rio torto

rio torto

10 maio 2009

CRÓNICAS CABO-VERDE 1: a Intervenção


Sempre chegamos aos sítios aonde nos esperam
Do “Livro dos Itinerários”, citado por J. Saramago, in ”A Viagem do Elefante


De novo o calor de África, o estranho fascínio pelo Sul, pelos espaços de liberdade, ao menos espiritual. Cabo-Verde, das mornas e coladeras, que ontem saboreei no “Quintal da Música”, da calma da praia da Praia, da confusão completa do Sucupira (1) trazendo à memória o antigo Kinaxixi (2) da brisa dos fins de tarde. As habituais trapalhadas dos primeiros dias, misturadas com o apagão da Internet, mas sempre os Amigos que nos acolhem e nos fazem sentir em casa.
Desta vez para participar num Seminário de Formação Sindical, uma iniciativa da CPLP-SE (3) . E aqui de novo para falar sobre “Educação e Cooperação para o Desenvolvimento Sustentável”, para professores, sindicalistas do sector da educação e outros agentes de educação formal. Porque se tratava de um público especializado em questões de Educação, procurei ajudar a reflectir sobre as enormes responsabilidades do sector no que reporta aos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), um incentivo à promoção de acções concretas, junto de colegas, alunos, formandos, famílias e comunidades locais. A adesão foi deveras significativa, até pela “novidade” do tema, já que só uma pequena percentagem dos participantes tinha ouvido falar nos ODM. E, para além disso, a perspectiva da maioria das pessoas, sobre as questões da Cooperação Internacional para o Desenvolvimento era meramente assistencialista. Muito importante foi de facto, abordar o verdadeiro sentido (e significado) do conceito APD (4), em que consiste, como funciona, os programas e incitativas comunitárias (União Europeia) para os países em desenvolvimento, muito embora este País esteja colocado numa espécie de “limbo”, nas classificações internacionais. Também algumas questões operativas e ter em conta, neste contexto.

Um pormenor muito significativo que me foi dado observar tem a ver com o gosto e orgulho em ser Professor. Embora eu não seja (apesar de o ter sido em tempos) sei o que se vai passando no meu País, onde considero que a função (missão?) de professor está completamente desprestigiada; penso aliás, que chega a ser alarmante a situação no Ensino em Portugal, nas escolas, onde o Professor deveria ser respeitado, dada a responsabilidade que tem na formação das crianças e dos jovens, para uma sociedade mais justa, mais equilibrada, onde a problemática do Desenvolvimento Sustentável é uma questão transversal de enorme significado, para uma Cidadania Global responsável.

Assim, estes encontros muito nos ensinam. O discurso poderia eventualmente perder-se (tantas vezes acontece…) nas apertadas fronteiras da formação tradicional. Desta vez porém, o sentimento é outro: acreditamos todos, organizadores, formandos e formadores, ser possível uma transformação, se bem que por vezes difícil de definir e mesmo de concretizar: de atitudes, de vontades, de metodologias e estratégias visando resultados, a curto, médio ou longo prazo. Acreditamos que vale a pena, que pode realmente fazer a diferença, uma postura de confiança, num Mundo melhor, mais justo. E são as gerações mais novas que devem ser alertadas para as questões globais, como a luta contra pobreza e a marginalização de 2 terços do Planeta, da erradicação do analfabetismo, entre tantas outras, numa perspectiva de mudança; para tal, devem saber o que se passa no Mundo, conhecer o passado, analisar o presente e aprender a perspectivar o futuro. É uma Missão do Professor e, os responsáveis políticos devem entender, de uma vez por todas, que nenhuma “reforma” se faz contra os professores, mas sim com os professores.

No Seminário da Praia sentimos solidariedade, muita confiança, muito respeito e alegria de viver; de passar a palavra e espalhar a notícia, pelo menos nas 10 ilhas deste Arquipélago. Daqui partiremos para os outros países de língua portuguesa. Com algum sacrifício, diga-se de passagem, uma vez que representa um grande investimento, para o qual (para já) os organizadores não têm a sustentabilidade financeira que gostariam. Que sirva esta crónica pelo menos para chamar a atenção daqueles que têm a responsabilidade da repartição de verbas, em Portugal, mas não só, já que parece haver situações de desperdício noutros países da CPLP. Para todos, a mensagem é muito simples: provar na prática e no terreno a vontade expressa em apostar na Educação para o Desenvolvimento Sustentável.

Atenção CPLP, estaremos atentos!
Praia, 2 de Maio 2009
Alf.


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(1) Mercado tradicional da Praia
(2) Antigo Mercado de Luanda, demolido para construir um grande Centro Comercial
(3) CPLP-SE: Comunidade das Organizações Sindicais de Professores e Trabalhadores em Educação dos Países de Língua Portuguesa, Sindical da Educação.
(4) Ajuda Pública ao Desenvolvimento

25 abril 2009



Onde estavas???



Vem à ideia a frase do BB “mas afinal onde estavas no 25 de Abril?" olha eu estava na cama a dormir eram umas 9 e meia da manhã quando o Vilas me bate à porta e diz “então a dormir e a Revolução na rua…” não pode digo eu é verdade diz ele e lá fomos os dois tanta gente na rua mas ainda não havia a certeza só lá para a tarde se percebeu a libertação a alegria o gozo que deu ver a polícia a fugir dos militares que maravilha já lá vão 35 anos tanta água que passou tantos encontros e desencontros “a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida" o gesto incontido a emoção dos momentos que passamos e passeamos pelas Avenidas da Liberdade que fomos conquistando com luta porque é com luta que se luta sempre e agora há quem pense que agora que tudo temos e nada vemos sentimos “apenas” sinais preocupantes de arrogância descaramento e prepotência às vezes até custa a acreditar que acontecem cenas como as de Faro e de Braga mas é verdade que parece haver medo quem cala consente e é por isso que eu não me calo porque não posso ignorar mas o certo é que a miséria assusta e sente-se e convive-se com ela com aparente tranquilidade Será que é recorrente o apelo à indignação quando nos entra todos os dias pelos olhos e ouvidos mais um escândalo mais uma fraude mais um descarado roubo daqueles que parecem estar à margem da decência e das próprias leis do tal estado de direito de que tanto nos falam e que parece mais que torto no pior sentido do termo Avancemos pois para as grandes obras que nos ligam à Europa isso é que interessa uma porra e mais centros comerciais e às tantas era aí que se deveria marcar o 25 de Abril afinal é onde as pessoas andam meias tontas “sem eira nem beira” pois é senhor engenheiro lembro-me agora “…aprende a nadar companheiro que a maré se vai levantar” parece que a que a liberdade já não está a passar por aqui uma Maré Alta que faça muita e muitas ondas para ver se gente acorda de vez porque “… o que é preciso é agitar a malta empurrar a malta animar a malta dar poder à malta…” isto de pequenas reformas não vai lá não senhor (engenheiro?) é preciso repetir mais uma vez que Abril não é evolução mas sim Revolução não tenham medo da palavra ou então tenham mesmo medo porque ele agora existe que diabo mas vejam bem que “…por morrer uma andorinha não acaba a primavera” como tal ainda há esperança ventos de mudança que devemos agarrar com muita força a tal força de quem trabalha e que agora nem deixam trabalhar com tanto despedimento Curioso quem devia ser despedido por incompetência de gerir ainda é premiado e vai de bolso cheio para os paraísos que por aí abundam com off-shores e congéneres pelo meio que é precisamente onde não está a virtude.


Vivo a vida como dantes / não tenho menos nem mais / e os dias passam iguais / aos dias que vão distantes
Mas ... ainda vamos a tempo, 25 de Abril sempre!



Madrugada de 25 Abril 2009
Alf
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Palavras e/ou frases “roubadas” sem permissão especial que eles não se importam…:
Baptista Bastos
Carlos do Carmo
Sérgio Godinho
Zeca Afonso
Vinicius de Moraes

02 abril 2009



VISEU= 1 – ROMA=0
(com 0-0 ao intervalo)


“…Nadavam piranhas na lagoa escuratamanhas que nunca tal vi

Limpei a viseira, peguei no arpão, mas tive o diabo na mão …”
Zeca Afonso, “Chamaram-me cigano”, 1968

O jogo até que nem começou mail para o Papa de Roma; investe pela extrema direita, centra e marca golo logo no 1º minuto da sua visita a Angola: “não ao preservativo, faz mal à saúde e pode ser pior para o SIDA”. Azar dos azares, o árbitro anula o lance, considerando fora-de-jogo. Acontece. Mas o Papa não desiste, lança-se de novo e mais uma vez pela extrema-direita, corre tanto que sai pela linha lateral, que como se sabe, é o limite da decência, não se deve passar e dá direita (ou melhor, direito) ao lançamento pelo adversário. A 1ª parte desenrola-se a meio-campo, a assistência assobia e dança kisomba ao mesmo tempo. Intervalo. Os jogadores recolhem ao balneário, mas o Treinador do Papa não arrisca qualquer substituição e a 2ª parte recomeça sem sair fumo branco daquela chaminé. Eis senão quando a equipa de Viseu, vendo o adversário sempre a jogar pela extrema-direita, um erro, segundo comentaria depois do jogo Rui Santos, não entendendo a insistência, mas toda a gente entende a razão, deixa lá Rui, este jogo não está ao teu alcance. Num lance de bola parada, o Bispo marca um belo golo “quem tem a doença fatal, deve usar o preservativo, para não transmitir a doença…, acho que foi mais ou menos assim, eu não vi o jogo, não deu em canal aberto. E assim, uma equipa do interior, uma equipa regional do Portugal profundo, vence um jogo, apenas um jogo, mas um jogo pela Vida, contra a equipa do homem vestido de branco, numa terra em que o branco curiosamente é luto.

A FIFA vai agora dar a taça a Viseu e castigar o homem de branco com trabalho comunitário. Eu explico: é que a receita do jogo vai será destinada à compra de 340 milhões de preservativos, que serão distribuídos pelo próprio, em cada um dos países africanos.

Na chamada “zona mista” (eu não sei bem o que isto é, mas ouço sempre nos relatos…) foi muito comentado o resultado e praticamente houve um acordo generalizado, com excepção de César das Neves, Paulo Portas e Arcebispo de Braga.

Não está prevista uma 2ª volta deste encontro, aguardando-se que o Concílio se pronuncie a envie novas normas para a FIFA.

02 de Abril de 2009
Alf

Colaboração de imagem: Cartoon do António, 5 de Dezembro de 1992, na "Revista" do Expresso
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PS: os adeptos do FCP não devem ler este relato, porque pensam que o Papa é o Pinto da Costa...


ANEXO
(acho que vale a pena ler também este pequeno texto)



As Nações Unidas consideraram que, a 12 de Outubro de 1999, a humanidade teria atingido os seis mil milhões de indivíduos. No entanto, contava-se que, por exemplo, em Moçambique, a população deveria ultrapassar, por essa altura, os 19 milhões de habitantes. Quando, ao contrário de todas as estimativas, segundo os dados do Censo de 1997, a população moçambicana andava apenas pelos 16 milhões. E algo de semelhante aconteceu noutros países africanos, onde a população recenseada ficou muito aquém do esperado. Daí que a data apontada pelas Nações Unidas para os 6 mil milhões de pessoas sobre a Terra deva ser vista apenas como meramente simbólica, uma vez que a referida cifra só deve ter sido alcançada uns anos mais tarde. Entre as várias explicações para as discrepâncias apontadas, penso que a principal variável a ter em conta é o efeito do VIH/SIDA. De facto, de há uns anos a esta parte, começa a ser aceite pela generalidade das agências internacionais que o factor SIDA fez cair drasticamente a esperança média de vida à nascença e o respectivo crescimento populacional na África sub-sariana
Antunes, Manuel de Azevedo, 2008

01 abril 2009



A NÉVOA

Quem não conhece a verdade não passa de um tolo;
mas quem a conhece e a chama de mentira é um criminoso
!”
Bertolt Brecht [1898-1956]

Confesso a minha perplexidade e indignação contra aquelas e aqueles que se admiraram com a nomeação do respeitável empresário Domingos Névoa, administrador da BRAGAPARQUES. É por que não conhecem o que passa naquela triste cidade de Braga, onde desgraçadamente campeia a impunidade, o compadrio mais baixo, os negócios mais sujos, o lixo que não tem tratamento possível. Mas afinal irá ser ele a tratar do lixo, pelos vistos um negócio que bem domina. E para completar a cena é nomeado para director-geral da BRAVAL (a tal empresa intermunicipal, empresa de tratamento de resíduos sólidos do Baixo Cávado, que engloba os municípios de Braga, Póvoa de Lanhoso, Amares, Vila Verde, Terras do Bouro e Vieira do Minho), Pedro Machado, genro de Mesquita Machado, presidente da Câmara Municipal de Braga e dirigente do PS. Explicitando melhor o processo, a Assembleia Geral da BRAVAL elegeu o presidente da empresa e o director-geral; ora esta Assembleia Geral é composta pela empresa AGERE, que detém larga maioria da empresa; por sua vez, a empresa AGERE foi criada em 1999 pela transformação dos serviços municipalizados de água e saneamento do município de Braga em empresa pública municipal; em 2005, a Câmara Municipal de Braga privatizou 49% da AGERE, que foram vendidos a um consórcio de empresas formado por ABB, DST e BRAGAPARQUES.

Estamos portanto esclarecidos. O Névoa tornou-se publicamente conhecido pela sua tentativa de corromper o vereador Sá Fernandes; aliás, em 25 de Fevereiro passado, o Tribunal da Boa Hora deu como comprovado o crime de tentativa de corrupção activa. O “prémio” é este: quem percebe de lixo, trata de lixo! Tudo bem, pois, para juntar ao extenso rol de promiscuidade que graça na sacrossanta cidade, onde até um alto dignitário da igreja católica (felizmente morto) fazia parte da mais descarada máfia, que anda à solta e não se diferencia das outras máfias. Pelos vistos também, toda a cidade conhece mais ou menos as situações e continua a votar na mesma. Continuem pois, que vão no bom caminho…

Mais um corrupto “premiado”. Para outros, particularmente os que denunciam a corrupção, o prémio é mandá-lo para fora do País. Mesmo assim, João Cravinho não se cala, mais uma voz dentro do partido de Sócrates (acho que é assim que dever chamado, se bem me entendem…) que denuncia o que deve ser denunciado.
É este o rosto da corrupção! Uma névoa que é mesmo Névoa, uma vergonha para o País, mais uma razão de cidadania para denunciar, para actuar de todas as formas possíveis, para tentar inverter esta situação.

1 de Abril 2009
Alf.

20 março 2009


OLHARES…


Quem não compreende um olhar,
tão-pouco compreenderá uma longa explicação.”
Mário Quintana (1906-1994)

Sempre gostei de olhar as pessoas nos olhos expressão de sentimentos ocultos ou nem tanto é neles que nos revemos para além de nos vermos sensações que só acontecem para quem tem a felicidade de poder ver e daí a luz e o brilho às vezes a ausência de um ou de outro que complementam os momentos mais felizes das nossas existências não vale a pena portanto falar muito nem explicar demasiado nem argumentar (para quê?) quando sentimos que “o outro lado” não é na realidade o nosso lado assim dito parece estranho não o sendo de facto quando sentimos necessidade de estar sós perante nós próprios esquisito que seja porque há momentos que precisamos de partilhar com alguém do nosso lado assim olhos nos olhos há coisas que não se explicam e que (às vezes) um rio grande de luz nos prende a atenção e nos conquista… só de olhar!

18 Março 2009
Alf.



EU JÁ ASSINEI, ASSINA TU TAMBÉM!

Um grupo de deputados europeus de vários países, encabeçado pela eurodeputada Ana Gomes, acaba de lançar em Bruxelas, através de uma página da Internet (http://www.stopcorruption.eu/en-GB/aboutus.aspx), uma petição para lutar contra a corrupção.

Em 2006, as exportações de petróleo e minerais provenientes de África foram aproximadamente de 249 biliões de dólares, quase seis vezes o valor da ajuda internacional. Se utilizado correctamente, este enorme transferência de riqueza poderia ser uma das melhores chances de uma geração para levar muitos dos mais pobres do mundo e mais desprotegidos cidadãos de sair da pobreza. No entanto, em muitos países ricos em recursos, a corrupção no sector dos recursos naturais tem levado directamente para conflitos, violações dos direitos humanos e um agravamento da desigualdade e da pobreza ".
Global Witness
Todos conhecemos fenómenos de corrupção, no nosso País e não só. Comentamos, protestamos para dentro, alguns ainda tomam atitudes de colocar acções judiciais, de escrever artigos (…). Há que fazer mais ainda; esta é uma óptima oportunidade (mais uma), não a vamos desperdiçar.

EU JÁ ASSINEI, ASSINA TU TAMBÉM!

A ENGENHO &OBRA (E&O), organização a que presido associou-se a esta campanha. Por isso apelo ao V. apoio; Basta ir ao site da nossa ONGD (http://www.engenhoeobra.org/) e carregar no logotipo, que aparece no título.

Obrigado pela tua colaboração; um grande abraço solidário,
Alf.

08 março 2009


MARIA, MARIA...


Maria, Maria /É um dom, uma certa magia /Uma força que nos alerta/ Uma mulher que merece/ Viver e amar/ Como outra qualquer /Do planeta
Milton Nascimento; Fernando Brant; Ellis Regina

E porque não dar-lhe neste Dia um nome, um rosto, embora ela não tivesse aquele nome, ele era o nome da força, da raça, da gana, do poder da mistura da dor e da alegria. Afinal quase todas usam, têm e gostam (?) do nome. Maria será nome de guerra, ou trivial designação de ser apenas mulher? Se vives no gueto, atravessas a avenida, ou te mostras na passarela, se carregas o filho que já esteve dentro de ti, ou simplesmente te moves em misteriosos caminhos (que podem ser hostis…), acabas sempre por ter essa “estranha mania de ter fé na vida....”Se o poema fosse microfone e falasse alto, ainda hoje se calhar diria para muitas mulheres “…por que vai de olhos no chão / silêncio – é tudo o que tem / quem vive na servidão[1]. No samba da vida danças ao ritmo certo daquela música maluca que vem e vai, que descansa e não dá descanso nenhum; tens alguém à espera, ou esperas alguém de quando em vez? Tens o perfume da linha de montagem, da terra vermelha que cultivas, ou do escritório, ou simplesmente do povo que lavas no rio? Num balanço de perdas e danos, provavelmente sais sempre a perder, apesar de teres “um dom, uma certa magia e uma força que nos alerta”

Acima de tudo companheira, camarada, cúmplice da mesma luta pela igualdade, pela inclusão, por acreditar que vale a pena acreditar!

Dia Internacional da Mulher – 2009
Alf.
[1] Alegre, Manuel, “Trova do Vento que Passa”

05 março 2009




O FRUTO VERDE ALGURES ESCONDIDO TARDE OU CEDO FLORESCE

Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la

Bertold Brecht

Mesmo sem saber onde chegamos
como é bom poder partir
e mesmo quando nem sabemos onde estamos
conseguimos olhar e sorrir
Há alguns jardins escondidos
onde sempre algo floresce
e mesmo quando se é esquecido
e algo nos entristece
o fruto verde algures escondido
tarde ou cedo floresce
Os ideais que nos correm nas veias
numa visão holística e congruente
soltam e quebram cadeias
para o Mundo seja diferente

Mesmo que te sintas frágil
vais encontrar forma de ser ágil (a)
e se a Obra nasce do Engenho
tudo começa com o teu empenho…

(a) pequena “ajuda” do Jorge Palma, Poeta e Anarquista

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E esta é mesmo para ti, Denise!

"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis".


Fernando Pessoa

24 fevereiro 2009



A VERGONHA DO COMANDANTE HENRIQUES ALMEIDA


(ou a cidade de Braga no seu melhor…)


Por esta altura já a santa e sacrossanta cidade de Braga, ou dos arcebispos (seja lá o que isso for…) anda nas bocas do mundo e mais uma vez, pelos piores motivos. Há já mais uma figura púbica (desculpem, pública…) neste País, de seu nome Comissário Henriques Almeida (HA), subcomandante da PSP, que “sensível” a uma tentativa de sublevação popular, quiçá a transbordar numa guerra civil, decide enviar a tropa para apreender um livro que apresenta na capa um excerto do quadro “Origem do Mundo”, do pintor oitocentista Gustave Courbet (1819-1877), um dos fundadores do realismo em pintura, que expõe as coxas e o sexo de uma mulher; o quadro absolutamente pornográfico, foi pintado em 1866, e está exposto no Museu D`Orsay em Paris. Está em curso já uma participação à INTERPOL, para recolher o original de França e transportá-lo para a PSP de Braga, que orientará as investigações e providenciará buscas por todo o País, incluindo museus, livrarias, galerias, ginásios, igrejas, estádios de futebol e Assembleia da República, para recolher o resto da pornografia... Bem-haja pois HA, bem-haja a cidade de Braga que, é bom lembrar, a 28 de Maio de 1926, lançou o nome desse grande patriota Gomes da Costa (GC), para pôr ordem neste País, onde então reinava a mais completa pornografia. Pois, HA é o novo herdeiro de GC, honra lhe seja feita, pelo menos no ridículo.

Bem vistas as coisas e tentando uma explicação séria, só podemos condenar de forma absolutamente contundente este triste episódio, que infelizmente se segue a alguns outros, como buscas e apreensões em sindicatos, perseguições a livres-pensadores que não “encaixam” na norma, que parece mais que nunca nos querem impor. Se ainda cá estivesse, o grande François Truffaut, decerto poderia reescrever novo argumento para
“Fahrenheit 451”, ou a a história de uma sociedade totalitária no futuro, onde os livros foram banidos.

Tratou-se de uma medida cautelar para evitar uma alteração da ordem pública e o cometimento de outros crimes”, afirmou HA ao PÚBLICO. Onde chega o descaramento, a prepotência, deste zeloso polícia, que deveria imediatamente ir ao banco dos réus. E não só ele, mas sim os perturbadores da ordem púbica (desculpem, pública), que na cidade santa, afrontaram (ao que parece) a lei e a ordem.

Quero ver agora que medidas toma a tutela, caso anda informada pelo que se vai passando neste país, dito de brandos costumes (raio de termo!) perante este acto censório.

Movimento púbico (desculpem, público) para demitir HA, já! E como medida abonatória do seu puritano comportamento permitir que leva para a cela um exemplar do livro que mandou apreender; pode ser que aprenda alguma coisa, sob a “Origem do Mundo”.


Alf.

19 fevereiro 2009

Palavras….
“Que helada que esta casa !

sera que esta cerca el rio
o es que estamos en invierno
y estan llegando, estan llegando...los frios.”
Patxi Andion, 20 anos

Reporto 20 anos. Atrás de uma juventude inquieta e perdida algures, sempre presente porventura atrás de recordações, memórias vivas, alguns livros. Irrequieta, sinal de emoções e loucuras que sabem bem e têm aqui e ali um toque nostálgico do que vivemos, ainda nos sentimos do lado de lá, inventando poemas, sons de revolta, de esperança, na anarquia que tentamos manter, transmitindo os sinais que acreditamos ainda marcam alguns gestos e atitudes. Que fria está esta casa, dos invernos que não passam, a névoa que teima em ocultar o rosto que ora fixávamos com a malícia antiga, de fantasias e cumplicidades. Perdem-se quiçá invernos em que só aparentemente nos aquecemos, o calor que não conseguimos transportar para os que nos estão perto ou longe, para o caso de darem conta que existimos. Não conseguimos passar a solidária mensagem que nos vai na alma, estamos lá e não estamos ao mesmo tempo, a casa grande foi reconstruída por quem não consciencializou a ternura que guardamos e que só faz sentido dentro de nós. Apenas a lembrança, que alimenta o sonho, agora algo agitado pelo agreste vento que parece não levar mais que sombras, tudo fica sempre no mesmo lugar, apesar da maré que tentamos sempre inverter, aquela persistência que guardamos, a teimosia de lutar por causas que não podem ter idade. 20 anos que podem mesmo ser mais, muitos mais, porque há coisas que não se apagam, apesar dos invernos. Perdemos agora o norte num sul que precisa das palavras que não são uma canção, mas que ainda conservam a força da mudança. Perdemos alguma força todos os dias, alguém a irá encontrar e fará dela o que aprouver. Estamos atentos, porque sabemos que cada dia que passa, pode ser o sol que resiste e aquece a luta. Continuaremos a pintar as paredes, até encontrar um rosto de criança sem fome que consiga saltar da tela imaginária, contra o cinzento dos invernos presentes. Os 20 anos cortam o tempo literal, já ninguém escrever direito por linhas tortas e há hoje palavras que nascem mortas. O Patxi falava noutra canção no marinheiro “ Con Toda la Mar Detras”; que venha ele e traga a onda que falta, apesar dos 20 anos que nos pesam, pode ser a força que precisamos…
Alf.

12 fevereiro 2009


A QUE DISTÂNCIA?
Os dias terríveis são, afinal, as vésperas dos dias inesquecíveis”.
Almada Negreiros

Recupero agora um texto antigo no qual descubro algo que me chama a atenção. Tem a ver com a distância, a medida certa em que nos devemos posicionar para obter alguma coisa, como por exemplo enxergar algo. Tal como acontece com outras variáveis, a distância é relativa. Pois, um dado adquirido. Contudo, nos anos 20 do século passado, Edwin Hubble descobriu que todas as galáxias do universo estão progressivamente se afastando; e ainda, que quanto mais longe a galáxia estiver de nós, mais rápido ela se afasta. Conservamos enfim a distância, quando de forma prudente, queremos ganhar tempo, ou simplesmente temos receio. No texto, o efeito da distância sobre a velocidade é tão terrível, que nem dá para respeitar a tão conhecida distância mínima de segurança. Vamos por partes. Então, qual é distância entre 2 pontos? Mesmo aqui, a Matemática é traiçoeira; assim, a distância de um ponto de coordenada positiva à origem é o valor da própria coordenada; no plano, para pontos com a mesma abcissa, a distância é o módulo da diferença das ordenadas; já no espaço, só podemos determinar a distância entre 2 pontos, através do teorema de Pitágoras. Desculpem se entretanto perdi a distância ao texto, era de facto o que me interessava. Estamos distantes, naquela terra distante, com algum distanciamento. Posso agora utilizar o meu comando à distância, para me recolocar, palavra quiçá perigosa. Será a distância uma atitude? “Só à distância se admira alguém, no tempo ou no espaço, porque nos não faz concorrência[i]. O texto vai de fugida, o horizonte mente, perdemo-nos agora, com a ajuda da Física, na distância focal: a distância entre o centro óptico de uma lente delgada e os seus pontos de foco. Mais descansado, olho a fotografia desfocada, descubro o tempo que já passou. Nada está no seu lugar e apesar do longe que se faz perto, a distância lá está, o tempo passa, a distância aumenta. E no entanto diminui, se tivermos em linha de conta o que já falta percorrer. Estranho, há linhas que ainda restam, que de não se cruzarem nos guiam, aproximando o que se parece afastar. Deixo de pensar se vale realmente o esforço, já que na distância que nos une, está a força que nos separa.
Atitude?

11 de Fevereiro de 2009
Alf
[i] "Conta-Corrente 4" , Vergílio Ferreira

31 dezembro 2008

Venha então 2009!


In the terrible night, natural substance of every night,

In the night of insomnia, natural substance of all of my nights
I remember what I did and what I could have done in life
I remember, and an anguish
Spreads itself all throughout me like a shiver or a fear…”
“In the Terrible Night”, Alvaro de Campos







Regressamos de uma viagem de muitos dias, muitas horas sem sono. Deixamos para trás muitos sonhos, algumas certezas, poucas esperanças. Sempre são 365 dias de caminho, temperados aqui e além por algum Sol, que me lembre acompanhado por brisas suaves, às vezes nem tanto, muita poeira decerto, acabamos por suportar tudo sorrindo para dentro, uma imagem repetida vezes sem conta.

Esperamos pela passagem, quiçá para uma outra dimensão. As horas e os minutos contam aqui com a imensidão da espera. Apesar de muito haver para contar, poucos serão talvez os momentos que recordamos com um sorriso; alguns porventura irónicos, não nos trazem senão um encolher de ombros, tanto faz. O podia ser melhor seria talvez o desabafo de quem não consegue traduzir o que vai na alma.

Precisávamos contudo de mais algum tempo para a passagem. Não é justo que, assim de um momento para outro, venha um Novo qualquer e tenhamos que conviver com ele, nem o conhecemos, que diabo. Vida nova? Talvez, com os mesmos, sempre os mesmos desafios. Há mais além uma nuvem que ameaça chuva, que pode talvez lavar a sujidade que por aí existe, nunca é bastante, já que parece não haver forma…

Acreditamos, sim é possível, fica-nos a imagem desta viagem. E se o sonho tem cor, que esta seja a cor daquela imagem. Para que fique a sensação que não desistimos, que ainda há força para transmitir ao Novo que estamos atentos, que não queremos simplesmente passear mais um ano, mas antes passar a palavra, passar á acção. Apesar de, em certa medida, ser uma noite terrível, acreditamos pois, porque “…Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão / há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não

31 de Dezembro de 2008
Alf
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Colaboração desinteressada (penso eu…) de Manuel Alegre, na “Trova do Vento que Passa”

30 dezembro 2008

O VERDADEIRO CAVACO

A comunicação de ontem (29 de Dezembro) ao País do Presidente da República marca mais um episódio de intriga palaciana entre órgãos de soberania, segundo os opinion makers habituais। No entanto, a questão do Estatuto Político-Administrativo dos Açores passa à margem da grande maioria das pessoas, porque irrelevante para a sua via e o seu futuro imediato; quem de facto se interessa pela matéria em apreço, mesmo falando da população (quantos serão mesmo?) do arquipélago? Não deve passar de uma boa meia-dúzia, se tanto… O que significa então toda esta história? Começo por dizer não estar minimamente interessado na polémica levantada, estou-me perfeitamente nas tintas para o dito Estatuto e para as regiões autónomas que só levam dinheiro dos contribuintes, particularmente a Madeira; mas essa é outra questão. O que fica é, em meu entender, a verdadeira face de Cavaco.

Primeiro: diz Cavaco que “… é muito importante que os portugueses compreendam o que está em causa neste processo”; e ainda: “…o que está em causa é o superior interesse do Estado português”. A bem dizer, uma questão de vida ou de morte, de perda de soberania, talvez uma Aljubarrota ao contrário, uma invasão de ETs; francamente, dá mesmo para rir, se a altura fosse mesmo de rir


Segundo: diz Cavaco que se trata “…de uma solução absurda, como foi sublinhado por eminentes juristas. Mas o absurdo não se fica por aqui. A situação agora criada não mais poderá ser corrigida pelos deputados”. O PR considera que uma lei aprovada por mais de 2 terços dos deputados é absurda, porque em seu entender “…o Estatuto … introduz um precedente muito grave: restringe, por lei ordinária, o exercício das competências políticas do Presidente da República previstas na Constituição”.

Terceiro: para Cavaco “… está também em causa uma questão de lealdade no relacionamento entre órgãos de soberania। Será normal e correcto que um órgão de soberania imponha ao Presidente da República a forma como ele deve exercer os poderes que a Constituição lhe confere?” O que parece leal para Cavaco era seguir a opinião dele e pronto…


Nunca este homem se manifestou de forma tão clara contra as instituições da Republica como neste caso. Impotente para resolver um problema menor, cria (eu acho que é ele que cria…) uma putativa crise, que não passa dos corredores do poder, dado que a maioria da população nem sequer faz ideia do que se discute. Nem a crise, nem as dificuldades subjacentes para o povo, nem a crescente pauperização da classe média, merecem deste homem mais do que declarações de rotina. O dramatismo colocado neste dossier de discutível interesse, mostra a verdadeira face de Cavaco: a de líder autoritário, com desejo de poder absoluto.
Parece estar de volta o homem que foi 1º ministro de Novembro de 1985 a Outubro de 1995, que desbaratou milhões dos 2 primeiros Quadros Comunitários de Apoio (o 1º começaria em 1988, até 1993). Foram 10 anos de oportunidades perdidas: por dia entravam em Portugal 1 milhão de contos de fundos estruturais; para além de estradas, pontes e muitos “elefantes brancos”, o que se fez com esse dinheiro para o melhoramento do país real, por exemplo, na saúde, na educação, no investimento em formação profissional, na agricultura, no desenvolvimento industrial?

Pois é Cavaco, a gente não esquece isso, mais o “deixem-nos trabalhar”, as “forças de bloqueio” e outras que tais; podes ter a certeza que lutaremos com todas as nossas forças para que não tenhas um segundo mandato…

29 de Dezembro de 2008
Alf
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20 dezembro 2008

NATAL 2008

Em cada esquina uma amostra de cidade, uma pequena réstia de vida, uma série de sinais exteriores de nada, um vazio simbólico, uma pedra para atirar (um sapato, quiçá?), uma pequena revolta interior contra, não interessa quem. As luzes já não são neutras, o azul por exemplo já não é celeste, é tmn pois! Pagamos ousadias, desconfigurando a realidade, estamos porventura no centro de acontecimentos que podem transformar qualquer coisa que não sabemos bem, há sempre uma hora em que seremos protagonistas, uma cena patética de televisão, uma promessa? A vida será mesmo feita de pequenos nadas? Passeamos para lá e para cá, a vida é um grande centro comercial, as vaidades pagam-se caro, a euribor está descendo ou subindo (?), os bancos da cidade já não estão no jardim, mas moram em cada esquina, fazem medo porque tudo controlam. Há uma desconfiança crescente, parece que nada está no sítio, excepto a pobreza, essa sim que dia a dia se vai acentuando, um certo alheamento até que nos entre porta dentro, vemos ouvimos e lemos, mas parece que ignoramos. A ponte já não é uma passagem para a outra margem, porque nos dizem que tudo é global, que pena já não haver outra margem. Se tentamos partir para outra, há sempre alguém que nos diz: tem cuidado!

Enfim, é Natal, todos os anos acontece. Cá estamos para o receber, ou ele a nós, tanto vale. Enfiamos um capuz encarnado e sermos o tal pai (mãe, pois…) que sonhamos, porque temos a isso o tal direito. A hora de agir fica para depois, estamos de tal forma desatentos, que até toleramos, afinal somos todos desiguais de tanto iguais que nos querem fazer…

22 de Dezembro de 2008
Alf

12 dezembro 2008

O Rio continua…
“Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi…”

“Evadido”, Fernando Pessoa

A partir de agora, ou mais propriamente a partir de 28 de Novembro, o RIO TORTO continua, cada vez mais torto, mas de uma forma muito especial. Alguém se lembrou de editar as crónicas que, desde finais de 2003, venho editando no blogue. Foi uma prenda de anos muito especial, muito querida, da Bela, minha companheira de sempre, com muito amor e carinho, uma edição em exemplar único, que fica no coração, da parte de quem me vem apoiando, aturando, acarinhando desde há muitos anos a esta parte. Um gesto inesquecível, não há palavras que possam testemunhar esta gratidão que procuro descrever. Convém lembrar as ajudas preciosas do Bruno, do Pedro e da Belinha a esta empresa. Vai este rio caminhando ao sabor das minhas loucuras, de pensamentos e sonhos, sem oprimir as margens e dando margem à imaginação, que não procurando poder, tenta subverter os poderes vulgares (os pequenos poderes?). É que não sei mesmo porque certas coisas devem ser escritas, fixadas quiçá em momentos significativos, sombras que se desvendam e outras que ficam para sempre numa qualquer sombra. Para o futuro, o rio não corre mesmo para o mar (porque tem que ser?), vai simplesmente correndo, devagar ou mais depressa, consoante os ritmos que lhe quisermos transmitir.
Fica a promessa de alguns afluentes se juntarem qualquer dia a este Rio…

28 de Setembro de 2008

26 novembro 2008


Luxury please….



“Quando a verdade for demasiado débil para se defender,
terá de passar ao ataque”
Bertolt Brecht

Simplesmente inenarrável, em tempos que se dizem de crise, a inauguração na passada semana da "Luxury, Please", uma feira de alto luxo, em Viena de Áustria. Feira porventura de vaidades inconfessáveis, ou simples depositório de um fausto que parece cavalgar na imbecibilidade típica de um certo estrato cada vez mais afirmativo, na improvável complacência de uma sociedade injusta. Deixem entrar o luxo, please também temos direito, poderia ser o lema deste evento. Desnecessário enumerar objectos e bens de consumo imediato para ricos. Seria porventura profiláctico organizar uma “visita de estudo” a esta feira, para avaliar, por exemplo, um armário em estilo rústico de 100 mil euros, ou um bonsai de 30 mil euros, que faria decerto as delícias de uma qualquer família sub-nutrida de África.

No reino da mais completa obscenidade, onde os crimes de colarinho branco se multiplicam ao que parece com a complacência dos Estados, que rapidamente se apressam a socorrer, a palavra de ordem “Luxo please”, agride os milhões de pessoas de bem que diariamente são castigados e remetidos a situações de pobreza crescente.

A ordem do mundo parece não estremecer perante a pompa e ostentação, luxúria pois. Procurando mais a fundo encontramos imundície, porcaria e sujidade nos tais sinais exteriores de uma riqueza, onde os chamados super-ricos desafiam a sorte ingrata de uma intolerável intolerância.

Na mesma Viena do "Luxury, Please", onde há cerca de um mês a France Press anunciava a abertura de supermercados para pobres….

24 de Novembro de 2008
Alf

10 novembro 2008


Mãe Africa

Dela diria Nelson Mandela “…a mãe de nossa luta e da nossa jovem nação”. A “Mãe Africa”, para os sul-africanos, para todo o Mundo, que encantou gerações, desde o final dos anos 50. A cantar e a encantar, a diva falava paz e solidariedade, falava amor contra as injustiças. Haverá titulo mais belo, dessa Africa tão distante e tão perto da nossa imaginação, “Mãe Africa”? Dela haveremos sempre que recordar o sorriso solidário, a força na luta contra o apartheid, mais de 30 anos de exílio. Agora viaja (esse o seu desejo ultimo) em cinzas no Oceano Índico, "assim eu vou poder viajar de novo para todos esses países",

Bem hajas Mirian, no Índico e toda a parte, haverá sempre muitas e muitos a continuar a tua luta!

03 novembro 2008


O Governo nacionaliza um banco comercial, em reunião de emergência efectuada no passado fim-de-semana. Surpresa? Talvez, se admitirmos que esta medida não terá tanto a ver com a putativa crise dos mercados financeiros, mas sim com uma data de ilegalidades, atropelos e demais aldrabices praticadas pelos responsáveis do BPN, onde se encontram nomes conhecidos da praça pública como Miguel Cadilhe, Dias Loureiro, Neves Santos, Irmãos Cavaco; o chefe da banda, Oliveira e Costa foi, no final da década de 80, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, com um poder quase discricionário na máquina do Fisco, tendo sido conhecido pelos célebres perdões fiscais; foi aliás durante esse período que conheceu alguns dos futuros accionistas do banco…

A justificação da Governo para nacionalizar esta empresa é completamente falsa. Mais uma vez, uma falácia. Senão reparemos: na semana passada a CGD faz um empréstimo de 200 milhões de euro neste Banco; para quê? Apenas mais um balão de oxigénio a uma empresa que teve uma actuação danosa nos últimos anos e acaba sob a protecção do Estado. E que faz (que fez) o Banco de Portugal? O mesmo que no caso do BCP, ou seja, absolutamente nada; aliás vem agora o inefável Vítor Constâncio (o tal que ganha mais que o Presidente da Reserva Federal americana) dizer que o controle não é fácil, que há limitações, etc…, etc…
Uma actividade perniciosa para a economia nacional, vários processos judiciais por suspeita de fraudes e outras irregularidades que se calhar nem imaginamos, perdas totais que ascendem a 700 milhões de euros, é o panorama de uma instituição, cujos responsáveis deveriam ser julgados e culpabilizados pelo roubo (não tem outro nome…). Como no caso do BCP, o mais provável é ficar tudo na mesma, em boa verdade em vez de serem responsabilizados, os verdadeiros responsáveis já devem ter acautelado os seus bens e quem sabe se daqui a uns meses não estarão a gerir uma qualquer empresa pública. Vale a pena ilustrar aqui 3 singelos exemplos de aquisições feitas pelo banco, entre 2005 e 2006: quarenta milhões de moedas do Euro 2004, alguns quadros de Miró e jóias egípcias; se somarmos a estas, a aquisição do Banco Insular de Cabo Verde, no valor de 360 milhões de euros e misturarmos tudo isto com a utilização frequente de contas em bancos "off-shore" para evitar o pagamento de impostos, temos o cenário ideal para incriminar estes (i)responsáveis; vamos ver, não é verdade?

03 de Novembro de 2008
Alf

18 outubro 2008






Eu também ACUSO, claro que haverá mais que também acusam, eu sei, porém eu quero acusar hoje o Governo de Portugal pelo dinheiro que deu à Banca, por estes dias. Foram 20 mil milhões de euros, sob a forma de garantia, que deve dizer-se, é dada àqueles que foram os responsáveis e beneficiários da dita crise. Antes, os que mais defendiam “menos estado”, como o impagável António Borges, grande mestre de economia, esse salvador da Pátria, que nem o partido dele salvou que louvava (ainda há alguém que se lembre disso?) o “subprime”, vêm agora aplaudir “mais estado”. A mais descarada especulação, o incremento da já designada “economia de casino”, os lucros fabulosos da Banca que agora pede dinheiro, apenas para manter uma situação de privilégio escandaloso, a mandar e a controlar de perto a economia mundial que lança na miséria cada vez mais pessoas.

E o mais grave da cena é que a “dadiva” à Banca é feita sem quaisquer condições, sem a exigência de quaisquer garantias; ou seja, o Governo se não regula coisa nenhuma, apenas está a contribuir para que a Banca continue a sua politica de especulação. Pergunto; quem é responsável por esta situação? Não deveriam ser os banqueiros a solucionar o problema que eles próprios criaram? Não deveria o Governo proteger os interesses do elo mais fraco, ou seja garantir os depósitos dos contribuintes? Que eu saiba, se uma empresa não tem dinheiro, então o(s) empresário(s) não têm outro remédio senão injectar capital. Não esqueço também que esta mesma Banca beneficia ainda de uma protecção especial que é consubstanciada no facto de pagar quase metade do IRC que as outras empresas. E é por isso mesmo que considero uma VERGONHA, um Governo que se diz socialista, tome esta medida, quando há muito tempo deveria ter:
• acabado com o sigilo bancário
• posto fim ao off-shore da Madeira
• igualado a situação do IRC da banca às das outras empresas
• controlado as actividades especuladoras
• adoptado uma politica de protecção das pequenas poupanças
• controlado de facto a subida das taxas de credito á habitação, que penalizam os menos ganham.
Então, por isto tudo, EU ACUSO. E acudo com a consciência tentar contribuir para mais alguns (espero que muitos…) se levantem e mostrem a sua indignação, numa altura em que se fala na erradicação da pobreza. Estima-se que existam hoje, a nível mundial 980 milhões de pobres, leia-se pessoas que “sobrevivem” com menos de 1 dólar por dia. Era (digo eu…) uma altura mais que adequada para este Governo tomar uma medida (ou varias medidas) que as pessoas vissem na realidade de protecção aos mais fracos. Convém não esquecer que em Portugal, quase 20% da população, ou seja 1 milhão e 800 mil, vivem abaixo do limiar da pobreza. E não basta a, José Sócrates dizer que “o Orçamento de aposta nas famílias e empresas” e que “…para o Governo 400 euros é o limiar da pobreza”. A realidade, segundo um relatório da OIT hoje conhecido, é que em Portugal o fosso entre os que ganham mais e os trabalhadores que ganham menos está a aumentar; mais, o nosso País faz parte do grupo de países que registou maiores aumentos entre os 10 por cento de trabalhadores que ganham mais face ao mesmo número que recebe menos. Enfim, mais uma VERGONHA…
Estamos nesta Europa, uma das zonas mais ricas do mundo e, mesmo assim, com 78 milhões de pessoas a viver no limiar da pobreza.
Agir e não ficar indiferente é pois a palavra de ordem!

18 Outubro 2008
Alf.

05 outubro 2008



Promiscuidades…


O Tribunal de Contas publicou uma auditoria que visou designadamente a análise das consequências jurídicas, económicas e financeiras decorrentes do novo Acordo celebrado entre o Estado e a LUSOPONTE SA, no ano de 2000, na sequência do 2º contrato de concessão datado de Março de 1995. Entretanto quem vai defender os interesses da LUSOPONTE na renegociação do contrato com o Estado sobre as travessias rodoviárias do rio Tejo é a dupla Jorge Coelho (PS) / Ferreira do Amaral (PSD), os dois ex-ministros que anteriormente negociaram em representação do Estado o contrato de concessão e os acordos de reequilíbrio com a dita empresa. Para o Tribunal de Contas, a LUSOPONTE saiu sempre a ganhar nas negociações que fez com o Estado. Convém lembrar que foi durante o cavaquismo que a empresa se tornou dona e senhora do Tejo. E é importante que se saiba (para quem não sabe, claro…) que o Ferreira do Amaral é actualmente Presidente do Conselho de Administração da LUSOPONTE e que o Jorge Coelho é agora Presidente Executivo da MOTA-ENGIL. Fantástico! Antes negociaram do lado do Estado os contratos com a LUSOPONTE; agora, negociam “do outro lado”. Mas há mais: Murteira Nabo que agora é Presidente Executivo da GALP irá presidir à Comissão Executiva criada pelo Governo para decidir as negociações com a LUSOPONTE.

Para quem não está atento são mais umas nomeações, afinal são invariavelmente os mesmos nomes, estão ao que parece em todo o lado, ou melhor passam de um lado para o outro com toda a tranquilidade e a gente a vê-los passar, ou melhor a mudar…

Se isto não é PROMISCUIDADE, vou ali e já venho…

04 de Outubro de 2008
Alf