rio torto

rio torto

16 maio 2010

Com papas e bolos se enganam os tolos…




Escreve, pois, o que viste,
tanto as coisas actuais como as futuras
.”
Versículo 19, “Livro do Apocalipse, Cap. I”, Novo Testamento“

"Fora os cães, os envenenadores, os impudicos,
os homicidas, os idólatras
e todos aqueles que amam e praticam a mentira
Versículo 15, “Livro do Apocalipse, Cap.XXII”, Novo Testamento







A diversão e o delírio da política portuguesa da última semana, deixam perplexos os habituais comentadores / comentaristas / colunistas, ou simplesmente curiosos e mais ou menos atentas(os) cidadãs(aos). A confusão instalou-se definitivamente em Portugal e a comunicação social continua a alimentar os mesmos interesses de sempre, deixando passar a imagem da desventura da famigerada crise em que nos obrigaram a entrar. O objectivo contudo é por demais claro: fazer crer que teremos que pagar pelos erros sucessivos das governações alienadas ao poder voraz do liberalismo económico mais primário de que há memória. E a que os Governos europeus prestam vassalagem, abdicando de princípios de defesa dos direitos elementares de quem os elegeu.
A chanceler alemã Angela Merkel (AM) “…saudou o esforço de contenção português e sublinhou a importância da consolidação das finanças públicas de todos os Estados-membros da Zona Euro(a) . E logo a seguir, num assomo digno de patrão ganancioso, afirmou que têm que ser os “grandes países europeus” a comandar a política e que esta crise sobre o futuro do euro não é uma crise como as outras. “É o maior desafio que a Europa enfrenta desde 1990 ou mesmo nos últimos 53 anos, desde a assinatura do Tratado de Roma. Trata-se de um desafio existencial(b) . O “desafio existencial“ a que se refere a dama da direita alemã, poderá ter a ver com a frustração própria de quem já perdeu a perdeu a maioria no Bundesrat, dada a maior derrota de sempre imposta à CDU e aos liberais do FDP, na Renânia do Norte. Na linha de raciocino de AM está, para além do desespero da derrota eleitoral, a defesa estrebuchada das medidas do Banco Central Europeu, que não acerta uma, desde que a confusão dos mercados se instalou.
Está portanto claro quem manda politicamente na Europa? Claro que não. E é precisamente por isso que o poder absoluto das ditas “agências de rating” e da especulação económica desenfreada se vai espalhando um pouco por toda a parte, deixando a nu a verdadeira face do liberalismo e do roubo descarado de bancos, agências financeiras, especuladores de todos os feitios, retirando sempre mais uma fatia aos trabalhadores e pagando sempre cada vez mais aos verdadeiros responsáveis pela dita “crise”. Tudo artificial, meticulosa e cirurgicamente construído, para fazer crer na inevitabilidade das medidas de contenção, de redução de salários, de aumento de impostos, de cortes nas regalias sociais, de protecção ao emprego, enfim dos tais direitos do estado social. O rotundo falhanço do “modelo social europeu” aí está, até para quem anda mais distraído.
Enquanto isso, temos papa, cerimónias, púlpitos majestosos em Lisboa e Porto, tolerâncias de ponto, uma imagem nunca vista desde o Estado Novo, em que o regime aclamava o ditador católico e se organizava para produzir um espectáculo legitimador da ditadura. As patéticas declarações de Cavaco Silva são uma cópia de … Américo Tomás. Nunca saberemos (?) se este “regime” também mandou “fretar” autocarros, comboios e barcos para trazer aquela gente anónima e crente que vem da província para aclamar o homem que encobriu as violações de crianças por padres pedófilos, quando era o perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé (Congregatio pro Doctrina Fidei), que assumiu a mais violenta cruzada de que há memória conta o uso do preservativo, da pílula, da interrupção voluntária da gravidez, da união e/ou casamento entre pessoas do mesmo sexo, defendendo cândidamente a “castidade”. Enfim, mais uma vergonha completa, que espezinha os Direitos Humanos. Voltando a Cavaco, lembro a Carta que lhe enviaram milhares de cidadãs e cidadãos da República Portuguesa, “motivados pelos valores da liberdade, da igualdade, da justiça e da laicidade”, que subscrevi e onde se pode ler, por exemplo: “Embora reconhecendo que o Estado português mantém relações diplomáticas com o Vaticano e que a religião católica é a mais expressiva entre a população nacional, não podemos deixar de sublinhar que ao receber Joseph Ratzinger com honras de chefe de Estado ao mesmo tempo que como dirigente religioso, o Presidente da República Portuguesa fomenta a confusão entre a legítima existência de uma comunidade religiosa organizada, e o discutível reconhecimento oficial a essa confissão religiosa de prerrogativas estatais, confusão que é por princípio contrária à laicidade. Importa ter presente que o Vaticano é um regime teocrático arcaico que visa a defesa, propaganda e extensão dos privilégios temporais de uma religião, e que não reúne, de resto, os requisitos habituais de população própria e território para ser reconhecido como um Estado, e que a Santa Sé, governo da Igreja Católica e do «Estado» do Vaticano, não ratificou a Declaração Universal dos Direitos do Homem – não podendo portanto ser um membro de pleno direito da ONU – e não aceita nem a jurisdição do Tribunal Penal Internacional nem do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, antes utilizando o seu estatuto de Observador Permanente na ONU para alinhar, frequentemente, ao lado de ditaduras e regimes fundamentalistas. ”
Vale a pena ainda recordar (é sempre bom recorrer a factos) que a dita “Congregação” é a mais antiga das nove congregações da Cúria Romana da instituição que dá pelo meigo e suave nome de “Santa Sé”; e ainda que a mesma deriva directamente da chamada Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal da Idade Moderna e era responsável pela criação da Inquisição em si. Este papa é (ou foi, tanto vale…) o inquisidor-mor da hierarquia da Igreja Católica, Apostólica e Romana.
Para a história (ou para o caixote do lixo da dita…) ficam ainda as bajuladoras palavras de José Sócrates, falando sempre em “sua eminência”, mostram a verdadeira face de um político de meia-tigela, todavia sempre triunfalista, na sua posição de mentiroso compulsivo, agora que descobriu a sua alma gémea… para enganar os que quiçá julgará tolos.

Juntando um excelente bolo(s) ao papa(s), tivemos as tolerâncias de ponto que custaram ao País 37 milhões de euro por dia, qualquer coisa como perto de 100 milhões. Muito interessante para um PEC que não é, nem mais nem menos, que a outra face do bolo, o pacote amargo (há bolos que são assim…) das “medidas de contenção” á portuguesa: o aumento do IVA, o aumento do IRS mais o corte (disfarçado) de 5% nos vencimentos dos políticos. Para reduzir o défice para 7,3 por cento em 2010 e 4,6 por cento em 2011. Para “poupar”, o Governo reduz em 1%, o salário de quem ganha menos que 2.375,00 euro por mês, o que significa na prática um corte aos assalariados e reformados, ou seja, 90% da população. Medidas “vitais para defender a economia do país e reforçar a credibilidade” (c), diz o primeiro-ministro. Curiosamente, é exactamente o contrário: afundar ainda mais a economia do País, passando o investimento para os níveis de há 33 anos atrás, fazendo com que o peso do investimento público no PIB não ultrapasse os 2%. e reforçar a fidelidade canina aos grandes interesses do capital financeiro e aos ditames mais que duvidosos de AM e Sarkosy.


Mas o que José Sócrates e o seu lacaio da última hora não falam, apesar de o saberem muito bem (já que são responsáveis por isso), é o que Portugal é o 2º País mais desigual da Europa: no “coeficiente Gini”, quanto maior o valor, maior a disparidade entre os rendimentos dos mais ricos e dos mais pobres; o valor era de 36% em 1997, continuava igual em 2008, 6% acima da média da União Europeia. Uma realidade que devia envergonhar os responsáveis; para ficarmos em 1º lugar, só restam 2 pontos percentuais. O PEC e as recentes medidas de emergência da última semana, terão decerto a intenção de igualar a Letónia, na tabela da classificação da vergonha europeia, uma União dos interesses dos ricos e poderosos.


Os tolos porém, não são de todo tolos. Há tolos que, embora o pareçam, não o são. Há tolos que não são tolos. Há tolos que são mesmo tolos. Há tolos que aprenderam a ser tolos. Há tolos que querem mesmo ser tolos. Os que ainda estão na fase de expectativa, entre serem e parecerem, irão decerto acordar, para não serem tomados por tolos de novo. A coisa parece complicada; não o é contudo, se atentarmos a que existem alternativas a “papas e bolos”. Para atirar à cara dos senhores do “centrão” que nos querem tomar, não por tolos, mas por parvos. Isso é pior.

(Fim da 1ª parte)
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(a) Agência Lusa, 13 Maio 2010
(b) Fonte: Euronews, 15 Maio 2010
(c) Agência Lusa, 13 Maio 2010

01 maio 2010

1º MAIO VERMELHO!



“…Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar
. …”

“Fala do Homem Nascido “- excerto, António Gedeão



Em Maio dia 1, do ano sem graça 2010. Um ano de imensa poeira lançada aos olhos da grande maioria da população. Um Maio que hoje começa, um dia muito especial para aquelas(es) que trabalham e fazem a riqueza do País. Riqueza que não possuem de facto, pois que vai direitinha para os bolsos já cheios dos que detêm o poder económico e o usam para serem sempre mais ricos. Na véspera deste dia de LUTA, sabemos que o Governo quer antecipar as medidas do PEC, que dizem respeito a "...uma intervenção forte no controlo da despesa: contenção de despesas com pessoal e reforço do controlo das admissões na Função Pública; controlo das despesas sociais e selectividade nas despesas com capital…”, (a) palavras de José Sócrates, hoje na Assembleia da República. Mas há mais, a reinvenção do famigerado “bloco central”: “É por isso que considero da maior importância o diálogo que mantive há dias com o líder do maior partido da oposição [Pedro Passos Coelho] - e que abre uma nova fase de diálogo construtivo no país", (a) . Mas, pasme-se, Sócrates não sabe o impacto do corte no subsídio de desemprego: "Não temos nenhum estudo que nos permita dizer qual a consequência orçamental da redução do subsídio de desemprego" (b) . Malhar nos trabalhadores, os verdadeiros responsáveis pela “crise”, aliás uns malandros que não têm direito ao reconhecimento de mérito, ou simplesmente que não querem trabalhar e preferem estar desempregados e receber o respectivo subsídio. Há que acabar com esta situação de privilégio e vá de cortar pela base. É assim que o País vai para a frente, bem feito portanto. A ironia contudo espelha a realidade de um Governo que, à semelhança de tantos outros por essa Europa, em que “… os poderes públicos se recusam a acabar com a especulação de direito”, reflectindo “… ausência de uma estratégia global” e em que “…o preço da factura enviada pelos bancos para sua própria incompetência, é pago afinal pelos trabalhadores”. (c)
Para quem ainda tivesse duvidas, a resposta aí está: a capitulação vergonhosa perante a especulação, o roubo descarado, a intolerável intromissão das ditas “agências de rating”, que mais não são que organizações mafiosas de destabilização do mercado, a livre concorrência ao saber dos interesses dos senhores do dinheiro, o liberalismo levado ao extremo da arrogância, aos quais os Governos prestam vassalagem e capitulam finalmente, prestando “assistência”, salvando os bancos, socializando prejuízos e
garantindo lucros.

O cenário deste 1º de Maio, não podia ser mais catastrófico. Eles merecem uma resposta, essencialmente porque não podem, nem querem, dar respostas. Provavelmente, na rua, na liberdade de correr com eles, de lhes atirar um sapato, no mínimo. Ou de lhes atirar à cara com a pobreza e com a miséria que paira por aí. “Porque os outros se compram e se vendem / E os seus gestos dão sempre dividendos(d) , Sophia, que bem retratavas outros tempos, que bem ficam agora, hoje, as tuas palavras, “Porque os outros vão à sombra dos abrigos / E tu vais de mãos dadas com os perigos(d) . E a tremenda recorrência que a todos nos dá força, “Porque os outros se calam mas tu não(d) , convocando-nos para uma LUTA, que é a de Maio, de um Abril maduro com 36 anos, feitos a 25. Não tendo mais palavras para pintar o negro quadro em que nos plantaram, evoco as que, de sempre actuais, até arrepiam: “Qu'importa a fúria do mar / Que a voz não te esmoreça / Vamos lutar / Venham ver, Maio nasceu / Que a voz não te esmoreça / A turba rompeu(e)

(a) in: http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Nacional/Interior.aspx?content_id=1557456é
(b) in: http://www.cmjornal.xl.pt/noticia.aspx?contentid=23248F55-4203-43AF-934D 71CC128EB97A&channelid=00000021-0000-0000-0000-000000000021
(c) Pierre Rimbert, (Le Monde Diplomatique, 30/Abril/2010)
(d) “No Tempo Dividido e Mar Novo”, Edições Salamandra, 1985, p. 79
(e) “Maio, Maduro Maio”, álbum “Cantigas do Maio”, Zeca Afonso, 1971.

26 abril 2010

25 Abril – 36 anos


Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser hom
ens…”

Os Putos”, José Carlos Ary dos Santos





Hoje havia sol. Esse ao menos é para todos. Desci a Avenida, como tantas vezes, Lisboa está parada, mas há um brilho especial, o cheiro e a cor dos cravos. Nem tudo porém é vermelho, nem o povo é já quem mais ordena, a ordenança é agora de quem nos oprime. Hoje, dizia-me um amigo catalão, que perpassa pela Europa um “fascismo brando”, difícil de combater, porque de tão obscuro que é, vivendo disfarçado sob a capa do liberalismo económico, não consegue contudo esconder a verdadeira face de ditadura do capital. Esse mesmo que oferece prémios escandalosos aos gestores públicos, descobrindo esta coisa espantosa: o tal “mérito” só a eles pertence, nunca aos trabalhadores. A esses são pedidos (qual pedidos? exigidos!) os sacrifícios do costume. Que servem para lhes aumentar os proveitos. Os Estados permitem, os Governos capitulam, vergam-se diante deles, devem-lhes porventura a tal fidelidade canina, própria de verdadeiros acéfalos. Não podemos calar, nem capitular, a indiferença não é solução. As ditas reformas no nosso País, da autoria de um Governo que devia ter vergonha de se auto proclamar “Governo Socialista”, não passam de uma capitulação grosseira ao capital, uma triste sombra do vazio de ideias que essas senhoras e senhores, a começar pelo Chefe, não conseguem esconder. Por mais que cantemos a madrugada de 25 de Abril de 74, não conseguimos esconder a revolta. O Poder é hoje em Portugal, como por essa Europa fora, o espelho do falhanço e só nos merece desprezo. Ouvir o socrático discurso, balofo, acobardado e arrogante, é o mesmo que ouvir Marcelo Caetano, quando descobriu no Inverno fascista, uma Primavera em que o Sol era só para ele.

Hoje fez Sol em Lisboa, Portugal. Descemos a Avenida, como tantas vezes. Uma réstia de esperança será porventura ver tantas e tantos jovens com metade da idade do 25 de Abril. São elas e eles que vi, ouvi e fotografei, a verdadeira face da esperança.

Revermo-nos nelas e neles é um conforto para a alma. Alma que se quer de luta, porque ela sempre continua. É esta não pode de todo ser mais uma frase feita, tem que ser uma arma mortífera para os senhores do dinheiro, que nenhum respeito nos merecem. Elas e eles que dia a dia nos fazem lembrar um Abril distante, mas sempre presente na memória dos dias. Com ou sem Sol.

25 DE ABRL SEMPRE!

16 abril 2010


Come fly with me let's fly, let's fly away
If you can use some exotic booze there's a bar in far Bombay
Come fly with me let's fly, let's fly awa
….
Weather-wise it's such a lovely day
Just say the words and we'll beat those birds down to Acapulco bay
It's perfect for a flying honeymoon they say
So come fly with me let's fly, let's fly away
.”

Francis Albert Sinatra





A nuvem de cinza avassaladora que, por estes dias, ameaça os espaços não será porventura capaz de calar a Voz, neste que acabo de saber ser o seu Dia Mundial. Pode talvez produzir alguns sons mais roucos, mas mesmo assim de alguma incontida raiva.
A Voz não poderá para já convidar “…come fly with m, let's fly, let's fly away”, por causa da nuvem. Mas, logo que ela passe, poderei ir de viagem. Nada como ir de viagem, para ouvir as Vozes daqueles que estão distantes (em todos os sentidos). A Voz transporta-nos aos outros mundos, comunicamos com ela. Treinamos a Voz, para nos fazermos ouvir, usamos a Voz para transmitir a ternura, para clamar contra a indiferença, para chamar nomes mais ou menos ajustados, para premiar com um Viva, para gritar bem alto o golo que marcamos ou que outros marcam, para gemermos por vezes de dor (aquela Voz que nos parte o coração). Dominamos a Voz tantas vezes, de comoção. Calamos em tempos a Voz, porque nem falar nos era permitido, nunca esqueceremos o tempo das trevas, desse fascismo patético que nos dominou, melhor, que nos queria dominar. Mas também não esquecemos que outras e outros vivem sem poder usar a sua Voz e aquelas e aqueles que não são Voz para coisa nenhuma, porque não lhes é reconhecida cidadania. E ainda outras e outros tantos que, por deficiência, não podem usar a Voz.
Tantas vezes invocamos a Voz: “vozes de burro não chegam ao céu…”, “a voz do povo é a voz de deus”, “só os poetas, são dos verdadeiros deuses a voz”, em frases feitas ou desfeitas…, como melhor nos aprouver. Por vezes usamos a Voz para ferir alguém, a pior das utilizações possível, sobretudo se o outro o não merecer.

A Voz de um Abril distante, mas sempre presente: “... daqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas”, lembras-te? As Vozes desse Abril, símbolos de alegria e liberdade e suportes de um conceito de vida, o Zeca, o Fausto, o Sérgio, o Zé Mário, o Fanhais, o Freire, tantas e tantos que poderia evocar, as vozes da chamada “traz outro amigo também”. E eles vinham na altura, agora já nem tanto…

Alguém me disse hoje algo que não esquecerei: “A voz soa mais alto quanto mais ganha…”. Triste sinal dos tempos, verdade incontestável. Talvez o que fique neste Dia Mundial, como marca malévola e perversa…

16 Abril 2009
Alf.

06 abril 2010


Para que serve um Papa?
"Comece por fazer o que é necessário, depois o que é possível, e de repente estará fazendo o impossível."
S. Francisco de Assis




Poderá parecer eventualmente provocatório trazer à liça nesta época pascal, a veneranda figura do chefe máximo da igreja católica, apostólica e romana (ICAR). É de facto isso que pretendo. Porque considero intolerável que o dito senhor tenha permitido a ocultação dos factos relacionados com os monstruosos actos de pedofilia praticados durante 22 anos (de 1950 a 1972) pelo padre Lawrence Murphy. O New York Times (NYT) revelou, na passada semana, que o então perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé, J. Ratzinger, tomou conhecimento de que o referido padre tinha sido acusado de maltratar quase 200 crianças surdas numa escola do Wisconsin. O NYT revela ainda que a correspondência mantida em 1996, entre o padre e o então cardeal J. Ratzinger, foi mantida sigilosa durante muitos anos (…). Claro que o Vaticano saiu logo em defesa do Papa, afirmando, de forma completamente desastrada, que ele só teve conhecimento dos fatos quando era tarde, quando o idoso sacerdote já estava muito doente…
Para que serve realmente um Papa? Pode colocar-se este senhor no banco dos réus, ou vamos esperar que a divina providência (acho que é assim que se diz…) faça justiça? Como por exemplo, aquela que serviu em tempos para queimar na fogueira as(os) que não acreditavam na “palavra”? A igreja de então é mais ou menos regida pelas mesmas regras: os dogmas, as intoleráveis tentativas de intromissão na política dos Estados, no fausto de uma hierarquia anquilosada, mas tremendamente eficaz, quando se trata de condenar, excomungar e perseguir os que ousam levantar a voz, na riqueza incomensurável de um Vaticano que gasta rios de dinheiro dos “contribuintes” e prega a caridade aos pobrezinhos como moeda de troca, uma espécie de “responsabilidade social” de referência quase obrigatória de qualquer empresa (…).
Um Papa, sobretudo este, é uma aberração, uma verruga, uma pústula, uma gastrite intelectual, enfim uma coisa contra-natura, um autêntico atentado à inteligência! É, para mim, a chamada ao mundo das trevas, uma ameaça à luz e à cor, ao brilho dos sóis. O branco da impureza e dos maus costumes. A raiva incontida da impotência, perante uma humanidade que se vai libertando das teias de um “aparelho” castrador e violador de consciências (e, pelos vistos, não só de consciências…). Tudo junto, numa mistura de hipocrisia e mentira, no silêncio cúmplice de grande parte das atrocidades, na discriminação das mulheres, utilizando “tempos de antena” para vincular ódio e desprezo pela diferença.
Tal acontece, enquanto membros da dita igreja, mulheres e homens anónimos, se empenham em causas humanitárias, em África, Ásia e América Latina; pessoas simples, diria de boa-fé, que merecem todo o respeito, admiração e estima, porque perseguem uma Missão, defendendo causas e valores universais de humanidade, dignidade e respeito pelos Direitos Humanos. Elas e eles que, nos países em desenvolvimento, lutam pela autonomia das populações, contra as injustiças e contra a exclusão social, por uma cidadania global, activa e responsável. Elas e eles, nada têm a ver com o que digo e escrevo sobre a hierarquia podre, reaccionária e déspota da ICAR, que infelizmente ainda mantém influência decisiva nas camadas menos esclarecidas das populações, manipulando descarada e despudoradamente, do alto dos púlpitos e/ou da varanda do Vaticano.
Não existe Democracia, triste constatação, nesta (como noutras) igreja(s). Não se pode demitir um Papa, o seu poder é “eterno”. O “senhor de branco”, curiosamente sempre branco, auto intitula-se de “representante de deus na terra”, um arbítrio de um alter-ego levado ao extremo, um misto pérfido de arrogância, (mais que duvidosa) superioridade moral e pornografia intelectual.

Há coisas que é preciso dizer, com toda a frontalidade; passadas e divulgadas, quase um exercício de stand-up contínuo, para combater os aristocratas e autocratas dos dogmas e dos fundamentalismos. Estou a falar, a bem dizer, contra a ICAR e seus dignitários, ministros, dirigentes e outros acólitos e súbditos mais ou menos disfarçados, que curtem fidelidade canina a uma instituição (como muitas outras…) a abater politicamente; ao menos, no sentido metafórico do termo. Os que se dizem não-praticantes (coisa curiosa…) que se cuidem também, dado terem também a sua quota de responsabilidade, mesmo que assobiem para o ar, fazendo de conta que não é nada com eles.
A sociedade civil deve pedir contas a estes senhores todos, ao senhor que veste de branco, que mora em Roma e que se pavoneia por toda a parte, espalhando (espelhando?) a confusão nas mentes menos inquietas e menos esclarecidas.
Espero sinceramente que o seu lugar seja o caixote do lixo da História, neste novo século. Espero também, que o falo que o senhor de branco carrega no cartoon, seja o mais erecto possível e que não caia na tentação de perder o tesão…

05 Abril 2009
Alf.

31 março 2010



GABRIEL
It was only one hour ago
It was all so different then
Nothing yet has really sunk in
Looks like it always did
This flesh and bone
Is just the way that we are tied in
…”
"I Grieve", City of Angels, Peter Gabriel




Apenas há uma hora atrás… A notícia: Gabriel. A primavera de uma Vida que nasce na Primavera do tempo. Agora um tempo em que normalmente desesperamos por isto ou por aquilo. Hoje esperamos. Ele veio ter connosco. Dar-lhe tudo o que ele merece pode ser apenas um lugar-comum, o tempo se encarregará de o fazer feliz neste mundo cada vez mais desigual. Amor, carinho, apaixonadamente, perdidamente, assim mesmo. Saberemos transportá-lo ao maravilhoso mundo dos sonhos, fantasias e utopias? Se a Felicidade é um mito, fazê-lo feliz pode ser a Realidade. Estamos felizes e queremos que ele seja feliz entre nós. Já não há anjos e arcanjos (?), deste dizem ser o arauto de boas novas, mensageiro de boas notícias; e que nos dará compreensão e sabedoria. Poderá transformar o mundo? Quem sabe? Para nós que ora o acolhemos, porventura uma lição de vida, de uma esperança incontida de alegria e de Amor. Com os olhos radiantes de encher a nossa vida de Cor, pintar um quadro para Gabriel na cidade dos anjos que imaginamos. E, como a imaginação é poder, viva pois Gabriel!


30 Março 2010
Alf.

08 março 2010

O segundo erro de Deus?




Mulher e Homem JUNTOS? Claro que sim!

Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
de esperas…”

Tourada” (excerto), José Carlos Ary dos Santos, 1972

Foto: João Tocha, Malange, 2009


Evocar um homem a falar da Mulher, poderá parecer um paradoxo, sobretudo, neste dia. Não sei quantos (muitos concerteza) terão sido os erros de deus, essa criatura insondável e malévola, que porventura terá inventado a discriminação e a diferença, como coisas perfeitamente naturais. Quando pronunciou a Mulher como “o segundo erro de Deus”, quereria Nietzsche porventura desmistificar o paradoxo: qual teria sido o primeiro? Ou pelo contrário, associar a Mulher aos erros frequentes e constantes do dito criador? Curiosamente, o autor, que morreu no ano 1900, em pleno verão, com 55 anos, muito novo para a nossa época, haveria de “presenciar” (apenas com 13 anos de idade), ao 8 de Março de 1857 em Nova Iorque, data por demais conhecida. Não há registo que se tenha posteriormente manifestado sobre o assunto…

A história diz-nos que, mesmo nos países ditos desenvolvidos, a Mulher foi diminuída, discriminada e violentada e se revoltou contra as más condições de trabalho e reduzidos salários. Metáforas à parte, estará a mulher, em pleno século XXI, dotada do mesmo estatuto do homem, iguais condições de acesso ao trabalho, iguais direitos, salário igual para trabalho igual? A questão curiosa que se levanta, poderá ter uma resposta politicamente correcta, para os que pensam (e afirmam) que a sociedade do conhecimento gerou em si mesma, a igualdade plena de direitos e garantias e que a democracia, o chavão que dá para encobrir as maiores desigualdades, é o melhor dos sistemas para garantir “oportunidades”. A realidade, para a quem quer ver, contudo não engana. Por toda a parte, em todos os continentes, a Mulher ainda é discriminada e reduzida muitas vezes a um papel secundário. Com contornos de injustiça, de diferenciação de género, por vezes obrigada a práticas atentatórias á sua natureza, como o demonstram, por exemplo, a mutilação genital, praticada até na velha Europa, imagine-se! E sempre em nome das religiões, esse flagelo universal, pesadelo das civilizações, torpe desígnio que as arrasta pelos trilhos da indignidade: burkas, espancamentos e flagelação por não serem fiéis ao sacrossanto marido, por terem gerado e dado à luz um filho fora da instituição casamento, inventada pelas igrejas, a começar pela católica, apostólica e romana. Há alusões aberrantes da Mulher que chocam os sentimentos e a razão, como a de Alexandre Dumas, “mulher - é o anjo e o diabo num só corpo”; lá está no fundo a imagem da religião sempre presente. Um lado escuro do mundo? Teria razão John Lennon quando uma vez escreveu “A mulher é o negro do mundo. A mulher é a escrava dos escravos. Se ela tenta ser livre, tu dizes que ela não te ama. Se ela pensa, tu dizes que ela quer ser homem”? Dá para pensar, pelo menos para quem quer abrir o espírito, libertário que o seja, “… que a liberdade está (sempre) a passar por aqui(1) . Quando a grande Simone de Beauvoir afirmou que “é pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta”, não terá porventura pensado que, quase meio século depois, a situação da mulher relativamente ao emprego, estaria praticamente no mesmo ponto que nos anos setenta do século passado. A verdade é esta: em 2010, no nosso País, “60% dos diplomados em Portugal são do sexo feminino, mas apenas 16% são quadros superiores na administração pública e nas empresas; quando se comparam os salários, os homens recebem em média mais 287,00 euros do que as mulheres que ocupam o mesmo posto(2)

No dia de hoje, quero deixar:
o às amigas, companheiras e/ou camaradas, as palavras de um dos precursores do romantismo (3) : “A mulher é a mais bela metade do mundo
o aos homens, o pensamento de um dos anarquistas (4) que admiro: “Nunca encontrei uma mulher que me fizesse lamentar o facto de ser um homem, e peço-lhes que não aceitem isto como um cumprimento

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(1) Extracto de “Maré Alta”, Sérgio Godinho, 1975
(2)Fonte: TSF / DN, 08 Março 2010
(3)Jean-Jacques Rousseau
(4)Boris Vian

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Citações:
Beauvoir, Simone (9 Jan 1908 – 14 Abr 1986)
Dumas, Alexandre (27 Jul 1824 – 27 Nov 1895)
Godinho, Sérgio (31 Ago 1945 - ___)
Lennon , John (9 Out 1940 – 8 Dez 1980)
Nietzsche , Friedrich (18 Out 1844 – 25 Ago 1900)
Rousseau, Jean-Jacques, (28 Jun 1712 - 2 Jul 1778)
Santos, J. C. Ary (7 Dez 1936 — 18 Jan1984)
Vian, Boris (10 Mar 1920 – 23 Jun 1959)



07 fevereiro 2010

Seduzido e Abandonado (parte I)



Seduzido pelo triplo brilho da beleza, do infortúnio e da nobreza…”

Balzac (A Mulher Abandonada)




A expressão pode ser aplicada a qualquer um(a), constituindo aliás um facto recorrente nos tempos que correm. Há sempre coisas que acontecem na vida, que de madrasta que é, nos finta e dribla, nos dá a volta, por baixo ou por cima, conforme os casos, a disposição e o livre arbítrio, que dizem ser uma das faces da democracia que vamos tendo (…). Seria fastidioso recorrer aqui a elegantes figuras de estilo, mais ou menos na moda, para descrever o que afinal não tem descrição possível. Nos casos mais agudos, o interessado é sempre o ultimo a saber, o que sendo grave, não parece constituir problema, para quem à partida se assume como tal. Está bom de ver que a especulação à volta deste interessante tema, a nada leva, a não ser ao(s) próprio(s), em termos de introspecção, quiçá para remediar alguns males menores.
Com todo o respeito que me merecem algumas (muitas por sinal) figuras que até representam história e para não referir as(os) amigas(os) que a ele pertencem, reporto e dedico estas crónicas (sendo esta uma primeira e englobante peça) ao Partido Socialista. Que se diz e se pretende herdeiro dos ideais da República. Pelo menos. E também da liberdade e da democracia, que hesito em escrever em maiúsculas, talvez até para não lhes restringir âmbitos, nem fronteiras.
A liderança actual, que conduziu á conquista de uma das maiorias absolutas mais significativas após o 25 de Abril, empolgou na verdade os dirigentes e o próprio Secretário-Geral. Contudo, a trajectória errante, que caracteriza os chamados “partidos do poder”, veio a delimitar a hipotética base de apoio que “deveria” confirmar a maioria absoluta, tendo conduzido ao que se conhece, nomeadamente a uma escorregadia maioria, perigosa e manhosa, mas que no fundo até talvez não desagrade aos teóricos académicos simpatizantes do “centrão”. Sobre o qual tenho uma posição definitiva, mesmo sabendo os riscos do termo “definitivo” (que desafia a dialéctica): o pântano. Assim mesmo,” terreno encharcado de água estagnada, lodaçal, charco, atascadeiro, tremedal, atoleiro,…” . No “pântano” se afundam geralmente os que, em águas turvas navegam, ao sabor das meias-tintas, dos compromissos contranatura, das alianças duvidosas, dos imperfeitos pretéritos. As conciliações impossíveis, por querem abranger interesses inconciliáveis, normalmente designadas “a bem do País” e que se podem “traduzir”: a bem dos mesmos de sempre. Aliás, basta vê-los a repartir lugares de topo na administração pública e nas grandes empresas, sempre com os “outros companheiros” do centrão.
A recente “negociação” do Orçamento de Estado para 2010 é o retrato fiel das considerações até agora escritas. Para o bem do País, a aproximação à direita (e extrema-direita) parlamentar não é somente uma deriva regular; encara e retrata uma vocação conservadora e espelha fielmente a escolha dos caminhos a trilhar, num futuro breve, por um Governo de burocratas e tecnocratas de estatura mediana. Mesmo as tímidas medidas de restringir alguns benefícios da Banca, dos vencimentos dos gestores, estão manchadas pela manutenção dos privilégios daqueles que supostamente são os causadores da tal crise mundial, que serve de pretexto para tudo e mais (ou menos?) alguma coisa.
Mesmo assim, a direita não fica satisfeita e quer mais, sempre mais. É por isso que a sedução direitista, irá levar mais tarde ou mais cedo, ao abandono de um putativo acordo de princípio. Temos então, um Partido seduzido e abandonado. Aliás, a estranha votação da Lei das finanças Regionais, é a prova mais evidente do sentimento “abandonado”. Mas, a isto voltarei, porque vale a pena esmiuçar a coisa.

Para mal de vários pecados, o mesmo Governo treme de novo com algumas “calhandrices”, a saber, coscuvilhices e mexeriquices, espécie bem portuguesa, delimitada aqui e além, por laivos de ignorância mal contida. O certo é que as coisas vão-se sabendo, algum fumo paira no ar, mais uma vez, o pântano. Contudo, a sedução não deixa de ser perigosa: ou conduz á paixão, ou ao desastre do abandono.

Fim da primeira parte.

07 Fevereiro 2009
Alf



Uma fábula chamada “Caim”








Dele disse um dia ter escrito uma das belas obras do século XX: “O ano da morte de Ricardo Reis”. Sobre o homem e a sua Lisboa, uma fantástica alegoria da vida e da morte. Sobre ele, escrevi mais vezes, de uma forma geral quando publicava qualquer coisa. Suspeito serei pois de gostar de ler Saramago e de objectivamente ser pouco objectivo, redundância perdoada à partida. Volta a escrever agora, incomodando conservadores de todas as matizes, consciências pesadas e enfeudadas em estereótipos e arquétipos à medida da sua (deles) curta visão de detêm da realidade, mas que sempre tentam impor aos demais. Fantasmas e medos de um passado que não capazes de reinventar. A estória de Caim é uma reflexão séria e, ao mesmo tempo, divertida: um misto de lenda, ficção, humor e ridículo. Que faz pensar, questionar, especular e até (porque não dizê-lo?) esmiuçar…
O homem e a divindade: o poder absoluto e um poder relativo, assim um pouco à medida do possível. Ou a luta pela autonomia, na realidade falaciosa e sempre condicionada. O diálogo de caim com o deus é um reflexo do diálogo do cidadão com o poder, nos dias de hoje: é interessante, politicamente correcto, mas na prática, não dá mesmo. As viagens no tempo do homem que quer mesmo enfrentar deus, ao ponto de eliminar cirurgicamente um a um, uma a uma, os humanos da arca; porque deixa de acreditar na dita espécie, que entretanto irá vingar 2 mil e dez anos (para já…); ele que apenas quer (e não é o queremos todas(os)?) fruir a vida e a liberdade.
O jardim do éden, que afinal existe mesmo para uma data de privilegiados, “…charlatões e charlatonas /discutem dos seus assuntos /repartem-se em quatro zonas/instalados em poltronas”, imagem mais que possível. Onde tudo existe à mão de semear, mas contudo bem guardado, afinal bens e riquezas, ao dispor das regras impostas pelos senhores de um mundo cada vez mais injusto, exclusivo e cada vez mais perigoso. Um mundo que desqualifica, limita e reprime os que tentam sobreviver e/ou que lutam pela liberdade e pela inclusão. Em “Caim” pode ver-se qual a qualidade da tal "Democracia” que nos ensinaram e que está a dar neste momento lições exemplares a todo o Mundo, a todos os mundos…

Alguém disse um dia que talvez este seja mesmo “Um Mundo ao contrário”. Saramago exalta o homem que desafia o deus arrogante, injusto, exclusivo e repleto de caprichos, (mais ou mesmo idiotas), que faz o que lhe apetece e quem se diz insondáveis serem afinal os seus desígnios. Para todas(os) que querem e que intervêm para a mudança, tudo isso não passa de mais um devaneio. Todavia, a atenção que porventura prestamos, nunca será demais, sendo porventura um dos ensinamentos que podemos extrair da obra.

Aos que ora reclamam /vociferam pela liberdade de expressão convém lembrar 2 abjectos personagens, que não sendo bíblicos, bem poderiam figurar entre os que, á boa tradição inquisitória, são capazes de “horrores, incestos, traições, violências, carnificinas”, de que fala o Autor: os PSDs Mário David e António de Sousa Lara; o primeiro ao declarar “abdique da nacionalidade portuguesa”; o segundo, ao considerar “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de “blasfemo”, tendo chegado ao ponto de o vetar, na qualidade de Sub-Secretário de Estado adjunto da Cultura, de uma lista de romances portugueses candidatos a um prémio europeu.


05 Janeiro 2009
Alf
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Citações:
o José Saramago
o Sérgio Godinho
o Tim / Zé Pedro (Xutos & Pontapés)

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Nota final: este texto foi escrito a 24 de Janeiro, uns dias antes da brilhante palestra do meu Amigo Tozé (o escritor António José Borges), que teve lugar a 27 de Janeiro, na Sociedade da Língua Portuguesa, sobre o tema em apreço. Constituindo matéria de pesquisa, no âmbito da sua tese de doutoramento sobre Saramago (que aguardamos ansiosamente a publicação), a palestra foi ainda um momento de aproximação de ideias, conceitos e de pessoas. De reflexão também. Bem hajas por isso Tozé!

03 fevereiro 2010

Foi bonita a Festa, pá….

"Foi bonita a festa, pá
fiquei contente…
Sei também como é preciso, pá
navegar, navegar…
Canta a Primavera, pá
manda novamente algum cheirinho de alecrim

“Tanto Mar” (extracto), Chico Buarque, 1976




Um dia pleno de alegria, um sentimento que nos atravessa, dificuldade de conter as emoções, elas que são o sal e a terra. O fogo também, que nos conforta e nos aquece por dentro. Afinal, os elementos estão connosco, é a solidariedade que nos convoca para a Festa. Não bastasse a satisfação por ver a profissional, com a dignidade, profissionalismo e respeito que nos merece, a ser eleita para um lugar que lhe assenta como uma luva, mas ainda o facto de reencontrar a Amiga, após mais de 15 longos anos, com a frescura que é uma marca da sua personalidade. Fiquei pois muito contente, é gratificante um dia assim e se a vida é feita de momentos uns mais e outros menos, que este o seja simplesmente, o momento em que o cravo de Abril que o Poeta canta, ganha de novo a cor que lhe pertence. É para ti, a flor que deixo, com o carinho que nos faz os olhos húmidos de sentimento incontido. Sabes, sabemos todos, os que estamos contigo hoje, o que vai ser preciso navegar. Mas, “navegar é preciso, viver não é preciso…”, lembras-te dos anos em que partilhamos ideais e espalhávamos confiança? Pois agora, neste barco navegaremos contigo, com a mesma confiança de outrora, com a mesma determinação e mesmo espírito de vencer Tanto Mar. E agora, que a Primavera não tarda, vamos trazer o tal “cheirinho de alecrim”, que pode ser o sinal da diferença, da inquietude dos livres-pensadores, da vontade e do empenhamento humanista. Que se reflecte, por exemplo, quando dizes que “ a participação cultural e social é também consciência dos direitos de cada um e dos outros – os Direitos Humanos como referência universal –, consciência crítica e solidária com outros povos, com o ambiente, com o desenvolvimento sustentado numa visão global e conectada do mundo, dos seus problemas e soluções”.

O barco, noite no céu tão bonito /Sorriso solto perdido / Horizonte, madrugada / O riso, o arco, da madrugada”. Pode ser o nosso compromisso, o teu compromisso “O compromisso comum, onde o sentimento genuíno de coesão se alicerça…”, ou ainda “integrar, sem exclusões, intervir na sociedade de forma sólida, sustentada e reconhecida…”. O barco vai de saída, mas tu não vais navegar à vista, mas sim com sentido de estratégia bem claro, definido e assumido. No barco, estamos contigo. Bem hajas, querida Amiga!

02 Fevereiro 2009
Alf

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Citações:
o Caetano Veloso
o Chico Buarque de Holanda
o Fausto Bordalo Dias
o Fernando Pessoa
o Rosário Gâmboa




31 dezembro 2009

E em 2010, mudamos o Mundo?


Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase Dezembro
Eu vou...

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou...

Por que não, por que não...”
Alegria, Alegria” (extracto), Caetano Veloso, 1974

Foto: João Tocha, 2009


Caminhamos contra o vento, desde sempre, que disso me dê conta. Sabemos que algures existe qualquer coisa que nos atrai, estranhamente atraí, e vamos na onda da descrença e do maldizer, apenas porque os outros o fazem também. Possivelmente mais cómodo, mais fácil, adoptando exactamente a postura daqueles que furiosamente criticamos. Por vezes até mandamos às urtigas a coerência, os princípios e até a alma. Mais valera então fazer qualquer coisa de útil, para variar… Vá lá, acorda e vê á tua volta (tenta ver…) algum sinal, alguma voz que te chame. Alguém entretanto me escreve “E em 2010, mudamos o Mundo?”. Porque não, porque não? A carga positiva, o sentido de verdadeira determinação, a frontalidade da asserção (que mais parece uma palavra de ordem), agradam-me sobremaneira. Proponho até e (creio que) a propósito uma outra que poderia ser “Queremos entrar na crise pela mão dela / queremos estar na crise em vez de sair dela”. E porque somos de facto praticamente obrigados a estar nela, não nos sendo permitida qualquer veleidade, embora nada tenhamos feito por isso, porque há quem decida por nós, porque há-de sempre alguém a querer pôr a pata em cima de nós. Vamos então entrar na crise e ditar a nossa lei, porque somos a grande maioria dos que sofrem dia a dia as suas consequências. Vamos invadir os centros do poder, as praças e avenidas, vamos ousar, desafiar os centros de decisão económica, denunciar os abusos, as prepotências e os roubos da Banca, mostrando por exemplo, o poder do consumidor: eu, por exemplo, há mais de 1 ano a esta parte, deixei de consumir combustível GALP, REPSOL e BP….

Porque a mudança está porventura dentro de nós, uma questão de vontade individual, que pode ser colectiva se passarmos à acção, se quisermos de facto, transformar e mudar. Mudar o Mundo? E porque não? Mesmo que tal não seja pacífico. Os “olhos cheios de cores” aguardam assim que sigamos em frente. Eu vou... Por que não, por que não???

31 de Dezembro de 2009
Alf

23 dezembro 2009

Natal 2009



Trabalho colectivo de estudantes e professores do “Colégio Moderno”, Lisboa 2008
“… O único mistério do Universo é o mais e não o menos.
Percebemos demais as coisas - eis o erro e a dúvida.
O que existe transcende para baixo o que julgamos que existe.
A Realidade é apenas real e não pensada.
O Universo não é uma ideia minha.
A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha….”
in "Poemas Inconjuntos", Alberto Caeir




Quando tudo se parece desmoronar
à volta de esperanças desencontradas
na esquina há uma luz que parece se apagar
mas há vozes que sonham acordadas
e que falam que é possível, quem diria (?)
mudar de vida, de rumo e trazer mais alguém
que dê força e razão à Utopia
pode ser hoje ou quem sabem, mais além…

Mas se um só dia conta como dizem ser natural,
porque não ser então neste Natal?

Alf.

23 Dezembro 2009




28 novembro 2009


Quando alguém nasce
nasce selvagem
não é de
ninguém…”
Delfins, 1990




Nasci exactamente 0:45 da madrugada de um qualquer 28 de Novembro. Sagitário, ascendente Virgem. Rato, segundo os chineses. Coincidência? Talvez, nesta vida, quase tudo são coincidências. Tudo e nada, tal como numa dialéctica contradição. Partilho, como qualquer ser humano face da terra nascido, uma estranha alegria de viver. É uma coisa maravilhosa. Nasci para ser livre e selvagem, no sentido poético do termo. Tal e qual, como a canção. Vim de uma terra provavelmente assombrada e “…do ventre de minha mãe / não pretendo roubar nada / nem fazer mal a ninguém(1) , como o poeta diz. Sonho, muitas vezes acordado, com as terras onde o Mundo nasceu, com as gentes que conheci e como valeu (e vale) a pena sentir as cores, os cheiros e sabores. E de saber que há (ainda?) na mais pequena aldeia, na grande cidade, numa terra do fim do mundo, pessoas boas, daquelas que raramente fazem história e que vivem, muitas vezes dura e penosamente, apenas porque vale a pena viver. No meio da confusão, da obscenidade das crises, da crueldade da opressão, há pessoas sem nome que fazem a diferença. Acredito nelas, nas suas frustrações e desencantos. Porque há utopias que valem a pena. Porque a liberdade se conquista. E a conquista tem sempre mais encanto. E o encanto maior é viver dia a dia, com o gosto doce dos afectos.

Para todas(os) as(os) minhas(meus Amigas(os), quero deixar um voto de esperança e de alegria de viver, de ser livre e selvagem. Encontramo-nos por aí…


28 Novembro 2009
Alf
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(1) António Gedeão, In Teatro do Mundo, 1958

10 outubro 2009

CASUS
Parte 2. RR



Fonte: http://images.google.pt/images?hl=ptPT&source=hp&q=rui+rio+em+imagem

Ainda bem que os GATO resolveram trazer a cena este cidadão, presidente da Câmara do Porto e candidato a um putativo 2º mandato. E digo ainda bem, porque nos foi dada a possibilidade dever e ouvir um personagem simplório, uma personalidade perturbada, um espécime do mais rasteiro que se possa imaginar. Já sabíamos que era mau, nunca pensaríamos porém que fosse ainda pior que isso. Durante a entrevista foi possível avaliar o mais profundo desprezo pela Cultura, pelas pessoas, pela sociedade civil. Um intérprete zombeteiro, um tipo viscoso, tentando fazer humor de baixo nível, deixando passar a imagem de um ser mal-formado, mal-educado, um poço de lugares comuns, um vazio completo de ideias. Gozando, tentando gozar com pessoas como o Pedro Abrunhosa, uma figura que de facto está a um nível que o candidato nunca poderá chegar; aliás seria difícil descer tão baixo, como o fez essa figura pequena, um cromo autêntico, uma farsa inqualificável.

Embora não votando na cidade do Porto, não posso esquecer os laços incontornáveis que à cidade me ligaram em tempos e que ainda estão vivos. E, por falar em vivos, o Pedro talvez lhe tenha dado uma resposta (embora ele nem resposta mereça…) quando afirmou, durante um espectáculo de apoio à candidata do Partido Socialista, “… o Porto perdeu a alma, o Porto perdeu a voz, mas está vivo”. E tudo isto acontece porque a Esquerda ao que consta (o que parece, é?), não foi capaz de se entender para tirar de lá o rio, mandando-o para o Douro com a tralha toda, mesmo sabendo que o ia encher de entulho…
Há pessoas que, nem no caixote do lixo da história, terão lugar. Passam pelos cargos públicos e nem uma marca deixam ficar, porque o seu nível é tão baixo e desajeitado, que qualquer qualificativo por menos exigente que seja, nem sequer dá para aplicar. E a Direita toda, a aristocracia falhada, conservadora e mais ou menos encostada ao poder, rejubila com os 20% que a personagem RR leva de vantagem, a poucos dias do Voto. Confesso que não entendo como foi possível a este ponto chegar. O “povão” vai eleger um indivíduo cuja bandeira de campanha é “deitar abaixo”” um bairro inteiro, porque pelos vistos há por lá problemas de droga? Só falta dizer que vai usar napalm…

“Com os dois pés no Porto” (???). mas isto é alguma coisa; só mesmo se for para dar pontapés, na cultura, nas pessoas, em tudo se calhar…Nem sequer se pode dizer, que deus lhe perdoe, dado que nem acredito nesse tipo de coisa. Fica um amargo de boca. E, dado que mais não me resta, deixem soltar uma certa fúria (uma fúria certa?) para quem para tal, directa ou indirectamente, contribuiu… Disse.

08 Outubro 2009
Alf.

04 outubro 2009



CASUS
Parte 1. ACS



Fonte: http://sol.sapo.pt/photos/kaos/picture64524.aspx

Poderia dar-se o caso de eventualmente o título sugerir um qualquer caso de estrangeirismo muito em voga. Ou pura e simplesmente um ortográfico erro, perfeitamente normal, por gafe, ou até por distracção do corrector que, quando se escreve em maiúsculas, deixa passar, enfim. Mas não, aqui a putativa confusão com o homónimo, está fora de causa. Pois bem, CASUS é mais C.A.S.U.S. , Cidadãos Abaixo de Suspeita, ou seja, uma sigla que estou certo fará fúria a muito boa gente, que simplesmente as detesta. Aqui nos propomos, analisar algumas personalidades que, por suspeitas ou até insuspeitas razões, fazem alguma tinta correr. Muito embora, na maior parte das vezes, seja uma pura perda de tempo. E o porquê da outra sigla que constitui a baptizada parte um, salta à vista, mesmo dos mais desatentos.
É mesmo: Aníbal Cavaco Silva. Devo confessar que não me revejo neste PR. Na última campanha para as presidenciais, a minha primeira intenção foi a jogar tudo para que este cidadão não fosse eleito. Mas foi. Espero desde já que seja o seu primeiro e último mandato. Uma presidência que acaba por marcar a campanha eleitoral para as legislativas, com um caso estranhíssimo. Ao receio de ser “escutado” pelo Governo, uma palhaçada autêntica, misturada com mails, “encontros discretos na Avenida de Roma” e o despudor dessa espécie que dá pelo nome de José Manuel Fernandes, junta-se a patética declaração pós-eleitoral, que nada esclarece, que lança ainda mais confusão. E sobretudo, mostra a verdadeira face do cidadão ACS que, decididamente perdeu a compostura, deixando cair a máscara de presidente preocupado com causas sociais (alguém acreditou naquilo???), volta a ser, ou a vestir a pele (como disseram grande parte dos comentaristas) de primeiro-ministro dos anos 90. O mesmo tom de voz autoritário, a mesma face carregada e sombria, a imagem do homem cinzento, a que só faltam uns óculos escuros (…). O mesmo discurso retorcido, o mesmo azedume, os mesmos (ou melhor, outros…) tabus, a imagem de marca de um passado recente que, apesar de muitos terem já esquecido, eu não esqueço, eu não tolero, eu não perdoo (se o termo aqui se pode aplicar…). A 21 de Outubro de 2005 escrevi um longo texto, quando este cidadão se apresentou como candidato à Presidência. Quero aqui recordar uma pequena passagem, a propósito do comentário que Jerónimo de Sousa fez ao tempo: “… é preciso ter memória, é preciso não esquecer que, se estamos como estamos, bem podemos agradecer ao homem que ontem se apresentou.” O título do artigo era, pura e simplesmente “Este homem não!”. Ficou e venceu. Cabe a todos os que ainda têm memória, tirá-lo agora de lá.


Este é um apelo, mais um, a toda a esquerda, a todos os verdadeiros republicanos. No dia da implantação da República em Portugal. Se calhar, esta é mais uma daquelas que muitos comentadores, políticos e politólogos chamam “prioridade nacional”. Disse.


05 Outubro 2009
Alf.

26 setembro 2009

A Cena Parte 4. O meu VOTO



Não sei bem se a lei se aplica aqui, ou seja, se na blogosfera a campanha termina à meia-noite de hoje. Eu faço sempre campanha todos os dias. Habituei-me desde muito jovem a encarar a cidadania global como um símbolo de uma luta pelos direitos humanos, pela dignidade das pessoas, pela igualdade a todos os níveis, pela Democracia participativa, por uma sociedade mais justa. E também uma luta contra a pobreza, contra a exclusão social, contra os privilégios de pessoas e grupos que oprimem a grande maioria, enfim contra o fosso enorme entre pobres e ricos; em Portugal e em todo o mundo. Uma luta que não pode esquecer 4 décadas de fascismo, que não deve esquecer quem conseguiu abrir as portas que Abril abriu.


Serei hoje, por um dia, politicamente correcto, ou seja, respeitando a lei. Para fazer o meu apelo ao VOTO. Aproveito aqui e agora, as palavras simples de Jerónimo “… não há governo à esquerda, não há política de esquerda sem a contribuição decisiva do PCP e da CDU[1]. Perfeitamente à vontade, dado que não milito em qualquer partido há bastante tempo. Nada me obriga a concordar com tudo o que o PCP faz, ou diz. O meu apoio é um apoio crítico, porém convicto. Um apoio a um imenso grupo de mulheres e homens, muitos jovens, que defendem causas, princípios e ideais seguros de esquerda. Uma esquerda que não precisa de se travestir para se afirmar. E sobretudo na defesa de “…uma política de desenvolvimento económico visando tais objectivos pressupõe na sua realização uma decisiva intervenção do Estado na efectiva regulação da actividade económica e na concretização de políticas que prossigam opções estratégicas nacionais e a valorização do trabalho e dos trabalhadores, questão nuclear de uma política alternativa[2].


Num momento em que tanto se fala em coligações, alianças e outros acordos ou desacordos do género, Jerónimo diz muito claramente que “…só aceita dialogar uma aliança, se primeiro o PS aceitar políticas e bases programáticas”; e ainda, “o PCP esteve sempre aberto a qualquer discussão; o problema não é aceitar ou não dialogar: o problema é dialogar em torno de quê e procurar convergências em torno de quê[3]. Ao contrário de alguma esquerda, com propostas muito válidas diga-se de passagem, que talvez iludida pela “dança” das sondagens, vai dando alguns pontapés na coerência…


Entramos então no período de reflexão; já passa de facto da meia-noite, já me sinto um pouco infractor. Irei decerto amanhã reflectir, há sempre tanto para reflectir. Não decerto sobre o meu sentido de voto. O meu voto é segura e decididamente CDU!


Fim de cena.
25 Setembro 2009
Alf.


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(1) In Jornal “Público” de 25 de Setembro
(2) Programa eleitoral do Partido Comunista Português
(3) Idem nota 1

24 setembro 2009



A Cena

Parte 3. Casos, Gafes, Fitas, Gatos e mais coisas interessantes (ou não…)

http://sic.sapo.pt/online/sites%20sic/gato-fedorento/esmiuca-os-sufragios

Não diria que vale tudo nesta Cena. Mas, inundados que somos, praticamente todos os dias, com notícias mais ou menos desencontradas (?), ficamos com a sensação que nos passa ao largo muita coisa, que deveríamos conhecer melhor. Falo de transparência, claro. Ou da falta dela. Podemos comentar, protestar, ficar mais ou menos furiosos, mas de todo impotentes (salvo seja), uma vez que o afastamento é grande. Resta-nos mesmo contribuir como o Voto, afirmação de cidadania. A abstenção só servirá aquelas(es) que contribuem para a confusão.
TVI. Uma empresa privada, de orientação conhecida, despede (no meio da tal confusão), imiscuindo-se na Cena. Para que se saiba, a conhecida “jornalista” que se apresenta (ou apresentava) “ eu sou a MMG”, deu uma entrevista no mínimo provocatória ao DN uns dias antes de a administração lhe ter tirado o tapete. Nessa entrevista MMG chama "estúpidos" aos seus superiores. Aliás, as palavras "estúpidos" e "estupidez" aparecem várias vezes sempre que MMG se refere à administração e muito boa gente. É muito interessante rever a rábula feita pelos “Contemporâneos” que, para além de ter imensa piada, espelha na íntegra forma despudorada, provocatória e despida de qualquer conteúdo jornalístico que a dita cuja senhora utilizava. Mas há mais: é conhecida a forma como tratava os colegas dos outros canais, de “cobardes”, chegando ao ponto de classificar o programa da RTP 2, “Clube de Jornalistas”, como “uma verdadeira porcaria” e dizendo do Sindicato dos Jornalistas, "… pessoas que nunca fizeram a ponta de um corno na vida". Teve pois, em minha opinião, o que merecia. Claro que a Direita em peso apareceu em peso, como era de esperar, particularmente aqueles que no malfadado Governo de Santana Lopes fizeram o que se sabe e que nem vale a pena falar. E o que é perturbante, é que algumas pessoas de Esquerda tenham embarcado na onda, se bem me faço entender..

Das gafes, a melhor terá sido a da tal senhora que queria (quer?) “… parar a Democracia por 6 meses para pôr tudo na ordem”, ao dar autênticos pontapés na gramática da língua pátria, em várias situações, nomeadamente nas aparições nos “Gato Fedorento”, os quais montaram sobre o tema uma verdadeira profusão de asneiras. Também é de rever, para quem não esteve atento.

O Sr. Silva (até me custa recorrer ao Bokassa da Madeira, mas enfim…) deve contudo ter protagonizado a mais insólita gafe desta Cena. E o problema é muito mais que gafe. O dito senhor “desconfia” que anda a ser espiado pelo Governo, há praticamente ano e meio. Vai daí recorre ao Sr. Lima, seu fiel adorno há 20 anos, para abordar um jornalista, montando uma outra Cena. Deu no que se sabe: o dito senhor já foi demitido, o Sr. Silva tem agora mais um “tabu”, a lembrar os tempos em que desbastou os dinheiros públicos, na qualidade de PM. Bem, se de facto tinha desconfianças, não tinha outra solução senão abrir um inquérito e demitir o Governo. Mas a Direita é mesmo assim, retorcida; o Sr. Silva continua (apesar das suas “preocupações sociais”) a ser a imagem dessa Direita, que não queremos (eu, particularmente não quero mesmo!).

Um dado interessante: tendo-se falado muito durante a campanha, na luta contra a pobreza, na luta pela inclusão social, não ouvi, não li, não vi, qualquer dos partidos enquadrar devidamente essa prioridade com os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), um compromisso mundial, assumido nas Nações Unidas em Setembro de 2000, pelos chefes de Estado e de Governo de 189 países, incluindo Portugal, Foi então assinada a Declaração do Milénio, comprometendo-se a lutar contra a pobreza e fome, a desigualdade de género, a degradação ambiental e o vírus do VIH/SIDA. Foi ainda assumido o compromisso de melhorar o acesso à educação, a cuidados de saúde e a água potável. E, para avaliar o cumprimento daquele compromisso, foram estabelecidos 8 ODM ([1]), a alcançar até 2015. Para além de constituir um compromisso de solidariedade internacional, que deve inspirar todos os cidadãos e organizações governamentais e não-governamentais, implica que o futuro Governo do País deve conceder mais e melhor ajuda pública para o desenvolvimento, nomeadamente no que reporta aos países de língua portuguesa. Tal referência poderia fazer contudo toda a diferença, no que significaria uma mobilização para a cidadania global.

Fim do terceiro acto.

24 Setembro 2009
Alf.
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([1]) Os 8 ODM: Pobreza e Fome / Ensino primário universal / Igualdade de género / Mortalidade infantil / Saúde materna / Doenças graves / Sustentabilidade ambiental / Parceria global para o desenvolvimento
In: http://www.objectivo2015.org/pobreza/index.shtml

23 setembro 2009



A Cena

Parte 2. A “Política da Verdade






A Cena é a tal “politica da verdade”Alguns dados da autora (e intérprete).

Manuela Ferreira Leite, Ministra da Educação do XII Governo Constitucional, de Aníbal Cavaco Silva, de 1993 a 1995. Inventou a “Geração Rasca”, para designar os jovens que terminavam o 10º ano de escolaridade. Esteve no centro da polémica das Lei das Propinas (pouco tempo depois de ter existido uma carga policial contra estudantes do Ensino Superior que se manifestavam frente ao Parlamento). Asfixiou completamente as Escolas Profissionais, através da medida de corte de financiamento público. Afirmou que os salários dos professores se iriam tornar iguais aos de um canalizador. Assinou a Lei de Bases da Educação que faz referência à escolaridade obrigatória até ao 12ºano.
Manuela Ferreira Leite, Ministra de Estado e das Finanças do XV Governo Constitucional, de Durão Barroso, de 2002 a 2004. Inventou a obsessão extrema pelo défice. Promoveu cortes orçamentais cirúrgicos às PME, que tiveram como consequência a falência de algumas delas. Idem às restrições orçamentais feitas às Câmaras Municipais que colocaram muitas delas à beira do colapso económico. Contratualizou, em sede europeia, o projecto do TGV, juntamente com Durão Barroso, então líder do PSD.
Manuela Ferreira Leite, candidata às eleições para a Assembleia da República de 27 de Setembro 2009. Afirma que a geração jovem é fundamental. Propõe corte radical com as actuais medidas da Educação, apoiando os professores (...). Afirma que a escolaridade obrigatória até ao 12ºano terá poucas ou nenhumas vantagens. Critica a obsessão de José Sócrates pelo défice. Propõe um programa de apoio às PME. Propõe rasgar contrato do TGV. Apresenta 2 candidatos na sua lista arguidos em processos de justiça. Defende que, no seu partido, os candidatos a um determinado cargo não o poderão ser a mais nenhum cargo nas eleições que ocorram este ano. Alberto João Jardim é candidato inverso da afirmação anterior. Manifesta-se publicamente, no debate com o PM contra “os espanhóis”. De 2006 a 2008 foi Vogal do Conselho de Administração do Banco Santander.

Basta comparar, não é preciso dizer mais; na realidade, não vale a pena…
A “santinha da ladeira”, como parece ser conhecida por alguns dos seus colegas de Partido. Aquela que propõe “parar a democracia por 6 meses” (uma ironia?). A mulher que elogia publicamente a “democracia” na Madeira. A mulher que diz que o casamento é para procriar. A “outra senhora” segundo a feliz alegoria de Manuel Alegre, nada tem no seu programa de concreto, porque simplesmente nada tem para dizer ao País. E, segundo consta, também ao seu Partido.
Não sei porquê, lembro tempos passados, quando o SNI coordenava, na Emissora Nacional, o programa do salazarismo "Rádio Moscovo não fala verdade"…
Não havia necessidade…

Fim do segundo acto.
22 Setembro 2009
Alf.

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Fontes:
o http://www.sg.min-edu.pt/expo03/min_21_ferreira_leite/expo2.htm
o http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuela_Ferreira_Leite
o http://thoughts-and-letters.blogspot.com/2009/07/cv-da-avozinha.html