rio torto

rio torto

19 julho 2009

ADRIANO


A única salvação do que é diferente
é ser diferente até o fim,
com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade;
no fim de todas as batalhas …
há-de provocar o respeito
e dominar as lembranças"

Agostinho da Silva, in 'Diário de Alcestes'





Partiste. E porque partiste estamos tristes e saudosos, lembrando o amigo, o companheiro de lutas antigas, o camarada, sempre atento às injustiças e à indiferença. Tantos anos de convívio, quantas saudade agora da tua serenidade e atenção; porque sabias sobretudo ouvir e irradiavas simpatia e sabedoria. Mesmo na fase mais aguda da doença nunca perdeste o contacto com a realidade. Adriano, professor de línguas, na latinidade da origem do teu nome, a suavidade constante da tua presença. Adriano, o sindicalista, um homem íntegro, inteiro, na dignidade da sua intervenção, de quem os seus pares sempre disseram: “o melhor de todos nós”. Pena faz que partam assim tão cedo homens desta dimensão, ficamos sempre mais pobres, perante quem faz realmente a diferença. E sabemos que Adriano era diferente, na nobreza da amizade, no porte firme da defesa de causas e princípios que compartilhamos, aprendendo a construir ideais, desconstruindo ao mesmo tempo os mitos e conceitos da indiferença e do medo.

Bem hajas, querido amigo. Aristóteles dizia que “…sem amigos ninguém escolheria viver, mesmo que possuísse todos os demais bens(1) . Nós viveremos todos os dias um pouco por ti, para que, lá de uma outra dimensão que nunca conheceremos, possas eventualmente dizer: valeu a pena VIVER!

19 Julho 2009
Alf.
----------------------
(1) Aristóteles, in 'Ètica a Nicómaco'

28 junho 2009

A COR MORRE EM JUNHO?


“…They give us those nice bright colors
They give us the greens of summers
Makes you think all the worlds a sunny day, oh yeah
I got a nikon camera
I love to take a photograph
So mama dont take my kodachrome away

“Kodachrome”, Paul Simon, 1973








Morreram. As duas com diferentes idades. Uma, na flor da idade, 16 anos, de seu nome Neda Aghda-Soltan. A outra na chamada terceira idade, aos 74 anos, conhecida por Kodachrome. Mortes que chocam por razões diversas e que se ora se choram.

Neda foi assassinada pela milícia islâmica Bassidj, no Irão (26 Junho); em Farsi (1) o nome Neda significa “voz”. Uma, entre tantas outras que se manifestavam, pela liberdade de expressão, num país teocrático, muçulmano fundamentalista, que desenvolve sofisticados armamentos, mísseis e satélites, praticamente já em condições de fabricar a bomba nuclear, continua mergulhado na escuridão, ignorando a Declaração Universal dos Direitos Humanos, onde a mulher não conta quase para nada, discriminada pela lei e sociedade iraniana: o seu testemunho em juízo vale metade do que o testemunho de um homem, tem apenas direito à metade de uma herança que seus irmãos recebem, precisa da permissão de seu marido para trabalhar fora ou deixar o país, etc…

Kodachrome foi “morta” – desactivada pela Kodak (23 Junho), após mais de 70 anos de sucesso no mercado mundial, aquela que foi a primeira película de cor a chegar ao mercado. Aparentemente porque nos dias de hoje, 70 por cento das receitas da Kodak provêm da fotografia digital, cabendo à Kodachrome apenas 1 por cento das vendas totais da marca.

Quase parece a morte da cor, num mundo cinzento, ou a preto e branco, como parece ser a tendência fatal. Num caso, como no outro, está em causa a diversidade, ou a falta dela, a luta pelos direitos humanos, conjugada com as leis do mercado, para quem as pessoas não contam, ou só contam como números, estatísticas e “relatórios de progresso”. Nós, que somos pelo colorido, pelas cores vivas da diferença, da pluralidade, da vida “…je vois la vie en rose(2) , poderíamos eventualmente proclamar / reclamar: cor volta, estás perdoada!

Alf.

---------------
(1)Língua Persa
(2)“La vie en rose”, Édith Piaf, 1946

22 junho 2009



O Comboio 621…



Passam-se as horas,o relógio na parede,

conta sem parar,os minutos e segundos,

que se passaram,e não mais irão voltar…”
“As horas”, Poema estúpido, Anónimo do século XXI



Às tantas ninguém deu por nada à excepção de umas quantas centenas de intrépidos passageiros que por volta das 5 e meia da tarde se meteram numa aventura sem pensarem que tal poderia acontecer o que é facto é que o 621 das linhas regulares vulgarmente chamadas de intercidades de Lisboa para o Porto vencendo todos os desafios da designada “alta velocidade” cruzou as linhas e gastou umas singelas 9 horas mais 1 quarto para chegar ao destino desafiando assim qualquer recorde de um autêntico “voo” intercontinental que se cuidem pois os grandes Airbus e congéneres dado que a nossa CP ciosa da sua qualidade ímpar nos brindou com a mais longa viagem de que há memória desde a ultima Vá lá saber-se a razão ele há sempre uma (ou 2, pelo menos) para tão grande caminhada que faz lembrar os gloriosos tempos do far-west de que eu muito sinceramente também não me lembro o estranho da coisa é que parece ter avariado a máquina que puxava nada mais nada menos que 14 carruagens cuja começou ao que parece por não se dar bem com os ares mais que sagrados de Fátima e daí para a frente foi um incontável número de paragens sucessivas das quais a informação só era dada aos passageiros (quando era) meia-hora depois mas foi bonito de ver a solidariedade entre os ditos formando pequenos grupos de conversa real embora o que esteja na moda seja a dita mas virtual Não interessa para nada claro o desespero evidente de uns quantos insatisfeitos que sempre vêm na CP um inimigo a abater embora difícil porque é muito “pesado” nem tão pouco uns e umas que se iam queixando de não chegar a horas (imagine-se!) para tomar um qualquer medicamente ou para aquele jantar de 6ª feira e uma mais que provável sessão de copos o certo é que pouparam dinheiro e agora vão ser todos reembolsados de acordo com a lei ele há pessoas terríveis que não alcançam os benefícios da calma como no Alentejo ou na África profunda pois 9 horas mais um quarto (de hora) com tantos pedidos de desculpa para chegar à Invicta assim chamada por albergar cidadãs e cidadãos que gramam o Pinto da Costa e outros que tais Bem é caso que pelos vistos não deu notícia muito embora tenha havido quem alvitrasse a entrada intempestiva da Manuela Moura Guedes no comboio para um directo de sucesso na sua TVI que nada eu nem vi nenhum jornal a noticiar a patética cena de uma companhia zelosa dos interesses dos seus clientes com a nossa CP que até poderia significar “caminhos perdidos” estão a ver perdeu o Norte e não conseguia chegar ao Porto até que tem alguma lógica tanta vai perdendo o dito todos os dias com tanta chatice que por aí anda tanta merda escondida com o rabo de fora (às vezes nem rabo se vê) então uma máquina não pode avariar pois sim que pode ainda há quem queira e sugira um qualquer transporte alternativo isso é que era bom gasta-se muito dinheiro tem é que se poupar para a Crise o tempo é sempre relativo só não vê quem está sempre de pé atrás e só sabe dizer mal dos outros Eu até gostei à excepção de a dada altura ter ido ao Bar para comer qualquer coisa e só havia pistáchios e pilhas que nem eram alcalinas nem nada mas enfim as coisas são como são e não é justo que à chegada à mítica estação de Campanhã alguns funcionários da querida CP fossem brindados com epítetos menos próprios que me escuso por decência a proferir mas que posso adiantar que iam do típico “filhos da puta” até ao autêntico “caralho de incompetentes”ora essa não está bem digo eu porque no fundo se tratava “apenas” de um “pequeno”atraso E que dizer daquelas e daqueles (muitos mesmo) que em Coimbra (ou em Pombal, já nem me lembro) abandonaram o “seu querido 621” para se meterem num outro que seguia na mesma direcção para viajarem de pé ou acantonados pelos corredores bolas para a segurança ainda por cima esse mesmo trem abalroou um (ou uma não sei bem) incauto que estava no meio da linha enfim mais um acidente lamentável a perda de uma vida mas menos 1 para as estatísticas do desemprego Meu querido 621 jamais te esquecerei para mim a CP continua a ser a CP mesmo que tal signifique por exemplo “cambada de parvos” ou “corja de parvalhões” ou até “cretinos de Portugal” muito embora esta ultima não seja nada de original Bem hajam será vosso o reino sagrado da incompetência ireis direitinhos para o caixote do lixo sem direito a reciclagem isto tudo a bem da nação (cruzes credo).

21 Junho 2009
Alf.

18 junho 2009




Uma "lógica" chamada politicamente correcto…










Now watch what you say
Or they'll be calling you a radical
A liberal, oh fanatical, criminal
Oh won't you sign up your name
We'd like to feel you're
Acceptable, respectable, oh presentable, a vegetable!”
“The Logical Song”, Rick Davis – SUPERTRAMP (1984)



Sócrates e Cavaco bem se podem juntar num dueto (sem cordas), embora a probabilidade de lhes dar mais corda, esteja agora provavelmente no grau zero. O Partido Socialista tinha tudo a seu favor, no início de uma legislatura, com maioria significativa, para tomar opções correctas. Claro que isto não é mais que uma frase feita, dado que a interpretação de “correcto” é mais que discutível. De rupturas falo eu e não de tímidas “reformas” que mais não significam deixar mais ou menos tudo na mesma, apesar dos delírios festivos do “simplex”, do “magalhães” (por exemplo) terem dado algum colorido, quiçá enganador. Talvez algumas consciências de boa-fé pudessem ter ficado ofuscadas com a posição do PS sobre a IVG; ou até porventura nalguns casos de sucesso evidente das “Novas Oportunidades”, um avanço democrático para cidadãs e cidadãos que viram finalmente as suas competências reconhecidas. “Nova Oportunidade” que Sócrates não mais terá. E que, em minha opinião, nem sequer merece. Da pompa e circunstância com que foi eleito há uns meses atrás secretário-geral com 97,2% (a comparação de má memória da reeleição do presidente da Coreia do Norte, não passa de uma simples coincidência, claro…), o homem que “calou” no partido as vozes discordantes, ficará para sempre com o ónus da arrogância (a que ele chama “determinação”), do autismo (que ele designa de “falta de propostas alternativas”), do atropelo aos direitos dos trabalhadores (que ele classifica “modernização e flexibilização”), enfim, da má consciência de “esquerda” que pretendeu sempre incutir nalguns incautos (?). E não é por acaso que se volta a falar no malfadado “bloco central”, a terrível mancha cinzenta social e politica, que por essa Europa fora vai infelizmente proliferando, “graças” ao mais que evidente fracasso dessa esquerda travestida, de que o “nosso” PS é um lídimo representante. E se não bastasse isso, ainda por cima toda a direita conservadora e alguma direita nazi-fascista ganham força.

Assustador pois é agora o panorama europeu. O “cherne” é pelos vistos o que está a dar e já se prepara para o segundo mandato. Com o aplauso de Cavaco. E aqui, mais uma vez, o Partido Socialista vai atrás de toda a direita, contribuindo para mais uma presidência de direita da Comissão Europeia. Convém lembrar a propósito que os governos europeus, para além de estarem a pôr em causa o modelo social europeu, estão 40 mil milhões de euros aquém de cumprirem as suas promessas relativas à Ajuda Pública ao Desenvolvimento (1) e permitem a proliferação descarada de todas as tropelias financeiras, alimentando bancos e banqueiros, à luz do liberalismo económico, a cujo modelo estão agarrados e de cujos privilégios afinal beneficiam.

Muito embora eu nada espere de Sócrates e seus acólitos, há decerto dentro deste Partido Socialista muitas pessoas de bem, que abertamente defendem soluções de esquerda, quer para o nosso País, quer para a Europa. Mas claro está eu nada ter a ver (antes pelo contrário…) com este PS.

17 Junho 2009
Alf.
(1) Dados de Maio 2009, constantes do relatório publicado pela CONCORD, a Confederação Europeia das ONG de Desenvolvimento

06 junho 2009


ONGD apelam aos Europeus que votem contra a Pobreza

Na véspera do Dia da Europa, as Organizações Europeias para o Desenvolvimento vão lançar uma campanha em toda a União Europeia com o objectivo de destacar o papel da UE no mundo e encorajar as pessoas a votar nas eleições europeias que vão ter lugar de 4 a 7 de Junho de 2009.

Assim sendo, a campanha "10Days4Development", que decorrerá de 9 a 18 de Maio, incentiva os eleitores a perguntarem aos seus candidatos ao parlamento europeu o que pretendem fazer para promover o desenvolvimento internacional e para combater as alterações climáticas, caso sejam eleitos.

Por toda a Europa, as ONG internacionais de desenvolvimento estão a organizar actividades, incluindo debates públicos, reuniões com políticos, campanhas de sensibilização, sondagens de opinião e assim por diante, destacando a responsabilidade global da União Europeia e o impacto das políticas da UE sobre o mundo em desenvolvimento. Os eleitores podem obter informações acerca das actividades em curso no seu país, visitando até 7 de Junho:
http://10days4dev.wordpress.com

Numa altura de crise financeira, climática e alimentar e de economias interligadas, a acção internacional para resolver os problemas internacionais é mais importante do que nunca. Neste contexto, o Parlamento Europeu e os eurodeputados têm um papel crucial a desempenhar na definição das políticas europeias que afectam os pobres do mundo.

"Os eleitores europeus terão de decidir qual a Europa que querem: uma Europa aberta, solidária com os mais pobres, independentemente da sua origem, ou por outro lado uma Europa que construi cercas e favorece um modelo económico que exclui milhões de pobres do mundo, como demonstrado pela crise financeira em curso ", diz Ester Asin, responsável pela campanha do CONCORD.
O CONCORD apela a uma Europa que:
· seja coerente a nível social, económico, comercial e ao nível das políticas de segurança que promovam o desenvolvimento sustentável e cidadania responsável, tanto para os cidadãos da Europa como para os do resto do mundo;
· respeite os seus compromissos no que respeita a mais e melhor ajuda ao desenvolvimento, que promova os direitos humanos e contribua para a redução da pobreza a nível mundial;
· seja transparente, aberta e responsável perante os seus cidadãos.


Os eleitores não podem perder esta oportunidade de decidir quem querem que os represente por 5 anos.

------------------------
Notas:
· Manifesto do CONCORD (Confederação Europeia das ONG de Ajuda e Desenvolvimento:
www.concordeurope.org ) por ocasião das eleições europeias: diferentes línguas disponíveis. Clique aqui para a versão Inglês.
· A Plataforma Portuguesa das ONGD apoia esta campanha; este artigo é retirado e adaptado do sitio Internet da PALTAFORMA Portuguesa das ONGD:
http://www.plataformaongd.pt/site3/index.php?option=com_content&task=view&id=781&Itemid=1

13 maio 2009


CRÓNICAS CABO-VERDE 3: Sodade
Sodade invadi'm na peito
Sem consolo sem sossêgo sem um sonho
Ma pa mim um certeza
Bô é nha rainha Óh mulata cabverdiana
Tito Paris, “Ondas Di Bô Corpo”



Há silêncios que marcam momentos de sonho. Um olhar que baste numa qualquer esquina da vida. Enquanto os trópicos nos trocam as voltas, há um “Fogo de África” (1) que ninguém se atreve a apagar. A música das cordas, a disputa atrevida entre o violino e o cavaquinho, vai diluir-se no ritmo da morna. Há lugares assim, que alguns silêncios atestam e onde ficamos sem saber se a música nos transporta ao além como por encanto, ou se simplesmente ficamos encantados pela envolvente quente do lugar. Lembramos a tarde na Cidade Velha, nos penhascos agrestes, onde cada pedra é história de 6 séculos, com o seu vale atravessado por duas ribeiras que acabam por unir-se, formando um só curso de água e que criaram a paisagem luxuriante do vale e que lhe deram o nome de “Ribeira Grande”. Creio que alguém, lá do alto das ameias da fantástica muralha recuperada pelas populações, observa atentamente o mistério da música que brota das pedras antigas. Uma rota de sonho de ida e volta à Praia, mostra-nos pequenas aldeias lá em baixo. Provamos a deliciosa moreia frita (pela 2ª vez), saboreando o momento com os Amigos; e aqui é de toda a justiça que se fale no Abraão, no João Pedro, no Toy, guias, companheiros, camaradas das mesmas lutas, não há palavras que definam tanta simpatia, carinho e cumplicidade. Quase na partida, voltamos (tinha mesmo que ser) à música, a despedida ideal, com o sentimento das cordas, que nunca saberemos como e quanto nos apertam, há sempre um nome que nos fica, vá lá saber-se o significado de Eli, na terra do Fogo, uma inspiração de Aquário, uma saudade imensa, quiçá uma repartição de afecto e carinho que nos aperta, entre a partida iminente e o desejo de regressar aos ritmos, aos lugares, às pessoas, Transportemos então a música inesquecível das cordas, nos acordes e nos olhares que falam os mesmos sentimentos,



Simplesmente “sodade”……

http://www.youtube.com/watch?v=YFuRb7Fr5bQ
Praia, 7 de Maio 2009
Alf.
(1) Restaurante-Bar da Praia, com música tradicional de cordas de Cabo-Verde

CRÓNICAS CABO-VERDE 2:

APRENDER COMPENSA ou “Uma questão de Democracia

Assim mesmo, “Uma questão de Democracia” é entendida a proposta da E&O, constante do Projecto RVCC. Por essa e outras razões a Reunião de ontem (6 de Maio) com o Dr. Florenço Varela, director da DGAEA (Direcção Geral de Alfabetização e Educação de Adultos de Cabo-Verde), significou (mais) um passo importante para a consolidação do Projecto, quer do ponto de vista conceptual, quer nalguns aspectos operacionais que tivemos ocasião de abordar. Isto para além da enorme simpatia com que o senhor Director me recebeu; não nos conhecíamos ainda pessoalmente, apesar de termos contactado já diversas vezes por telefone e por mail; para mim foi um grato prazer contactar pessoalmente com o nosso Parceiro nesta grande aventura que irá ser decerto a implementação do processo, cujo pólo central será aqui, em Cabo-Verde, estendendo-se à Guiné-Bissau e S. Tomé e Príncipe. Trata-se de reconhecer, certificar e validar as competências dos adultos, adquiridos por via não formal ou informal, em diferentes contextos de vida e de trabalho e que, por qualquer razão, não tiveram acesso à escolarização. Trata-se de um instrumento para a melhoria dos níveis de qualificação da população adulta, para a elevação dos respectivos níveis de escolaridade e para a melhoria das suas qualificações, quer para o contributo que o mesmo pode significar para uma maior equidade no acesso à escolaridade, designadamente um maior equilíbrio nas qualificações de ambos os géneros.

É um Projecto da E&O, que há mais de 2 anos tem vindo a ser preparado, pelos nossos técnicos (alguns dos quais contribuíram para a implementação do sistema no nosso País), com os países referidos, com parcerias devidamente identificadas, todas elas empenhadas também no sucesso de uma experiência-piloto, cuja meta final é extensiva a todos os países de língua portuguesa. O principal impacto do sistema é o aumento dos níveis de escolarização da população a que se destina. Tratando-se de adultos com baixos níveis de escolarização e que abandonaram a escola precocemente, realizar com sucesso um processo deste tipo (isto é, obter uma certificação escolar) permite aumentar a sua auto-estima e criar o interesse em continuar em processos subsequentes de formação contínua, numa perspectiva de aprendizagem ao longo da vida. Para além disso, a obtenção de uma certificação traduz-se, muitas vezes, numa melhoria da situação profissional do adulto.

Decididamente pois “Uma questão de Democracia”, pelo cumprimento dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, nomeadamente o Objectivo 8: “Desenvolver uma parceria global para o desenvolvimento”. Uma questão de direitos humanos, pelo significado que enforma, no que reporta ao direito (e ao respeito) pela capacitação das pessoas e da sociedade civil.
O desafio está lançado ao Estado Português, nomeadamente aos responsáveis pela Cooperação Portuguesa, SENEC e IPAD, à CPLP e aos países que aderiram pela sua própria vontade na consecução desta iniciativa.

Praia, 7 de Maio 2009
Alf.

10 maio 2009

CRÓNICAS CABO-VERDE 1: a Intervenção


Sempre chegamos aos sítios aonde nos esperam
Do “Livro dos Itinerários”, citado por J. Saramago, in ”A Viagem do Elefante


De novo o calor de África, o estranho fascínio pelo Sul, pelos espaços de liberdade, ao menos espiritual. Cabo-Verde, das mornas e coladeras, que ontem saboreei no “Quintal da Música”, da calma da praia da Praia, da confusão completa do Sucupira (1) trazendo à memória o antigo Kinaxixi (2) da brisa dos fins de tarde. As habituais trapalhadas dos primeiros dias, misturadas com o apagão da Internet, mas sempre os Amigos que nos acolhem e nos fazem sentir em casa.
Desta vez para participar num Seminário de Formação Sindical, uma iniciativa da CPLP-SE (3) . E aqui de novo para falar sobre “Educação e Cooperação para o Desenvolvimento Sustentável”, para professores, sindicalistas do sector da educação e outros agentes de educação formal. Porque se tratava de um público especializado em questões de Educação, procurei ajudar a reflectir sobre as enormes responsabilidades do sector no que reporta aos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), um incentivo à promoção de acções concretas, junto de colegas, alunos, formandos, famílias e comunidades locais. A adesão foi deveras significativa, até pela “novidade” do tema, já que só uma pequena percentagem dos participantes tinha ouvido falar nos ODM. E, para além disso, a perspectiva da maioria das pessoas, sobre as questões da Cooperação Internacional para o Desenvolvimento era meramente assistencialista. Muito importante foi de facto, abordar o verdadeiro sentido (e significado) do conceito APD (4), em que consiste, como funciona, os programas e incitativas comunitárias (União Europeia) para os países em desenvolvimento, muito embora este País esteja colocado numa espécie de “limbo”, nas classificações internacionais. Também algumas questões operativas e ter em conta, neste contexto.

Um pormenor muito significativo que me foi dado observar tem a ver com o gosto e orgulho em ser Professor. Embora eu não seja (apesar de o ter sido em tempos) sei o que se vai passando no meu País, onde considero que a função (missão?) de professor está completamente desprestigiada; penso aliás, que chega a ser alarmante a situação no Ensino em Portugal, nas escolas, onde o Professor deveria ser respeitado, dada a responsabilidade que tem na formação das crianças e dos jovens, para uma sociedade mais justa, mais equilibrada, onde a problemática do Desenvolvimento Sustentável é uma questão transversal de enorme significado, para uma Cidadania Global responsável.

Assim, estes encontros muito nos ensinam. O discurso poderia eventualmente perder-se (tantas vezes acontece…) nas apertadas fronteiras da formação tradicional. Desta vez porém, o sentimento é outro: acreditamos todos, organizadores, formandos e formadores, ser possível uma transformação, se bem que por vezes difícil de definir e mesmo de concretizar: de atitudes, de vontades, de metodologias e estratégias visando resultados, a curto, médio ou longo prazo. Acreditamos que vale a pena, que pode realmente fazer a diferença, uma postura de confiança, num Mundo melhor, mais justo. E são as gerações mais novas que devem ser alertadas para as questões globais, como a luta contra pobreza e a marginalização de 2 terços do Planeta, da erradicação do analfabetismo, entre tantas outras, numa perspectiva de mudança; para tal, devem saber o que se passa no Mundo, conhecer o passado, analisar o presente e aprender a perspectivar o futuro. É uma Missão do Professor e, os responsáveis políticos devem entender, de uma vez por todas, que nenhuma “reforma” se faz contra os professores, mas sim com os professores.

No Seminário da Praia sentimos solidariedade, muita confiança, muito respeito e alegria de viver; de passar a palavra e espalhar a notícia, pelo menos nas 10 ilhas deste Arquipélago. Daqui partiremos para os outros países de língua portuguesa. Com algum sacrifício, diga-se de passagem, uma vez que representa um grande investimento, para o qual (para já) os organizadores não têm a sustentabilidade financeira que gostariam. Que sirva esta crónica pelo menos para chamar a atenção daqueles que têm a responsabilidade da repartição de verbas, em Portugal, mas não só, já que parece haver situações de desperdício noutros países da CPLP. Para todos, a mensagem é muito simples: provar na prática e no terreno a vontade expressa em apostar na Educação para o Desenvolvimento Sustentável.

Atenção CPLP, estaremos atentos!
Praia, 2 de Maio 2009
Alf.


-----------------------------
(1) Mercado tradicional da Praia
(2) Antigo Mercado de Luanda, demolido para construir um grande Centro Comercial
(3) CPLP-SE: Comunidade das Organizações Sindicais de Professores e Trabalhadores em Educação dos Países de Língua Portuguesa, Sindical da Educação.
(4) Ajuda Pública ao Desenvolvimento

25 abril 2009



Onde estavas???



Vem à ideia a frase do BB “mas afinal onde estavas no 25 de Abril?" olha eu estava na cama a dormir eram umas 9 e meia da manhã quando o Vilas me bate à porta e diz “então a dormir e a Revolução na rua…” não pode digo eu é verdade diz ele e lá fomos os dois tanta gente na rua mas ainda não havia a certeza só lá para a tarde se percebeu a libertação a alegria o gozo que deu ver a polícia a fugir dos militares que maravilha já lá vão 35 anos tanta água que passou tantos encontros e desencontros “a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida" o gesto incontido a emoção dos momentos que passamos e passeamos pelas Avenidas da Liberdade que fomos conquistando com luta porque é com luta que se luta sempre e agora há quem pense que agora que tudo temos e nada vemos sentimos “apenas” sinais preocupantes de arrogância descaramento e prepotência às vezes até custa a acreditar que acontecem cenas como as de Faro e de Braga mas é verdade que parece haver medo quem cala consente e é por isso que eu não me calo porque não posso ignorar mas o certo é que a miséria assusta e sente-se e convive-se com ela com aparente tranquilidade Será que é recorrente o apelo à indignação quando nos entra todos os dias pelos olhos e ouvidos mais um escândalo mais uma fraude mais um descarado roubo daqueles que parecem estar à margem da decência e das próprias leis do tal estado de direito de que tanto nos falam e que parece mais que torto no pior sentido do termo Avancemos pois para as grandes obras que nos ligam à Europa isso é que interessa uma porra e mais centros comerciais e às tantas era aí que se deveria marcar o 25 de Abril afinal é onde as pessoas andam meias tontas “sem eira nem beira” pois é senhor engenheiro lembro-me agora “…aprende a nadar companheiro que a maré se vai levantar” parece que a que a liberdade já não está a passar por aqui uma Maré Alta que faça muita e muitas ondas para ver se gente acorda de vez porque “… o que é preciso é agitar a malta empurrar a malta animar a malta dar poder à malta…” isto de pequenas reformas não vai lá não senhor (engenheiro?) é preciso repetir mais uma vez que Abril não é evolução mas sim Revolução não tenham medo da palavra ou então tenham mesmo medo porque ele agora existe que diabo mas vejam bem que “…por morrer uma andorinha não acaba a primavera” como tal ainda há esperança ventos de mudança que devemos agarrar com muita força a tal força de quem trabalha e que agora nem deixam trabalhar com tanto despedimento Curioso quem devia ser despedido por incompetência de gerir ainda é premiado e vai de bolso cheio para os paraísos que por aí abundam com off-shores e congéneres pelo meio que é precisamente onde não está a virtude.


Vivo a vida como dantes / não tenho menos nem mais / e os dias passam iguais / aos dias que vão distantes
Mas ... ainda vamos a tempo, 25 de Abril sempre!



Madrugada de 25 Abril 2009
Alf
------------------------------------------------------


Palavras e/ou frases “roubadas” sem permissão especial que eles não se importam…:
Baptista Bastos
Carlos do Carmo
Sérgio Godinho
Zeca Afonso
Vinicius de Moraes

02 abril 2009



VISEU= 1 – ROMA=0
(com 0-0 ao intervalo)


“…Nadavam piranhas na lagoa escuratamanhas que nunca tal vi

Limpei a viseira, peguei no arpão, mas tive o diabo na mão …”
Zeca Afonso, “Chamaram-me cigano”, 1968

O jogo até que nem começou mail para o Papa de Roma; investe pela extrema direita, centra e marca golo logo no 1º minuto da sua visita a Angola: “não ao preservativo, faz mal à saúde e pode ser pior para o SIDA”. Azar dos azares, o árbitro anula o lance, considerando fora-de-jogo. Acontece. Mas o Papa não desiste, lança-se de novo e mais uma vez pela extrema-direita, corre tanto que sai pela linha lateral, que como se sabe, é o limite da decência, não se deve passar e dá direita (ou melhor, direito) ao lançamento pelo adversário. A 1ª parte desenrola-se a meio-campo, a assistência assobia e dança kisomba ao mesmo tempo. Intervalo. Os jogadores recolhem ao balneário, mas o Treinador do Papa não arrisca qualquer substituição e a 2ª parte recomeça sem sair fumo branco daquela chaminé. Eis senão quando a equipa de Viseu, vendo o adversário sempre a jogar pela extrema-direita, um erro, segundo comentaria depois do jogo Rui Santos, não entendendo a insistência, mas toda a gente entende a razão, deixa lá Rui, este jogo não está ao teu alcance. Num lance de bola parada, o Bispo marca um belo golo “quem tem a doença fatal, deve usar o preservativo, para não transmitir a doença…, acho que foi mais ou menos assim, eu não vi o jogo, não deu em canal aberto. E assim, uma equipa do interior, uma equipa regional do Portugal profundo, vence um jogo, apenas um jogo, mas um jogo pela Vida, contra a equipa do homem vestido de branco, numa terra em que o branco curiosamente é luto.

A FIFA vai agora dar a taça a Viseu e castigar o homem de branco com trabalho comunitário. Eu explico: é que a receita do jogo vai será destinada à compra de 340 milhões de preservativos, que serão distribuídos pelo próprio, em cada um dos países africanos.

Na chamada “zona mista” (eu não sei bem o que isto é, mas ouço sempre nos relatos…) foi muito comentado o resultado e praticamente houve um acordo generalizado, com excepção de César das Neves, Paulo Portas e Arcebispo de Braga.

Não está prevista uma 2ª volta deste encontro, aguardando-se que o Concílio se pronuncie a envie novas normas para a FIFA.

02 de Abril de 2009
Alf

Colaboração de imagem: Cartoon do António, 5 de Dezembro de 1992, na "Revista" do Expresso
--------------------------------------------------
PS: os adeptos do FCP não devem ler este relato, porque pensam que o Papa é o Pinto da Costa...


ANEXO
(acho que vale a pena ler também este pequeno texto)



As Nações Unidas consideraram que, a 12 de Outubro de 1999, a humanidade teria atingido os seis mil milhões de indivíduos. No entanto, contava-se que, por exemplo, em Moçambique, a população deveria ultrapassar, por essa altura, os 19 milhões de habitantes. Quando, ao contrário de todas as estimativas, segundo os dados do Censo de 1997, a população moçambicana andava apenas pelos 16 milhões. E algo de semelhante aconteceu noutros países africanos, onde a população recenseada ficou muito aquém do esperado. Daí que a data apontada pelas Nações Unidas para os 6 mil milhões de pessoas sobre a Terra deva ser vista apenas como meramente simbólica, uma vez que a referida cifra só deve ter sido alcançada uns anos mais tarde. Entre as várias explicações para as discrepâncias apontadas, penso que a principal variável a ter em conta é o efeito do VIH/SIDA. De facto, de há uns anos a esta parte, começa a ser aceite pela generalidade das agências internacionais que o factor SIDA fez cair drasticamente a esperança média de vida à nascença e o respectivo crescimento populacional na África sub-sariana
Antunes, Manuel de Azevedo, 2008

01 abril 2009



A NÉVOA

Quem não conhece a verdade não passa de um tolo;
mas quem a conhece e a chama de mentira é um criminoso
!”
Bertolt Brecht [1898-1956]

Confesso a minha perplexidade e indignação contra aquelas e aqueles que se admiraram com a nomeação do respeitável empresário Domingos Névoa, administrador da BRAGAPARQUES. É por que não conhecem o que passa naquela triste cidade de Braga, onde desgraçadamente campeia a impunidade, o compadrio mais baixo, os negócios mais sujos, o lixo que não tem tratamento possível. Mas afinal irá ser ele a tratar do lixo, pelos vistos um negócio que bem domina. E para completar a cena é nomeado para director-geral da BRAVAL (a tal empresa intermunicipal, empresa de tratamento de resíduos sólidos do Baixo Cávado, que engloba os municípios de Braga, Póvoa de Lanhoso, Amares, Vila Verde, Terras do Bouro e Vieira do Minho), Pedro Machado, genro de Mesquita Machado, presidente da Câmara Municipal de Braga e dirigente do PS. Explicitando melhor o processo, a Assembleia Geral da BRAVAL elegeu o presidente da empresa e o director-geral; ora esta Assembleia Geral é composta pela empresa AGERE, que detém larga maioria da empresa; por sua vez, a empresa AGERE foi criada em 1999 pela transformação dos serviços municipalizados de água e saneamento do município de Braga em empresa pública municipal; em 2005, a Câmara Municipal de Braga privatizou 49% da AGERE, que foram vendidos a um consórcio de empresas formado por ABB, DST e BRAGAPARQUES.

Estamos portanto esclarecidos. O Névoa tornou-se publicamente conhecido pela sua tentativa de corromper o vereador Sá Fernandes; aliás, em 25 de Fevereiro passado, o Tribunal da Boa Hora deu como comprovado o crime de tentativa de corrupção activa. O “prémio” é este: quem percebe de lixo, trata de lixo! Tudo bem, pois, para juntar ao extenso rol de promiscuidade que graça na sacrossanta cidade, onde até um alto dignitário da igreja católica (felizmente morto) fazia parte da mais descarada máfia, que anda à solta e não se diferencia das outras máfias. Pelos vistos também, toda a cidade conhece mais ou menos as situações e continua a votar na mesma. Continuem pois, que vão no bom caminho…

Mais um corrupto “premiado”. Para outros, particularmente os que denunciam a corrupção, o prémio é mandá-lo para fora do País. Mesmo assim, João Cravinho não se cala, mais uma voz dentro do partido de Sócrates (acho que é assim que dever chamado, se bem me entendem…) que denuncia o que deve ser denunciado.
É este o rosto da corrupção! Uma névoa que é mesmo Névoa, uma vergonha para o País, mais uma razão de cidadania para denunciar, para actuar de todas as formas possíveis, para tentar inverter esta situação.

1 de Abril 2009
Alf.

20 março 2009


OLHARES…


Quem não compreende um olhar,
tão-pouco compreenderá uma longa explicação.”
Mário Quintana (1906-1994)

Sempre gostei de olhar as pessoas nos olhos expressão de sentimentos ocultos ou nem tanto é neles que nos revemos para além de nos vermos sensações que só acontecem para quem tem a felicidade de poder ver e daí a luz e o brilho às vezes a ausência de um ou de outro que complementam os momentos mais felizes das nossas existências não vale a pena portanto falar muito nem explicar demasiado nem argumentar (para quê?) quando sentimos que “o outro lado” não é na realidade o nosso lado assim dito parece estranho não o sendo de facto quando sentimos necessidade de estar sós perante nós próprios esquisito que seja porque há momentos que precisamos de partilhar com alguém do nosso lado assim olhos nos olhos há coisas que não se explicam e que (às vezes) um rio grande de luz nos prende a atenção e nos conquista… só de olhar!

18 Março 2009
Alf.



EU JÁ ASSINEI, ASSINA TU TAMBÉM!

Um grupo de deputados europeus de vários países, encabeçado pela eurodeputada Ana Gomes, acaba de lançar em Bruxelas, através de uma página da Internet (http://www.stopcorruption.eu/en-GB/aboutus.aspx), uma petição para lutar contra a corrupção.

Em 2006, as exportações de petróleo e minerais provenientes de África foram aproximadamente de 249 biliões de dólares, quase seis vezes o valor da ajuda internacional. Se utilizado correctamente, este enorme transferência de riqueza poderia ser uma das melhores chances de uma geração para levar muitos dos mais pobres do mundo e mais desprotegidos cidadãos de sair da pobreza. No entanto, em muitos países ricos em recursos, a corrupção no sector dos recursos naturais tem levado directamente para conflitos, violações dos direitos humanos e um agravamento da desigualdade e da pobreza ".
Global Witness
Todos conhecemos fenómenos de corrupção, no nosso País e não só. Comentamos, protestamos para dentro, alguns ainda tomam atitudes de colocar acções judiciais, de escrever artigos (…). Há que fazer mais ainda; esta é uma óptima oportunidade (mais uma), não a vamos desperdiçar.

EU JÁ ASSINEI, ASSINA TU TAMBÉM!

A ENGENHO &OBRA (E&O), organização a que presido associou-se a esta campanha. Por isso apelo ao V. apoio; Basta ir ao site da nossa ONGD (http://www.engenhoeobra.org/) e carregar no logotipo, que aparece no título.

Obrigado pela tua colaboração; um grande abraço solidário,
Alf.

08 março 2009


MARIA, MARIA...


Maria, Maria /É um dom, uma certa magia /Uma força que nos alerta/ Uma mulher que merece/ Viver e amar/ Como outra qualquer /Do planeta
Milton Nascimento; Fernando Brant; Ellis Regina

E porque não dar-lhe neste Dia um nome, um rosto, embora ela não tivesse aquele nome, ele era o nome da força, da raça, da gana, do poder da mistura da dor e da alegria. Afinal quase todas usam, têm e gostam (?) do nome. Maria será nome de guerra, ou trivial designação de ser apenas mulher? Se vives no gueto, atravessas a avenida, ou te mostras na passarela, se carregas o filho que já esteve dentro de ti, ou simplesmente te moves em misteriosos caminhos (que podem ser hostis…), acabas sempre por ter essa “estranha mania de ter fé na vida....”Se o poema fosse microfone e falasse alto, ainda hoje se calhar diria para muitas mulheres “…por que vai de olhos no chão / silêncio – é tudo o que tem / quem vive na servidão[1]. No samba da vida danças ao ritmo certo daquela música maluca que vem e vai, que descansa e não dá descanso nenhum; tens alguém à espera, ou esperas alguém de quando em vez? Tens o perfume da linha de montagem, da terra vermelha que cultivas, ou do escritório, ou simplesmente do povo que lavas no rio? Num balanço de perdas e danos, provavelmente sais sempre a perder, apesar de teres “um dom, uma certa magia e uma força que nos alerta”

Acima de tudo companheira, camarada, cúmplice da mesma luta pela igualdade, pela inclusão, por acreditar que vale a pena acreditar!

Dia Internacional da Mulher – 2009
Alf.
[1] Alegre, Manuel, “Trova do Vento que Passa”

05 março 2009




O FRUTO VERDE ALGURES ESCONDIDO TARDE OU CEDO FLORESCE

Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la

Bertold Brecht

Mesmo sem saber onde chegamos
como é bom poder partir
e mesmo quando nem sabemos onde estamos
conseguimos olhar e sorrir
Há alguns jardins escondidos
onde sempre algo floresce
e mesmo quando se é esquecido
e algo nos entristece
o fruto verde algures escondido
tarde ou cedo floresce
Os ideais que nos correm nas veias
numa visão holística e congruente
soltam e quebram cadeias
para o Mundo seja diferente

Mesmo que te sintas frágil
vais encontrar forma de ser ágil (a)
e se a Obra nasce do Engenho
tudo começa com o teu empenho…

(a) pequena “ajuda” do Jorge Palma, Poeta e Anarquista

---------------------------------

E esta é mesmo para ti, Denise!

"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis".


Fernando Pessoa

24 fevereiro 2009



A VERGONHA DO COMANDANTE HENRIQUES ALMEIDA


(ou a cidade de Braga no seu melhor…)


Por esta altura já a santa e sacrossanta cidade de Braga, ou dos arcebispos (seja lá o que isso for…) anda nas bocas do mundo e mais uma vez, pelos piores motivos. Há já mais uma figura púbica (desculpem, pública…) neste País, de seu nome Comissário Henriques Almeida (HA), subcomandante da PSP, que “sensível” a uma tentativa de sublevação popular, quiçá a transbordar numa guerra civil, decide enviar a tropa para apreender um livro que apresenta na capa um excerto do quadro “Origem do Mundo”, do pintor oitocentista Gustave Courbet (1819-1877), um dos fundadores do realismo em pintura, que expõe as coxas e o sexo de uma mulher; o quadro absolutamente pornográfico, foi pintado em 1866, e está exposto no Museu D`Orsay em Paris. Está em curso já uma participação à INTERPOL, para recolher o original de França e transportá-lo para a PSP de Braga, que orientará as investigações e providenciará buscas por todo o País, incluindo museus, livrarias, galerias, ginásios, igrejas, estádios de futebol e Assembleia da República, para recolher o resto da pornografia... Bem-haja pois HA, bem-haja a cidade de Braga que, é bom lembrar, a 28 de Maio de 1926, lançou o nome desse grande patriota Gomes da Costa (GC), para pôr ordem neste País, onde então reinava a mais completa pornografia. Pois, HA é o novo herdeiro de GC, honra lhe seja feita, pelo menos no ridículo.

Bem vistas as coisas e tentando uma explicação séria, só podemos condenar de forma absolutamente contundente este triste episódio, que infelizmente se segue a alguns outros, como buscas e apreensões em sindicatos, perseguições a livres-pensadores que não “encaixam” na norma, que parece mais que nunca nos querem impor. Se ainda cá estivesse, o grande François Truffaut, decerto poderia reescrever novo argumento para
“Fahrenheit 451”, ou a a história de uma sociedade totalitária no futuro, onde os livros foram banidos.

Tratou-se de uma medida cautelar para evitar uma alteração da ordem pública e o cometimento de outros crimes”, afirmou HA ao PÚBLICO. Onde chega o descaramento, a prepotência, deste zeloso polícia, que deveria imediatamente ir ao banco dos réus. E não só ele, mas sim os perturbadores da ordem púbica (desculpem, pública), que na cidade santa, afrontaram (ao que parece) a lei e a ordem.

Quero ver agora que medidas toma a tutela, caso anda informada pelo que se vai passando neste país, dito de brandos costumes (raio de termo!) perante este acto censório.

Movimento púbico (desculpem, público) para demitir HA, já! E como medida abonatória do seu puritano comportamento permitir que leva para a cela um exemplar do livro que mandou apreender; pode ser que aprenda alguma coisa, sob a “Origem do Mundo”.


Alf.

19 fevereiro 2009

Palavras….
“Que helada que esta casa !

sera que esta cerca el rio
o es que estamos en invierno
y estan llegando, estan llegando...los frios.”
Patxi Andion, 20 anos

Reporto 20 anos. Atrás de uma juventude inquieta e perdida algures, sempre presente porventura atrás de recordações, memórias vivas, alguns livros. Irrequieta, sinal de emoções e loucuras que sabem bem e têm aqui e ali um toque nostálgico do que vivemos, ainda nos sentimos do lado de lá, inventando poemas, sons de revolta, de esperança, na anarquia que tentamos manter, transmitindo os sinais que acreditamos ainda marcam alguns gestos e atitudes. Que fria está esta casa, dos invernos que não passam, a névoa que teima em ocultar o rosto que ora fixávamos com a malícia antiga, de fantasias e cumplicidades. Perdem-se quiçá invernos em que só aparentemente nos aquecemos, o calor que não conseguimos transportar para os que nos estão perto ou longe, para o caso de darem conta que existimos. Não conseguimos passar a solidária mensagem que nos vai na alma, estamos lá e não estamos ao mesmo tempo, a casa grande foi reconstruída por quem não consciencializou a ternura que guardamos e que só faz sentido dentro de nós. Apenas a lembrança, que alimenta o sonho, agora algo agitado pelo agreste vento que parece não levar mais que sombras, tudo fica sempre no mesmo lugar, apesar da maré que tentamos sempre inverter, aquela persistência que guardamos, a teimosia de lutar por causas que não podem ter idade. 20 anos que podem mesmo ser mais, muitos mais, porque há coisas que não se apagam, apesar dos invernos. Perdemos agora o norte num sul que precisa das palavras que não são uma canção, mas que ainda conservam a força da mudança. Perdemos alguma força todos os dias, alguém a irá encontrar e fará dela o que aprouver. Estamos atentos, porque sabemos que cada dia que passa, pode ser o sol que resiste e aquece a luta. Continuaremos a pintar as paredes, até encontrar um rosto de criança sem fome que consiga saltar da tela imaginária, contra o cinzento dos invernos presentes. Os 20 anos cortam o tempo literal, já ninguém escrever direito por linhas tortas e há hoje palavras que nascem mortas. O Patxi falava noutra canção no marinheiro “ Con Toda la Mar Detras”; que venha ele e traga a onda que falta, apesar dos 20 anos que nos pesam, pode ser a força que precisamos…
Alf.

12 fevereiro 2009


A QUE DISTÂNCIA?
Os dias terríveis são, afinal, as vésperas dos dias inesquecíveis”.
Almada Negreiros

Recupero agora um texto antigo no qual descubro algo que me chama a atenção. Tem a ver com a distância, a medida certa em que nos devemos posicionar para obter alguma coisa, como por exemplo enxergar algo. Tal como acontece com outras variáveis, a distância é relativa. Pois, um dado adquirido. Contudo, nos anos 20 do século passado, Edwin Hubble descobriu que todas as galáxias do universo estão progressivamente se afastando; e ainda, que quanto mais longe a galáxia estiver de nós, mais rápido ela se afasta. Conservamos enfim a distância, quando de forma prudente, queremos ganhar tempo, ou simplesmente temos receio. No texto, o efeito da distância sobre a velocidade é tão terrível, que nem dá para respeitar a tão conhecida distância mínima de segurança. Vamos por partes. Então, qual é distância entre 2 pontos? Mesmo aqui, a Matemática é traiçoeira; assim, a distância de um ponto de coordenada positiva à origem é o valor da própria coordenada; no plano, para pontos com a mesma abcissa, a distância é o módulo da diferença das ordenadas; já no espaço, só podemos determinar a distância entre 2 pontos, através do teorema de Pitágoras. Desculpem se entretanto perdi a distância ao texto, era de facto o que me interessava. Estamos distantes, naquela terra distante, com algum distanciamento. Posso agora utilizar o meu comando à distância, para me recolocar, palavra quiçá perigosa. Será a distância uma atitude? “Só à distância se admira alguém, no tempo ou no espaço, porque nos não faz concorrência[i]. O texto vai de fugida, o horizonte mente, perdemo-nos agora, com a ajuda da Física, na distância focal: a distância entre o centro óptico de uma lente delgada e os seus pontos de foco. Mais descansado, olho a fotografia desfocada, descubro o tempo que já passou. Nada está no seu lugar e apesar do longe que se faz perto, a distância lá está, o tempo passa, a distância aumenta. E no entanto diminui, se tivermos em linha de conta o que já falta percorrer. Estranho, há linhas que ainda restam, que de não se cruzarem nos guiam, aproximando o que se parece afastar. Deixo de pensar se vale realmente o esforço, já que na distância que nos une, está a força que nos separa.
Atitude?

11 de Fevereiro de 2009
Alf
[i] "Conta-Corrente 4" , Vergílio Ferreira

31 dezembro 2008

Venha então 2009!


In the terrible night, natural substance of every night,

In the night of insomnia, natural substance of all of my nights
I remember what I did and what I could have done in life
I remember, and an anguish
Spreads itself all throughout me like a shiver or a fear…”
“In the Terrible Night”, Alvaro de Campos







Regressamos de uma viagem de muitos dias, muitas horas sem sono. Deixamos para trás muitos sonhos, algumas certezas, poucas esperanças. Sempre são 365 dias de caminho, temperados aqui e além por algum Sol, que me lembre acompanhado por brisas suaves, às vezes nem tanto, muita poeira decerto, acabamos por suportar tudo sorrindo para dentro, uma imagem repetida vezes sem conta.

Esperamos pela passagem, quiçá para uma outra dimensão. As horas e os minutos contam aqui com a imensidão da espera. Apesar de muito haver para contar, poucos serão talvez os momentos que recordamos com um sorriso; alguns porventura irónicos, não nos trazem senão um encolher de ombros, tanto faz. O podia ser melhor seria talvez o desabafo de quem não consegue traduzir o que vai na alma.

Precisávamos contudo de mais algum tempo para a passagem. Não é justo que, assim de um momento para outro, venha um Novo qualquer e tenhamos que conviver com ele, nem o conhecemos, que diabo. Vida nova? Talvez, com os mesmos, sempre os mesmos desafios. Há mais além uma nuvem que ameaça chuva, que pode talvez lavar a sujidade que por aí existe, nunca é bastante, já que parece não haver forma…

Acreditamos, sim é possível, fica-nos a imagem desta viagem. E se o sonho tem cor, que esta seja a cor daquela imagem. Para que fique a sensação que não desistimos, que ainda há força para transmitir ao Novo que estamos atentos, que não queremos simplesmente passear mais um ano, mas antes passar a palavra, passar á acção. Apesar de, em certa medida, ser uma noite terrível, acreditamos pois, porque “…Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão / há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não

31 de Dezembro de 2008
Alf
----------------------------
Colaboração desinteressada (penso eu…) de Manuel Alegre, na “Trova do Vento que Passa”

30 dezembro 2008

O VERDADEIRO CAVACO

A comunicação de ontem (29 de Dezembro) ao País do Presidente da República marca mais um episódio de intriga palaciana entre órgãos de soberania, segundo os opinion makers habituais। No entanto, a questão do Estatuto Político-Administrativo dos Açores passa à margem da grande maioria das pessoas, porque irrelevante para a sua via e o seu futuro imediato; quem de facto se interessa pela matéria em apreço, mesmo falando da população (quantos serão mesmo?) do arquipélago? Não deve passar de uma boa meia-dúzia, se tanto… O que significa então toda esta história? Começo por dizer não estar minimamente interessado na polémica levantada, estou-me perfeitamente nas tintas para o dito Estatuto e para as regiões autónomas que só levam dinheiro dos contribuintes, particularmente a Madeira; mas essa é outra questão. O que fica é, em meu entender, a verdadeira face de Cavaco.

Primeiro: diz Cavaco que “… é muito importante que os portugueses compreendam o que está em causa neste processo”; e ainda: “…o que está em causa é o superior interesse do Estado português”. A bem dizer, uma questão de vida ou de morte, de perda de soberania, talvez uma Aljubarrota ao contrário, uma invasão de ETs; francamente, dá mesmo para rir, se a altura fosse mesmo de rir


Segundo: diz Cavaco que se trata “…de uma solução absurda, como foi sublinhado por eminentes juristas. Mas o absurdo não se fica por aqui. A situação agora criada não mais poderá ser corrigida pelos deputados”. O PR considera que uma lei aprovada por mais de 2 terços dos deputados é absurda, porque em seu entender “…o Estatuto … introduz um precedente muito grave: restringe, por lei ordinária, o exercício das competências políticas do Presidente da República previstas na Constituição”.

Terceiro: para Cavaco “… está também em causa uma questão de lealdade no relacionamento entre órgãos de soberania। Será normal e correcto que um órgão de soberania imponha ao Presidente da República a forma como ele deve exercer os poderes que a Constituição lhe confere?” O que parece leal para Cavaco era seguir a opinião dele e pronto…


Nunca este homem se manifestou de forma tão clara contra as instituições da Republica como neste caso. Impotente para resolver um problema menor, cria (eu acho que é ele que cria…) uma putativa crise, que não passa dos corredores do poder, dado que a maioria da população nem sequer faz ideia do que se discute. Nem a crise, nem as dificuldades subjacentes para o povo, nem a crescente pauperização da classe média, merecem deste homem mais do que declarações de rotina. O dramatismo colocado neste dossier de discutível interesse, mostra a verdadeira face de Cavaco: a de líder autoritário, com desejo de poder absoluto.
Parece estar de volta o homem que foi 1º ministro de Novembro de 1985 a Outubro de 1995, que desbaratou milhões dos 2 primeiros Quadros Comunitários de Apoio (o 1º começaria em 1988, até 1993). Foram 10 anos de oportunidades perdidas: por dia entravam em Portugal 1 milhão de contos de fundos estruturais; para além de estradas, pontes e muitos “elefantes brancos”, o que se fez com esse dinheiro para o melhoramento do país real, por exemplo, na saúde, na educação, no investimento em formação profissional, na agricultura, no desenvolvimento industrial?

Pois é Cavaco, a gente não esquece isso, mais o “deixem-nos trabalhar”, as “forças de bloqueio” e outras que tais; podes ter a certeza que lutaremos com todas as nossas forças para que não tenhas um segundo mandato…

29 de Dezembro de 2008
Alf
.