Existe na moderna forma de governação neoliberal uma certa tendência para a desgovernação. Não é propriamente um paradoxo, antes o resultado da efabulação permanente e da mistificação da realidade, provavelmente um jeito que o capitalismo foi adquirindo ao longo das suas diversas acomodações para melhor gerir as ditas governações. Uma das falácias que sustenta este suporte do poder, é o digital, tido como sequência normal de uma modernização, quando se sabe da relatividade intrínseca do conceito. A propalada e sistematicamente martelada “transição digital” é tão perigosa como inútil e demagoga. A tentativa de digitalizar a Educação é um exercício perverso, nas mãos dos burocratas, para quem a tecnologia é um fim em si mesmo.
No fabuloso exercício de metaficção de O senhor Baudolino”, Umberto Eco apresenta-nos o personagem nomeado como um exímio criador de realidades paralelas e um falsificador de relíquias. Ele mente, não apenas para enganar, mas supostamente para preencher o vazio do seu mundo, com uma narrativa que lhe seja favorável. Baudolino mente para os imperadores. Alexandre, um liberal com “iniciativa”, senhor do ministério que lhe outorgaram, mente para o País inteiro, com idêntica compulsão, faltando-lhe todavia, a classe do personagem de Eco que, ao idealizar reinos distantes, convence os imperadores com a sua eloquência. No romance, diz-se que o mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e premeia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas. Baudolino é um mentiroso lúcido, sabe que está a inventar, tem plena consciência da distância entre a sua ficção e a realidade, a sua virtude não é moral mas epistémica. Alexandre é apenas o mentiroso que se auto-engana, que enferma da
patologia da negação da evidência, que o filósofo alemão Theodor Adorno chamaria de "cegueira ideológica". Quando Baudolino constrói uma relíquia falsa ou descreve um reino imaginário, está a adquirir um estranho poder e até uma certa honestidade intelectual. Quando Alexandre destrói estruturas inteiras do ministério, esperando que tudo corra “dentro da normalidade”, está não apenas a mentir-nos a nós, mas a mentir a si próprio. Enquanto Baudolino sabe sempre onde termina a verdade e começa a sua criação, Alexandre apenas consegue ver o colapso das ditas plataformas e a barbárie iminente, resultante da sua fúria ultra-liberal. Será que o senhor Alexandre pretende ser o protagonista de um obra grandiosa de modernização digital? Supostamente inventou a "relíquia", uma plataforma digital que cai ao primeiro toque, tal é fragilidade que a suporta. Enquanto a plataforma “funciona”, Alexandre vai tropeçando em “pormenores” como perfis trocados, páginas em falta e itens sobrepostos e acaba mentindo de forma descontrolada, rastejando a pedir aos professores, dizendo acreditar que tudo se resolve, ainda que a realidade o desminta por completo.
Convém não deixar de falar na falsa promessa de modernização da Escola, na perspectiva da mais completa desresponsabilização pela qualidade de ensino, onde o Estado age para gerir a crise de imagem, tratando a Educação como um problema logístico e não como um direito. Para além de a Escola não ser neutra, constituindo, como afirmou o sociólogo francês Pierre Bourdieu, um mecanismo de violência simbólica que legitima as desigualdades sociais como se fossem mérito individual, incorporando hoje o discurso do “mérito”, a melhor das farsas para excluir quem não tem os recursos suficientes, as vítimas do caos burocrático, sem meios para lidar com a incerteza, sendo mais uma forma de reproduzir as desigualdades sociais que a educação deveria combater. Neste panorama, a actuação do governo, onde mora o senhor Alexandre, negando publicamente as falhas e atribuindo culpas, enquanto o caos se avoluma, é o retrato aproximado da digitalização falhada e obscena, que se nega e se distancia cada vez mais do que esperaríamos em pleno século XXI.
Uma das vozes críticas possivelmente mais importantes da actualidade, na Pedagogia e da Educação é o professor brasileiroDermeval Saviani. Em recente entrevista ao Jornal MAIO, Saviani defende “o acesso ao conhecimento sistematizado e a sua compreensão por parte dos estudantes como instrumento de reflexão e transformação da sociedade.” Refere ainda as plataformas digitais como instrumento de domínio, convém não esquecer que elas são, na maior parte dos casos, propriedade de magnatas norte-americanos e que têm hoje “...um peso cada vez maior na organização do ensino nas escolas.” Saviani mostra-nos como o domínio da cultura é um instrumento indispensável para a participação política das massas. Defende que a Educação não é a alavanca da transformação social, mas sem ela a transformação não acontece. Um dos passos primeiros é a resistência contra a barbárie administrativa.
O senhor Alexandre parece querer convocar a barbárie, com o ímpeto da sua sanha ultra-liberal que traz dos tempos de Miguel Macedo e Passos Coelho. A barbárie do algoritmo que exclui, da plataforma que engole, do email que substitui o diálogo. A intencionalidade da convocação é bastante evidente, o governo não se limitou a deixar a barbárie entrar, convocou-a, deu-lhe um palco e um megafone digital. Para além de convocar a barbárie, o senhor Alexandre promove afincadamente a sua instalação, com todos os malefícios que daí advêm. No ano longínquo de 1967, Adorno advertiu que a Educação tem o sentido de impedir a barbárie. Meio século depois, em Portugal, o Ministério da Educação decidiu transformar essa máxima no seu avesso. Sob o pretexto da modernização digital, convocou a barbárie para o centro do sistema de avaliação. Não a barbárie arcaica, mas a que se disfarça de update de software, que se esconde num perfil trocado e que se perpetua num atraso de correcção. E, pior do que a falha técnica, é a intenção política que a convoca.
Saviani ensinou que o conhecimento sistematizado é uma arma poderosa. Adorno ensinou que a falta dele é o berço da barbárie. Ao convocar a barbárie via digital, este governo instala o caos.
O resultado não é um erro, é um projecto.