17 outubro 2018






O objectivo do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) a 22 de dezembro de 1992, é mobilizar esforços no combate à pobreza, que continua a provocar vítimas, não obstante a humanidade conseguir produzir a quantidade de alimento necessário para responder às necessidades de todas as pessoas do mundo. Esta iniciativa, data de 17 de outubro de 1987, por iniciativa do padre católico francês Joseph Wresinski, de quem é conhecida a declaração, “Não é de alimentos nem de roupa que (os pobres) mais precisam, mas sim de dignidade. Precisam, sobretudo, de não estarem dependentes do que querem ou não querem os outros, dependentes dos caprichos da boa vontade alheia.”

Desde essa data até à actualidade, múltiplas iniciativas têm surgido, no panorama internacional, com idêntico objectivo. Todavia, é na Agenda das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, de Setembro de 2015, que é explicitada a erradicação da pobreza, devidamente registada no ODS(1) número 1. 
Os números das estatísticas mostram que no ano 1990, haveria 1,9 biliões de pessoas no mundo, a viver em situação de pobreza extrema. Em 2016, registaríamos 836 milhões de pessoas; o sul da Ásia e a África Subsaariana são as regiões onde reside a esmagadora maioria das pessoas que vivem em situação de pobreza extrema.

No nosso País, registava-se em 2008, uma percentagem de taxa de pobreza de 17,9%. Mas, apesar das melhorias económicas dos últimos 3 anos, esse valor é agora de 18,3%, que representa mais de 1,8 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema. A PORDATA regista aliás nesse ano (2016) para o que define como “Taxa de intensidade da pobreza”(2), um valor de 27%! 
O professor Associado do ISEG, investigador Farinha Rodrigues, assinalou em entrevista à agência Lusa, que “Apesar das melhorias significativas que se verificaram nos últimos anos, continuamos a ter uma situação de pobreza e exclusão social e de desigualdade social que é extremamente preocupante”. Apontou ainda que, como houve nos “últimos dois, três anos alguma recuperação dos principais efeitos da crise em termos de indicadores de pobreza”, isso como que “adormeceu” a necessidade de discutir esta questão"

O que conta afinal, é que, neste momento, há 1,8 milhões de pessoas em Portugal, em situação de pobreza. O que na realidade não abona o discurso oficial e demonstra que há certamente muito mais a fazer, quer na esfera das políticas económicas de uma maneira geral, quer ainda nas da saúde, da educação, da justiça e de todas as que dizem respeito aos trabalhadores e à melhoria das condições de trabalho e de bem-estar social.
E demonstra ainda que, a submissão às políticas do directório europeu, é o maior travão à recuperação de condições dignas de vida, de trabalho decente. Para além disso, será necessário levar em linha de conta uma realidade que, a nível nacional e à escala europeia, é assustadora: actualmente ainda existe uma percentagem significativa de pessoas que nascem pobres e continuarão pobres ao logo da uma vida.
Neste preciso momento, na União Europeia do Euro e da NATO, “...uma em cada quatro crianças estão em risco de pobreza ou exclusão social; são no total, 25 milhões de crianças, sendo que a maioria cresceu em famílias pobres, que lutam cada vez mais para lhes proporcionar uma vida digna(3) . Num comunicado datado do dia de hoje, a Rede Europeia Anti-Pobreza, diz “Para uma UE que se orgulha do seu modelo social, estes números, confrangedores, deviam configurar um crime, um ataque aos direitos fundamentais e um fracasso no investimento feito nas pessoas e no nosso futuro”.

As declarações oficiais do PR e do Ministro do Trabalho situam-se infelizmente dentro da habitual retórica que, todos os anos, por esta altura, dominam a cena mediática. Todavia, quando se trata de legislar contra os privilégios daqueles que são os culpados verdadeiros da situação, recuam e cedem a esses mesmos privilégios. Mas, para que tudo fique na mesma e tenha algo que ser feito, fala-se em “estratégia nacional coordenada de combate à pobreza” e de “visão de conjunto que que falta no nosso país”, entre outras mais ou menos redundantes, que eventualmente satisfazem algumas consciências que defendem medidas mais ou menos assistencialistas, porventura os tais “caprichos da boa vontade alheia” de que falava Wresinski.

Lá fora, na nossa rua, no nosso bairro, na nossa cidade, há 1,1 milhões de portugueses que trabalham, mas são pobres, uma realidade que não passa na comunicação social, nem é sequer notícia de telejornal, porque é um “espectáculo” que eventualmente não vende. Contudo é um número que nos deveria envergonhar, dado que representa 10,8% da população e que demonstra que não basta ter um emprego para sair da pobreza. “Mas a verdade é que ainda continuamos com 18,3% de pobres de rendimentos e chegam aos 23,3% os excluídos”, afirma o mesmo comunicado a que atrás aludimos. Por isso, continua, “Não basta ter emprego, é preciso qualificar as pessoas para elas poderem ter acesso a empregos mais bem remunerados e terem mais rendimentos”.

A pobreza extrema é considerada um crime contra os Direitos Humanos, e todos os governos devem assegurar que os seus habitantes vivam com qualidade de vida e dignidade. De acordo com dados da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), mais de 840 milhões de pessoas continuam a passar fome excessiva, em todo o planeta.

Na altura em que Wresinski, reuniu cerca de 100 mil pessoas para celebrar o primeiro Dia Mundial para a Erradicação da Miséria, na Praça dos Direitos Humanos e Liberdade, em Paris, foi colocado um enorme cartaz diante da Torre Eiffel que dizia: “Onde homens e mulheres estão condenados a viver em extrema pobreza, os direitos humanos são violados. Unir-nos para que sejam respeitados é um dever sagrado”.

Há precisamente cento e setenta anos, alguém(4) escrevia assim “A moderna sociedade burguesa, saída do declínio da sociedade feudal, não aboliu as oposições de classes. Apenas pôs novas classes, novas condições de opressão, novas configurações de luta, no lugar das antigas.”
Que gritante actualidade!

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(1) ODS: Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, uma agenda mundial adotada durante a Cimeira das Nações Unidas, em Setembro 2015, composta por 17 objetivos e 169 metas a serem atingidos até 2030; o ODS número 1: “Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares”
(2) A Taxa de Intensidade da Pobreza mede a distância entre o limiar de risco de pobreza e o rendimento mediano das pessoas que estão abaixo desse limiar. Ou seja, a taxa mede o nível de pobreza. Quanto maior é a taxa de intensidade da pobreza, mais pobres são os mais pobres. Entre 2010 e 2015, na União Europeia, a taxa de intensidade de pobreza subiu de 22,9 % para 24,9 %. Em Portugal, no mesmo período, a taxa aumentou de 22,7 % para 29 %
(3) Fonte: EAPN Portugal. A EAPN - European Anti Poverty Network (Rede Europeia Anti-Pobreza) foi fundada em 1990, em Bruxelas, a EAPN está atualmente representada em 31 países, nomeadamente em Portugal. A EAPN Portugal foi criada em 17 de Dezembro de 1991, a é uma organização, reconhecida como Associação de Solidariedade Social, de âmbito nacional, obtendo em 1995 o estatuto de Organização Não Governamental para o Desenvolvimento (ONGD).
(4) Engels & Marx, no Manifesto do Partido Comunista, (1948)




11 outubro 2018

BRASIL, apesar de você (*)


“Apesar de você,
amanhã há-de ser outro dia...”
Apesar de você”, Chico Buarque, 1970

Escrever hoje sobre o Brasil é um exercício doloroso. Porque sempre acreditamos que, apesar de tanto mar, a proximidade é de tal ordem, que nos confundimos num oceano de afectos e cumplicidades. É o ritmo, a fala, a música, o gosto pelo sol e pela alma das coisas. A feijoada, a maminha e os outros sabores, que nos habituamos a compartilhar, com o vinho e a cerveja, bastante se possível. Sim, é tudo isso e mais aquele arrepio às ditaduras, aos coronéis e aos jagunços de lá e de cá, tantos que foram os anos de dominação imperial e assustadoramente, ao que parece, tão actuais. Agora é como se fosse dantes, e pese a enorme e abissal diferença de tempo, quase se podia dizer, de longe se fez perto. 
Assim mesmo.

De entre tudo o que se disse e o que se venha ainda a dizer, sobra porventura a esperança no segundo turno, porque a coisa, apesar de estar agora mais preta, ainda não terminou e a janela fechada pode vir a ser aberta. Sabemos bem que foram quase 50 milhões a votar em você. “Você que inventou esse estado/E inventou de inventar/Toda a escuridão”, vai ver ainda a janela se abrir e talvez a única coisa justa que poderemos fazer é jogar você por ela  fora, como um acto da mais elementar justiça. Para você e para muitos de nós. Não queremos pensar que os 50 milhões acreditam em você. Ouça bem, você nem pense que isso é verdade, “Você vai se amargar/vendo o dia raiar/sem lhe pedir licença/E eu vou morrer de rir/que esse dia há de vir/antes do que você pensa”.
Assim mesmo, vai ver!

Calculo entretanto que deve ser triste ter que votar simplesmente contra. É, mas votar “contra” você, é mesmo um desígnio, você sabe? E sabe decerto que, por esse mundo dentro, há muitos mais milhões que 50, que enchem ruas e praças, a dizer “#Ele Não!”. O “ele” é você, sabia? Mas claro que você, apesar de não saber muita coisa, sabe pelo menos isso. E sabe também que o estar atento e de olho bem aberto, pode ser uma reversão de voto, ao segundo turno.
Assim mesmo, esperamos!

Poderíamos ainda pensar nos erros que cometemos, nas falhas que foram permitidas, num sistema que colapsou. Mas devemos sobretudo pensar no que foi conseguido, nos planos de saúde e de educação, nas terras conquistadas, numa abordagem diferente do poder, tanta coisa boa, agora parecendo esquecida, de forma a valorizar apenas a recusa. E a aceitar o que parece inaceitável, em termos pessoais e sociais, tamanha é a desfaçatez de você, seu capitão da treta, seu algoz que enaltece os algozes. E já agora, “Eu pergunto a você/como vai proibir/quando o galo insistir/em cantar
Assim mesmo, confiamos!

E esperamos que um mar imenso de gente, da gente que está aí, vá votar contra você e que, 
Apesar de você/amanhã há-de ser/outro dia
Assim mesmo, “Você vai se dar mal...”!

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(*) Texto inspirado no tema “Apesar de Você”, de Chico Buarque de Hollanda, escrito no ano 1970, lançada inicialmente como compacto simples naquele mesmo ano. A canção, por lidar implicitamente com a falta de liberdades durante a ditadura militar, foi proibida de ser executada pelas rádios brasileiras pelo governo do general Emílio Médici. Devido à censura, a canção só seria incluída num álbum do cantor em 1978, quando foi lançada como última faixa do álbum Chico Buarque. Fonte Wikipédia


16 setembro 2018

A SUPREMA HIPOCRISIA


1. A propósito da posição do PCP sobre a decisão do Parlamento Europeu relativa à Hungria, disse-se e escreveu-se muita coisa e provavelmente ainda se irá dizer e escrever. É o que acontece normalmente em situações semelhantes, quando posições que são, podem ser, ou parecem ser demasiado controversas, ou mesmo contraditórias com uma retórica de Esquerda. 
Nada nos impele a defender as posições do PCP, nem sequer a justificá-las. Apenas nos limitamos a aceitar (ou não) e eventualmente a subscrever as que entendemos valerem a pena, num quadro de análise que nos afigure justo e politicamente sustentável.
O Parlamento Europeu (PE) votou, a 12 de Setembro, sanções à Hungria. Ao que consta, é a primeira vez na história do chamado projecto europeu, que foi aprovado um relatório que prevê a suspensão dos direitos de voto de um Estado-membro, por força do accionamento do Art. 7º dos Tratados da União Europeia [1], que determina perda de direitos de um país. O que aconteceu na votação do PE, foi uma aprovação maioritária, com 197 eurodeputados contra as sanções e com 48 abstenções. A Hungria é assim condenada por violação do estado de direito, em diversas matérias, como a liberdade de expressão, a lei da greve, a situação nas universidades, a protecção dos direitos das crianças e dos imigrantes, etc.... No texto [2], é referida, por várias vezes, a alegada “...ameaça sistemática aos valores da UE”. Que se sabe serem nomeadamente, o “...respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade, do Estado de direito e do respeito pelos direitos do Homem, incluindo os direitos das pessoas pertencentes a minorias...”
Apesar de manter uma aparência intimidatória, o certo é que esta resolução não dará coisa nenhuma, muito por força dos mecanismos “apertados” das regras impostas, que determinam, por exemplo, a unanimidade para aplicação das ditas sanções. Aliás, segundo fontes próximas da Comissão, "nada deve acontecer", uma vez que a implementação de sanções carece da aprovação, numa primeira fase (para tentar que a Hungria aplique "remédios") de quatro quintos (22) países, em sede do Conselho Europeu. 

2. Na realidade, a prática seguida pelas directivas européias, tem sido, desde os anos 90 do século passado, um arrepio completo aos tais “princípios”, “causas” e “valores” que são agora propalados, com um total e completo desaforo, esquecendo todos os horrores de políticas contra os direitos mais elementares das pessoas e contra a soberania das nações. Será possível algum dia esquecer a influência maléfica da troika, formada pelo Banco Central Europeu (BCE), Fundo Monetário Internacional (FMI) e Comissão Europeia (CE), que destroçou a economia europeia, humilhou, “anexou” e destruiu a Grécia, ocupou o nosso País, perpetrou verdadeiros pactos de agressão para com Estado Membros da dita União? Como contribuiu a dita União para a prometida “coesão nacional”? Teria sido através de uma moeda única, feita à semelhança do marco alemão? Sim, o euro, esse mecanismo de opressão e de dominação, essa excrecência que, pouco a pouco, vai contribuindo para a pobreza e para a miséria e exclusão de milhões de pessoas, coisa impensável em pleno século XXI, para salvar bancos e operações ilícitas de economias de casino. E, se passarmos para a política dita de “defesa” e de “segurança” da UE, temos a imagem verdadeira das intenções do directório europeu, nessa organização belicista e imperialista, que dá pelo nome de NATO, que para além de  gastar impunemente o dinheiro dos contribuintes, em guerras e alianças guerreiras, invadiu e destruiu o Iraque, se ainda temos memória dessa monstruosidade. Sim, a dita União tem responsabilidades acrescidas na cena de guerras e agressões cometidas, sobretudo após a dissolução do Pacto de Varsóvia. E, se agora nos lembrarmos de políticas de imigração e de integração da UE, deparamos com a mais profunda hipocrisia e de incapacidade para resolver problemas, precisamente aqueles que deveriam ser resolvidos, uma vez que resultam (uma boa parte deles) das consequências de politicas erradas e desumanizantes.

3. Sim, a dita União não tem, nem a credibilidade, nem sequer autoridade, para impor sanções a ninguém, a não ser talvez a si própria. As constantes (im)posições, em termos de “conselhos”, “directivas”e “normas”, não passam da mesma face de delírio permanente de dominação. Nem sequer os milhares de milhões, que “chovem” sobre os Estados (vêm afinal de onde?) parecem disfarçar o verdadeiro objectivo: impor a lei do mais forte, contra os que mais não têm que a sua força de trabalho. Todavia e de quando em vez, aparecem “fenômenos” como Orban, que ficam mal na fotografia. E, apesar de este fascista convicto ter emergido graças às políticas dos centrões  social-democrata, democrata-cristão e liberal, o certo é que talvez tenha ido longe de mais. A contaminação fascista segue para a Itália, para a Polónia, para a Finlândia, para... E, o que resta, é um imenso pântano de fenómenos emergentes de descontentamento (pudera!) de uma mole imensa, que sem saber o que fazer, se agarra desesperadamente a lideres como aquele, constituindo aquilo que agora se chama, o(s) populismo(s). As posições de Orban (entre outros) podem eventualmente “estragar os consensos” sobre as políticas de agressão da UE. 

4. Por todas (e outras) razões, a posição do PCP, expressa em comunicado de 12 de Setembro 2018 [3], tem todo o sentido, enquanto denúncia da hipocrisia. Começando por dizer, “Denunciando e condenando firmemente os ataques à democracia, aos direitos sociais, aos direitos liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos na Hungria, os deputados do PCP no PE rejeitam que a pretexto desta situação – aliás, que espelha as políticas da própria UE –, a União Europeia tente abrir caminho ao incremento das suas ameaças, chantagens, imposições e sanções contra os Estados e os seus povos.”, refere ainda que é “...o crescente desrespeito da soberania nacional e dos direitos sociais, que está a abrir caminho ao avanço da extrema-direita e de forças fascizantes na Europa.” E termina, “Por esta razão fundamental, não reconhecemos à UE a autoridade nem a legitimidade para se arvorar em juiz ou sequer referência no que à democracia e aos direitos humanos diz respeito. A intervenção da “troika”, nomeadamente em Portugal, o cariz xenófobo e explorador das políticas migratórias da UE, o apoio dado a forças fascistas na Ucrânia, as agressões contra Estados soberanos – são testemunhos disso mesmo.” Não deixa contudo de denunciar os ataques à liberdade e à democracia naquele País e de manifestar “solidariedade com os comunistas e outros democratas que na Hungria resistem às políticas promovidas pelo Governo húngaro e pela UE.” Não ficaria contudo mal ao PCP, uma referência à luta internacionalista e ao seu contributo para a Paz no Mundo. Faltou apenas isso ao comunicado do Partido, para não deixar dúvidas, quando à questão das “ingerências”. Mas também, é justo que se diga, que o PCP foi o único partido em Portugal que classificou sempre (e bem!) como “pacto de agressão”, a intervenção da troika, no ano 2011.

5. Não está, nem deve estar porém em causa, a boa vontade e honestidade política dos parlamentares europeus que manifestaram e o seu repúdio pela obsessão protofascista   de Orban e seus acólitos (sim, dentro da própria União!) e porque entenderam sobretudo as razões de revolta perante o regime que vigora hoje na Hungria. Haverá decerto alguma ingenuidade, própria de mentes inconformadas. Poderá também haver, neste caso, como em tantos outros, alguma ligeireza de análise de certa Esquerda. Nada que não possa, de futuro, ser corrigido, com uma análise exaustiva e científica de situações do mesmo género.

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[1] In: http://publications.europa.eu/resource/cellar/9e8d52e1-2c70-11e6-b497-01aa75ed71a1.0019.01/DOC_2
[2] In:http://www.europarl.europa.eu/sides/getDoc.do?pubRef=-//EP//TEXT+REPORT+A8-2018-0250+0+DOC+XML+V0//PT#title1
[3] In: http://www.pcp.pt/resolucao-sobre-situacao-na-hungria

 


30 agosto 2018

O ESTÁDIO E A REVOLUÇÃO


  


                                           
A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente” 
Albert Camus










                            
                                  

              “Love Is in the Air”, Banksy  (Reprodução/VEJA)[1]



No longínquo ano de 1918, Vladimir Ilitch Ulianov (Lenine) escreveria “O Estado e a Revolução”, retomando teses de Marx e Engels, refutando Hegel e propondo a abolição do Estado, enquanto tal. Já antes, Max Weber havia definido o Estado "uma entidade que reivindica o monopólio do uso legítimo da força física". A Revolução ganhava foros de atenção mundial e haveria de consolidar na então União Soviética, um regime que iria abolir o czarismo caduco. 
O termo “estado” dá um pouco para tudo. Desde forma do verbo estar, até à solene significância que lhe advém da pose majestática do termo, passando por diferentes formas de conferir substância, nas acepções física ou química, existe ainda a possibilidade de ser associado ao termo “estádio”, quando e se, o contexto semântico da frase assim o permite. Muito embora não sejam sinónimos, os dois termos estão próximos, quando falamos, por exemplo, em período, ou época.

O final esperado da silly season
Mesmo que não possamos associar o estado da situação política, sempre em termos restritos de actualidade, a um estádio, o certo é que algumas arenas (estádios) podem preencher os requisitos mínimos para se considerarem dignos de um estado de atenção. Apenas e só isso, justifica assim que se possam gastar algumas linhas à dita “Aliança”, no contexto da Direita portuguesa, fustigada de há uns tempos a esta parte, pelo flagelo populista e primário de um putativo acerto de contas, ao que se pode saber, com o País. Muito embora este não precise daquela para outra coisa que não seja a destruição progressiva da dignidade mínima da cidadania, o certo é que ela (Direita) existe e tem fervorosos adeptos, particularmente aqueles que anseiam porque nada mude, para manterem intactos os seus privilégios de sempre. E assim, de quando em vez, nomeadamente em estádios de desespero, surgem uns epifenómenos, como a dita Aliança, destinada a emular sentimentos de pertença a uma casta especial de betos, à semelhança perfeita do seu criador.  Seria despiciendo perguntar, mas aliança com quem (?) uma vez que se sabe da cisão com os seus pares e também da concorrência com aquela senhora que anda a passear de comboio de uma companhia que ajudou a destruir. Talvez, aliança consigo mesmo, uma síntese perfeita do ego exacerbado do líder. Também poderia ser, aliança para destruir o partido do Rio, mas tal não parece necessário, tão próxima que aparenta estar uma implosão, muito embora a permanente agitação dê sinais de acalmia, nesta época festiva. É vê-los a multiplicarem iniciativas artificiais de pura demagogia e nenhuma eficácia de oposição.

Love is in the air
Certo. Parece até uma exaltação dos anos 60 do século passado. O arremesso (ainda que de flores se trate) é essencialmente (neste caso concreto) um acto provocatório, que o seu criador utiliza na intervenção política que leva a cabo, por muitos países. Uma forma de intervenção possível, que chama a atenção, que produz quiçá um efeito multiplicativo em algumas consciências, para que despertem. Uma delas avisa todos, "Lamentamos. O estilo de vida que encomendou encontra-se esgotado"[2]. A feliz asserção, produzida para ironizar sobre a recessão económica no Reino Unido, transporta-nos para um mundo (este mesmo...) onde se exploram de forma exagerada os recursos naturais, desencadeando prejuízos ambientais e sociais, e colocando em risco o planeta e a população. 
Podia ser quase um manifesto anti-tudo, porque parece por vezes estar tudo ao contrário. O estádio não é apenas um local onde se pratica o lançamento do dardo. Lançar um ramo de flores, poderia ter um significado revolucionário, semelhante, por exemplo, aos cravos na ponta das espingardas do 25 de Abril.

E afinal,“A que horas começa a Revolução?
Às três. Na praça central[3]
Há pois que estar preparado. É bom levar qualquer coisa para arremessar, para além do ramo de flores, há quem apenas entenda outro tipo de “linguagem”. Retornando a alegoria de Weber, há que a encaixar na moda actual de dominação. Em vez do uso legítimo da força física (que ainda se mantém, em certas situações), estará seguramente a força brutal da dominação da finança de casino, legitimada naturalmente pela versão moderna do capitalismo, uma selva de predadores nada naturais e propagandeada por agentes de comunicação pagos (e bem pagos) para promoverem lavagens ao cérebro, com notícias falsas e comentários orquestrados. Bastará porventura um sinal para acordar, não sendo suficiente um qualquer despertador. De qualquer forma, parece mais que evidente que é necessário começar a nova temporada, marcando pontos em todas as jornadas de luta, somando-os para conseguir a vitória final, a qual, não dando acesso a uma liga milionária, pode significar uma época diferente, no mínimo, com mais consciências despertadas. 
O Estádio é, sem qualquer dúvida a rua. Sabe-se que, estando sempre cheia, é o tal décimo-terceiro jogador, cuja importância ninguém deve subestimar. 
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[1] Este graffiti (também designado de “O Atirador de Flores”), apareceu pela primeira vez em 2003, em Jerusalém, logo após a construção do Muro da Cisjordânia, (760 quilômetros que separam a Cisjordânia palestina de Israel). Banksy voltou em 2005 para pintar uma série de 9 trabalhos de intervenção política, apoiando a liberdade e a igualdade.
[2] No original, “Sorry, the lifstyle you ordered is currently out of stock”, um mural concebido em 2011 e colocado no bairro financeiro Canary Wharf, em Londres, ao lado de um prédio vago dentro de um espaço retangular para anúncios. 
[3] Excerto da obra “O torcicologologista, Excelência”, Gonçalo M. Tavares, Ed. Caminho, 2015 

17 agosto 2018

ESCREVER NA (ou da) ÁGUA








Caravelas, caravelas/
mortas sob as estrelas/
como candeias sem luz...”
João Gil/Luís Represas, “Xácara das Bruxas Dançando”, 1984




Por estes dias visitamos os sítios que nos lembram, reproduzem e vivem na e com a água. E na água encontramos matéria suficiente para pensar, reflectir e perorar sobre a vida que nos cerca, nesta época parva, a que alguns chamam sealy season. Num ápice metemos o pé na água (bolas, está gelada), a temperatura sempre a subir, como aquela música maluca do concerto do Rivoli (quem se lembra?), ouvem-se balelas e trapalhadas, daquelas espécies autóctones que pululam nas redacções a zelar pela (in)tranquilidade da pátria. Pudera ser peixe e morder o isco saboroso da mesquinhez, e estaria a milhas, sem nada para fazer e com um livro interessante na mochila. E à noite, passear em Amarante e curtir o jazz do Hudson[1] 

(Assim como)
Deixei de ler os pasquins da parvónia, ocupados com as frivolidades do costume. Para ser franco, emocionei-me mais com a morte da Madalena Iglésias do que com as asneiras que verteram tanta tinta sobre o envenenamento do Skripal [2]  que, juntas à atitude subserviente dos governos “ocidentais”, fizeram as delícias das mentes normais.

(Falemos de rendas)
Não sei, não. Porque afinal é um assunto tão tabu quanto a virgindade da senhora de Fátima (ou de outra qualquer). Acaba de ser penalizado em mais uns trocos no final do mês, na conta da luz, ou da água, ou seja lá do que for, porque há uns quantos senhores (e senhoras) que têm que manter os lucros das empresas privadas que “investem”, mas que, caso tenham prejuízos, é o Estado que os cobre. E assim vamos alegremente vivendo, com auto-estradas por tudo quanto é sítio e que vazias de nada, esvaziam os bolsos de nós todos. E com a energia e as telecomunicações mais caras da Europa.
Não sei porque estou a falar de futebol. O campeonato ainda mal começou e a rentrée partidária está a parir as dores do verão, para voltar em breve ao centro das ribaltas e dos palcos, que dizem, são mediáticos. Alguns são talvez, pediátricos.

(Alerta)
O meu psiquiatra proibiu-me de falar sobre os professores. O prestimoso médico disse STOP [3]  e eu fiquei aterrado. Mas creio poder falar de enfermeiros e outras profissões, ao que consta, desprezadas pelo poder, mais atento a outras coisas importantes, como por exemplo, a NATO e a defesa não sei bem de quê. E também o défice, claro. 
E, pelo nosso Porto, aquela figura arrogante que ocupa (ainda) a presidência do burgo, vai-nos deliciando com mais (sempre mais) mentiras e inverdades (aprendi em tempos que não são exactamente a mesma coisa), vomitando vulgaridades sobre tudo e mais alguma coisa, mostrando o que é na realidade a leveza insustentável da estupidez.
(E viva a maconha!)
Assim mesmo, a 20 de Junho passado, o Canadá torna-se o segundo país (depois do Uruguai) a autorizar o uso recreativo da maconha. O projeto-lei de regulamentação, foi aprovado pelo Senado canadense, por 52 votos contra 29. O uso medicinal já estava legislado desde o ano 2001. Espera-se agora que o nosso País acorde mais bem-disposto, pensando que daqui a uns tempos, poderemos curtir a cannabis, como qualquer uruguaio ou canadense.

(Os que partem e deixam muita saudade)
Gente boa que nos deixa, o que nos entristece a alma, porque simplesmente nos fazia falta. As breves referências não esgotam a lista. Ao Amigo João (Semedo), ao Arnaut, ao Manuel Martins, ao Tengarrinha, ao Júlio Pomar, à Guida Maria, uma saudade imensa. E ainda à Dolores O'Riordan, aquela que cantava com a alma na boca. E hoje mesmo, a Aretha Franklin, rainha da soul music e activista dos Direitos Humanos.

(As pontes do nosso imaginário)
Enquanto cai uma ponte em Génova, ficamos sem saber que segurança temos e para que pagamos tanto dinheiro para ela (a segurança). A ironia suprema, em pleno século XXI.

(Ainda se fazem bons filmes)
A surpresa (ou não) do verão, chama-se “No Coração da Escuridão", o último filme do Paul Schrader, que já nos deu obras-primas imensas, tantas que já lhe perdemos a conta. Absolutamente imperdível, talvez a melhor “coisa” deste verão.

(Água para quem não precisa)
Ou simplesmente uma rasteira. Havia quem quisesse trazer a fascista Le Pen a Lisboa. Apesar de avisado, o nosso Governo portou-se (outra vez) muito mal, ao alinhar pelo famigerado politicamente correcto. Meteu água, mas não se afunda, que a gente não deixa. E continua a meter água em outras coisas, reformas, carreiras. Mas disso, eu não posso falar agora. 

(Enquanto as bruxas dançam...)
E nós vemos e (pelos vistos) gostamos.
O pintor de Olhão cobraria 130 reis, há precisamente 165 anos, para “Renovar o céu, arranjar as estrelas e lavar a lua” [4]. As coisas agora estão consideravelmente mais caras. Ou melhor, o sistema faz as coisas simples, mais caras, não porque o sejam de facto, mas porque assim tem que ser, para que ele sobreviva. Contudo, acham mesmo que vale a pena “renovar o céu”? Já “arranjar as estrelas”, seja uma forma de nos mantermos atentos às galáxias, onde poderemos ter alguma liberdade, mesmo com a Lua suja da poeira que o planeta Terra produz. É uma questão que não se define, provavelmente. 
A Clarice Lispector escreveu um dia, “Liberdade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome”.
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[1]  Grupo Hudson: Jack DeJohnette, John Scofield, John Medeski e Scott Colley
[2] Sergei Skripal, ex-espião russo
[3] Duas significâncias para este termo: (1) interjeição que significa “Exclamação usada para ordenar a paragem”, segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa; (2) iniciais de “Sindicato de Todos os Professores”, criado aqui há uns dias atrás
[4] Parte de uma factura de um santeiro de Olhão, chamado Joaquim Manuel Alfarrobinha, apresentada em 1853 por um conserto nas capelas do Bom Jesus de Braga, hoje arquivada na Confraria do Bom Jesus do Monte, naquela cidade, in: http://www.olhaocubista.pt/Humor/factura_santeiro.htm




24 julho 2018

ADORMECENDO DEVAGAR E ACUMULANDO O ERRO


Sucedem-se posições, mais ou menos públicas, sobre a questão das reivindicações dos professores do Ensino Básico e Secundário, com a costumeira caterva de declarações, vindas dos mais diversos quadrantes, praticando sempre o erro de análise e, na maior parte das situações, distorcendo a realidade, por deficiência ou simples ausência de dados para produzir um comentário correcto. 
Claro que é perfeitamente irrelevante, para esta polémica, a análise da progressão na carreira e das formas que ela pode (deve ou dia) configurar. É uma situação profissional típica de um sector, para o qual foram, em tempo, definidas regras específicas e determinadas. Que são diferentes, por exemplo, dos colegas do Ensino Superior, também com regras definidas e reconfiguradas posteriormente no tempo. Discutir isto, ou seja, analisar cada uma das situações, de cada um dos sectores, requer um conhecimento profundo das carreiras e dos mecanismos de progressão, naturalmente associado aos mecanismos de avaliação (a cada um deles) previstos, acordados ou não entre as organizações sindicais e o/s governo/s. E, finalmente, ao conhecimento da Leis de Bases do Sistema Educativo e das suas sucessivas alterações. Provavelmente haverá uma meia dúzia de pessoas no País, especialistas com conhecimento suficiente e actualizado, para poderem manifestar-se sobre a matéria (ou, as matérias). Uma parte restrita, na qual me incluo, possuiu alguma informação específica, que pode passar, por exemplo, sobre a natureza jurídico-legal da definição das carreiras, pela informação técnica sobre mecanismos de avaliação, pelo exercício concreto da profissão (pelo menos) nos dois sectores, ou num deles. Uma outra parte, reside nos profissionais no activo, quer no sector da Educação, que no sector do Ensino Superior; esta parte, possuiu alto nível de informação sobre o seu sector, sobre as dificuldades ou facilidades em exercer o cargo, sobre o sentido da sua própria carreira. Finalmente, a maioria da população desconhece quase completamente o que se passa, num ou no outro sector, e opina pela voz indirecta dos comentadores que abundam na chamada comunicação social e que raramente se dá ao trabalho de ler, ouvir e interpretar o que está em causa. Desconhecem os verdadeiros contornos das situações que reporto, preocupando-se em posicionar-se conforme os ventos, a saber de onde sopram, que quase sempre é do mesmo lado. Mas sempre e de uma forma definitiva, contra os profissionais, que durante anos e anos constroem a sua carreira, sendo recompensados com salários pouco dignificantes, mas sempre e mais, com exigências de cariz administrativo das tutelas e, ao que parece, com pouco respeito pelos 2 sectores porventura mais importantes para um país, a Educação e o Ensino Superior, uma vez que determinam (ou deviam determinar) a excelência e o orgulho de uma comunidade.

Um outro sinal que sempre é dado nestes momentos é o do ataque cerrado às organizações sindicais, equiparadas por vezes a autênticos “sindicatos do crime”, chefiados por “execráveis comunistas”, filiados ou não, sinistras figuras de um palco, ocupado ao que consta por profissionais da agitação permanente e que não trabalham há não sei quantos anos. Até parece que, em certa medida (esta precisamente) voltamos quarenta e tal anos atrás e estaríamos a ouvir um qualquer zeloso salazarista ou marcelista.
Para cúmulo e esta será talvez a mais grave das situações de exercício de análise, é ver professores contra professores, atirando à cara uns dos outros, “a nossa carreira é que é avaliada como deve ser...”, ou “...vocês não querem é ser avaliados”, configurando uma forma enviesada e distorcida de estar, um pouco estranha a quem é professor, educador ou investigador.  Aqui, há infelizmente exemplos variados, que vão desde a Escola, à Universidade, passando por muitos responsáveis (...) que ocupam cargos na administração central e local, secretarias de estado e Ministério.
O que fica (quase sempre) no meio desta confusão, e que não acontece por acaso, apenas sendo uma forma estranha de fazer política, é o que falta analisar e discutir. O investimento na Educação e no Ensino Superior vale ou não a pena? Quanto custa e quanto rende ao nosso País? Divulgar as situações de excelência nos dois sectores e saber que a valorização das pessoas (normalmente designadas de “recursos humanos”) é (devia ser) a primeira das apostas de um Estado. E já agora, um Estado que defenda os seus trabalhadores, aquelas e aqueles que, por exemplo, são obrigados a gozar férias apenas num mês durante o ano, sem hipótese de escolha, aquelas e aqueles (no caso concreto dos professores) que educam e formam as novas gerações de cidadãos. Muitos, delas e deles, que têm que estar sempre em forma, atentos e prontos, durante 50 minutos seguidos (pelo menos), disponíveis para as crianças, para os jovens, adolescentes e adultos, para os pais e encarregados de educação e para gerir, quantas e quantas vezes, conflitos inesperados. 
Se os responsáveis de qualquer governo pensassem em tudo o que deviam pensar para dignificar uma “profissão” que é muito mais do que isso, nem hesitariam se fossem colocados num qualquer dilema, “...mas afinal, acabo esta auto-estrada ou atendo aos professores?”, ou “...mas afinal, salvo aquele banco, ou aumento o vencimento...?”
Há momentos em que deve imperar o bom-senso, uma asserção que fica sempre bem, sobretudo na perspectiva da honestidade intelectual. O argumento de que já se fez muito por este ou aquele sector, apenas significa que poderia ter sido feito mais. Apenas isso. Uma vez que se sabe que os ditos constrangimentos orçamentais devem ser o guia orientador, na ideia (errada) de quem, em vez de governar, segue as ordens de um directório que nem sequer “existe”.  

E, voltando ao bom-senso, ainda bem que quem governa neste momento está bem acompanhado (as palavras, como bem se sabe, são de quem as proferiu...). 
É, estou certo disso, um pequeno conforto. Um sinal para (não) adormecer devagar e para tentar não cometer (ou não deixar cometer) sempre o mesmo erro.

01 julho 2018




Quando eu era pequenino
Quando eu era pequenino
Acabado de nascer..”

Acabado de nascer (há pouco mais de 1/2 hora, há “somente”, 44 anos) e já com este aspecto muito prometedor!
Cidadão português, responsável, Professor, Atleta, corredor de fundo, e outras coisas.

Conhecido como João, como Pedro, para mim João Pedro, acima de tudo, Filho muito querido!

Ainda mal abria os olhos
Já era para te ver....”

https://www.youtube.com/watch?v=-4NpA_0JwrM



14 junho 2018

Intervenção: Apresentação da Revista MANIFESTO

Alfredo Soares-Ferreira
13 Junho 2017






Procurarei focar, na minha intervenção, A POLÍTICA DE ALIANÇAS DA ESQUERDA (ou, DAS ESQUERDAS) EM PORTUGAL E A NECESSIDADE DE UMA NOVA LINGUAGEM NO DISCURSO POLÍTICO.

Irei centrar a minha particular atenção, na entrevista de Noam Chomsky, nos artigos de Ricardo Paes Mamede, “Era bom que trocássemos umas idéias sobre o próximo Governo”, de Isabel do Carmo, “Quem é o Povo de que se fala?” e de Nelson Santos, “O caminho até 2015: o Governo de esquerdas em Portugal”. E ainda, na recensão de Henrique Sousa, “A revalorização do político no legado de Gramsci”, com o objectivo de tentar uma abordagem sincrética (ou de fusão) de diferentes contribuições, que possam contribuir para a finalidade em apreço.

Chomsky faz uma análise e, consequentemente também, uma interpretação do modo de funcionamento do capitalismo actual, na sua mais recente ligação ao neoliberalismo, ou, naquilo que poderá ser designado apenas, por uma faceta moderna das teorias liberais do século IXX, com as conhecidas variantes, no decurso do século XX. O autor dos “10 Princípios Básicos de Acumulação de Riqueza e Poder”, que enuncia na sua obra REQUIEM FOR THE AMERICAN DREAM, responde a questões de actualidade política, a partir da análise da situação actual nos EUA e da sua eventual projecção. 
Se temos, como afirma Chomsky, “...o poder para nos movermos, para desmantelar e dissolver os sistemas de controle e dominação...”, não temos instrumentos suficientes para exercer esse mesmo poder. Nem sequer, a consideração de um hipotético controle das redes sociais, é suficiente para inverter a situação. Chomsky parece querer recuperar algumas das teses de Gramsci, vertidas nos célebres “Cadernos Da Prisão”, no que remonta à suposta aceitação de dominação. Recorde-se a propósito, recorrendo inclusivamente ao texto de Henrique Sousa, a “preocupação” do filósofo e dirigente comunista, do designado “consentimento popular institucionalizado”, ao domínio do capital. Talvez se as duras condições inerentes à prisão nos cárceres do fascismo e uma certa obsessão contra aqueles que denunciavam a degenerescência do Estado Soviético, não tenham de certa forma contribuído para a sua complacência com o estalinismo e as suas práticas. De qualquer forma, não deixa de ser curioso, que a designada (por Gramsci) “guerra de posição” na sociedade civil (essa excrescência, que a tenta opor à sociedade política, ou Estado), tenha uma certa incidência na ordem do dia, nalgumas situações concretas, nomeadamente no que reporta ao nosso País.
Poderíamos ainda acrescentar aqui, alguns contributos para a análise e discussão, na esteira da designada “Biopolítica” , vindos por exemplo do filósofo italiano Giorgio Agamben, na linha de Walter Benjamim (da Escola de Frankfurt), que vem construindo uma obra extensa que visa, entre outros aspectos, o conceito de “estado de excepção” e das suas implicações, a nível das liberdades individuais. A propósito, o autor Agamben, tem uma frase demolidora sobre o capitalismo: “O capitalismo é uma religião e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu porque não conhece nem redenção, nem trégua, celebrando o culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objecto é o dinheiro”.

Os analistas Ricardo Paes Mamede (RPM) e Nelson Santos (NS), chamam a atenção para dois aspectos particularmente decisivos, para o futuro das Esquerdas e dos entendimentos a levar a cabo e ainda de possíveis plataformas a desenvolver. Enquanto RPM afirma que o Partido Socialista revela o essencial da sua natureza, quando mostra indisponibilidade em avançar em domínios em que entraria em rota de colisão com poderes instalados, NS interroga-se sobre as prioridades dos agentes políticos, muito concretamente sobre as agendas dos partidos à esquerda do PS.

Lembramos, a propósito de poderes instalados que, apesar de alguns avanços que contrariaram a troika e os seus agentes, nomeadamente na reposição de salários e pensões, continua instalada a submissão á dominação de Bruxelas, quer no aspecto das desastrosas políticas econômicas e sociais, quer ainda à submissão a uma moeda única, que acaba na prática, por condicionar e limitar qualquer tentativa de reestruturação da economia. E esses condicionalismos devem ser analisados e discutidos à Esquerda, mesmo levando em linha de conta, uma definição pontual de política de alianças, no quadro por exemplo, da uma nova composição da futura Assembleia, que saia das próximas eleições legislativas.
E daí a emergência da necessidade de um discurso político diferente. Com uma nova linguagem, que o linguísta Chomsky decerto poderá ser um dos apoiantes. 
Há então que: (1) Desmontar códigos de linguagem da classe dirigente, adquirida, entretanto por alguns sectores da população, graças ao papel cúmplice da chamada “comunicação social” do regime. Trata-se apenas da constatação de uma realidade bem presente, por exemplo, no nosso País, através da sobrevalorização do escândalo, do terror, da intriga e da calúnia, da exploração até ao extremo do fenómeno do futebol, no fundo de uma organização da informação (rádios, jornais e TV), baseada na notícia mesquinha e por vezes, falsa, com critérios editoriais de baixa qualidade e finalmente, (como não podia deixar de ser...) em salários baixos, senão mesmo, miseráveis. Esta asserção (conhecida) de Chomsky, não deixa de ser impressionante, de tão redundante: “A imprensa pode causar mais danos que a bomba atómica. E deixar cicatrizes no cérebro.” (2) Desmontar mitos. Também, por exemplo, sobre a própria interpretação de o que é o Povo, porque a utilizamos de forma por vezes abusiva. Começou por ser aquele que “unido jamais seria vencido”, de que temos ainda memória breve e acaba por ser estigmatizado agora, em fenômenos estranhos de apropriação indevida e com consequências imprevisíveis, a nível europeu e mundial. Destaco aqui, particularmente o artigo da Isabel do Carmo, onde se pode ler esta deliciosa passagem, acerca de alguns daqueles (e daquelas) que falam sobre o povo: “Destacam-se os que têm pena dos pobres em geral e abstracto, mas que são contra o salário mínimo no concreto, em relação ao qual são capazes de discutir cada cêntimo. Estes não hesitam em encher um saco com viveres suficientemente calóricos, para o entregarem à saída do supermercado para feitos do Banco Alimentar”.
Alguns mitos e códigos de linguagem, estereótipos, a descodificar e outros a erradicar: “Impacto orçamental”, “Reformas estruturais”, “Medidas impactantes”, “Ajustamento”, “Coesão”, “Produtividade”, “Desenvolvimento sustentável”. E, naturalmente, estes, que contibuem para a confusão e a mitificação:  “Europa”, “Eurogrupo”, “Euro”.
Para facilitar e sistematizar a minha intervenção, deixo 3 questões que entendo podem ser colocadas, para análise e debate aqui e agora, bem como no seio da Esquerda (ou, se quiserem, das Esquerdas): (1) Está o Partido Socialista a posicionar-se mais próximo dos partidos e organizações à sua Esquerda, nomeadamente PCP, PEV e Bloco? Ou, pelo contrário, continua na prática enfeudado numa social-democracia europeia, fiel a todos os compromissos de um gigantesco bloco central, que em Portugal já não existe? (2) Afinal, somos nacionalistas ou internacionalistas? (3) Que condições importa reunir (partindo do reconhecimento da importância do princípio) para a aquisição de uma nova linguagem no discurso político, oposta à novilíngua da TINA, no Portugal e na Europa, do século XXI? (partindo do pressuposto de que estarão criadas já algumas condições subjectivas...)

Finalmente, aclamo a originalidade na Revista, da alegoria do João Guilhoto, no seu conto “Os homens que caminhavam a dois ritmos”, pode eventualmente apelar para a relatividade do sentido do desenvolvimento e da velocidade do pensamento e do raciocínio. Entre o ficar e o voltar, entre o partir e o chegar, entre o depressa e o devagar, a evocação da música e do silêncio, a saliência na Educação e na Formação, e claro, em Marcel Proust.

Para terminar, devo salientar uma parte do Editorial da Revista, “Com novos problemas e outros desafios, certamente continuamos interessados nos debates plurais à esquerda, nas discussões sobre o seu futuro e o seu papel no contexto português, e nos possíveis processos de convergências entre as diferentes sensibilidades que a constituem, incluindo pessoas e movimentos que não integram nenhuma formação partidária”. 
E talvez seja oportuno, e pode ser este o momento, de seguir a recomendação do Ricardo, que parafraseia o Mário de Carvalho, “Era bom que trocássemos umas idéias sobre o assunto”. Está mesmo na hora de o fazer e de introduzir alguns elementos diferenciadores na discussão pública, e particularmente no seio da Esquerda, onde nos inserimos.
Muito obrigado!


10 junho 2018

ELE E NÓS






















ELE do lado de lá da pantalha. 
NÓS deste lado e atentos.
O Manel e nós, seguramente do mesmo lado, no que toca a sentimentos, emoções e posicionamento social, cultural e político. Sempre assim foi e será. Apenas a distância e o estado de saúde o impediram de estar fisicamente conosco, no dia da apresentação da sua “Poesia Reunida”. Que acabou por reunir tanta gente boa, tanta emoção e também muito carinho. Quando assim é, ganhamos um pouco mais de alento, de força e de coragem. 
Nós, com Ele sempre, éramos (somos?) os trotskistas, a quem chamavam “troskas”, aqueles desalinhados das “pátrias” que não saudávamos. Nem Moscoso, nem Pequim, nem Tirana. Era a IV Internacional, era a contestação firme contra a degenerescência do Estado Soviético, era a contracultura, era a denúncia do reformismo e dos revisionismos, da capitulação a interesses capitalistas, era a defesa dos movimentos internacionais, que representavam a luta dos trabalhadores. Era afinal, a Revolução Permanente.
O “era” poderia hoje ser o “é”, se entendermos os conceitos, os princípios e os ideais, como dialética contínua, na arte, na cultura, na ciência. Na sociedade civil, na política no seu sentido mais elevado. Não adianta, nunca adiantou aliás, andar às voltas a negar a importância da participação cívica e política. Como bem diria Brecht, “...o analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política; não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”. 
Era esta aparente estupidez, agora nacionalizada, que sempre irritava o Manel. E que ele “contornava”, com leveza, com a beleza e a arte, que só alguns são capazes de atingir. Para perceber isto, é preciso, é urgente, ler o Manel, uma das formas de estar com ele e de perceber como a Poesia pode ser a tal arma, que podemos (devemos) arremessar, sem precisar de testes de eficácia que outras necessitam. 
Hoje duvidamos de tudo, porque como bem dizia o Bertolt “De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida”. Apenas nos resta a certeza que estamos deste lado e que a geometria seja somente variável, na medida da reflexão e da consciência crítica.
Deixamos o Manel pensar e agir, escrevendo os poemas que são os nossos, porque é muita (imensa) a cumplicidade mútua. O vão desejo de glória, aquela que se esfuma no inverno da tristeza, acaba por ser a alegria de ver e sentir com o Poeta, rir e chorar ao mesmo tempo, na sede imensa da sabedoria, que entretanto, se vai construindo e renovando. Fazemos de quando em vez, a travessia entre o Piolho e o Latino, perscrutando e os silêncios, no ruído das nossas existências, procurando as praias imensas debaixo das pedras, na boa tradição daquele Maio, que nos seduziu. 

Bem hajas Manel, ESTAMOS (COMO SEMPRE) JUNTOS!




07 junho 2018

UMA ESTRATÉGIA NECESSÁRIA?












Ao propor hoje, na TSF, uma Estratégia Nacional de Luta Contra a Corrupção, João Cravinho tenta mostrar à sociedade civil a enorme importância que o tema encerra, para todos nós. Vai mais longe, o Homem que um belo dia foi afastado de cena, por falar desta forma desassombrada, comparando-a com a Estratégia da Luta Contra os Incêndios.
Quer isto dizer, sem qualquer peias, que Cravinho considera (e bem) a corrupção como uma calamidade pública, digna de um combate sem tréguas. Um combate de todos os dias, que terá de levar em linha de conta uma cuidada pedagogia, com contornos de transparência e dignidade e pincelada, aqui e ali, com um toque de Cidadania. No mínimo.
Perguntemo-nos agora o que pensa o cidadão comum, aquele a quem é dado propositadamente o papel de “julgar”, pelo menos nos casos mais conhecidos. Mas também nos outros, que embora sejam por demais conhecidos, nunca são desmascarados, nem sequer investigados. Ao primeiro impacto, esse honrado cidadão, virá dizer naquela versão de “justiça de táxi”, que não admira, que são todos iguais, então os políticos querem é encher a pança, comer da mesma panela e outras afirmações menos brandas, que não fica bem aqui citar. Pensando bem, e sabendo que na realidade é assim que a coisa funciona, perguntemo-nos agora, a quem serve de facto este circuito estranho, mas real. E a resposta não andará eventualmente muito longe da verdade, se dissermos que beneficia objectivamente aqueles que, activa ou passivamente, corrompem, deixam corromper ou são corrompidos.
Mas, não querendo ficar por perguntas demasiado “simples”, poderemos querer saber também, porque razão a justiça, é cega, talvez por vezes surda e muitas vezes, pura e simplesmente, muda. Um tal grau de deficiência que, à partida, deveria merecer cuidados especiais de tratamento acelerado, no mínimo para, por um lado, prover da saúde do (da?) doente e, por outro lado, para lhe proporcionar uma vida (activa e passiva) com dignidade. No intrincado mundo da doente, parecem passar-se cenas de tal forma estranhas, que por vezes duvidamos que sejam reais. A começar pelos contornos que parecem nortear um “monstro” institucional, que dá pelo pomposo e circunspecto nome de Ministério Público, que (pelos vistos) tem como “norma”, passar informação que não devia para conhecidos pasquins e menos dignos “profissionais” da chamada informação.
E poderíamos, se calhar para nos atormentarmos, ir mais longe, querendo saber como se processa o fenómeno, menos mediático, mas decerto muito eficaz, que consiste em corromper o tecido social, alimentando-o de falsa informação, de casos fabricados, através da prática corrente, que se traduz na influência e no favor. É seguramente uma não-pedagogia, uma prática terrorista, velada e traiçoeira, que tenta (e por vezes consegue mesmo) destruir os laços de solidariedade social mais elementares.
Nunca somos, não temos vocação para tal, juízes em causa própria. Não temos competência para elaborar juízos definitivos. Teremos seguramente sempre dúvidas, metódicas ou não, na exacta medida da nossa condição. Poderemos, em determinadas circunstâncias alimentar um fogo, em vez de simplesmente o extinguir. Poderemos até duvidar do nosso próprio juízo, considerando as rasteiras que a retórica nos passa. Podermos, no limite, assobiar para canto, numa feliz asserção da gíria popular, se tal for conveniente. 
Deveremos aprender. Segundo um princípio seguro, para não cair no mesmo erro. Mas sempre, para poder saber mais. Sabendo mais, poderemos passar a palavra, ajudando outros a compreender a razão porque existe corrupção e entender de alguma forma as intrincadas malhas que tece. Não querendo cair nelas, estaremos decerto a contribuir para que (pelo menos) não se alarguem. 

Não chega, porém. Para ir mais longe é necessário estarmos dispostos a um combate, longo e sem tréguas. Que sabemos bem não se circunscrever à propalada justiça, sempre em estado de doente permanente. Pela “simples” razão de ser uma parte de um sistema injusto e iníquo.


30 maio 2018

OS 50 ANOS DE MAIO


Cultura é regra, arte é excepção”
Jean-Luc Godard













Caminhos estranhos os que percorremos, desde há 50 anos.
Após a revolta de Nanterre, acordamos por assim dizer com a exigência (realista) de exigir o impossível. Mas saberíamos então, na loucura dos nossos 19 anos, que um dia (50 anos depois), estaríamos a lutar pelas mesmas causas? Na altura, descobriríamos praias debaixo das pedras de uma qualquer calçada. Agora, quase que só existem calçadas no interior desertificado, mesmo que lá tivessem feito nascer praias artificiais, onde abunda a superficialidade objectiva de uma plástica que nos parece estranha.
Como poderíamos saber que o Mundo fosse, 50 anos depois, bastante mais perigoso, que o simples caminhar sobre flores, pode significar o rebentamento de uma mina, atentatória à segurança das pessoas? Apostaríamos na aterragem lunar, na contestação à guerra do Vietnam e despertaríamos a nossa (e outras) consciência, contra os costumes de uma burguesia conservadora e hipócrita. Não deixa de ser curioso, ver agora as mesmas restrições ao livre pensamento, a mesma (ou outra) moral caduca e por vezes perversa, penetrar no nosso dia-a-dia, impunemente, contra o avanço civilizacional, contra a liberdade e os direitos humanos, agora com a nova roupagem digital, mas sempre restritiva e castradora. Continuamos em minoria, com uma diferença significativa: antes, estávamos simplesmente a começar.
As perdas e danos, contabilizáveis dos pontos de vista pessoal, social e político, vão-se acumulando, num ritmo louco. Mas, a loucura que era dantes, já não vale agora da mesma forma e não se compadece com o ritmo avassalador, provocado pela “euforia” dos media e pelo “afogamento” das ideologias. Tem dias, na realidade, quando por vezes acordamos com uma vontade indómita de fazer a revolução, partindo tudo, pensando se mais vale seguir Sartre, “...cada homem deve inventar seu caminho”, ou então Lispector,  “...perder-se também é caminho”.
Os desafios da inteligência, que pelos vistos agora é praticamente artificial, serão apelativos, como eram antes? Ou o vazio imenso das propostas para as mudanças sociais, não é senão o resultado de políticas perversas, injustas e socialmente reprováveis?
Desvalorizámos 50 anos de História, esquecemos liminarmente quem nos anda a intimidar, fazendo crer que a política não é senão o arranjo mediático de uma eterna dominação, financeira de preferência? E os muros que derrubamos, ficaram reduzidos àquele que a Leste, acabou por ter efeitos que hoje ainda se sentem? Tanta pergunta sem resposta, ou simplesmente tanta resposta sem nenhuma questão?
Podemos suspeitar agora que as “transformações” se tenham quedado por uma “revolução tecnológica”, que em vez de estar ao serviço de todos, se contentam em prestar vassalagem aos fazedores de fortunas. 
Voltamos (nem que seja, de quando em vez) à rua, agora devidamente alcatroada e pejada de sentidos únicos. Temos que o fazer, em nome da luta contra as injustiças, contra a pobreza e contra a exclusão social. Acontece que agora, 50 anos depois, estamos a níveis abaixo do admissível. No nosso Norte e no mesmo Sul, para onde “quiseram” importar modelos que esgotam os recursos do planeta e onde arde um fogo fátuo de um falso desenvolvimento, portador de destruição ecológica e ambiental e de guerras santas. Esses “profetas modernos”, que usam uma linguagem propositadamente cifrada, não podem esperar senão desprezo da nossa parte. Decerto que, enquanto houver ruas e praças “disponíveis”, a gente vai continuar, “...enquanto houver estrada para andar / enquanto houver ventos e mar / a gente não vai parar...” 
E cantaremos (porque não?) a urgência da “Revolução Permanente”, ainda que não possamos nomeá-la . Mas falaremos dela, mesmo correndo o risco de nos acusarem de romantismo, mais vale esse do que o enorme vazio de ideias (e ideais) da casta putrefacta associada ao pensamento único, aos “empreendedores” e “fazedores”, aos “colaboradores” e “CEOs“, à hiper-vigilância e ao Biga Data. Esta casta está bem identificada, 50 anos depois, nos reformistas e sociais-democratas, nos fazedores de opinião que inundam o pântano imenso da comunicação social do Ocidente. A esses (e essas) evocando o Maio 68, teremos muito gosto “...em lhes mostrar o cu e as boas maneiras, cantando para eles...” .
Provocadores? Sempre e com muito gosto. Rasgamos as gravatas, queimamos os soutiens, se ainda forem símbolos de inconformismo e de insubmissão. Nunca poderão contar connosco para os salamaleques da praxe pequeno-burguesa, nem tão-pouco para os compromissos fúteis da tolerância para com os poderes que se manifestem contra o povo que trabalha e que produz riqueza e a quem é sistematicamente negado o direito a uma vida com dignidade. 
Uma bandeira rubra que desfraldamos em qualquer praça. E apetece citar Nietzsche, “Não vos aconselho o trabalho, mas a luta. Não vos aconselho a paz, mas a vitória! Seja o vosso trabalho uma luta! Seja a vossa paz uma vitória!” 
Hoje não é o fim da História!

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(1)  Extracto do poema “A Gente Vai Continuar”, Jorge Palma, 2010
(2) Referência ao poema de Georges Moustaki “Sans La Nommer”, no extracto “Je voudrais, sans la nommer / Vous parler d'elle.../ Et si vous voulez / Que je vous la presente / On l'appelle Révolution Permanente!”, 1969
(3) No original “On leur montrait notre cul et nos bonnes manières, En leur chantant…”, Jacques Brel, em “Les Bourgeois”, 1962
(3) Extracto da obra “Assim Falava Zaratustra”, por Friedrich Nietzsche, 1885


01 maio 2018

O MAIO EM MAIO














O voo da Ilha de Santiago (Aeroporto Nelson Mandela, Cidade da Praia), à Ilha do Maio (Aeroporto do Maio, Cidade do Maio-Porto Inglês), deverá ser muito provavelmente o voo mais rápido da história da aviação civil. São apenas 7 minutos. O avião levanta e pouco depois começa a baixar, o comandante avisa para a necessária operação de aperto dos cintos, “...senhores passageiros, dentro de momentos aterraremos na Ilha do Maio
A Ilha das praias imensas
Chego hoje à Ilha do Maio, uma das perdidas na imensidão do mar, com aquela sensação de desconhecimento que se tem quando as referências nos faltam ou simplesmente escasseiam.
Por cá, existe uma estranha sensação de ausência. A festa de Maio deixou estranhamente de fazer sentido, ao que parece por falta de condições das entidades que podiam (deviam) lembrar o Dia do Trabalhador. Assim, hoje, no 1º de Maio, a ilha do Maio estará de certa forma alheia. Pode ser verdade, pode não ser, as circunstâncias serão diversas, em relação a uma realidade, discutível, pela eventual não-conjugação de vontades, ou sentimentos.
Recordo ou outros primeiros de Maio, sem estar no Maio. Mas estando no Maio. E assim, jogando com palavra, poderemos navegar à-vontade, usando um qualquer barco que vá de saída. Os navegadores serão porventura os mesmo que ousam e quedam firmes no seu posto, mesmo sem ser de comando.
Longe da pátria, as coisas acontecem um pouco mais devagar e talvez mais fluidas, o que lhes confere um grau de caducidade diferente. Bebe-se (bastante) e brinda-se a tudo que parece importante. Há música no ar, aquela de que gostamos e nos habituamos a ouvir e a sentir e a assimilar. Sempre balouçando o corpo, sempre reforçando a sensação assumida.
Saímos da Praia, para vir à praia...
A “falta de tempo” na Praia, não permitiu a visita, por exemplo, à Prainha. Uma pequena, mas simpática praia pequena (tinha de ser), muito pouco frequentada, aliás. Quem quer praia a sério, faz 60 e poucos km e vai ao Tarrafal, onde se pode deliciar.
O encontro com os Amigos, uma agradável surpresa, faz ajustar a nossa agenda, demos sempre prioridade, durante 3 dias, a inesquecíveis almoços, com Rosinha, Nandão, Joquinha e Luís. E ainda, a música ao vivo no Quintal da Música. E mesmo na frustrada ida ao “obrigatório” Fogo D´Africa, não havia música, o sítio estava “ocupado” por um qualquer DJ, igual aos de todo o lado.
Fazendo Engenho e Obra
Foi assim uma espécie de conferência, integrada nas cerimónias do Dia do Professor Cabo-Verdiano. Onde tentamos mostrar a emergência de soluções baseadas em energia limpas, com particular destaque para a Energia Solar. Trazendo aqui também a mensagem, sempre viva, do Padre Himalaya. Mostrando que é possível, que vale mesmo a pena, trilhar um novo caminho para um Desenvolvimento diferente, que nada tem a ver com aquele que vemos avançar, dia a dia, no desperdício de recursos e para o precipício iminente.
Maio é sempre Maio
E vem-nos à lembrança (sempre) a luta eterna de quem trabalha e nada mais tem senão a força, que muitas vezes mais parece uma fraqueza. Todavia é a força do Trabalho que faz mover a sociedade, que produz toda a riqueza e que, na maior parte dos casos, não parece merecer o respeito devido. Antes pelo contrário. Maio lembra isso e diz-nos que “Enquanto há força/No braço que vinga/Que venham ventos/Virar-nos as quilhas/Seremos muitos/Seremos alguém...”.
Que pena não ter a Fonte Luminosa, não ter a marcha na Rua, aqui é um mar imenso de morabeza...
É África, as coisas são assim mesmo. Atentemos, por exemplo, ao que diz (hoje), Mário Correia, presidente do Sindicato da Indústria, Comércio e Turismo (SICOTUR), “...não há motivos para festejar o 1ºde Maio já que o momento é de nojo, tristeza e lamentações”. Ao que consta terá passado mais de 1 ano, sem esperanças que a situação do mundo laboral no país, e na Ilha do Sal, em particular, venha a melhorar, existindo processos pendentes há vários anos no tribunal, devido à morosidade da justiça. E diz ainda, com muita tristeza, “Há trabalhadores que já nem pertencem a este mundo. Morreram sem receber um centavo do seu dinheiro. E tudo indica que são processos sem solução”.
Um bom (entre outros) motivo para vir para a rua, num dia assim...


1 Maio 2018
Cidade do Maio-Porto Inglês, com a ajuda do Zeca Afonso e de Mário Correia (SICOTUR)


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