Evoquemos Barthes para recordar que as representações não seguem, como a ciência, um caminho rápido e directo, mas antes estarão “...estagnadas no erro pelo poder, pela grande imprensa e pelos valores da ordem”. Esta afirmação peremptória, que data de 1957, é para o Autor o espelho de uma das nossas principais servidões. É também o mito, como ferramenta ideológica que, levada ao delírio supremo, daria por exemplo, o sujeito da casa tida como “branca”, a afirmar que seria uma "grande honra tomar ou libertar Cuba”. Na prática, tal significa transformar um acto de arrogância imperial num gesto de nobreza, "naturalizando" o absurdo.
As palavras têm o significado que lhes é conferido, quer pelo contexto, quer pela posição social que decorre da sua utilização. Um exemplo que nos deveria preocupar hoje em dia é seguramente o que nos é legado pelo filólogo judeu alemão Victor Klemperer, num estudo seminal sobre como a linguagem nazi penetrou no quotidiano e o corrompeu por dentro. Na sua obra de 1947, “LTI-A Linguagem do Terceiro Reich”, Klemperer mostra como o nazismo moldou a mente alemã através da língua, possivelmente, um aviso do que acontece quando não se resiste à "questão das palavras". São imensos os casos que hoje constatamos de "veneno" doseado para alterar o pensamento e a cultura, assumido, como no caso da deputada municipal de Lisboa que pediu "uma cultura de direita" para a Capital.
Chomsky diria, a propósito da manipulação da opinião pública, que a linguagem poderá ser uma ferramenta de fabrico de consentimento. A deturpação activa da linguagem serve bem todas as narrativas do poder absoluto. O que está em causa não é um mero erro, mas uma estratégia. Como se chama o extermínio sistemático da população civil de Gaza? A palavra é genocídio. Mas o seu uso é evitado, substituído por uma névoa de termos técnicos e frios, do qual este é a suprema ironia: "conflito entre Israel e a Palestina". Nos casos da Venezuela e do Irão, onde se verificaram actos de invasão e agressão violentos, foram e são utilizadas palavras especiais que constam da linguagem da medicina ao serviço da guerra: “extracção” do Presidente Maduro e acção "cirúrgica" contra o Irão. Tal como o primeiro rouba a acção e a violência do acto, o segundo serve para anestesiar a consciência de quem a lê. Em ambos, o branqueamento da violência do Império, chefiado por criaturas cujas atitudes parecem desafiar os limites da nossa compreensão moral. Os casos particulares do norte-americano e do israelita representam um desafio para o dicionário se bem que a classificação de “ogre” lhes assente bem, na sua perspectiva não-imaginária de brutalidade e desumanidade.
Ao escolher Cuba, o ogre agressor norte-americano não elegeu um alvo aleatório, mas sim um símbolo, sinónimo de revolução, de resistência anti-imperialista, de dignidade. Escolhendo o símbolo histórico da resistência à sua própria hegemonia, está a praticar um acto de profanação simbólica, como se quisesse, finalmente, "possuir" aquilo que sempre lhe escapou. A ideia pérfida de “governar Cuba” poderia ser “simplesmente” o descaramento como estratégia, mas vai mais longe, enquanto "excentricidade", assumindo claramente a expressão de um desejo criminoso que, repetido, se instala no imaginário, contendo um valor sinistro: a normalização do absurdo. Nesta vertente, ninguém melhor que Orwell para interpretar a monstruosidade evidente, a corrupção da linguagem pelo poder para tornar o absurdo plausível e a crueldade aceitável. Na sua obra “1984”, a "Novilíngua" não é uma ficção distópica, é o manual de instruções, com o objectivo de estreitar o horizonte do pensamento ao reduzir o número de palavras disponíveis. Quando aquele ser abjecto fala em "governar" Cuba com "honra", está a aplicar o princípio da novilíngua: anula-se a soberania (palavra incómoda) e substitui-se por um termo que soa a dever moral. Mais, usar a palavra "governar", é o mesmo que tentar apagar por completo a existência de Cuba como nação. Não se trata de invadir, ocupar, interferir ou impor sanções. Trata-se de "governar", como se Cuba fosse um território vazio à espera de um administrador, um condomínio ou, mais precisamente, uma plantação. A palavra transporta consigo o imaginário colonial do fardo do homem branco, a ideia de que aqueles povos precisam de ser tutelados.
Que sentido têm as palavras, não só na semântica, como ainda na prática da fala e da escrita? Assumo que escrever ou dizer a palavra certa é um acto de resistência semântica. É recusar-se a participar no jogo de linguagem do poder. É devolver ao horror o seu nome próprio.
A busca pela palavra exacta pode levar-nos para além do adjectivo simples, a uma justaposição, a imagens como "arquitectos do sofrimento", "mercadores da crueldade", ou "vendedores de ódio", procurando configurar uma linguagem quiçá metafórica, capaz de agarrar a realidade que tenta descrever. Todavia, hoje não se trata apenas de encontrar as palavras certas para descrever a realidade, mas também de denunciar a origem das palavras erradas. Trata-se de mostrar como a linguagem é uma ferramenta geopolítica e de como os seres abjectos usam eufemismos para justificar as suas políticas. Afinal, a questão não é apenas de palavras. A verdadeira questão é de poder, de ética e de humanidade. As palavras são o campo de batalha onde essas questões se travam. A missão de quem escreve, é a de um arqueólogo da linguagem: escavar por baixo dos escombros dos eufemismos e das mentiras institucionais para encontrar as palavras que dizem a verdade, por mais dura que ela seja.
Este é hoje um acto de resistência e, acima de tudo, um acto de clareza.


