandido”, apenas porque a cor da pele é diferente da sua. Outras vezes, limitam-se a querer “exterminar” outras vozes diferentes da sua. Tantas vezes, insultam a nossa inteligência, com uma demagogia barata, proferida com a voz doce da arrogância, ou com a alarvidade da sua manifesta intolerância.

 

Todavia, procuremos concentrar-nos no que propõem. O que terão afinal para oferecer às pessoas, à sociedade em que estão inseridos e onde gozam de liberdade bastante, embora pareçam querê-la só para si e para o gozo de certos direitos. Há um pormenor que não devemos esquecer: entendem pelos vistos, no que reporta a direitos, que têm o “sagrado” dever, que alguém lhes terá outorgado, de definir o chamado “interesse nacional”, numa pátria de que se julgam donos, até da consciência colectiva. O que têm então para oferecer? Pensamos e vemos, trazemos de um passado recente, mas também de um outro passado, exemplos suficientemente elucidativos. Daquele tempo em que eram uma única voz, uma “união nacional”, que encarcerava, torturava e matava, em nome da nação, apenas e só por isso. Exterminava, é bem verdade. Não esquecemos. Mas há um outro tempo, aquele em que entregaram o País à fúria exterminadora do capital, vendendo património a preço da uva mijona, subtraindo aos mais carenciados até aquela fatia de rendimento mais pequena que dava para sobreviver, mandando os jovens para fora do País, privatizando tudo o que mexia, em nome de eficiência e da eficácia de uma gestão ruinosa, que apenas determinava que “vivíamos acima das possibilidades”, uma vez mais a tal voz única, que sentenciava não haver alternativa. Não esquecemos também.

 

Elas e eles têm nomes e nós conhecemos os seus rostos e o seu pensamento. Muito embora alguns se tenham possivelmente travestido de democratas, comentadores ou dirigentes, empregadores e beneméritos, pagadores de promessas e vendedores de sonhos, o certo é que acabam todos no mesmo pote. Que às vezes tem MEL.

 

Olhando o mundo pela perspectiva destas senhoras e senhores, a coisa é muito simples: afirmam-se “...contra os partidos que se inspiram em Estaline e Mao, são eles que suportam o partido que está no poder”, assim mesmo o disse o anfitrião da tal agremiação que dá nome “cândido” de IL e que ostenta cartazes como aquele, que apenas servem para enganar e deturpar a mais simples das verdades da própria realidade capitalista, “menos impostos, melhores salários”. Acontece que esta premissa parece apenas ser válida para os donos daquele hipermercado que paga os impostos na Holanda. Abençoado “socialismo” que tal coisa permite...

 

Alguém falou em uma “lua de MEL para unir os partidos e relançar a direita”. Precisam para tal, de um “dote”, ou de um “pote”?


29 abril 2021

15 ANOS DA ENGENHO & OBRA

 









Há precisamente 15 anos, a 29 de Abril 2006, haveria de nascer uma nova organização, vocacionada para as questões do Desenvolvimento e da Cooperação, a nível nacional e internacional.

O Cartório Notarial de São João da Madeira seria o escolhido, para a Escritura Pública de constituição da ENGENHO & OBRA.

Foi um Sábado de sol, recordo bem esse dia, em que passamos umas boas 4 horas, fechados no Cartório, o acto assim o determinava, dado que, para além de umas três dezenas de Associados individuais, estavam também várias Entidades, públicas e privadas, às quais era exigida a apresentação de documentação comprovativa, inerente a estas situações.

Era manhã bem cedo, quando fomos buscar o Victor[i], a sua casa. Recordo a quantidade de dossiers que transportava, era ele o digníssimo representante da primeira das Entidades Fundadoras, aquela que foi (e ainda é) a Sede Nacional da Associação, a nossa Casa: o ISEP.

Em São João da Madeira acabaram por confluir pessoas e organizações, um pouco de todo o País, de Viana do Castelo a Setúbal, passando por Braga, Vila Nova de Famalicão, Barcelos, Porto, Aveiro, Coimbra e Lisboa, para a Fundação da E&O, que se pretendia uma entidade com abrangência nacional. 

Embora não tivesse sido possível juntar toda a gente num almoço, algumas das pessoas tinham que regressar a suas terras, conseguimos efectuar um simpático convívio, após o final do acto notarial.

 

Hoje, 15 anos depois, é justo que se assinale o 29 de Abril do ano 2006.

Porque muito trabalho aconteceu nestes anos, muitos foram os cidadãos que contribuíram para que a E&O fosse reconhecida, a nível nacional, mas também a nível internacional, com particular destaque para todos os países de língua oficial portuguesa, em 

África e no Sudoeste Asiático, fruto de muitas vontades, de voluntariado activo e da solidariedade internacionalista. Um empenhamento que contribuiu decisivamente para a concepção, execução e disseminação de actividades e projectos, cujo objectivo central sempre foi, segundo a Missão da Associação, o de contribuir para a autonomia das populações, uma das formas de melhorar a sua qualidade de vida. 

 

Alguém um dia contará as estórias desta Associação, porque vale a pena dar a conhecer o que se fez, por onde se andou trilhando caminhos quiçá pouco conhecidos, atravessando rios com um caudal imenso de Conhecimento, tentando integrar saberes, gostos, gestos, lamentos e sorrisos, dos povos com quem sempre procuramos aprender e ainda hoje lembramos, com muito respeito e profunda admiração.

Lembramos hoje aqui, os Amigos que nos deixaram, que tanto nos deram e tanta falta nos fazem, a Olímpia Soutinho, na sua postura simpática e altamente profissional, o José Augusto Rocha e Silva, um engenheiro sábio e preocupado, o Raimundo Delgado, um professor e mestre da simplicidade e da grandeza.

E prestamos homenagem a todos os que, em Portugal, Angola, Cabo-Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe e Timor-Leste, connosco trabalharam e nos honraram com a sua sabedoria, cumplicidade e muita Amizade. As ONG de Desenvolvimento, que são conhecidas como ONGD, constituem uma parte determinante da Cidadania, nas suas vertentes de multiculturalidade e da prossecução de objectivos internacionais comummente aceites, em defesa das populações mais fragilizadas e marginalizadas.

 

Um viva muito especial à E&O, de quem tem esta organização sempre no coração e na memória das coisas boas da Vida!

      



[i] Eng. Victor Santos, Presidente do ISEP, Instituto Superior de Engenharia do Porto


25 abril 2021

 






Era um dia escuro e húmido. Arrancado da cama (uma estória já contada...), com a Revolução na rua, pensei de imediato no golpe das Caldas, apenas um mês antes. Havia qualquer coisa no ar, o que não havia era certeza alguma. Esperávamos somente que o fascismo caísse, força da nossa luta, força da enorme pressão social dos últimos 4 ou 5 anos, uma insustentável situação, de que as conversas em família do marcelo, eram o sinal de fragilidade aterradora de um regime podre, que vinha de tantos anos de terror, pobreza e miséria, aqui e nas colónias. Uma guerra que seria o meu destino “natural”, para onde iria seguramente, uma vez perdido o direito ao adiamento, circunstância que levaria a equacionar, no início desse ano, o abandono do País. Não sabíamos, portanto, não havia respostas. Saímos para a rua, esperando que esta nos desse algumas, que as possíveis movimentações populares nos conseguissem explicar o que se estava a passar. Não ouvíamos logo a rádio, apesar de bem me lembrar (depois) de ter ouvido, religiosamente como sempre, o “Limite”, do Leite de Vasconcelos, na Renascença, onde passaria o “Grândola”, pouco depois da meia-noite. Contudo, nunca me passaria pela cabeça, estar a ouvir a segunda senha do 25 de Abril, praticamente meia-hora depois da primeira (que não ouvi), nos Emissores Associados de Lisboa, justamente o “E Depois do Adeus”. A rua, entretanto, não nos dava respostas, a não ser uma série de informações contraditórias, que a coisa poderia dar para o nosso lado, mas também para um outro lado negro, o dos fundamentalistas do regime. Foram os Amigos, os colegas mais velhos da faculdade, para onde seguimos, já no final da manhã, a ajudar, com aquela cumplicidade anti-fascista, a que nos situássemos, há sempre alguém que consegue ter alguma informação que nos anime, um que tinha ouvido o 1º Comunicado do MFA, pelas 4 da manhã, “Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas, nas quais de devem conservar com a máxima calma...”. Soubemos depois, ao contrário do apelo, do imenso levantamento popular, na Cidade, que bem nos mostram hoje os arquivos da memória, de que relevo hoje, o nosso grande Capitão Salgueiro Maia (com quem haveria de privar, 1 ano depois, na minha tropa, na Escola Prática de Cavalaria) a dar voz de prisão aos ministros que acabariam de fugir, borrados de medo, do Terreiro do Paço, ou a exigir a rendição incondicional do chefe do governo, no Quartel do Carmo.

 

Nós que vínhamos de Coimbra em 69, conhecíamos bem a rua, não tínhamos medo de nada, mesmo com medo de quase tudo. Vimos e participámos da Luta:

Eu vi este povo a lutar

Para a sua exploração acabar

Sete rios de multidão

Que levaram a história na mão...”

A recordação desse dia, leva-me à Praça da República e aos Aliados, já durante a tarde e ao episódio da troca de tiros, com a PSP, os resquícios da repressão, a marca do regime, já agonizante. Ouvimos agora a rádio, era a voz da Luísa Basto, alto aí, a cena parece ser outra, aquela voz é das nossas, ajuda a dissipar as dúvidas. Cerramos fileiras, gritamos bem alto, era a luta de tantos anos e tantas vidas, a exigir a Liberdade, o fim da PIDE, a libertação dos presos políticos, era o prenúncio da Liberdade a sério, era o erguer do punho cerrado, contra a exploração e a opressão.

Recordo então o Zeca, percebo agora a senha:

Grândola, vila morena

Terra da fraternidade

O povo é quem mais ordena

Dentro de ti, oh cidade...”

 

Era uma 5ªfeira, o sol tardava a aparecer, num dia tão belo, faltava a sua luz, a sua cor. Mas sobrava a força para ajudar a queda de um regime, que nos havia roubado a juventude, mas nunca a esperança, nunca o sorriso da Vida, era o cravo do “Portugal Ressuscitado”:

Depois da fome, da guerra

Da prisão e da tortura

Vi abrir-se a minha terra

Como um cravo de ternura...”

 

São hoje 47 anos do Abril 74, curiosa imagem, hoje possível, porque fomos capazes de consolidar uma nova República, apesar de todos os todos, apesar da imperfeição, apesar da flor murcha, substituída pelo cravo e papel, ou pelo cravo digital, impensável à época. Apesar da perda progressiva da soberania, em flagrante desrespeito pela Constituição, a República celebra a Liberdade, ocupa e desce a Avenida, trazendo a Luta para fora de portas, fazendo greve por direitos, levantado a voz contra injustiças. Pesem embora todos os contratempos e arbitrariedades, há sempre quem esteja disposto a dar a cara e ir à luta e que não tenha medo, o medo que “eles” querem que tenhamos.

Havia quem dissesse, ao tempo: 

“...não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.”

Que o queriam “cego e mudo”, hoje bem mais brando, apenas “calado e consensual”.

Mas como afinal: 

Foi então que Abril abriu

as portas da claridade

e a nossa gente invadiu

a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra 

na madrugada serena 

um poeta que cantava 

o povo é quem mais ordena...

(...)

Agora que já floriu 

a esperança na nossa terra 

as portas que Abril abriu 

nunca mais ninguém as cerra.”

 

Havemos sempre de encontrar, em qualquer cidade, uma qualquer parede branca, para escrever, com vontade e com garra:

 

25 SEMPRE, A LUTA CONTINUA!

 

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Citações dos autores, pela ordem em que entram: José Mário Branco, José Carlos Ary dos Santos, Fernando Tordo, Jorge de Sena e Sérgio Godinho


23 abril 2021

DIA MUNDIAL DO LIVRO E DOS DIREITOS DE AUTOR


 

















Neste dia, 23 de Abril celebra-se o LIVRO.

A imagem do livro é para mim, como para tanta gente da minha geração, o símbolo máximo do Conhecimento e da Liberdade.

Com ele convivemos e a ele lhe continuamos a dedicar grande parte da nossa vida, o nosso companheiro, sabemos-lhe o sabor e o cheiro, o significado que tem, sempre e em cada momento.

Kafka, dele diria, “...deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós.”

 

Neste dia, que serve para realçar o VALOR de um livro e possivelmente a mensagem que lhe está (sempre) subjacente, deixo a foto de capa de um dos livros que marcou a minha formação social e política.

É uma edição de 1974, impresso na Tipografia Central da Borralha, em Águeda, a edição nº 157, datada do mês de Abril. Dele deixo uma pequena nota da contra-capa: “Trata-se de uma antologia, organizada por ERNEST MANDEL, sobre Conselhos Operários, Autogestão, Contrôle Operário, nas diversas fases da ascensão do proletariado em face da empresa. O autor expõe, de forma bastante clara, as transformações operadas na sociedade até aos nossos dias”.

Do Autor, que recordo com saudade, porque o conheci e com ele me lembro de conversar, nos anos da Revolução, quero registar que nos deixou no ano de 1995, com 72 anos, tendo-nos legado várias obras, das quais destaco o “Tratado de Economia Marxista” (1962), que nós apelidávamos ternuramente apenas de “Traité”.

 

A outra obra que também quero hoje recordar e que foi talvez a primeira leitura importante, em matéria de filosofia política: “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” do Engels, um livro inesquecível, por tudo e mais alguma coisa e também porque foi um dos livros que me “desapareceu”, na voragem daqueles tempos...

 

O LIVRO NÃO É UM OBJECTO QUALQUER, ELE FAZ PARTE INTEGRANTE DE NÓS E DAQUILO QUE SOMOS!


21 abril 2021

 O VELÓRIO DA CULTURA

 












Vale a pena morrer, para haver velório?

Claro que nele cabe, segundo a tradição africana, uma grande festa, com comes e bebes, canto e dança, batuque à farta, que o morto merece e os que ficam lhe prestam a homenagem que se calhar nunca teve em vida, que cheia deve ter sido, uma festa que só agora tem e não pode ver. Mas podemos nós, que lembramos e assim lhe tributamos, em honras e memórias, a vida que também partilhamos. 

Há até quem acredite que neste século vai ser possível digitalizar a informação do defunto e usá-la para recriar a sua consciência. Talvez da Cultura fique esta “deliciosa” reminiscência, do que era, do que foi e de como a poderemos recriar.

Queremos recriá-la?

Podemos recriá-la?

 

Oh, velório, que mostras o defunto e dizes “E se tivéssemos ficado sem...?”.

Que bem se comportam as pessoas no velório, em princípio não lhes sai da boca impropério algum, (por bem que apetecesse).

Apenas estão velando o “corpo das artes”, assim exposto à comiseração.

Mal vai um País que deixa assim morrer o que de melhor tem para dar e assim morrendo, já dar não pode.

Quase agora me lembro de um ex-presidente de Câmara que, quando lhe falavam em Cultura, mexia no bolso, a ver se aparecia algum tostão. Gozava estaria, ou estava mesmo, agora já é presidente de um grande partido, as coisas são assim, não há que ter vergonha, embora fosse de haver. Mas não há.

Agora velamos. 

Quedamos em saber o que vem por aí.

 

Entretanto, sem qualquer augúrio, ao velar a Cultura, podemos estar a velar um País.

Cidadão atento!

(roubo sempre esta asserção a um velho Amigo...)


10 abril 2021

A “MANSIDÃO” E A INCOMPETÊNCIA




 












É sempre bom “repousar” um pouco sobre um anúncio como o do dia de ontem. Na torrente de ditos e escritos, alguns que pretendem ser informação, ficam a perder para a imensa enxurrada de palpites, nas ditas redes sociais, de costumeira mediania. Ao pretender saber quem esteve bem, ou mal, encalhamos quase sempre na opinião encartada de quem pensa ser pensamento, embora possa eventualmente não passar de uma simples eructação.

 

O homem que um dia não quis ser “manso”, vociferando, ainda que de forma sibilina que isso “é a tua tia, pá...”, não pode, ou melhor não deve, cantar a tal vitória que ensaia, ainda que o faça denunciando (e bem) alguns pasquins e similares de TV, que aproveitaram para cavalgar, em tempo, uma duvidosa onda moralista e justicialista. Porque nada poderá apagar a realidade que para si próprio construiu, desprezando a inteligência alheia e brincando com uma trapalhada, visceralmente repelente. 

 

Mas, o que salta à vista, depois daquele arrasador discurso de um juiz que tentou quiçá emendar a mão de outros magistrados, que, diga-se de passagem, muito mal ficam no processo, é a tremenda falta de qualidade de um ministério, que, por ser público, deveria ter mais competência. Nem será preciso lembrar a quantidade imensa de “factos” que deveriam envergonhar quem os protagonizou, não fora a habitual complacência com os portugas, serenos e pacientes (uma versão possivelmente aproximada), brindam normalmente casos do género: gritando e berrando de fúria e esquecendo logo uns dias depois, caindo porventura na quietude cinzenta, característica primeira (tem que se dizer, com toda a frontalidade) da ferrugenta e cabisbaixa vulgaridade pequeno-burguesa. Apetece citar o O´Neill, “Oh Portugal... surdo e miudinho...”.

 

Ele há (diz-se) o vai e o vem. E, ainda, que “...enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”. Estamos em Portugal e a esperança apenas existe para meia-dúzia (vá lá, algumas dúzias) de encantados. É pena, porque somos, assim à primeira vista, bem mais que “...o sal, o sol, o sul / o ladino pardal, / o manso boi coloquial, / a rechinante sardinha, / a desancada varina...”. Vejam, lá está o “manso”, embora aqui, o tranquilo e coloquial boi e não um qualquer arrivista, ainda que diplomado, encartado e sobejamente “apoiado”. Logo, há que esperar, talvez mais uns anos, pelo “vem”.

 

Rejeitamos, claro que sim, todo e qualquer “julgamento popular”. Pensamos é se o Poeta tinha motivo, para nos deixar este soberbo pensamento, “Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo, /golpe até ao osso, fome sem entretém, / perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes, / rocim engraxado, / feira cabisbaixa, /meu remorso, / meu remorso de todos nós”.

De todos nós.

 

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Nota: os excertos são retirados (roubados) do poema “Portugal” (1965), da obra “Feira Cabisbaixa”, publicado em “Poesias Completas”, Alexandre O´Neill, pág. 211


02 abril 2021

 45º ANIVERSÁRIO DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA



 

Esta é uma das minhas relíquias. 

Um exemplar da Constituição da República de 1976, comprada na UNICEPE - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, CRLa Cooperativa Livreira, da Cidade do Porto, fundada a 19 de Novembro 1963, de eu faço parte, desde os tempos de estudante.

 

Num momento particularmente sensível, em que se invoca (mal ou bem...) a Constituição, não faria mal a quem a tenta (mesmo que disfarçadamente) delapidar, lembrar o primeiro artigo:

Artigo 1.º - República Portuguesa

PORTUGAL É UMA REPÚBLICA SOBERANA, BASEADA NA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E NA VONTADE POPULAR E EMPENHADA NA CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE LIVRE, JUSTA E SOLIDÁRIA.

Esta asserção diz quase tudo e faz todo o sentido recordar, para que nunca fique esquecida, nas variadas turbulências que o País atravessa. 

Fica a Lei Fundamental que, apesar dos vários “ataques”, continua a ser a primeira referência da República. 


29 março 2021

 O “APOIO” AOS APOIOS

 














A posição do Governo do Partido Socialista relativamente ao diploma aprovado pelo Parlamento sobre reforço de apoios sociais, foi, em primeira instância, dizer que se tratava 

de “uma violação ostensiva da lei-travão inscrita na Constituição, desvirtuando o Orçamento em vigor”. Estávamos a 26 Março.

 

Hoje, 29 de Março, sabemos que o PR promulgou o decreto que prevê as alterações introduzidas pelos partidos da oposição, a três decretos-lei do Governo relativos a apoios sociais, respeitantes à economia, saúde e educação.

O primeiro diploma alarga o universo e o âmbito dos apoios sociais previstos para trabalhadores independentes, gerentes e empresários em nome individual. O segundo, aumenta os apoios para os pais em teletrabalho. O terceiro, estende o âmbito das medidas excepcionais aos profissionais de saúde, no âmbito da pandemia e também à recuperação dos cuidados primários e hospitalares não relacionados com covid-19.

Particularmente, no que diz respeito ao diploma que reporta aos apoios económicos, o Parlamento alterou o decreto-lei do Governo n.º 6-E/2021, que estabelece mecanismos de apoio no âmbito do estado de emergência, alargando o universo de beneficiários das medidas, que já incluía no decreto do Governo, os trabalhadores independentes, gerentes e empresários em nome individual.

 

Não é com qualquer agrado que se regista aqui a lamentável posição do Governo e, pelo que se sabe, do único Partido que o apoia. Lembramos os tempos de chumbo da troika, em que o Partido Socialista, juntamente com a Esquerda, protestava contra a dureza das medidas impostas e dos cortes infames que a Direita, unida aos grandes interesses financeiros, fez à grande maioria dos apoios sociais, deixando muitos portugueses na pobreza e na miséria, naquele que foi o maior e mais vil ataque a um País, submetido à ocupação estrangeira. Este Partido, agora no Governo e sem qualquer apoio significativo que não seja o de um grupo parlamentar minoritário, não honra o seu passado, nem merece o apoio de quem nele votou, que esperaria uma governação que defendesse os interesses dos mais desfavorecidos e que precisam, agora mais que nunca, da sua atenção. Nem merece mais o apoio da Esquerda, condenando-se assim ao fracasso das suas políticas e ao repúdio dos cidadãos que nele confiavam.

Este Governo não cuida dos seus, enquanto que se revela uma vez mais brando e complacente com aqueles que atacam o Estado.

 

Quanto à Direita, registe-se aqui simplesmente, a hipocrisia. 

Os mesmos que tentaram (e quase conseguiram) vender o País ao desbarato, desprezando os que que tinham dificuldades, culpando-os de viverem acima das suas possibilidades, autorizando e participando em autênticas fraudes e negócios fraudulentos, vêm agora, de forma absolutamente demagógica, juntar-se à corrente, apenas com o tacticismo próprio dos oportunistas, que nada têm para propor, a não ser as mesmas receitas de austeridade de sempre e a mesma política de subordinação que deu as provas que bem conhecemos.

 


21 março 2021

DIA MUNDIAL DA POESIA

(aqui, para trazer um Amigo que está sempre perto...)

 

 

 

 
















CANTIGA À RALIDADE

 

S’a ralidade não me chatiar

Não vou eu chatiar a ralidade

Porém, essa megera sem idade

Não tem tempo e fronteiras, não tem lar.

 

Não tem respeito, sempre a dar a dar,

Remexe-me no peito, busca o qu’há-de

Servir-lhe de pretexto pra provar

Que continua a mesma ralidade.

 

eu, que tenho mais o que fazer,

Dormir, dormir, morrer, talvez sonhar

- Ou contra o cruel fado a ‘spada erguer.

 

Mas esta dor no peito, a falta de ar,

Esta barba há três dias por fazer

Já ‘stão à minha espreita ao despertar

 

Manuel Resende, “Poesia Reunida”, Ed. Cotovia (2018),  p.127

 


19 março 2021

 ANTÓNIO SOARES FERREIRA (14 Fev 1916 – 22 Dez 1997)


 

 























O meu Pai.

Esta foto data de 1949, era eu um recém-nascido, ele tinha apenas 33 anos.

Um engenheiro dos antigos, aliás, um agente técnico de electrotecnia e máquinas, como ele gostava de se afirmar, formado no antigo Instituto Industrial do Porto (hoje ISEP).

Cedo afirmou a sua verdadeira vocação, era um artista da manufactura, trabalhava muito bem a madeira, o ferro e outros metais, tinha uma parafernália de ferramentas e uma autêntica oficina, na nossa casa de Ponte do Bico, onde se dedicava, nas horas vagas, a fabricar objectos variados, a que todos nós dávamos uso. Lembro que fabricava rede (de arame), tendo inventado uma máquina para tal, que muitos visitaram. A rede era necessária para a quinta, uma pequena, mas altamente produtiva área, onde havia de tudo um pouco, graças à sua diligência e empenho.

Nunca o consegui acompanhar nessa empresa, dada a minha manifesta falta de jeito. Mas sempre prestei atenção aos objectos, conservo ainda alguma coisa, do muito que se perdeu, quando a casa foi vendida. 

Um engenheiro inovador, particularmente na vertente da luminotecnia, lembro aqui o sistema de luzes que propôs e executou, por exemplo, na igreja dos Congregados e na casa do Nogueira da Silva, na cidade de Braga.

Era também um professor exemplar, os seus alunos da Escola Técnica Carlos Amarante, lembram ainda hoje o seu talento para ensinar, deve ter feito certamente alguma escola, nas vertentes da electricidade, mecânica e desenho técnico. 

Tenho muita pena que tenha abandonado a sua arte, aquando da reforma, nunca mais foi a mesma pessoa, parecendo faltar-lhe o convívio dos seus alunos e dos seus muitos clientes. 

Uma figura, sem qualquer dúvida da Braga antiga, católica e devota, sempre seguiu as pisadas da igreja católica, pertenceu a uma agremiação que penso se chamava “congregação de leigos”, havia uma palestras no Sameiro e uns almoços a que ele me levava quando andava no liceu e que abandonei, quando entrei na faculdade, em Coimbra, no glorioso (para mim, não para ele...) ano de 1969.

Divergíamos em quase tudo, bem que tentou afastar-me das “leituras perigosas” em que me meti, Hélder Câmara, Teilhard de Chardin, Simone Beauvoir, Sartre e claro, Engels e Marx, que ele considerava “decididamente errados”.  Todavia, nada disso impediu uma educação séria, honesta e digna, que sempre procurei seguir.

Hoje, tantos anos após a sua morte, acho que morreu muito cedo, mas conheceu dois netos, que também o recordam e que o adoravam.

Uma saudade imensa do Homem, do Pai, que foi António Soares Ferreira, nome que muito prezava e que sempre disse que os dois apelidos deveriam ser um só, separados por um hífen, uma confusa explicação, que tinha a ver com os nomes materno e paterno.

Por isso, em sua memória, adpotei a ideia e, desde há muito que a uso, apesar de não estar exarada no meu registo: Alfredo Soares-Ferreira


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