OS NATIVISTAS ATERRARAM AQUI
A concepção antiga das ideias inatas, que remonta a Platão e foi “resgatada” por Descartes, vinte séculos depois, incluía um mundo das ideias, um plano perfeito e imutável para o primeiro, ou colocadas na nossa mente por Deus, para o segundo. Ambos os filósofos são inatistas, postulação de um certo determinismo, a ideia de que as qualidades pessoais são ditadas pela sua herança genética e biológica. Hoje em dia, temos o nativismo, uma concepção que atribui a origem de certas noções, particularmente a de espaço, a estruturas congénitas, em oposição ao empirismo, ou ao geneticismo (ou biologismo) que as faz derivar de uma aquisição progressiva pela experiência. A principal qualidade dos nativistas é criar ilusões pela própria imaginação, veja-se a propósito os adeptos dos unicórnios, tão em voga no arrivismo empresarial. Todavia, é na aversão aos estrangeiros que os nativistas modernos criam a sua particular “estimação”: o "nós" (os nativos legítimos) e a exclusão do "eles" (os imigrantes e estrangeiros). A circunstância de terem aterrado aqui será determinada por uma conjuntura favorável e quiçá combatida de forma deficiente ou incompleta. Enquanto os nacionalistas as baseiam no orgulho e no fortalecimento da nação como um todo, os nativistas preocupam-se sobretudo na distinção interna entre "quem é genuinamente da terra" e "quem vem de fora", associando-se muitas vezes a formas primárias de xenofobia. O que acontece é o facto de a extrema-direita europeia ter adoptado o “nativismo” como denominação técnica da ideia de que há uma população “autóctone” legítima e que os outros são intrusos. Esta é, sem sobra de dúvida, uma constatação necessária.
Há um artigo que pode ser explorado, no mínimo para lhe fazer uma crítica progressista. Trata-se de “Rents, refugees, and the populist radical right”, dos professores de Ciência Política, o alemão Alexander Held e a finlandesa Pauliina Patana. Os dois Autores são investigadores de economia política comparada, do comportamento dos eleitores e dos factores sócio-económicos que impulsionam o crescimento dos partidos de extrema-direita e do populismo na Europa. O artigo em questão sustenta que a subida das rendas na habitação constitui um factor explicativo relevante do voto na direita radical populista e das atitudes anti-imigração na Alemanha. Ao tratar a hostilidade anti-imigração como efeito da ansiedade económica, o estudo tende a despolitizar o nativismo, que é menos uma reacção espontânea à escassez do que uma narrativa racializada preexistente, reactivada e instrumentalizada politicamente. Os Autores tentam demonstrar, com dados individuais para a Alemanha, que a subida das rendas está associada ao voto na AfD e às atitudes hostis em relação aos refugiados. O achado é relevante e desconfortável para quem prefira ignorar a materialidade da crise da habitação. Mas a interpretação dominante do estudo encerra um vício de origem: ao apresentar o nativismo como consequência da ansiedade económica, acaba por naturalizar aquilo que é, na verdade, uma construção ideológica. A hostilidade anti-imigração não nasce da renda, é antes, uma narrativa racializada há muito, que a questão das rendas torna apenas mais audível. E há uma pergunta que o artigo não faz: se a crise da habitação alimenta a extrema-direita, porque é que a esquerda, que deveria ser a sua voz natural, não capitalizou esse descontentamento? A questão é que a resposta não estará nos inquilinos, mas, muito provavelmente, na esquerda, que terá secundarizado a perspectiva de classe do problema. Para entender o problema da resignação da esquerda moderna, o filósofo britânico Mark Fisher, deu um importante contributo, argumentando que o capitalismo ocupou todas as esferas da imaginação. O Autor diz-nos, na sua obra de 2009, “Capitalist Realism: There is no Alternative?", com edição portuguesa lançada em 2020
“Realismo Capitalista: Não haverá alternativa? " que, após a queda do Muro de Berlim e a crise de 2008, o capitalismo se consolidou não apenas como o único sistema viável, mas como a própria realidade impossível de ser contestada. Fisher explora a forma como essa ideologia permeia todas as áreas da vida, da cultura pop à saúde mental, tornando impensável a criação de alternativas ao sistema.
Nunca será demais reafirmar a posição da auto-designada “união europeia”, essa construção que tem mostrado, com o passar dos anos, ter sido o pior que aconteceu à Europa, no que reporta ao retrocesso generalizado de garantias aos cidadãos, particularmente aos imigrantes. Que não restem quaisquer ilusões: o nativismo não é uma invenção da extrema-direita. A extrema-direita apenas o diz em voz alta. O nativismo está presente, de forma mais ou menos disfarçada, em partidos, governos e instituições que se reclamam dos direitos humanos e da solidariedade. Está presente nesta “união”, que financia muros e arame farpado enquanto declara que respeita a Convenção de Genebra. Está presente nos Estados-membros que acolhem ucranianos de braços abertos e fecham as portas a sírios, sudaneses e palestinianos. Está presente, também, em sectores da esquerda que confundem a crítica às políticas migratórias neoliberais com a hostilidade aos próprios migrantes.
Existe ainda uma tensão latente, entre o internacionalismo proletário clássico e o que alguns sectores da esquerda contemporânea adoptaram como "realismo" eleitoral ou "soberanismo de esquerda". Para desfazer alguns “equívocos”, convirá reler os ensinamentos de Marx sobre o capitalismo, um sistema intrinsecamente global que produz não apenas mercadorias, mas também subjectividades e formas de vida. As ideias inatas dos nativistas e dos que, não sendo nativistas, se comportam de forma enviesada perante situações concretas do dia-a-dia, mostram a sua evidência: a dificuldade em saber interpretar e, consequentemente, viver numa sociedade miscigenada e multicultural. Aliás, para os mais distraídos, convirá dizer que a população portuguesa resulta de milénios de miscigenação entre celtas, iberos, romanos, germânicos, árabes, berberes e judeus. Os que hoje se comportam de forma tíbia perante as questões da imigração estão a contribuir para a designada gestão melancólica do capitalismo, como bem retrata a professora e feminista norte-americana Jodi Dean, que tem centrado o seu trabalho académico e militante na crítica directa e frontal às estruturas liberais e à necessidade urgente de reconstruir uma organização política colectiva capaz de desafiar o capitalismo moderno. Porque, na verdade, o capitalismo não precisa de fronteiras para explorar, mas precisa delas para dividir. Nas questões da imigração, é importante passar a mensagem, aos nativistas que aqui aterraram e aos que, com medo e cinismo, vão erguendo mais alguns muros: há que garantir o direito a viver, onde se nasceu e onde não se nasceu.