rio torto

rio torto

13 agosto 2008



CRÓNICAS ANGOLA 4: A lua deitada…


Não é como estamos acostumados a ver, a lua está de facto deitada, parece estranho, mas é assim nos trópicos, a foto não engana é um pormenor como qualquer outro, deixa-nos contudo a olhar para cima e a pensar, será que a lua adormece ou simplesmente descansa no calor e na calma? Enquanto a lua se deita, ficamos a saber hoje que a esperança de vida aumenta em Angola, que o país já não está mais no fim da lista, quer da mortalidade infantil, quer na mortalidade materna (Filomeno Fortes, técnico da Direcção Nacional da Saúde Pública, ao “Jornal de Angola”). No auge da campanha, o Governo promete erradicar o analfabetismo até 2015, cumprindo desta forma o 2º dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODMs). E mais uma boa notícia, esta para a província de Huila, com a abertura hoje de uma grande superfície comercial, com 113 lojas e com a garantia de 500 postos de trabalho, um investimento avaliado em 7 milhões de dólares. E finalmente, no que parece ser um verdadeiro combate à poeira, a nota de que aqui se trabalha dia e noite na limpeza e arranjo das ruas.
Tristes com o que parece ser o desenlace final de Paul Newman aos 83 anos, ficamos olhando esta lua sobre a baía, pensando que enquanto ela se deita, há consciências que despertam. Será?

Luanda, 12 de Agosto 2008
Alf
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09 agosto 2008


CRÓNICAS ANGOLA 3: A Sociedade Civil em Conferência

Apenas 1 semana de Angola e tanta coisa para contar. Se calhar nem tanto assim, há coisas que não se contam, há outras que guardamos e partilharemos mais tarde, quando o relaxe nos permitir pesar melhor o que deve ser dito.
A sociedade civil angolana esteve em conferência nos dias 7 e 8 de Agosto, na Universidade Católica; pretendia-se, segundo os seus organizadores, “estimular uma alargada reflexão e discussão em torno das questões relacionadas com o potencial da sociedade civil para a mudança sócio-político-económica.”; serviu ainda para apresentação da obra Sociedade Civil e Política em Angola, contexto regional e internacional, da autoria de Nuno Vidal e de Justino Pinto de Andrade. As preocupações são as mesmas que em todo mundo, o combate à pobreza, a responsabilidade social das empresas, o papel da sociedade civil no contexto regional, o combate à discriminação, a defesa dos direitos humanos, o papel das organizações não-governamentais, enfim a participação dos cidadãos na construção de uma sociedade melhor. Curioso notar a tónica colocada no papel da comunicação social, num período especial como o que aqui se vive, em plena campanha eleitoral. E ainda, a forma completamente livre de preconceitos com que se abordou o tema, sempre actual em Angola, da “ligação” entre o poder e os cidadãos. Viveram-se 2 dias de amplo debate, franco e aberto, numa organização impecável, a que só faltou um pouco de rigor nas questões relacionadas com a documentação. Uma oportunidade única de marcar uma presença efectiva, éramos os únicos participantes europeus, marcamos alguns pontos, enfim.
O tempo afinal corre depressa também aqui, os dias são curtos para os europeus, anoitece cedo (que belos fins de tarde…), fala-se muito com as pessoas, muita cordialidade, muito interesse pelos nossos projectos, alguma dificuldade em gerir os contactos, a Europa está longe e perto ao mesmo tempo, aprendem-se costumes, cultiva-se a partilha. Interessante observar por exemplo, do lado de cá, como é vista a cooperação internacional, um tema sem dúvida a explorar quando estivermos de volta, a aprendizagem é de facto notável.
Já é fim-de-semana, prepara-se a próxima com aquela ansiedade do costume, mas já devidamente aculturada, relativizada e diluída na calma de Africa. O cacimbo atenua os excessos…


Luanda, 9 de Agosto 2008
Alf.

07 agosto 2008


CRÓNICAS ANGOLA 2: Abre a campanha eleitoral

Escreve-se de longe com a ideia de uma certa distanciação que acaba por não ser conseguida devido a factores variados, como por exemplo, o facto de não sermos de todo isentos, ninguém o é. Angola vive um momento decisivo, um acto eleitoral que tem a sombra de 92 por um lado e a perspectiva de futuro pelo outro; o lado sombrio não deixa de estar presente, enquanto os olhos de todos estão voltados para apelos e manifestações de intenção de dias melhores para o País. Luanda vive a campanha eleitoral com uma alegria calma, a limpeza das ruas, o anúncio de um grande projecto integrado de fomento habitacional do Governo, a intensificação da campanha para a alfabetização do País, com particular relevo para a TPA, que repete insistentemente spots apelativos; as vagas para o ensino secundário irão duplicar no próximo ano, enfim os apelos do MPLA à tolerância em algumas províncias, antevendo quiçá alguns excessos. São 14 partidos ou coligações para o 5 de Setembro.
Luanda é uma mulher bonita que, embora parecendo não cuidar muito da beleza, não deixa de mostrar o seu ar de encanto e de simpatia. As coisas vão correndo, há muito movimento nas ruas, muito pó também, já se disse, mas a repetição não é despicienda.
Sentimos que podemos ser úteis neste momento de viragem, quer na luta contra a pobreza, quer nas campanhas em favor da educação universal, há muito a fazer e é bom saber que a nossa acção pode significar uma mais-valia nessa áreas. Nos momentos mais difíceis, isso pode significar um incentivo; a doença de um amigo muito próximo enche-nos de preocupação, sem saber bem o que fazer, os telefonemos constantes para nos inteirarmos do seu estado de saúde, a esperança de melhores notícias no dia seguinte, enquanto fazemos conjecturas e traçamos cenários de trabalho, tendo a realidade por perto e conhecendo os riscos.
Acordamos sempre cedo com a claridade das 6 da manhã, a cidade espera por nós, estamos aí.

6 de Agosto de 2008

03 agosto 2008


CRÓNICAS ANGOLA 1: No princípio era…

As primeiras impressões, depois de uma atribulada viagem, com perda de uma mala à mistura, com as indefinições de quem viaja com muitas incertezas. Uma viagem de trabalho, com alguma nostalgia na bagagem, contudo na certeza de encontrar velhos amigos de há muitos anos, essa sim. O 4 de Fevereiro está na mesma, as mesmas filas, a mesma confusão nas entradas, mais simpatia talvez. Não sabemos bem para onde vamos, não temos alojamento garantido em Luanda, mas há sempre a “casa da família” em Viana, para lá chegar são sempre as 3 ou 4 horas, para fazer os 18 km da praxe. Muito cansaço, muito pó, a brisa suave do cacimbo, não mais que uns 22 graus, frio portanto, para quem gosta de sentir o bafo quente de África. É bom ver Luanda de novo, mais carros, muitos mesmo, aquela confusão toda, um caos que não dá para descrever, uma alegria enfim. Nenhum stress, esse ficou todo na Europa, aqui tudo funciona de outra forma, nem melhor, nem pior, apenas diferente; quem não acredita, só tem que ficar por cá uns tempos e depois habitua-se. Uma 6ª feira de arrasar, “apenas” para adquirir um cartão Unitel, mais um pacote de Internet móvel, tudo muito complicado, mas sempre com muita simpatia. Boas refeições, a preço digamos aceitável para estas bandas, em Viana come-se bem, com muito jindungo e boa cerveja (portuguesa). Um Sábado de relaxe completo, que bem sabe o direito à preguiça! No Domingo privamos com o grande amigo Guido Campos e sua família que é tão boa, tão fraterna, recordam-se outros temos, os amigos comuns, são 12 anos de distância, um almoço excelente em Viana, um passeio ao Bom-Jesus, nas margens do Kuanza, momentos inesquecíveis de grande prazer, porque nada há melhor que estar com os amigos. Planeia-se já toda uma semana que se avizinha com muito trabalho, alguns encontros decisivos, sempre com a esperança de resolver as questões que cá nos trouxeram, sem certezas nenhumas, apenas a de que amanhã é mais um dia, vai ser 2ª feira certamente, é um principio de alguma coisa e basta.

18 junho 2008

O TRATADO…

Quem no quer esse muro concreto
É político mas analfabeto…
A corda bamba da cultura
A ponte pênsil no ar
Acorda muda de figura
Petróleo não é tudo Jr.!!!"...
“Acorda” – Rock in Rio Douro, 1992, Rui Reininho

É bem feito! Tudo fizeram pelo Tratado, trataram de mascarar a realidade e agora tem o que merecem: o tal NÃO da Irlanda, chato que de tão redundante, já o havia sido na França e na Holanda. O Tratado. De tanto tratar mal o povo putativamente votante, veio agora o tratamento adequado para os trataram de trautear banalidades. Tratemo-los então de tratantes. Se o Tratado não foi tratado como deveria ter sido, porque estão agora admirados? Mais, será que eles, todos eles, acreditariam num resultado diferente, caso o Tratado fosse referendado como deveria? O próprio partido que nos governa por cá se tinha comprometido a tratar o Tratado de forma diversa. Bem parece que o trato dado ao Tratado foi o pior possível, a bem dizer uma autêntica tramóia. Fala-se agora de (tratar) de tirar as devidas lições, ou ilações do Não. Para quê, não chega a verdadeira lição que levaram?

Acorda e muda de figura” bem podia ser o lema, para todos os que ainda não trataram de se pôr em dia com a verborreia típica do centrão; aqui e por essa Europa dentro onde os argumentos são sempre os mesmos: o (pretenso) reforço da democracia, a coesão europeia, a necessidade de encontrar mecanismos, etc…, etc…Já o Aleixo dizia, “Vós que lá do vosso império/prometeis um mundo novo/calai-vos que pode o povo/querer um mundo novo a sério”, com muita razão, oportunidade e sentido de visão.

Eis que urge pois que se retratem, que digam cara a cara que falharam; ou então, que se
tratem…

11 junho 2008


A RAÇA…

Navegando numa onda passada, o homem que não gosta de muitas ondas, acaba de deslizar para as águas movediças da mediocridade. Balançou durante algum tempo na crista, com o apoio da ocasião, que tanto faz o ladrão, como o oportunista. Com os cuidados que se lhe reconhecem, não sendo pessoa de grandes rasgos a não ser os das académicas tiradas mais ou menos economicistas, sim os números de que tanto gosta, planou desta vez para um terreno incómodo, só suportado pelos que da saudade lusitana do império fazem carreira pouco diplomática. A Raça, essa que o-de-Santa-Comba aproveitaria em 1944, para introduzir no léxico de um 10 de Junho dedicado ao Poeta exaltava, convém saber-se, Nação, Império, Metrópole e Colónias. A gaffe que muitos pensam ser, poderá não o ser. O deslize que de tão deslizante nos transporta ao tempo do “deixem-nos trabalhar” e das “forças de bloqueio”, a gente não esquece pois não… Alguém hoje nas ondas da rádio defendia uma pedagogia da liberdade e da inclusão para casos como este. Mesmo sabendo que as aprendizagens o são ao logo de toda a vida, que o erro pode ser uma fonte de sabedoria futura, é preciso querer aprender. Resta saber se será este o caso…

05 junho 2008



ALTOS CONCLUIOS...


A propósito da última decisão da chamada Alta Autoridade da Concorrência sobre as dúvidas quanto à uma cartelização do sector da distribuição de combustíveis, permito-me opinar que eu e muito boa gente, vítimas de extorsões sucessivas, não temos dúvida nenhuma. Aliás o que se passa naquele sector passa-se em muitos outros, como são (por exemplo) os casos do sector bancário e do sector farmacêutico. O que acontece são 2 coisas muito simples. A primeira tem a ver com a putativa independência das Altas Autoridades; as pessoas de bem não acreditam positivamente nisso; acreditam mais que esses organismos, prestam vassalagem descarada aos governos e às administrações das grandes companhias; ao fim e ao cabo, os seus dirigentes pertencem aquele grupelho do bloco central e circulam, conforme os ventos partidários, pelos lugares sempre em aberto. A segunda tem a ver com o sentido de oportunidade, ou seja, se na realidade existem para exercer autoridade (e ainda por cima Alta), deveriam exercê-la de facto e não estar sempre à espera que o Poder solicite esclarecimentos, dúvidas, receios, … A máquina está porém muito mais bem montada do que se imagina; funciona na perfeição e ao invés de dar corpo a sentimentos generalizados dos pagantes (ou seja nós, quase todos…) presta serviço ao poder instituído e aos grandes interesses da especulação.

E por falar em especulação, atente-se aos preços dos combustíveis, no final do mês de Maio de 2008. Segundo dados da Direcção Geral da Energia e dos Transportes (
http://ec.europa.eu/dgs/energy_transport/index_pt.html), o preço médio dos combustíveis em Portugal (gasolina: 1,501 e gasóleo: 1,426) está em 3ª lugar entre os mais caros, só ultrapassado pela Holanda e pela Bélgica! O preço em Espanha, o mais barato de entre 10 seleccionados é: gasolina: 1,205 e gasóleo: 1,269; a média na zona euro é: gasolina: 1,424 e gasóleo: 1,388. como somos um País rico, podemos dar ao luxo de ter os combustíveis mais caros que, por exemplo, a Alemanha, a França, a Itália, Luxemburgo, Reino Unido, para já não falar na Espanha…

Que respostas dá um Governo que se diz “socialista” e esta tremenda, descarada, desavergonhada, despudorada e devidamente engravatada especulação? Bom, é o mercado! Vejamos entretanto dados do I trimestre de 2008, da autoria do economista Eugénio Rosa: “…lucros extraordinários da GALP aumentaram 228,6 % no 1º trimestre do corrente ano de 2008; só no 1º trimestre de 2008, a GALP obteve um lucro extraordinário de 69 milhões de euros devido à especulação do preço do petróleo no mercado internacional e os lucros totais atingiram 175 milhões”. Até este Governo conseguir explicar porque razão temos os preços dos combustíveis mais caros da Europa e os ordenados mais baixos do espaço europeu, só podemos falar nestes termos: concluio, protecção dos interesses das petrolíferas.

Quanto ao resto, já se sabe: terá que haver força suficiente para respeitar os apelos aos boicotes divulgados, nomeadamente à GALP, BP e REPSOL; já que é o mercado que determina tudo, então vamos demonstrar que é possível alterar as ditas leis do mercado.

15 maio 2008


Mas tive o Diabo na mão...


Do lado de lá da indiferença há mil e uma formas que coexistem. Do lado de cá da esperança sonhamos ainda. Exigimos o impossível e porque não? No meio de tanta hipocrisia, vamos “caminhando e cantando e seguindo a canção” e a luta continua como em Maio de 68. Vale sempre a pena pensar que ainda vale a pena. Era um Maio em que tudo parecia possível, mesmo o impossível, cantávamos ainda em silêncio, mas a cantiga era uma arma. Alguns de nós exilados, com aquela esperança, mas ainda no lado escuro de uma Lua que esperaria um ano para ser vista na televisão a preto e branco. E era a preto e branco que tudo se passava cá dentro, sonhando as cores de uma primavera distante. Os baby boomers, a quem não é suposto futuro nenhum, continuam hoje a chatear as consciências conservadoras, afirmando como em 68 “não me libertem, eu encarrego-me disso…” e se calhar ainda “quanto mais faço amor, mais vontade tenho de fazer a Revolução, quanto mais faço a Revolução, mais vontade tenho de fazer amor…”. Ao som eterno do Zeca recordo que “… tive o Diabo na mão”, sabe-se lá por onde anda agora. A ironia máxima de continuarmos a saber o que não queremos é a expressão do inconformismo que suporta uma intervenção de cidadania. Se é ou não suficiente nunca o saberemos, se há uma fronteira entre a radicalidade e o equilíbrio, bolas para o bom-senso, venha de lá outro Maio o mais depressa possível, 40 anos já é tempo demais, a gente sabe-o bem, não é?

25 abril 2008


25 Abril de 2008

Ainda há gaivotas por aí?


“…Se voara como ela a tua sorte era a minha
Não sabes bem o que fazer de facto parece tudo confuso e perdido mas deixa lá há ainda algum tempo dizíamos o mesmo e as coisas acabam sempre por se compor dias assim são mais que muitos mas este é diferente porque há uns anos atrás também ajudaste na Festa agora não há mais festa eu sei mas podes sempre fazê-la em privado e dizer 25 de Abril sempre talvez mais baixo um pouco que antes mesmo assim sentido (com sentido) e ainda consentido Começou agora mesmo ainda me lembro daquela confusão toda não sabíamos bem para que lado é que a coisa podia dar havia que dar um tempo mas depois sim era mais que divertido ver os polícias a fugir diante da tropa que gozo maior não podia haver Os outros agora andam outra vez por aí disfarçados de senhores a merda é a mesma de sempre nunca se sabe sonhamos acordados na confiança que sempre damos a quem talvez não devíamos mas enfim temos estradas e pontes e centros comerciais mais que as mães e muitos canais de televisão e muitos bancos a "dar" dinheiro a toda a gente e como milhões de lucros a subir cada vez mais e mais outras coisas boas que até chateia e sempre nos queixamos de não ter tempo quando nos devíamos era queixar doutras coisas que o tempo é sempre nosso a toda a hora ou não será? “Temos fantasmas tão educados que adormecemos no seu ombro, somos vazios despovoados de personagens de assombro” nunca a Natália teve tanta razão lembras-te das almas jovens censuradas que se queixavam assenta agora que nem uma luva há tanta gente que não tem voz e mesmo se a tivesse não saberia o que dizer por não ter força que antes era um símbolo da liberdade “que força é essa amigo?” e os jovens no desemprego mas pronto o défice desceu e devemos dar graças que não ao outro mas a estes que estão cá… “Eu sou português aqui...” deixa-me acreditar nisso que posso mudar ainda tanta coisa eu sei que não é fácil mas que diabo quero! Já não há gaivotas se calhar dantes havia uma (lembras-te?) que voava e voava e a gente dizia que … nunca mais se cansava agora se calhar cansava-se mesmo e desistia mas eu não desisto porque apesar de não ter mestre ainda tenho algum jeito. “Eu sou português aqui e trago o mês de Abril a voar dentro do peito…”
Alf.
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Palavras e/ou frases “roubadas” sem permissão especial que elas e eles não se importam…:

José Fanha
Natália Correia
Sérgio Godinho
Zeca Afonso

20 abril 2008


GNR + GNR

Felizmente que a noite sai

ainda bem que há névoa por ai

estou contente se a luz se esvai

e uma sombra invade este lugar

Morte ao Sol (1989)


Oficina da Ilusão é nome de promotor. De espectáculos. De um grande espectáculo. Efectivamente, como não sei moralizar, perco a vista na grande banda sinfónica do Jacinto Montezo e o Rui desliza, sempre disfarçando a sua tremenda falta de voz, mas com aquela presença cintilante, “…olha pró que eu faço, mais vale nunca, nunca aprender, mais vale nada, nunca mais querer, mais vale nunca mais crescer…” e as paredes do Pavilhão Atlântico parecem reflectir toda a potência do som no Balcão 2 (não arranjamos melhor…). Lembro agora que há um “hemisfério fraco outro forte…” com ou sem Pronúncia do Norte, mas com a certeza de que “...as teias que vidram nas janelas, esperam um barco parecido com elas”, imagem que fica no ouvido, enquanto roemos maças e sonhamos com Dunas “…alheios a tudo, olhos penetrantes, pensamentos lavados”. A música entra na noite fria e chuvosa, salta do estrado, há sempre uma ilusão que escapa ao promotor, ainda estás aí Anna Lee (?) não sei se diga, mas “…há em mim um profano desejo a crescer”. Às tantas “…mais vale nunca mais crescer…”

Alf

07 março 2008




Para uma princesa desconhecida





Dela fez Sophia um retrato para uma princesa desconhecida. Para que ela fosse aquela perfeição. Numa sociedade longe de ser perfeita apela-se á igualdade de género, de mãos dadas com os perigos, enquanto outros vão à sombra dos abrigos. Nunca desiste, muitas vezes em si fechada, com alguns muros e paredes que não se vêm, a indiferença que magoa, a hostilidade que choca, muitas consciências pequenas que não querem ver o crescer do mar, nem o mudar das luas. Dela recordo o carinho e a ternura que são a cor dos dias, torrente de força, de paz, de liberdade. Podia ser agora apenas um sonho lindo quase acabado. Mas no real é a luta, sempre a luta, a vida, sempre a mesma vida, a esperança, sempre adiada. A presença suave dos dias, subindo a calçada. Sabes minha irmã que quero mudar o mundo? Para haver mais Sophias. E porque os outros se mascaram mas tu não. Porque os outros se calam mas tu não. A princesa desconhecida és tu também!

Fontes:
Sophia de Mello Breyner Andresen:
o “Mar Novo”, 1958.
o “Tempo Dividido”, , 1954.

Fausto Bordalo Dias:
o "Por este Rio acima", 1982

20 fevereiro 2008



As sombras dos cavalos no mar…
(ao António Lobo Antunes)

Às vezes a leitura de um artigo[1] faz-nos acordar para realidades ou sonhos que não alcançamos. Ou porque somos os tais mortais sem aquela argúcia de captar coisas singelas ou porque andamos simplesmente distraídos pela vida, absorvidos por ninharias que se calhar até têm menos interesse. Se calhar. Com a devida vénia ao António [2] , penso que lhe posso “roubar” aquele frase enigmática, que não sendo dele, foi por ele apropriada: “que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?”. Não sei bem porquê, mas há coisas que cativam, que tocam, que despertam. No mar da tranquilidade que para mim é referência, não há limites para a imaginação. Posso daqui, não muito longe do mar, ver formas que não fazem sombra, mas dela se alimentam. O mar daqueles sonhos de tardes sem fim, á espera que algo aconteça, sabendo que na realidade não queremos que aconteça nada. Numa tarde na praia de Apúlia encontro uma menina que atira pedrinhas para longe á espera que o mar lhe devolva alguma trazida por um peixe vermelho; verdade, esperas mesmo (?), não sei mas ele é capaz de vir porque eu lhe pedi… Assim se preenche o tempo, mais importante para a menina que qualquer relatório de um qualquer conselho de administração que revela as tendências em alta da economia europeia. Às malvas a rotina, é mais importante compreender de facto o ponto de vista dos outros, por mais intricado que nos pareça. Entretanto, os cavalos na praia correm sem destino nenhum e a sombra que deixam não chega para nos ensombrar a vida, antes pelo contrário. Continuo daqui, no meu sofá emprestado, a ver as ondas e a imaginar o tal peixinho vermelho sorridente a entregar a pedrinha que a menina lhe pediu… a imagem é tão boa como outra qualquer, desde que gostes e que acredites.

“O homem que se sentia losango”
[3] não tem que dizer porquê, é sempre uma sensação obtusa, que gira qualquer ângulo, numa geometria mais variável que a própria sombra. Podemos estar com ele e não dar conta dos universos infinitos que percorreu sem sair da cadeira, mandando farpas para todo o lado, incluindo este. Acusamos o toque, porque não é grave, embora uma dor aguda possa eventualmente percorrer a alma, esteja ela onde estiver. As tais tardes no mar não são pois forjadas, estamos lá os dois sempre de mão dada, á espera dos cavalos que fazem sombra, não a nós, que curtimos o sol até nos entrar na pele e nos bronzear por dentro. A cor vale tudo, mesmo na sombra, o resto és tu…

[1] Artigo de A. Lobo Antunes, revista Visão de Janeiro 2008, vale a pena saborear: http://aeiou.visao.pt/Opiniao/antonioloboantunes/Pages/Quecavalossaoaquelesquefazemsombranomar.aspx

[2] António Lobo Antunes
[3] Ainda reporte de A. Lobo Antunes, também na Visão de 8 de Fevereiro

08 fevereiro 2008


O ANO DO RATO


Rato é o ano 2008. De rato e de louco todos nós temos um pouco. Será? Este Fevereiro inicia, segundo a tradição chinesa, o ano do Rato. O roedor andará assim mãos dadas ao que parece com a intranquilidade nos mercados financeiros e alguma preocupação com acidentes, á semelhança da 1996. E por cá? Eu, nativo de Rato e Sagitário por imposição natural prefiro vogar nas ondas do tempo, à espera do Sol, que já vai dando uns ares da sua graça, enquanto saboreio um Aznavour eterno, que passeia por Lisboa. Passado talvez, la bohème, “…nous récitions des vers, groupés autour du poêle, en oubliant l'hiver…”. Através dos dias cinzentos do norte, aguardamos talvez que o rato roa algumas cordas que ainda nos atam. Talvez alguma ratice nos safe, no meio da confusão dos dias. Rato, estou contigo, apesar de preferir o gato. Andaremos por aí na esperança de não cair no esgoto, como o rato, isto não está para brincadeira. “…La bohème, la bohème, et nous avions tous du génie”…

28 novembro 2007

DIA 28 (é hoje???)


Meu caro amigo me perdoe por favor
Se eu não lhe faço uma visita…”

C
hico Buarque de Holanda


Escrevemos às vezes por pequenas coisas, umas vezes bem, outras vezes mal, outras nem por isso. As palavras nem sempre dizem o que é preciso, são só palavras. Hoje contudo escrevo para vocês, amigas e amigos de longa ou curta data. Este rio de onde vos escrevo é TORTO que se farta, mas é acima de tudo um RIO que sempre corre, nunca pára, umas vezes cheio, outras nem tanto. Mas tem uma força imensa alimentada pela vossa presença mesmo quando ausente. Venturas e desventuras, ânimos e desalentos que vamos partilhando, um toque de telefone no momento certo, um aperto de mão, um sorriso, um ombro às vezes para encostar a cabeça, um sim ou um não quando é preciso.
Nasci há uns anos atrás (muitos, vá lá…) no 9º signo do Zodíaco, sob o Fogo do grande planeta Júpiter. A Liberdade que é lema dos Sagitários mistura-se com força da amizade e de algumas cumplicidades.
Não podendo fazer-vos uma visita e não tendo fita para mandar notícia, como diz o Chico, mando só um grande abraço que se estende de costa a costa. Para todos vocês, muitos sonhos, fantasias e ilusões. Para vós, tenho sempre todo o tempo do Mundo…

Alf.

08 novembro 2007

TEOREMA HÚMIDO: “a soma de 2 secantes é uma seca”

Era um redondo vocábulo
uma soma agreste
...”
Zeca Afonso, 1973

Paramos por vezes para abreviar o que devia ser extenso. Construirmos castelos que vão para o ar quando apanham vento e calam a raiva dos que, com a sua calma, assustam qualquer um. Digerimos a água que não corre nas torneiras quando há seca. Propomos coisas imaginárias, divertimo-nos à brava com as estéticas malucas dos arquitectos do vazio. Percorremos caminhos que não existem nas auto-estradas da imaginação. Sim, damos corda e deixamos correr porque simplesmente não há ninguém para ver. Aceitamos a fruta verde mastigando o descontentamento, trocamos de roupa vestindo a mesma, porque a nudez faz medo. Roemos agora a corda, saltando de galho em galho...
Tememos a ternura, porque há afectos que há muito se diluíram na tinta-da-china, que é preta de tão amarela. Chegamos aos 4 caminhos e escolhemos nenhum, é uma fuga em frente, porque nem queremos pensar. Encontramos trévoas, fingindo que não percebemos, disrindo de nós próprios. Atiramos ao vento mil palavras e não conseguimos um poema sequer que fale do amor. É louca a vingança que nunca chega a arrefecer para seguir os cânones de quem a serve. Perguntamos respostas, sabendo de antemão as linhas com que nos descosemos. Perdemos o tempo todo a queixarmo-nos do tempo que não temos, uma patetice disléxica. Mal sabemos o valor do ridículo, porque o discurso do vocábulo redondo não cabe na quadratura do círculo.
Até que enfim que estou na cama. Não quero ver nem falar com ninguém, nem sequer para dentro, com receio que eu próprio me escute. Relembro agora do texto “...a tinta caía no móvel vazio, congregando farpas, chamando o telefone, matando baratas, a fúria crescia, clamando vingança...”
Deixa para lá: às voltas com o real acabo por não imaginar do que sou capaz, um disparate tão lógico que assusta mesmo uma barata impedrenida. O que vale é que os registos são automáticos e não perco nem uma linha. Apanho de imediato o comboio para a cidade que fica para trás, o bilhete é por conta do que já fiz, não há troco disponível; é pegar ou largar. Ponho de novo o disco a tocar.
Mas onde raio é que eu pus o isqueiro???

09 agosto 2007


A NOITE...

When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we'll see…”
Ben E. King, “Stand By Me

Chega a noite e ficamos mais sábios. Sonhamos e temos pesadelos. Contudo estamos vivos, quiçá mais soltos, mais verdadeiros. Bebemos um copo pela noite fora e sentimos a luz da cidade que não dorme e que está connosco

Às vezes, no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado,
juntandoo antes, o agora e o depois...”
Caetano Veloso, “Sozinho

A noite é uma fábrica de sonhos!

“...tenho a noite a atravessar
doi-me não irmas não me deixas voltar...”
Tim / Zé Pedro (Xutos) “O mundo ao contrario”


A noite é escura? Que nada, a noite é luz, é musica,
À noite ficamos mais próximos de nós próprios, enfrentamos os nossos fantasmas, os nossos medos, as nossas contradições

Foi uma, noite sem sono
entre saliva e suor
com um travo, de abandono
e gosto a outro sabor...”
Rádio Macau, “Amanhã longe demais
… ”

À noite, encontrei-te finalmente...

Há tantas noites na noite...

11 julho 2007


Ao PAULO SUCENA
Amigo
:

Guiaste uma “bicicleta de recados, atravessando a madrugada dos poemas”. Disseste o Poeta que “...se vestiu de versos e ficou nu dentro dos versos”, tu poeta também, amigo das palavras, amigo dos amigos. Que bom poder privar contigo, as conversas tardias, os copos, os cigarros e as lutas que partilhamos. À noite em casa percorri o teu livro, com alguma emoção, com aquele gozo que é beber as palavras, saborear um poema, recordar o canto e as armas. Que as mãos com que escreveste continuem a amassar as palavras, sempre com mais energia e vigor, porque afinal “...de mãos é cada flor, cada cidade...”
Obrigado Paulo!

Teu Amigo,
Alf.

05 maio 2007


ELES ANDAM POR AÍ...




Apenas diferem no estilo, no discurso mais ou menos encapotado, na jactância inerente à sua postura, na leveza da sua ignorância. Por vezes às claras, por exemplo, mandando para casa os “indesejáveis” imigrantes. Outras na penumbra do um pensamento emergente. Sempre quando se “libertam”, ou simplesmente se descaem. E então numa qualquer Madeira, encravada entre a democracia institucionalizada e um despotismo nefasto que envergonha a Republica, eis que alguém diz que acredita que “O trabalho liberta”. Assim mesmo! Na versão da II Guerra seria “Arbeit macht Frei”, a mensagem estampada na entrada no campo nazi de Auschwitz, três palavras que trazem em si mesmas um sentimento misturado de horror, raiva e tristeza. Curiosamente numa altura em que o cacique Alberto João apelida de fascistas alguns inimigos de estimação. Numa ilha repleta de favores, de compadrios, um Jardim de plantas manchadas, de flores de um paraíso que apelidam de fiscal e que curiosamente ninguém parece fiscalizar. Um atropelo a todos os títulos indigente.

Um simples deslize de linguagem de Paulo Portas? Uma “homenagem” discreta ao 1º de Maio de quem “estima e preza” a lavoura, lembram-se? Ou um marcar de posição a quem lhe disputa o terreno? Não há provavelmente uma resposta. No mínimo, poderemos apenas dizer que de facto “ELES ANDAM POR AÍ”. É preciso ter cuidado…

27 abril 2007


A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DA INCLUSÃO


No mínimo perturbante, a declaração do PR na sessão comemorativa do 25 de Abril deixa antever (mais uma vez?) a dificuldade em lidar com a data em si e o que ela representa ou é simplesmente um desabafo de quem não teria nunca posto a hipótese de descer a Avenida que tem nome de Liberdade onde o formalismo engravatado não tem lugar? Não há provavelmente resposta única (nunca há…) para a semântica enfadonha que teima em orientar a intervenção politicamente correcta. O acto redutor do discurso presidencial, sob o pretexto da pretensa ausência de significado para as gerações mais jovens, esvazia-se de conteúdo, simplesmente porque não é capaz de propor uma alternativa, uma palavra de ordem contra o estatismo e a indiferença, um formato novo para despertar as consciências que o próprio PR quer alertar para putativas “inclusões”, por exemplo… Porque será que o obreiro das novas rotas, para além da Liberdade, essas que pretendem uma “inclusão” provavelmente despida das aspas que lhe toldam o sentido, quer coisas que façam mais sentido do que aquelas onde só vê saudosismo serôdio? Não o disse assim às claras, mas António Vitorino assim o interpretou logo a seguir, quando afirmou que o problema do 25 de Abril não é esse, mas sim o dos atentados à Democracia. E ainda sobre a preocupação presidencial com a tal rota das aspas, importa afirmar sem qualquer rebuço que o impacto duradouro das políticas não pode basear-se apenas na sua popularidade imediata, mas tem de contribuir para a construção de modelos eficientes e sustentáveis. Está em todos os manuais, incluindo a cartilha que o próprio ensinava, segundo creio.

A insustentável leveza da inclusão não questiona por exemplo o facto de, ao longo dos anos, o nosso País não ter feito qualquer progresso em matéria de distribuição do rendimento, permanecendo o mais desigual dos 15 da UE. Mas questiona “o que resta da comemorações do 25 de Abril”. Duvidosa opção esta que não fará decerto o apetite voraz de quem alimenta diariamente uma comunicação social bem comportada e timidamente discreta. Mas vamos ver, há sempre alguém que resiste, não é verdade?

25 abril 2007


25 ABRIL 2007


Para que fique na memória e para que conste são já 33 anos sobre a data que em 74 fez liberdade em Portugal tanto mar que já passou tanta esperança perdida outra tanta ganha para outras causas nada a temer que se for preciso lá estaremos de novo ou alguém por nós claro sabemos percorrer de novo a Avenida da Liberdade que outros desceram o que eles passaram para cá chegar Agora que demos à volta ao fado e inventamos outras músicas com os ritmos de Africas e Brasis que perfumam a nossa identidade lembram as Cesárias os Caetanos e os Vitorinos e ele que já não está de corpo entre nós sabia-o desde sempre o Zeca do nosso orgulho que cantou Abril como ninguém e continua que uma voz assim não se calará nunca e a malta nas ruas pintando paredes colorindo um outro País nem sempre atento às diferenças e desigualdades mas sempre solidário com os Timores do outro lado novos actores novas sensibilidades como agora se diz a redundância redonda das parábolas repetidas que se há-de fazer sei lá o cravo na tua mão está vermelho pois na minha também que força é essa amigo lembro a festa que foi bonita pá e com as pedras que surgirem no caminho muitas são e com elas hei-de construir um castelo diz o Pessoa sabias? Já lá vai tanto tempo são as palavras de ordem que ficam tantas que deviam agora ser misturadas e atiradas ao ar a ver se pega alguma num tempo em que estão gastas dizem e o que importa são os símbolos alguém diz Tenho pressa de sair quero sentir ao chegar vontade de partir p'ra outro lugar e eu que estou além quero dar um tremendo pontapé na indiferença na desconfiança nos medos e na mesquinhez e marcar um golo pela capacidade de transformar de construir e de lutar POR UM 25 ABRIL SEMPRE!!!
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Palavras e/ou frases “roubadas” e algumas nem por isso:

António Variações
Chico Buarque de Holanda
Fernando Pessoa
José Mário Branco
Zeca Afonso