O DOMÍNIO DAS TREVAS - 2
Confesso que não lhes fixei os nomes; sei que era um menino muito bem penteado que diz "defender o direito à vida" (e que costuma aparecer nestas coisas), mais um deputado de 2ª escolha do PSD e mais uma senhora muito urbana, muito católica, muito educada, muito muito. Isto tudo do lado dos que pretensamente são contra o aborto, como costumam dizer. Do outro lado, os maus, os que são "a favor do aborto", como dizia a senhora muito muito: a Ana Benavente, a Luísa Mesquita e o Teixeira Lopes. RTP-1, à noite, no excelente "Prós e Contras".
Somos realmente um país original; na cauda da Europa, como se sabe e até nesta questão em que praticamente todo o velho continente já alinhou o passo. É fantástico como se podem arrolar argumentos em que a formalidade ganha foros de coerência assumida. Por exemplo, o argumento que usa a maioria para não permitir que se discuta o problema do aborto na AR: o compromisso feito com o eleitorado de que não se discutiria o problema nesta legislatura. Realmente extraordinário: um governo que após 2 anos ainda não cumpriu praticamente nenhum dos compromissos que firmou com o eleitorado, está agora preocupado com uma matéria que (sem sombra de dúvida) pertence ao foro individual.
Verdadeiramente surpreendente a argumentação dos que dizem "defender a vida", usarem este argumento para condenar na prática as mulheres que (com todo o peso de um enorme drama) são perseguidas, humilhadas, violentadas nos seus elementares direitos. Verdadeiramente espantoso ver uma pessoa supostamente responsável (neste caso, o tal menino bem penteado) dizer com todo o despudor que, mesmo no caso de uma rapariga ser violada e ficar grávida, esta deveria ter o respectivo filho!
É realmente demais; esta gente nada fica a dever aos inquisidores da Idade Média, dado que pautam o seu pensamento por terríveis preconceitos, por inconfessáveis compromissos de intolerância, por uma cegueira típica do "domínio das trevas"; já nesta tribuna tive ocasião de aplaudir este conceito do Fernando Rosas e de escrever sobre tal (15 de Dezembro). Esta gente não admite na realidade os direitos dos outros, de pensar e de agir enquanto tal, dado que estão de tal forma cegos na sua intolerância, afundados nos seus preceitos fundamentalistas.
Nem sequer depois de serem confrontados com uma sondagem que, pelos seus números, não deixa dúvidas sobre a vontade dos portugueses sobre a necessária e urgente despenalização e descriminização do aborto, eles se convencem; na sua sanha derrotista, tipo guerra santa bem ao gosto de certas igrejas, tentam arrasar tudo e todos com os seus argumentos falaciosos. Descendentes e lídimos representantes do salazarismo bafiento e balofo, não conseguem adaptar-se à modernidade e mais do que isso, tentam impor aos outros as suas ideias e os seus conceitos, arquétipos da ignorância e do obscurantismo.
Mas pelos vistos, os ventos sugerem a mudança; a grande maioria começa a ver o que é realmente esta Direita que está no poder em Portugal, o que tem feito pelo País, o que é capaz de fazer, a enorme distância que vai do seu discurso populista e demagógico e da sua prática de desemprego, de mentira e de arrogância. Neste caso da interrupção voluntária da gravidez, como noutros casos, começa realmente a ver-se o tipo de pessoas que (infelizmente) nos governam e que dia a dia nos limitam nos nossos mais elementares direitos.
Até ver!