08 março 2019

8 MARÇO – O DIA!



As palavras mais belas que conhecemos são no FEMININO: Liberdade, Insubmissão, Justiça, Democracia, Independência, Soberania, Greve, Luta, Revolta, Revolução e tantas e tantas outras que usamos e nem damos conta do poder que têm (detêm).

Se a Vida é no género e dele vem, por força da natureza e à razão do ser e do estar no Mundo, ela tem decerto um sentido, que remete ao mais profundo de nós e nos faz pensar, na PARTILHA e no RESPEITO. Esta, no masculino, tantas vezes vilipendiado, maltratado e atentado.

Hoje, um dia que é ELA, que será dela, se ela quiser e quer decerto, no mínimo para lembrar, outras palavras, que de belas nada têm, como as outras: Injustiça, Maldade, Perfídia, Cegueira, Submissão, Morte,...

Sendo as palavras, apenas isso, elas podem ser HOJE, atiradas ao vento e às trombas daqueles que dominam o mundo e desprezam Direitos, Valores e Respeito. É para esses (e eventualmente algumas essas) que numa só palavra, sintetizamos o que nos vai na alma:
BASTA!


20 janeiro 2019

A ROUPA CRIMINOSA 

















A notícia de 19 de janeiro, da apreensão, pela GNR, de 62 mil peças de roupa contrafeitas, avaliadas em 1,4 milhões de euros, não surpreende minimamente quem ande (mais ou menos) atento a notícias, de um dos lados da economia.
Pode parecer surpreendente que, em pouco menos de um ano, tenham sido apreendidos mais de 50 mil euros de idêntico material. Na realidade, 23 mil, em Fevereiro, mais 25 mil em Agosto de 2018, para já não falar o anúncio, em Junho, da “descoberta” de uma eventual rede, que vendia na internet, artigos “...com preços muito apelativos”.
Tudo, refira-se, no Norte do País, entre Vila Nova de Famalicão, Penafiel, Cabeceiras de Basto, Matosinhos e Valença.
Não deixa de chocar que tamanha criatividade seja objecto de repressão policial. Chamem-lhe contrabando, um termo que dá para tudo, ou (mais sub-repticiamente) contrafacção, o certo é que nos habituamos, desde há dezenas de anos a esta parte, de comprar, em feiras, mercados e outras “praças”, por esse País dentro, as camisas, calças, pólos, “kispos” e outro vestuário, ostentando as marcas da grande moda, por preços que, em alguns casos, se pode dizer serem 10 vezes mais baratos que o original. Deve dizer-se, para quem anda mais distraído, que muitas vezes, nem sequer se dá pela diferença.

Claro que o Estado, sempre presente a atento nestes casos, não quer deixar por (para) mãos alheias a cobrança do imposto respectivo, quando se trata de produto manufaturado, ou simplesmente “transformado”. Muito bem. O Estado é isso mesmo (e acima de tudo) o garante do primado da Lei (que segundo se diz agora, afinal não é igual para todos...) e da Ordem (burguesa, segundo aprendi, e ao que parece, bem). Só é pena que, o mesmo Estado, não seja assim zeloso, quando se trata de cobrar impostos às grandes empresas, aos grandes grupos económicos, quando aquelas (e muitos têm sido os exemplos) se recusam a pagar. Seria interessante, por exemplo, mandar a GNR prender o Joe Berardo, que “deixou” uma “pequena dívida” à CGD, no valor “ridículo” de 280 milhões de euros. Apenas para deixar o povo mais tranquilo, o Estado Português, através do Governo da República, anunciar que vai devolver (ao tal povo), nada mais nada menos, que os 13 mil milhões de euros que, até ao ano 2017, havia “gasto” a salvar os bancos, curiosamente os mesmos, que arquitectaram, engendraram e produziram a crise de 2008. 

Acontece que a criatividade do Estado é, por assim dizer, muito pouco criativa. Parece que os sucessivos Governos (e este incluído), não querem ver o que parece tão simples e que, com um pequeno golpe de mágica, poderia colocar uma rolha na boca daqueles que, todos os dias, se entretêm a difamar o seu bom nome. E mesmo dando de barato que devemos defender o património do Estado, facilmente concluímos da ligeireza que tem havido na sua preservação, cuja responsabilidade compete exclusivamente aos governos. Daí à ira incontida dos cidadãos, vai uma fronteira muito ténue.

Recordemos aqui o inenarrável Cavaco e ao seu consulado de 8 anos, que devastou o País. Os seus governos deitaram por terra o tecido empresarial português, nomeadamente no caso dos têxteis, no tempo em “choviam” torrentes de euros novos para “distribuir”, para quem quisesse destruir qualquer coisa, em nome da sacrossanta União, em que ninguém (ninguém é na realidade, um exagero...) ousava tocar, para proteger os direitos dos “nobres” alemães e, na altura, também, dos franceses. Da agricultura às pescas, passando por tudo o que significava riqueza nacional, foi alegremente destruído, transformando este País num imenso mar de asfalto, para gáudio das grandes empresas, que entretanto foram todas “almofadadas” pelo tal Estado, na montanha mal parida das famigeradas PPP. 

E porque razão ficamos de boca aberta com a repressão à “contrafacção”? 
Primeiro, porque gostaríamos de saber se alguém, com imaginação, não se tenha ainda lembrado de tentar integrar este ramo de economia paralela no circuito “normal” da economia nacional, tão carente de mais-valias. Lembrem-se por exemplo, dos rios de dinheiro e das garantias que são dadas (e o termo é mesmo esse, dadas, porque na maior parte dos casos, o são, sem quaisquer contrapartidas) às grandes empresas, para abrir mais um centro comercial (há tão poucos, afinal...). Ficaria seguramente mais barato, atribuir uma linha de crédito, mesmo a custo zero, para enquadrar a actividade destes pequenos empresários, oferecendo-lhes instalações (ainda que somente no primeiro ano) e facultando-lhes apoio a nível de design gráfico e de apoio à promoção de uma marca própria. Ninguém se lembra disto, no universo profícuo de tanta imaginação criadora, neste País de navegadores?  Em vez disso, abundam os tais “empreendedores”, que contratam “colaboradores” e que, depois de uma lavagem ao cérebro, vão abrir “empresas emergentes”, ou startups, que irão fechar meio-ano depois.
Segundo, para perguntar a quem de direito (...) se tal repressão vale mesmo a pena, uma vez que, o dito negócio vai mesmo “nascer” uns meses depois, noutro lado qualquer?
Terceiro, devemos sentir-nos “culpados”, ou mesmo “criminosos de delito comum”, quando compramos um pólo “ralph laurent”, na feira da esquina, quando o deveríamos ter adquirido naquela loja linda do centro comercial? 

Pensem nisto. Ao mesmo tempo que pensam, não gostariam de saber (já agora) para onde vai a tal roupa que foi apreendida? Fica para a GNR? Passa a património do Estado? Vai ser doada? Leiloada? Se alguém souber, que me avise, se faz favor. Obrigado.


01 janeiro 2019

A BALANÇAR TODO (um) ANO...


































De como se transfigura 
a figura
Será que perdeu o Norte?
ou apenas a roda da sorte?

De como as perdas 
se transformam em lucros
Será mestria?
ou a morte da poesia?

De como as derrotas
fazem lembrar vitórias
Será magia?
ou apenas fantasia?

De como os sorrisos
parecem esgares
Serei eu a ver mal?
ou há dessintonia no canal?

De como as alianças
Parecem estultas
Será estratégia elaborada?
Ou apenas ... nada?

De como a pobreza 
parece hoje mais “aprimorada”
Será a força da razão?
ou um sistema sem solução?

De como a Revolução
parece uma miragem
Será que é desalento?
ou “culpa” do pensamento?

De como andamos todo ano
aos papéis
Será confusão minha?
ou por contar com o ovo no cu da galinha?



De como o teu olhar
me parece triste
Será que te enganaste na flor?
ou perdeste o amor?

De como disfarçamos 
a revolta
Será que deixamos de sentir?
Ou andamos a dormir?

De como acontece perder a esperança
e baixar os braços
Será a desistência?
Ou a solene aquiescência?

De como se aclama a desgraça
na vil e torpe notícia
Será que é o apocalipse
ou (mais) uma filha-da-putice?

Do como as vozes que nos oprimiram
vêm agora reclamar espaço
(e prometer o idílico)
Será que se querem retratar?
ou apenas (mais uma vez) nos enganar?

De como parece que perdemos sempre
apesar daquele empate milagroso
Será o (tal) destino impiedoso
ou algo (ainda mais) misterioso?

E SUBITAMENTE:
De como nos levantamos do chão
E deixamos para trás o medo
E removemos montanhas se preciso for
P´ra colocar uma justiça melhor
E fazemos das tripas coração
(maldito silêncio!)
Par o ano é que vai ser
A Luta é para valer!
(doa a quem doer)


26 dezembro 2018

  ACERCA DA QUALIDADE DE VIDA





A propósito de uma semana passada na ilha de Malta, quero reflectir aqui sobre um tema que, sendo na realidade transversal, nos tempos que correm, a todas as sociedades, não parece contudo ser tratado com profundidade e inteligência. A qualidade de vida deveria ser, neste século, a primeira das exigências, a que obviamente se juntariam outras, quiçá recorrentes e que têm a ver com a erradicação da pobreza, a defesa e a preservação da natureza e do ambiente, a igualdade plena de direitos de todos os cidadãos, enfim, o equilíbrio sustentável entre homens, animais e natureza, numa simbiose de sentimentos, direitos, deveres e felicidade. Mas, que fique claro, que nada disto tem a ver (ou tudo tem a ver...), com a natural e óbvia diferença de atitude e de interesses entre que produz e quem se apropria do trabalho produtivo, no fundo a grande questão que só ficará definitivamente resolvida quando deixarem de existir as classes sociais, como as conhecemos.

Num País com cerca de meio milhão de habitantes, e com a maior densidade demográfica do continente europeu, pude apreciar, natureza, cultura, respeito pelo ambiente, simpatia e consideração pelas pessoas. Também, deve dizer-se, um carinho muito especial pelos gatos. Malta não tem, ao contrário da grande maioria dos países ditos desenvolvidos da Europa, nem auto-estradas, nem centros comerciais, nem comércio ao Domingo. Não tem, á excepção de um pequeno centro urbano de luxo ocidental, casas altas, nem arranha-céus.
Tem, durante a noite, um sistema de iluminação, que diria exemplar, por ser parco em intensidade luminosa, preservando assim a noite e a sua característica natural, diferente do dia solar. 
Sente-se uma segurança nas ruas, nas cidades e nas povoações, discreta e calma, apesar da tremenda confusão no trânsito, que seria caótico, se mais viaturas houvesse em circulação.
A capital do País, outrora La Valletta, agora simplesmente Valeta, é um paraíso de beleza, na arquitectura, nas igrejas e nos museus. Nota-se, no País, um desenho equilibrado das cidades, que são pequenas e acolhedoras. 

E a qualidade? Se a premissa que a associa ao desenvolvimento, é completamente falaciosa, pior ainda, quando é associada ao crescimento económico capitalista, particularmente no seu estádio actual, de uma economia favorável à alta finança e completamente contrária aos interesses e expectativas da grande maioria da população, os trabalhadores. E tal conduz inevitavelmente ao desrespeito completo das pessoas e dos seus direitos. 
Se pensarmos no ritmo de vida que nos obrigam a suportar, dependente de horários rígidos e cada vez mais intensos, ao tempo perdido em transportes públicos de baixa qualidade, ao horário de trabalho semanal que não preserva o lazer e a cultura e juntarmos a isso, os hábitos e rotinas do capitalismo impiedoso que estimula, a toda a hora, o consumo e o desperdício, materializado nas catedrais de consumo, que são os malfadados centros comerciais, que crescem a um ritmo perfeitamente assustador e que reduzem as cidades à sua existência, pela “imponência” e pela violência urbanística que representam, se pensarmos bem nisso, depressa chegamos à conclusão que não é possível conciliar esse modelo com a qualidade de vida, que falamos, que debatemos e até que exigimos. Porque simplesmente não há compatibilidade possível, nem sequer imaginária, com aquilo que é um antagonismo perfeito entre o ritmo actual de vida e a qualidade de vida. Enganamo-nos, pensando que que é possível conciliar o impossível.

E aqui entra a possível consideração de pensar como éramos antes felizes, sem tudo aquilo que o novo estilo de vida aparentemente nos “oferece”. Primeiro, porque esse (este) estilo de vida é complemente avesso à aproximação entre as pessoas e à sua integração, porque exclui em vez de incluir, porque elimina em vez de integrar. Segundo, ao defender o paradigma do crescimento a qualquer preço, que produz desperdício e destrói o equilíbrio entre o Homem, a natureza e os animais. Terceiro, porque ao impor o trabalho como norma universal inflexível, esquece que o ser humano não “foi feito” exactamente para trabalhar, mas sim para fruir o tempo, no lazer e na cultura, no prazer e no descanso, na aventura e na partilha. Ou, como bem dizia Agostinho da Silva [1], “O homem não nasce para trabalhar, nasce para criar, para ser o tal poeta à solta.”
Assim sendo, como se pode compreender então que o sistema de dominação capitalista imponha que se trabalhe mais e durante mais tempo? E, porque razão os trabalhadores aceitam o processo que os explora e que coisifica a sua actividade. A explicação está, segundo Marx [2], na alienação do trabalho e constitui, portanto, a essência da crítica do capitalismo como sistema económico e social.

Voltando a Malta, percebe-se que é (ainda) um país equilibrado de certa forma e porventura mais calmo e feliz, porque não cresceu talvez, da mesma forma que outros países, enredados na cena europeia, subordinada a regras e rotinas que são contrárias à qualidade de vida e, seguramente à felicidade das pessoas. Não vimos lixo nas ruas, não vimos pedintes. Não sentimos a pressão, que faz das cidades, um tormento de ruído e de lixo. Constatamos a existência de transportes públicos eficientes e baratos, não tivemos dificuldade em estacionar o carro em lado nenhum, mesmo contando que a época não é propriamente a mais propícia ao turismo de massas.

Talvez porque o momento seja adverso, talvez porque não é fácil (alguma vez foi?) mobilizar as pessoas, para pensar e agir, talvez por razões que nos ultrapassam, valha mesmo a pena questionar os modelos e paradigmas actuais que sufocam as pessoas e a natureza. E propor novos modelos e paradigmas que induzam o respeito, os direitos e a qualidade de vida para todos. 
Sobretudo não abdicando.
Na sua imensa sabedoria, Walt Whitman [3], dizia, ou melhor, apelava a que as pessoas não se resignassem, “A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, e nem fujas.” E, acima de tudo que não caíssem no silêncio, “Não caias no pior dos erros: o silêncio.”, porque não se pode desistir de intervir, “Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.
Para não dizer que não falei de ... gatos.

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[1] Agostinho Baptista da Silva (1906 - 1994) foi um filósofo, poeta e ensaísta português.
[2] Karl Marx (1818 – 1883) foi um filósofo, sociólogo, jornalista e revolucionário socialista, de origem alemã
[3] Walter Whitman (1819 – 1892) foi um jornalista, ensaísta e poeta americano; as três citações, traduzidas do inglês, pertencem ao poema “Carpe Diem”, uma expressão recuperado do poeta latino Horácio (65 a.C.-8 a.C.)


24 novembro 2018

OS NOVOS RITUAIS















Arquitectados na base do preconceito ideológico infantil ou infantilizado e alimentados pela economia de casino, eles existem e comandam de tal forma a vida de milhões de pessoas, assumindo por vezes a figura patética, que os próprios, os que adoptam, ou aceitam os novos rituais, nem sequer se apercebem do logro, da mentira, ou de uma lavagem ao cérebro, na sua faceta mais perfeita.
Vêm quase sempre do mesmo sítio, passam o Atlântico e instalam-se, criam raízes, sob a hipotética capa de uma moderna aculturação pelo decadente e pelo mais puro banalismo. Tendo começado pela famigerada festa do halloween, sem qualquer raiz cultural por estas bandas, estende-se agora às chamadas sextas-feiras negras, ou black friday, a manifestação mais rasca do consumismo desenfreado, mas que encaixa muito bem na sociedade capitalista do século XXI, que nasce sob a égide da tentativa desesperada de um regime de pós-dominação, pela informação negativa e pela manipulação grosseira da consciência colectiva. E ainda pela cultura do consumo obsessivo, numa sociedade que cria desperdício e lixo, que vão entupindo as cidades e arrastando um autêntico exército de excluídos. 

Todos os dias e a toda a hora, somos inundados de propaganda. Seja ela qual for, muito embora aquela a que nos habituamos tenha a ver com anúncios de produtos e serviços que precisam de ser nomeados, para captarem a nossa atenção, mesmo que não precisemos deles, nem nos façam realmente falta, ou porque passamos bem sem eles, ou porque são perfeitamente inúteis para a nossa existência. A reacção das pessoas a este tipo de propaganda pode ser a mais diversa e depende do estado psicológico e até mental, podendo assumir as mais diferentes atitudes, dependentes também do estado emocional.
E é precisamente no apelo aos sentimentos mais básicos que estão as campanhas que encharcam a sociedade de produtos supérfluos, mas em que as pessoas são levadas a participar, a quererem ser as primeiras a chegar, sujeitando-se muitas vezes a imensas filas e digladiando-se por vezes por uma singela peça de roupa. A irracionalidade podia ser a nomeação para o negro da coisa, a coisa aqui está preta, na conhecida asserção do poema. Todavia, a cor negra era apenas uma imagem para a crise financeira que atingiu os Estados Unidos em 1869.  Adquire, porém, nova vida, no ano 2005, em Filadélfia, associado ao período de compras de Natal, aparentemente com preços mais baixos.

Apesar de sucessivos avisos de entidades que alertam para a defesa dos direitos dos consumidores, transformados por vezes em alertas para os preços fabricados umas semanas ou mesmo uns dias antes da negra sexta-feira, o facto é que o apelo é mais forte, uma vez que é intencional e bem arquitectado. Quase que se podia sintetizar na ideia, mesmo que não precises, compra, porque é mais barato.
Assim se constrói, destruindo. Porque é mesmo de aniquilamento que se trata, imagem patética de um mundo despersonalizado, potencialmente idiota e desprovido de sentido existencial.  Um mundo que cria artificialmente novos rituais, baseados no superficialismo e na falsidade. Um mundo baseado na exploração e na destruição, na manipulação e na desinformação, na mentira e na inação. Os novos rituais desenham perfis de escape, comportamentos recorrentes que afectam a saúde física e a saúde mental, a imagem pessoal e profissional e, basicamente o relacionamento interpessoal.

Se repararmos e pensarmos um pouco, encontramos a imagem do consumismo autoinfligido, nos centros comerciais que parecem surgir em toda a parte, alimentados pelo terrorismo publicitário e pela degradação completa do ambiente das cidades. O próprio ritual da “visita” ao centro de consumo, aos fins de tarde e aos fins de semana, é possivelmente o exemplo mais triste da degradação das relações entre as pessoas. Em vez de estarmos a criar cidadãos com autonomia, parece estarmos a potenciar indivíduos dependente a acéfalos. Sempre a bem do sistema e da sua manutenção e perpetuação.
Até ver.


09 novembro 2018

OS NOMES DA BESTA


80 anos[1]
A memória de um dia, em que a intolerância gritou bem alto o seu argumento e despertou a besta fascista, contra um povo, contra a Humanidade. Nada nem ninguém conseguirá jamais justificar a desconfiança levada aos limites do ódio e da ignorância. Porque aquilo aconteceu na Europa, tão perto e tão longe afinal da compreensão humana.
Porque teriam eles desígnio tão vergonhoso? Mata primeiro e pergunta depois, mata simplesmente, acaba.
Ainda não era dia e já mais de mil sinagogas seriam queimadas em Berlim ou simplesmente destruídas. Mas a besta não ficaria por aí, teria que matar mesmo e destruir centenas de lojas, porque os seus donos eram judeus. Porque eram diferentes. Mas como a besta nunca está satisfeita e vive do sangue dos outros, vai sugando consciências, aligeirando processos até chegar ao extermínio.
Nada nem ninguém será punido por defender a sua causa, pensamos nós, tentando justificar-nos sobre a complacência e o silêncio. Por vezes somos o réptil que está tentando romper a casca do ovo[2] , embora a nossa consciência esteja por vezes noutro lugar, onde acreditamos ser mais fácil viver.
A besta não dorme e quase por ironia acordamos dentro dela, não é fascínio nenhum, são apenas os nossos medos. A nossa não-declarada impotência, para compreender o óbvio, casa bem com a aprendizagem a que constantemente fechamos as portas.
Não queremos, temos até algum pudor em chamá-la pelo seu nome, mas não adianta, ela avança sempre que pode. E há tanta gente a abrir-lhe a porta. Tanta gente que sem querer lhe proporciona o necessário conforto, e a besta vai ficando por cá, minando os alicerces que pensávamos sólidos, mas que para a besta, são apenas paredes de cartão.
Querem como antes fazer-nos acreditar que é preciso uma mente brilhante que aglutine o povo inteiro e fale em nome dele. É sempre o mesmo processo. Antes, queimavam lojas e matavam pessoas ao desbarato. Hoje, será tudo provavelmente mais limpo, queimam os neurónios com a arma mortífera da falsa notícia e matam lentamente com a economia de casino e com a mais inqualificável política da exclusão e da desigualdade.
Antes e hoje, convergem num ponto, a propaganda: mentirosa e pérfida, iníqua e rasteira, parcial e corrosiva. Capaz de traçar caminhos enviesados, pronta a excluir “suavemente” quem se queira atravessar no caminho.
Em todo o lado, a besta monta o seu arraial. E tem seguidores, admiradores até. Saber quem eles são e como sentem, torna-se imperioso. Fintam as suas próprias rédeas e desenham os seus próprios cenários.
Cheiram a bafio bolorento, não te parece? 
Têm agora tantos nomes, a besta transmuta-se em nomes diferentes para nos confundir, cada um com a sua cara, ou cabeleira, de capitão do exército a multimilionário, na Europa ou nas Américas, aqui bem perto, ou tão longe, tanto faz, é a mesma besta fascista, sim, não há que enganar.
Se bem que há quem queira vesti-la de pele de cordeiro, ou porventura pensar que se pode amansá-la, a besta é a besta simplesmente. Não de deve transigir, nem dialogar com ela. Nem pode, aliás, porque a linguagem que ela fala, não é a nossa. 
Apenas temos que lhe quebrar a espinha. 
Cortar-lhe a cabeça.  
Apenas e só!

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Atenção: Provavelmente hoje, ou amanhã, a qualquer hora, os lobos[3]  estão a entrar na tua Cidade...
https://www.youtube.com/watch?v=hVkWgksDZDI
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[1] No dia 9 de Novembro de 1938, ocorreram actos de violência em diversos locais da Alemanha e da Áustria, então sob o domínio nazi. Foi a chamada Noite de Cristal, a propósito da quantidade enorme de vidros quebrados. As acções foram designadas de pogroms (ataque violento maciço a pessoas, com a destruição simultânea do seu ambiente (casas, negócios, centros religiosos, cf. Wikipedia), com a destruição de sinagogas, lojas, habitações e agressões e assassinatos contra as pessoas identificadas como judias.
[2] Referência à obra “O ovo da serpente”, um filme de 1977, produzido por Dino De Laurentis e dirigido por Ingmar Bergman, que evoca a ascensão do fascismo na Alemanha; a história passa na década de 20 do século passado.
[3] A lembrar as palavras e a música do Serge Reggiani “Les Loups Sont Entrés Dans Paris”, (1967). A canção é comumente aceite como uma alegoria do avanço do exército alemão para Paris, e uma ode à Resistência.


04 novembro 2018

FRIDA




Hoje em último dia de exposição, na Cidade do Porto, sempre olhando-nos de frente, a grande Frida Kahlo ajuda-nos a fazer memória, em nome de um sem número de mulheres. Ela, uma mulher do seu tempo, que não se dizia surrealista porque, nas suas palavras, “Eu nunca pintei sonhos. Eu pintei a minha própria realidade” , mas dizia-se sim, uma resistente, um corpo dilacerado, mas resistente, uma alma sofrida, mas resistente, uma vida curta, mas sempre resistente.

Porque nos evoca a vida e a cor, apesar da maioria das fotos o não revelar, Frida evoca a não-consensualidade e com essa faceta, corta e recorta as suas fotos, das suas amarguras, mas também dos seus múltiplos amores. Deixa-nos entrar num período conturbado da história da humanidade, convocando um universo, com a sua vertente revolucionária e com a sua faceta solidária. Uma imagem realmente fascinante.

É então a imagem da mulher, ícone verdadeiro do feminismo e da e da igualdade de género, numa época onde estes conceitos eram ainda uma sombra e quiçá motivadores de repressão social. Tal não era porém obstáculo algum para esta mulher urbana, que usa a sua arte para retratar a realidade social e política, num misto de intervenção ingénua, mas sentida, de quem tinha opções de vida em favor dos que menos tinham e dos, muito particularmente das, que não tinham voz, uma militante comunista, uma defensora dos direitos humanos, uma “filha da revolução” mexicana, com gostava de se intitular. Denunciou sempre a violência dos EUA para com o seu País, desta forma cruel, “Todos os dias, a parte feia dos Estados Unidos rouba um pedaço; é uma lástima, mas as pessoas têm que comer e é inevitável que os peixes grandes devorem os pequenos."

Frida foi uma Mulher de dignidade e de revolta. O legado que nos deixa é de uma riqueza sublime e de uma coerência perturbadora. Os seus quadros e murais têm a beleza encantadora da Revolução!


29 outubro 2018

CONTRA A DITADURA DO BOM-GOSTO, MARCHAR, MARCHAR!





O bom-gosto é uma ditadura. Que ameaça e que corrompe.
E às tantas, o bom-gosto torna-se viral.
É o bom gosto de seres iluminados, bem pensantes, bem falantes, embora quando falem nada consigam dizer de substantivo, de tanto que medem as palavras, de tanto que falem por meias-palavras, de tanto que se defendam no tal politicamente correcto.
De tanto que.
Não conseguem comover, porque são sonsos, porque são deslavados, porque não têm outra cor que não seja o cinzento dos seus ternos (ou fatos).
Mas...
O bom-gosto tem classe. E é de classe.
Vamos todos votar contra os comunistas, os anarquistas, os socialistas, os vermelhos, a corja dos pobres, os sem tecto, os sem casa, os sem emprego (preguiçosos, não querem trabalhar...), os que que cheiram mal, os que chateiam, os que reivindicam, os dos sindicatos, os dos...
Os que não têm a nossa religião, abençoada pelo deus que promete a salvação a quem se resigna. E que tem que obedecer.
Os que não têm dinheiro, porque não devem ter vícios como nós, que temos dinheiro para os ter e assim é que deve ser.
Sempre assim foi... 
Os que não têm o “nosso” bom-gosto.
Que arrelia, lá está aquele a maldizer, lá está aquela pensando que é quem?
Precisam é de Ordem e de alguém que os discipline, já viu?
Ouça, eles precisam é de quem os ponha na linha.
Agora que ganhamos, vamos impor o nosso bom-gosto, isso não é aquela coisa de ditadura, pois não?
Bem, mas se for e se ficar bem, também não vem nenhum mal ao Mundo.
É bom-gosto, não é?


17 outubro 2018






O objectivo do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) a 22 de dezembro de 1992, é mobilizar esforços no combate à pobreza, que continua a provocar vítimas, não obstante a humanidade conseguir produzir a quantidade de alimento necessário para responder às necessidades de todas as pessoas do mundo. Esta iniciativa, data de 17 de outubro de 1987, por iniciativa do padre católico francês Joseph Wresinski, de quem é conhecida a declaração, “Não é de alimentos nem de roupa que (os pobres) mais precisam, mas sim de dignidade. Precisam, sobretudo, de não estarem dependentes do que querem ou não querem os outros, dependentes dos caprichos da boa vontade alheia.”

Desde essa data até à actualidade, múltiplas iniciativas têm surgido, no panorama internacional, com idêntico objectivo. Todavia, é na Agenda das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, de Setembro de 2015, que é explicitada a erradicação da pobreza, devidamente registada no ODS(1) número 1. 
Os números das estatísticas mostram que no ano 1990, haveria 1,9 biliões de pessoas no mundo, a viver em situação de pobreza extrema. Em 2016, registaríamos 836 milhões de pessoas; o sul da Ásia e a África Subsaariana são as regiões onde reside a esmagadora maioria das pessoas que vivem em situação de pobreza extrema.

No nosso País, registava-se em 2008, uma percentagem de taxa de pobreza de 17,9%. Mas, apesar das melhorias económicas dos últimos 3 anos, esse valor é agora de 18,3%, que representa mais de 1,8 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema. A PORDATA regista aliás nesse ano (2016) para o que define como “Taxa de intensidade da pobreza”(2), um valor de 27%! 
O professor Associado do ISEG, investigador Farinha Rodrigues, assinalou em entrevista à agência Lusa, que “Apesar das melhorias significativas que se verificaram nos últimos anos, continuamos a ter uma situação de pobreza e exclusão social e de desigualdade social que é extremamente preocupante”. Apontou ainda que, como houve nos “últimos dois, três anos alguma recuperação dos principais efeitos da crise em termos de indicadores de pobreza”, isso como que “adormeceu” a necessidade de discutir esta questão"

O que conta afinal, é que, neste momento, há 1,8 milhões de pessoas em Portugal, em situação de pobreza. O que na realidade não abona o discurso oficial e demonstra que há certamente muito mais a fazer, quer na esfera das políticas económicas de uma maneira geral, quer ainda nas da saúde, da educação, da justiça e de todas as que dizem respeito aos trabalhadores e à melhoria das condições de trabalho e de bem-estar social.
E demonstra ainda que, a submissão às políticas do directório europeu, é o maior travão à recuperação de condições dignas de vida, de trabalho decente. Para além disso, será necessário levar em linha de conta uma realidade que, a nível nacional e à escala europeia, é assustadora: actualmente ainda existe uma percentagem significativa de pessoas que nascem pobres e continuarão pobres ao logo da uma vida.
Neste preciso momento, na União Europeia do Euro e da NATO, “...uma em cada quatro crianças estão em risco de pobreza ou exclusão social; são no total, 25 milhões de crianças, sendo que a maioria cresceu em famílias pobres, que lutam cada vez mais para lhes proporcionar uma vida digna(3) . Num comunicado datado do dia de hoje, a Rede Europeia Anti-Pobreza, diz “Para uma UE que se orgulha do seu modelo social, estes números, confrangedores, deviam configurar um crime, um ataque aos direitos fundamentais e um fracasso no investimento feito nas pessoas e no nosso futuro”.

As declarações oficiais do PR e do Ministro do Trabalho situam-se infelizmente dentro da habitual retórica que, todos os anos, por esta altura, dominam a cena mediática. Todavia, quando se trata de legislar contra os privilégios daqueles que são os culpados verdadeiros da situação, recuam e cedem a esses mesmos privilégios. Mas, para que tudo fique na mesma e tenha algo que ser feito, fala-se em “estratégia nacional coordenada de combate à pobreza” e de “visão de conjunto que que falta no nosso país”, entre outras mais ou menos redundantes, que eventualmente satisfazem algumas consciências que defendem medidas mais ou menos assistencialistas, porventura os tais “caprichos da boa vontade alheia” de que falava Wresinski.

Lá fora, na nossa rua, no nosso bairro, na nossa cidade, há 1,1 milhões de portugueses que trabalham, mas são pobres, uma realidade que não passa na comunicação social, nem é sequer notícia de telejornal, porque é um “espectáculo” que eventualmente não vende. Contudo é um número que nos deveria envergonhar, dado que representa 10,8% da população e que demonstra que não basta ter um emprego para sair da pobreza. “Mas a verdade é que ainda continuamos com 18,3% de pobres de rendimentos e chegam aos 23,3% os excluídos”, afirma o mesmo comunicado a que atrás aludimos. Por isso, continua, “Não basta ter emprego, é preciso qualificar as pessoas para elas poderem ter acesso a empregos mais bem remunerados e terem mais rendimentos”.

A pobreza extrema é considerada um crime contra os Direitos Humanos, e todos os governos devem assegurar que os seus habitantes vivam com qualidade de vida e dignidade. De acordo com dados da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), mais de 840 milhões de pessoas continuam a passar fome excessiva, em todo o planeta.

Na altura em que Wresinski, reuniu cerca de 100 mil pessoas para celebrar o primeiro Dia Mundial para a Erradicação da Miséria, na Praça dos Direitos Humanos e Liberdade, em Paris, foi colocado um enorme cartaz diante da Torre Eiffel que dizia: “Onde homens e mulheres estão condenados a viver em extrema pobreza, os direitos humanos são violados. Unir-nos para que sejam respeitados é um dever sagrado”.

Há precisamente cento e setenta anos, alguém(4) escrevia assim “A moderna sociedade burguesa, saída do declínio da sociedade feudal, não aboliu as oposições de classes. Apenas pôs novas classes, novas condições de opressão, novas configurações de luta, no lugar das antigas.”
Que gritante actualidade!

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(1) ODS: Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, uma agenda mundial adotada durante a Cimeira das Nações Unidas, em Setembro 2015, composta por 17 objetivos e 169 metas a serem atingidos até 2030; o ODS número 1: “Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares”
(2) A Taxa de Intensidade da Pobreza mede a distância entre o limiar de risco de pobreza e o rendimento mediano das pessoas que estão abaixo desse limiar. Ou seja, a taxa mede o nível de pobreza. Quanto maior é a taxa de intensidade da pobreza, mais pobres são os mais pobres. Entre 2010 e 2015, na União Europeia, a taxa de intensidade de pobreza subiu de 22,9 % para 24,9 %. Em Portugal, no mesmo período, a taxa aumentou de 22,7 % para 29 %
(3) Fonte: EAPN Portugal. A EAPN - European Anti Poverty Network (Rede Europeia Anti-Pobreza) foi fundada em 1990, em Bruxelas, a EAPN está atualmente representada em 31 países, nomeadamente em Portugal. A EAPN Portugal foi criada em 17 de Dezembro de 1991, a é uma organização, reconhecida como Associação de Solidariedade Social, de âmbito nacional, obtendo em 1995 o estatuto de Organização Não Governamental para o Desenvolvimento (ONGD).
(4) Engels & Marx, no Manifesto do Partido Comunista, (1948)




11 outubro 2018

BRASIL, apesar de você (*)


“Apesar de você,
amanhã há-de ser outro dia...”
Apesar de você”, Chico Buarque, 1970

Escrever hoje sobre o Brasil é um exercício doloroso. Porque sempre acreditamos que, apesar de tanto mar, a proximidade é de tal ordem, que nos confundimos num oceano de afectos e cumplicidades. É o ritmo, a fala, a música, o gosto pelo sol e pela alma das coisas. A feijoada, a maminha e os outros sabores, que nos habituamos a compartilhar, com o vinho e a cerveja, bastante se possível. Sim, é tudo isso e mais aquele arrepio às ditaduras, aos coronéis e aos jagunços de lá e de cá, tantos que foram os anos de dominação imperial e assustadoramente, ao que parece, tão actuais. Agora é como se fosse dantes, e pese a enorme e abissal diferença de tempo, quase se podia dizer, de longe se fez perto. 
Assim mesmo.

De entre tudo o que se disse e o que se venha ainda a dizer, sobra porventura a esperança no segundo turno, porque a coisa, apesar de estar agora mais preta, ainda não terminou e a janela fechada pode vir a ser aberta. Sabemos bem que foram quase 50 milhões a votar em você. “Você que inventou esse estado/E inventou de inventar/Toda a escuridão”, vai ver ainda a janela se abrir e talvez a única coisa justa que poderemos fazer é jogar você por ela  fora, como um acto da mais elementar justiça. Para você e para muitos de nós. Não queremos pensar que os 50 milhões acreditam em você. Ouça bem, você nem pense que isso é verdade, “Você vai se amargar/vendo o dia raiar/sem lhe pedir licença/E eu vou morrer de rir/que esse dia há de vir/antes do que você pensa”.
Assim mesmo, vai ver!

Calculo entretanto que deve ser triste ter que votar simplesmente contra. É, mas votar “contra” você, é mesmo um desígnio, você sabe? E sabe decerto que, por esse mundo dentro, há muitos mais milhões que 50, que enchem ruas e praças, a dizer “#Ele Não!”. O “ele” é você, sabia? Mas claro que você, apesar de não saber muita coisa, sabe pelo menos isso. E sabe também que o estar atento e de olho bem aberto, pode ser uma reversão de voto, ao segundo turno.
Assim mesmo, esperamos!

Poderíamos ainda pensar nos erros que cometemos, nas falhas que foram permitidas, num sistema que colapsou. Mas devemos sobretudo pensar no que foi conseguido, nos planos de saúde e de educação, nas terras conquistadas, numa abordagem diferente do poder, tanta coisa boa, agora parecendo esquecida, de forma a valorizar apenas a recusa. E a aceitar o que parece inaceitável, em termos pessoais e sociais, tamanha é a desfaçatez de você, seu capitão da treta, seu algoz que enaltece os algozes. E já agora, “Eu pergunto a você/como vai proibir/quando o galo insistir/em cantar
Assim mesmo, confiamos!

E esperamos que um mar imenso de gente, da gente que está aí, vá votar contra você e que, 
Apesar de você/amanhã há-de ser/outro dia
Assim mesmo, “Você vai se dar mal...”!

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(*) Texto inspirado no tema “Apesar de Você”, de Chico Buarque de Hollanda, escrito no ano 1970, lançada inicialmente como compacto simples naquele mesmo ano. A canção, por lidar implicitamente com a falta de liberdades durante a ditadura militar, foi proibida de ser executada pelas rádios brasileiras pelo governo do general Emílio Médici. Devido à censura, a canção só seria incluída num álbum do cantor em 1978, quando foi lançada como última faixa do álbum Chico Buarque. Fonte Wikipédia


16 setembro 2018

A SUPREMA HIPOCRISIA



1. A propósito da posição do PCP sobre a decisão do Parlamento Europeu relativa à Hungria, disse-se e escreveu-se muita coisa e provavelmente ainda se irá dizer e escrever. É o que acontece normalmente em situações semelhantes, quando posições que são, podem ser, ou parecem ser demasiado controversas, ou mesmo contraditórias com uma retórica de Esquerda. 
Nada nos impele a defender as posições do PCP, nem sequer a justificá-las. Apenas nos limitamos a aceitar (ou não) e eventualmente a subscrever as que entendemos valerem a pena, num quadro de análise que nos afigure justo e politicamente sustentável.
O Parlamento Europeu (PE) votou, a 12 de Setembro, sanções à Hungria. Ao que consta, é a primeira vez na história do chamado projecto europeu, que foi aprovado um relatório que prevê a suspensão dos direitos de voto de um Estado-membro, por força do accionamento do Art. 7º dos Tratados da União Europeia [1], que determina perda de direitos de um país. O que aconteceu na votação do PE, foi uma aprovação maioritária, com 197 eurodeputados contra as sanções e com 48 abstenções. A Hungria é assim condenada por violação do estado de direito, em diversas matérias, como a liberdade de expressão, a lei da greve, a situação nas universidades, a protecção dos direitos das crianças e dos imigrantes, etc.... No texto [2], é referida, por várias vezes, a alegada “...ameaça sistemática aos valores da UE”. Que se sabe serem nomeadamente, o “...respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade, do Estado de direito e do respeito pelos direitos do Homem, incluindo os direitos das pessoas pertencentes a minorias...”
Apesar de manter uma aparência intimidatória, o certo é que esta resolução não dará coisa nenhuma, muito por força dos mecanismos “apertados” das regras impostas, que determinam, por exemplo, a unanimidade para aplicação das ditas sanções. Aliás, segundo fontes próximas da Comissão, "nada deve acontecer", uma vez que a implementação de sanções carece da aprovação, numa primeira fase (para tentar que a Hungria aplique "remédios") de quatro quintos (22) países, em sede do Conselho Europeu. 

2. Na realidade, a prática seguida pelas directivas européias, tem sido, desde os anos 90 do século passado, um arrepio completo aos tais “princípios”, “causas” e “valores” que são agora propalados, com um total e completo desaforo, esquecendo todos os horrores de políticas contra os direitos mais elementares das pessoas e contra a soberania das nações. Será possível algum dia esquecer a influência maléfica da troika, formada pelo Banco Central Europeu (BCE), Fundo Monetário Internacional (FMI) e Comissão Europeia (CE), que destroçou a economia europeia, humilhou, “anexou” e destruiu a Grécia, ocupou o nosso País, perpetrou verdadeiros pactos de agressão para com Estado Membros da dita União? Como contribuiu a dita União para a prometida “coesão nacional”? Teria sido através de uma moeda única, feita à semelhança do marco alemão? Sim, o euro, esse mecanismo de opressão e de dominação, essa excrecência que, pouco a pouco, vai contribuindo para a pobreza e para a miséria e exclusão de milhões de pessoas, coisa impensável em pleno século XXI, para salvar bancos e operações ilícitas de economias de casino. E, se passarmos para a política dita de “defesa” e de “segurança” da UE, temos a imagem verdadeira das intenções do directório europeu, nessa organização belicista e imperialista, que dá pelo nome de NATO, que para além de  gastar impunemente o dinheiro dos contribuintes, em guerras e alianças guerreiras, invadiu e destruiu o Iraque, se ainda temos memória dessa monstruosidade. Sim, a dita União tem responsabilidades acrescidas na cena de guerras e agressões cometidas, sobretudo após a dissolução do Pacto de Varsóvia. E, se agora nos lembrarmos de políticas de imigração e de integração da UE, deparamos com a mais profunda hipocrisia e de incapacidade para resolver problemas, precisamente aqueles que deveriam ser resolvidos, uma vez que resultam (uma boa parte deles) das consequências de politicas erradas e desumanizantes.

3. Sim, a dita União não tem, nem a credibilidade, nem sequer autoridade, para impor sanções a ninguém, a não ser talvez a si própria. As constantes (im)posições, em termos de “conselhos”, “directivas”e “normas”, não passam da mesma face de delírio permanente de dominação. Nem sequer os milhares de milhões, que “chovem” sobre os Estados (vêm afinal de onde?) parecem disfarçar o verdadeiro objectivo: impor a lei do mais forte, contra os que mais não têm que a sua força de trabalho. Todavia e de quando em vez, aparecem “fenômenos” como Orban, que ficam mal na fotografia. E, apesar de este fascista convicto ter emergido graças às políticas dos centrões  social-democrata, democrata-cristão e liberal, o certo é que talvez tenha ido longe de mais. A contaminação fascista segue para a Itália, para a Polónia, para a Finlândia, para... E, o que resta, é um imenso pântano de fenómenos emergentes de descontentamento (pudera!) de uma mole imensa, que sem saber o que fazer, se agarra desesperadamente a lideres como aquele, constituindo aquilo que agora se chama, o(s) populismo(s). As posições de Orban (entre outros) podem eventualmente “estragar os consensos” sobre as políticas de agressão da UE. 

4. Por todas (e outras) razões, a posição do PCP, expressa em comunicado de 12 de Setembro 2018 [3], tem todo o sentido, enquanto denúncia da hipocrisia. Começando por dizer, “Denunciando e condenando firmemente os ataques à democracia, aos direitos sociais, aos direitos liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos na Hungria, os deputados do PCP no PE rejeitam que a pretexto desta situação – aliás, que espelha as políticas da própria UE –, a União Europeia tente abrir caminho ao incremento das suas ameaças, chantagens, imposições e sanções contra os Estados e os seus povos.”, refere ainda que é “...o crescente desrespeito da soberania nacional e dos direitos sociais, que está a abrir caminho ao avanço da extrema-direita e de forças fascizantes na Europa.” E termina, “Por esta razão fundamental, não reconhecemos à UE a autoridade nem a legitimidade para se arvorar em juiz ou sequer referência no que à democracia e aos direitos humanos diz respeito. A intervenção da “troika”, nomeadamente em Portugal, o cariz xenófobo e explorador das políticas migratórias da UE, o apoio dado a forças fascistas na Ucrânia, as agressões contra Estados soberanos – são testemunhos disso mesmo.” Não deixa contudo de denunciar os ataques à liberdade e à democracia naquele País e de manifestar “solidariedade com os comunistas e outros democratas que na Hungria resistem às políticas promovidas pelo Governo húngaro e pela UE.” Não ficaria contudo mal ao PCP, uma referência à luta internacionalista e ao seu contributo para a Paz no Mundo. Faltou apenas isso ao comunicado do Partido, para não deixar dúvidas, quando à questão das “ingerências”. Mas também, é justo que se diga, que o PCP foi o único partido em Portugal que classificou sempre (e bem!) como “pacto de agressão”, a intervenção da troika, no ano 2011.

5. Não está, nem deve estar porém em causa, a boa vontade e honestidade política dos parlamentares europeus que manifestaram e o seu repúdio pela obsessão protofascista   de Orban e seus acólitos (sim, dentro da própria União!) e porque entenderam sobretudo as razões de revolta perante o regime que vigora hoje na Hungria. Haverá decerto alguma ingenuidade, própria de mentes inconformadas. Poderá também haver, neste caso, como em tantos outros, alguma ligeireza de análise de certa Esquerda. Nada que não possa, de futuro, ser corrigido, com uma análise exaustiva e científica de situações do mesmo género.

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[1] In: http://publications.europa.eu/resource/cellar/9e8d52e1-2c70-11e6-b497-01aa75ed71a1.0019.01/DOC_2
[2] In:http://www.europarl.europa.eu/sides/getDoc.do?pubRef=-//EP//TEXT+REPORT+A8-2018-0250+0+DOC+XML+V0//PT#title1
[3] In: http://www.pcp.pt/resolucao-sobre-situacao-na-hungria

 


30 agosto 2018

O ESTÁDIO E A REVOLUÇÃO


  



                                           
A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente” 
Albert Camus










                            
                                  

              “Love Is in the Air”, Banksy  (Reprodução/VEJA)[1]



No longínquo ano de 1918, Vladimir Ilitch Ulianov (Lenine) escreveria “O Estado e a Revolução”, retomando teses de Marx e Engels, refutando Hegel e propondo a abolição do Estado, enquanto tal. Já antes, Max Weber havia definido o Estado "uma entidade que reivindica o monopólio do uso legítimo da força física". A Revolução ganhava foros de atenção mundial e haveria de consolidar na então União Soviética, um regime que iria abolir o czarismo caduco. 
O termo “estado” dá um pouco para tudo. Desde forma do verbo estar, até à solene significância que lhe advém da pose majestática do termo, passando por diferentes formas de conferir substância, nas acepções física ou química, existe ainda a possibilidade de ser associado ao termo “estádio”, quando e se, o contexto semântico da frase assim o permite. Muito embora não sejam sinónimos, os dois termos estão próximos, quando falamos, por exemplo, em período, ou época.

O final esperado da silly season
Mesmo que não possamos associar o estado da situação política, sempre em termos restritos de actualidade, a um estádio, o certo é que algumas arenas (estádios) podem preencher os requisitos mínimos para se considerarem dignos de um estado de atenção. Apenas e só isso, justifica assim que se possam gastar algumas linhas à dita “Aliança”, no contexto da Direita portuguesa, fustigada de há uns tempos a esta parte, pelo flagelo populista e primário de um putativo acerto de contas, ao que se pode saber, com o País. Muito embora este não precise daquela para outra coisa que não seja a destruição progressiva da dignidade mínima da cidadania, o certo é que ela (Direita) existe e tem fervorosos adeptos, particularmente aqueles que anseiam porque nada mude, para manterem intactos os seus privilégios de sempre. E assim, de quando em vez, nomeadamente em estádios de desespero, surgem uns epifenómenos, como a dita Aliança, destinada a emular sentimentos de pertença a uma casta especial de betos, à semelhança perfeita do seu criador.  Seria despiciendo perguntar, mas aliança com quem (?) uma vez que se sabe da cisão com os seus pares e também da concorrência com aquela senhora que anda a passear de comboio de uma companhia que ajudou a destruir. Talvez, aliança consigo mesmo, uma síntese perfeita do ego exacerbado do líder. Também poderia ser, aliança para destruir o partido do Rio, mas tal não parece necessário, tão próxima que aparenta estar uma implosão, muito embora a permanente agitação dê sinais de acalmia, nesta época festiva. É vê-los a multiplicarem iniciativas artificiais de pura demagogia e nenhuma eficácia de oposição.

Love is in the air
Certo. Parece até uma exaltação dos anos 60 do século passado. O arremesso (ainda que de flores se trate) é essencialmente (neste caso concreto) um acto provocatório, que o seu criador utiliza na intervenção política que leva a cabo, por muitos países. Uma forma de intervenção possível, que chama a atenção, que produz quiçá um efeito multiplicativo em algumas consciências, para que despertem. Uma delas avisa todos, "Lamentamos. O estilo de vida que encomendou encontra-se esgotado"[2]. A feliz asserção, produzida para ironizar sobre a recessão económica no Reino Unido, transporta-nos para um mundo (este mesmo...) onde se exploram de forma exagerada os recursos naturais, desencadeando prejuízos ambientais e sociais, e colocando em risco o planeta e a população. 
Podia ser quase um manifesto anti-tudo, porque parece por vezes estar tudo ao contrário. O estádio não é apenas um local onde se pratica o lançamento do dardo. Lançar um ramo de flores, poderia ter um significado revolucionário, semelhante, por exemplo, aos cravos na ponta das espingardas do 25 de Abril.

E afinal,“A que horas começa a Revolução?
Às três. Na praça central[3]
Há pois que estar preparado. É bom levar qualquer coisa para arremessar, para além do ramo de flores, há quem apenas entenda outro tipo de “linguagem”. Retornando a alegoria de Weber, há que a encaixar na moda actual de dominação. Em vez do uso legítimo da força física (que ainda se mantém, em certas situações), estará seguramente a força brutal da dominação da finança de casino, legitimada naturalmente pela versão moderna do capitalismo, uma selva de predadores nada naturais e propagandeada por agentes de comunicação pagos (e bem pagos) para promoverem lavagens ao cérebro, com notícias falsas e comentários orquestrados. Bastará porventura um sinal para acordar, não sendo suficiente um qualquer despertador. De qualquer forma, parece mais que evidente que é necessário começar a nova temporada, marcando pontos em todas as jornadas de luta, somando-os para conseguir a vitória final, a qual, não dando acesso a uma liga milionária, pode significar uma época diferente, no mínimo, com mais consciências despertadas. 
O Estádio é, sem qualquer dúvida a rua. Sabe-se que, estando sempre cheia, é o tal décimo-terceiro jogador, cuja importância ninguém deve subestimar. 
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[1] Este graffiti (também designado de “O Atirador de Flores”), apareceu pela primeira vez em 2003, em Jerusalém, logo após a construção do Muro da Cisjordânia, (760 quilômetros que separam a Cisjordânia palestina de Israel). Banksy voltou em 2005 para pintar uma série de 9 trabalhos de intervenção política, apoiando a liberdade e a igualdade.
[2] No original, “Sorry, the lifstyle you ordered is currently out of stock”, um mural concebido em 2011 e colocado no bairro financeiro Canary Wharf, em Londres, ao lado de um prédio vago dentro de um espaço retangular para anúncios. 
[3] Excerto da obra “O torcicologologista, Excelência”, Gonçalo M. Tavares, Ed. Caminho, 2015 

17 agosto 2018

ESCREVER NA (ou da) ÁGUA









Caravelas, caravelas/
mortas sob as estrelas/
como candeias sem luz...”
João Gil/Luís Represas, “Xácara das Bruxas Dançando”, 1984





Por estes dias visitamos os sítios que nos lembram, reproduzem e vivem na e com a água. E na água encontramos matéria suficiente para pensar, reflectir e perorar sobre a vida que nos cerca, nesta época parva, a que alguns chamam sealy season. Num ápice metemos o pé na água (bolas, está gelada), a temperatura sempre a subir, como aquela música maluca do concerto do Rivoli (quem se lembra?), ouvem-se balelas e trapalhadas, daquelas espécies autóctones que pululam nas redacções a zelar pela (in)tranquilidade da pátria. Pudera ser peixe e morder o isco saboroso da mesquinhez, e estaria a milhas, sem nada para fazer e com um livro interessante na mochila. E à noite, passear em Amarante e curtir o jazz do Hudson[1] 

(Assim como)
Deixei de ler os pasquins da parvónia, ocupados com as frivolidades do costume. Para ser franco, emocionei-me mais com a morte da Madalena Iglésias do que com as asneiras que verteram tanta tinta sobre o envenenamento do Skripal [2]  que, juntas à atitude subserviente dos governos “ocidentais”, fizeram as delícias das mentes normais.

(Falemos de rendas)
Não sei, não. Porque afinal é um assunto tão tabu quanto a virgindade da senhora de Fátima (ou de outra qualquer). Acaba de ser penalizado em mais uns trocos no final do mês, na conta da luz, ou da água, ou seja lá do que for, porque há uns quantos senhores (e senhoras) que têm que manter os lucros das empresas privadas que “investem”, mas que, caso tenham prejuízos, é o Estado que os cobre. E assim vamos alegremente vivendo, com auto-estradas por tudo quanto é sítio e que vazias de nada, esvaziam os bolsos de nós todos. E com a energia e as telecomunicações mais caras da Europa.
Não sei porque estou a falar de futebol. O campeonato ainda mal começou e a rentrée partidária está a parir as dores do verão, para voltar em breve ao centro das ribaltas e dos palcos, que dizem, são mediáticos. Alguns são talvez, pediátricos.

(Alerta)
O meu psiquiatra proibiu-me de falar sobre os professores. O prestimoso médico disse STOP [3]  e eu fiquei aterrado. Mas creio poder falar de enfermeiros e outras profissões, ao que consta, desprezadas pelo poder, mais atento a outras coisas importantes, como por exemplo, a NATO e a defesa não sei bem de quê. E também o défice, claro. 
E, pelo nosso Porto, aquela figura arrogante que ocupa (ainda) a presidência do burgo, vai-nos deliciando com mais (sempre mais) mentiras e inverdades (aprendi em tempos que não são exactamente a mesma coisa), vomitando vulgaridades sobre tudo e mais alguma coisa, mostrando o que é na realidade a leveza insustentável da estupidez.
(E viva a maconha!)
Assim mesmo, a 20 de Junho passado, o Canadá torna-se o segundo país (depois do Uruguai) a autorizar o uso recreativo da maconha. O projeto-lei de regulamentação, foi aprovado pelo Senado canadense, por 52 votos contra 29. O uso medicinal já estava legislado desde o ano 2001. Espera-se agora que o nosso País acorde mais bem-disposto, pensando que daqui a uns tempos, poderemos curtir a cannabis, como qualquer uruguaio ou canadense.

(Os que partem e deixam muita saudade)
Gente boa que nos deixa, o que nos entristece a alma, porque simplesmente nos fazia falta. As breves referências não esgotam a lista. Ao Amigo João (Semedo), ao Arnaut, ao Manuel Martins, ao Tengarrinha, ao Júlio Pomar, à Guida Maria, uma saudade imensa. E ainda à Dolores O'Riordan, aquela que cantava com a alma na boca. E hoje mesmo, a Aretha Franklin, rainha da soul music e activista dos Direitos Humanos.

(As pontes do nosso imaginário)
Enquanto cai uma ponte em Génova, ficamos sem saber que segurança temos e para que pagamos tanto dinheiro para ela (a segurança). A ironia suprema, em pleno século XXI.

(Ainda se fazem bons filmes)
A surpresa (ou não) do verão, chama-se “No Coração da Escuridão", o último filme do Paul Schrader, que já nos deu obras-primas imensas, tantas que já lhe perdemos a conta. Absolutamente imperdível, talvez a melhor “coisa” deste verão.

(Água para quem não precisa)
Ou simplesmente uma rasteira. Havia quem quisesse trazer a fascista Le Pen a Lisboa. Apesar de avisado, o nosso Governo portou-se (outra vez) muito mal, ao alinhar pelo famigerado politicamente correcto. Meteu água, mas não se afunda, que a gente não deixa. E continua a meter água em outras coisas, reformas, carreiras. Mas disso, eu não posso falar agora. 

(Enquanto as bruxas dançam...)
E nós vemos e (pelos vistos) gostamos.
O pintor de Olhão cobraria 130 reis, há precisamente 165 anos, para “Renovar o céu, arranjar as estrelas e lavar a lua” [4]. As coisas agora estão consideravelmente mais caras. Ou melhor, o sistema faz as coisas simples, mais caras, não porque o sejam de facto, mas porque assim tem que ser, para que ele sobreviva. Contudo, acham mesmo que vale a pena “renovar o céu”? Já “arranjar as estrelas”, seja uma forma de nos mantermos atentos às galáxias, onde poderemos ter alguma liberdade, mesmo com a Lua suja da poeira que o planeta Terra produz. É uma questão que não se define, provavelmente. 
A Clarice Lispector escreveu um dia, “Liberdade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome”.
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[1]  Grupo Hudson: Jack DeJohnette, John Scofield, John Medeski e Scott Colley
[2] Sergei Skripal, ex-espião russo
[3] Duas significâncias para este termo: (1) interjeição que significa “Exclamação usada para ordenar a paragem”, segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa; (2) iniciais de “Sindicato de Todos os Professores”, criado aqui há uns dias atrás
[4] Parte de uma factura de um santeiro de Olhão, chamado Joaquim Manuel Alfarrobinha, apresentada em 1853 por um conserto nas capelas do Bom Jesus de Braga, hoje arquivada na Confraria do Bom Jesus do Monte, naquela cidade, in: http://www.olhaocubista.pt/Humor/factura_santeiro.htm




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