Há uma nova geração de historiadores, antropólogos e outros investigadores, que têm vindo a dedicar a sua atenção ao estudo do fascismo, tentando libertá-lo tanto de uma visão exclusivamente histórica e saudosista, como de uma abordagem puramente moral. Grande parte dos investigadores parece caracterizar os novos fascismos à luz da análise económica, da dissecção da cultura e do estudo das novas formas da política na era digital. Um dos sinais eventualmente preocupantes poderá ser o engajamento constante e permanente de pessoas, através de mensagens e outros aliciamentos no que pode significar um compromisso assumido com o fenómeno da “desdemocracia”, enquanto atitude anti-democrática e objectivamente mistificadora.
A comunidade científica está na linha da frente, procurando definir continuidades e rupturas. Vários autores, sobretudo da filosofia política, têm explorado o fascismo como um espectro assustador que reside dentro da própria democracia. O semiólogo e activista revolucionário francês Félix Guattari criou uma série de movimentos e fundou alguns dispositivos políticos, para explicar e demonstrar a existência de um "desejo pelo fascismo" que atravessa a sociedade, uma pulsão por respostas simples, pertença e "limpeza" política. Este é um diagnóstico muito incómodo e sofisticado: o fascismo não é uma força externa que nos invade, mas uma tentação interna que emerge nos momentos de crise. O historiador e investigador italiano Steven Forti especializou-se no estudo do fascismo, nacionalismo e movimentos de extrema-direita na Europa e a nível global. A sua obra centra-se nas descontinuidades e na forma como o fascismo clássico se transformou no neofascismo, pós-fascismo e nas novas extremas-direitas 2.0, na era da globalização e da comunicação digital. Esta "nova vaga" de pensamento combina o rigor analítico da economia com a sensibilidade da cultura e a estratégia da comunicação digital.
"Desdemocracia" seria, por exemplo, um regime político interno que espelha um sistema que simula participação e multilateralismo entre Estados, mas que na realidade concentra poder e esvazia a soberania dos seus membros, tese aliás defendida pelo professor de ciência política e teórico das relações internacionais norte-americano, John Mearsheimer. A vocação das organizações neofascistas de hoje não é propriamente a violência de rua à moda antiga, mas sim a erosão da democracia por dentro. A sua principal ameaça não é derivada de uma estratégia de normalização de discurso, tão-somente da criação de uma "metapolítica", onde a batalha cultural e o controlo da narrativa são tão importantes como a luta eleitoral. Utilizam , na sua prática, a elevada potência do uso das novas tecnologias e da criação de comunidades online coesas, estando mais bem adaptada ao presente do que a esquerda tradicional. A extrema-direita é a principal ameaça às democracias pluralistas, mas Forti considera-a também um sintoma de falhas estruturais, com manifestas desigualdades e um descontentamento generalizado.
Dos pressupostos à acção irá hoje um pequeno passo. Um outro conceito, conhecido como a “fábrica de consentimento”, intimamente ligado à “desdemocracia”, inspira-se numa democracia vazada pela manipulação, elitismo e consentimento fabricado. Chomsky fala abertamente na fabricação do consentimento, querendo transmitir a ideia de elites que o fabricam artificialmente para manter a ordem social e o consumo, através da “comunicação social”, do marketing e da psicologia, “fabricando” propaganda para moldar desejos, crenças e decisões políticas sem que as massas entendam a manipulação. Um exemplo paradigmático é a Suécia, onde a adesão à NATO foi impingida pelas autoridades administrativas como uma emergência absoluta, pondo fim à sua política de neutralidade de duzentos anos. Sem qualquer mecanismo de consulta aos cidadãos, o governo decreta a adesão, justificando a ameaça da Rússia, uma mistificação tão bem ou tão mal engendrada que provocou uma queda dos 68% dos suecos inquiridos em 2024 a favor da adesão à NATO para os 47% actuais. Assim se “fabrica” o consentimento e se “produz” desdemocracia em massa.
Saber se existe hoje um compromisso desdemocrático para liquidar de vez as velhas democracias burguesas, apelidadas tecnicamente de “liberais”, é um ponto central na política internacional. Um compromisso do género está intimamente ligado ao ascenso do fascismo, oriundo precisamente do interior dessas “democracias”. Duas intelectuais norte-americanas têm advogado a tese de que o neoliberalismo corrói a soberania popular: a professora de ciência política Wendy Brown e a filósofa Nancy Fraser. Enquanto Brown fala na forma como o neoliberalismo “economiza” tudo, incluindo a política e a democracia, a natureza do Estado e a soberania, Fraser aborda a “crise de hegemonia” da democracia liberal capturada por forças neoliberais e populistas.
Captura e consentimento, ligadas intimamente, terão contribuído de forma decisiva para a degradação irreversível das “democracias liberais” na Europa, com prejuízos substanciais para os cidadãos, particularmente para os trabalhadores. A construção do edifício europeu de cima para baixo, ainda que de início eivada de putativos bons propósitos, fez proliferar burocratas de espécie mais que duvidosa e intenções malévolas quanto à gestão e direcção das instituições. O exemplo mais evidente da aplicação de princípios e regras desajustados e mal formados, atingiu o cume há onze anos, na Grécia: o país foi impiedosamente “invadido” por três entidades não-democráticas predadoras, uma “troica” que provocou a devastação, impondo a sua lei macabra, para fazer um povo refém dos burocratas do Banco Central Europeu, do Fundo Monetário Internacional e, claro, dessa entidade não-eleita e fiel canina dos senhores do dinheiro e da guerra que dá pelo cândido nome de Comissão Europeia. O realizador grego Costa-Gavras retratou em filme, no final de 2019, de modo sublime, a crueldade do capitalismo, na sua versão neoliberal, aquando da imposição do programa de austeridade à Grécia, em 2015. Baseou-se na obra de Yanis Varoufakis, “Comportem-se como Adultos, A Minha Luta Contra o Establishment na Europa” o economista grego que foi ministro das Finanças durante o primeiro semestre de 2015, durante o Governo do Syriza.
Os burocratas que actualmente detêm o verdadeiro Poder nesta Europa decadente, suportados e pagos com o dinheiro dos contribuintes, têm semeado a confusão, a miséria e a guerra, constituem o melhor exemplo de um compromisso anti-democrático, uma conveniente “desdemocracia” . Nada será de esperar desta estirpe que destruiu a Europa e que, ao instituir o fascismo como um espectro assustador dentro da própria democracia, estabeleceu um compromisso que é urgente erradicar.

