17 agosto 2018

ESCREVER NA (ou da) ÁGUA








Caravelas, caravelas/
mortas sob as estrelas/
como candeias sem luz...”
João Gil/Luís Represas, “Xácara das Bruxas Dançando”, 1984




Por estes dias visitamos os sítios que nos lembram, reproduzem e vivem na e com a água. E na água encontramos matéria suficiente para pensar, reflectir e perorar sobre a vida que nos cerca, nesta época parva, a que alguns chamam sealy season. Num ápice metemos o pé na água (bolas, está gelada), a temperatura sempre a subir, como aquela música maluca do concerto do Rivoli (quem se lembra?), ouvem-se balelas e trapalhadas, daquelas espécies autóctones que pululam nas redacções a zelar pela (in)tranquilidade da pátria. Pudera ser peixe e morder o isco saboroso da mesquinhez, e estaria a milhas, sem nada para fazer e com um livro interessante na mochila. E à noite, passear em Amarante e curtir o jazz do Hudson[1] 

(Assim como)
Deixei de ler os pasquins da parvónia, ocupados com as frivolidades do costume. Para ser franco, emocionei-me mais com a morte da Madalena Iglésias do que com as asneiras que verteram tanta tinta sobre o envenenamento do Skripal [2]  que, juntas à atitude subserviente dos governos “ocidentais”, fizeram as delícias das mentes normais.

(Falemos de rendas)
Não sei, não. Porque afinal é um assunto tão tabu quanto a virgindade da senhora de Fátima (ou de outra qualquer). Acaba de ser penalizado em mais uns trocos no final do mês, na conta da luz, ou da água, ou seja lá do que for, porque há uns quantos senhores (e senhoras) que têm que manter os lucros das empresas privadas que “investem”, mas que, caso tenham prejuízos, é o Estado que os cobre. E assim vamos alegremente vivendo, com auto-estradas por tudo quanto é sítio e que vazias de nada, esvaziam os bolsos de nós todos. E com a energia e as telecomunicações mais caras da Europa.
Não sei porque estou a falar de futebol. O campeonato ainda mal começou e a rentrée partidária está a parir as dores do verão, para voltar em breve ao centro das ribaltas e dos palcos, que dizem, são mediáticos. Alguns são talvez, pediátricos.

(Alerta)
O meu psiquiatra proibiu-me de falar sobre os professores. O prestimoso médico disse STOP [3]  e eu fiquei aterrado. Mas creio poder falar de enfermeiros e outras profissões, ao que consta, desprezadas pelo poder, mais atento a outras coisas importantes, como por exemplo, a NATO e a defesa não sei bem de quê. E também o défice, claro. 
E, pelo nosso Porto, aquela figura arrogante que ocupa (ainda) a presidência do burgo, vai-nos deliciando com mais (sempre mais) mentiras e inverdades (aprendi em tempos que não são exactamente a mesma coisa), vomitando vulgaridades sobre tudo e mais alguma coisa, mostrando o que é na realidade a leveza insustentável da estupidez.
(E viva a maconha!)
Assim mesmo, a 20 de Junho passado, o Canadá torna-se o segundo país (depois do Uruguai) a autorizar o uso recreativo da maconha. O projeto-lei de regulamentação, foi aprovado pelo Senado canadense, por 52 votos contra 29. O uso medicinal já estava legislado desde o ano 2001. Espera-se agora que o nosso País acorde mais bem-disposto, pensando que daqui a uns tempos, poderemos curtir a cannabis, como qualquer uruguaio ou canadense.

(Os que partem e deixam muita saudade)
Gente boa que nos deixa, o que nos entristece a alma, porque simplesmente nos fazia falta. As breves referências não esgotam a lista. Ao Amigo João (Semedo), ao Arnaut, ao Manuel Martins, ao Tengarrinha, ao Júlio Pomar, à Guida Maria, uma saudade imensa. E ainda à Dolores O'Riordan, aquela que cantava com a alma na boca. E hoje mesmo, a Aretha Franklin, rainha da soul music e activista dos Direitos Humanos.

(As pontes do nosso imaginário)
Enquanto cai uma ponte em Génova, ficamos sem saber que segurança temos e para que pagamos tanto dinheiro para ela (a segurança). A ironia suprema, em pleno século XXI.

(Ainda se fazem bons filmes)
A surpresa (ou não) do verão, chama-se “No Coração da Escuridão", o último filme do Paul Schrader, que já nos deu obras-primas imensas, tantas que já lhe perdemos a conta. Absolutamente imperdível, talvez a melhor “coisa” deste verão.

(Água para quem não precisa)
Ou simplesmente uma rasteira. Havia quem quisesse trazer a fascista Le Pen a Lisboa. Apesar de avisado, o nosso Governo portou-se (outra vez) muito mal, ao alinhar pelo famigerado politicamente correcto. Meteu água, mas não se afunda, que a gente não deixa. E continua a meter água em outras coisas, reformas, carreiras. Mas disso, eu não posso falar agora. 

(Enquanto as bruxas dançam...)
E nós vemos e (pelos vistos) gostamos.
O pintor de Olhão cobraria 130 reis, há precisamente 165 anos, para “Renovar o céu, arranjar as estrelas e lavar a lua” [4]. As coisas agora estão consideravelmente mais caras. Ou melhor, o sistema faz as coisas simples, mais caras, não porque o sejam de facto, mas porque assim tem que ser, para que ele sobreviva. Contudo, acham mesmo que vale a pena “renovar o céu”? Já “arranjar as estrelas”, seja uma forma de nos mantermos atentos às galáxias, onde poderemos ter alguma liberdade, mesmo com a Lua suja da poeira que o planeta Terra produz. É uma questão que não se define, provavelmente. 
A Clarice Lispector escreveu um dia, “Liberdade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome”.
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[1]  Grupo Hudson: Jack DeJohnette, John Scofield, John Medeski e Scott Colley
[2] Sergei Skripal, ex-espião russo
[3] Duas significâncias para este termo: (1) interjeição que significa “Exclamação usada para ordenar a paragem”, segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa; (2) iniciais de “Sindicato de Todos os Professores”, criado aqui há uns dias atrás
[4] Parte de uma factura de um santeiro de Olhão, chamado Joaquim Manuel Alfarrobinha, apresentada em 1853 por um conserto nas capelas do Bom Jesus de Braga, hoje arquivada na Confraria do Bom Jesus do Monte, naquela cidade, in: http://www.olhaocubista.pt/Humor/factura_santeiro.htm




24 julho 2018

ADORMECENDO DEVAGAR E ACUMULANDO O ERRO


Sucedem-se posições, mais ou menos públicas, sobre a questão das reivindicações dos professores do Ensino Básico e Secundário, com a costumeira caterva de declarações, vindas dos mais diversos quadrantes, praticando sempre o erro de análise e, na maior parte das situações, distorcendo a realidade, por deficiência ou simples ausência de dados para produzir um comentário correcto. 
Claro que é perfeitamente irrelevante, para esta polémica, a análise da progressão na carreira e das formas que ela pode (deve ou dia) configurar. É uma situação profissional típica de um sector, para o qual foram, em tempo, definidas regras específicas e determinadas. Que são diferentes, por exemplo, dos colegas do Ensino Superior, também com regras definidas e reconfiguradas posteriormente no tempo. Discutir isto, ou seja, analisar cada uma das situações, de cada um dos sectores, requer um conhecimento profundo das carreiras e dos mecanismos de progressão, naturalmente associado aos mecanismos de avaliação (a cada um deles) previstos, acordados ou não entre as organizações sindicais e o/s governo/s. E, finalmente, ao conhecimento da Leis de Bases do Sistema Educativo e das suas sucessivas alterações. Provavelmente haverá uma meia dúzia de pessoas no País, especialistas com conhecimento suficiente e actualizado, para poderem manifestar-se sobre a matéria (ou, as matérias). Uma parte restrita, na qual me incluo, possuiu alguma informação específica, que pode passar, por exemplo, sobre a natureza jurídico-legal da definição das carreiras, pela informação técnica sobre mecanismos de avaliação, pelo exercício concreto da profissão (pelo menos) nos dois sectores, ou num deles. Uma outra parte, reside nos profissionais no activo, quer no sector da Educação, que no sector do Ensino Superior; esta parte, possuiu alto nível de informação sobre o seu sector, sobre as dificuldades ou facilidades em exercer o cargo, sobre o sentido da sua própria carreira. Finalmente, a maioria da população desconhece quase completamente o que se passa, num ou no outro sector, e opina pela voz indirecta dos comentadores que abundam na chamada comunicação social e que raramente se dá ao trabalho de ler, ouvir e interpretar o que está em causa. Desconhecem os verdadeiros contornos das situações que reporto, preocupando-se em posicionar-se conforme os ventos, a saber de onde sopram, que quase sempre é do mesmo lado. Mas sempre e de uma forma definitiva, contra os profissionais, que durante anos e anos constroem a sua carreira, sendo recompensados com salários pouco dignificantes, mas sempre e mais, com exigências de cariz administrativo das tutelas e, ao que parece, com pouco respeito pelos 2 sectores porventura mais importantes para um país, a Educação e o Ensino Superior, uma vez que determinam (ou deviam determinar) a excelência e o orgulho de uma comunidade.

Um outro sinal que sempre é dado nestes momentos é o do ataque cerrado às organizações sindicais, equiparadas por vezes a autênticos “sindicatos do crime”, chefiados por “execráveis comunistas”, filiados ou não, sinistras figuras de um palco, ocupado ao que consta por profissionais da agitação permanente e que não trabalham há não sei quantos anos. Até parece que, em certa medida (esta precisamente) voltamos quarenta e tal anos atrás e estaríamos a ouvir um qualquer zeloso salazarista ou marcelista.
Para cúmulo e esta será talvez a mais grave das situações de exercício de análise, é ver professores contra professores, atirando à cara uns dos outros, “a nossa carreira é que é avaliada como deve ser...”, ou “...vocês não querem é ser avaliados”, configurando uma forma enviesada e distorcida de estar, um pouco estranha a quem é professor, educador ou investigador.  Aqui, há infelizmente exemplos variados, que vão desde a Escola, à Universidade, passando por muitos responsáveis (...) que ocupam cargos na administração central e local, secretarias de estado e Ministério.
O que fica (quase sempre) no meio desta confusão, e que não acontece por acaso, apenas sendo uma forma estranha de fazer política, é o que falta analisar e discutir. O investimento na Educação e no Ensino Superior vale ou não a pena? Quanto custa e quanto rende ao nosso País? Divulgar as situações de excelência nos dois sectores e saber que a valorização das pessoas (normalmente designadas de “recursos humanos”) é (devia ser) a primeira das apostas de um Estado. E já agora, um Estado que defenda os seus trabalhadores, aquelas e aqueles que, por exemplo, são obrigados a gozar férias apenas num mês durante o ano, sem hipótese de escolha, aquelas e aqueles (no caso concreto dos professores) que educam e formam as novas gerações de cidadãos. Muitos, delas e deles, que têm que estar sempre em forma, atentos e prontos, durante 50 minutos seguidos (pelo menos), disponíveis para as crianças, para os jovens, adolescentes e adultos, para os pais e encarregados de educação e para gerir, quantas e quantas vezes, conflitos inesperados. 
Se os responsáveis de qualquer governo pensassem em tudo o que deviam pensar para dignificar uma “profissão” que é muito mais do que isso, nem hesitariam se fossem colocados num qualquer dilema, “...mas afinal, acabo esta auto-estrada ou atendo aos professores?”, ou “...mas afinal, salvo aquele banco, ou aumento o vencimento...?”
Há momentos em que deve imperar o bom-senso, uma asserção que fica sempre bem, sobretudo na perspectiva da honestidade intelectual. O argumento de que já se fez muito por este ou aquele sector, apenas significa que poderia ter sido feito mais. Apenas isso. Uma vez que se sabe que os ditos constrangimentos orçamentais devem ser o guia orientador, na ideia (errada) de quem, em vez de governar, segue as ordens de um directório que nem sequer “existe”.  

E, voltando ao bom-senso, ainda bem que quem governa neste momento está bem acompanhado (as palavras, como bem se sabe, são de quem as proferiu...). 
É, estou certo disso, um pequeno conforto. Um sinal para (não) adormecer devagar e para tentar não cometer (ou não deixar cometer) sempre o mesmo erro.

01 julho 2018




Quando eu era pequenino
Quando eu era pequenino
Acabado de nascer..”

Acabado de nascer (há pouco mais de 1/2 hora, há “somente”, 44 anos) e já com este aspecto muito prometedor!
Cidadão português, responsável, Professor, Atleta, corredor de fundo, e outras coisas.

Conhecido como João, como Pedro, para mim João Pedro, acima de tudo, Filho muito querido!

Ainda mal abria os olhos
Já era para te ver....”

https://www.youtube.com/watch?v=-4NpA_0JwrM



14 junho 2018

Intervenção: Apresentação da Revista MANIFESTO

Alfredo Soares-Ferreira
13 Junho 2017






Procurarei focar, na minha intervenção, A POLÍTICA DE ALIANÇAS DA ESQUERDA (ou, DAS ESQUERDAS) EM PORTUGAL E A NECESSIDADE DE UMA NOVA LINGUAGEM NO DISCURSO POLÍTICO.

Irei centrar a minha particular atenção, na entrevista de Noam Chomsky, nos artigos de Ricardo Paes Mamede, “Era bom que trocássemos umas idéias sobre o próximo Governo”, de Isabel do Carmo, “Quem é o Povo de que se fala?” e de Nelson Santos, “O caminho até 2015: o Governo de esquerdas em Portugal”. E ainda, na recensão de Henrique Sousa, “A revalorização do político no legado de Gramsci”, com o objectivo de tentar uma abordagem sincrética (ou de fusão) de diferentes contribuições, que possam contribuir para a finalidade em apreço.

Chomsky faz uma análise e, consequentemente também, uma interpretação do modo de funcionamento do capitalismo actual, na sua mais recente ligação ao neoliberalismo, ou, naquilo que poderá ser designado apenas, por uma faceta moderna das teorias liberais do século IXX, com as conhecidas variantes, no decurso do século XX. O autor dos “10 Princípios Básicos de Acumulação de Riqueza e Poder”, que enuncia na sua obra REQUIEM FOR THE AMERICAN DREAM, responde a questões de actualidade política, a partir da análise da situação actual nos EUA e da sua eventual projecção. 
Se temos, como afirma Chomsky, “...o poder para nos movermos, para desmantelar e dissolver os sistemas de controle e dominação...”, não temos instrumentos suficientes para exercer esse mesmo poder. Nem sequer, a consideração de um hipotético controle das redes sociais, é suficiente para inverter a situação. Chomsky parece querer recuperar algumas das teses de Gramsci, vertidas nos célebres “Cadernos Da Prisão”, no que remonta à suposta aceitação de dominação. Recorde-se a propósito, recorrendo inclusivamente ao texto de Henrique Sousa, a “preocupação” do filósofo e dirigente comunista, do designado “consentimento popular institucionalizado”, ao domínio do capital. Talvez se as duras condições inerentes à prisão nos cárceres do fascismo e uma certa obsessão contra aqueles que denunciavam a degenerescência do Estado Soviético, não tenham de certa forma contribuído para a sua complacência com o estalinismo e as suas práticas. De qualquer forma, não deixa de ser curioso, que a designada (por Gramsci) “guerra de posição” na sociedade civil (essa excrescência, que a tenta opor à sociedade política, ou Estado), tenha uma certa incidência na ordem do dia, nalgumas situações concretas, nomeadamente no que reporta ao nosso País.
Poderíamos ainda acrescentar aqui, alguns contributos para a análise e discussão, na esteira da designada “Biopolítica” , vindos por exemplo do filósofo italiano Giorgio Agamben, na linha de Walter Benjamim (da Escola de Frankfurt), que vem construindo uma obra extensa que visa, entre outros aspectos, o conceito de “estado de excepção” e das suas implicações, a nível das liberdades individuais. A propósito, o autor Agamben, tem uma frase demolidora sobre o capitalismo: “O capitalismo é uma religião e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu porque não conhece nem redenção, nem trégua, celebrando o culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objecto é o dinheiro”.

Os analistas Ricardo Paes Mamede (RPM) e Nelson Santos (NS), chamam a atenção para dois aspectos particularmente decisivos, para o futuro das Esquerdas e dos entendimentos a levar a cabo e ainda de possíveis plataformas a desenvolver. Enquanto RPM afirma que o Partido Socialista revela o essencial da sua natureza, quando mostra indisponibilidade em avançar em domínios em que entraria em rota de colisão com poderes instalados, NS interroga-se sobre as prioridades dos agentes políticos, muito concretamente sobre as agendas dos partidos à esquerda do PS.

Lembramos, a propósito de poderes instalados que, apesar de alguns avanços que contrariaram a troika e os seus agentes, nomeadamente na reposição de salários e pensões, continua instalada a submissão á dominação de Bruxelas, quer no aspecto das desastrosas políticas econômicas e sociais, quer ainda à submissão a uma moeda única, que acaba na prática, por condicionar e limitar qualquer tentativa de reestruturação da economia. E esses condicionalismos devem ser analisados e discutidos à Esquerda, mesmo levando em linha de conta, uma definição pontual de política de alianças, no quadro por exemplo, da uma nova composição da futura Assembleia, que saia das próximas eleições legislativas.
E daí a emergência da necessidade de um discurso político diferente. Com uma nova linguagem, que o linguísta Chomsky decerto poderá ser um dos apoiantes. 
Há então que: (1) Desmontar códigos de linguagem da classe dirigente, adquirida, entretanto por alguns sectores da população, graças ao papel cúmplice da chamada “comunicação social” do regime. Trata-se apenas da constatação de uma realidade bem presente, por exemplo, no nosso País, através da sobrevalorização do escândalo, do terror, da intriga e da calúnia, da exploração até ao extremo do fenómeno do futebol, no fundo de uma organização da informação (rádios, jornais e TV), baseada na notícia mesquinha e por vezes, falsa, com critérios editoriais de baixa qualidade e finalmente, (como não podia deixar de ser...) em salários baixos, senão mesmo, miseráveis. Esta asserção (conhecida) de Chomsky, não deixa de ser impressionante, de tão redundante: “A imprensa pode causar mais danos que a bomba atómica. E deixar cicatrizes no cérebro.” (2) Desmontar mitos. Também, por exemplo, sobre a própria interpretação de o que é o Povo, porque a utilizamos de forma por vezes abusiva. Começou por ser aquele que “unido jamais seria vencido”, de que temos ainda memória breve e acaba por ser estigmatizado agora, em fenômenos estranhos de apropriação indevida e com consequências imprevisíveis, a nível europeu e mundial. Destaco aqui, particularmente o artigo da Isabel do Carmo, onde se pode ler esta deliciosa passagem, acerca de alguns daqueles (e daquelas) que falam sobre o povo: “Destacam-se os que têm pena dos pobres em geral e abstracto, mas que são contra o salário mínimo no concreto, em relação ao qual são capazes de discutir cada cêntimo. Estes não hesitam em encher um saco com viveres suficientemente calóricos, para o entregarem à saída do supermercado para feitos do Banco Alimentar”.
Alguns mitos e códigos de linguagem, estereótipos, a descodificar e outros a erradicar: “Impacto orçamental”, “Reformas estruturais”, “Medidas impactantes”, “Ajustamento”, “Coesão”, “Produtividade”, “Desenvolvimento sustentável”. E, naturalmente, estes, que contibuem para a confusão e a mitificação:  “Europa”, “Eurogrupo”, “Euro”.
Para facilitar e sistematizar a minha intervenção, deixo 3 questões que entendo podem ser colocadas, para análise e debate aqui e agora, bem como no seio da Esquerda (ou, se quiserem, das Esquerdas): (1) Está o Partido Socialista a posicionar-se mais próximo dos partidos e organizações à sua Esquerda, nomeadamente PCP, PEV e Bloco? Ou, pelo contrário, continua na prática enfeudado numa social-democracia europeia, fiel a todos os compromissos de um gigantesco bloco central, que em Portugal já não existe? (2) Afinal, somos nacionalistas ou internacionalistas? (3) Que condições importa reunir (partindo do reconhecimento da importância do princípio) para a aquisição de uma nova linguagem no discurso político, oposta à novilíngua da TINA, no Portugal e na Europa, do século XXI? (partindo do pressuposto de que estarão criadas já algumas condições subjectivas...)

Finalmente, aclamo a originalidade na Revista, da alegoria do João Guilhoto, no seu conto “Os homens que caminhavam a dois ritmos”, pode eventualmente apelar para a relatividade do sentido do desenvolvimento e da velocidade do pensamento e do raciocínio. Entre o ficar e o voltar, entre o partir e o chegar, entre o depressa e o devagar, a evocação da música e do silêncio, a saliência na Educação e na Formação, e claro, em Marcel Proust.

Para terminar, devo salientar uma parte do Editorial da Revista, “Com novos problemas e outros desafios, certamente continuamos interessados nos debates plurais à esquerda, nas discussões sobre o seu futuro e o seu papel no contexto português, e nos possíveis processos de convergências entre as diferentes sensibilidades que a constituem, incluindo pessoas e movimentos que não integram nenhuma formação partidária”. 
E talvez seja oportuno, e pode ser este o momento, de seguir a recomendação do Ricardo, que parafraseia o Mário de Carvalho, “Era bom que trocássemos umas idéias sobre o assunto”. Está mesmo na hora de o fazer e de introduzir alguns elementos diferenciadores na discussão pública, e particularmente no seio da Esquerda, onde nos inserimos.
Muito obrigado!


10 junho 2018

ELE E NÓS






















ELE do lado de lá da pantalha. 
NÓS deste lado e atentos.
O Manel e nós, seguramente do mesmo lado, no que toca a sentimentos, emoções e posicionamento social, cultural e político. Sempre assim foi e será. Apenas a distância e o estado de saúde o impediram de estar fisicamente conosco, no dia da apresentação da sua “Poesia Reunida”. Que acabou por reunir tanta gente boa, tanta emoção e também muito carinho. Quando assim é, ganhamos um pouco mais de alento, de força e de coragem. 
Nós, com Ele sempre, éramos (somos?) os trotskistas, a quem chamavam “troskas”, aqueles desalinhados das “pátrias” que não saudávamos. Nem Moscoso, nem Pequim, nem Tirana. Era a IV Internacional, era a contestação firme contra a degenerescência do Estado Soviético, era a contracultura, era a denúncia do reformismo e dos revisionismos, da capitulação a interesses capitalistas, era a defesa dos movimentos internacionais, que representavam a luta dos trabalhadores. Era afinal, a Revolução Permanente.
O “era” poderia hoje ser o “é”, se entendermos os conceitos, os princípios e os ideais, como dialética contínua, na arte, na cultura, na ciência. Na sociedade civil, na política no seu sentido mais elevado. Não adianta, nunca adiantou aliás, andar às voltas a negar a importância da participação cívica e política. Como bem diria Brecht, “...o analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política; não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”. 
Era esta aparente estupidez, agora nacionalizada, que sempre irritava o Manel. E que ele “contornava”, com leveza, com a beleza e a arte, que só alguns são capazes de atingir. Para perceber isto, é preciso, é urgente, ler o Manel, uma das formas de estar com ele e de perceber como a Poesia pode ser a tal arma, que podemos (devemos) arremessar, sem precisar de testes de eficácia que outras necessitam. 
Hoje duvidamos de tudo, porque como bem dizia o Bertolt “De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida”. Apenas nos resta a certeza que estamos deste lado e que a geometria seja somente variável, na medida da reflexão e da consciência crítica.
Deixamos o Manel pensar e agir, escrevendo os poemas que são os nossos, porque é muita (imensa) a cumplicidade mútua. O vão desejo de glória, aquela que se esfuma no inverno da tristeza, acaba por ser a alegria de ver e sentir com o Poeta, rir e chorar ao mesmo tempo, na sede imensa da sabedoria, que entretanto, se vai construindo e renovando. Fazemos de quando em vez, a travessia entre o Piolho e o Latino, perscrutando e os silêncios, no ruído das nossas existências, procurando as praias imensas debaixo das pedras, na boa tradição daquele Maio, que nos seduziu. 

Bem hajas Manel, ESTAMOS (COMO SEMPRE) JUNTOS!




07 junho 2018

UMA ESTRATÉGIA NECESSÁRIA?












Ao propor hoje, na TSF, uma Estratégia Nacional de Luta Contra a Corrupção, João Cravinho tenta mostrar à sociedade civil a enorme importância que o tema encerra, para todos nós. Vai mais longe, o Homem que um belo dia foi afastado de cena, por falar desta forma desassombrada, comparando-a com a Estratégia da Luta Contra os Incêndios.
Quer isto dizer, sem qualquer peias, que Cravinho considera (e bem) a corrupção como uma calamidade pública, digna de um combate sem tréguas. Um combate de todos os dias, que terá de levar em linha de conta uma cuidada pedagogia, com contornos de transparência e dignidade e pincelada, aqui e ali, com um toque de Cidadania. No mínimo.
Perguntemo-nos agora o que pensa o cidadão comum, aquele a quem é dado propositadamente o papel de “julgar”, pelo menos nos casos mais conhecidos. Mas também nos outros, que embora sejam por demais conhecidos, nunca são desmascarados, nem sequer investigados. Ao primeiro impacto, esse honrado cidadão, virá dizer naquela versão de “justiça de táxi”, que não admira, que são todos iguais, então os políticos querem é encher a pança, comer da mesma panela e outras afirmações menos brandas, que não fica bem aqui citar. Pensando bem, e sabendo que na realidade é assim que a coisa funciona, perguntemo-nos agora, a quem serve de facto este circuito estranho, mas real. E a resposta não andará eventualmente muito longe da verdade, se dissermos que beneficia objectivamente aqueles que, activa ou passivamente, corrompem, deixam corromper ou são corrompidos.
Mas, não querendo ficar por perguntas demasiado “simples”, poderemos querer saber também, porque razão a justiça, é cega, talvez por vezes surda e muitas vezes, pura e simplesmente, muda. Um tal grau de deficiência que, à partida, deveria merecer cuidados especiais de tratamento acelerado, no mínimo para, por um lado, prover da saúde do (da?) doente e, por outro lado, para lhe proporcionar uma vida (activa e passiva) com dignidade. No intrincado mundo da doente, parecem passar-se cenas de tal forma estranhas, que por vezes duvidamos que sejam reais. A começar pelos contornos que parecem nortear um “monstro” institucional, que dá pelo pomposo e circunspecto nome de Ministério Público, que (pelos vistos) tem como “norma”, passar informação que não devia para conhecidos pasquins e menos dignos “profissionais” da chamada informação.
E poderíamos, se calhar para nos atormentarmos, ir mais longe, querendo saber como se processa o fenómeno, menos mediático, mas decerto muito eficaz, que consiste em corromper o tecido social, alimentando-o de falsa informação, de casos fabricados, através da prática corrente, que se traduz na influência e no favor. É seguramente uma não-pedagogia, uma prática terrorista, velada e traiçoeira, que tenta (e por vezes consegue mesmo) destruir os laços de solidariedade social mais elementares.
Nunca somos, não temos vocação para tal, juízes em causa própria. Não temos competência para elaborar juízos definitivos. Teremos seguramente sempre dúvidas, metódicas ou não, na exacta medida da nossa condição. Poderemos, em determinadas circunstâncias alimentar um fogo, em vez de simplesmente o extinguir. Poderemos até duvidar do nosso próprio juízo, considerando as rasteiras que a retórica nos passa. Podermos, no limite, assobiar para canto, numa feliz asserção da gíria popular, se tal for conveniente. 
Deveremos aprender. Segundo um princípio seguro, para não cair no mesmo erro. Mas sempre, para poder saber mais. Sabendo mais, poderemos passar a palavra, ajudando outros a compreender a razão porque existe corrupção e entender de alguma forma as intrincadas malhas que tece. Não querendo cair nelas, estaremos decerto a contribuir para que (pelo menos) não se alarguem. 

Não chega, porém. Para ir mais longe é necessário estarmos dispostos a um combate, longo e sem tréguas. Que sabemos bem não se circunscrever à propalada justiça, sempre em estado de doente permanente. Pela “simples” razão de ser uma parte de um sistema injusto e iníquo.


30 maio 2018

OS 50 ANOS DE MAIO


Cultura é regra, arte é excepção”
Jean-Luc Godard













Caminhos estranhos os que percorremos, desde há 50 anos.
Após a revolta de Nanterre, acordamos por assim dizer com a exigência (realista) de exigir o impossível. Mas saberíamos então, na loucura dos nossos 19 anos, que um dia (50 anos depois), estaríamos a lutar pelas mesmas causas? Na altura, descobriríamos praias debaixo das pedras de uma qualquer calçada. Agora, quase que só existem calçadas no interior desertificado, mesmo que lá tivessem feito nascer praias artificiais, onde abunda a superficialidade objectiva de uma plástica que nos parece estranha.
Como poderíamos saber que o Mundo fosse, 50 anos depois, bastante mais perigoso, que o simples caminhar sobre flores, pode significar o rebentamento de uma mina, atentatória à segurança das pessoas? Apostaríamos na aterragem lunar, na contestação à guerra do Vietnam e despertaríamos a nossa (e outras) consciência, contra os costumes de uma burguesia conservadora e hipócrita. Não deixa de ser curioso, ver agora as mesmas restrições ao livre pensamento, a mesma (ou outra) moral caduca e por vezes perversa, penetrar no nosso dia-a-dia, impunemente, contra o avanço civilizacional, contra a liberdade e os direitos humanos, agora com a nova roupagem digital, mas sempre restritiva e castradora. Continuamos em minoria, com uma diferença significativa: antes, estávamos simplesmente a começar.
As perdas e danos, contabilizáveis dos pontos de vista pessoal, social e político, vão-se acumulando, num ritmo louco. Mas, a loucura que era dantes, já não vale agora da mesma forma e não se compadece com o ritmo avassalador, provocado pela “euforia” dos media e pelo “afogamento” das ideologias. Tem dias, na realidade, quando por vezes acordamos com uma vontade indómita de fazer a revolução, partindo tudo, pensando se mais vale seguir Sartre, “...cada homem deve inventar seu caminho”, ou então Lispector,  “...perder-se também é caminho”.
Os desafios da inteligência, que pelos vistos agora é praticamente artificial, serão apelativos, como eram antes? Ou o vazio imenso das propostas para as mudanças sociais, não é senão o resultado de políticas perversas, injustas e socialmente reprováveis?
Desvalorizámos 50 anos de História, esquecemos liminarmente quem nos anda a intimidar, fazendo crer que a política não é senão o arranjo mediático de uma eterna dominação, financeira de preferência? E os muros que derrubamos, ficaram reduzidos àquele que a Leste, acabou por ter efeitos que hoje ainda se sentem? Tanta pergunta sem resposta, ou simplesmente tanta resposta sem nenhuma questão?
Podemos suspeitar agora que as “transformações” se tenham quedado por uma “revolução tecnológica”, que em vez de estar ao serviço de todos, se contentam em prestar vassalagem aos fazedores de fortunas. 
Voltamos (nem que seja, de quando em vez) à rua, agora devidamente alcatroada e pejada de sentidos únicos. Temos que o fazer, em nome da luta contra as injustiças, contra a pobreza e contra a exclusão social. Acontece que agora, 50 anos depois, estamos a níveis abaixo do admissível. No nosso Norte e no mesmo Sul, para onde “quiseram” importar modelos que esgotam os recursos do planeta e onde arde um fogo fátuo de um falso desenvolvimento, portador de destruição ecológica e ambiental e de guerras santas. Esses “profetas modernos”, que usam uma linguagem propositadamente cifrada, não podem esperar senão desprezo da nossa parte. Decerto que, enquanto houver ruas e praças “disponíveis”, a gente vai continuar, “...enquanto houver estrada para andar / enquanto houver ventos e mar / a gente não vai parar...” 
E cantaremos (porque não?) a urgência da “Revolução Permanente”, ainda que não possamos nomeá-la . Mas falaremos dela, mesmo correndo o risco de nos acusarem de romantismo, mais vale esse do que o enorme vazio de ideias (e ideais) da casta putrefacta associada ao pensamento único, aos “empreendedores” e “fazedores”, aos “colaboradores” e “CEOs“, à hiper-vigilância e ao Biga Data. Esta casta está bem identificada, 50 anos depois, nos reformistas e sociais-democratas, nos fazedores de opinião que inundam o pântano imenso da comunicação social do Ocidente. A esses (e essas) evocando o Maio 68, teremos muito gosto “...em lhes mostrar o cu e as boas maneiras, cantando para eles...” .
Provocadores? Sempre e com muito gosto. Rasgamos as gravatas, queimamos os soutiens, se ainda forem símbolos de inconformismo e de insubmissão. Nunca poderão contar connosco para os salamaleques da praxe pequeno-burguesa, nem tão-pouco para os compromissos fúteis da tolerância para com os poderes que se manifestem contra o povo que trabalha e que produz riqueza e a quem é sistematicamente negado o direito a uma vida com dignidade. 
Uma bandeira rubra que desfraldamos em qualquer praça. E apetece citar Nietzsche, “Não vos aconselho o trabalho, mas a luta. Não vos aconselho a paz, mas a vitória! Seja o vosso trabalho uma luta! Seja a vossa paz uma vitória!” 
Hoje não é o fim da História!

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(1)  Extracto do poema “A Gente Vai Continuar”, Jorge Palma, 2010
(2) Referência ao poema de Georges Moustaki “Sans La Nommer”, no extracto “Je voudrais, sans la nommer / Vous parler d'elle.../ Et si vous voulez / Que je vous la presente / On l'appelle Révolution Permanente!”, 1969
(3) No original “On leur montrait notre cul et nos bonnes manières, En leur chantant…”, Jacques Brel, em “Les Bourgeois”, 1962
(3) Extracto da obra “Assim Falava Zaratustra”, por Friedrich Nietzsche, 1885


01 maio 2018

O MAIO EM MAIO














O voo da Ilha de Santiago (Aeroporto Nelson Mandela, Cidade da Praia), à Ilha do Maio (Aeroporto do Maio, Cidade do Maio-Porto Inglês), deverá ser muito provavelmente o voo mais rápido da história da aviação civil. São apenas 7 minutos. O avião levanta e pouco depois começa a baixar, o comandante avisa para a necessária operação de aperto dos cintos, “...senhores passageiros, dentro de momentos aterraremos na Ilha do Maio
A Ilha das praias imensas
Chego hoje à Ilha do Maio, uma das perdidas na imensidão do mar, com aquela sensação de desconhecimento que se tem quando as referências nos faltam ou simplesmente escasseiam.
Por cá, existe uma estranha sensação de ausência. A festa de Maio deixou estranhamente de fazer sentido, ao que parece por falta de condições das entidades que podiam (deviam) lembrar o Dia do Trabalhador. Assim, hoje, no 1º de Maio, a ilha do Maio estará de certa forma alheia. Pode ser verdade, pode não ser, as circunstâncias serão diversas, em relação a uma realidade, discutível, pela eventual não-conjugação de vontades, ou sentimentos.
Recordo ou outros primeiros de Maio, sem estar no Maio. Mas estando no Maio. E assim, jogando com palavra, poderemos navegar à-vontade, usando um qualquer barco que vá de saída. Os navegadores serão porventura os mesmo que ousam e quedam firmes no seu posto, mesmo sem ser de comando.
Longe da pátria, as coisas acontecem um pouco mais devagar e talvez mais fluidas, o que lhes confere um grau de caducidade diferente. Bebe-se (bastante) e brinda-se a tudo que parece importante. Há música no ar, aquela de que gostamos e nos habituamos a ouvir e a sentir e a assimilar. Sempre balouçando o corpo, sempre reforçando a sensação assumida.
Saímos da Praia, para vir à praia...
A “falta de tempo” na Praia, não permitiu a visita, por exemplo, à Prainha. Uma pequena, mas simpática praia pequena (tinha de ser), muito pouco frequentada, aliás. Quem quer praia a sério, faz 60 e poucos km e vai ao Tarrafal, onde se pode deliciar.
O encontro com os Amigos, uma agradável surpresa, faz ajustar a nossa agenda, demos sempre prioridade, durante 3 dias, a inesquecíveis almoços, com Rosinha, Nandão, Joquinha e Luís. E ainda, a música ao vivo no Quintal da Música. E mesmo na frustrada ida ao “obrigatório” Fogo D´Africa, não havia música, o sítio estava “ocupado” por um qualquer DJ, igual aos de todo o lado.
Fazendo Engenho e Obra
Foi assim uma espécie de conferência, integrada nas cerimónias do Dia do Professor Cabo-Verdiano. Onde tentamos mostrar a emergência de soluções baseadas em energia limpas, com particular destaque para a Energia Solar. Trazendo aqui também a mensagem, sempre viva, do Padre Himalaya. Mostrando que é possível, que vale mesmo a pena, trilhar um novo caminho para um Desenvolvimento diferente, que nada tem a ver com aquele que vemos avançar, dia a dia, no desperdício de recursos e para o precipício iminente.
Maio é sempre Maio
E vem-nos à lembrança (sempre) a luta eterna de quem trabalha e nada mais tem senão a força, que muitas vezes mais parece uma fraqueza. Todavia é a força do Trabalho que faz mover a sociedade, que produz toda a riqueza e que, na maior parte dos casos, não parece merecer o respeito devido. Antes pelo contrário. Maio lembra isso e diz-nos que “Enquanto há força/No braço que vinga/Que venham ventos/Virar-nos as quilhas/Seremos muitos/Seremos alguém...”.
Que pena não ter a Fonte Luminosa, não ter a marcha na Rua, aqui é um mar imenso de morabeza...
É África, as coisas são assim mesmo. Atentemos, por exemplo, ao que diz (hoje), Mário Correia, presidente do Sindicato da Indústria, Comércio e Turismo (SICOTUR), “...não há motivos para festejar o 1ºde Maio já que o momento é de nojo, tristeza e lamentações”. Ao que consta terá passado mais de 1 ano, sem esperanças que a situação do mundo laboral no país, e na Ilha do Sal, em particular, venha a melhorar, existindo processos pendentes há vários anos no tribunal, devido à morosidade da justiça. E diz ainda, com muita tristeza, “Há trabalhadores que já nem pertencem a este mundo. Morreram sem receber um centavo do seu dinheiro. E tudo indica que são processos sem solução”.
Um bom (entre outros) motivo para vir para a rua, num dia assim...


1 Maio 2018
Cidade do Maio-Porto Inglês, com a ajuda do Zeca Afonso e de Mário Correia (SICOTUR)


27 abril 2018

O ABRIL DA MEMÓRIA QUE NÃO SE APAGA


Pelas contas, já lá vão 44 anos.
Era a nossa juventude, que valia exactamente 25 anos. Contas redondas, com alguma nostalgia à mistura, com tanta história acumulada, com tanta luta, sempre por um mundo diferente, em que os privilégios seriam erradicados, em que a liberdade se juntasse com a dignidade, em que a democracia se confundisse com o exercício pleno da cidadania. Faríamos contas, poucos meses antes, equacionando uma partida para o exílio, como tanta gente boa deste País. 
Foram cravos, foram rosas e bandeiras vermelhas, uma cor rubra que dava cobertura à Luta, na “metrópole” e nas colónias, onde o regime apelidava os combatentes, de perigosos terroristas e facínoras. Os epítetos que afinal encaixavam que nem uma luva ao regime de terror, que com as variantes pretensamente “liberais” de Marcelo Caetano, se confundiam com a indignidade da miséria, a que durante mais de 40 anos, nos condenavam, com uma fatalidade inevitável, um fado permanente de pobreza e de medo.
Eram tempos de revolta, depois de França, em 68, onde a geração dos baby-boomers incendiava a moral e os costumes, com um batalhão imenso de gente da cultura e da política, contra uma burguesia decrépita e esclerosada.
Era tudo florido, menos aqueles que procuravam sobreviver à custa do preconceito e da mentira, os falsos profetas, que nada tinham para oferecer, excepto a guerra e a opressão. Andávamos sobre as cinzas, com aquela coragem infinita, própria de mentes e espíritos insubmissos. Ainda, aqui e ali, com muito sacrifício, porque havia camaradas a quem tudo foi proibido, a começar pela Liberdade. Quantas vezes haveríamos de chorar, quando percebíamos que podíamos ter sido nós, tão perto que estávamos uns dos outros, que quase nos confundíamos num só. Um grito, uma revolta, uma esperança.
Quando tudo aconteceu, estávamos tão surpresos e, ao mesmo tempo, tão disponíveis. Havia um mar imenso nas praças e nas ruas, que era um Povo e um País a nascer de novo. A Festa foi bonita, pá.
E assim contentes que nem crianças, começamos a nascer de novo. Uma nova vida, um novo caminho, que mesmo inserto, era novo e, como tal, pleno de vitalidade. Mas era também aquela Revolução Permanente, que Moustaki cantava, mesmo que na penumbra. Havia Torga e havia Zeca, e Sérgio e Zé Mário e Fanhais e tantos, tantos que a vista nem sequer alcançava. E havia o Alentejo, de Catarina, e a Reforma Agrária, a terra a quem a trabalha, tanto Mar, que chegava ao outro lado, a outros lados, onde a língua tinha tanta força que até arrepiava.
Lembramos tudo e mais alguma coisa, com tanto sentimento e tamanha responsabilidade, porque simplesmente fomos intérpretes, mas também (e principalmente) fomos cúmplices. Esquecemos quem éramos, porque apenas estamos dentro de uma família imensa de revoltados, agora envolvidos numa Revolução, onde as lideranças eram repartidas, mesmo que nunca tivéssemos sido poder, na plena acepção da palavra. Seriamos uma retaguarda segura? Uma imensa mole de revolucionários conscientes uns, outros nem por isso, mas todos grávidos de esperança e de transformação? Tudo isso misturado, talvez. 
Talvez.
E se a Festa duraria pouco, a nossa mensagem iria permanecer viva, até hoje. Se ainda estamos, com o peso dos anos em cima, prontos para marchar, mesmo que mais devagar, pela Luta. Nada nos dará tanto gozo, quanto saber que a chama permanece viva e, se calhar ainda mais forte. Talvez haja que não nos compreenda, mas nós compreendemos tudo (e depressa). Aí reside toda a diferença. 
Chamar Abril, é chamar-se Abril. Nenhuma dúvida, nenhum equívoco. Tudo muito claro, tudo muito bem definido.
Haverá que nos deteste. Ainda bem. Nada nos surpreende. Se somos minoria, afinal sempre o fomos e nos habituamos a resistir. Porque haveria agora que ser diferente?
O tempo vai passando e a memória de Abril permanece. Nunca como agora foi/é tão evidente  a distinção entre os dois lados. Nós que defendemos os ideais da Esquerda Revolucionária, estaremos sempre do lado dos que trabalham e lutam por uma sociedade liberta da exploração. Do lado daqueles que defendem um Mundo ecologicamente sustentável, pela partilha dos recursos e contra a pilhagem. Não desperdiçaremos um minuto que seja e que nos afaste do essencial. Lembramos Abril, agora e sempre, pela dignidade humana, pela Cidadania. Não poupamos esforços, nem perderemos tempo a tentar convénios ou acordos contranatura. Sabemos onde devemos estar. E sabemos também que nunca iremos pactuar com salamaleques, absolutamente dispensáveis. Penso que nunca enganamos ninguém, apesar de haver muitos que nos quiseram (e querem ainda...) enganar. Até onde iremos, não sei. A tal asserção “...não, não vou por aí!” tem todo o cabimento agora, como sempre o teve aliás.
Estamos agora mais velhos, um pouco cansados talvez. Quiçá ainda, um pouco desalentados com atitudes menos claras e pouco assertivas. Já não teremos eventualmente paciência para aturar quem nos queira atirar areia para os olhos. Perdemos, com o tempo, alguma capacidade de compreensão de certas posições pouco definidas. Apesar de não termos (nunca tivemos...) certezas eternas, temos a certeza, porém, daquilo que não queremos. Não é semântica, nem retórica, é mesmo uma atitude determinada.
Amanhã, aquilo que agora era, já não tem valor agora. O pretenso jogo de palavras tem todo o sentido. Pensamos e agimos, porque tal como diz Pessoa, “Agir, eis a inteligência verdadeira!”. Aquilo que ora sabemos tem um peso enorme naquilo em que nos tornamos. Valeu e vale sempre a pena. Abril é nosso, não o vamos deixar fugir, a gaivota voava e agora voa baixinho que mais parece outra coisa? Talvez, mas contudo voa...
25 de Abril, sempre!

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Fora do País, sente-se ainda mais. Porque sim. Mas vemos que o lá tão longe, é afinal tão perto. Onde se fala, como aqui, a língua portuguesa, vive-se Abril com um sentimento de partilha permanente. Cabo-Verde, o País da morna, é “culpado” por esta prosa que deslizou serenamente, da Praia ao Tarrafal, nas ruas até ao mar imenso. Tanto Mar!


21 março 2018

RECADO

Caminhando e cantando e seguindo a canção 
Aprendendo e ensinando uma nova lição”
Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores”, Geraldo Vandré, 1968
















Dia em que chega a Primavera. Três dias num só, para lembrar a Poesia, a Árvore e a Floresta. Tanta matéria junta e mais a hora que vai de novo mudar. Tanta coisa no ar, que constrange e que simultaneamente descomprime, num vórtice contínuo de contradições, esperanças e desilusões. Se Primavera é renascer e “ser Poeta é ser mais alto..., nada melhor que subir uma árvore para “...ser maior que o Homem” e ver a Floresta de um outro ângulo, uma velha questão que raramente se equaciona, na época perigosa do pensamento único. 
(A Floresta respira sempre)
Vejamos as dimensões. Se crescer é aprender, fazer um poema é viver, interpretar o Homem e a Natureza, respeitando um binómio que para alguns é inócuo, porque parecem querer matar uma e outro, ao mesmo tempo que proclamam a prosperidade e o crescimento desmedido. Bem haja assim o Poeta, quando conclama as gentes para a festa da vida, “...havemos de ser mais, eu bem sei”, mas não deixando de avisar “...há quem queira deitar abaixo aquilo que eu levantei”. E bem haja também a Luta, que não tem fronteiras e que exige árvores e floresta para o bem comum e não apenas para o lucro desmedido, daqueles para quem Poeta rima só com roleta, para deixar os outros na sargeta...
(Vejam bem)
E acordem para a Primavera, que chama para a luz, que nunca se apaga, mesmo na “...noite mais triste em tempos de servidão”. E que “...entoa as marchas da Liberdade, marchas ainda mais potentes...”
Este pode ser o tema do dia de hoje. E, mesmo quando o Sol se esconder, não deixa de ser a chama imensa que dá vida. Até aos mortos, se preciso for, “...porque nenhuma de nós anda sozinho, até mortos vão ao nosso lado”.
Vale pois a pena o caminho, seguir em frente e acreditar “nas flores vencendo o canhão”, porque afinal “...somos todos iguais, braços dados ou não”.

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Autores Poetas convocados (por ordem de entrada em cena):
Florbela Espanca
Zeca Afonso
Manuel Alegre
Walt Wihitman
José Gomes Ferreira
Geraldo Vandré


19 março 2018

O RIDÍCULO ABSOLUTO, SIMPLESMENTE EXECRÁVEL!














O “caso” Feliciano Barreiras Duarte (FBD) é mais um daqueles que é parido pela comunicação social que temos, que tende cada vez mais para a mediocridade absoluta, bem ao género “correio da manhã” e com tiques de populismo perigoso.
É o ridículo absoluto. Depois de o insuspeito Marques Mendes ter afirmado, preto-no-branco, “O erro é de FBD. Falsificou o currículo. É uma saloiice, uma batotice”. E parecia que nada mais havia a dizer sobre esta matéria, tão clara aos olhos de qualquer pessoa minimamente inteligente. Uma trapalhada, uma fraude, um oportunismo, digno de uma figura menor. Mas contudo havia mais. A saber, estava em causa um eventual recebimento indevido de subsídio por parte do Parlamento, uma vez que o dito senhor terá dado, ao longo de 10 anos, a morada da casa dos pais no Bombarral para cálculo do subsídio de transporte e ajudas de custo na AR, quando tinha casa em Lisboa. Aqui, uma ilegalidade, que deveria ser imediatamente corrigida e com o devido reembolso ao Estado, das verbas pagas em excesso.
Isto era o que devia acontecer.
Mas parece que a comunicação social, ou melhor, uma estação de rádio que se diz estar em toda a parte, resolve, uma vez mais, prestar um péssimo serviço ao País. Hoje, 19 de Março, dedica o seu habitual fórum, ao caso FBD e ao eventual prejuízo do presidente do PSD, pela escolha que fez (...) Num exercício de mais pura demagogia e falta de sentido de informação, dá 35 minutos de tempo de antena ao burlão FBD, numa entrevista feita pelo próprio director da estação. Ou seja, dá oportunidade a uma pessoa que mentiu e que burlou o Estado, a justificar a sua burla e a sua “saloiice”, um inenarrável chorrilho de disparates e de falsidades, “abençoados” pelo senhor director TSF. E logo a seguir, como não podia deixar de ser, vem o habitual "comentador de política” Baldaia, a justificar o erro do tal indivíduo: que não era assim tão grave, comparado com o de Sócrates...; e ainda, que muitos outros deputados fazem eventualmente o mesmo que ele. 
Tudo isto parece verdade, num mundo que não é seguramente o mesmo em que habito. Há qualquer coisa que me diz, eu não sou daqui, tirem-me deste filme. Não basta ouvir e ler um execrável Baldaia, director de um jornal, que só diz asneiras e que nem sequer sabe escrever. Não basta ter rádios e (principalmente) TVs a dispararem a toda a hora, disparates e falsidades, de tal forma que muita gente como eu, já se recuse a ouvir e a ler tanta merda junta. 
A promoção desta figura menor, ainda por cima um burlão, é apenas a faceta visível do ridículo e da insanidade mental. Por trás disto, está a manipulação constante e permanente de uma poderosa máquina de propaganda.  Então querem acreditar que, depois de todas as trapalhadas dentro de um partido que acaba de “escolher” o seu líder, que são conhecidas e que passam inclusivamente pela AR, o dito partido sobe nas intenções de voto? E que, não basta afirmar a todo o momento a “seriedade” do seu líder, ainda é preciso tomar um “banho de ética” e sair de lá “limpo” de todas mazelas com que diariamente lida. 
Todo o discurso de auto-promoção do dito líder, é acompanhado por toda essa comunicação social, que nem sequer questiona, apenas repete o mesmo discurso até à exaustão, nem que para tal seja necessário recorrer ao ridículo que constituiu o dito fórum de hoje.
Simplesmente execrável!  


11 março 2018

BRANQUEAR O PASSADO EM LAMEGO

Ouvir a Assunção Cristas em época de Congresso do seu partido é a mesma coisa que ouvir uma anedota. Mal contada, pois claro.

Comecemos pelo principio, que é segundo se consta, porque onde começa tudo.
A senhora em questão não apareceu do nada. Foi colocado na liderança pelo seu "colega" Paulo Portas, no preciso momento em que aquele se desinteressou pela política activa (pelos vistos) e resolveu trilhar outros caminhos, deixando espaço a esta senhora.
Que, como sabemos, foi ministra de um dos governos mais execráveis que Portugal já teve, responsável pelo empobrecimento do País e pela submissão completa às exigências da ganância financeira, nos anos da chamada crise, como o foram aliás a Grécia, para citar apenas um exemplo paradigmático da subjugação ao capital abutre, que tenta da forma mais violenta, submeter os povos à pilhagem e ao triunfo da mais desmesurada falta de escrúpulos. Foi esse governo cobarde e iníquo, de que Cristas fez parte, o responsável pelos índices mais altos de pobreza de Portugal, pelo ataque à Escola pública, ao Serviço Nacional de Saúde, enfim, ao desmantelamento dos serviços e dos bens públicos. 
Mas não é só. Esta senhora foi responsável pelas medidas mais incríveis contra a Natureza. Foi o governo, em que deteve a pasta das Florestas, que cortou o orçamento do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) em um quarto, entre 2011 e 2015. A estratégia assente nas fileiras florestais, na gestão florestal e na defesa da floresta, foi completamente destruída, com a redução das estruturas e a eliminação da defesa da floresta. Aliás, em 2011, esse governo revogou, por exemplo, o regime jurídico de acompanhamento da gestão florestal que impedia a selvajaria de novas plantações e obrigava à responsabilidade pessoal dos projectistas.  A lei, que fez aprovar e que revogou a anterior, viria a ser conhecida como lei da liberalização do eucalipto. Cristas foi, na realidade, a Ministra dos Eucaliptos, que pessoalmente teve a tutela da política florestal durante quatro anos e que agora vem dizer que podia ter feito mais... Só se fosse mais asneira e mais violação de regras ecológicas e ambientais.
Mas é ainda a regulamentação estreita das leis laborais, no sentido da liberalização, que esta senhora e os seus "amigos" defendem. Aliás, ela própria tem afirmado (tem o desplante imenso de afirmar) que foi essa liberalização que potenciou o crescimento económico e o aumento de postos de trabalho, uma das mais iníquas teses que a Direita ostenta e que não tem (como poderia ter?) a menor credibilidade. Podem, pois, contar com ela (nomeadamente com ela) para a luta contra os direitos dos trabalhadores e contra o trabalho digno, pois ela pensa precisamente o contrário do que nós pensamos. Podem também contar com ela (nomeadamente com ela) para empobrecer mais ainda os mais idosos e com menos posses, no que diz respeito à pretendida capitalização da segurança social. Podem finalmente contar com ela (nomeadamente com ela) para defender o ensino privado, na tal igualdade de oportunidades que a Direita toda defende: o ensino privado, como escolha dos ricos, mas não só, uma vez que pretendem secundarizar a Escola pública, em detrimento de uma escola paga.
Por isso mesmo, as 3 prioridades escolhidas pela senhora Cristas, para uma governação CDS, a demografia, o território (propondo que o interior tenha um estatuto fiscal de "zona franca regulatória") e a inovação ("queremos que os nossos jovens sintam que têm Portugal é o melhor país para desenvolver os seus projetos"), constituem um descaramento imenso, para além do vazio natural da demagogia espúria de que enfermam.

Enfim, Lamego assistiu (coitados dos habitantes da Cidade...) a mais um exercício do mais despudorado branqueamento do passado recente, com o apoio mais ou menos velado de uma comunicação social dócil e lacaia da Direita.

Muita atenção à senhora que a mesma comunicação social fabricou para ser putativa presidente da Câmara de Lisboa, com o tal resultado histórico, que só o foi para incautos.
Cristas, tal como Rio, apenas têm a oferecer ao País, miséria, desemprego e perda de direitos. De cada vez que abrem a boca, mentem descaradamente. De cada vez que respiram, sai-lhes ódio e vingança. De cada vez que nos olham nos olham deviam corar de vergonha, por serem hipócritas e desavergonhados. 


13 fevereiro 2018

RADIO GAGA












Posso pedir um disco? Daqui Rádio Voz da Liberdade, amigos, companheiros e camaradas. Teatro Tide apresenta. Daqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas. Os tempos de ontem, mais ou menos assim, ou muito mais, que havia o entremetimento ou a mensagem a passar, consoante o distrair, ou o lembrar. A Rádio sempre esteve lá, a contar como foi, como era, ou como parecia ser. Ou uma rádio algo artesanal, com pouquíssimos meios de produção, ou uma potente máquina de propaganda. De uma forma ou de outra, era rádio, acontecia qualquer coisa.
(Uma marca que vinha do éter) 
 "I'd sit alone and watch your light // My only friend through teenage nights // And everything I had to know// I heard it on my radio…", ouvindo o "Em Órbita", a minha companhia de adolescente, o nosso refúgio, era o Dylan e a Joan Baez, todos os anos, o melhor e o pior, lembro o Atlantis do Donovan, tanta música, tanto poema, a guerra do Vietnam, a contestação permanente. Uma forma de ver e ouvir.
(Dantes nada era contado)
Era tudo às avessas, para tornear a máquina censória, que envergonharia o País e que torturava e matava os dissidentes, a rádio passeava os do governo e ignorava tudo à volta. A Rádio? Não, era apenas mais um instrumento de opressão do regime. E nos anos de estertor do fascismo, vinha o ZipZip e o desfilar de todas as mágoas, de todos os cantos, a heroica e a satírica, as armas e os barões misturados com a anarquia de uma paisagem, onde se alcançava tudo e quase nada. Os relatos do Artur Agostinho e a classe do Pessa, a voz que lembrava a britânia. 
(Até ao Dia)
Em que a Rádio salta todos os muros e vai a todo o lado com a malta, porque faz falta agitá-la e dar-lhe Poder. Aí, temos rádios aqui e ali, uma teia de fios ténues, valia tudo, era a libertação. A cadeia humana que deu voz a Timor Lorosae, a luta e a esperança.
(Radio GaGa)
Tudo isto é rádio, um bla-bla contínuo, a conjugação de tantos interesses e a voz suave e meiga do jornalista ou a voz poderosa e estridente do agitador.
O respeito pelo silêncio, a música do vento, a chamada sincopada dos encontros imediatos, a denúncia, o reconhecimento, a abstracção, o torpedear constante da propaganda, o anúncio estúpido da pasta de dentes, a voz do mestre, o arroto do político menor, os jingles da rádio.  Há uma rádio que passa um programa chamado "Informação Inútil", por sinal bem mais útil do que a informação sobre a bolsa (mas quem raio é que se interessa pela bolsa?), ou do que os "comentários" idiotas de meia dúzia (se calhar mais...) de "residentes", que sabem falar de tudo e parecem viver num planeta distante.
 "All we hear is radio ga ga // Radio goo goo// Radio ga ga// All we hear is radio ga ga //Radio blah blah // Radio what's new? // Radio, someone still loves you!"
A Rádio faz-nos companhia, se não gostas, desliga. Só ela nos pode transportar a universos desconhecidos, e tem a música, essa linguagem universal, que um dia poderá ser quiçá mais estimada e reconhecida.
Eu gosto da Rádio!


28 janeiro 2018

CAPTURA


A noção de captura tem, no espaço mediático, um assentido restrito, que nos transporta para universos bem conhecidos e próprios de sociedades em contínua e sistemática degradação.  Que o é, nas vertentes política, sociológica e cultural. Sentir-se capturado significa hoje em dia, em primeira instância, estar cercado de uma informação medíocre, insidiosa e sem qualquer valor aparente, que não seja o primado do espectáculo e do sensacionalismo.
Configura-se pacífica e despudoradamente, uma estranha figura de estupidez simbólica, caracterizada pela deificação da tecnologia e pela velocidade furiosa, numa voragem contínua de acontecimentos fúteis e mesmo, em determinados casos, perfeitamente inúteis.

Pare-se para ver (e é mesmo necessária alguma coragem para tal), o imenso lixo televisivo, radiofónico, falado e escrito, a propaganda mais perniciosa. Identificam-se, nos dias de hoje, de uma forma muito clara, sinais evidentes de manipulação e industriação de consciências, através da presença de conteúdos sáfaros, naturalmente orientados para sectores da sociedade mais permeáveis e que a "bebem", por vezes de uma forma asfixiante. Depois, o efeito que normalmente se traduz na diabolização de determinadas figuras (públicas) e de situações da vida corrente, que são por sua vez transformados em "sérios problemas", com a capa de promover uma politização, no pior sentido possível, o da banalização de conceitos, ou de um hipotético sentido pragmático, estribado em paradigmas praticistas e conducentes invariavelmente a um raciocínio reducionista e inevitável. É uma espécie de lei da "ordem prática", ou na designação de Kant, uma lei moral que, segundo ele, representava uma lei universal.
E quando os fenómenos estupidificantes se multiplicam, tendem a criar uma cadeia contínua de asserções e conceitos "leves", desprovidos de qualquer sentido crítico. Convém entretanto dizer, que a sucessão de acontecimentos e "incidentes" ligados a considerações de índole afectiva (e consequentemente, moral), não é de forma alguma casual. Significa antes, que é real a tendência para um abaixamento de nível, de análise e discussão, visível particularmente no palco da política. Poderia eventualmente argumentar-se que a "simplificação" de termos e conceitos, conduziria a uma apropriação da coisa pública pela maioria da sociedade, não fora ela o sinal mais evidente de uma brutal banalização. 
Vem a propósito algumas manifestações de estupidez massificada, como é (ou foi) o caso da chamada "supernanny", quiçá um dos exemplos vivos de um populismo pretensamente democrático, mas que não passa de um jogo de índole perigosa e intrusiva. Ainda que recusemos entrar no palco lodoso da mediocridade e da estupidez colectiva, acabamos por ter que abordar questões que nos escapam, mas que afinal nos cercam bem de perto.
Daí então, a captura, uma das componentes da "democracia", dura e ao mesmo tempo leve, com contornos digitais atraentes e contorcionistas. Somos colocados numa situação delicada, entre ter que optar entre alternativas pífias, correndo inclusivamente o risco de sermos considerados verdadeiros aliens.

Poderá ainda ser considerada como prática marginal, defender princípios sólidos e balizados em conceitos definidos, como a luta contra as desigualdades, o fim dos privilégios de meia dúzia de abastados, o fim dos paraísos fiscais, ou simplesmente uma ética republicana. O proclamado fim das ideologias, a "aproximação" entre trabalhadores e patrões, baptizados agora de "colaboradores", o esbatimento das fronteiras entre Esquerda e Direita, são apenas a faceta que quer parecer simpática, sobretudo aos que não conseguem ascender, porque sistematicamente capturados, na escala social.

O ensaísta alemão Hans Enzensberger dizia , "...ainda é cedo demais para fazer alguma coisa, mas já é tarde demais para fazer alguma coisa", mostrando alguma apreensão por fenómenos a que chamou de industrialização da consciência, um "jogo perigoso" (palavras suas) entre o poder estabelecido e os lideres de opinião, intelectuais e artistas, supostamente capturados numa imensa teia de interesses e contradições. 
É particularmente significativa ainda a sua afirmação, precisamente na linha da primeira, num poema publicado em finais dos anos setenta do século passado, "..não somos responsáveis por sermos culpados e somos culpados por não sermos responsáveis".


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