rio torto

rio torto

07 março 2007

Ela (She)
"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem..."
Fernando Pessoa


"
She, may be the face I can't forget
a trace of pleasure or regret
may be my treasure or the price I have to pay.
.."
Elvis Costello


Ela que preenche os nossos dias, povoa as nossas cidades, sofre e luta e cala não raras vezes. Ela que é Gabriela, cravo e canela, com samba e liberdade à mistura. Ela que é Luísa, sobe a caçada de um qualquer sítio, no peso de uma existência por vezes sem sentido. Ela que pode ser Marta ou Mariazinha, conforme a disposição do companheiro, amante ou patrão. Ela a quem por vezes oferecemos flores, mas também pisamos direitos. Ela que ésistematicamente descriminada, mas a quem rendemos homenagem se corre mais depressa na pista ou se desfila na passerelle. Ela que em remotos lugares é privada dos mais elementares direitos de cidadania. Ela que é violentada e amordaçada. Ela que nos acompanha e embala, que nos perturba, mas que muitas vezes nos ouve em silêncio. Ela que é paixão, o tal fogo que arde e que em tempos passados a queimou na fogueira, sempre em nome de grandes princípios, curiosamente ainda os mesmos que ainda hoje a diminuem e enxovalham. Ela mesmo, que é menina, com doce balanço e carinho do mar. Que pode ser deusa, princesa ou rainha, feiticeira ou puta, conforme vira o vento ou muda a sorte...

Ela que são muitas elas, elos de uma cadeia que faz nascer e girar o mundo. Ela, a quem dedicamos um singelo dia no ano, em memória da liberdade, da democracia e da igualdade.

É hoje!

05 março 2007

CRÓNICAS DE TIMOR-LESTE -4
TIMOR COM RUGAS...



Dili, 4 e meia da tarde deste dia conturbado que começa com a recomendação da Embaixada Portuguesa para a restrição de circulação; os professores não iriam dar aulas hoje, o hall do Hotel Timor povoa-se de gente que circula, sem saber bem o que fazer. Com uma reunião no Palácio do Governo às 9 da manhã, hesito em fazer a pé o percurso habitual, tomo um táxi, apenas um minuto e meio, por 1 dólar. Recebo convite do Instituto Camões para a apresentação, na Fundação Oriente, do livro (() Timor, as Rugas da Beleza, António José Borges, Garça Editores, Peso Régua, 2006) do TozéBorges, professor de literatura portuguesa na Universidade de Timor Lorosae. É precisamente ao título da sua obra que roubo a ideia para o nome desta crónica, segundo o autor uma homenagem aos velhos de Timor-Leste que perpetuam o mundo imaginário do Bei Lafaek (o Avó Crocodilo); serão eles, cada um desses velhos, uma autêntica biblioteca itinerante (() Referência do autor), de onde se soltam palavras silenciosas (() Idem, ibidem.).
Aproveitam-se os momentos de convívio, após a apresentação do livro do Tozé; a Mara (do Instituto Camões) faz as honras da casa emprestada, o ar condicionado avariado, as bebidas bem quentinhas, mas com todo o mundo bem disposto, bebendo o fim de tarde chuvoso e quente, com montes de soldados nas ruas.
A provar, se necessário fora, que este mundo é mesmo pequeno, o prazer imenso de reencontrar um colega de curso da FEUP; uma conversa técnica sobre energias renováveis e, ao fim de alguns minutos descubro o Cordeiro, não nos cruzávamos desde o já longínquo ano de 75, marca no tempo do final de curso para ambos.

Falo ainda sobre o que me trouxe por cá, apenas para dizer que o dia de hoje transportará toda a carga emotiva da satisfação do chamado dever cumprido. Após uma longa reunião que vai quase até às 2 da tarde, conseguimosdelinear o Projecto de construção do Centro Comunitário de Educação e Formação de Bidau Massau, mais um Centro Internet e ainda um pequeno Parque de Jogos. Os dados estão agora lançados, acertam-se os orçamentos, discutem-se os pormenores do início das construções, do envio da primeira tranche de dinheiro e claro da necessidade de apresentação de contas. O que significa esta obra, ou melhor estas obras, para os timorenses da aldeia, não tem palavras. Nós, do outro lado, tentamos aprender o significado do que é a cooperação para o desenvolvimento. Em Timor-Leste, o País das crianças, das mulheres silenciosas (silenciadas?) e dos velhos que mostram nas suas rugas toda a beleza deste Oriente com uma claridade imensa, apesar da sombra dos dislates dos últimos dias.

Amanhã, espera-se um dia mais claro ainda...



Dili, 5 de Março, ano 2007
ALF.
CRÓNICAS DE TIMOR-LESTE -3





A VISITA A BIDAU MASSAU








Às 10 da manhã deste Sábado já a comitiva do Primeiro-Ministro Ramos Horta se encontra no Hotel Timor, devidamente preparada para uma missão de reconhecimento de terreno. O destino é o Suco(() Suco: divisão administrativa que abrange várias aldeias) de BidauMassau, onde existe uma Associação de desenvolvimento local, em colaboração com a diocese de Dili.

Deslocamo-nos numa Microlete, o PM, a Chefe de Gabinete, dois assessores e mais 2 jornalistas. Atrás de nós um jipe com 2 seguranças, passando perfeitamente despercebidos na paisagem. Pelo caminho, muitas saudações da população, algumas paragens para cumprimentar as pessoas, muitos miúdos das escolas com os seus uniformes coloridos que se acercam da carrinha, sempre que dão conta que dentro viaja o próprio PM. Uma breve passagem pela residência oficial do Presidente Xanana Gusmão, com quem o PM tinha ficado de se encontrar. Andamos uns 20 minutos em marcha lenta pelas ruas da capital, afastando-nos do centro da cidade, por zonas habitacionais, sempre com as montanhas por fundo, uma imponente paisagem com tons de verde carregado e uma ligeira ameaça de chuva, que nunca se cumpriria, à excepção de umas pequenas gotas que amenizam o forte calor dos últimos dias. Entramos na aldeia de Bidau Santana, umas 500 famílias, num total de cerca de 1200 pessoas; a aldeia tem uma Escola Primária com 8 salas para 40 alunos e 10 professores. A Associação trabalha para a população da aldeia, com o objectivo de formar mulheres e jovens nas artes da costura, defende o património ambiental e projecta a formação desportiva dos mais jovens. Germano Brites apresenta-nos o seu Projecto que envolve a edificação de um pequeno Centro Comunitário e também de um campo desportivo multiusos. Fazem uma festa da nossa visita sobretudo quando Ramos Horta lhes comunica que eu trago apoio concreto para o seu Projecto, materializado numa doação dos professores portugueses.

No regresso, sempre em marcha lenta, com várias paragens, damos boleia por duas vezes a timorenses que aguardavam algum transporte e que são convidados a entrar na Microlete. Um almoço excelente oferecido pelo PM a toda a delegação, naquilo que em Portugal poderíamos chamar uma tasca, completa o cenário de um dia que marcará certamente todos nós.

É difícil explicar a satisfação destes momentos. Ficará na memória o contacto directo com as pessoas, a sua simplicidade, o seu empenhamento na melhora das suas condições de subsistência, no orgulho pelos seus valores, na defesa da sua terra. O pano de fundo do local onde a aldeia se reuniu para nos receber é uma imagem da santa, evocando os mártires do massacre de Santa Cruz...



Dili, 3 de Março, ano 2007
ALF.
CRÓNICAS DE TIMOR-LESTE -2

O HOTEL TIMOR (em Dili)

O Hotel Timor (HT) localizado no centro de Dili, mesmo em frente ao porto é o principal hotel da cidade e, de certa forma, um ícone da capital timorense. Muita história se fez neste edifício, antigo Makhota, designação original que remonta a 1972, funcionando entre 1976 e Setembro de 1999, data em que foi incendiado e abandonado durante o período conturbado da retirada da Indonésia do território. O actual edifício foi alvo de remodelação profunda no final do século passado a partir de um Protocolo celebrado entre a Fundação Oriente e o Governo de Timor-Leste; nessa altura, aquela Fundação realizou obras de total recuperação e equipagem do novo Hotel Timor.

Um símbolo da capital e palco de acontecimentos ligados à luta pela independência e mesmo após em momentos de crise, o HT é ponto de encontro permanente de trabalhadores da cooperação portuguesa, empresários, professores e demais visitantes da capital. À hora do almoço, ao final da tarde e no fim do jantar, o Bar do HT enche-se de pequenos grupos que simplesmente conversam, bem o seu copo. Há também os grandes grupos, sobretudo profissionais das Nações Unidas e da GNR portuguesa.

A realidade em frente ao HT é porventura bem diversa: grupos de barracas mais ou menos alinhadas, pessoas que na calada da noite procuram um pequeno jacto de agua no jardim fronteiro para se lavarem. Curiosamente chamado de
Jardim dos Heróis, o espaço é para todos os efeitos um dos vários campos que acolhe deslocados timorenses.

Com muita simpatia da maior parte dos funcionários, a começar pelo jovem director que está por cá há 1 mês e meio, o HT tem de facto um serviço de qualidade mais que rasteira. Na ingenuidade de viajantehabituado a pedir todo o tipo de informação no Hotel, descubro que não existe um mapa da cidade e só há jornal de 15 em 15 dias. Não existe promoção turística de qualquer espécie, mas há sempre um porteiro simpático para nos receber. Não é propriamente o Hotel Califórnia da canção, é simplesmente o Hotel Timor...


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Fontes
:
Sitio Internet HT, in:
www.hotel-timor.com
www.portugaldiario.iol.pt


Dili, 2 de Março, ano 2007
ALF.
CRÓNICAS DE TIMOR-LESTE -1



Conhecer DILI
(em TIMOR-LESTE, a NAÇÃO mais nova do Mundo)








Estou em Dili desde há 3 dias, respiro o ar quente e húmido destas paragens onde o tempo passa de uma outra forma. Aqui há, como em todo lado, pessoas que lutam por melhores condições, com a diferença que estão sujeitas a uma ameaça constante vinda dos vizinho australiano que, como diria o Manuel Correia está apostado em destruir tudo aquilo que foi construído pelos timorenses e também, por nós portugueses. Encontro todos os dias (ainda são poucos...) pessoas novas, novos amigos e amigas; trabalham na Universidade, na construção civil, na arquitectura, na produção de mobiliário, enfim na cooperação portuguesa que mantém viva a cultura lusitana neste Oriente misterioso, pelo menos para quem não o conhece ainda.

No primeiro dia, não me aventuro a sair do Hotel Timor sem o apoio de um motorista de táxi, recomendado pelo gerente do hotel. Apu assim se chama o meu guia, que cobra à hora, nem mais nem menos que 10 dólares, é simpático, não quer receber na primeira viagem, que dura exactamente (segundo as contas dele...) uns singelos 11 minutos; ficas com o meu número e chama de onde estiveres
..., diz ele, é simples, não tem que saber; conduz muito devagar (claro!) numa pequena selva de trânsito, que tem pouco a ver com a que estamos habituados, não têm contudoa mania fundamentalista dos portugueses que param em qualquer passadeira se adivinham que um peão se aproxima; nada disso, buzinam sempre que alguém atravessa a rua, que esta é para os carros, claro; mas não andam nem estacionam em cima dos passeios, respeitando assim uma delimitação geograficamente evidente. Por falar em passeios é curioso encontrar na sua maioria as raízes das árvores seculares a rasgar grande parte deles...

A partir de hoje e salva alguma deslocação para fora de Dili, Apu será dispensado. Descubro finalmente a cidade passeando a pé, única forma de as conhecer na realidade. Mercados, lojas impensáveis para um ocidental, casas com telha portuguesa (um orgulho para os timorenses, não se cansam de o dizer), as pessoas... Dili é uma cidade assim como perdida no tempo. As pessoas são afáveis, mas terrivelmente reservadas, querem falar português, mas têm medo de o fazer ao mesmo tempo, é estranho; são muito sintéticas, conversa fiada não é com eles, dizem o que basta e pronto. Um passeio a pé pela cidade,com as pausas da praxe para fotografia, demora umas 3 horas; fica tudo visto; a exploração de alguns sítios seleccionados fica para depois. Obrigatórios, o Palácio do Governo, o porto de Dili mesmo em frente, um passeio calmo e curioso pela Avenida Bispo Medeiros que tem tudo (ou nada?) para comprar; na zona do Hotel Dili há também muito comércio, pequenas lojas, supermercados, lojas chinesas, muitos miúdos de rua vendendo lembranças de Portugal, porta-chaves, bandeiras. Nos cafés, sempre muito movimentados podemos sempre encontrar grupos de portugueses, professores, técnicos da cooperação, policias, ou ainda funcionários das Nações Unidas. Estes aliás passeiam-se constantemente pelas ruas nos seus jipes topo de gama, aos montes, parece mais um território ocupado... Não esqueçamos ainda os vendedores de fruta, um espectáculo: transportam ao ombro uma vara de bambu de onde pendem das extremidades cachos de bananas, de milho, de laranjas esverdeadas (...), de mangas; abordam frequentemente as pessoas com uma interjeição esquisita e logo se afastam...

As primeiras impressões mostram uma cidade com muito movimento, com alguma alegria contida e muitos pequenos grupos que se juntam um pouco por todo o lado e que fazem qualquer coisa que ainda não dápara perceber, ignoram-nos pura e simplesmente, isso é mais que certo...


Dili, 28 de Fevereiro, ano 2007
ALF.

23 fevereiro 2007


... Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Balada de Outono - Zeca Afonso

Havias de escrever o País no pior e no melhor; atravessaste o deserto, irritastes o poder, cultivaste o desassossego permanente. Estiveste na resistência, na luta, foste uma voz de permanente inquietação. Proclamaste sempre os amigos, convocaste Poetas, cantaste como ninguém um Povo que resistia. Grande demais num país pequeno, atolado na mediocridade e amordaçado. Tiveste a coragem de denunciar a morte do pintor assassinado pela PIDE em pleno dia. Cantaste Coimbra e Lisboa, o Alentejo e a África de todos os ritmos e dilectas recordações.

Soubeste ainda cantar o Povo que acordava da longa noite; tinhas já, sem saber, na boca a senha da revolta, a Grândola de todos nós. Cantaste Abril que a 25 reencontrou Portugal. Lembraste o Maio Maduro Maio, que a voz não nos esmoreça, diremos decerto contigo. E assim seremos, com orgulho na liberdade os filhos da madrugada e contigo iremos pelas praias da madrugada à procura da manhã clara... Para mal dos nossos pecados, ficas a saber que 32 anos depois de Abril ainda há vampiros que comem tudo e não deixam nada.... Mas acredita, há por aíalgures muitos índios da meia-praia, que lutam enquanto há força...Vejam bem o que dá, quando um homem se põe a pensar...

Estejas onde estiveres, ouvirás baladas e canções que nos embalam porque podem roubar-nos tudo menos os afectos; ouvirás os amigos, venham eles de onde vierem, cantando as tuas músicas, as palavras a que deste o ritmo que as solta na medida exacta de uma arte que apesar da idade foi sempre um Canto Moço.

Embora esta ainda não seja a terra da fraternidade, a vila morena com que sonhaste...

09 fevereiro 2007

SIM, sem qualquer dúvida...

S
IM, sem qualquer dúvida...

O referendo do próximo dia 11 tem um significado que considero particularmente importante no contexto actual, em que talvez por se tratar de um tema que atravessa a sociedade portuguesa de forma aliás dramática, assume uma dimensão especial. Trata-se de facto de uma questão de cidadania: a de mudar uma situação penosa para as mulheres que sofrem na pele as consequências de um poder dominantemente sexista; de facto, não sofrem só na pele, jáque a devassa da sua vida privada é talvez uma dor ainda mais forte. Por isso, o voto SIM para mudar esta situação é um acto de cidadania e de reforço da democracia.

É um momento muito especial ainda pelo facto de significar um corte com um passado que envergonha grande parte da sociedade; e só não digo toda a sociedade, porque realisticamente falando há uma parte que não se envergonha de nada! Tenho para mim que este dia pode ser um dos dias mais importantes depois do 25 de Abril: o corte com a intolerância, com a ditadura dos que pensam ter o poder para impor os seus dogmas ao resto dos cidadãos; acho que depois do dia 11, como se costuma dizer, nada ficará como dantes: o facto tão simples como votar para mudar uma lei injusta, irá de certo ter o reflexo devido na restituição de um direito negado às mulheres.

O Não já perdeu praticamente os seus argumentos principais quando apresentou nos últimos dias a tal solução mágica do crime sem castigo. Vendo bem, se não querem de facto a penalização, então que votem SIM. Tão simples quanto isto! Só que de facto, não é isso que querem e a circunstância de agora apresentarem a proposta (?) só significa quererem salvar a face... Todavia, é tarde demais!

Penso que uma grande maioria das pessoas, independentemente da sua ideologia, crença ou posicionamento político não vê com bons olhos a actual situação. Por isso deveriam votar SIM. Mas há as pressões, a desinformação permanente, a manipulação baixa, a baralhação constante e isso por vezes é determinante na altura do voto...

Por isso, vale a pena dizer: SIM, sem qualquer dúvida...

08 fevereiro 2007

Claro que SIM!

Um estudo recentemente realizado pela Associação para o Planeamento Familiar (APF) com o apoio do Inovation Fund da Federação Internacional de Planeamento Familia, sobre a situação do aborto em Portugal, mostra algumas situações e realidades que convém situar, sobretudo para aqueles que tentam mistificar e confundir o eleitorado na hora da decisão. Eis algumas:
a) o aborto provocado é um problema que afecta centenas de milhares (cerca de 354 000 segundo o estudo) de mulheres portuguesas, ainda que seja praticado por uma minoria das mulheres (14,5%);
b) o aborto ocorre em mulheres de todas as idades e, tomando como indicador social o grau de instrução, acontece em mulheres de todas as condições sociais e sobretudo em mulheres casadas. Portanto o aborto não é um fenómeno que toca somente as mulheres mais jovens, sós, e mais pobres.
c) a sua grande maioria, em mais de 70% dos casos, os abortos foram realizados até às 10 semanas (89% até às 12 semanas) pelo que, mesmo em condições de clandestinidade, estamos perante uma situação de abortos precoces
d) a grande maioria dos abortos provocados aconteceram emPortugal (85%), em estabelecimentos ou locais não autorizados para a prática de IVG como casas, clínicas ou consultórios particulares;
e) uma em cada cinco mulheres que aborta teve complicações graves após o aborto.

Entre os argumentos mais significativos para votar SIM estácertamente o de acabar com a praga do aborto clandestino; quem fala contra dizendo que não se trata de despenalizar mas sim de liberalizar, devia pensar que liberalizado já ele estáagora! O argumento vira-se contra os argumentadores e se calhar percebendo isso mesmo vá de arranjar forma de confundir os eleitores...

Insistir no SIM significa pois que deverá competir ao Estado garantia de que as mulheres que necessitem de interromper voluntariamente uma gravidez, têm direito de uma decisão em segurança para a sua saúde e dignidade, de acordo com as várias recomendações das Nações Unidas e do Parlamento Europeu. Significavotar que acabe de uma vez por todas com o estado actual de penalização das mulheres. Significa ainda votar para que a AR seja capaz de legislar sobre as formas e acesso a um direito então consagrado.

E imperioso que dia 11 seja um dia de exaltação da palavra SIM; é um SIM aos direitos, liberdades e garantias, é um SIM à tolerância, é um SIM à solidariedade e é finalmente um SIM à cidadania e à democracia!

Por isso, Claro que SIM!!!

07 fevereiro 2007

SIM, claro!

Decididamente não gosto de referendos... Considero que só em casos de extrema importância, digamos nacional, se justifica o uso desta forma de auscultação. É então na Assembleia da Republica (AR), o órgão legislativo por excelência, que as questões de leis devem ser tratadas. Relativamente à questão da IVG, considero (e escrevi varias vezes sobre isso) que o assunto da lei em si mesma (e da sua substituição) deveria ter sido tratada na AR. Como tal manifesto mais uma vez o meu respeito e admiração por todas(os) as(os) deputadas(os) que defenderam essa posição na AR. A actual maioria era perfeitamente capaz de legislar sobre a matéria.

Mas estamos hoje a agora durante a campanha do Referendo do dia 11 e é sobre a questão da pergunta em concreto que nos devemos pronunciar. SIM claro, sem qualquer dúvida, sem nenhuma hesitação: queremos que a lei mude e como tal devemos votar SIM. Mais, devemos insistir no único ponto em que não há dúvidas nenhumas: quem votar Não, estará a votar para que tudo fique na mesma.

Assunto velho, com os mesmos contornos de há 30 anos, que a democracia nunca consegui resolver, com a mais completa cumplicidade da grande maioria dos que hoje estão do lado do Não. É preciso dizê-lo com toda a frontalidade: eles querem que tudo continue na mesma, querem ver as mulheres sujeitas à maior devassa que se pode imaginar: a da sua vida privada, à da sua intimidade ameaçada por uma queixa mesquinha de um qualquer funcionário zeloso; do Não, claro. É preciso dizer mais ainda (outra vez com toda a frontalidade): eles querem impor a todo o País (pelo menos...) a sua vontade, as suas crenças, os seus dogmas, os seus sagrados princípios, enfim...as suas limitações. Nós defendemos a liberdade, a defesa dos direitos humanos, o direito à dignidade, se quiserem... o direito à vida! Não queremos obrigar ninguém a pensar como nós pensamos; apenas queremos que a lei mude; e, para a lei mudar só se pode votar SIM!
Por isso, a tentativa nos últimos dias de alguns sectores do Não de ressuscitar uma proposta onde se previa a não continuidade do processo por crime de aborto é da mais profunda hipocrisia. É uma vergonha vir, a meia dúziade dias da votação, propor afinal que os processos-crime não tenham seguimento, como se alguma vez isso fosse possível num quadro legal de penalização criminal. Aquilo que poderia ser encarado como uma recomendação aos juízes, num contexto de aplicação da lei actual é, como muito bem lembrou Rui Pereira no ultimo P&C da RTP, uma mascarada completa no momento em que está em causa um Referendo precisamente sobre a matéria. Para esses moralistas baratos o Estado consideraria (à mesma) criminosas as mulheres para todos os efeitos e depois na sua bondade iria dizer à mulher que o seu processo não continuaria...; isto claro se nada acontecer entretanto, que em caso contrario, cá estaremos para lhe aplicar a pena!
Tudo isto deve ser denunciado! Em boa verdade não acho que ninguém, em seu perfeito juízo, aceite tal coisa. Pode haver ainda, como certamente haverá, muita falta de informação sobre a matéria, muita ignorância consentida, muita manipulação ligeira e finalmente muita desonestidade politica (para não lhe chamar outra coisa...)

Iniciei a dizer que manifestava o meu respeito e admiração por aquelas e aqueles que até agora têm defendido a alteração deste estado de coisas. Quero agora dizer, numa sequência lógica de raciocínio, que não consigo játer qualquer respeito por aquelas e aqueles que têm utilizado o palco social, em toda a sua extensão para mistificar a realidade e para fazer valer os tais sagrados princípios e tentar impô-los aos outros. Não posso ter respeito pelas figuras públicas da direita tradicional, dirigentes partidários, personalidades responsáveis que, com cobertura jornalística de destaque, comparam o aborto ao tráfico de droga e ao tráfico de armas: sinceramente não lhes perdoo, tenha isso o valor que tiver! Também não perdoo (a esses muito menos, eles que têm o privilégio de perdoar...) aos membros da Igreja Católica e particularmente à sua hierarquia a campanhadesenfreada, descabelada e desesperada que uma vez mais fizeram e que vão ainda fazer nos últimos dias; não sei se merecem resposta, claro; pelo menos resposta escrita, não!
Não mais a Natureza ou o Estado, ou uma qualquer religião podem decidir sobre o futuro e a vida das mulheres. Só na realidade elas próprias e é precisamente por isso que a igualdade de género é uma questão de democracia e de cidadania. Aos que como eu votam SIM apelo então para uma mobilização geral ao voto no dia 11; para que seja possível passar uma mensagem muito simples afinal: votar SIM évotar para que a lei seja mudada; para que não fique de novo tudo na mesma, como querem os partidários do passado e das trevas...

Por isso, SIM CLARO!!!

29 dezembro 2006


"Procuro uma alegria
uma mala vazia
do final de ano
e eis que tenho na mão
flor do quotidiano
é voo de um pássaro
é uma canção..."
Carlos Drummond de Andrade
Dezembro de 1968


Todos gastamos tempo à procura de qualquer coisa muitas das vezes não sabemos bem o quê lá está a tal busca contínua que nos perturba e assusta já está quase é fim do ano vem mais um afinal provavelmente igual a tantos outros talvez não desta vez será melhor vai haver mais eu sei que sim é agora que vai acontecer o que quero mas também se não for não faz mal lá vamos mais uma vez a tentar agora que nos prometem mais coesão mais solidariedade mais dinheiro quem sabe sófalta mesmo um minuto para saber a meia-noite o espumante os brindes aquela canção que curtimos é linda fala de uma ilha em qualquer mar em qualquer parte não tem guerra nem fumo de metralha podemos sempre estar lá é uma questão de querer Leva-ma para lá eu estou pronto desta vez não vou recuar vou afastar os medos tens razão vale a pena vamos comendo as passas formulando desejos que a mala está vazia mas as mãos não estão uma na outra talvez seja um sinal afinal o voo do pássaro é mesmo uma canção...
Basta apenas o sonho de 1 minuto para ser feliz!

24 dezembro 2006

O MINUTO DA PETRA...


Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham...


Venho do fundo do Tempo
não tenho tempo a perder...


Rómulo de Carvalho
(Fala do Homem Nascido, 1958)



Nesta quadra de Natal 2006 a Petra teve uma prenda especial: um minuto. Sim, nem mais nem menos, 1 minuto. No faz de conta que as crianças gostam e por qualquer razão que já não lembro, lhe disse: toma este minuto, guarda-o muito bem, é o teu minuto. Neste tempo de loucura, em que ninguém tem tempo para nada, toda a gente se queixa que não tem tempo, que o dia deveria porventura ter mais horas, alguém se lembra de ofertar tempo. Nada que seja original claro, apenas o simbólico que se reconhece a quem merece todo o tempo doMundo. Tu Petra, que ainda não sabes ler, mas entendes bem quem te presta a atenção que mereces e quem te ama. O tempo, qualquer coisa indefinida, quiçá virtual está contudo acima de qualquer suspeita. E aquelas e aqueles que jáviveram muito tempo, muitos tempos, alguns difíceis, outros venturosos, aprenderam (?) o valor que nele se encerra e alguns valores que porventura se vão perdendo. Será esta uma lição para nós todos que por vezes perdemos tanto tempo em coisas inúteis, fúteis às vezes e que, quando damos conta o vamos tentar agarrar mais além... Esse minuto que guardas hoje, poderá ser aproveitado para o quiseres. Não éo tal minuto de glória, não é seguramente um minuto de silêncio. É apenas o teu minuto que alguém te deu: um minuto de liberdade, um minuto de paciência, um minuto de ternura, um minuto de paixão, um minuto de mistério, um minuto de sonho...
E, acima de tudo, um lapso de tempo que no futuro saberás dar aos outros, em atenção, carinho e amor que tanta falta fazem na torrente do tempo que corre...

Natal de 2006
Alfredo Vari

12 dezembro 2006

A MORTE DA BESTA...

Chile, 11 Setembro do ano 1973. Chove em Santiago, uma chuva de terror, misturada com muito sangue, um País que morre um pouco àcusta do golpe militar onde emerge a besta que hoje vai a enterrar. Custa classificar de humano este mamífero horrendo que, durante dezenas de anos, carregou o ónus de verdadeiros crimes contra a humanidade, sempre impune, sempre assumindo os actos hediondos que praticou, os assassínios que perpetrou ou mandou executar. Milhares de chilenos desaparecidos, famílias destruídas, um País a ferro e fogo, perseguições que durante anos e anos completaram o cenário dantesco de um crime que ficará para sempre como dos mais sádicos da história do século XX. A administração americana e a CIA, que conseguiram criar nos últimos 50 anos as figuras mais execráveis (Sadam, Bin Laden,....) sempre seguraram Pinochet, sempre o protegeram e ficarão também por isso com mais este episódio no seu triste historial de apoio às ditaduras e aos fascismos que floresceram graças à sua ajuda moral e material.

A morte da besta não significa, como bem diz Isabel Allende filha de Salvador, que os seus crimes sejam esquecidos; a sociedade chilena e os patriotas do mundo livre têm por obrigação denunciar nos fóruns internacionais os crimes de Pinochet, julga-los e mostrar aos jovens de todo o Mundo como foi possível o 11 de Setembro no Chile, onde impunemente se destruí um regime democrático, se assassinou um Presidente eleito e se chacinaram pessoas indiscriminadamente em nome de pura e simplesmente NADA...

Que a morte da besta sirva ao menos para recordar o que muitos querem deixar esquecer...

06 novembro 2006

UMA ESTÓRIA DO PORTO...

Um noite destas caem brinquedos do céu, podia ser um titulo em qualquer jornal, que do sensacional vivem um pouco por todo lado. Podia ser um reforço de linguagem, uma forma de dizer como qualquer outra, porque a língua é traiçoeira, manhosa e dá para estas coisas, sabe-se lá porquê, alguém anda a enganar outros deliberadamente, talvez com intenção malévola, que isto de ditos é como se sabe, quem conta um conto, acrescenta um ponto. Podia ser tanta coisa, hoje em dia acontecem os maiores disparates e a gente já não se admira, parece andar tudo às avessas, pois. Mas é verdade, uma noite, ou tarde já nem sei, caíram do céu brinquedos no meu pátio, chego a casa e lá estão, espalhados numa vasta área, parecia quase uma tragédia, uns despedaçados, bonecas sem braços, carrinhos sem rodas, mas outros, que espanto, quase intactos, sobrevivendo a uma queda de não sei quantos metros, assim expostos às intempéries, que o tempo não está para graças, qual o meu espanto ao ver uma coisa assim, sem ter resposta, abismado com aquela oferta e sem saber o que fazer, deixa p´ra lá, admiro o espectáculo e ponho-me a pensar porquê eu que já não estou propriamente em idade de brincar, pelo menos da forma tradicional que a gente pensa, apesar de guardar bem no fundo aquela faceta de puto que não resiste a uma boa brincadeira.
Só depois de receber uma missiva do vizinho, desculpando-se da atitude de um filho mais um amigo, segundo pude constatar, descubro a verdadeira faceta da estória. Vai daí, resolvendo desfazer-se do stock de peças usadas, os putos antevendo talvez um Natal mais que próximo, decidem atirar fora tudo o que já não usam, cansados das peças desfasadas do tempo que não perdoa e faz jogar fora o que parece já não ter valor e que a sociedade dita de consumo quase obriga a jogar fora.

Assim se faz uma estória que afinal não o é, mas faz pensar, num exercício de livre devaneio. No fundo talvez neste tempo vazio, nos saiba bem abrir a mente a qualquer coisa diferente, cansados das rotinas que nos desgastam e que quantas vezes nos enchem de um tédio difícil de varrer. Preferia se calhar ficar na eterna dúvida de saber como foi possível que caíssem do céu da cidade brinquedos e sonhar, sim porque não, como tudo aquilo aconteceu. Sorri apenas...

20 outubro 2006

A MULHER DECIDE, A SOCIEDADE RESPEITA, O ESTADO GARANTE A IVG

Um direito fundamental não é referendável. Não se referenda um direito do ser humano em usar o seu corpo e decidir em relação à concepção. Sabem as mulheres que por tal já passaram o sofrimento físico e moral que tal significa; todos os testemunhos apontam para isso. Não basta à mulher tais sofrimentos, ainda tem que passar pelo enxovalho público de ser arguida, julgada e potencialmente condenada por uma decisão que sóa ela deveria caber. Os moralistas de todos os quadrantes, os fundamentalistas de todas as matizes, apregoando a defesa da vida, querem imiscuir-se e ditar a sua lei; não os ouvimos contudo defender a vida que existe num Mundo cruel, desumanizado, em que mulheres e crianças morrem de 3 em 3 segundos. O mesmo para as igrejas, principalmente a católica, que para além de pura e simplesmente não respeitarem a mulher como ser humano de pleno direito, ainda querem impor a sua prédica reaccionária e atrasada não sei quantos séculos de um discurso do pecado e da condenação; nem dá para acreditar que estamos no século XXI!
A mulher decide, a sociedade respeita, o estado garante a IVG é o título da petição entregue na AR, conta já com perto de3000 assinaturas e chama a atenção daquele órgão de soberania para ... a capacidade, a legitimidade e a responsabilidade de mudar a lei. Isto, afirmam ainda os subscritores, porque ao Estado compete garantir às mulheres que necessitem de interromper voluntariamente uma gravidez, o direito de decisão em segurança para a sua saúde e dignidade, de acordo com as várias recomendações das Nações Unidas e do Parlamento Europeu. A petição solicita a despenalização do aborto na Assembleia da República, a pedido da mulher até às 12 semanas de gravidez.
E aqui cabe uma palavra para aqueles que deveriam em principio preservar a sua coerência de uma politica de ataque ao atraso do Pais; esta é apenas mais uma das vertentes em que a sua decisão não deveria vacilar. Contudo preferem escudar-se no formalismo de um referendo, quando a questão poderia (deveria) limitar-se á afirmação politica do voto na própria AR. E também uma outra palavra para todos os que (pelos vistos...) se decidiram agora pelo politicamente correcto que sempre atacaram noutras ocasiões... Enfim, não deixa de ser um coro engraçado, em que só não entra a extrema-direita parlamentar (vá lá...)
Ainda há, nestes tempos de indiferença, quem assuma aquilo que considero uma certa radicalidade, em termos da defesa de princípios e direitos fundamentais da pessoa humana, nesta caso da mulher. Que decididamente não se referendam!

18 outubro 2006

MESTRE GIL...

Em dias de tempestade, agravada pelo vento agreste do Norte (ou será que é do Sul???) a ministra vem de novo á liça dizer que a greve não faz sentido por estar ainda a decorrer o processo negocial .... O JN de hoje informa que a Paralisação de professores fecha a maioria das escolas do país. Como diz o povo em tempo de guerra não se limpam armas, não háforma de entendimento possível nem resposta garantida a quem arriscou demasiado numa luta que já cansa à vista (pelo menos) dos mais avisados...

A verdadeira luta, essa deveria ser por uma qualidade de ensino que prestigiasse o Pais, pela dignificação da formação dos portugueses; estamos ainda na cauda da Europa, não se esqueçam, que diabo. Que adianta termos mais catedrais de consumo, mais betão por todo o lado se não temos vencida a batalha (não será a antes a guerra???) da educação e da formação? E aqui convém não confundir as responsabilidades: é ao governo da Republica que compete cuidar da inversão das estatísticas...

Quando me convidam a pronunciar se estou a favor da ministra ou dos Sindicatos, eu sinceramente não entendo e não aceito tal dicotomia. Alguém se lembraria por exemplo de perguntar se sou a favor ou contra os maquinistas da CP, ou dos controladores de voo da TAP, ou dos trabalhadores da limpeza da câmara de não sei quantos??? É na realidade uma falsa questão, em que no entanto alguns insistem em martelar a opinião pública; temos sim, na qualidade de cidadãos deste Pais de exigir que o Governo actue onde deve actuar com propostas concretas e medidas eficientes. Alguém de boa fépode entender que se queira, por exemplo, colocar os pais a avaliar os professores??? É pois sobre alarvidades como esta que eu me posso pronunciar e não sobre questões técnicas de natureza laboral, essas sim da alçada dos sindicatos e dos profissionais do ensino. Nada de confusões, que ...
O esperto só acredita em metade, o génio sabe em que metade deve acreditar.
O povo costuma ainda dizer O pior cego é aquele que se recusa a ter cão, forma politicamente (in)correcta de dizer que ... é o não quer ver. Queiramos então ver as cosas com olhos de ver. Já algures insisti na tese de que nada se faz contra os professores; à vontade o digo, porque professor não sou; entendo que, apesar de algumas aberrações típicas, a sociedadedeveria cuidar melhor dos mestres que educam os seus filhos.

Quem semeia ventos colhe tempestades, não duvide senhora ministra! E para que saiba, não ajuda nada a asserção popular Antes quero asno que me leve que cavalo que me derrube, tentativa vã de escolha fácil de caminhos duvidosos. Mas afinal, saberá (qual Inês Pereira...) que da malícia feita ao desconhecimento vai realmente um caminho estreito?

A sabedoria de mestre Gil lhe ditará às tantas o resultado final...

17 outubro 2006

Mohamed Yunus





Um dia, quando realizava trabalhos de campo com os seus alunos, num povoado indiano pobre, um desconhecido, de seu nome Mohamed Yunus, professor de Economia na Universidade de Cittagong, encontrou uma mulher que se dedicava à fabricação de tabuletas de bambu. Yunus perguntou quanto ela ganhava por cada uma delas, o que dava uma cifra irrisória. Um negociante emprestava-lhe dinheiro para comprar o bambu, com a condição de que ela lhe venderia de imediato as tabuletas por um preço por ele estabelecido. Yunus pensou que se aquela mulher tivesse dinheiro, não precisaria de viver naquela situação. Decide então levar os seus alunos para um trabalho de investigação num povoado e tentar descobrir quantas pessoas precisariam de dinheiro para iniciar alguns pequenos negócios. No total havia 42 pessoas que necessitavam qualquer coisa como 30 euros. Contudo, os bancos tradicionais negavam sistematicamente créditoa essas pessoas.
Então Yunus ofereceu-se em alguns casos como fiador, pensando sempre em criar um Banco que ajudasse os mais pobres. Assim, em 1976, apesar da resistência dos grandes bancos de Bangladesh, Yunus conseguia fundar o Banco Grameen (banco rural), que em1983 obteve a categoria de banco autónomo. Desta forma, a pessoa que solicitasse um crédito não teria que responder por um grande capital ou com garantia de propriedades; o sistema implicaria tão-somente que houvesse um conjunto de 5 pessoas que consigo garantisse o reembolso.
Com a sua iniciativa Yunus, conseguiu que no ano de 2005, 100 milhões de famílias por todo o Mundo, acedessem aos microcréditos. Na prática o microcrédito é administrado pelo Grameen Bank, que écomposto por 90% de capital privado (dos próprios clientes) e 10% de capital estatal do governo de Bangladesh. A gestão do património tem uma metodologia própria, baseada na decisão comunitária para aprovações de crédito pessoal.
O projecto de Yunus baseia-se no facto de crer no valor que o ser humano dá ao seu próprio nome e à dignidade e, principalmente, o de realizar um sentido para a sua própria vida.
É este homem simples, que, como dizia Wemans (Publico de 15 de Outubro) ...quase pede desculpa por existir que ganha agora o Prémio Nobel da Paz de 2006. A Academia Sueca justifica a distinção com ...esforços para criar desenvolvimento económico e social, através do microcrédito. Decisão não isenta de uma certa surpresa, dado que Yunus não se encontrava de facto na lista de favoritos.
O banqueiro dos pobres, como ficará para sempre lembrado, um homem que é um exemplo na luta contra a pobreza; hoje, Dia Internacional da Erradicação da Pobreza, émais que justo prestar homenagem a este homem, um exemplo para a humanidade, particularmente para os economistas do ocidente, quase sempre zelosos na defesa dos esquemas tradicionaisque favorecem sempre os mesmos: os ricos e os detentores do capital. Lembrar a obra de Yunus numa altura em que várias organizações não-governamentais apelaram a um LEVANTAMENTO CONTRA A POBREZA, em mais uma tentativa de chamar a atenção de todo o Mundo para este problema: um mundo em que há 1,5 em 6 biliões de pessoas com menos de 1 dólar por dia, ou seja num estado de pobreza (pelo menos) latente...
Ao mesmo tempo vemos da parte da banca tradicional (leia-se institucional...) uma postura do mais completo desprezo pela situação da pobreza a nível mundial, preocupando-se sobretudo em obter dos governos as garantias e isenções mais escandalosas; veja-se por exemplo (é sempre bom lembrar esse facto...) o caso português, onde a banca paga somente 13% de imposto sobre os lucros, quase 1/3 do equivalente a qualquer cidadão ou empresa...

03 outubro 2006

O PROLONGAMENTO...(a)

O que apetece dizer sobre a 1ªvolta das eleições da terra que tem muito samba, muito choro e rocknrollparafraseando o poeta que está para chegar, é que é preciso
...muita careta p´ra engolir a transacção
e a gente tá engolindo cada sapo no caminho

É, está de facto preta a coisa e já estivera afinal antes do ato em si.

Apetece chamar Lula, meu caro amigo eu não pretendo provocar nem atiçar suas saudades..., mas não posso me furtar de te lembrar das novidades do mensalão por exemplo, ou ainda do teu excesso de pragmatismo no tratamento das questões económicas. Lembrar talvez hoje o movimento dos sem terra (MST), onde o PT se destacou na luta contra os generais, contra as elites do dinheiro. É verdade, em Maio de 2005, dizias ao MST ...se não cumprirmos as metas da Reforma Agrária, teremos um problema de consciência com nós mesmos; vocês, mais do que ninguém têm o direito de cobrar o governo".

Podes dizer, bom mas eu não sou um caso isolado, não sou o único a olhar o céu... tenho um imenso País a governar, custa sempre saber mais um ou outro escândalo, o que conta é o dia de hoje e um voto na mão conta mais que 2 ou 3 votos para uma qualquer Heloísa...

Sei que li algures assim:
...Prefiro escorregar nos becos lamacentos,redemoinhar aos ventos,como farrapos, arrastar os pés sangrentos,air por aí...

Mas contudo, há qualquer coisa mais forte por aí... Os ventos que outrora sopravam do Palácio do Planalto parecem agora quietos; surdos até ao chamamento de uma vaga que do fundo não vem. A cidade do homem (não do lobo mas irmão) capital da alegria parece cada vez mais longe. Na noite em que era suposto cantar vitoria, ficou antes um longo silencio, noticiado por rádios e TVs.

Lula em silêncio, à espera do prolongamento...

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(a) Colaboração, ajudas e citações:
Chico Buarque de Holanda
Tim
José Régio
Zeca Afonso
Lula da Silva

10 setembro 2006

CAMINHANDO E CANTANDO...

Ao ver o ouvir certas coisas de notícia feita nem sei bem o que pensar. Sei (aprendi a saber...) que no mundo da chamada comunicação global o que é noticia hoje é determinado pelas regras do mercado (também global) e que raras são as vezes que escapa aquilo que não convém ser notícia. Pasma-se pois (depois) de assistir à estória alternativa do 11 de Setembro, exibida na RTP na noite do dia 8. Não sei mesmo o que pensar, nem consigo atingir como é possível guardar tanto tempo peças e documentos daquele teor, nem a quem realmente convém tal facto. O tempo guarda a memória das vítimas que nunca teriam sequer equacionado que o seu sofrimento serviria para a mais vil exploração mediática de que há memoria (se é que ainda há disso...). Está portanto para se perceber, ao que parece, como foi possível dois edifícios de cento e tal andares desabarem daquela maneira; fica-se a saber também que o atentado contra o Pentágono não passou de um flop (porque será que não me espantei?). Lembro-me do Geraldo Vandré(1), que cantava:

"Vem, vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer
"

Vamos pois caminhando e cantando e seguindo a canção, já que não temos forma de entender os complicados meandros do que vai acontecendo na republica global em que pelos vistos estamos englobados, enformados (isso, enformados e não informados...).

Também se discute (???) como ficou o Mundo depois do 11 de Setembro de 2001; quem lembra ainda um tal 11 de Setembro, mas de 1973, o assassinato de Salvador Allende durante o golpe de estado que instituiu o regime militar de Pinochet no Chile, com o apoio completo da CIA? Como ficou então o Chile? Quantos mais onzes de Setembro será preciso para acordar uma consciência global de rejeição à máquina opressora dos poderes instituídos, dos fundamentalismos intoleráveis, do miserabilismo seguidista da comunicação social?

A realidade entretanto está aí, Líbano, Afeganistão, Iraque, ..., sempre com os mesmos intervenientes, com os mesmo interesses e sempre, sempre à custa de centenas, milhares de mortos; essa realidade existe e não pode ser alterada por qualquer televisão. Ou pode?

"...Somos todos soldados armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a historia na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição
".

Isto para não dizer que não falei de flores...


(1) "P'ra não dizer que não falei de flores", poema para canção de Geraldo Vandré> escrita em 1968, que venceu um Festival Internacional e logo depois proibida pela ditadura militar de Costa e Silva, Brasil

16 junho 2006

EDUCAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

A Assembleia-Geral das Nações Unidas proclamou, em 2002, a Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável para o período 2005 2014 e designou a UNESCO para liderar o respectivo processo de implementação. A UNESCO é a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, criada em 1945; o seu principal objectivo é o de contribuir para a paz, desenvolvimento humano e segurança no mundo, promovendo o pluralismo, reconhecendo e conservando a diversidade, promovendo a autonomia e a participação na sociedade do conhecimento (() Declaração de princípios da UNESCO, in http://www.unesco.pt/cgi-bin/unesco/unesco.php
). Em Portugal, a Comissão Nacional da UNESCO constituiu, em Junho de 2005, um Grupo de Reflexão, composto por representantes de entidades da administração pública e representantes da sociedade civil (ONG, media, empresas, ensino superior, entidades oficiais, instituições de investigação científica, etc.), no sentido de apresentar propostas para desencadear o arranque da Década em Portugal. O resultado do trabalho daquele Grupo é agora apresentado, com data de 31 de Maio passado, num documento intitulado Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (2005-2014)- Contributos para a sua dinamização em Portugal(() Texto integral do documento in: http://www.unesco.pt/cgi-bin/home.php
) .

É um documento notável, pela actualidade que revela, pela clareza de análise que supõe, pela simplicidade de propostas que apresenta. De acordo com os subscritores do documento, ... a Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável constitui uma oportunidade ímpar para fazer inscrever o tema na agenda nacional neste domínio. O nosso País apresenta um enorme défice nas questões da cooperação e desenvolvimento, apesar dos esforços levados a cabo nos últimos 2 anos. Algumas iniciativas muito positivas, como as Redes Escolas Associados da UNESCO, Educação do Consumidor e Projectos do Programa Ciência Viva são disso um bom exemplo.

O conceito de desenvolvimento sustentável surgiu no final do século XX, pela constatação de que o desenvolvimento económico precisa ter em conta também o equilíbrio ecológico e a preservação da qualidade de vida das populações humanas a nível global. Isso implica, por exemplo, a gestão equilibrada dos recursos minerais e ecológicos do planeta. Trata-se de uma forma de forma de desenvolvimento económico que não tem como paradigma o crescimento, mas a melhoria da qualidade de vida; que implica o uso e aproveitamento de qualquer ecossistema sem prejudicar o posterior uso e aproveitamento por parte das gerações futuras; que tem em conta o esgotamento dos recursos naturais e prevê o recursos a fontes alternativas; enfim, que constata o progressivo enriquecimento do Norte em relação ao Sul e promove politicas equilibradas de distribuição da riqueza produzida.

Todavia tal não é suficiente. Contribuir para que as questões do desenvolvimento sustentável ganhem estatuto em Portugal, significa em primeiro lugar que a discussão pública desta temática seja realmente feita e seja assumida pela sociedade civil; desta forma, as escolas, autarquias, sindicatos, associações empresariais, empresas e organizações não-governamentais devem colocar na sua agenda prioritariamente a questão do contributo que podem dar a esta matéria, começando obviamente pela educação para o desenvolvimento sustentável. Por seu lado, a comunicação social deve desempenhar aqui um papel preponderante em tudo que tem a ver com divulgação de projectos, acompanhamento de iniciativas concretas a nível nacional, regional e local, registo e avaliação de situações pontuais e colaboração com as entidades empenhadas nestas questões.

É pois na qualidade de membro dirigente de uma organização não-governamental que apelo ao contributo de todos aqueles que de uma forma positiva se interessem pela matéria. Ficarei atento a todos os contributos que me queiram fazer chegar.

13 junho 2006

QUEM PAGA???

Segundo o JN de hoje, referindo-se a treinadores presentes no Mundial "Scolari é o terceiro mais bem pago. Segundo um estudo publicado no jornal alemão "Welt am Sonntag", que tem por base dados recolhidos pela empresa de consultadoria BBDO, Felipão recebe 2,15 milhões de euros por ano (431 mil contos na moeda antiga). E diz ainda, que "... à frente do responsável pela equipa das quinas, só está, a curta distância, o italiano Marcello Lippi (2,2 milhões de euros)"

Perante estes números, que penso só podem causar a indignação geral, o brasileiro ganha neste País o equivalente a 36 mil contos por mês! Como se pode aceitar uma coisa destas? Quem paga isto? A que proposto ouvimos dezenas, centenas, milhares de vezes que Portugal está com dificuldades, que o dinheiro não chega para isto e para aquilo (coisas que bem sentimos na pele...) e há um treinador de futebol que saca aquela massa toda?

Quem é (são) o (s) responsável (eis) por isto? Será só aquele atrasado mental que ocupa o cargo de presidente da Federação de Futebol e que ninguém se atreve a pôr no olho da rua?

Eu não sei, não tenho nenhuma espécie de resposta para isto, gostava que me explicassem. Costumo dizer que não entendo nada de futebol, limito-me a torcer pelo meu clube, como se calhar fazem milhões de portugueses, que pouco se preocupam com essas coisas e que dão de barato o que se passa nos meandros do futebol... Não dou dinheiro para ir ao estádio, não compro jornais desportivos, enfim não alimento a causa...

Só que acho que isto é demais e merece ser denunciado; para mais, a personagem em questão é tudo o que me repugna, pela sua falta de simpatia, pela sua arrogância, pela sua (ao que parece) teimosia obstinada, sei lá que mais...E ainda, depois de ver a triste figura (para mim, claro!) que a selecção fez num jogo contra uma equipa de amadores (com todo o respeito por Angola...), não posso deixar de ficar fulo e autenticamente passado...

Quero saber então quem paga este escandaloso vencimento, de quem é a responsabilidade e exigir respeito pelo País que ostensivamente aparece colocado em todas as estatísticas europeias (mundiais...) como o mais atrasado da União Europeia!

>Porra, é demais!!!