rio torto

rio torto

12 setembro 2008


CRÓNICAS MOÇAMBIQUE 4: Batiks…

Quase na partida deste País que ora conheci, apenas algumas imagens, algumas terras, pouco porventura, para além de Maputo, Inhambane, Tofo, Bilene, Manhiça, Xai-Xai, enfim o que foi possível. Quisera ter visto mais de perto como vivem as pessoas, um aspecto que fica nos relatos dos amigos, nas conversas de rua, nos cafés, nos hotéis. Da janela do 4º andar do Girassol me despeço do azul do mar, hoje com mais ondulação, alguns barcos, uma vista magnifica, complementada com o verde da vegetação, as cores dos edifícios, o recorte das ruas. As arrumações, o fecho das malas (um pavor…), as últimas notas, as mensagens, aquela sensação que falta sempre qualquer coisa, que vai esquecer isto ou aquilo. O importante agora é mesmo partir, já que tem que ser e chegar o mais rápido possível ao destino, a casa, a família, os amigos, as rotinas habituais que também fazem alguma falta, diga-se de passagem.

Estamos fora de Portugal desde finais de Julho, as emoções em Angola e aqui em Moçambique foram sempre muito fortes, as expectativas foram de facto superadas, existe uma certa curiosidade sobre a nossa prestação em África, iremos tentar que as respostas sejam o mais possível próximas do que se espera. O contributo que uma organização da sociedade civil, com algumas características que as pessoas consideram especiais (sem qualquer receio do termo…), pode significar irá a partir de agora ser testado em situações concretas, nos 2 Países, enquanto se analisa, com o pormenor necessário, as questões ligadas à organização local, que assumirá em cada um dos países, formatos adequados.

Batiks para levar; o termo, muito vulgar em Moçambique, designa uma técnica de panos pintados; a exploração artesanal introduz uma industria local de algum significado, há artistas que produzem panos de belíssimo efeito visual; de dimensões variadas, podem apresentar variadas formas, conforme a origem, o mais usual tem formato de rectângulo, medindo à volta de 65 X 25 cm, a pintura é feita em altura; há ainda batiks maiores, podendo assumir 1,35 m de largura e cerca de 85 cm de altura. Nos panos são pintados motivos tradicionais, com a ida à agua, os trabalhos da mulher (muitos), a pesca, etc… ; a pintura é coberta com cera, conferindo alguma consistência ao pano, tornando-o mais pesado, à semelhança de uma tela. A imagem de uma feira de Batiks (foto), os panos esvoaçando ao vento é simplesmente espectacular, o colorido é fantástico, há para a todos os gostos, todas as cores… Os desenhos são feitos com cera quente e coloridos com tinta; a técnica batik consiste no tingimento após a impermeabilização de partes da tela, que pode ser em algodão, seda pura ou mesmo couro; as áreas recobertas com cera ficam impermeabilizadas e é com ajuda da cera e banhos sucessivos de tinta que se obtém a sobreposição dos diversos tons.

Apetece então dizer “vou-me embora, vou partir mas tenho esperança /de correr o mundo inteiro, quero ir…”, todas as partidas custam um pouco, fica a certeza de voltar, sempre…


Maputo, 11 de Setembro 2008
Alf.

08 setembro 2008





CRÓNICAS MOÇAMBIQUE 3:
A Engenharia no Combate à Pobreza

Os engenheiros em Congresso apostam no combate à pobreza. É uma imagem significativa, naquilo que poderá ser um desafio (quiçá uma miragem). Fala-se no papel dos técnicos de engenharia, na sua possível contribuição, com engenho, através de soluções de baixo custo que possam contribuir para a autonomia das populações. Ao lado dos grandes empreendimentos, que geram quase sempre mais desequilíbrios, mais injustiças, menos inclusão. Defendemos o chamado empreendedorismo social, no fundo a capacitação das pessoas para criarem o seu próprio emprego, com uma componente social de intervenção e uma resposta organizada e eficiente a necessidades sociais e de gestão inovadora das organizações sociais. Acrescentamos a proposta de que o empreendedor social defina como prioridade a missão social, ou seja, a defesa de um princípio assente na cooperação entre empresas e organizações não lucrativas em torno da experimentação de projectos inovadores. Enfim, salientamos o modelo voluntário de participação e co-responsabilização dos empreendedores sociais, não motivado apenas pela obtenção de lucro, colocando a tónica na prestação de serviços que podem propiciar bens palpáveis, proporcionando ganhos sociais para a comunidade.

Notamos com satisfação uma enorme adesão às nossas propostas, balizadas em medidas concretas de apoio à formação de empreendedores sociais, na implementação de um trabalho em rede, no apoio à descoberta de soluções de micro-crédito, na intermediação com o Estado e com outras organizações da sociedade civil. Sabemos que passamos uma mensagem que poderá ser alternativa, desde que sejamos capazes de pôr em prática o que defendemos; a educação para o desenvolvimento deverá fazer a diferença face ao discurso economicista, que dá os resultados que conhecemos. Algumas abordagens inovadoras completam o cenário de um Congresso que valeu a pena, pese ainda o facto de a participação africana ser ainda ténue; trabalhos de investigação que começam a fornecer indicadores significativos, mostram que a cooperação internacional pode desempenhar um papel decisivo nas mudanças que se pretendem; competirá agora aos poderes governamentais fazer a interpretação correcta, esperamos para ver.

A nossa “estreia” em Moçambique não podia ser melhor, todavia é apenas um sinal, impõe-se agora a sistematização dos dados, muito trabalho pela frente a partir de agora, vale claramente a pena.
Maputo, 5 de Setembro 2008
Alf.

The last square


“…They had taken up position for this final action, some on the heights of Rossomme, others on the plain of Mont-Saint-Jean. There, abandoned, vanquished, terrible, those gloomy squares endured their death-throes in formidable fashion. Ulm, Wagram, Jena, Friedland, died with them
Victor Hugo, “The Last Square” (Les Miserables-Chapter XIV)
Fui à praça numa pressa
(numa pressa relativa)
e mesmo assim impositiva
dei de caras com um canil
e mais um disco vinil
achei tudo muito vago
e num instante me acabo
de estender numa latrina
mas que chatice Laurentina
Foi assim que comecei
mais um dia, aqui d’ el rei,
a mufla estava partida
e eu a deitar contas à vida
pediram-me cem mil reis
por um punhado de papeis
desencantei um anzol,
tropecei num Nissan Patrol
E descubro uma notícia
(escrita com alguma malícia)
O Papa perdeu-se e, cheio de medo
foi parar à rua do putedo
era a Vanessa, mais a Clarisse
e foi esta mesmo que disse
“oh filho que estás tão pálido
Vem comigo e tira o hábito”
E de repente, aconteceu
caiu nele e ficou ateu…

Lindo serviço, esta praça,
mas o que é que aqui se passa?
Está tudo numa grande calma
à espera do Jorge Palma
e eu, etcetera e tal
bic laranja, bic cristal
(duas escritas a vossa escolha)
quem anda à chuva é que se molha.
Na praça há um monte de gente
e que fique desde já assente:
no dia em que eu decretar
lá nos iremos encontrar
(poderia ser aqui e agora)
soltar da borda para fora
tomar o barco e partir
e ninguém se ficaria a rir

Lembro-me agora da Rita
penso que nem me despeço dela
salta do lado esquerdo uma cadela
parte a loiça toda em Espinho
e eu já tropeço no caminho…
Volto de novo para a praça
aquilo está uma desgraça!
É que os trabalhadores do comércio
não pagaram ao senhor Décio
armaram cá um chinfim
mas, não foi para isto que eu vim
E só de contar as desgraças
(e de fumar mais umas passas…)
cansa-me tanto, eu garanto
que quase que entro em pranto
não me apetece dormir, não sou capaz de partir
Pensando mais um bocado
ponho o meu fato de lado
uma gravata a rigor
vou mas é para o interior.

Nunca mais volto a esta praça
nem que esteja cheio de massa
é uma feira de vaidades
e mesmo com muitas vontades
não penso que vá mudar…
E, quando tudo isto acabar
já sei para onde me virar:
compro um terreno em cascais
(tenho uma poupança em meticais…)
ponho o resto a render em juros
e entro no mercado de futuros…


Bilene, 7 Setembro 2008

Alf.


CRÓNICAS MOÇAMBIQUE 2: Inhambane


Se das Áfricas posso levar alguma calma, conforto talvez nas paragens sem fim, aqui ficam as praias do Tofo, na costa de Inhambane. Moçambique diferente, acima de Maputo, quase 600 km para Norte. Terras novas para mim encontradas. Finalmente. As praias, o bar Dino´s, o mercado, o sorriso de Anifa; todo o dia sopra uma ventania terrível que vem não se sabe bem de onde, parece ser de todo o lado, por vezes fresco de mais, para mim frio, claro; os dias passam-se entre a praia e o mercado, da casa onde estamos é mais perto ir a pé pela praia, não mais que uns 300 metros. Como não temos Internet, estamos por assim dizer “unplugged” e deixamos assim o portátil em sossego.

A viagem é muito agradável, paramos em Xai-Xai, obrigatória a visita à praia, magnifica por sinal, um bom almoço, não sem uma longa espera; dá para apreciar aquele que poderá vir a ser num futuro breve um ponto turístico de eleição, com imensas possibilidades a explorar. Ficamos a saber que em Manhiça (no caminho para o nosso destino, a 80 km de Maputo), onde há falta de água, se prepara uma importante intervenção com vista a desenvolver o cultivo de trigo. Embora o grupo queira sobretudo descansar um pouco, não descuramos saber o que se passa na sociedade civil e detectamos aqui e além carências e necessidades que poderão ser objecto de trabalho futuro. Quanto a vias comunicação, fica o registo que são boas, estradas aceitáveis, sinalização mínima e algum controle policial que dá, por assim dizer, uma confortável segurança.

No horizonte está o Congresso de 1 a 4 de Setembro, onde temos 3 comunicações a ultimar, nos intervalos já se pensa nisso, falta pouco tempo, a responsabilidade é muita e, embora sem stress, vamos cumprindo as nossas metas.

Tofo, 30 de Agosto 2008
Alf.

03 setembro 2008


CRÓNICAS MOÇAMBIQUE 1: Maputo


A chegada a Maputo a 20 de Agosto, um atribulado dia, após algumas confusões em Joanesburgo, (ficam decerto como complemento de viagem), há sempre algo de novo num País desconhecido. Alojado principescamente em casa do César, amigo novo, parceiro novo, anfitrião inexcedível, uma família encantadora. Do 29º andar, frente ao mar, avista-se a cidade em toda a sua extensão, uma delícia para a vista; à varanda, no fim da tarde, curte-se a cidade do alto, bebe-se um copo, apreende-se devagar a geometria das ruas e projectam-se passeios a pé. Até Sábado, dia de mudança para o Girassol Bahia Hotel, esperando o grupo que chega de Portugal. Comer bem e beber melhor, 3 dias de relaxe, pondo em dia conversas adiadas, falar dos amigos de longa data, reviver outros tempos.


Para quem passou quase 1 mês em Angola, a primeira sensação é a da limpeza das ruas; não existe aqui a pressão demográfica de Luanda, em contrapartida um assédio constante e premente dos vendedores de rua; num passeio de Sábado a pé pelas ruas é vê-los com panos, telas, cestos, bugigangas, artigos feitos à mão; na 24 de Julho, grande avenida de referência na capital, ao pé do Shopping Polana, é um rodopio constante e envolvente; refugio-me numa belíssima esplanada, mesmo assim abordado de longe, não faz mal, este dia não é para comprar nada, intervalo. Passeia-se pela baixa, sempre a pé, para sentir a cidade, fala-se com as pessoas, simpáticas sempre, uma indicação aqui outra acolá, acabamos por descobrir o que queremos, a avenida Lenine, a 25 de Setembro (data do Dia das Forças Armadas , feriado nacional em Moçambique ). No Domingo, já com o grupo completo, visitamos no Centro Cultural Franco-Moçambicano, uma belíssima exposição, passamos na Casa de Ferro, desenhada como casa do Governador, por Gustave Eiffel no final do século XIX, pela Estação Central dos Caminhos de Ferro, edifício também desenhado por Eiffel no início do século XX; acrescento ainda o belíssimo edifício do Instituto de Meteorologia e a Igreja de Sto. António da Polana; o mercado da baixa é uma delicia, fazemos compras para o jantar, camarões claro, que iria ser o prato forte, com muito jindungo (aqui é piri-piri, atenção!), acompanhado por bom vinho português.

Duas excelente reuniões de trabalho, no Ministério da Ciência e Tecnologia e na Faculdade de Engenharia, servem de ponto de partida para o nosso trabalho por cá, muita receptividade e boas perspectivas futuras; consolida-se a nossa presença em Moçambique, o nosso representante desmultiplica-se em proporcionar encontros e contactos interessantes.

Desenha-se a hipótese de uma viagem a Inhambane, a meio da semana próxima. Começa a preparar-se a partida, não sem equacionar todas as demarches necessárias, o alojamento, o aluguer da viatura, enfim aquela ânsia característica, quando não sabemos bem o que teremos pela frente, o mar que nos espera, tão perto e tão longe, são mais de 500 km para o Norte, como será o percurso, viemos de tão longe, onde nos vamos encontrar…

Maputo, 24 de Agosto 2008
Alf.

23 agosto 2008


CRÓNICAS ANGOLA 6: Luanda de novo, a partida.


Quase 1 mês em Angola, deveria ter sido mesmo 1 mês, faltam sempre uns dias para completar o trabalho que fazemos, há sempre um ou mais contactos que gostaríamos de aprofundar, fica aquela sensação, que pena não poder ficar mais tempo, enfim tem mesmo que ser, o ultimo jantar com o Guido, o ponto de situação possível, momento muito agradável. Anacrónico, ou talvez não, está crónica está a ser escrita já em Maputo, com as notas de viagem, as ultimas impressões, as sensações da partida, o desejo de voltar, misturado com a expectativa de outras paragens, outros trabalhos, outras gentes, outras impressões. De volta à Pensão Invicta, uma injustiça não ter sido ainda referida, uma pequena residencial, muito modesta, mas muito limpa e … muito barata (para os preços correntes em Angola), entre os Combatentes e o largo do Kinaxixi. E como as palavras são como as cerejas, não quero deixar de dizer que presenciamos a queda de um autêntico mito em Luanda: o desmantelamento do mercado do Kinaxixi, que começou precisamente a 2 de Agosto; as acções de demolição do emblemático mercado causaram alguma polémica, muitos protestos e alguma confusão à mistura, o facto é que a 19 de Agosto já nada resta daquele que foi o grande centro de troca, um encontro de culturas, de cheiros e sabores, assim dizem ser o progresso, já se anuncia para o local um grande centro comercial, mais uma catedral do consumo, igual decerto a tantas outras por esse mundo fora. Luanda esvai-se assim entre impressões e sensações, aquela esperança de ver concretizados alguns dos nossos projectos, um balanço mais que positivo, os novos amigos com quem privamos de perto e que, como nós, partilham as mesmas preocupações, as mesmas causas. Voltar é assim um imperativo, quando não o sabemos, outros virão decerto continuar o nosso trabalho, ajudar a incrementar a rede que, pouco a pouco toma forma.


O 4 de Fevereiro espera por nós, partimos enfim, fica um pouco de Angola dentro da gente.

Luanda, 20 de Agosto 2008
Alf.

22 agosto 2008



CRÓNICAS ANGOLA 5: Finalmente Malange


5 da manhã de 6ª feira, 15 de Agosto, já estamos prontos, esperando a nossa boleia para Malange, partimos perto das 6 horas, já com um transito infernal nas entradas e saídas da cidade; táxis e carros particulares, veículos de todas as espécies enchem as faixas de rodagem e as faixas que o não são; sim, porque nas ruas de Luanda circula-se por onde é possível, mesmo fora dos sítios habituais, tudo vale, pela direita, pela esquerda, por onde calha. 2 longas horas só para sair do perímetro urbano da cidade, a passagem por Viana, com a confusão do costume. O todo-o-terreno faz-se à estrada da barra do Kuanza, os primeiros quilómetros prometem, mas a primeira impressão é enganadora, a estrada “desaparece” de quando em vez, dando lugar a pequenos troços de terra batida, com imensos buracos, impossível fazer aquilo num carro clássico, só mesmo os todo-o-terreno resistem a estas situações, o nível de solavancos é enorme, sobretudo para quem viaja no banco traseiro, chega a bater-se com a cabeça no tejadilho, enfim…

Entretanto e para completar o quadro acontece o pior: uma má disposição intestinal que só viria a ser minimizada dois dias depois, tem pelo menos a vantagem de nos aguçar a imaginação; na tentativa desesperada de dar resposta à necessidade fisiológica inerente a casos como este, descobrimos uma nova função “social” dos bancos: a de ter uma casa de banho à disposição do viajante, pelo menos da alguns, a nossa por exemplo; no Dondo e em N´Dalantando, lá fomos ao banco apenas para pedir autorização para utilizar a dita, para espanto dos funcionários, mas com a permissão, não sem um sorriso devido ao inesperado. Já agora umas palavras sobre as 2 cidades. Dondo fica a a cerca de 190 kms de Luanda e situa-se na província de Kuanza-Norte; N´Dalatando é a capital daquela província e até 1975 teve a designação de Vila Salazar, em homenagem ao ditador; esta cidade é sede da diocese de N´Dalatando, criada pelo papa João Paulo II, em 1990, pelo desmembramento da arquidiocese de Luanda.

A viagem é, apesar dos percalços, um regalo para a vista; as 5 passagens pelo Lucala, nem sempre com caudal de agua suficiente para as necessidades, as pedras negras de Pungo Andongo, uma formação rochosa com cerca de 200 milhões de anos, um “monumento” de imponência e de grande beleza. O regresso, na 2ª feira, também feito num todo-o-terreno do senhor Governador, confirma as expectativas da primeira, agora sem constrangimentos e com um belíssimo almoço do Dondo, com carne guisada, funche e cerveja bem gelada; para quem não sabe, o funche angolanoé uma mistura de farinha de milho, água e sal devendo, para uma preparação cuidada, pôr-se a água com sal a ferver, depois deitar a farinha em pequenas quantidades, mexendo com um garfo de madeira para não encaroçar; para aguçar o apetite, deve sempre acompanhar a muamba (de galinha ou de peixe); para as respectivas receitas, basta pedir aos amigos, ou procurar na net. As sucessivas mudanças na paisagem deixam antever, na subida para Malange o verde da vegetação que contrasta com a cor terra, constante da planície. Um realce muito especial para Kalandulo, conhecida pelas quedas do mesmo nome (antigas Duque Bragança) a ainda pelas quedas do Musselege. Na localidade, mora o grande amigo Joaquim Pedro, administrador com sabedoria e experiência e que tem promovido um desenvolvimento social notável a todos os níveis. Vimos pela primeira vez os cafezeiros, provamos o fruto, uma delícia.

Um fim-de-semana principesco, preparando a visita ao senhor Governador de Malange, que aconteceria na 2ª feira; um encontro fundamental para os nossos projectos, a coisa marcha e deixa antever uma colaboração mais estreita no futuro e um desejo de voltar em breve…

Malanje, 18 de Agosto 2008
Alf.

21 agosto 2008



O avião…

Céu, tão grande é o céu

E bandos de nuvens que passam ligeiras
Prá onde elas vão,Ah, eu não sei, não sei
E o vento que fala das folhas
Contando as histórias que são de ninguém
Mas que são minhas e de você também…”
Dindi”, António Carlos Jobim

Estava eu a perorar senão quando o aviltador lista de imediato as suas exigências, ficar parado durante 70 minutos, o fim como devem calcular, sem perceber a razão daquilo, enfim uma chatice. Nem me atrevo a levantar do sítio, tamanho é o peso da responsabilidade, aí uns 60 e tal quilos. Para trás e para o lado, nunca para a frente em pequenos passos, uma grande massa que mais parece um pássaro assustado com tamanho espaço pela frente, ganha forma com alguns ruídos à mistura deixando antever pequenos conflitos, pautados aliás num estrépito relativo, decibéis ligeiramente acima do socialmente aceitável, passo naturalmente ao lado, não sem algum esforço de síntese, dado que a antítese está completamente fora de hipótese. Parados somente, portanto. Simplesmente expectante, socorro-me de prefixos meditativos estribados em experiências recentes (com alguma ironia). Para já nada posso fazer, para além de reflectir na posição típica destas situações, o ângulo oscila entre o agudo e o obtuso, o que é manifestamente grave, esta uma geometria variável que deveria estar fora dos planos, não fora a perspectiva do próximo minuto (afinal como é?). Mais uma maçada, senta e levanta devagar, sem aquela certeza esperada, agora não há mais a música do costume que poderia embalar o ritmo dos minutos, que pena. Uma atitude é porem possível, a decisão está tomada, é realmente necessário, não digo passar à acção, mas talvez accionar o passado, recordando mas afinal onde estavas no dia tal, quando poderia ter tido hipótese de reflectidamente promover o acto, será que é desta? Já ouvimos as habituais parábolas diccionistas, que vulgaridade meu deus, mas pronto eles assim o querem. Não consigo apreender e é com alguma apreensão que desligo e passo à frequência seguinte, só agora me lembro que devo estar infringindo qualquer regra, isso deixa-me satisfeito, motivado até, será que é em frente ou para o lado? A cigarra fumadora não pode entrar, nem sequer naquela sala minúscula muito procurada quando as luzes se apagam e a cintura fica livre. Bem, nem vos conto (está bem, então eu conto) é uma correria, tudo fora do sítio, uma via que deveria ser só de um sentido, não o é na verdade e não há sinais que a coisa vá melhorar; entretanto a parada está agora alta, aí uns 20 mil pés (porquê pés e não mãos?), a frase assim é difícil de dizer, portanto não adianta insistir. Quando finalmente podemos descansar, eis que voltam as hipérboles, desta vez elípticas, em três metades, parece dislexia mas não o é, uma vez que as interjeições não se cruzam com o diâmetro da dita (enfim geometria…); nos preliminares até que a coisa promete, contudo nos finalmente há a prova provada que mais valera esquecer. Nesta altura (que como já se disse é mesmo alta…) está muito frio lá fora acreditem, para aí uns vinte e tal negativos (daquele senhor alemão que começa por “F”; nesta fase do campeonato não vamos fazer substituições que possam comprometer o resultado. A natureza da situação leva-nos a aceitar agora algumas oferendas, assim como dar de bandeja, estão a ver, agora é melhor ler tudo até ao fim, até para poder desancar forte no autor, agora refastelado noutro ângulo, mais uma vez a geometria à liça, sempre presente nos piores momentos. De folga com os tachos (lembro-me do programa do outro…), reencontro o gosto de um ponto de vista suficientemente alto para que o zoom actue e me deixe pensar. Na realidade precisamos agora de mais terra, mas temo que tal não seja viável, dada a rarefacção relativa e a despersonalização associada ao efeito.
Mesmo que nos encontremos de novo, vou mesmo fingir que não sei de nada, é bem feito Dindi…

No ar entre Luanda e Joanesburgo, 20 Agosto 2008
Alf.

13 agosto 2008



CRÓNICAS ANGOLA 4: A lua deitada…


Não é como estamos acostumados a ver, a lua está de facto deitada, parece estranho, mas é assim nos trópicos, a foto não engana é um pormenor como qualquer outro, deixa-nos contudo a olhar para cima e a pensar, será que a lua adormece ou simplesmente descansa no calor e na calma? Enquanto a lua se deita, ficamos a saber hoje que a esperança de vida aumenta em Angola, que o país já não está mais no fim da lista, quer da mortalidade infantil, quer na mortalidade materna (Filomeno Fortes, técnico da Direcção Nacional da Saúde Pública, ao “Jornal de Angola”). No auge da campanha, o Governo promete erradicar o analfabetismo até 2015, cumprindo desta forma o 2º dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODMs). E mais uma boa notícia, esta para a província de Huila, com a abertura hoje de uma grande superfície comercial, com 113 lojas e com a garantia de 500 postos de trabalho, um investimento avaliado em 7 milhões de dólares. E finalmente, no que parece ser um verdadeiro combate à poeira, a nota de que aqui se trabalha dia e noite na limpeza e arranjo das ruas.
Tristes com o que parece ser o desenlace final de Paul Newman aos 83 anos, ficamos olhando esta lua sobre a baía, pensando que enquanto ela se deita, há consciências que despertam. Será?

Luanda, 12 de Agosto 2008
Alf
.

09 agosto 2008


CRÓNICAS ANGOLA 3: A Sociedade Civil em Conferência

Apenas 1 semana de Angola e tanta coisa para contar. Se calhar nem tanto assim, há coisas que não se contam, há outras que guardamos e partilharemos mais tarde, quando o relaxe nos permitir pesar melhor o que deve ser dito.
A sociedade civil angolana esteve em conferência nos dias 7 e 8 de Agosto, na Universidade Católica; pretendia-se, segundo os seus organizadores, “estimular uma alargada reflexão e discussão em torno das questões relacionadas com o potencial da sociedade civil para a mudança sócio-político-económica.”; serviu ainda para apresentação da obra Sociedade Civil e Política em Angola, contexto regional e internacional, da autoria de Nuno Vidal e de Justino Pinto de Andrade. As preocupações são as mesmas que em todo mundo, o combate à pobreza, a responsabilidade social das empresas, o papel da sociedade civil no contexto regional, o combate à discriminação, a defesa dos direitos humanos, o papel das organizações não-governamentais, enfim a participação dos cidadãos na construção de uma sociedade melhor. Curioso notar a tónica colocada no papel da comunicação social, num período especial como o que aqui se vive, em plena campanha eleitoral. E ainda, a forma completamente livre de preconceitos com que se abordou o tema, sempre actual em Angola, da “ligação” entre o poder e os cidadãos. Viveram-se 2 dias de amplo debate, franco e aberto, numa organização impecável, a que só faltou um pouco de rigor nas questões relacionadas com a documentação. Uma oportunidade única de marcar uma presença efectiva, éramos os únicos participantes europeus, marcamos alguns pontos, enfim.
O tempo afinal corre depressa também aqui, os dias são curtos para os europeus, anoitece cedo (que belos fins de tarde…), fala-se muito com as pessoas, muita cordialidade, muito interesse pelos nossos projectos, alguma dificuldade em gerir os contactos, a Europa está longe e perto ao mesmo tempo, aprendem-se costumes, cultiva-se a partilha. Interessante observar por exemplo, do lado de cá, como é vista a cooperação internacional, um tema sem dúvida a explorar quando estivermos de volta, a aprendizagem é de facto notável.
Já é fim-de-semana, prepara-se a próxima com aquela ansiedade do costume, mas já devidamente aculturada, relativizada e diluída na calma de Africa. O cacimbo atenua os excessos…


Luanda, 9 de Agosto 2008
Alf.

07 agosto 2008


CRÓNICAS ANGOLA 2: Abre a campanha eleitoral

Escreve-se de longe com a ideia de uma certa distanciação que acaba por não ser conseguida devido a factores variados, como por exemplo, o facto de não sermos de todo isentos, ninguém o é. Angola vive um momento decisivo, um acto eleitoral que tem a sombra de 92 por um lado e a perspectiva de futuro pelo outro; o lado sombrio não deixa de estar presente, enquanto os olhos de todos estão voltados para apelos e manifestações de intenção de dias melhores para o País. Luanda vive a campanha eleitoral com uma alegria calma, a limpeza das ruas, o anúncio de um grande projecto integrado de fomento habitacional do Governo, a intensificação da campanha para a alfabetização do País, com particular relevo para a TPA, que repete insistentemente spots apelativos; as vagas para o ensino secundário irão duplicar no próximo ano, enfim os apelos do MPLA à tolerância em algumas províncias, antevendo quiçá alguns excessos. São 14 partidos ou coligações para o 5 de Setembro.
Luanda é uma mulher bonita que, embora parecendo não cuidar muito da beleza, não deixa de mostrar o seu ar de encanto e de simpatia. As coisas vão correndo, há muito movimento nas ruas, muito pó também, já se disse, mas a repetição não é despicienda.
Sentimos que podemos ser úteis neste momento de viragem, quer na luta contra a pobreza, quer nas campanhas em favor da educação universal, há muito a fazer e é bom saber que a nossa acção pode significar uma mais-valia nessa áreas. Nos momentos mais difíceis, isso pode significar um incentivo; a doença de um amigo muito próximo enche-nos de preocupação, sem saber bem o que fazer, os telefonemos constantes para nos inteirarmos do seu estado de saúde, a esperança de melhores notícias no dia seguinte, enquanto fazemos conjecturas e traçamos cenários de trabalho, tendo a realidade por perto e conhecendo os riscos.
Acordamos sempre cedo com a claridade das 6 da manhã, a cidade espera por nós, estamos aí.

6 de Agosto de 2008

03 agosto 2008


CRÓNICAS ANGOLA 1: No princípio era…

As primeiras impressões, depois de uma atribulada viagem, com perda de uma mala à mistura, com as indefinições de quem viaja com muitas incertezas. Uma viagem de trabalho, com alguma nostalgia na bagagem, contudo na certeza de encontrar velhos amigos de há muitos anos, essa sim. O 4 de Fevereiro está na mesma, as mesmas filas, a mesma confusão nas entradas, mais simpatia talvez. Não sabemos bem para onde vamos, não temos alojamento garantido em Luanda, mas há sempre a “casa da família” em Viana, para lá chegar são sempre as 3 ou 4 horas, para fazer os 18 km da praxe. Muito cansaço, muito pó, a brisa suave do cacimbo, não mais que uns 22 graus, frio portanto, para quem gosta de sentir o bafo quente de África. É bom ver Luanda de novo, mais carros, muitos mesmo, aquela confusão toda, um caos que não dá para descrever, uma alegria enfim. Nenhum stress, esse ficou todo na Europa, aqui tudo funciona de outra forma, nem melhor, nem pior, apenas diferente; quem não acredita, só tem que ficar por cá uns tempos e depois habitua-se. Uma 6ª feira de arrasar, “apenas” para adquirir um cartão Unitel, mais um pacote de Internet móvel, tudo muito complicado, mas sempre com muita simpatia. Boas refeições, a preço digamos aceitável para estas bandas, em Viana come-se bem, com muito jindungo e boa cerveja (portuguesa). Um Sábado de relaxe completo, que bem sabe o direito à preguiça! No Domingo privamos com o grande amigo Guido Campos e sua família que é tão boa, tão fraterna, recordam-se outros temos, os amigos comuns, são 12 anos de distância, um almoço excelente em Viana, um passeio ao Bom-Jesus, nas margens do Kuanza, momentos inesquecíveis de grande prazer, porque nada há melhor que estar com os amigos. Planeia-se já toda uma semana que se avizinha com muito trabalho, alguns encontros decisivos, sempre com a esperança de resolver as questões que cá nos trouxeram, sem certezas nenhumas, apenas a de que amanhã é mais um dia, vai ser 2ª feira certamente, é um principio de alguma coisa e basta.

18 junho 2008

O TRATADO…

Quem no quer esse muro concreto
É político mas analfabeto…
A corda bamba da cultura
A ponte pênsil no ar
Acorda muda de figura
Petróleo não é tudo Jr.!!!"...
“Acorda” – Rock in Rio Douro, 1992, Rui Reininho

É bem feito! Tudo fizeram pelo Tratado, trataram de mascarar a realidade e agora tem o que merecem: o tal NÃO da Irlanda, chato que de tão redundante, já o havia sido na França e na Holanda. O Tratado. De tanto tratar mal o povo putativamente votante, veio agora o tratamento adequado para os trataram de trautear banalidades. Tratemo-los então de tratantes. Se o Tratado não foi tratado como deveria ter sido, porque estão agora admirados? Mais, será que eles, todos eles, acreditariam num resultado diferente, caso o Tratado fosse referendado como deveria? O próprio partido que nos governa por cá se tinha comprometido a tratar o Tratado de forma diversa. Bem parece que o trato dado ao Tratado foi o pior possível, a bem dizer uma autêntica tramóia. Fala-se agora de (tratar) de tirar as devidas lições, ou ilações do Não. Para quê, não chega a verdadeira lição que levaram?

Acorda e muda de figura” bem podia ser o lema, para todos os que ainda não trataram de se pôr em dia com a verborreia típica do centrão; aqui e por essa Europa dentro onde os argumentos são sempre os mesmos: o (pretenso) reforço da democracia, a coesão europeia, a necessidade de encontrar mecanismos, etc…, etc…Já o Aleixo dizia, “Vós que lá do vosso império/prometeis um mundo novo/calai-vos que pode o povo/querer um mundo novo a sério”, com muita razão, oportunidade e sentido de visão.

Eis que urge pois que se retratem, que digam cara a cara que falharam; ou então, que se
tratem…

11 junho 2008


A RAÇA…

Navegando numa onda passada, o homem que não gosta de muitas ondas, acaba de deslizar para as águas movediças da mediocridade. Balançou durante algum tempo na crista, com o apoio da ocasião, que tanto faz o ladrão, como o oportunista. Com os cuidados que se lhe reconhecem, não sendo pessoa de grandes rasgos a não ser os das académicas tiradas mais ou menos economicistas, sim os números de que tanto gosta, planou desta vez para um terreno incómodo, só suportado pelos que da saudade lusitana do império fazem carreira pouco diplomática. A Raça, essa que o-de-Santa-Comba aproveitaria em 1944, para introduzir no léxico de um 10 de Junho dedicado ao Poeta exaltava, convém saber-se, Nação, Império, Metrópole e Colónias. A gaffe que muitos pensam ser, poderá não o ser. O deslize que de tão deslizante nos transporta ao tempo do “deixem-nos trabalhar” e das “forças de bloqueio”, a gente não esquece pois não… Alguém hoje nas ondas da rádio defendia uma pedagogia da liberdade e da inclusão para casos como este. Mesmo sabendo que as aprendizagens o são ao logo de toda a vida, que o erro pode ser uma fonte de sabedoria futura, é preciso querer aprender. Resta saber se será este o caso…

05 junho 2008



ALTOS CONCLUIOS...


A propósito da última decisão da chamada Alta Autoridade da Concorrência sobre as dúvidas quanto à uma cartelização do sector da distribuição de combustíveis, permito-me opinar que eu e muito boa gente, vítimas de extorsões sucessivas, não temos dúvida nenhuma. Aliás o que se passa naquele sector passa-se em muitos outros, como são (por exemplo) os casos do sector bancário e do sector farmacêutico. O que acontece são 2 coisas muito simples. A primeira tem a ver com a putativa independência das Altas Autoridades; as pessoas de bem não acreditam positivamente nisso; acreditam mais que esses organismos, prestam vassalagem descarada aos governos e às administrações das grandes companhias; ao fim e ao cabo, os seus dirigentes pertencem aquele grupelho do bloco central e circulam, conforme os ventos partidários, pelos lugares sempre em aberto. A segunda tem a ver com o sentido de oportunidade, ou seja, se na realidade existem para exercer autoridade (e ainda por cima Alta), deveriam exercê-la de facto e não estar sempre à espera que o Poder solicite esclarecimentos, dúvidas, receios, … A máquina está porém muito mais bem montada do que se imagina; funciona na perfeição e ao invés de dar corpo a sentimentos generalizados dos pagantes (ou seja nós, quase todos…) presta serviço ao poder instituído e aos grandes interesses da especulação.

E por falar em especulação, atente-se aos preços dos combustíveis, no final do mês de Maio de 2008. Segundo dados da Direcção Geral da Energia e dos Transportes (
http://ec.europa.eu/dgs/energy_transport/index_pt.html), o preço médio dos combustíveis em Portugal (gasolina: 1,501 e gasóleo: 1,426) está em 3ª lugar entre os mais caros, só ultrapassado pela Holanda e pela Bélgica! O preço em Espanha, o mais barato de entre 10 seleccionados é: gasolina: 1,205 e gasóleo: 1,269; a média na zona euro é: gasolina: 1,424 e gasóleo: 1,388. como somos um País rico, podemos dar ao luxo de ter os combustíveis mais caros que, por exemplo, a Alemanha, a França, a Itália, Luxemburgo, Reino Unido, para já não falar na Espanha…

Que respostas dá um Governo que se diz “socialista” e esta tremenda, descarada, desavergonhada, despudorada e devidamente engravatada especulação? Bom, é o mercado! Vejamos entretanto dados do I trimestre de 2008, da autoria do economista Eugénio Rosa: “…lucros extraordinários da GALP aumentaram 228,6 % no 1º trimestre do corrente ano de 2008; só no 1º trimestre de 2008, a GALP obteve um lucro extraordinário de 69 milhões de euros devido à especulação do preço do petróleo no mercado internacional e os lucros totais atingiram 175 milhões”. Até este Governo conseguir explicar porque razão temos os preços dos combustíveis mais caros da Europa e os ordenados mais baixos do espaço europeu, só podemos falar nestes termos: concluio, protecção dos interesses das petrolíferas.

Quanto ao resto, já se sabe: terá que haver força suficiente para respeitar os apelos aos boicotes divulgados, nomeadamente à GALP, BP e REPSOL; já que é o mercado que determina tudo, então vamos demonstrar que é possível alterar as ditas leis do mercado.

15 maio 2008


Mas tive o Diabo na mão...


Do lado de lá da indiferença há mil e uma formas que coexistem. Do lado de cá da esperança sonhamos ainda. Exigimos o impossível e porque não? No meio de tanta hipocrisia, vamos “caminhando e cantando e seguindo a canção” e a luta continua como em Maio de 68. Vale sempre a pena pensar que ainda vale a pena. Era um Maio em que tudo parecia possível, mesmo o impossível, cantávamos ainda em silêncio, mas a cantiga era uma arma. Alguns de nós exilados, com aquela esperança, mas ainda no lado escuro de uma Lua que esperaria um ano para ser vista na televisão a preto e branco. E era a preto e branco que tudo se passava cá dentro, sonhando as cores de uma primavera distante. Os baby boomers, a quem não é suposto futuro nenhum, continuam hoje a chatear as consciências conservadoras, afirmando como em 68 “não me libertem, eu encarrego-me disso…” e se calhar ainda “quanto mais faço amor, mais vontade tenho de fazer a Revolução, quanto mais faço a Revolução, mais vontade tenho de fazer amor…”. Ao som eterno do Zeca recordo que “… tive o Diabo na mão”, sabe-se lá por onde anda agora. A ironia máxima de continuarmos a saber o que não queremos é a expressão do inconformismo que suporta uma intervenção de cidadania. Se é ou não suficiente nunca o saberemos, se há uma fronteira entre a radicalidade e o equilíbrio, bolas para o bom-senso, venha de lá outro Maio o mais depressa possível, 40 anos já é tempo demais, a gente sabe-o bem, não é?

25 abril 2008


25 Abril de 2008

Ainda há gaivotas por aí?


“…Se voara como ela a tua sorte era a minha
Não sabes bem o que fazer de facto parece tudo confuso e perdido mas deixa lá há ainda algum tempo dizíamos o mesmo e as coisas acabam sempre por se compor dias assim são mais que muitos mas este é diferente porque há uns anos atrás também ajudaste na Festa agora não há mais festa eu sei mas podes sempre fazê-la em privado e dizer 25 de Abril sempre talvez mais baixo um pouco que antes mesmo assim sentido (com sentido) e ainda consentido Começou agora mesmo ainda me lembro daquela confusão toda não sabíamos bem para que lado é que a coisa podia dar havia que dar um tempo mas depois sim era mais que divertido ver os polícias a fugir diante da tropa que gozo maior não podia haver Os outros agora andam outra vez por aí disfarçados de senhores a merda é a mesma de sempre nunca se sabe sonhamos acordados na confiança que sempre damos a quem talvez não devíamos mas enfim temos estradas e pontes e centros comerciais mais que as mães e muitos canais de televisão e muitos bancos a "dar" dinheiro a toda a gente e como milhões de lucros a subir cada vez mais e mais outras coisas boas que até chateia e sempre nos queixamos de não ter tempo quando nos devíamos era queixar doutras coisas que o tempo é sempre nosso a toda a hora ou não será? “Temos fantasmas tão educados que adormecemos no seu ombro, somos vazios despovoados de personagens de assombro” nunca a Natália teve tanta razão lembras-te das almas jovens censuradas que se queixavam assenta agora que nem uma luva há tanta gente que não tem voz e mesmo se a tivesse não saberia o que dizer por não ter força que antes era um símbolo da liberdade “que força é essa amigo?” e os jovens no desemprego mas pronto o défice desceu e devemos dar graças que não ao outro mas a estes que estão cá… “Eu sou português aqui...” deixa-me acreditar nisso que posso mudar ainda tanta coisa eu sei que não é fácil mas que diabo quero! Já não há gaivotas se calhar dantes havia uma (lembras-te?) que voava e voava e a gente dizia que … nunca mais se cansava agora se calhar cansava-se mesmo e desistia mas eu não desisto porque apesar de não ter mestre ainda tenho algum jeito. “Eu sou português aqui e trago o mês de Abril a voar dentro do peito…”
Alf.
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Palavras e/ou frases “roubadas” sem permissão especial que elas e eles não se importam…:

José Fanha
Natália Correia
Sérgio Godinho
Zeca Afonso

20 abril 2008


GNR + GNR

Felizmente que a noite sai

ainda bem que há névoa por ai

estou contente se a luz se esvai

e uma sombra invade este lugar

Morte ao Sol (1989)


Oficina da Ilusão é nome de promotor. De espectáculos. De um grande espectáculo. Efectivamente, como não sei moralizar, perco a vista na grande banda sinfónica do Jacinto Montezo e o Rui desliza, sempre disfarçando a sua tremenda falta de voz, mas com aquela presença cintilante, “…olha pró que eu faço, mais vale nunca, nunca aprender, mais vale nada, nunca mais querer, mais vale nunca mais crescer…” e as paredes do Pavilhão Atlântico parecem reflectir toda a potência do som no Balcão 2 (não arranjamos melhor…). Lembro agora que há um “hemisfério fraco outro forte…” com ou sem Pronúncia do Norte, mas com a certeza de que “...as teias que vidram nas janelas, esperam um barco parecido com elas”, imagem que fica no ouvido, enquanto roemos maças e sonhamos com Dunas “…alheios a tudo, olhos penetrantes, pensamentos lavados”. A música entra na noite fria e chuvosa, salta do estrado, há sempre uma ilusão que escapa ao promotor, ainda estás aí Anna Lee (?) não sei se diga, mas “…há em mim um profano desejo a crescer”. Às tantas “…mais vale nunca mais crescer…”

Alf

07 março 2008




Para uma princesa desconhecida





Dela fez Sophia um retrato para uma princesa desconhecida. Para que ela fosse aquela perfeição. Numa sociedade longe de ser perfeita apela-se á igualdade de género, de mãos dadas com os perigos, enquanto outros vão à sombra dos abrigos. Nunca desiste, muitas vezes em si fechada, com alguns muros e paredes que não se vêm, a indiferença que magoa, a hostilidade que choca, muitas consciências pequenas que não querem ver o crescer do mar, nem o mudar das luas. Dela recordo o carinho e a ternura que são a cor dos dias, torrente de força, de paz, de liberdade. Podia ser agora apenas um sonho lindo quase acabado. Mas no real é a luta, sempre a luta, a vida, sempre a mesma vida, a esperança, sempre adiada. A presença suave dos dias, subindo a calçada. Sabes minha irmã que quero mudar o mundo? Para haver mais Sophias. E porque os outros se mascaram mas tu não. Porque os outros se calam mas tu não. A princesa desconhecida és tu também!

Fontes:
Sophia de Mello Breyner Andresen:
o “Mar Novo”, 1958.
o “Tempo Dividido”, , 1954.

Fausto Bordalo Dias:
o "Por este Rio acima", 1982

20 fevereiro 2008



As sombras dos cavalos no mar…
(ao António Lobo Antunes)

Às vezes a leitura de um artigo[1] faz-nos acordar para realidades ou sonhos que não alcançamos. Ou porque somos os tais mortais sem aquela argúcia de captar coisas singelas ou porque andamos simplesmente distraídos pela vida, absorvidos por ninharias que se calhar até têm menos interesse. Se calhar. Com a devida vénia ao António [2] , penso que lhe posso “roubar” aquele frase enigmática, que não sendo dele, foi por ele apropriada: “que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?”. Não sei bem porquê, mas há coisas que cativam, que tocam, que despertam. No mar da tranquilidade que para mim é referência, não há limites para a imaginação. Posso daqui, não muito longe do mar, ver formas que não fazem sombra, mas dela se alimentam. O mar daqueles sonhos de tardes sem fim, á espera que algo aconteça, sabendo que na realidade não queremos que aconteça nada. Numa tarde na praia de Apúlia encontro uma menina que atira pedrinhas para longe á espera que o mar lhe devolva alguma trazida por um peixe vermelho; verdade, esperas mesmo (?), não sei mas ele é capaz de vir porque eu lhe pedi… Assim se preenche o tempo, mais importante para a menina que qualquer relatório de um qualquer conselho de administração que revela as tendências em alta da economia europeia. Às malvas a rotina, é mais importante compreender de facto o ponto de vista dos outros, por mais intricado que nos pareça. Entretanto, os cavalos na praia correm sem destino nenhum e a sombra que deixam não chega para nos ensombrar a vida, antes pelo contrário. Continuo daqui, no meu sofá emprestado, a ver as ondas e a imaginar o tal peixinho vermelho sorridente a entregar a pedrinha que a menina lhe pediu… a imagem é tão boa como outra qualquer, desde que gostes e que acredites.

“O homem que se sentia losango”
[3] não tem que dizer porquê, é sempre uma sensação obtusa, que gira qualquer ângulo, numa geometria mais variável que a própria sombra. Podemos estar com ele e não dar conta dos universos infinitos que percorreu sem sair da cadeira, mandando farpas para todo o lado, incluindo este. Acusamos o toque, porque não é grave, embora uma dor aguda possa eventualmente percorrer a alma, esteja ela onde estiver. As tais tardes no mar não são pois forjadas, estamos lá os dois sempre de mão dada, á espera dos cavalos que fazem sombra, não a nós, que curtimos o sol até nos entrar na pele e nos bronzear por dentro. A cor vale tudo, mesmo na sombra, o resto és tu…

[1] Artigo de A. Lobo Antunes, revista Visão de Janeiro 2008, vale a pena saborear: http://aeiou.visao.pt/Opiniao/antonioloboantunes/Pages/Quecavalossaoaquelesquefazemsombranomar.aspx

[2] António Lobo Antunes
[3] Ainda reporte de A. Lobo Antunes, também na Visão de 8 de Fevereiro