OS ECONOMISTAS TÊM UM PROBLEMA
Domina na chamada vida pública um estranho sentimento de dependência atávica das considerações, projecções e propostas de economistas. Num sector estritamente confinado a academias, escolas de pensamento e centros de decisão, os economistas circulam por aí, protegidos por jargões herméticos e equações que mimetizam as ciências exactas. Tratam a volatilidade dos mercados, a especulação financeira e até as desigualdades sociais, não como construções humanas falíveis, mas como inevitabilidades biológicas, ou sub-produtos orgânicos de uma mecânica social que só eles conseguem decifrar. Os economistas têm um problema fundamental: enclausurados em modelos preditivos que raramente acertam no futuro, projectam uma aura cintilante de pretensa sabedoria da forma como funciona a economia e os seus derivados naturais. Ao colonizarem o debate público, tentam reduzir a cultura, a política e as relações humanas a meros derivados do mercado, como se a própria existência humana fosse apenas um “resíduo” lógico e inevitável das suas folhas de cálculo. Diga-se, entretanto, que para a imensa maioria dos cidadãos, os activos financeiros e os derivados, são conceitos abstractos desprovidos de significância concreta.
Alguns economistas constituem-se como advogados e, por vezes, juízes moralistas dos comportamentos dos “consumidores”, a espécie mais recente de cidadãos desprovidos de cidadania e despossuídos de outras qualidades. Outros, apresentam uma crítica radical, desmontando o paradigma por dentro, com dados e análise rigorosa e com alternativas ao crescimento e ao capitalismo. A base das posições de uma crítica de classe, é aparentemente muito simples: a riqueza apropriada pelo capital cresce enquanto a do trabalho diminui. Vejamos, por exemplo, o caso do sociólogo norte-americano John Bellamy Foster, um marxista que cunhou o conceito de “ruptura metabólica”, no sentido de demonstrar que o capitalismo gera uma alienação essencial entre a humanidade e a natureza, argumentando que a lógica de acumulação contínua do capital rompe os ciclos biológicos naturais do planeta. Ou do filósofo japonês Kohei Saito, que, numa entrevista ao Green European Journal, em 2023, afirmou claramente que o capitalismo “...não se limita apenas à exploração dos seres humanos, mas também engloba essas tecnologias colossais que foram criadas em busca de lucros e que, em última instância, trouxeram consigo um verdadeiro desastre para a vida de muitas pessoas no Japão.” Para estes críticos acérrimos do sistema, é absolutamente necessário contrariar a subjectividade neoliberal que introduz a auto-exploração, ou seja, a “liberdade” como servidão voluntária, como refere, nos seus escritos, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Para estes críticos, o “problema” é simplesmente serem “apagados” da narrativa oficial da inevitabilidade.
Vamos partir do princípio que existe um erro sistemático de grande parte dos economistas com problema. E aqui, notamos alguma convergência surpreendente entre economistas liberais e de certa de esquerda, em torno de três premissas. A primeira é da putativa “necessidade de crescimento”, a segunda tem a ver com o conceito, mais que falacioso, de que “o PIB mede a riqueza do país” e a terceira é, nem mais nem menos, o engodo das “contas certas”. Porque que razão quem critica a desigualdade aceita este quadro? Talvez, porque partilham ainda a mesma gramática tecnocrática, que funciona como uma jaula invisível. Dando de barato a convergência “forçada” em torno do “crescimento”, enquanto falácia admitida, considerando que o PIB é apenas um fetiche estatístico, que mede a produção e não o bem-estar, até à constatação de que as chamadas “contas certas” apelam ao simplismo do senso comum e que são uma mera escolha ideológica. Tudo do mesmo lado, no que parece ser, para uns a defesa da sobrevivência do “sistema” e, para os restantes, a salvação do mesmo, pintado de verde e despolitizado, para melhor se “aguentar”. Talvez fosse questão de se preocuparem, pelo menos de quando em vez, com a manifesta manipulação da opinião pública com os números do desemprego e do défice. E de tudo com o que se co-relaciona com as teses, nunca devidamente explicitadas, da “competitividade”, “flexibilização”, "sustentabilidade orçamental", “reformas estruturais”, ou ainda de um suposto "clima de negócios favorável", um discurso repetido até à exaustão pelos burocratas e por governantes burgueses (eleitos e não-eleitos) que o defendem e o praticam na sua acção política. Quem os desafia está objectivamente, a posicionar-se de “forma ideológica”.
Saliente-se, entretanto, a existência de economistas críticos, que conseguem situar-se entre as posições “crescentistas” e “decrescentistas”, como o académico holandês Jeroen Van den Bergh, que advoga que se trate o crescimento como uma consequência possível, e não como um fim em si mesmo, afastando-se das teses do auto-designado “crescimento verde” e desmontando a centralidade do PIB como critério de sucesso. Van den Bergh fala do que chama "paradoxo do PIB", argumentando que, apesar de o PIB não ser fiável como indicador de bem-estar social, o seu papel na economia, na política e na opinião pública continua a ser quase inabalável. E acrescenta que a razão não reside apenas na inércia, mas porque todo o quadro de análise económica está construído sobre um indicador defeituoso.
Admite-se, com razoável probabilidade que não há ruptura possível, sem uma linguagem de ruptura, em que se questionem aberta e frontalmente a propriedade e o Poder. Necessária, mas não suficiente. Assim pensou, durante a sua curta existência o filósofo britânico, pensador, professor, crítico e activista, Mark Fisher, que desenvolveu o conceito “Realismo capitalista", onde descreve criticamente o aspecto ideológico-cultural do capitalismo corporativo, contemporâneo no mundo ocidental, como um único sistema possível em que as alternativas são impossíveis de imaginar.
Os economistas com problema são precisamente aqueles que têm o problema da falta de coragem linguística e política. Não têm apenas um problema técnico, mas sim, intrinsecamente político. O grande “problema” deles é mesmo a linguagem e o quadro conceptual que adoptam. Uma frase eventualmente feita, mas tremendamente eficaz contra o “sistema” que dizem combater poderia ser: não basta dizer “capitalismo” para o erradicar, mas sem o dizer não se começa sequer a erradicá-lo.