rio torto

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05 outubro 2008



Capitalistas nos lucros, socialistas nos prejuízos!

Rosa Brooks Rosa Brooks is an é professora
da Universidade de Georgetown e colunista do Los Angeles Times onde normalmente assina artigos sobre politicas de segurança e direitos humanos, este artigo é, na minha opinião, um contributo notável para acordar algumas consciências mais distraídas e como tal o passo a transcrever, com a devida vénia.

EUA, bem-vindos ao Terceiro Mundo!

Não é todos os dias que uma superpotência tenta transformar-se em nação do Terceiro Mundo. Por isso, nós, aqui no Banco Mundial e no FMI, desejamos ser os primeiros a dar-lhes as boas-vindas à comunidade de Estados necessitados de ajuda económica internacional. Enquanto vocês se afundam, muito nos alegra poder responder à solicitação do vosso Departamento do Tesouro para que participemos numa avaliação conjunta da estabilidade do seu sector financeiro. Nesta época turbulenta, podemos oferecer-lhes empréstimos subsidiados e até especialistas. Como vocês sabem, há muito tempo que é necessária uma intervenção na vossa economia. Na semana passada, mesmo antes do recente colapso em Wall Street, ex-ministros da Economia de vários países reuniram-se na Virgínia e concordaram que vocês precisam reformar o vosso sistema financeiro. O ex‑ministro das Finanças da Índia, Yashwant Sinha, sugeriu até que vocês peçam ajuda ao FMI. Esperamos que vocês não se sintam envergonhados. Lembrem-se que outros países já estiveram nessa posição. Já ajudámos as economias da Argentina, do Brasil, da Indonésia e da Coreia do Sul. Assim, gostaríamos de reconhecer o progresso que vocês fizeram na evolução desde superpotência económica até ao completo descontrolo económico. Normalmente, tal processo leva 100 anos ou mais. Entretanto, devido às vossas oscilações entre o extremismo do livre mercado e a nacionalização de empresas privadas, vocês atingiram com sucesso, em poucos anos, muitas das principais características observadas nas economias do Terceiro Mundo. As vossas medidas de irresponsável desregulamentação governamental em sectores críticos permitiram que vocês desenvolvessem rapidamente uma crise energética, uma crise de habitação, uma crise de crédito e uma crise no mercado financeiro, todas ao mesmo tempo, e acompanhadas por impressionantes níveis de corrupção e especulação. Enquanto isso, os vossos políticos, que deveriam supervisar o sistema, estavam dormindo com os lobistas. Tomemos como exemplo John McCain, o vosso candidato republicano à presidência, cuja equipa principal de assessores inclui meia dúzia de ex-lobistas de renome. Ele mesmo afirmou recentemente que foi presidente do Comité de Comércio do Senado, que supervisa todas as vertentes da economia. Não restam dúvidas, portanto, relativamente ao fracasso da sua liderança em perceber o estrago causado pela desregulamentação irresponsável. Agora, vocês enfrentam as consequências. A desigualdade aumentou. Enquanto os ricos recebem dinheiro caído do céu, a classe média viu os seus rendimentos estagnar. Um número cada vez menor de cidadãos tem acesso a habitação, assistência médica ou segurança social. Até a expectativa de vida diminuiu. E, quando os problemas económicos passaram de crónicos a agudos, vocês responderam - como fizeram tantos outros Estados do Terceiro Mundo - com um programa extenso de nacionalização de empresas privadas. As vossas gigantes do ramo das hipotecas, Fannie Mae e Freddie Mac, pertencem agora ao Estado. Nesta semana, a gigante dos seguros, a AIG, foi também foi nacionalizada. Alguns podem chamar a isso "socialismo", mas épocas de desespero exigem medidas desesperadas. A vossa transição para o Terceiro Mundo será dolorosa. No início, vocês terão dificuldade em habituar‑se às favelas que crescerão nos subúrbios das cidades, mas, com o tempo, elas tornar-se-ão parte da paisagem. À medida que as taxas de desemprego aumentarem, vocês terão problemas para encontrar ocupação para a massa de jovens desempregados, mas logo vocês vão perceber que podem recrutá-los para alguma qualquer guerra, um tipo de solução que já foi utilizada por muitos Estados do terceiro mundo antes de vocês. Talvez esta carta os surpreenda e vocês sintam que ainda não estão prontos para se juntar ao Terceiro Mundo. Mas não fiquem preocupados: Apesar de nunca terem percebido, vocês já estavam há vários anos a preparar-se para este momento
.”

Rosa Brooks, 18 de Setembro 2008, Los Angeles Times

04 de Outubro de 2008
Alf

25 setembro 2008


“…Now I won't judge you and you don't judge me
We're all the way nature meant us to be
Just human beings -- born to be free…”

"I Was Born This Way" (Bunny Jones/Chris Spierer)
Podia ser mais um combate, porque é sempre preciso combater a indiferença para fazer notar a diferença. Elas e eles que merecem todo o respeito para que as diferenças não sejam transformadas (como normalmente o são…) em desigualdades. Na rua há um mural que dita “Não faças do pensamento um bloco duro de cimento”, frase porventura banal, dá pelo menos para pensar, não custa nada, faz bem à mente e talvez possa libertar algumas (mentes) de preconceitos e pré-conceitos. Discute-se agora na AR o Projecto que visa para acabar com a discriminação de casais de pessoas do mesmo sexo no acesso ao casamento, vale tudo como em outras ocasiões e descobre-se sempre alguma coisa nova; repetem-se os argumentos do costume, eu por acaso lido mal com o termo “conservador”, vejo-o só mesmo à frente (ou atrás…) de um qualquer museu, arrumado sempre direitinho, enfim. Não fica bem também aquele outro (argumento) de que há coisas mais importantes neste momento, pois há, há sempre qualquer coisa mais importante, dá para tudo, de pouco imaginativo; depois há o outro (argumento ainda), brandido neste caso pelo PM, de que “tal não consta do programa do partido e que não vamos a reboque das propostas dos outros”, imagem de arrogância que pode ser lida (pode de facto…) as minhas propostas é que contam, as dos outros estão sempre (que azar, o deles) fora da agenda oficial, mas há algo que não é nada oficial e que se chama CIDADANIA, uma daquelas palavras “… que se recusam / mas de repente coloridas / entre palavras sem cor…” e assim o apelo pode fazer colorir o cinzentismo, abrindo janelas, é sempre bom estarem abertas, não há mal nenhum em deixar entrar o ar fresco que faz bem (dizem…) às consciências. Haverá sempre lutas assim, vale a pena trazer mais gente a estas “pequenas”, a que chamam “fracturantes”, não sei se bem ou mal, o que conta é derrubar os muros do silêncio, porque “…os outros se calam, mas tu não”!

Palavras citadas:
o José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa
o Alexandre O´Neil
o Sophia de Mello Breyner Andresen


24 de Setembro de 2008
Alf

21 setembro 2008

AMBIENTES… (1)

A defesa do ambiente é uma questão central do desenvolvimento sustentável; uma vez que os poderes públicos normalmente são pouco sensíveis a estas questões, leia-se não dão votos, compete à sociedade civil organizar-se no sentido de alertar, sensibilizar e educar; é mais uma vez, a cidadania global que está em causa. Elencamos algumas premissas para ajudar a compreender o que está em causa.

1. Os 4 Rs e o negócio da Reciclagem
Quando se fala em 4Rs, associamos de imediato a Agenda 21, que é um plano das Nações Unidas para ser adoptado nas as áreas em que a acção humana tem impacto sobre o meio ambiente; esse Plano tem abrangências global, nacional e local e deverá em principio ser levado a cabo pelos governos e pela sociedade civil, em defesa do meio ambiente. Os 4R derivam dos termos Reduzir, Reutilizar, Restaurar e Reciclar e contêm em si o significado do que deveria ser feito, em termos do que comummente se designa por consumo sustentável. Reduzir, significa a opção do consumidor por produtos de longa duração e com menor quantidade de embalagens; um bom exemplo é utilizar sacos de compras de pano no supermercado, para reduzir o uso dos sacos de plástico. Reutilizar é aproveitar os materiais usados, como por exemplo, embalagens, ou produtos que permitam uma utilização ilimitada, como são as pilhas recarregáveis e as recargas de produtos. Restaurar significa reparar (móveis,…) ou consertar (aparelhagens danificadas,…). Finalmente, Reciclar, provavelmente o termo mais conhecido, quer dizer promover a separação dos resíduos, com vista a uma posterior utilização.Estima-se que em média, cada português produz 1,3 kg de lixo por dia; produzir menos lixo deve ser então um dos objectivos primeiros a ser atingido; reduzir por exemplo o número de embalagens que compramos, preferir embalagens grandes em vez de muitas embalagens pequenas, evitar alimentos embalados, usar o papel dos dois lados em vez de comprar mais e mais papel, usar os sacos mais do que uma vez, são algumas das sugestões para que seja drasticamente reduzida a quantidade de lixo que produzimos. Se pensarmos nos milhões os sacos de plástico e outras embalagens que todos os anos entram nas nossa casas, no desperdício de energia que poderia significar uma poupança de 86 milhões de contos por ano, ou seja, 16 milhões de barris de petróleo, encontraríamos decerto razões de sobra para mudar determinados padrões de comportamento.
Mas, é preciso que se diga, a reciclagem transformou-se num negócio; proliferam as empresas que reciclam tudo e mais alguma coisa, muitas vezes mal e com objectivos mais que cinzentos. Veja-se a título de exemplo o que fez a empresa Valorsul, segundo informação da QUERQUS. “A empresa de tratamento de resíduos urbanos da grande Lisboa está a incinerar 55% dos plásticos recicláveis provenientes da recolha selectiva efectuada pelas câmaras municipais de Lisboa, Loures, Amadora, Vila Franca de Xira e Odivelas. Após análise dos resultados da recolha selectiva e triagem de plástico a nível nacional, conclui-se que na estação de triagem da Valorsul a taxa de rejeitados dos materiais do contentor amarelo, onde é colocado o plástico, atingiu um valor de 72%, sendo o triplo da média nacional (24%), segundo dados da Sociedade Ponto Verde e do Instituto dos Resíduos. Como resultado, em 2004 a Valorsul só reciclou 1,9% do plástico, sendo o segundo pior sistema do país (dos sistemas com mais de 200 mil habitantes). Este sistema só foi ultrapassado pela ERSUC (Distritos de Aveiro e Coimbra) que apresentou um valor de 1,5%. A explicação para estes fracos resultados, só pode ser encontrada no facto da Valorsul querer queimar o plástico, obrigando assim as câmaras a pagar esse processo, impossibilitando-as simultaneamente de receber o dinheiro a que tinham direito pelo esforço que fizeram na recolha selectiva.” Entretanto, outra empresa do género, a ERSUC, quer instalar um grande incinerador, pelo que tem sistematicamente impedido o lançamento de uma política de reciclagem nos Distritos de Aveiro e Coimbra. Estas 2 empresas abrangem cerca de 22% da população portuguesa que se vê assim impossibilitada de dar o seu contributo para a reciclagem de plástico. Os dados da Sociedade Ponto Verde são claros: em 2004, Portugal apenas reciclou 2,7% das embalagens de plástico dos resíduos urbanos, quando para 2005 a meta comunitária é de 15%. Cumprir as metas que o País se comprometeu? Assim, nunca mais!


2. O principio do utilizador/poluidor/pagador
Pagamos impostos, para que a redistribuição possa garantir maior equidade; e para que o investimento público tenha preocupações sociais e de desenvolvimento; e ainda, para garantir igualdade de oportunidades, no sentido de que o colectivo assuma solidariedades internas, para que o acesso a serviços essenciais não seja um privilégio apenas de alguns. Certo portanto que sejam aqueles que mais poluem, ou seja (nestes casos) tenham opções de compra que contribuam para o desperdício; vendo bem, porque razão hei-de eu pagar pelos poluidores, ou seja aqueles que compram os produtos que eu recuso à partida? A questão das eco-taxas deve ser colocada então na ordem do dia, como por exemplo cobrar mais por produtos de pequena duração e com maior quantidade de embalagens.

Há quem diga que o mais importante é reciclar as atitudes; nessa linha, o sistema educacional pode cumprir um papel relevante, educando devidamente as novas gerações; estará cumprindo o seu papel? Parece contudo que os dois primeiros Rs, Reduzir e Reutilizar ainda encontram resistências culturais e económicas assinaláveis e portanto há que investir fortemente na sua correcta interpretação. Segundo estudos do World Resources Institute (WRI), a produção total de resíduos de Estados Unidos, Áustria, Alemanha, Holanda e Japão cresceu pelo menos 28% nos últimos 25 anos! Será que pagam para isso? Duvido.

(continua...)

Links relacionados:
http://www.abinee.org.br/index.htmhttp://www.svtc.org/svtc
http://www.wri.org/materials/index.html
http://www.naturlink.pt/canais/artigo.asp?iCanal=35&iSubCanal=66&iArtigo=15374&iLingua=1
http://www.amarsul.pt/listagem.aspx?sid=76e8fc08-2125-4986-b1df-9a8a3a24fa09&cntx=EZXOFWZpyeNggHax73GMfsxxoEh%2FREt5AabOm2y%2FJh33l86ar5IlhMuKWhex9eHA
http://www.portaldoscondominios.com.br/reciclagem2.asp

21 Setembro 2008
Alf.

19 setembro 2008


De 1851 a 2008…


Assistimos dia a dia e desde há uns tempos a esta parte à novela do costume acerca do preço dos combustíveis. Agora que o preço do barril de crude está no casa dos 90 dólares, seria de esperar uma diminuição considerável dos preços no consumidor. Há um comissário da Energia (o que é isto?) que alerta para uma intervenção da chamada Autoridade da Concorrência, mais um ministro que diz esperar que o preço baixe, o preço não baixa e o contribuinte paga, o contribuinte paga sempre e isto rola assim. Recorde-se (é sempre bom recordar) que, com a privatização da GALP pelos governos do PS e PSD, e com a liberalização dos preços dos combustíveis do governo PSD/CDS, o que deveria ter acontecido (segundo a lógica deles…) era o aumento da concorrência e uma consequente descida dos preços; entretanto, entre Janeiro de 2004 e Maio de 2008, o preço da gasolina 95 aumentou 57,3% e o do gasóleo rodoviário 102,7%. São estes os resultados que a direita parlamentar tem para apresentar ao País; agora reclamam do governo PS medidas imediatas para baixar os preços, hipocrisia só possível mesmo para quem não queira ver! Entretanto o que faz este governo, dito socialista? Nada, positivamente nada, porque não é capaz, nem quer ver as verdadeiras razões, ou seja, a mais descarada especulação das companhias petrolíferas, a coberto precisamente da incompetência do ministro da economia e da cumplicidade óbvia do primeiro-ministro. É preciso que se diga isto claramente, que é uma pouca-vergonha esta política de complacência perante os grandes interesses económicos e especulativos de que este governo é completamente refém e cúmplice. Não adianta pois tentar mascarar a realidade, com declarações de falsa ingenuidade, quando os factos comprovam exactamente o contrário. Quando o preço do crude aumentava, o preço dos combustíveis subia todos os dias, agora que já baixou para quase metade, tudo fica na mesma e até (pasme-se!) há uma distribuidora que nos últimos dias ainda veio aumentar ainda mais o preço…

As pessoas não são estúpidas e sabem que os preços dos combustíveis determinam em grande parte o agravamento das suas condições de vida: os transportes, o preço dos bens alimentares, o funcionamento do sector produtivo. Somando a tudo isto o aumento desenfreado das taxas de juro, temos um cenário real de um país que não consegue nunca convergir e pelo contrário se afasta cada vez mais da União de que tanto se orgulha de pertencer. E, mais uma vez, como em situações passadas, o partido Socialista hipoteca a sua herança, atacado à direita por uma direita sem qualquer crédito e à esquerda por praticar a política dos que o atacam, uma situação só aparentemente bizarra; na realidade não o é. Talvez seja desta que os indecisos queiram ver ao que levam as políticas monetaristas, amarradas ao liberalismo económico e reféns do capitalismo selvagem; aliás, a dita crise dos mercados financeiros, não é mais que uma máscara para fazer passar na opinião pública a necessidade de aumentar ainda mais a intervenção do império no controle completo e único do mercado internacional.

É a economia estúpido!”, que poderia agora ser adaptado por qualquer coisa como “a economia é só para estúpidos”, ou “os estúpidos são os economistas”, ou até “estúpidos são os que acreditam nos economistas”; pelo menos, nestes…

19 de Setembro de 2008
Alf.

12 setembro 2008


CRÓNICAS MOÇAMBIQUE 4: Batiks…

Quase na partida deste País que ora conheci, apenas algumas imagens, algumas terras, pouco porventura, para além de Maputo, Inhambane, Tofo, Bilene, Manhiça, Xai-Xai, enfim o que foi possível. Quisera ter visto mais de perto como vivem as pessoas, um aspecto que fica nos relatos dos amigos, nas conversas de rua, nos cafés, nos hotéis. Da janela do 4º andar do Girassol me despeço do azul do mar, hoje com mais ondulação, alguns barcos, uma vista magnifica, complementada com o verde da vegetação, as cores dos edifícios, o recorte das ruas. As arrumações, o fecho das malas (um pavor…), as últimas notas, as mensagens, aquela sensação que falta sempre qualquer coisa, que vai esquecer isto ou aquilo. O importante agora é mesmo partir, já que tem que ser e chegar o mais rápido possível ao destino, a casa, a família, os amigos, as rotinas habituais que também fazem alguma falta, diga-se de passagem.

Estamos fora de Portugal desde finais de Julho, as emoções em Angola e aqui em Moçambique foram sempre muito fortes, as expectativas foram de facto superadas, existe uma certa curiosidade sobre a nossa prestação em África, iremos tentar que as respostas sejam o mais possível próximas do que se espera. O contributo que uma organização da sociedade civil, com algumas características que as pessoas consideram especiais (sem qualquer receio do termo…), pode significar irá a partir de agora ser testado em situações concretas, nos 2 Países, enquanto se analisa, com o pormenor necessário, as questões ligadas à organização local, que assumirá em cada um dos países, formatos adequados.

Batiks para levar; o termo, muito vulgar em Moçambique, designa uma técnica de panos pintados; a exploração artesanal introduz uma industria local de algum significado, há artistas que produzem panos de belíssimo efeito visual; de dimensões variadas, podem apresentar variadas formas, conforme a origem, o mais usual tem formato de rectângulo, medindo à volta de 65 X 25 cm, a pintura é feita em altura; há ainda batiks maiores, podendo assumir 1,35 m de largura e cerca de 85 cm de altura. Nos panos são pintados motivos tradicionais, com a ida à agua, os trabalhos da mulher (muitos), a pesca, etc… ; a pintura é coberta com cera, conferindo alguma consistência ao pano, tornando-o mais pesado, à semelhança de uma tela. A imagem de uma feira de Batiks (foto), os panos esvoaçando ao vento é simplesmente espectacular, o colorido é fantástico, há para a todos os gostos, todas as cores… Os desenhos são feitos com cera quente e coloridos com tinta; a técnica batik consiste no tingimento após a impermeabilização de partes da tela, que pode ser em algodão, seda pura ou mesmo couro; as áreas recobertas com cera ficam impermeabilizadas e é com ajuda da cera e banhos sucessivos de tinta que se obtém a sobreposição dos diversos tons.

Apetece então dizer “vou-me embora, vou partir mas tenho esperança /de correr o mundo inteiro, quero ir…”, todas as partidas custam um pouco, fica a certeza de voltar, sempre…


Maputo, 11 de Setembro 2008
Alf.

08 setembro 2008





CRÓNICAS MOÇAMBIQUE 3:
A Engenharia no Combate à Pobreza

Os engenheiros em Congresso apostam no combate à pobreza. É uma imagem significativa, naquilo que poderá ser um desafio (quiçá uma miragem). Fala-se no papel dos técnicos de engenharia, na sua possível contribuição, com engenho, através de soluções de baixo custo que possam contribuir para a autonomia das populações. Ao lado dos grandes empreendimentos, que geram quase sempre mais desequilíbrios, mais injustiças, menos inclusão. Defendemos o chamado empreendedorismo social, no fundo a capacitação das pessoas para criarem o seu próprio emprego, com uma componente social de intervenção e uma resposta organizada e eficiente a necessidades sociais e de gestão inovadora das organizações sociais. Acrescentamos a proposta de que o empreendedor social defina como prioridade a missão social, ou seja, a defesa de um princípio assente na cooperação entre empresas e organizações não lucrativas em torno da experimentação de projectos inovadores. Enfim, salientamos o modelo voluntário de participação e co-responsabilização dos empreendedores sociais, não motivado apenas pela obtenção de lucro, colocando a tónica na prestação de serviços que podem propiciar bens palpáveis, proporcionando ganhos sociais para a comunidade.

Notamos com satisfação uma enorme adesão às nossas propostas, balizadas em medidas concretas de apoio à formação de empreendedores sociais, na implementação de um trabalho em rede, no apoio à descoberta de soluções de micro-crédito, na intermediação com o Estado e com outras organizações da sociedade civil. Sabemos que passamos uma mensagem que poderá ser alternativa, desde que sejamos capazes de pôr em prática o que defendemos; a educação para o desenvolvimento deverá fazer a diferença face ao discurso economicista, que dá os resultados que conhecemos. Algumas abordagens inovadoras completam o cenário de um Congresso que valeu a pena, pese ainda o facto de a participação africana ser ainda ténue; trabalhos de investigação que começam a fornecer indicadores significativos, mostram que a cooperação internacional pode desempenhar um papel decisivo nas mudanças que se pretendem; competirá agora aos poderes governamentais fazer a interpretação correcta, esperamos para ver.

A nossa “estreia” em Moçambique não podia ser melhor, todavia é apenas um sinal, impõe-se agora a sistematização dos dados, muito trabalho pela frente a partir de agora, vale claramente a pena.
Maputo, 5 de Setembro 2008
Alf.

The last square


“…They had taken up position for this final action, some on the heights of Rossomme, others on the plain of Mont-Saint-Jean. There, abandoned, vanquished, terrible, those gloomy squares endured their death-throes in formidable fashion. Ulm, Wagram, Jena, Friedland, died with them
Victor Hugo, “The Last Square” (Les Miserables-Chapter XIV)
Fui à praça numa pressa
(numa pressa relativa)
e mesmo assim impositiva
dei de caras com um canil
e mais um disco vinil
achei tudo muito vago
e num instante me acabo
de estender numa latrina
mas que chatice Laurentina
Foi assim que comecei
mais um dia, aqui d’ el rei,
a mufla estava partida
e eu a deitar contas à vida
pediram-me cem mil reis
por um punhado de papeis
desencantei um anzol,
tropecei num Nissan Patrol
E descubro uma notícia
(escrita com alguma malícia)
O Papa perdeu-se e, cheio de medo
foi parar à rua do putedo
era a Vanessa, mais a Clarisse
e foi esta mesmo que disse
“oh filho que estás tão pálido
Vem comigo e tira o hábito”
E de repente, aconteceu
caiu nele e ficou ateu…

Lindo serviço, esta praça,
mas o que é que aqui se passa?
Está tudo numa grande calma
à espera do Jorge Palma
e eu, etcetera e tal
bic laranja, bic cristal
(duas escritas a vossa escolha)
quem anda à chuva é que se molha.
Na praça há um monte de gente
e que fique desde já assente:
no dia em que eu decretar
lá nos iremos encontrar
(poderia ser aqui e agora)
soltar da borda para fora
tomar o barco e partir
e ninguém se ficaria a rir

Lembro-me agora da Rita
penso que nem me despeço dela
salta do lado esquerdo uma cadela
parte a loiça toda em Espinho
e eu já tropeço no caminho…
Volto de novo para a praça
aquilo está uma desgraça!
É que os trabalhadores do comércio
não pagaram ao senhor Décio
armaram cá um chinfim
mas, não foi para isto que eu vim
E só de contar as desgraças
(e de fumar mais umas passas…)
cansa-me tanto, eu garanto
que quase que entro em pranto
não me apetece dormir, não sou capaz de partir
Pensando mais um bocado
ponho o meu fato de lado
uma gravata a rigor
vou mas é para o interior.

Nunca mais volto a esta praça
nem que esteja cheio de massa
é uma feira de vaidades
e mesmo com muitas vontades
não penso que vá mudar…
E, quando tudo isto acabar
já sei para onde me virar:
compro um terreno em cascais
(tenho uma poupança em meticais…)
ponho o resto a render em juros
e entro no mercado de futuros…


Bilene, 7 Setembro 2008

Alf.


CRÓNICAS MOÇAMBIQUE 2: Inhambane


Se das Áfricas posso levar alguma calma, conforto talvez nas paragens sem fim, aqui ficam as praias do Tofo, na costa de Inhambane. Moçambique diferente, acima de Maputo, quase 600 km para Norte. Terras novas para mim encontradas. Finalmente. As praias, o bar Dino´s, o mercado, o sorriso de Anifa; todo o dia sopra uma ventania terrível que vem não se sabe bem de onde, parece ser de todo o lado, por vezes fresco de mais, para mim frio, claro; os dias passam-se entre a praia e o mercado, da casa onde estamos é mais perto ir a pé pela praia, não mais que uns 300 metros. Como não temos Internet, estamos por assim dizer “unplugged” e deixamos assim o portátil em sossego.

A viagem é muito agradável, paramos em Xai-Xai, obrigatória a visita à praia, magnifica por sinal, um bom almoço, não sem uma longa espera; dá para apreciar aquele que poderá vir a ser num futuro breve um ponto turístico de eleição, com imensas possibilidades a explorar. Ficamos a saber que em Manhiça (no caminho para o nosso destino, a 80 km de Maputo), onde há falta de água, se prepara uma importante intervenção com vista a desenvolver o cultivo de trigo. Embora o grupo queira sobretudo descansar um pouco, não descuramos saber o que se passa na sociedade civil e detectamos aqui e além carências e necessidades que poderão ser objecto de trabalho futuro. Quanto a vias comunicação, fica o registo que são boas, estradas aceitáveis, sinalização mínima e algum controle policial que dá, por assim dizer, uma confortável segurança.

No horizonte está o Congresso de 1 a 4 de Setembro, onde temos 3 comunicações a ultimar, nos intervalos já se pensa nisso, falta pouco tempo, a responsabilidade é muita e, embora sem stress, vamos cumprindo as nossas metas.

Tofo, 30 de Agosto 2008
Alf.

03 setembro 2008


CRÓNICAS MOÇAMBIQUE 1: Maputo


A chegada a Maputo a 20 de Agosto, um atribulado dia, após algumas confusões em Joanesburgo, (ficam decerto como complemento de viagem), há sempre algo de novo num País desconhecido. Alojado principescamente em casa do César, amigo novo, parceiro novo, anfitrião inexcedível, uma família encantadora. Do 29º andar, frente ao mar, avista-se a cidade em toda a sua extensão, uma delícia para a vista; à varanda, no fim da tarde, curte-se a cidade do alto, bebe-se um copo, apreende-se devagar a geometria das ruas e projectam-se passeios a pé. Até Sábado, dia de mudança para o Girassol Bahia Hotel, esperando o grupo que chega de Portugal. Comer bem e beber melhor, 3 dias de relaxe, pondo em dia conversas adiadas, falar dos amigos de longa data, reviver outros tempos.


Para quem passou quase 1 mês em Angola, a primeira sensação é a da limpeza das ruas; não existe aqui a pressão demográfica de Luanda, em contrapartida um assédio constante e premente dos vendedores de rua; num passeio de Sábado a pé pelas ruas é vê-los com panos, telas, cestos, bugigangas, artigos feitos à mão; na 24 de Julho, grande avenida de referência na capital, ao pé do Shopping Polana, é um rodopio constante e envolvente; refugio-me numa belíssima esplanada, mesmo assim abordado de longe, não faz mal, este dia não é para comprar nada, intervalo. Passeia-se pela baixa, sempre a pé, para sentir a cidade, fala-se com as pessoas, simpáticas sempre, uma indicação aqui outra acolá, acabamos por descobrir o que queremos, a avenida Lenine, a 25 de Setembro (data do Dia das Forças Armadas , feriado nacional em Moçambique ). No Domingo, já com o grupo completo, visitamos no Centro Cultural Franco-Moçambicano, uma belíssima exposição, passamos na Casa de Ferro, desenhada como casa do Governador, por Gustave Eiffel no final do século XIX, pela Estação Central dos Caminhos de Ferro, edifício também desenhado por Eiffel no início do século XX; acrescento ainda o belíssimo edifício do Instituto de Meteorologia e a Igreja de Sto. António da Polana; o mercado da baixa é uma delicia, fazemos compras para o jantar, camarões claro, que iria ser o prato forte, com muito jindungo (aqui é piri-piri, atenção!), acompanhado por bom vinho português.

Duas excelente reuniões de trabalho, no Ministério da Ciência e Tecnologia e na Faculdade de Engenharia, servem de ponto de partida para o nosso trabalho por cá, muita receptividade e boas perspectivas futuras; consolida-se a nossa presença em Moçambique, o nosso representante desmultiplica-se em proporcionar encontros e contactos interessantes.

Desenha-se a hipótese de uma viagem a Inhambane, a meio da semana próxima. Começa a preparar-se a partida, não sem equacionar todas as demarches necessárias, o alojamento, o aluguer da viatura, enfim aquela ânsia característica, quando não sabemos bem o que teremos pela frente, o mar que nos espera, tão perto e tão longe, são mais de 500 km para o Norte, como será o percurso, viemos de tão longe, onde nos vamos encontrar…

Maputo, 24 de Agosto 2008
Alf.

23 agosto 2008


CRÓNICAS ANGOLA 6: Luanda de novo, a partida.


Quase 1 mês em Angola, deveria ter sido mesmo 1 mês, faltam sempre uns dias para completar o trabalho que fazemos, há sempre um ou mais contactos que gostaríamos de aprofundar, fica aquela sensação, que pena não poder ficar mais tempo, enfim tem mesmo que ser, o ultimo jantar com o Guido, o ponto de situação possível, momento muito agradável. Anacrónico, ou talvez não, está crónica está a ser escrita já em Maputo, com as notas de viagem, as ultimas impressões, as sensações da partida, o desejo de voltar, misturado com a expectativa de outras paragens, outros trabalhos, outras gentes, outras impressões. De volta à Pensão Invicta, uma injustiça não ter sido ainda referida, uma pequena residencial, muito modesta, mas muito limpa e … muito barata (para os preços correntes em Angola), entre os Combatentes e o largo do Kinaxixi. E como as palavras são como as cerejas, não quero deixar de dizer que presenciamos a queda de um autêntico mito em Luanda: o desmantelamento do mercado do Kinaxixi, que começou precisamente a 2 de Agosto; as acções de demolição do emblemático mercado causaram alguma polémica, muitos protestos e alguma confusão à mistura, o facto é que a 19 de Agosto já nada resta daquele que foi o grande centro de troca, um encontro de culturas, de cheiros e sabores, assim dizem ser o progresso, já se anuncia para o local um grande centro comercial, mais uma catedral do consumo, igual decerto a tantas outras por esse mundo fora. Luanda esvai-se assim entre impressões e sensações, aquela esperança de ver concretizados alguns dos nossos projectos, um balanço mais que positivo, os novos amigos com quem privamos de perto e que, como nós, partilham as mesmas preocupações, as mesmas causas. Voltar é assim um imperativo, quando não o sabemos, outros virão decerto continuar o nosso trabalho, ajudar a incrementar a rede que, pouco a pouco toma forma.


O 4 de Fevereiro espera por nós, partimos enfim, fica um pouco de Angola dentro da gente.

Luanda, 20 de Agosto 2008
Alf.

22 agosto 2008



CRÓNICAS ANGOLA 5: Finalmente Malange


5 da manhã de 6ª feira, 15 de Agosto, já estamos prontos, esperando a nossa boleia para Malange, partimos perto das 6 horas, já com um transito infernal nas entradas e saídas da cidade; táxis e carros particulares, veículos de todas as espécies enchem as faixas de rodagem e as faixas que o não são; sim, porque nas ruas de Luanda circula-se por onde é possível, mesmo fora dos sítios habituais, tudo vale, pela direita, pela esquerda, por onde calha. 2 longas horas só para sair do perímetro urbano da cidade, a passagem por Viana, com a confusão do costume. O todo-o-terreno faz-se à estrada da barra do Kuanza, os primeiros quilómetros prometem, mas a primeira impressão é enganadora, a estrada “desaparece” de quando em vez, dando lugar a pequenos troços de terra batida, com imensos buracos, impossível fazer aquilo num carro clássico, só mesmo os todo-o-terreno resistem a estas situações, o nível de solavancos é enorme, sobretudo para quem viaja no banco traseiro, chega a bater-se com a cabeça no tejadilho, enfim…

Entretanto e para completar o quadro acontece o pior: uma má disposição intestinal que só viria a ser minimizada dois dias depois, tem pelo menos a vantagem de nos aguçar a imaginação; na tentativa desesperada de dar resposta à necessidade fisiológica inerente a casos como este, descobrimos uma nova função “social” dos bancos: a de ter uma casa de banho à disposição do viajante, pelo menos da alguns, a nossa por exemplo; no Dondo e em N´Dalantando, lá fomos ao banco apenas para pedir autorização para utilizar a dita, para espanto dos funcionários, mas com a permissão, não sem um sorriso devido ao inesperado. Já agora umas palavras sobre as 2 cidades. Dondo fica a a cerca de 190 kms de Luanda e situa-se na província de Kuanza-Norte; N´Dalatando é a capital daquela província e até 1975 teve a designação de Vila Salazar, em homenagem ao ditador; esta cidade é sede da diocese de N´Dalatando, criada pelo papa João Paulo II, em 1990, pelo desmembramento da arquidiocese de Luanda.

A viagem é, apesar dos percalços, um regalo para a vista; as 5 passagens pelo Lucala, nem sempre com caudal de agua suficiente para as necessidades, as pedras negras de Pungo Andongo, uma formação rochosa com cerca de 200 milhões de anos, um “monumento” de imponência e de grande beleza. O regresso, na 2ª feira, também feito num todo-o-terreno do senhor Governador, confirma as expectativas da primeira, agora sem constrangimentos e com um belíssimo almoço do Dondo, com carne guisada, funche e cerveja bem gelada; para quem não sabe, o funche angolanoé uma mistura de farinha de milho, água e sal devendo, para uma preparação cuidada, pôr-se a água com sal a ferver, depois deitar a farinha em pequenas quantidades, mexendo com um garfo de madeira para não encaroçar; para aguçar o apetite, deve sempre acompanhar a muamba (de galinha ou de peixe); para as respectivas receitas, basta pedir aos amigos, ou procurar na net. As sucessivas mudanças na paisagem deixam antever, na subida para Malange o verde da vegetação que contrasta com a cor terra, constante da planície. Um realce muito especial para Kalandulo, conhecida pelas quedas do mesmo nome (antigas Duque Bragança) a ainda pelas quedas do Musselege. Na localidade, mora o grande amigo Joaquim Pedro, administrador com sabedoria e experiência e que tem promovido um desenvolvimento social notável a todos os níveis. Vimos pela primeira vez os cafezeiros, provamos o fruto, uma delícia.

Um fim-de-semana principesco, preparando a visita ao senhor Governador de Malange, que aconteceria na 2ª feira; um encontro fundamental para os nossos projectos, a coisa marcha e deixa antever uma colaboração mais estreita no futuro e um desejo de voltar em breve…

Malanje, 18 de Agosto 2008
Alf.

21 agosto 2008



O avião…

Céu, tão grande é o céu

E bandos de nuvens que passam ligeiras
Prá onde elas vão,Ah, eu não sei, não sei
E o vento que fala das folhas
Contando as histórias que são de ninguém
Mas que são minhas e de você também…”
Dindi”, António Carlos Jobim

Estava eu a perorar senão quando o aviltador lista de imediato as suas exigências, ficar parado durante 70 minutos, o fim como devem calcular, sem perceber a razão daquilo, enfim uma chatice. Nem me atrevo a levantar do sítio, tamanho é o peso da responsabilidade, aí uns 60 e tal quilos. Para trás e para o lado, nunca para a frente em pequenos passos, uma grande massa que mais parece um pássaro assustado com tamanho espaço pela frente, ganha forma com alguns ruídos à mistura deixando antever pequenos conflitos, pautados aliás num estrépito relativo, decibéis ligeiramente acima do socialmente aceitável, passo naturalmente ao lado, não sem algum esforço de síntese, dado que a antítese está completamente fora de hipótese. Parados somente, portanto. Simplesmente expectante, socorro-me de prefixos meditativos estribados em experiências recentes (com alguma ironia). Para já nada posso fazer, para além de reflectir na posição típica destas situações, o ângulo oscila entre o agudo e o obtuso, o que é manifestamente grave, esta uma geometria variável que deveria estar fora dos planos, não fora a perspectiva do próximo minuto (afinal como é?). Mais uma maçada, senta e levanta devagar, sem aquela certeza esperada, agora não há mais a música do costume que poderia embalar o ritmo dos minutos, que pena. Uma atitude é porem possível, a decisão está tomada, é realmente necessário, não digo passar à acção, mas talvez accionar o passado, recordando mas afinal onde estavas no dia tal, quando poderia ter tido hipótese de reflectidamente promover o acto, será que é desta? Já ouvimos as habituais parábolas diccionistas, que vulgaridade meu deus, mas pronto eles assim o querem. Não consigo apreender e é com alguma apreensão que desligo e passo à frequência seguinte, só agora me lembro que devo estar infringindo qualquer regra, isso deixa-me satisfeito, motivado até, será que é em frente ou para o lado? A cigarra fumadora não pode entrar, nem sequer naquela sala minúscula muito procurada quando as luzes se apagam e a cintura fica livre. Bem, nem vos conto (está bem, então eu conto) é uma correria, tudo fora do sítio, uma via que deveria ser só de um sentido, não o é na verdade e não há sinais que a coisa vá melhorar; entretanto a parada está agora alta, aí uns 20 mil pés (porquê pés e não mãos?), a frase assim é difícil de dizer, portanto não adianta insistir. Quando finalmente podemos descansar, eis que voltam as hipérboles, desta vez elípticas, em três metades, parece dislexia mas não o é, uma vez que as interjeições não se cruzam com o diâmetro da dita (enfim geometria…); nos preliminares até que a coisa promete, contudo nos finalmente há a prova provada que mais valera esquecer. Nesta altura (que como já se disse é mesmo alta…) está muito frio lá fora acreditem, para aí uns vinte e tal negativos (daquele senhor alemão que começa por “F”; nesta fase do campeonato não vamos fazer substituições que possam comprometer o resultado. A natureza da situação leva-nos a aceitar agora algumas oferendas, assim como dar de bandeja, estão a ver, agora é melhor ler tudo até ao fim, até para poder desancar forte no autor, agora refastelado noutro ângulo, mais uma vez a geometria à liça, sempre presente nos piores momentos. De folga com os tachos (lembro-me do programa do outro…), reencontro o gosto de um ponto de vista suficientemente alto para que o zoom actue e me deixe pensar. Na realidade precisamos agora de mais terra, mas temo que tal não seja viável, dada a rarefacção relativa e a despersonalização associada ao efeito.
Mesmo que nos encontremos de novo, vou mesmo fingir que não sei de nada, é bem feito Dindi…

No ar entre Luanda e Joanesburgo, 20 Agosto 2008
Alf.

13 agosto 2008



CRÓNICAS ANGOLA 4: A lua deitada…


Não é como estamos acostumados a ver, a lua está de facto deitada, parece estranho, mas é assim nos trópicos, a foto não engana é um pormenor como qualquer outro, deixa-nos contudo a olhar para cima e a pensar, será que a lua adormece ou simplesmente descansa no calor e na calma? Enquanto a lua se deita, ficamos a saber hoje que a esperança de vida aumenta em Angola, que o país já não está mais no fim da lista, quer da mortalidade infantil, quer na mortalidade materna (Filomeno Fortes, técnico da Direcção Nacional da Saúde Pública, ao “Jornal de Angola”). No auge da campanha, o Governo promete erradicar o analfabetismo até 2015, cumprindo desta forma o 2º dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODMs). E mais uma boa notícia, esta para a província de Huila, com a abertura hoje de uma grande superfície comercial, com 113 lojas e com a garantia de 500 postos de trabalho, um investimento avaliado em 7 milhões de dólares. E finalmente, no que parece ser um verdadeiro combate à poeira, a nota de que aqui se trabalha dia e noite na limpeza e arranjo das ruas.
Tristes com o que parece ser o desenlace final de Paul Newman aos 83 anos, ficamos olhando esta lua sobre a baía, pensando que enquanto ela se deita, há consciências que despertam. Será?

Luanda, 12 de Agosto 2008
Alf
.

09 agosto 2008


CRÓNICAS ANGOLA 3: A Sociedade Civil em Conferência

Apenas 1 semana de Angola e tanta coisa para contar. Se calhar nem tanto assim, há coisas que não se contam, há outras que guardamos e partilharemos mais tarde, quando o relaxe nos permitir pesar melhor o que deve ser dito.
A sociedade civil angolana esteve em conferência nos dias 7 e 8 de Agosto, na Universidade Católica; pretendia-se, segundo os seus organizadores, “estimular uma alargada reflexão e discussão em torno das questões relacionadas com o potencial da sociedade civil para a mudança sócio-político-económica.”; serviu ainda para apresentação da obra Sociedade Civil e Política em Angola, contexto regional e internacional, da autoria de Nuno Vidal e de Justino Pinto de Andrade. As preocupações são as mesmas que em todo mundo, o combate à pobreza, a responsabilidade social das empresas, o papel da sociedade civil no contexto regional, o combate à discriminação, a defesa dos direitos humanos, o papel das organizações não-governamentais, enfim a participação dos cidadãos na construção de uma sociedade melhor. Curioso notar a tónica colocada no papel da comunicação social, num período especial como o que aqui se vive, em plena campanha eleitoral. E ainda, a forma completamente livre de preconceitos com que se abordou o tema, sempre actual em Angola, da “ligação” entre o poder e os cidadãos. Viveram-se 2 dias de amplo debate, franco e aberto, numa organização impecável, a que só faltou um pouco de rigor nas questões relacionadas com a documentação. Uma oportunidade única de marcar uma presença efectiva, éramos os únicos participantes europeus, marcamos alguns pontos, enfim.
O tempo afinal corre depressa também aqui, os dias são curtos para os europeus, anoitece cedo (que belos fins de tarde…), fala-se muito com as pessoas, muita cordialidade, muito interesse pelos nossos projectos, alguma dificuldade em gerir os contactos, a Europa está longe e perto ao mesmo tempo, aprendem-se costumes, cultiva-se a partilha. Interessante observar por exemplo, do lado de cá, como é vista a cooperação internacional, um tema sem dúvida a explorar quando estivermos de volta, a aprendizagem é de facto notável.
Já é fim-de-semana, prepara-se a próxima com aquela ansiedade do costume, mas já devidamente aculturada, relativizada e diluída na calma de Africa. O cacimbo atenua os excessos…


Luanda, 9 de Agosto 2008
Alf.

07 agosto 2008


CRÓNICAS ANGOLA 2: Abre a campanha eleitoral

Escreve-se de longe com a ideia de uma certa distanciação que acaba por não ser conseguida devido a factores variados, como por exemplo, o facto de não sermos de todo isentos, ninguém o é. Angola vive um momento decisivo, um acto eleitoral que tem a sombra de 92 por um lado e a perspectiva de futuro pelo outro; o lado sombrio não deixa de estar presente, enquanto os olhos de todos estão voltados para apelos e manifestações de intenção de dias melhores para o País. Luanda vive a campanha eleitoral com uma alegria calma, a limpeza das ruas, o anúncio de um grande projecto integrado de fomento habitacional do Governo, a intensificação da campanha para a alfabetização do País, com particular relevo para a TPA, que repete insistentemente spots apelativos; as vagas para o ensino secundário irão duplicar no próximo ano, enfim os apelos do MPLA à tolerância em algumas províncias, antevendo quiçá alguns excessos. São 14 partidos ou coligações para o 5 de Setembro.
Luanda é uma mulher bonita que, embora parecendo não cuidar muito da beleza, não deixa de mostrar o seu ar de encanto e de simpatia. As coisas vão correndo, há muito movimento nas ruas, muito pó também, já se disse, mas a repetição não é despicienda.
Sentimos que podemos ser úteis neste momento de viragem, quer na luta contra a pobreza, quer nas campanhas em favor da educação universal, há muito a fazer e é bom saber que a nossa acção pode significar uma mais-valia nessa áreas. Nos momentos mais difíceis, isso pode significar um incentivo; a doença de um amigo muito próximo enche-nos de preocupação, sem saber bem o que fazer, os telefonemos constantes para nos inteirarmos do seu estado de saúde, a esperança de melhores notícias no dia seguinte, enquanto fazemos conjecturas e traçamos cenários de trabalho, tendo a realidade por perto e conhecendo os riscos.
Acordamos sempre cedo com a claridade das 6 da manhã, a cidade espera por nós, estamos aí.

6 de Agosto de 2008

03 agosto 2008


CRÓNICAS ANGOLA 1: No princípio era…

As primeiras impressões, depois de uma atribulada viagem, com perda de uma mala à mistura, com as indefinições de quem viaja com muitas incertezas. Uma viagem de trabalho, com alguma nostalgia na bagagem, contudo na certeza de encontrar velhos amigos de há muitos anos, essa sim. O 4 de Fevereiro está na mesma, as mesmas filas, a mesma confusão nas entradas, mais simpatia talvez. Não sabemos bem para onde vamos, não temos alojamento garantido em Luanda, mas há sempre a “casa da família” em Viana, para lá chegar são sempre as 3 ou 4 horas, para fazer os 18 km da praxe. Muito cansaço, muito pó, a brisa suave do cacimbo, não mais que uns 22 graus, frio portanto, para quem gosta de sentir o bafo quente de África. É bom ver Luanda de novo, mais carros, muitos mesmo, aquela confusão toda, um caos que não dá para descrever, uma alegria enfim. Nenhum stress, esse ficou todo na Europa, aqui tudo funciona de outra forma, nem melhor, nem pior, apenas diferente; quem não acredita, só tem que ficar por cá uns tempos e depois habitua-se. Uma 6ª feira de arrasar, “apenas” para adquirir um cartão Unitel, mais um pacote de Internet móvel, tudo muito complicado, mas sempre com muita simpatia. Boas refeições, a preço digamos aceitável para estas bandas, em Viana come-se bem, com muito jindungo e boa cerveja (portuguesa). Um Sábado de relaxe completo, que bem sabe o direito à preguiça! No Domingo privamos com o grande amigo Guido Campos e sua família que é tão boa, tão fraterna, recordam-se outros temos, os amigos comuns, são 12 anos de distância, um almoço excelente em Viana, um passeio ao Bom-Jesus, nas margens do Kuanza, momentos inesquecíveis de grande prazer, porque nada há melhor que estar com os amigos. Planeia-se já toda uma semana que se avizinha com muito trabalho, alguns encontros decisivos, sempre com a esperança de resolver as questões que cá nos trouxeram, sem certezas nenhumas, apenas a de que amanhã é mais um dia, vai ser 2ª feira certamente, é um principio de alguma coisa e basta.

18 junho 2008

O TRATADO…

Quem no quer esse muro concreto
É político mas analfabeto…
A corda bamba da cultura
A ponte pênsil no ar
Acorda muda de figura
Petróleo não é tudo Jr.!!!"...
“Acorda” – Rock in Rio Douro, 1992, Rui Reininho

É bem feito! Tudo fizeram pelo Tratado, trataram de mascarar a realidade e agora tem o que merecem: o tal NÃO da Irlanda, chato que de tão redundante, já o havia sido na França e na Holanda. O Tratado. De tanto tratar mal o povo putativamente votante, veio agora o tratamento adequado para os trataram de trautear banalidades. Tratemo-los então de tratantes. Se o Tratado não foi tratado como deveria ter sido, porque estão agora admirados? Mais, será que eles, todos eles, acreditariam num resultado diferente, caso o Tratado fosse referendado como deveria? O próprio partido que nos governa por cá se tinha comprometido a tratar o Tratado de forma diversa. Bem parece que o trato dado ao Tratado foi o pior possível, a bem dizer uma autêntica tramóia. Fala-se agora de (tratar) de tirar as devidas lições, ou ilações do Não. Para quê, não chega a verdadeira lição que levaram?

Acorda e muda de figura” bem podia ser o lema, para todos os que ainda não trataram de se pôr em dia com a verborreia típica do centrão; aqui e por essa Europa dentro onde os argumentos são sempre os mesmos: o (pretenso) reforço da democracia, a coesão europeia, a necessidade de encontrar mecanismos, etc…, etc…Já o Aleixo dizia, “Vós que lá do vosso império/prometeis um mundo novo/calai-vos que pode o povo/querer um mundo novo a sério”, com muita razão, oportunidade e sentido de visão.

Eis que urge pois que se retratem, que digam cara a cara que falharam; ou então, que se
tratem…

11 junho 2008


A RAÇA…

Navegando numa onda passada, o homem que não gosta de muitas ondas, acaba de deslizar para as águas movediças da mediocridade. Balançou durante algum tempo na crista, com o apoio da ocasião, que tanto faz o ladrão, como o oportunista. Com os cuidados que se lhe reconhecem, não sendo pessoa de grandes rasgos a não ser os das académicas tiradas mais ou menos economicistas, sim os números de que tanto gosta, planou desta vez para um terreno incómodo, só suportado pelos que da saudade lusitana do império fazem carreira pouco diplomática. A Raça, essa que o-de-Santa-Comba aproveitaria em 1944, para introduzir no léxico de um 10 de Junho dedicado ao Poeta exaltava, convém saber-se, Nação, Império, Metrópole e Colónias. A gaffe que muitos pensam ser, poderá não o ser. O deslize que de tão deslizante nos transporta ao tempo do “deixem-nos trabalhar” e das “forças de bloqueio”, a gente não esquece pois não… Alguém hoje nas ondas da rádio defendia uma pedagogia da liberdade e da inclusão para casos como este. Mesmo sabendo que as aprendizagens o são ao logo de toda a vida, que o erro pode ser uma fonte de sabedoria futura, é preciso querer aprender. Resta saber se será este o caso…

05 junho 2008



ALTOS CONCLUIOS...


A propósito da última decisão da chamada Alta Autoridade da Concorrência sobre as dúvidas quanto à uma cartelização do sector da distribuição de combustíveis, permito-me opinar que eu e muito boa gente, vítimas de extorsões sucessivas, não temos dúvida nenhuma. Aliás o que se passa naquele sector passa-se em muitos outros, como são (por exemplo) os casos do sector bancário e do sector farmacêutico. O que acontece são 2 coisas muito simples. A primeira tem a ver com a putativa independência das Altas Autoridades; as pessoas de bem não acreditam positivamente nisso; acreditam mais que esses organismos, prestam vassalagem descarada aos governos e às administrações das grandes companhias; ao fim e ao cabo, os seus dirigentes pertencem aquele grupelho do bloco central e circulam, conforme os ventos partidários, pelos lugares sempre em aberto. A segunda tem a ver com o sentido de oportunidade, ou seja, se na realidade existem para exercer autoridade (e ainda por cima Alta), deveriam exercê-la de facto e não estar sempre à espera que o Poder solicite esclarecimentos, dúvidas, receios, … A máquina está porém muito mais bem montada do que se imagina; funciona na perfeição e ao invés de dar corpo a sentimentos generalizados dos pagantes (ou seja nós, quase todos…) presta serviço ao poder instituído e aos grandes interesses da especulação.

E por falar em especulação, atente-se aos preços dos combustíveis, no final do mês de Maio de 2008. Segundo dados da Direcção Geral da Energia e dos Transportes (
http://ec.europa.eu/dgs/energy_transport/index_pt.html), o preço médio dos combustíveis em Portugal (gasolina: 1,501 e gasóleo: 1,426) está em 3ª lugar entre os mais caros, só ultrapassado pela Holanda e pela Bélgica! O preço em Espanha, o mais barato de entre 10 seleccionados é: gasolina: 1,205 e gasóleo: 1,269; a média na zona euro é: gasolina: 1,424 e gasóleo: 1,388. como somos um País rico, podemos dar ao luxo de ter os combustíveis mais caros que, por exemplo, a Alemanha, a França, a Itália, Luxemburgo, Reino Unido, para já não falar na Espanha…

Que respostas dá um Governo que se diz “socialista” e esta tremenda, descarada, desavergonhada, despudorada e devidamente engravatada especulação? Bom, é o mercado! Vejamos entretanto dados do I trimestre de 2008, da autoria do economista Eugénio Rosa: “…lucros extraordinários da GALP aumentaram 228,6 % no 1º trimestre do corrente ano de 2008; só no 1º trimestre de 2008, a GALP obteve um lucro extraordinário de 69 milhões de euros devido à especulação do preço do petróleo no mercado internacional e os lucros totais atingiram 175 milhões”. Até este Governo conseguir explicar porque razão temos os preços dos combustíveis mais caros da Europa e os ordenados mais baixos do espaço europeu, só podemos falar nestes termos: concluio, protecção dos interesses das petrolíferas.

Quanto ao resto, já se sabe: terá que haver força suficiente para respeitar os apelos aos boicotes divulgados, nomeadamente à GALP, BP e REPSOL; já que é o mercado que determina tudo, então vamos demonstrar que é possível alterar as ditas leis do mercado.

15 maio 2008


Mas tive o Diabo na mão...


Do lado de lá da indiferença há mil e uma formas que coexistem. Do lado de cá da esperança sonhamos ainda. Exigimos o impossível e porque não? No meio de tanta hipocrisia, vamos “caminhando e cantando e seguindo a canção” e a luta continua como em Maio de 68. Vale sempre a pena pensar que ainda vale a pena. Era um Maio em que tudo parecia possível, mesmo o impossível, cantávamos ainda em silêncio, mas a cantiga era uma arma. Alguns de nós exilados, com aquela esperança, mas ainda no lado escuro de uma Lua que esperaria um ano para ser vista na televisão a preto e branco. E era a preto e branco que tudo se passava cá dentro, sonhando as cores de uma primavera distante. Os baby boomers, a quem não é suposto futuro nenhum, continuam hoje a chatear as consciências conservadoras, afirmando como em 68 “não me libertem, eu encarrego-me disso…” e se calhar ainda “quanto mais faço amor, mais vontade tenho de fazer a Revolução, quanto mais faço a Revolução, mais vontade tenho de fazer amor…”. Ao som eterno do Zeca recordo que “… tive o Diabo na mão”, sabe-se lá por onde anda agora. A ironia máxima de continuarmos a saber o que não queremos é a expressão do inconformismo que suporta uma intervenção de cidadania. Se é ou não suficiente nunca o saberemos, se há uma fronteira entre a radicalidade e o equilíbrio, bolas para o bom-senso, venha de lá outro Maio o mais depressa possível, 40 anos já é tempo demais, a gente sabe-o bem, não é?