rio torto

rio torto

19 fevereiro 2009

Palavras….
“Que helada que esta casa !

sera que esta cerca el rio
o es que estamos en invierno
y estan llegando, estan llegando...los frios.”
Patxi Andion, 20 anos

Reporto 20 anos. Atrás de uma juventude inquieta e perdida algures, sempre presente porventura atrás de recordações, memórias vivas, alguns livros. Irrequieta, sinal de emoções e loucuras que sabem bem e têm aqui e ali um toque nostálgico do que vivemos, ainda nos sentimos do lado de lá, inventando poemas, sons de revolta, de esperança, na anarquia que tentamos manter, transmitindo os sinais que acreditamos ainda marcam alguns gestos e atitudes. Que fria está esta casa, dos invernos que não passam, a névoa que teima em ocultar o rosto que ora fixávamos com a malícia antiga, de fantasias e cumplicidades. Perdem-se quiçá invernos em que só aparentemente nos aquecemos, o calor que não conseguimos transportar para os que nos estão perto ou longe, para o caso de darem conta que existimos. Não conseguimos passar a solidária mensagem que nos vai na alma, estamos lá e não estamos ao mesmo tempo, a casa grande foi reconstruída por quem não consciencializou a ternura que guardamos e que só faz sentido dentro de nós. Apenas a lembrança, que alimenta o sonho, agora algo agitado pelo agreste vento que parece não levar mais que sombras, tudo fica sempre no mesmo lugar, apesar da maré que tentamos sempre inverter, aquela persistência que guardamos, a teimosia de lutar por causas que não podem ter idade. 20 anos que podem mesmo ser mais, muitos mais, porque há coisas que não se apagam, apesar dos invernos. Perdemos agora o norte num sul que precisa das palavras que não são uma canção, mas que ainda conservam a força da mudança. Perdemos alguma força todos os dias, alguém a irá encontrar e fará dela o que aprouver. Estamos atentos, porque sabemos que cada dia que passa, pode ser o sol que resiste e aquece a luta. Continuaremos a pintar as paredes, até encontrar um rosto de criança sem fome que consiga saltar da tela imaginária, contra o cinzento dos invernos presentes. Os 20 anos cortam o tempo literal, já ninguém escrever direito por linhas tortas e há hoje palavras que nascem mortas. O Patxi falava noutra canção no marinheiro “ Con Toda la Mar Detras”; que venha ele e traga a onda que falta, apesar dos 20 anos que nos pesam, pode ser a força que precisamos…
Alf.

12 fevereiro 2009


A QUE DISTÂNCIA?
Os dias terríveis são, afinal, as vésperas dos dias inesquecíveis”.
Almada Negreiros

Recupero agora um texto antigo no qual descubro algo que me chama a atenção. Tem a ver com a distância, a medida certa em que nos devemos posicionar para obter alguma coisa, como por exemplo enxergar algo. Tal como acontece com outras variáveis, a distância é relativa. Pois, um dado adquirido. Contudo, nos anos 20 do século passado, Edwin Hubble descobriu que todas as galáxias do universo estão progressivamente se afastando; e ainda, que quanto mais longe a galáxia estiver de nós, mais rápido ela se afasta. Conservamos enfim a distância, quando de forma prudente, queremos ganhar tempo, ou simplesmente temos receio. No texto, o efeito da distância sobre a velocidade é tão terrível, que nem dá para respeitar a tão conhecida distância mínima de segurança. Vamos por partes. Então, qual é distância entre 2 pontos? Mesmo aqui, a Matemática é traiçoeira; assim, a distância de um ponto de coordenada positiva à origem é o valor da própria coordenada; no plano, para pontos com a mesma abcissa, a distância é o módulo da diferença das ordenadas; já no espaço, só podemos determinar a distância entre 2 pontos, através do teorema de Pitágoras. Desculpem se entretanto perdi a distância ao texto, era de facto o que me interessava. Estamos distantes, naquela terra distante, com algum distanciamento. Posso agora utilizar o meu comando à distância, para me recolocar, palavra quiçá perigosa. Será a distância uma atitude? “Só à distância se admira alguém, no tempo ou no espaço, porque nos não faz concorrência[i]. O texto vai de fugida, o horizonte mente, perdemo-nos agora, com a ajuda da Física, na distância focal: a distância entre o centro óptico de uma lente delgada e os seus pontos de foco. Mais descansado, olho a fotografia desfocada, descubro o tempo que já passou. Nada está no seu lugar e apesar do longe que se faz perto, a distância lá está, o tempo passa, a distância aumenta. E no entanto diminui, se tivermos em linha de conta o que já falta percorrer. Estranho, há linhas que ainda restam, que de não se cruzarem nos guiam, aproximando o que se parece afastar. Deixo de pensar se vale realmente o esforço, já que na distância que nos une, está a força que nos separa.
Atitude?

11 de Fevereiro de 2009
Alf
[i] "Conta-Corrente 4" , Vergílio Ferreira

31 dezembro 2008

Venha então 2009!


In the terrible night, natural substance of every night,

In the night of insomnia, natural substance of all of my nights
I remember what I did and what I could have done in life
I remember, and an anguish
Spreads itself all throughout me like a shiver or a fear…”
“In the Terrible Night”, Alvaro de Campos







Regressamos de uma viagem de muitos dias, muitas horas sem sono. Deixamos para trás muitos sonhos, algumas certezas, poucas esperanças. Sempre são 365 dias de caminho, temperados aqui e além por algum Sol, que me lembre acompanhado por brisas suaves, às vezes nem tanto, muita poeira decerto, acabamos por suportar tudo sorrindo para dentro, uma imagem repetida vezes sem conta.

Esperamos pela passagem, quiçá para uma outra dimensão. As horas e os minutos contam aqui com a imensidão da espera. Apesar de muito haver para contar, poucos serão talvez os momentos que recordamos com um sorriso; alguns porventura irónicos, não nos trazem senão um encolher de ombros, tanto faz. O podia ser melhor seria talvez o desabafo de quem não consegue traduzir o que vai na alma.

Precisávamos contudo de mais algum tempo para a passagem. Não é justo que, assim de um momento para outro, venha um Novo qualquer e tenhamos que conviver com ele, nem o conhecemos, que diabo. Vida nova? Talvez, com os mesmos, sempre os mesmos desafios. Há mais além uma nuvem que ameaça chuva, que pode talvez lavar a sujidade que por aí existe, nunca é bastante, já que parece não haver forma…

Acreditamos, sim é possível, fica-nos a imagem desta viagem. E se o sonho tem cor, que esta seja a cor daquela imagem. Para que fique a sensação que não desistimos, que ainda há força para transmitir ao Novo que estamos atentos, que não queremos simplesmente passear mais um ano, mas antes passar a palavra, passar á acção. Apesar de, em certa medida, ser uma noite terrível, acreditamos pois, porque “…Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão / há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não

31 de Dezembro de 2008
Alf
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Colaboração desinteressada (penso eu…) de Manuel Alegre, na “Trova do Vento que Passa”

30 dezembro 2008

O VERDADEIRO CAVACO

A comunicação de ontem (29 de Dezembro) ao País do Presidente da República marca mais um episódio de intriga palaciana entre órgãos de soberania, segundo os opinion makers habituais। No entanto, a questão do Estatuto Político-Administrativo dos Açores passa à margem da grande maioria das pessoas, porque irrelevante para a sua via e o seu futuro imediato; quem de facto se interessa pela matéria em apreço, mesmo falando da população (quantos serão mesmo?) do arquipélago? Não deve passar de uma boa meia-dúzia, se tanto… O que significa então toda esta história? Começo por dizer não estar minimamente interessado na polémica levantada, estou-me perfeitamente nas tintas para o dito Estatuto e para as regiões autónomas que só levam dinheiro dos contribuintes, particularmente a Madeira; mas essa é outra questão. O que fica é, em meu entender, a verdadeira face de Cavaco.

Primeiro: diz Cavaco que “… é muito importante que os portugueses compreendam o que está em causa neste processo”; e ainda: “…o que está em causa é o superior interesse do Estado português”. A bem dizer, uma questão de vida ou de morte, de perda de soberania, talvez uma Aljubarrota ao contrário, uma invasão de ETs; francamente, dá mesmo para rir, se a altura fosse mesmo de rir


Segundo: diz Cavaco que se trata “…de uma solução absurda, como foi sublinhado por eminentes juristas. Mas o absurdo não se fica por aqui. A situação agora criada não mais poderá ser corrigida pelos deputados”. O PR considera que uma lei aprovada por mais de 2 terços dos deputados é absurda, porque em seu entender “…o Estatuto … introduz um precedente muito grave: restringe, por lei ordinária, o exercício das competências políticas do Presidente da República previstas na Constituição”.

Terceiro: para Cavaco “… está também em causa uma questão de lealdade no relacionamento entre órgãos de soberania। Será normal e correcto que um órgão de soberania imponha ao Presidente da República a forma como ele deve exercer os poderes que a Constituição lhe confere?” O que parece leal para Cavaco era seguir a opinião dele e pronto…


Nunca este homem se manifestou de forma tão clara contra as instituições da Republica como neste caso. Impotente para resolver um problema menor, cria (eu acho que é ele que cria…) uma putativa crise, que não passa dos corredores do poder, dado que a maioria da população nem sequer faz ideia do que se discute. Nem a crise, nem as dificuldades subjacentes para o povo, nem a crescente pauperização da classe média, merecem deste homem mais do que declarações de rotina. O dramatismo colocado neste dossier de discutível interesse, mostra a verdadeira face de Cavaco: a de líder autoritário, com desejo de poder absoluto.
Parece estar de volta o homem que foi 1º ministro de Novembro de 1985 a Outubro de 1995, que desbaratou milhões dos 2 primeiros Quadros Comunitários de Apoio (o 1º começaria em 1988, até 1993). Foram 10 anos de oportunidades perdidas: por dia entravam em Portugal 1 milhão de contos de fundos estruturais; para além de estradas, pontes e muitos “elefantes brancos”, o que se fez com esse dinheiro para o melhoramento do país real, por exemplo, na saúde, na educação, no investimento em formação profissional, na agricultura, no desenvolvimento industrial?

Pois é Cavaco, a gente não esquece isso, mais o “deixem-nos trabalhar”, as “forças de bloqueio” e outras que tais; podes ter a certeza que lutaremos com todas as nossas forças para que não tenhas um segundo mandato…

29 de Dezembro de 2008
Alf
.

20 dezembro 2008

NATAL 2008

Em cada esquina uma amostra de cidade, uma pequena réstia de vida, uma série de sinais exteriores de nada, um vazio simbólico, uma pedra para atirar (um sapato, quiçá?), uma pequena revolta interior contra, não interessa quem. As luzes já não são neutras, o azul por exemplo já não é celeste, é tmn pois! Pagamos ousadias, desconfigurando a realidade, estamos porventura no centro de acontecimentos que podem transformar qualquer coisa que não sabemos bem, há sempre uma hora em que seremos protagonistas, uma cena patética de televisão, uma promessa? A vida será mesmo feita de pequenos nadas? Passeamos para lá e para cá, a vida é um grande centro comercial, as vaidades pagam-se caro, a euribor está descendo ou subindo (?), os bancos da cidade já não estão no jardim, mas moram em cada esquina, fazem medo porque tudo controlam. Há uma desconfiança crescente, parece que nada está no sítio, excepto a pobreza, essa sim que dia a dia se vai acentuando, um certo alheamento até que nos entre porta dentro, vemos ouvimos e lemos, mas parece que ignoramos. A ponte já não é uma passagem para a outra margem, porque nos dizem que tudo é global, que pena já não haver outra margem. Se tentamos partir para outra, há sempre alguém que nos diz: tem cuidado!

Enfim, é Natal, todos os anos acontece. Cá estamos para o receber, ou ele a nós, tanto vale. Enfiamos um capuz encarnado e sermos o tal pai (mãe, pois…) que sonhamos, porque temos a isso o tal direito. A hora de agir fica para depois, estamos de tal forma desatentos, que até toleramos, afinal somos todos desiguais de tanto iguais que nos querem fazer…

22 de Dezembro de 2008
Alf

12 dezembro 2008

O Rio continua…
“Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi…”

“Evadido”, Fernando Pessoa

A partir de agora, ou mais propriamente a partir de 28 de Novembro, o RIO TORTO continua, cada vez mais torto, mas de uma forma muito especial. Alguém se lembrou de editar as crónicas que, desde finais de 2003, venho editando no blogue. Foi uma prenda de anos muito especial, muito querida, da Bela, minha companheira de sempre, com muito amor e carinho, uma edição em exemplar único, que fica no coração, da parte de quem me vem apoiando, aturando, acarinhando desde há muitos anos a esta parte. Um gesto inesquecível, não há palavras que possam testemunhar esta gratidão que procuro descrever. Convém lembrar as ajudas preciosas do Bruno, do Pedro e da Belinha a esta empresa. Vai este rio caminhando ao sabor das minhas loucuras, de pensamentos e sonhos, sem oprimir as margens e dando margem à imaginação, que não procurando poder, tenta subverter os poderes vulgares (os pequenos poderes?). É que não sei mesmo porque certas coisas devem ser escritas, fixadas quiçá em momentos significativos, sombras que se desvendam e outras que ficam para sempre numa qualquer sombra. Para o futuro, o rio não corre mesmo para o mar (porque tem que ser?), vai simplesmente correndo, devagar ou mais depressa, consoante os ritmos que lhe quisermos transmitir.
Fica a promessa de alguns afluentes se juntarem qualquer dia a este Rio…

28 de Setembro de 2008

26 novembro 2008


Luxury please….



“Quando a verdade for demasiado débil para se defender,
terá de passar ao ataque”
Bertolt Brecht

Simplesmente inenarrável, em tempos que se dizem de crise, a inauguração na passada semana da "Luxury, Please", uma feira de alto luxo, em Viena de Áustria. Feira porventura de vaidades inconfessáveis, ou simples depositório de um fausto que parece cavalgar na imbecibilidade típica de um certo estrato cada vez mais afirmativo, na improvável complacência de uma sociedade injusta. Deixem entrar o luxo, please também temos direito, poderia ser o lema deste evento. Desnecessário enumerar objectos e bens de consumo imediato para ricos. Seria porventura profiláctico organizar uma “visita de estudo” a esta feira, para avaliar, por exemplo, um armário em estilo rústico de 100 mil euros, ou um bonsai de 30 mil euros, que faria decerto as delícias de uma qualquer família sub-nutrida de África.

No reino da mais completa obscenidade, onde os crimes de colarinho branco se multiplicam ao que parece com a complacência dos Estados, que rapidamente se apressam a socorrer, a palavra de ordem “Luxo please”, agride os milhões de pessoas de bem que diariamente são castigados e remetidos a situações de pobreza crescente.

A ordem do mundo parece não estremecer perante a pompa e ostentação, luxúria pois. Procurando mais a fundo encontramos imundície, porcaria e sujidade nos tais sinais exteriores de uma riqueza, onde os chamados super-ricos desafiam a sorte ingrata de uma intolerável intolerância.

Na mesma Viena do "Luxury, Please", onde há cerca de um mês a France Press anunciava a abertura de supermercados para pobres….

24 de Novembro de 2008
Alf

10 novembro 2008


Mãe Africa

Dela diria Nelson Mandela “…a mãe de nossa luta e da nossa jovem nação”. A “Mãe Africa”, para os sul-africanos, para todo o Mundo, que encantou gerações, desde o final dos anos 50. A cantar e a encantar, a diva falava paz e solidariedade, falava amor contra as injustiças. Haverá titulo mais belo, dessa Africa tão distante e tão perto da nossa imaginação, “Mãe Africa”? Dela haveremos sempre que recordar o sorriso solidário, a força na luta contra o apartheid, mais de 30 anos de exílio. Agora viaja (esse o seu desejo ultimo) em cinzas no Oceano Índico, "assim eu vou poder viajar de novo para todos esses países",

Bem hajas Mirian, no Índico e toda a parte, haverá sempre muitas e muitos a continuar a tua luta!

03 novembro 2008


O Governo nacionaliza um banco comercial, em reunião de emergência efectuada no passado fim-de-semana. Surpresa? Talvez, se admitirmos que esta medida não terá tanto a ver com a putativa crise dos mercados financeiros, mas sim com uma data de ilegalidades, atropelos e demais aldrabices praticadas pelos responsáveis do BPN, onde se encontram nomes conhecidos da praça pública como Miguel Cadilhe, Dias Loureiro, Neves Santos, Irmãos Cavaco; o chefe da banda, Oliveira e Costa foi, no final da década de 80, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, com um poder quase discricionário na máquina do Fisco, tendo sido conhecido pelos célebres perdões fiscais; foi aliás durante esse período que conheceu alguns dos futuros accionistas do banco…

A justificação da Governo para nacionalizar esta empresa é completamente falsa. Mais uma vez, uma falácia. Senão reparemos: na semana passada a CGD faz um empréstimo de 200 milhões de euro neste Banco; para quê? Apenas mais um balão de oxigénio a uma empresa que teve uma actuação danosa nos últimos anos e acaba sob a protecção do Estado. E que faz (que fez) o Banco de Portugal? O mesmo que no caso do BCP, ou seja, absolutamente nada; aliás vem agora o inefável Vítor Constâncio (o tal que ganha mais que o Presidente da Reserva Federal americana) dizer que o controle não é fácil, que há limitações, etc…, etc…
Uma actividade perniciosa para a economia nacional, vários processos judiciais por suspeita de fraudes e outras irregularidades que se calhar nem imaginamos, perdas totais que ascendem a 700 milhões de euros, é o panorama de uma instituição, cujos responsáveis deveriam ser julgados e culpabilizados pelo roubo (não tem outro nome…). Como no caso do BCP, o mais provável é ficar tudo na mesma, em boa verdade em vez de serem responsabilizados, os verdadeiros responsáveis já devem ter acautelado os seus bens e quem sabe se daqui a uns meses não estarão a gerir uma qualquer empresa pública. Vale a pena ilustrar aqui 3 singelos exemplos de aquisições feitas pelo banco, entre 2005 e 2006: quarenta milhões de moedas do Euro 2004, alguns quadros de Miró e jóias egípcias; se somarmos a estas, a aquisição do Banco Insular de Cabo Verde, no valor de 360 milhões de euros e misturarmos tudo isto com a utilização frequente de contas em bancos "off-shore" para evitar o pagamento de impostos, temos o cenário ideal para incriminar estes (i)responsáveis; vamos ver, não é verdade?

03 de Novembro de 2008
Alf

18 outubro 2008






Eu também ACUSO, claro que haverá mais que também acusam, eu sei, porém eu quero acusar hoje o Governo de Portugal pelo dinheiro que deu à Banca, por estes dias. Foram 20 mil milhões de euros, sob a forma de garantia, que deve dizer-se, é dada àqueles que foram os responsáveis e beneficiários da dita crise. Antes, os que mais defendiam “menos estado”, como o impagável António Borges, grande mestre de economia, esse salvador da Pátria, que nem o partido dele salvou que louvava (ainda há alguém que se lembre disso?) o “subprime”, vêm agora aplaudir “mais estado”. A mais descarada especulação, o incremento da já designada “economia de casino”, os lucros fabulosos da Banca que agora pede dinheiro, apenas para manter uma situação de privilégio escandaloso, a mandar e a controlar de perto a economia mundial que lança na miséria cada vez mais pessoas.

E o mais grave da cena é que a “dadiva” à Banca é feita sem quaisquer condições, sem a exigência de quaisquer garantias; ou seja, o Governo se não regula coisa nenhuma, apenas está a contribuir para que a Banca continue a sua politica de especulação. Pergunto; quem é responsável por esta situação? Não deveriam ser os banqueiros a solucionar o problema que eles próprios criaram? Não deveria o Governo proteger os interesses do elo mais fraco, ou seja garantir os depósitos dos contribuintes? Que eu saiba, se uma empresa não tem dinheiro, então o(s) empresário(s) não têm outro remédio senão injectar capital. Não esqueço também que esta mesma Banca beneficia ainda de uma protecção especial que é consubstanciada no facto de pagar quase metade do IRC que as outras empresas. E é por isso mesmo que considero uma VERGONHA, um Governo que se diz socialista, tome esta medida, quando há muito tempo deveria ter:
• acabado com o sigilo bancário
• posto fim ao off-shore da Madeira
• igualado a situação do IRC da banca às das outras empresas
• controlado as actividades especuladoras
• adoptado uma politica de protecção das pequenas poupanças
• controlado de facto a subida das taxas de credito á habitação, que penalizam os menos ganham.
Então, por isto tudo, EU ACUSO. E acudo com a consciência tentar contribuir para mais alguns (espero que muitos…) se levantem e mostrem a sua indignação, numa altura em que se fala na erradicação da pobreza. Estima-se que existam hoje, a nível mundial 980 milhões de pobres, leia-se pessoas que “sobrevivem” com menos de 1 dólar por dia. Era (digo eu…) uma altura mais que adequada para este Governo tomar uma medida (ou varias medidas) que as pessoas vissem na realidade de protecção aos mais fracos. Convém não esquecer que em Portugal, quase 20% da população, ou seja 1 milhão e 800 mil, vivem abaixo do limiar da pobreza. E não basta a, José Sócrates dizer que “o Orçamento de aposta nas famílias e empresas” e que “…para o Governo 400 euros é o limiar da pobreza”. A realidade, segundo um relatório da OIT hoje conhecido, é que em Portugal o fosso entre os que ganham mais e os trabalhadores que ganham menos está a aumentar; mais, o nosso País faz parte do grupo de países que registou maiores aumentos entre os 10 por cento de trabalhadores que ganham mais face ao mesmo número que recebe menos. Enfim, mais uma VERGONHA…
Estamos nesta Europa, uma das zonas mais ricas do mundo e, mesmo assim, com 78 milhões de pessoas a viver no limiar da pobreza.
Agir e não ficar indiferente é pois a palavra de ordem!

18 Outubro 2008
Alf.

05 outubro 2008



Promiscuidades…


O Tribunal de Contas publicou uma auditoria que visou designadamente a análise das consequências jurídicas, económicas e financeiras decorrentes do novo Acordo celebrado entre o Estado e a LUSOPONTE SA, no ano de 2000, na sequência do 2º contrato de concessão datado de Março de 1995. Entretanto quem vai defender os interesses da LUSOPONTE na renegociação do contrato com o Estado sobre as travessias rodoviárias do rio Tejo é a dupla Jorge Coelho (PS) / Ferreira do Amaral (PSD), os dois ex-ministros que anteriormente negociaram em representação do Estado o contrato de concessão e os acordos de reequilíbrio com a dita empresa. Para o Tribunal de Contas, a LUSOPONTE saiu sempre a ganhar nas negociações que fez com o Estado. Convém lembrar que foi durante o cavaquismo que a empresa se tornou dona e senhora do Tejo. E é importante que se saiba (para quem não sabe, claro…) que o Ferreira do Amaral é actualmente Presidente do Conselho de Administração da LUSOPONTE e que o Jorge Coelho é agora Presidente Executivo da MOTA-ENGIL. Fantástico! Antes negociaram do lado do Estado os contratos com a LUSOPONTE; agora, negociam “do outro lado”. Mas há mais: Murteira Nabo que agora é Presidente Executivo da GALP irá presidir à Comissão Executiva criada pelo Governo para decidir as negociações com a LUSOPONTE.

Para quem não está atento são mais umas nomeações, afinal são invariavelmente os mesmos nomes, estão ao que parece em todo o lado, ou melhor passam de um lado para o outro com toda a tranquilidade e a gente a vê-los passar, ou melhor a mudar…

Se isto não é PROMISCUIDADE, vou ali e já venho…

04 de Outubro de 2008
Alf


Capitalistas nos lucros, socialistas nos prejuízos!

Rosa Brooks Rosa Brooks is an é professora
da Universidade de Georgetown e colunista do Los Angeles Times onde normalmente assina artigos sobre politicas de segurança e direitos humanos, este artigo é, na minha opinião, um contributo notável para acordar algumas consciências mais distraídas e como tal o passo a transcrever, com a devida vénia.

EUA, bem-vindos ao Terceiro Mundo!

Não é todos os dias que uma superpotência tenta transformar-se em nação do Terceiro Mundo. Por isso, nós, aqui no Banco Mundial e no FMI, desejamos ser os primeiros a dar-lhes as boas-vindas à comunidade de Estados necessitados de ajuda económica internacional. Enquanto vocês se afundam, muito nos alegra poder responder à solicitação do vosso Departamento do Tesouro para que participemos numa avaliação conjunta da estabilidade do seu sector financeiro. Nesta época turbulenta, podemos oferecer-lhes empréstimos subsidiados e até especialistas. Como vocês sabem, há muito tempo que é necessária uma intervenção na vossa economia. Na semana passada, mesmo antes do recente colapso em Wall Street, ex-ministros da Economia de vários países reuniram-se na Virgínia e concordaram que vocês precisam reformar o vosso sistema financeiro. O ex‑ministro das Finanças da Índia, Yashwant Sinha, sugeriu até que vocês peçam ajuda ao FMI. Esperamos que vocês não se sintam envergonhados. Lembrem-se que outros países já estiveram nessa posição. Já ajudámos as economias da Argentina, do Brasil, da Indonésia e da Coreia do Sul. Assim, gostaríamos de reconhecer o progresso que vocês fizeram na evolução desde superpotência económica até ao completo descontrolo económico. Normalmente, tal processo leva 100 anos ou mais. Entretanto, devido às vossas oscilações entre o extremismo do livre mercado e a nacionalização de empresas privadas, vocês atingiram com sucesso, em poucos anos, muitas das principais características observadas nas economias do Terceiro Mundo. As vossas medidas de irresponsável desregulamentação governamental em sectores críticos permitiram que vocês desenvolvessem rapidamente uma crise energética, uma crise de habitação, uma crise de crédito e uma crise no mercado financeiro, todas ao mesmo tempo, e acompanhadas por impressionantes níveis de corrupção e especulação. Enquanto isso, os vossos políticos, que deveriam supervisar o sistema, estavam dormindo com os lobistas. Tomemos como exemplo John McCain, o vosso candidato republicano à presidência, cuja equipa principal de assessores inclui meia dúzia de ex-lobistas de renome. Ele mesmo afirmou recentemente que foi presidente do Comité de Comércio do Senado, que supervisa todas as vertentes da economia. Não restam dúvidas, portanto, relativamente ao fracasso da sua liderança em perceber o estrago causado pela desregulamentação irresponsável. Agora, vocês enfrentam as consequências. A desigualdade aumentou. Enquanto os ricos recebem dinheiro caído do céu, a classe média viu os seus rendimentos estagnar. Um número cada vez menor de cidadãos tem acesso a habitação, assistência médica ou segurança social. Até a expectativa de vida diminuiu. E, quando os problemas económicos passaram de crónicos a agudos, vocês responderam - como fizeram tantos outros Estados do Terceiro Mundo - com um programa extenso de nacionalização de empresas privadas. As vossas gigantes do ramo das hipotecas, Fannie Mae e Freddie Mac, pertencem agora ao Estado. Nesta semana, a gigante dos seguros, a AIG, foi também foi nacionalizada. Alguns podem chamar a isso "socialismo", mas épocas de desespero exigem medidas desesperadas. A vossa transição para o Terceiro Mundo será dolorosa. No início, vocês terão dificuldade em habituar‑se às favelas que crescerão nos subúrbios das cidades, mas, com o tempo, elas tornar-se-ão parte da paisagem. À medida que as taxas de desemprego aumentarem, vocês terão problemas para encontrar ocupação para a massa de jovens desempregados, mas logo vocês vão perceber que podem recrutá-los para alguma qualquer guerra, um tipo de solução que já foi utilizada por muitos Estados do terceiro mundo antes de vocês. Talvez esta carta os surpreenda e vocês sintam que ainda não estão prontos para se juntar ao Terceiro Mundo. Mas não fiquem preocupados: Apesar de nunca terem percebido, vocês já estavam há vários anos a preparar-se para este momento
.”

Rosa Brooks, 18 de Setembro 2008, Los Angeles Times

04 de Outubro de 2008
Alf

25 setembro 2008


“…Now I won't judge you and you don't judge me
We're all the way nature meant us to be
Just human beings -- born to be free…”

"I Was Born This Way" (Bunny Jones/Chris Spierer)
Podia ser mais um combate, porque é sempre preciso combater a indiferença para fazer notar a diferença. Elas e eles que merecem todo o respeito para que as diferenças não sejam transformadas (como normalmente o são…) em desigualdades. Na rua há um mural que dita “Não faças do pensamento um bloco duro de cimento”, frase porventura banal, dá pelo menos para pensar, não custa nada, faz bem à mente e talvez possa libertar algumas (mentes) de preconceitos e pré-conceitos. Discute-se agora na AR o Projecto que visa para acabar com a discriminação de casais de pessoas do mesmo sexo no acesso ao casamento, vale tudo como em outras ocasiões e descobre-se sempre alguma coisa nova; repetem-se os argumentos do costume, eu por acaso lido mal com o termo “conservador”, vejo-o só mesmo à frente (ou atrás…) de um qualquer museu, arrumado sempre direitinho, enfim. Não fica bem também aquele outro (argumento) de que há coisas mais importantes neste momento, pois há, há sempre qualquer coisa mais importante, dá para tudo, de pouco imaginativo; depois há o outro (argumento ainda), brandido neste caso pelo PM, de que “tal não consta do programa do partido e que não vamos a reboque das propostas dos outros”, imagem de arrogância que pode ser lida (pode de facto…) as minhas propostas é que contam, as dos outros estão sempre (que azar, o deles) fora da agenda oficial, mas há algo que não é nada oficial e que se chama CIDADANIA, uma daquelas palavras “… que se recusam / mas de repente coloridas / entre palavras sem cor…” e assim o apelo pode fazer colorir o cinzentismo, abrindo janelas, é sempre bom estarem abertas, não há mal nenhum em deixar entrar o ar fresco que faz bem (dizem…) às consciências. Haverá sempre lutas assim, vale a pena trazer mais gente a estas “pequenas”, a que chamam “fracturantes”, não sei se bem ou mal, o que conta é derrubar os muros do silêncio, porque “…os outros se calam, mas tu não”!

Palavras citadas:
o José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa
o Alexandre O´Neil
o Sophia de Mello Breyner Andresen


24 de Setembro de 2008
Alf

21 setembro 2008

AMBIENTES… (1)

A defesa do ambiente é uma questão central do desenvolvimento sustentável; uma vez que os poderes públicos normalmente são pouco sensíveis a estas questões, leia-se não dão votos, compete à sociedade civil organizar-se no sentido de alertar, sensibilizar e educar; é mais uma vez, a cidadania global que está em causa. Elencamos algumas premissas para ajudar a compreender o que está em causa.

1. Os 4 Rs e o negócio da Reciclagem
Quando se fala em 4Rs, associamos de imediato a Agenda 21, que é um plano das Nações Unidas para ser adoptado nas as áreas em que a acção humana tem impacto sobre o meio ambiente; esse Plano tem abrangências global, nacional e local e deverá em principio ser levado a cabo pelos governos e pela sociedade civil, em defesa do meio ambiente. Os 4R derivam dos termos Reduzir, Reutilizar, Restaurar e Reciclar e contêm em si o significado do que deveria ser feito, em termos do que comummente se designa por consumo sustentável. Reduzir, significa a opção do consumidor por produtos de longa duração e com menor quantidade de embalagens; um bom exemplo é utilizar sacos de compras de pano no supermercado, para reduzir o uso dos sacos de plástico. Reutilizar é aproveitar os materiais usados, como por exemplo, embalagens, ou produtos que permitam uma utilização ilimitada, como são as pilhas recarregáveis e as recargas de produtos. Restaurar significa reparar (móveis,…) ou consertar (aparelhagens danificadas,…). Finalmente, Reciclar, provavelmente o termo mais conhecido, quer dizer promover a separação dos resíduos, com vista a uma posterior utilização.Estima-se que em média, cada português produz 1,3 kg de lixo por dia; produzir menos lixo deve ser então um dos objectivos primeiros a ser atingido; reduzir por exemplo o número de embalagens que compramos, preferir embalagens grandes em vez de muitas embalagens pequenas, evitar alimentos embalados, usar o papel dos dois lados em vez de comprar mais e mais papel, usar os sacos mais do que uma vez, são algumas das sugestões para que seja drasticamente reduzida a quantidade de lixo que produzimos. Se pensarmos nos milhões os sacos de plástico e outras embalagens que todos os anos entram nas nossa casas, no desperdício de energia que poderia significar uma poupança de 86 milhões de contos por ano, ou seja, 16 milhões de barris de petróleo, encontraríamos decerto razões de sobra para mudar determinados padrões de comportamento.
Mas, é preciso que se diga, a reciclagem transformou-se num negócio; proliferam as empresas que reciclam tudo e mais alguma coisa, muitas vezes mal e com objectivos mais que cinzentos. Veja-se a título de exemplo o que fez a empresa Valorsul, segundo informação da QUERQUS. “A empresa de tratamento de resíduos urbanos da grande Lisboa está a incinerar 55% dos plásticos recicláveis provenientes da recolha selectiva efectuada pelas câmaras municipais de Lisboa, Loures, Amadora, Vila Franca de Xira e Odivelas. Após análise dos resultados da recolha selectiva e triagem de plástico a nível nacional, conclui-se que na estação de triagem da Valorsul a taxa de rejeitados dos materiais do contentor amarelo, onde é colocado o plástico, atingiu um valor de 72%, sendo o triplo da média nacional (24%), segundo dados da Sociedade Ponto Verde e do Instituto dos Resíduos. Como resultado, em 2004 a Valorsul só reciclou 1,9% do plástico, sendo o segundo pior sistema do país (dos sistemas com mais de 200 mil habitantes). Este sistema só foi ultrapassado pela ERSUC (Distritos de Aveiro e Coimbra) que apresentou um valor de 1,5%. A explicação para estes fracos resultados, só pode ser encontrada no facto da Valorsul querer queimar o plástico, obrigando assim as câmaras a pagar esse processo, impossibilitando-as simultaneamente de receber o dinheiro a que tinham direito pelo esforço que fizeram na recolha selectiva.” Entretanto, outra empresa do género, a ERSUC, quer instalar um grande incinerador, pelo que tem sistematicamente impedido o lançamento de uma política de reciclagem nos Distritos de Aveiro e Coimbra. Estas 2 empresas abrangem cerca de 22% da população portuguesa que se vê assim impossibilitada de dar o seu contributo para a reciclagem de plástico. Os dados da Sociedade Ponto Verde são claros: em 2004, Portugal apenas reciclou 2,7% das embalagens de plástico dos resíduos urbanos, quando para 2005 a meta comunitária é de 15%. Cumprir as metas que o País se comprometeu? Assim, nunca mais!


2. O principio do utilizador/poluidor/pagador
Pagamos impostos, para que a redistribuição possa garantir maior equidade; e para que o investimento público tenha preocupações sociais e de desenvolvimento; e ainda, para garantir igualdade de oportunidades, no sentido de que o colectivo assuma solidariedades internas, para que o acesso a serviços essenciais não seja um privilégio apenas de alguns. Certo portanto que sejam aqueles que mais poluem, ou seja (nestes casos) tenham opções de compra que contribuam para o desperdício; vendo bem, porque razão hei-de eu pagar pelos poluidores, ou seja aqueles que compram os produtos que eu recuso à partida? A questão das eco-taxas deve ser colocada então na ordem do dia, como por exemplo cobrar mais por produtos de pequena duração e com maior quantidade de embalagens.

Há quem diga que o mais importante é reciclar as atitudes; nessa linha, o sistema educacional pode cumprir um papel relevante, educando devidamente as novas gerações; estará cumprindo o seu papel? Parece contudo que os dois primeiros Rs, Reduzir e Reutilizar ainda encontram resistências culturais e económicas assinaláveis e portanto há que investir fortemente na sua correcta interpretação. Segundo estudos do World Resources Institute (WRI), a produção total de resíduos de Estados Unidos, Áustria, Alemanha, Holanda e Japão cresceu pelo menos 28% nos últimos 25 anos! Será que pagam para isso? Duvido.

(continua...)

Links relacionados:
http://www.abinee.org.br/index.htmhttp://www.svtc.org/svtc
http://www.wri.org/materials/index.html
http://www.naturlink.pt/canais/artigo.asp?iCanal=35&iSubCanal=66&iArtigo=15374&iLingua=1
http://www.amarsul.pt/listagem.aspx?sid=76e8fc08-2125-4986-b1df-9a8a3a24fa09&cntx=EZXOFWZpyeNggHax73GMfsxxoEh%2FREt5AabOm2y%2FJh33l86ar5IlhMuKWhex9eHA
http://www.portaldoscondominios.com.br/reciclagem2.asp

21 Setembro 2008
Alf.

19 setembro 2008


De 1851 a 2008…


Assistimos dia a dia e desde há uns tempos a esta parte à novela do costume acerca do preço dos combustíveis. Agora que o preço do barril de crude está no casa dos 90 dólares, seria de esperar uma diminuição considerável dos preços no consumidor. Há um comissário da Energia (o que é isto?) que alerta para uma intervenção da chamada Autoridade da Concorrência, mais um ministro que diz esperar que o preço baixe, o preço não baixa e o contribuinte paga, o contribuinte paga sempre e isto rola assim. Recorde-se (é sempre bom recordar) que, com a privatização da GALP pelos governos do PS e PSD, e com a liberalização dos preços dos combustíveis do governo PSD/CDS, o que deveria ter acontecido (segundo a lógica deles…) era o aumento da concorrência e uma consequente descida dos preços; entretanto, entre Janeiro de 2004 e Maio de 2008, o preço da gasolina 95 aumentou 57,3% e o do gasóleo rodoviário 102,7%. São estes os resultados que a direita parlamentar tem para apresentar ao País; agora reclamam do governo PS medidas imediatas para baixar os preços, hipocrisia só possível mesmo para quem não queira ver! Entretanto o que faz este governo, dito socialista? Nada, positivamente nada, porque não é capaz, nem quer ver as verdadeiras razões, ou seja, a mais descarada especulação das companhias petrolíferas, a coberto precisamente da incompetência do ministro da economia e da cumplicidade óbvia do primeiro-ministro. É preciso que se diga isto claramente, que é uma pouca-vergonha esta política de complacência perante os grandes interesses económicos e especulativos de que este governo é completamente refém e cúmplice. Não adianta pois tentar mascarar a realidade, com declarações de falsa ingenuidade, quando os factos comprovam exactamente o contrário. Quando o preço do crude aumentava, o preço dos combustíveis subia todos os dias, agora que já baixou para quase metade, tudo fica na mesma e até (pasme-se!) há uma distribuidora que nos últimos dias ainda veio aumentar ainda mais o preço…

As pessoas não são estúpidas e sabem que os preços dos combustíveis determinam em grande parte o agravamento das suas condições de vida: os transportes, o preço dos bens alimentares, o funcionamento do sector produtivo. Somando a tudo isto o aumento desenfreado das taxas de juro, temos um cenário real de um país que não consegue nunca convergir e pelo contrário se afasta cada vez mais da União de que tanto se orgulha de pertencer. E, mais uma vez, como em situações passadas, o partido Socialista hipoteca a sua herança, atacado à direita por uma direita sem qualquer crédito e à esquerda por praticar a política dos que o atacam, uma situação só aparentemente bizarra; na realidade não o é. Talvez seja desta que os indecisos queiram ver ao que levam as políticas monetaristas, amarradas ao liberalismo económico e reféns do capitalismo selvagem; aliás, a dita crise dos mercados financeiros, não é mais que uma máscara para fazer passar na opinião pública a necessidade de aumentar ainda mais a intervenção do império no controle completo e único do mercado internacional.

É a economia estúpido!”, que poderia agora ser adaptado por qualquer coisa como “a economia é só para estúpidos”, ou “os estúpidos são os economistas”, ou até “estúpidos são os que acreditam nos economistas”; pelo menos, nestes…

19 de Setembro de 2008
Alf.

12 setembro 2008


CRÓNICAS MOÇAMBIQUE 4: Batiks…

Quase na partida deste País que ora conheci, apenas algumas imagens, algumas terras, pouco porventura, para além de Maputo, Inhambane, Tofo, Bilene, Manhiça, Xai-Xai, enfim o que foi possível. Quisera ter visto mais de perto como vivem as pessoas, um aspecto que fica nos relatos dos amigos, nas conversas de rua, nos cafés, nos hotéis. Da janela do 4º andar do Girassol me despeço do azul do mar, hoje com mais ondulação, alguns barcos, uma vista magnifica, complementada com o verde da vegetação, as cores dos edifícios, o recorte das ruas. As arrumações, o fecho das malas (um pavor…), as últimas notas, as mensagens, aquela sensação que falta sempre qualquer coisa, que vai esquecer isto ou aquilo. O importante agora é mesmo partir, já que tem que ser e chegar o mais rápido possível ao destino, a casa, a família, os amigos, as rotinas habituais que também fazem alguma falta, diga-se de passagem.

Estamos fora de Portugal desde finais de Julho, as emoções em Angola e aqui em Moçambique foram sempre muito fortes, as expectativas foram de facto superadas, existe uma certa curiosidade sobre a nossa prestação em África, iremos tentar que as respostas sejam o mais possível próximas do que se espera. O contributo que uma organização da sociedade civil, com algumas características que as pessoas consideram especiais (sem qualquer receio do termo…), pode significar irá a partir de agora ser testado em situações concretas, nos 2 Países, enquanto se analisa, com o pormenor necessário, as questões ligadas à organização local, que assumirá em cada um dos países, formatos adequados.

Batiks para levar; o termo, muito vulgar em Moçambique, designa uma técnica de panos pintados; a exploração artesanal introduz uma industria local de algum significado, há artistas que produzem panos de belíssimo efeito visual; de dimensões variadas, podem apresentar variadas formas, conforme a origem, o mais usual tem formato de rectângulo, medindo à volta de 65 X 25 cm, a pintura é feita em altura; há ainda batiks maiores, podendo assumir 1,35 m de largura e cerca de 85 cm de altura. Nos panos são pintados motivos tradicionais, com a ida à agua, os trabalhos da mulher (muitos), a pesca, etc… ; a pintura é coberta com cera, conferindo alguma consistência ao pano, tornando-o mais pesado, à semelhança de uma tela. A imagem de uma feira de Batiks (foto), os panos esvoaçando ao vento é simplesmente espectacular, o colorido é fantástico, há para a todos os gostos, todas as cores… Os desenhos são feitos com cera quente e coloridos com tinta; a técnica batik consiste no tingimento após a impermeabilização de partes da tela, que pode ser em algodão, seda pura ou mesmo couro; as áreas recobertas com cera ficam impermeabilizadas e é com ajuda da cera e banhos sucessivos de tinta que se obtém a sobreposição dos diversos tons.

Apetece então dizer “vou-me embora, vou partir mas tenho esperança /de correr o mundo inteiro, quero ir…”, todas as partidas custam um pouco, fica a certeza de voltar, sempre…


Maputo, 11 de Setembro 2008
Alf.

08 setembro 2008





CRÓNICAS MOÇAMBIQUE 3:
A Engenharia no Combate à Pobreza

Os engenheiros em Congresso apostam no combate à pobreza. É uma imagem significativa, naquilo que poderá ser um desafio (quiçá uma miragem). Fala-se no papel dos técnicos de engenharia, na sua possível contribuição, com engenho, através de soluções de baixo custo que possam contribuir para a autonomia das populações. Ao lado dos grandes empreendimentos, que geram quase sempre mais desequilíbrios, mais injustiças, menos inclusão. Defendemos o chamado empreendedorismo social, no fundo a capacitação das pessoas para criarem o seu próprio emprego, com uma componente social de intervenção e uma resposta organizada e eficiente a necessidades sociais e de gestão inovadora das organizações sociais. Acrescentamos a proposta de que o empreendedor social defina como prioridade a missão social, ou seja, a defesa de um princípio assente na cooperação entre empresas e organizações não lucrativas em torno da experimentação de projectos inovadores. Enfim, salientamos o modelo voluntário de participação e co-responsabilização dos empreendedores sociais, não motivado apenas pela obtenção de lucro, colocando a tónica na prestação de serviços que podem propiciar bens palpáveis, proporcionando ganhos sociais para a comunidade.

Notamos com satisfação uma enorme adesão às nossas propostas, balizadas em medidas concretas de apoio à formação de empreendedores sociais, na implementação de um trabalho em rede, no apoio à descoberta de soluções de micro-crédito, na intermediação com o Estado e com outras organizações da sociedade civil. Sabemos que passamos uma mensagem que poderá ser alternativa, desde que sejamos capazes de pôr em prática o que defendemos; a educação para o desenvolvimento deverá fazer a diferença face ao discurso economicista, que dá os resultados que conhecemos. Algumas abordagens inovadoras completam o cenário de um Congresso que valeu a pena, pese ainda o facto de a participação africana ser ainda ténue; trabalhos de investigação que começam a fornecer indicadores significativos, mostram que a cooperação internacional pode desempenhar um papel decisivo nas mudanças que se pretendem; competirá agora aos poderes governamentais fazer a interpretação correcta, esperamos para ver.

A nossa “estreia” em Moçambique não podia ser melhor, todavia é apenas um sinal, impõe-se agora a sistematização dos dados, muito trabalho pela frente a partir de agora, vale claramente a pena.
Maputo, 5 de Setembro 2008
Alf.

The last square


“…They had taken up position for this final action, some on the heights of Rossomme, others on the plain of Mont-Saint-Jean. There, abandoned, vanquished, terrible, those gloomy squares endured their death-throes in formidable fashion. Ulm, Wagram, Jena, Friedland, died with them
Victor Hugo, “The Last Square” (Les Miserables-Chapter XIV)
Fui à praça numa pressa
(numa pressa relativa)
e mesmo assim impositiva
dei de caras com um canil
e mais um disco vinil
achei tudo muito vago
e num instante me acabo
de estender numa latrina
mas que chatice Laurentina
Foi assim que comecei
mais um dia, aqui d’ el rei,
a mufla estava partida
e eu a deitar contas à vida
pediram-me cem mil reis
por um punhado de papeis
desencantei um anzol,
tropecei num Nissan Patrol
E descubro uma notícia
(escrita com alguma malícia)
O Papa perdeu-se e, cheio de medo
foi parar à rua do putedo
era a Vanessa, mais a Clarisse
e foi esta mesmo que disse
“oh filho que estás tão pálido
Vem comigo e tira o hábito”
E de repente, aconteceu
caiu nele e ficou ateu…

Lindo serviço, esta praça,
mas o que é que aqui se passa?
Está tudo numa grande calma
à espera do Jorge Palma
e eu, etcetera e tal
bic laranja, bic cristal
(duas escritas a vossa escolha)
quem anda à chuva é que se molha.
Na praça há um monte de gente
e que fique desde já assente:
no dia em que eu decretar
lá nos iremos encontrar
(poderia ser aqui e agora)
soltar da borda para fora
tomar o barco e partir
e ninguém se ficaria a rir

Lembro-me agora da Rita
penso que nem me despeço dela
salta do lado esquerdo uma cadela
parte a loiça toda em Espinho
e eu já tropeço no caminho…
Volto de novo para a praça
aquilo está uma desgraça!
É que os trabalhadores do comércio
não pagaram ao senhor Décio
armaram cá um chinfim
mas, não foi para isto que eu vim
E só de contar as desgraças
(e de fumar mais umas passas…)
cansa-me tanto, eu garanto
que quase que entro em pranto
não me apetece dormir, não sou capaz de partir
Pensando mais um bocado
ponho o meu fato de lado
uma gravata a rigor
vou mas é para o interior.

Nunca mais volto a esta praça
nem que esteja cheio de massa
é uma feira de vaidades
e mesmo com muitas vontades
não penso que vá mudar…
E, quando tudo isto acabar
já sei para onde me virar:
compro um terreno em cascais
(tenho uma poupança em meticais…)
ponho o resto a render em juros
e entro no mercado de futuros…


Bilene, 7 Setembro 2008

Alf.


CRÓNICAS MOÇAMBIQUE 2: Inhambane


Se das Áfricas posso levar alguma calma, conforto talvez nas paragens sem fim, aqui ficam as praias do Tofo, na costa de Inhambane. Moçambique diferente, acima de Maputo, quase 600 km para Norte. Terras novas para mim encontradas. Finalmente. As praias, o bar Dino´s, o mercado, o sorriso de Anifa; todo o dia sopra uma ventania terrível que vem não se sabe bem de onde, parece ser de todo o lado, por vezes fresco de mais, para mim frio, claro; os dias passam-se entre a praia e o mercado, da casa onde estamos é mais perto ir a pé pela praia, não mais que uns 300 metros. Como não temos Internet, estamos por assim dizer “unplugged” e deixamos assim o portátil em sossego.

A viagem é muito agradável, paramos em Xai-Xai, obrigatória a visita à praia, magnifica por sinal, um bom almoço, não sem uma longa espera; dá para apreciar aquele que poderá vir a ser num futuro breve um ponto turístico de eleição, com imensas possibilidades a explorar. Ficamos a saber que em Manhiça (no caminho para o nosso destino, a 80 km de Maputo), onde há falta de água, se prepara uma importante intervenção com vista a desenvolver o cultivo de trigo. Embora o grupo queira sobretudo descansar um pouco, não descuramos saber o que se passa na sociedade civil e detectamos aqui e além carências e necessidades que poderão ser objecto de trabalho futuro. Quanto a vias comunicação, fica o registo que são boas, estradas aceitáveis, sinalização mínima e algum controle policial que dá, por assim dizer, uma confortável segurança.

No horizonte está o Congresso de 1 a 4 de Setembro, onde temos 3 comunicações a ultimar, nos intervalos já se pensa nisso, falta pouco tempo, a responsabilidade é muita e, embora sem stress, vamos cumprindo as nossas metas.

Tofo, 30 de Agosto 2008
Alf.

03 setembro 2008


CRÓNICAS MOÇAMBIQUE 1: Maputo


A chegada a Maputo a 20 de Agosto, um atribulado dia, após algumas confusões em Joanesburgo, (ficam decerto como complemento de viagem), há sempre algo de novo num País desconhecido. Alojado principescamente em casa do César, amigo novo, parceiro novo, anfitrião inexcedível, uma família encantadora. Do 29º andar, frente ao mar, avista-se a cidade em toda a sua extensão, uma delícia para a vista; à varanda, no fim da tarde, curte-se a cidade do alto, bebe-se um copo, apreende-se devagar a geometria das ruas e projectam-se passeios a pé. Até Sábado, dia de mudança para o Girassol Bahia Hotel, esperando o grupo que chega de Portugal. Comer bem e beber melhor, 3 dias de relaxe, pondo em dia conversas adiadas, falar dos amigos de longa data, reviver outros tempos.


Para quem passou quase 1 mês em Angola, a primeira sensação é a da limpeza das ruas; não existe aqui a pressão demográfica de Luanda, em contrapartida um assédio constante e premente dos vendedores de rua; num passeio de Sábado a pé pelas ruas é vê-los com panos, telas, cestos, bugigangas, artigos feitos à mão; na 24 de Julho, grande avenida de referência na capital, ao pé do Shopping Polana, é um rodopio constante e envolvente; refugio-me numa belíssima esplanada, mesmo assim abordado de longe, não faz mal, este dia não é para comprar nada, intervalo. Passeia-se pela baixa, sempre a pé, para sentir a cidade, fala-se com as pessoas, simpáticas sempre, uma indicação aqui outra acolá, acabamos por descobrir o que queremos, a avenida Lenine, a 25 de Setembro (data do Dia das Forças Armadas , feriado nacional em Moçambique ). No Domingo, já com o grupo completo, visitamos no Centro Cultural Franco-Moçambicano, uma belíssima exposição, passamos na Casa de Ferro, desenhada como casa do Governador, por Gustave Eiffel no final do século XIX, pela Estação Central dos Caminhos de Ferro, edifício também desenhado por Eiffel no início do século XX; acrescento ainda o belíssimo edifício do Instituto de Meteorologia e a Igreja de Sto. António da Polana; o mercado da baixa é uma delicia, fazemos compras para o jantar, camarões claro, que iria ser o prato forte, com muito jindungo (aqui é piri-piri, atenção!), acompanhado por bom vinho português.

Duas excelente reuniões de trabalho, no Ministério da Ciência e Tecnologia e na Faculdade de Engenharia, servem de ponto de partida para o nosso trabalho por cá, muita receptividade e boas perspectivas futuras; consolida-se a nossa presença em Moçambique, o nosso representante desmultiplica-se em proporcionar encontros e contactos interessantes.

Desenha-se a hipótese de uma viagem a Inhambane, a meio da semana próxima. Começa a preparar-se a partida, não sem equacionar todas as demarches necessárias, o alojamento, o aluguer da viatura, enfim aquela ânsia característica, quando não sabemos bem o que teremos pela frente, o mar que nos espera, tão perto e tão longe, são mais de 500 km para o Norte, como será o percurso, viemos de tão longe, onde nos vamos encontrar…

Maputo, 24 de Agosto 2008
Alf.