rio torto

rio torto

04 julho 2010

Ao meu Amigo ZeTó
























Uma cidade de azul pintada
, aqui e além “um céu de palavras paradas”, esperando sorrisos, mãos que se apertam, outras que se desencontram, um misto de cheiros, cores e poemas. E quadros que alguém sempre vai pintando, avisando a nossa memória colectiva, baralhando sons que se misturam, que nos alertam para a vida que vale a pena. O artista, “Cavaleiro”de “Montanhas”, sempre “O Pensador” da cidade das “praças de palavras abertas”, atento a todos os desvios, “à procura da sombra de uma luz que não há” . Porque se desprende dos ambientes do fausto, volta às origens “...já o meu pai pintava”, conhece novas realidades que transmite á sua obra, um “Encontro” com as suaves presenças de uma Angola recente que marca as pessoas, porque as pessoas marcam mesmo quando são distantes, a distância que importa? Ao "Ego declara Morte", alguma coisa tem que se apagar, renascendo porém a cada momento na dialéctica permanente da cidade, passa as palavras para a tela, reinventa poemas em aguarela e acrílico, “… não há céu de palavras que a cidade não cubra”.

A cidade Vive, pensa e luta, espera palavras novas em tempos difíceis, os “Nascentes” , as novas esperanças de “Campos de Flores”, de brilhos intensos, de sensações profundas, de cumplicidades óbvias. Sempre buscando o “Encontro”?

Colaboração:
• palavras do Zeca Afonso
• palavras e títulos das obras do ZéTó Passos, em Exposição no Museu Bernardino Machado, V. N. de Famalicão


02 julho 2010























Há cerca de 2 semanas, o País conheceu os resultados de uma sondagem efectuada por organizações governamentais e não-governamentais (1), em que sobressai um inquérito sobre a “satisfação dos portugueses”. Curiosamente (ou não) ficou a saber-se que, apesar de todos os constrangimentos, apesar da crise inventada pelo sector financeiro, apesar dos PECs e outras medidas que Governo e acólitos “montaram” para satisfazer os ditames dos alemães que “governam” (desgovernam) a dita União Europeia, os portugueses estão “satisfeitos”. Ainda que moderadamente. Aliás, este termo é mais que isso, é um conceito inculcado desde várias décadas, cuidadosamente modelado, trabalhado e difundido, servindo até para caracterizar um povo “habituado” a que lhe malhem em cima: moderação, brandos costumes, o povo é sereno. Os Governos, desde 1975, sempre da mesma cor política, oscilando entre o rosa-pardo e o laranja-desbotado, misturados, aliados ou em (falsa) alternativa, lavram de forma exemplar o conceito, traduzido no centrão politicamente correcto: sentido de estado, sentido de responsabilidade, equilíbrio, reformas moderadas, …, um caldo de cultura de adequação e resignação. Os resultados aparentemente não interessam, quer dizer não contam, não são mensuráveis. A interpretação da realidade é tão falaciosa como no futebol. Queirós é um lídimo exemplo, porém apenas um vulto na paisagem do centrão, a imagem do FALHANÇO; satisfeito, porque em 4 jogos a selecção só sofreu 1 golo (com Espanha) e marcou 7. É verdade, é uma interpretação da realidade; se lhe dizem que em 4 jogos só ganhou 1, outra interpretação da realidade, ele não aceita, porque está vinculado à primeira, à dele. Não joga para ganhar, nunca irá ganhar coisa nenhuma, porque interpreta os factos com base “no tal” conceito. Não arrisca, não joga ao ataque, só vê estrelas Ronaldo, de outro firmamento que não o nosso, não vê Fábios, Eduardos, Raules, que jogam (eles sim) para ganhar; será por acaso que Ronaldo é a imagem de um Banco muito conhecido, que tem um “feeling”, o verdadeiro, que o seu dinheiro vale não-sei-quantos-mais-por-cento?
O mesmo FALHANÇO de um Governo á deriva, ou se quiserem, derivando sempre para o mesmo lado, o da direita pois, que quer ainda mais e mais capitulações. Tal como Queirós, não joga para ganhar, aposta em 3, 4 ou mesmo 5 centrais, o centrão de novo. Não sabe (não quer) interpretar a realidade que mostra um País nos primeiros lugares das listas da pobreza extrema, dos baixos salários, dos combustíveis mais caros, dos IVAs mais altos …E nos últimos lugares da qualificação profissional, da distribuição da riqueza, da injustiça fiscal, da injustiça na justiça, …Da mesma forma que Queirós, vê como positivo, no que reporta a baixar o défice, ir ao bolso dos portugueses para “arranjar” 3 mil milhões de euro para “salvar o País”: é uma interpretação da realidade. Contudo não vê (não quer ver) que foram gastos 5 mil milhões de euro para tapar o buraco do BCP, BPN, BPP, salvando assim o País. Aliás, parece também não ver (não querer ver) que, só no 1º trimestre de 2010, os bancos apresentaram 3 mil milhões de euro de lucros diários, pagando ao Estado metade do que uma empresa “normal” paga.

Talvez a putativa “satisfação dos portugueses” seja algo positivo porque lhes permite viver a crise dos ricos com um sorriso, ao invés de contrair uma qualquer depressão, que os arrastaria para o buraco negro da psique, dispensando desta forma anti-depressivos e ansiolíticos que nunca poderiam comprar, dado que teriam de ser prescritos por um especialista a quem nunca poderiam pagar. Esta é uma interpretação possível do citado estudo. Contudo, uma outra (interpretação) dita que, tal estado de espírito pode significar uma relativa “impotência” para agir, para se indignar, enfim para se revoltar...

No dia em que aumentam os transportes, a alimentação, os medicamentos, o IVA e o IRS e, consequentemente o custo de vida e a diminuição do poder de compra, será que os mesmos portugueses ainda estão “satisfeitos”? Havia talvez que repetir o inquérito, possivelmente com um exercício prévio: um mês em que fosse possível calar as vuvuzelas da propaganda oficial, repetida vezes sem conta por uma comunicação social a mando dos ricos e poderosos; um mês, uns singelos 30 dias, sem a repetição exaustiva dos comentaristas de serviço que dizem invariavelmente o mesmo (por vezes disfarçados com uma linguagem muito português suave…) , dando voz aos que nunca governaram, aos que nunca decidem nada, aos que nunca tiveram voz; uma outra interpretação da realidade. Apenas e só um devaneio, um sonho, tal nunca seria possível; pelo menos de forma pacífica…

Algo porém anda há muito tempo escondido, um sentimento de revolta contra a inevitabilidade, que só mesmo a luta poderá quiçá reinventar. Senão estaremos sempre condicionados por uma única interpretação da realidade. Este Governo e outros do género centrão coloridos, serão sempre como Queirós: nunca vão ganhar nada, porque as pequenas “vitórias” que possam alcançar, são iguais ao zero-a-zero de Queirós, vitórias de Pirro, cujo fulgor se apaga no empate ou na derrota seguinte, que ditam forçosamente a eliminação, que aqui tem o significado malévolo de eliminar (leia-se excluir) de facto mais algumas e mais alguns. Ganhar significa correr riscos, Queirós não sabe (não quer) correr riscos, não faz as substituições adequadas, na altura certa, para dar uma cara nova à equipa. O Governo não quer correr riscos, não taxa a Banca como se impõe, não quer combater a especulação, nem a fuga de capitais para as off-shores; não quer valorizar o trabalho, condição indispensável para o desenvolvimento económico; não quer ver a realidade que prova que o dinheiro dos salários dos trabalhadores dinamiza o mercado interno. Queirós empata os jogos, o Governo empata os portugueses com um discurso da moderação e da consequente resignação. Queirós, ao querer empatar, perde tudo. O Governo, ao querer empatar os portugueses, vai perder o (muito) pouco que conseguiu. Queirós não se demite, porque acha que não perdeu. Sócrates também não se demite, porque considera que ainda pode ganhar alguma coisa (…).
Ambos estão enganados. Uma outra interpretação da realidade irá acabar por demonstrar isso mesmo. A pretensa “satisfação” dos portugueses poderá transformar-se a todo momento em indignação generalizada e na revolta de consciências mais que necessária à transformação social.

Hoje foi dia para reflectir. Nada melhor que sentir na pele o aumento do custo de vida, para acordar da letargia e passar ao ataque. Nem que para tal seja necessário recorrer à falta, ao tal cartão amarelo cirúrgico para impedir o avanço ao golo. E mesmo que a acumulação de amarelos impeça de jogar 1 ou 2 partidas, vale a pena arriscar. Porque a melhor defesa é sempre o ataque!

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(1) “Necessidades em Portugal: Tradição e tendências emergentes”, por TESE, Instituto de Segurança Social, Centro de Estudos Territoriais (CET/ISCTE), Fundação Calouste Gulbenkian e Young Foundation

21 junho 2010

Até sempre Camarada!

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada


“Palavras Eternas”, Sophia de Mello Breyner Andresen



Fizeste da palavra uma mensagem, uma arma virada para o futuro. Fomos por ti “Levantados do Chão”, contra a opressão latifundiária, contra as forças da ordem, da lei e da hierarquia da igreja; disseste na altura “um escritor é um homem como os outros: sonha”. Como o sonho comanda a vida, imaginamos Belimunda Sete-Luas perscrutando no escuro o que outros não conseguem ver e Baltasar Sete-Sóis para quem a luz é fonte de visão, à sombra de um convento de que fizeste um Memorial. Foste “Todos os Nomes” e um só, numa conjugação perfeita, lembrando-nos o Livro das Evidências, “Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens”. Afrontaste sem medos todos os poderes, foste crucificado pelos mesmo que crucificaram o outro, inverteste papéis, baralhaste os espíritos que das certezas se orgulham, conseguiste pôr um Caim a discutir com um deus tirano, arrogante, convencido e quiçá mal-formado, mostrando-nos a verdadeira face da hipocrisia de todos os poderosos. Pintaste um retrato único da cidade de Lisboa, numa das mais belas homenagens a Pessoa, no “Ano da Morte de Ricardo Reis”. Passeaste a tua classe pelo mundo inteiro, em 1998 com o Nobel da Literatura, prémio da alegria de escrever sobre o povo e sobre os direitos humanos.

E agora José? Por que nos deixas a pensar “No dia seguinte ninguém morreu "? O que retemos da tua sabedoria sobre a tal única inevitabilidade:” Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras…". Morremos um pouco contigo, uma mágoa imensa nos atravessa o corpo e a alma, de cansados que estamos de tanta injustiça, de tanta miséria. Mas, por outro lado, temos sempre a tua mensagem: “as pessoas não escolhem os sonhos que têm, São, pois, os sonhos que escolhem as pessoas, Nunca o ouvi dizer a ninguém, mas assim deve ser…” (1).
Como a tristeza nos invade, só um caminho nos resta; ensinaste um dia “As palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa(2). Queremos decididamente a outra margem, de uma certa maneira, que sempre andamos á margem…


É uma estupidez deixar perder o presente só pelo medo de não vir a ganhar o futuro.”(3)
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(1) In: “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, p. 143, José Saramago, Lisboa 1991
(2) In: “A Caverna”p. 77, José Saramago, Lisboa 2000
(3) In: “A Caverna”p. 251, José Saramago, Lisboa 2000

10 junho 2010

Como eu estive no 10 de Junho ...



Já chegou o dez de Junho, o dia da minha raça
tocam cornetas na rua, brilham medalhas na praça
Rolam já as merendas, na toalha da parada
Para depois das comendas, e Ordens de Torre e Espada
Na tribuna do galarim, entre veludo e cetim
toca a banda da marinha, e o povo canta a valsinha
Encosta o teu peito ao meu
sente a comoção e chora
Ergue um olhar para o céu
que a gente não se vai embora
Quem és tu donde vens, conta-nos lá os teus feitos
que eu nunca vi pátria assim, pequena e com tantos peitos


“A valsinha das Medalhas”, Rui Veloso e Carlos Tê, 1986


Assisti extasiado à tua condecoração neste Dia de Portugal e das Comunidades. Estavas linda, no teu traje branco, contrastando com o cinzento dos fatos cinzentos e gravatas multicores dos homens que dominam estas cerimónias cerimoniais. Fiquei muito contente por saber que o Governo ou seja lá que foi, fez um corte de 30 por cento nos preliminares, quero dizer, nos preparativos. Vi com estes olhos que a terra não vai comer (quero ser incinerado, lembras-te?) Na linda cidade de Faro, uns 3 mil militares, lindos nas suas farpelas, quero dizer, fardas das Forças Armadas Portuguesas. Siderado que estava com a Parada de Honra, com cerca de 1500 militares, entre eles do Colégio Militar, dos Pupilos do Exército, do Instituto de Odivelas, Cadetes da Escola Naval, da Academia da Força Aérea, da Escola de Sargentos, do Batalhão de Fuzileiros, do Corpo de Artilharia da Brigada Mecanizada Independente e ainda da Brigada de Intervenção Rápida, nem reparei na vetusta figura do Presidente Américo Tomás, perdão, Cavaco Silva que te iria colocar a medalha ao peito. Fiquei literalmente verde, com o relvado preparado em frente ao Teatro das Figuras, especialmente para o efeito. Dancei ao vento com os acordes da Banda da Armada e maravilhado com tanta pompa, desviei-me do percurso, para te ler de longe com os binóculos que comprei, especialmente para a cerimónia.

De repente um pára-quedista aterra em cima de mim, vez de aterrar em frente à tribuna. Acordo sobressaltado. Que sonho bonito!
Com papas e bolos se enganam os tolos…
Parte III – as Vacas Sagradas




Ainda que os juízes mais sagazes,
e as próprias feiticeiras,
estivessem convencidas do carácter culpável
das práticas de feitiçaria,
contudo a culpabilidade das feiticeiras não existia.
Assim acontece com toda a culpabilidade


Friedrich Nietzsche



Na Índia, a população é maioritariamente Hindu. Esta religião venera a vaca como sendo um animal sagrado. Na Índia, as vacas passeiam tranquilamente pelas cidades e vilas sem que sejam minimamente molestadas pelos habitantes, incluindo quando as manadas invadem as praças, onde comem os legumes dos produtores, sem que estes mostrem qualquer hostilidade para com o gado bovino. Devido a estas situações, algumas vacas desenvolveram um gosto especial por frutas. Algumas pessoas, de todas as castas, incluindo as mais altas, deixaram para trás as suas profissões para se dedicarem exclusivamente ao bem-estar das vacas mais fragilizadas e/ou mais velhas, criando vacarias que são sustentadas por eles próprios e por outras pessoas que lhes vão dando donativos. Entre estas pessoas, podemos encontrar políticos, médicos e toda uma série de profissões que neste país são muito importantes.” (1)

No resto do Mundo e também na Índia (porque não?) existe um universo paralelo, onde a população é maioritariamente pobre e pratica uma espécie esquisita de religião que venera um esquisito espécime, que dá pelo nome de Banca. Isso mesmo, tal como na história (verdadeira), os donos da Banca passeiam tranquilamente pelas cidades e vilas sem que sejam minimamente molestados pelos habitantes, incluindo quando as manadas invadem as praças, onde comem os produtos dos produtores, sem que estes mostrem aparentemente qualquer hostilidade para com eles. E ainda, tal como na história (verdadeira), alguns governos, de quase todas as matizes, incluindo as mais altas, deixaram para trás as suas profissões para se dedicarem exclusivamente ao bem-estar das vacas mais fragilizadas e/ou mais velhas, leia-se os bancos falidos, criando sofisticadas agências próprias, que são sustentadas por eles próprios e por outras pessoas que lhes vão dando donativos.

Como se pode ver, nada mais que a realidade pura e dura dos dias que vamos vivendo, perante a complacência daquelas e daqueles que nos tentam “vender” a ideia da inevitabilidade da coisa. E é vê-los aqui e mais além, a inventarem medidas para “reduzir o défice”, para “salvar a nação”, para “unir esforços contra a crise” e outras balelas do género, enquanto sugam os recursos dos que menos têm, mas que, à força de tanto ouvirem, lerem e verem a propaganda dos regimes, acabam por acreditar que de facto, não há outra solução: alimentar as vacas sagradas, tornando-as cada vez mais gordas e anafadas. E para arredondar, encontramos na realidade real, políticos, médicos e toda uma série de profissões que neste universo surreal, são muito importantes...

No País em que tentamos sobreviver, a Banca lucra neste momento, 5 milhões de euro por dia! A taxação de IRC à Banca em Portugal é de 15,6%, enquanto as restantes empresas pagam efectivamente 25%. Estudos recentemente efectuados levam a concluir que se a Banca pagasse o mesmo que as empresas, as receitas seriam mais do dobro do que o país precisa para o reajustamento orçamental. Um singelo exemplo: “Trading faz subir resultados do BES para os 119 milhões de euro, o que corresponde a um aumento de 17,6% nos lucros(2).

No mesmo País, que dizem à beira mar plantado, esbanjam-se actualmente 7.856 milhões de euro com o offshore da Madeira. Segundo dados do Diário da República nº 28 - 1ª Série, de 10 de Fevereiro 2010 (Folha 372) (3), a despesa orçamentada para a Assembleia da Republica é, em 2010, de 191.405.356,61 (191 milhões, 405 mil, 356 euro e 61 cêntimos), incluindo rubricas diversas: vencimentos, transportes, deslocações e estadas de deputados, assistência técnica (??), outros trabalhos especializados (??),restaurante, refeitório e cafetaria, equipamento de informática, outros investimentos (??), edifícios, transfer's (??) e diversos (??), subvenções aos grupos parlamentares e a campanhas eleitorais. Os PEC 1 e 2, representam na sua essência a protecção das “vacas sagradas” e a subserviência do Governo de Portugal (e outros mais Governos) às mesmas “vacas” de sempre. Eles (Governos) são cúmplices conscientes da Grande Vaca Angela Merkl, mentora-mor da política económica, a nível do espaço europeu.

Num arrojado discurso no Parlamento Europeu, a propósito da situação na Grécia, Daniel Cohn-Bendit disse de forma clara, simples e transparente. "Vocês estão completamente loucos", ou "...como é possível um País com 11 milhões de habitantes ter um exercito de 100 mil soldados, enquanto a Alemanha tem 200 mil?", ou ainda "... estamos a ajudar a Grécia a comprar as nossas próprias armas".. É esta a solidariedade europeia, é este (pelos vistos) o Programa Social Europeu de que tanto se gabam os responsáveis pela União e uma subserviente Comissão Europeia, perante a prática política do directório franco-alemão.

Numa célebre tese, escrita entre Dezembro de 1851 e Março de 1852, conhecida como “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, Karl Marx escreveu: “Hegel observa em uma de suas obras que todos os factos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Palavras para quê?

Tragédia e farsa misturadas a rigor neste século XXI, na deriva neoliberal, com os resultados que se conhecem: aqueles que nada fizerem para crise das “vacas sagradas”, a pagar às ditas sempre mais e mais. Quem se lembra ainda da “coesão social”, dos compromissos assumidos pelas Nações Unidas no ano 2000, do “modelo social europeu” , do próprio “Tratado de Lisboa”?

Vacas sérias e honestas de todo Mundo, Uni-vos!

(Fim)

(1) In: http://bicharada.net/animais/topicos.php?bid=33
(2) In: “Diário Económico, 12 Maio 2010, pág. 28
(3) In: http://www.dre.pt

20 maio 2010

Com papas e bolos se enganam os tolos…
Parte II – os Predadores

No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas pela noite calada
Vêm em bandos com pés veludo
Chupar o sangue fresco da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, Eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas, bebem vinho novo
Dançam a ronda No pinhal do rei
Eles comem tudo e não deixam nada

Zeca Afonso, “Os Vampiros “- Extracto, 1963

Fonte: resistir.info/financas/imagens/fmi.jpg

Na selva animal, os predadores estão bem identificados. São os que procuram activamente as suas presas, que perseguem e capturam. Depois disso, ou as matam simplesmente ou se aproveitam delas continuamente para as sugar até ao tutano, até nada mais restar. Continuo a falar do reino animal propriamente dito, onde abundam espécies como o tubarão, a hiena ou o abutre. Os predadores nem sempre têm sucesso nas suas caçadas, pelo que tentam caçar o alvo mais fácil. Na maior parte das vezes, os predadores optam por escolher os animais velhos, doentes e mais fracos para a sua "refeição", deixando os mais fortes e robustos para se reproduzirem. Os predadores são normalmente animais de grandes dimensões, embora a aranha (por exemplo) sem ter propriamente essa característica, seja considerada também um predador. A hiena é um caso muito particular; para além de ter fama de rir, aproveita o trabalho de caça dos leões (abater a presa) e depois, em bando, consegue afugentá-los, impedindo simplesmente que eles se alimentem da caça que fizeram. Na Biologia, essa relação é caracterizada como “esclavagismo interespecífico”, a saber, um tipo de relação ecológica entre seres vivos onde um deles se aproveita do trabalho ou de produtos produzidos pelo outro de espécie diferente.

Quanto daqui poderemos reter para identificar, na selva liberal em que vivemos? Alguns ensinamentos, numa espécie de Biologia Social, desenhada com contornos cinzentos, mas onde contudo podemos encontrar os tubarões, os abutres, os predadores sociais. Como num baile de máscaras, ei-los a vestir a pele, prontos a alimentarem-se da riqueza por outros produzida, a repartirem entre si os lucros desmesurados, na ganância financeira e especulativa. Uma tenebrosa teia (a aranha…) de interesses, que manipulam governos e Estados. Que lhes importa a pobreza, a subnutrição de milhões de crianças, o desespero das mães, das famílias? Tal como a hiena, aparecem fulgurantes, com o seu riso sarcástico e o seu discurso fluentemente impiedoso, sugando o produto do trabalho dos outros. Ao contrário da selva animal, a lei (da outra selva) não os atinge. Falam. E falam do “interesse nacional”, da “conjugação de esforços”, da “repartição de sacrifícios, a bem da nação”. Como se os interesses deles fossem iguais aos nossos, como se fosse comparável o “sacrifícios”, palavra santa, invocada em vão (pecado!) para mascarar as deambulações de um mercado errante e desajustado em termos de equilíbrio social.
Esclavagismo interespecífico. Um conceito a reter.

A Associação Repórteres sem Fronteiras publicou, no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, a lista de "40 predadores", identificando líderes políticos, religiosos e organizações terroristas que, sistematicamente apontam como alvo o trabalho dos jornalistas. "Poderosos, perigosos, violentos, eles estão acima da lei”. São 17 chefes de Estado e muitos chefes de Governo, juntamente com algumas forças armadas regulares e organizações mafiosas ou terroristas que são identificados na lista deste ano dos "predadores" da imprensa. Voltando à Biologia, existe a designada “pressão selectiva imposta a um outro e que conduz a uma corrida armamentista entre predador e presa”. Fantástica asserção esta, que nos transporta para a “nossa selva”, onde rápida e facilmente identificamos as similitudes apropriadas. Os predadores costumam procurar vítimas vulneráveis, seduzindo gradualmente os seus alvos com discursos por vezes (a maior parte das vezes) insinuantes, habilidosos enfim, populistas. Não fora assim, não teriam votos, comprados pela desfaçatez e pela mentira.

Em Dezembro de 2008, quando recebeu o Nobel, Harold Pinter, falou da protecção aos predadores, por parte de certos e determinados políticos: “… A linguagem política, tal como é usada pelos políticos, não se aventura por nenhum destes territórios, dado que, na generalidade, os políticos, naquilo que deles podemos ver com clareza, estão interessados não na verdade, mas no poder e na manutenção desse poder. Para manter esse poder, é fundamental que as pessoas continuem ignorantes, que vivam na ignorância da verdade, e até da verdade das suas próprias vidas. Aquilo que nos rodeia é uma vasta tapeçaria de mentiras, sobre a qual nos vamos alimentando…”. O alimento afinal somos nós, tremenda verdade! No seu discurso, de terrível actualidade, interrogava-se: “O que aconteceu com a nossa sensibilidade moral? Alguma vez a tivemos? O que quer dizer esta expressão? Refere-se a um termo pouco usado nestes dias – consciência? Uma consciência de agir não apenas com os nossos próprios actos mas com a responsabilidade partilhada nas acções dos outros? Já tudo isto morreu?”.

Eu diria que não morreu, mas que existe no “fascismo brando”, uma anestesia forçada, um estado de coma induzido, uma cegueira na cidade do Homem, um estado paraplégico de quase impotência. Lentamente porém, uma consciência cívica tenta inverter este estado. Pode levar o seu tempo a tentar desequilibrar a situação. A violência dos predadores merece uma resposta. A selva animal tem uma resposta. Na “nossa selva”, é preciso encontrá-la algures por aí…


(Fim da 2ª parte)

Obras consultadas:
× Starr, Cecie and Ralph Taggart “ Biologia: A Unidade e Diversidade da Vida “, 8ª edição. Ed. CA, Belmont, Pennsylvania, 2003
× Raven, Peter H. and George Johnson “Biologia”, Ed. McGraw-Hill, Boston, 2002

Sites consultados:
× http://www.coceducacao.com.br/bcoresp/bcoresp_mostra/0,6674,CESC-853-8070,00.html
× http://www.tiosam.net/enciclopedia/?q=Relações_ecológicas
× http://www.sobiologia.com.br/conteudos/bio_ecologia/ecologia22.php
× http://meioambiente.bicodocorvo.com.br/natureza/relacoes-ecologicas
× http://dn.sapo.pt/inicio/tv/interior.aspx?content_id=1559100&seccao=Media

16 maio 2010

Com papas e bolos se enganam os tolos…




Escreve, pois, o que viste,
tanto as coisas actuais como as futuras
.”
Versículo 19, “Livro do Apocalipse, Cap. I”, Novo Testamento“

"Fora os cães, os envenenadores, os impudicos,
os homicidas, os idólatras
e todos aqueles que amam e praticam a mentira
Versículo 15, “Livro do Apocalipse, Cap.XXII”, Novo Testamento







A diversão e o delírio da política portuguesa da última semana, deixam perplexos os habituais comentadores / comentaristas / colunistas, ou simplesmente curiosos e mais ou menos atentas(os) cidadãs(aos). A confusão instalou-se definitivamente em Portugal e a comunicação social continua a alimentar os mesmos interesses de sempre, deixando passar a imagem da desventura da famigerada crise em que nos obrigaram a entrar. O objectivo contudo é por demais claro: fazer crer que teremos que pagar pelos erros sucessivos das governações alienadas ao poder voraz do liberalismo económico mais primário de que há memória. E a que os Governos europeus prestam vassalagem, abdicando de princípios de defesa dos direitos elementares de quem os elegeu.
A chanceler alemã Angela Merkel (AM) “…saudou o esforço de contenção português e sublinhou a importância da consolidação das finanças públicas de todos os Estados-membros da Zona Euro(a) . E logo a seguir, num assomo digno de patrão ganancioso, afirmou que têm que ser os “grandes países europeus” a comandar a política e que esta crise sobre o futuro do euro não é uma crise como as outras. “É o maior desafio que a Europa enfrenta desde 1990 ou mesmo nos últimos 53 anos, desde a assinatura do Tratado de Roma. Trata-se de um desafio existencial(b) . O “desafio existencial“ a que se refere a dama da direita alemã, poderá ter a ver com a frustração própria de quem já perdeu a perdeu a maioria no Bundesrat, dada a maior derrota de sempre imposta à CDU e aos liberais do FDP, na Renânia do Norte. Na linha de raciocino de AM está, para além do desespero da derrota eleitoral, a defesa estrebuchada das medidas do Banco Central Europeu, que não acerta uma, desde que a confusão dos mercados se instalou.
Está portanto claro quem manda politicamente na Europa? Claro que não. E é precisamente por isso que o poder absoluto das ditas “agências de rating” e da especulação económica desenfreada se vai espalhando um pouco por toda a parte, deixando a nu a verdadeira face do liberalismo e do roubo descarado de bancos, agências financeiras, especuladores de todos os feitios, retirando sempre mais uma fatia aos trabalhadores e pagando sempre cada vez mais aos verdadeiros responsáveis pela dita “crise”. Tudo artificial, meticulosa e cirurgicamente construído, para fazer crer na inevitabilidade das medidas de contenção, de redução de salários, de aumento de impostos, de cortes nas regalias sociais, de protecção ao emprego, enfim dos tais direitos do estado social. O rotundo falhanço do “modelo social europeu” aí está, até para quem anda mais distraído.
Enquanto isso, temos papa, cerimónias, púlpitos majestosos em Lisboa e Porto, tolerâncias de ponto, uma imagem nunca vista desde o Estado Novo, em que o regime aclamava o ditador católico e se organizava para produzir um espectáculo legitimador da ditadura. As patéticas declarações de Cavaco Silva são uma cópia de … Américo Tomás. Nunca saberemos (?) se este “regime” também mandou “fretar” autocarros, comboios e barcos para trazer aquela gente anónima e crente que vem da província para aclamar o homem que encobriu as violações de crianças por padres pedófilos, quando era o perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé (Congregatio pro Doctrina Fidei), que assumiu a mais violenta cruzada de que há memória conta o uso do preservativo, da pílula, da interrupção voluntária da gravidez, da união e/ou casamento entre pessoas do mesmo sexo, defendendo cândidamente a “castidade”. Enfim, mais uma vergonha completa, que espezinha os Direitos Humanos. Voltando a Cavaco, lembro a Carta que lhe enviaram milhares de cidadãs e cidadãos da República Portuguesa, “motivados pelos valores da liberdade, da igualdade, da justiça e da laicidade”, que subscrevi e onde se pode ler, por exemplo: “Embora reconhecendo que o Estado português mantém relações diplomáticas com o Vaticano e que a religião católica é a mais expressiva entre a população nacional, não podemos deixar de sublinhar que ao receber Joseph Ratzinger com honras de chefe de Estado ao mesmo tempo que como dirigente religioso, o Presidente da República Portuguesa fomenta a confusão entre a legítima existência de uma comunidade religiosa organizada, e o discutível reconhecimento oficial a essa confissão religiosa de prerrogativas estatais, confusão que é por princípio contrária à laicidade. Importa ter presente que o Vaticano é um regime teocrático arcaico que visa a defesa, propaganda e extensão dos privilégios temporais de uma religião, e que não reúne, de resto, os requisitos habituais de população própria e território para ser reconhecido como um Estado, e que a Santa Sé, governo da Igreja Católica e do «Estado» do Vaticano, não ratificou a Declaração Universal dos Direitos do Homem – não podendo portanto ser um membro de pleno direito da ONU – e não aceita nem a jurisdição do Tribunal Penal Internacional nem do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, antes utilizando o seu estatuto de Observador Permanente na ONU para alinhar, frequentemente, ao lado de ditaduras e regimes fundamentalistas. ”
Vale a pena ainda recordar (é sempre bom recorrer a factos) que a dita “Congregação” é a mais antiga das nove congregações da Cúria Romana da instituição que dá pelo meigo e suave nome de “Santa Sé”; e ainda que a mesma deriva directamente da chamada Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal da Idade Moderna e era responsável pela criação da Inquisição em si. Este papa é (ou foi, tanto vale…) o inquisidor-mor da hierarquia da Igreja Católica, Apostólica e Romana.
Para a história (ou para o caixote do lixo da dita…) ficam ainda as bajuladoras palavras de José Sócrates, falando sempre em “sua eminência”, mostram a verdadeira face de um político de meia-tigela, todavia sempre triunfalista, na sua posição de mentiroso compulsivo, agora que descobriu a sua alma gémea… para enganar os que quiçá julgará tolos.

Juntando um excelente bolo(s) ao papa(s), tivemos as tolerâncias de ponto que custaram ao País 37 milhões de euro por dia, qualquer coisa como perto de 100 milhões. Muito interessante para um PEC que não é, nem mais nem menos, que a outra face do bolo, o pacote amargo (há bolos que são assim…) das “medidas de contenção” á portuguesa: o aumento do IVA, o aumento do IRS mais o corte (disfarçado) de 5% nos vencimentos dos políticos. Para reduzir o défice para 7,3 por cento em 2010 e 4,6 por cento em 2011. Para “poupar”, o Governo reduz em 1%, o salário de quem ganha menos que 2.375,00 euro por mês, o que significa na prática um corte aos assalariados e reformados, ou seja, 90% da população. Medidas “vitais para defender a economia do país e reforçar a credibilidade” (c), diz o primeiro-ministro. Curiosamente, é exactamente o contrário: afundar ainda mais a economia do País, passando o investimento para os níveis de há 33 anos atrás, fazendo com que o peso do investimento público no PIB não ultrapasse os 2%. e reforçar a fidelidade canina aos grandes interesses do capital financeiro e aos ditames mais que duvidosos de AM e Sarkosy.


Mas o que José Sócrates e o seu lacaio da última hora não falam, apesar de o saberem muito bem (já que são responsáveis por isso), é o que Portugal é o 2º País mais desigual da Europa: no “coeficiente Gini”, quanto maior o valor, maior a disparidade entre os rendimentos dos mais ricos e dos mais pobres; o valor era de 36% em 1997, continuava igual em 2008, 6% acima da média da União Europeia. Uma realidade que devia envergonhar os responsáveis; para ficarmos em 1º lugar, só restam 2 pontos percentuais. O PEC e as recentes medidas de emergência da última semana, terão decerto a intenção de igualar a Letónia, na tabela da classificação da vergonha europeia, uma União dos interesses dos ricos e poderosos.


Os tolos porém, não são de todo tolos. Há tolos que, embora o pareçam, não o são. Há tolos que não são tolos. Há tolos que são mesmo tolos. Há tolos que aprenderam a ser tolos. Há tolos que querem mesmo ser tolos. Os que ainda estão na fase de expectativa, entre serem e parecerem, irão decerto acordar, para não serem tomados por tolos de novo. A coisa parece complicada; não o é contudo, se atentarmos a que existem alternativas a “papas e bolos”. Para atirar à cara dos senhores do “centrão” que nos querem tomar, não por tolos, mas por parvos. Isso é pior.

(Fim da 1ª parte)
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(a) Agência Lusa, 13 Maio 2010
(b) Fonte: Euronews, 15 Maio 2010
(c) Agência Lusa, 13 Maio 2010

01 maio 2010

1º MAIO VERMELHO!



“…Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar
. …”

“Fala do Homem Nascido “- excerto, António Gedeão



Em Maio dia 1, do ano sem graça 2010. Um ano de imensa poeira lançada aos olhos da grande maioria da população. Um Maio que hoje começa, um dia muito especial para aquelas(es) que trabalham e fazem a riqueza do País. Riqueza que não possuem de facto, pois que vai direitinha para os bolsos já cheios dos que detêm o poder económico e o usam para serem sempre mais ricos. Na véspera deste dia de LUTA, sabemos que o Governo quer antecipar as medidas do PEC, que dizem respeito a "...uma intervenção forte no controlo da despesa: contenção de despesas com pessoal e reforço do controlo das admissões na Função Pública; controlo das despesas sociais e selectividade nas despesas com capital…”, (a) palavras de José Sócrates, hoje na Assembleia da República. Mas há mais, a reinvenção do famigerado “bloco central”: “É por isso que considero da maior importância o diálogo que mantive há dias com o líder do maior partido da oposição [Pedro Passos Coelho] - e que abre uma nova fase de diálogo construtivo no país", (a) . Mas, pasme-se, Sócrates não sabe o impacto do corte no subsídio de desemprego: "Não temos nenhum estudo que nos permita dizer qual a consequência orçamental da redução do subsídio de desemprego" (b) . Malhar nos trabalhadores, os verdadeiros responsáveis pela “crise”, aliás uns malandros que não têm direito ao reconhecimento de mérito, ou simplesmente que não querem trabalhar e preferem estar desempregados e receber o respectivo subsídio. Há que acabar com esta situação de privilégio e vá de cortar pela base. É assim que o País vai para a frente, bem feito portanto. A ironia contudo espelha a realidade de um Governo que, à semelhança de tantos outros por essa Europa, em que “… os poderes públicos se recusam a acabar com a especulação de direito”, reflectindo “… ausência de uma estratégia global” e em que “…o preço da factura enviada pelos bancos para sua própria incompetência, é pago afinal pelos trabalhadores”. (c)
Para quem ainda tivesse duvidas, a resposta aí está: a capitulação vergonhosa perante a especulação, o roubo descarado, a intolerável intromissão das ditas “agências de rating”, que mais não são que organizações mafiosas de destabilização do mercado, a livre concorrência ao saber dos interesses dos senhores do dinheiro, o liberalismo levado ao extremo da arrogância, aos quais os Governos prestam vassalagem e capitulam finalmente, prestando “assistência”, salvando os bancos, socializando prejuízos e
garantindo lucros.

O cenário deste 1º de Maio, não podia ser mais catastrófico. Eles merecem uma resposta, essencialmente porque não podem, nem querem, dar respostas. Provavelmente, na rua, na liberdade de correr com eles, de lhes atirar um sapato, no mínimo. Ou de lhes atirar à cara com a pobreza e com a miséria que paira por aí. “Porque os outros se compram e se vendem / E os seus gestos dão sempre dividendos(d) , Sophia, que bem retratavas outros tempos, que bem ficam agora, hoje, as tuas palavras, “Porque os outros vão à sombra dos abrigos / E tu vais de mãos dadas com os perigos(d) . E a tremenda recorrência que a todos nos dá força, “Porque os outros se calam mas tu não(d) , convocando-nos para uma LUTA, que é a de Maio, de um Abril maduro com 36 anos, feitos a 25. Não tendo mais palavras para pintar o negro quadro em que nos plantaram, evoco as que, de sempre actuais, até arrepiam: “Qu'importa a fúria do mar / Que a voz não te esmoreça / Vamos lutar / Venham ver, Maio nasceu / Que a voz não te esmoreça / A turba rompeu(e)

(a) in: http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Nacional/Interior.aspx?content_id=1557456é
(b) in: http://www.cmjornal.xl.pt/noticia.aspx?contentid=23248F55-4203-43AF-934D 71CC128EB97A&channelid=00000021-0000-0000-0000-000000000021
(c) Pierre Rimbert, (Le Monde Diplomatique, 30/Abril/2010)
(d) “No Tempo Dividido e Mar Novo”, Edições Salamandra, 1985, p. 79
(e) “Maio, Maduro Maio”, álbum “Cantigas do Maio”, Zeca Afonso, 1971.

26 abril 2010

25 Abril – 36 anos


Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser hom
ens…”

Os Putos”, José Carlos Ary dos Santos





Hoje havia sol. Esse ao menos é para todos. Desci a Avenida, como tantas vezes, Lisboa está parada, mas há um brilho especial, o cheiro e a cor dos cravos. Nem tudo porém é vermelho, nem o povo é já quem mais ordena, a ordenança é agora de quem nos oprime. Hoje, dizia-me um amigo catalão, que perpassa pela Europa um “fascismo brando”, difícil de combater, porque de tão obscuro que é, vivendo disfarçado sob a capa do liberalismo económico, não consegue contudo esconder a verdadeira face de ditadura do capital. Esse mesmo que oferece prémios escandalosos aos gestores públicos, descobrindo esta coisa espantosa: o tal “mérito” só a eles pertence, nunca aos trabalhadores. A esses são pedidos (qual pedidos? exigidos!) os sacrifícios do costume. Que servem para lhes aumentar os proveitos. Os Estados permitem, os Governos capitulam, vergam-se diante deles, devem-lhes porventura a tal fidelidade canina, própria de verdadeiros acéfalos. Não podemos calar, nem capitular, a indiferença não é solução. As ditas reformas no nosso País, da autoria de um Governo que devia ter vergonha de se auto proclamar “Governo Socialista”, não passam de uma capitulação grosseira ao capital, uma triste sombra do vazio de ideias que essas senhoras e senhores, a começar pelo Chefe, não conseguem esconder. Por mais que cantemos a madrugada de 25 de Abril de 74, não conseguimos esconder a revolta. O Poder é hoje em Portugal, como por essa Europa fora, o espelho do falhanço e só nos merece desprezo. Ouvir o socrático discurso, balofo, acobardado e arrogante, é o mesmo que ouvir Marcelo Caetano, quando descobriu no Inverno fascista, uma Primavera em que o Sol era só para ele.

Hoje fez Sol em Lisboa, Portugal. Descemos a Avenida, como tantas vezes. Uma réstia de esperança será porventura ver tantas e tantos jovens com metade da idade do 25 de Abril. São elas e eles que vi, ouvi e fotografei, a verdadeira face da esperança.

Revermo-nos nelas e neles é um conforto para a alma. Alma que se quer de luta, porque ela sempre continua. É esta não pode de todo ser mais uma frase feita, tem que ser uma arma mortífera para os senhores do dinheiro, que nenhum respeito nos merecem. Elas e eles que dia a dia nos fazem lembrar um Abril distante, mas sempre presente na memória dos dias. Com ou sem Sol.

25 DE ABRL SEMPRE!

16 abril 2010


Come fly with me let's fly, let's fly away
If you can use some exotic booze there's a bar in far Bombay
Come fly with me let's fly, let's fly awa
….
Weather-wise it's such a lovely day
Just say the words and we'll beat those birds down to Acapulco bay
It's perfect for a flying honeymoon they say
So come fly with me let's fly, let's fly away
.”

Francis Albert Sinatra





A nuvem de cinza avassaladora que, por estes dias, ameaça os espaços não será porventura capaz de calar a Voz, neste que acabo de saber ser o seu Dia Mundial. Pode talvez produzir alguns sons mais roucos, mas mesmo assim de alguma incontida raiva.
A Voz não poderá para já convidar “…come fly with m, let's fly, let's fly away”, por causa da nuvem. Mas, logo que ela passe, poderei ir de viagem. Nada como ir de viagem, para ouvir as Vozes daqueles que estão distantes (em todos os sentidos). A Voz transporta-nos aos outros mundos, comunicamos com ela. Treinamos a Voz, para nos fazermos ouvir, usamos a Voz para transmitir a ternura, para clamar contra a indiferença, para chamar nomes mais ou menos ajustados, para premiar com um Viva, para gritar bem alto o golo que marcamos ou que outros marcam, para gemermos por vezes de dor (aquela Voz que nos parte o coração). Dominamos a Voz tantas vezes, de comoção. Calamos em tempos a Voz, porque nem falar nos era permitido, nunca esqueceremos o tempo das trevas, desse fascismo patético que nos dominou, melhor, que nos queria dominar. Mas também não esquecemos que outras e outros vivem sem poder usar a sua Voz e aquelas e aqueles que não são Voz para coisa nenhuma, porque não lhes é reconhecida cidadania. E ainda outras e outros tantos que, por deficiência, não podem usar a Voz.
Tantas vezes invocamos a Voz: “vozes de burro não chegam ao céu…”, “a voz do povo é a voz de deus”, “só os poetas, são dos verdadeiros deuses a voz”, em frases feitas ou desfeitas…, como melhor nos aprouver. Por vezes usamos a Voz para ferir alguém, a pior das utilizações possível, sobretudo se o outro o não merecer.

A Voz de um Abril distante, mas sempre presente: “... daqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas”, lembras-te? As Vozes desse Abril, símbolos de alegria e liberdade e suportes de um conceito de vida, o Zeca, o Fausto, o Sérgio, o Zé Mário, o Fanhais, o Freire, tantas e tantos que poderia evocar, as vozes da chamada “traz outro amigo também”. E eles vinham na altura, agora já nem tanto…

Alguém me disse hoje algo que não esquecerei: “A voz soa mais alto quanto mais ganha…”. Triste sinal dos tempos, verdade incontestável. Talvez o que fique neste Dia Mundial, como marca malévola e perversa…

16 Abril 2009
Alf.

06 abril 2010


Para que serve um Papa?
"Comece por fazer o que é necessário, depois o que é possível, e de repente estará fazendo o impossível."
S. Francisco de Assis




Poderá parecer eventualmente provocatório trazer à liça nesta época pascal, a veneranda figura do chefe máximo da igreja católica, apostólica e romana (ICAR). É de facto isso que pretendo. Porque considero intolerável que o dito senhor tenha permitido a ocultação dos factos relacionados com os monstruosos actos de pedofilia praticados durante 22 anos (de 1950 a 1972) pelo padre Lawrence Murphy. O New York Times (NYT) revelou, na passada semana, que o então perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé, J. Ratzinger, tomou conhecimento de que o referido padre tinha sido acusado de maltratar quase 200 crianças surdas numa escola do Wisconsin. O NYT revela ainda que a correspondência mantida em 1996, entre o padre e o então cardeal J. Ratzinger, foi mantida sigilosa durante muitos anos (…). Claro que o Vaticano saiu logo em defesa do Papa, afirmando, de forma completamente desastrada, que ele só teve conhecimento dos fatos quando era tarde, quando o idoso sacerdote já estava muito doente…
Para que serve realmente um Papa? Pode colocar-se este senhor no banco dos réus, ou vamos esperar que a divina providência (acho que é assim que se diz…) faça justiça? Como por exemplo, aquela que serviu em tempos para queimar na fogueira as(os) que não acreditavam na “palavra”? A igreja de então é mais ou menos regida pelas mesmas regras: os dogmas, as intoleráveis tentativas de intromissão na política dos Estados, no fausto de uma hierarquia anquilosada, mas tremendamente eficaz, quando se trata de condenar, excomungar e perseguir os que ousam levantar a voz, na riqueza incomensurável de um Vaticano que gasta rios de dinheiro dos “contribuintes” e prega a caridade aos pobrezinhos como moeda de troca, uma espécie de “responsabilidade social” de referência quase obrigatória de qualquer empresa (…).
Um Papa, sobretudo este, é uma aberração, uma verruga, uma pústula, uma gastrite intelectual, enfim uma coisa contra-natura, um autêntico atentado à inteligência! É, para mim, a chamada ao mundo das trevas, uma ameaça à luz e à cor, ao brilho dos sóis. O branco da impureza e dos maus costumes. A raiva incontida da impotência, perante uma humanidade que se vai libertando das teias de um “aparelho” castrador e violador de consciências (e, pelos vistos, não só de consciências…). Tudo junto, numa mistura de hipocrisia e mentira, no silêncio cúmplice de grande parte das atrocidades, na discriminação das mulheres, utilizando “tempos de antena” para vincular ódio e desprezo pela diferença.
Tal acontece, enquanto membros da dita igreja, mulheres e homens anónimos, se empenham em causas humanitárias, em África, Ásia e América Latina; pessoas simples, diria de boa-fé, que merecem todo o respeito, admiração e estima, porque perseguem uma Missão, defendendo causas e valores universais de humanidade, dignidade e respeito pelos Direitos Humanos. Elas e eles que, nos países em desenvolvimento, lutam pela autonomia das populações, contra as injustiças e contra a exclusão social, por uma cidadania global, activa e responsável. Elas e eles, nada têm a ver com o que digo e escrevo sobre a hierarquia podre, reaccionária e déspota da ICAR, que infelizmente ainda mantém influência decisiva nas camadas menos esclarecidas das populações, manipulando descarada e despudoradamente, do alto dos púlpitos e/ou da varanda do Vaticano.
Não existe Democracia, triste constatação, nesta (como noutras) igreja(s). Não se pode demitir um Papa, o seu poder é “eterno”. O “senhor de branco”, curiosamente sempre branco, auto intitula-se de “representante de deus na terra”, um arbítrio de um alter-ego levado ao extremo, um misto pérfido de arrogância, (mais que duvidosa) superioridade moral e pornografia intelectual.

Há coisas que é preciso dizer, com toda a frontalidade; passadas e divulgadas, quase um exercício de stand-up contínuo, para combater os aristocratas e autocratas dos dogmas e dos fundamentalismos. Estou a falar, a bem dizer, contra a ICAR e seus dignitários, ministros, dirigentes e outros acólitos e súbditos mais ou menos disfarçados, que curtem fidelidade canina a uma instituição (como muitas outras…) a abater politicamente; ao menos, no sentido metafórico do termo. Os que se dizem não-praticantes (coisa curiosa…) que se cuidem também, dado terem também a sua quota de responsabilidade, mesmo que assobiem para o ar, fazendo de conta que não é nada com eles.
A sociedade civil deve pedir contas a estes senhores todos, ao senhor que veste de branco, que mora em Roma e que se pavoneia por toda a parte, espalhando (espelhando?) a confusão nas mentes menos inquietas e menos esclarecidas.
Espero sinceramente que o seu lugar seja o caixote do lixo da História, neste novo século. Espero também, que o falo que o senhor de branco carrega no cartoon, seja o mais erecto possível e que não caia na tentação de perder o tesão…

05 Abril 2009
Alf.

31 março 2010



GABRIEL
It was only one hour ago
It was all so different then
Nothing yet has really sunk in
Looks like it always did
This flesh and bone
Is just the way that we are tied in
…”
"I Grieve", City of Angels, Peter Gabriel




Apenas há uma hora atrás… A notícia: Gabriel. A primavera de uma Vida que nasce na Primavera do tempo. Agora um tempo em que normalmente desesperamos por isto ou por aquilo. Hoje esperamos. Ele veio ter connosco. Dar-lhe tudo o que ele merece pode ser apenas um lugar-comum, o tempo se encarregará de o fazer feliz neste mundo cada vez mais desigual. Amor, carinho, apaixonadamente, perdidamente, assim mesmo. Saberemos transportá-lo ao maravilhoso mundo dos sonhos, fantasias e utopias? Se a Felicidade é um mito, fazê-lo feliz pode ser a Realidade. Estamos felizes e queremos que ele seja feliz entre nós. Já não há anjos e arcanjos (?), deste dizem ser o arauto de boas novas, mensageiro de boas notícias; e que nos dará compreensão e sabedoria. Poderá transformar o mundo? Quem sabe? Para nós que ora o acolhemos, porventura uma lição de vida, de uma esperança incontida de alegria e de Amor. Com os olhos radiantes de encher a nossa vida de Cor, pintar um quadro para Gabriel na cidade dos anjos que imaginamos. E, como a imaginação é poder, viva pois Gabriel!


30 Março 2010
Alf.

08 março 2010

O segundo erro de Deus?




Mulher e Homem JUNTOS? Claro que sim!

Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
de esperas…”

Tourada” (excerto), José Carlos Ary dos Santos, 1972

Foto: João Tocha, Malange, 2009


Evocar um homem a falar da Mulher, poderá parecer um paradoxo, sobretudo, neste dia. Não sei quantos (muitos concerteza) terão sido os erros de deus, essa criatura insondável e malévola, que porventura terá inventado a discriminação e a diferença, como coisas perfeitamente naturais. Quando pronunciou a Mulher como “o segundo erro de Deus”, quereria Nietzsche porventura desmistificar o paradoxo: qual teria sido o primeiro? Ou pelo contrário, associar a Mulher aos erros frequentes e constantes do dito criador? Curiosamente, o autor, que morreu no ano 1900, em pleno verão, com 55 anos, muito novo para a nossa época, haveria de “presenciar” (apenas com 13 anos de idade), ao 8 de Março de 1857 em Nova Iorque, data por demais conhecida. Não há registo que se tenha posteriormente manifestado sobre o assunto…

A história diz-nos que, mesmo nos países ditos desenvolvidos, a Mulher foi diminuída, discriminada e violentada e se revoltou contra as más condições de trabalho e reduzidos salários. Metáforas à parte, estará a mulher, em pleno século XXI, dotada do mesmo estatuto do homem, iguais condições de acesso ao trabalho, iguais direitos, salário igual para trabalho igual? A questão curiosa que se levanta, poderá ter uma resposta politicamente correcta, para os que pensam (e afirmam) que a sociedade do conhecimento gerou em si mesma, a igualdade plena de direitos e garantias e que a democracia, o chavão que dá para encobrir as maiores desigualdades, é o melhor dos sistemas para garantir “oportunidades”. A realidade, para a quem quer ver, contudo não engana. Por toda a parte, em todos os continentes, a Mulher ainda é discriminada e reduzida muitas vezes a um papel secundário. Com contornos de injustiça, de diferenciação de género, por vezes obrigada a práticas atentatórias á sua natureza, como o demonstram, por exemplo, a mutilação genital, praticada até na velha Europa, imagine-se! E sempre em nome das religiões, esse flagelo universal, pesadelo das civilizações, torpe desígnio que as arrasta pelos trilhos da indignidade: burkas, espancamentos e flagelação por não serem fiéis ao sacrossanto marido, por terem gerado e dado à luz um filho fora da instituição casamento, inventada pelas igrejas, a começar pela católica, apostólica e romana. Há alusões aberrantes da Mulher que chocam os sentimentos e a razão, como a de Alexandre Dumas, “mulher - é o anjo e o diabo num só corpo”; lá está no fundo a imagem da religião sempre presente. Um lado escuro do mundo? Teria razão John Lennon quando uma vez escreveu “A mulher é o negro do mundo. A mulher é a escrava dos escravos. Se ela tenta ser livre, tu dizes que ela não te ama. Se ela pensa, tu dizes que ela quer ser homem”? Dá para pensar, pelo menos para quem quer abrir o espírito, libertário que o seja, “… que a liberdade está (sempre) a passar por aqui(1) . Quando a grande Simone de Beauvoir afirmou que “é pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta”, não terá porventura pensado que, quase meio século depois, a situação da mulher relativamente ao emprego, estaria praticamente no mesmo ponto que nos anos setenta do século passado. A verdade é esta: em 2010, no nosso País, “60% dos diplomados em Portugal são do sexo feminino, mas apenas 16% são quadros superiores na administração pública e nas empresas; quando se comparam os salários, os homens recebem em média mais 287,00 euros do que as mulheres que ocupam o mesmo posto(2)

No dia de hoje, quero deixar:
o às amigas, companheiras e/ou camaradas, as palavras de um dos precursores do romantismo (3) : “A mulher é a mais bela metade do mundo
o aos homens, o pensamento de um dos anarquistas (4) que admiro: “Nunca encontrei uma mulher que me fizesse lamentar o facto de ser um homem, e peço-lhes que não aceitem isto como um cumprimento

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(1) Extracto de “Maré Alta”, Sérgio Godinho, 1975
(2)Fonte: TSF / DN, 08 Março 2010
(3)Jean-Jacques Rousseau
(4)Boris Vian

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Citações:
Beauvoir, Simone (9 Jan 1908 – 14 Abr 1986)
Dumas, Alexandre (27 Jul 1824 – 27 Nov 1895)
Godinho, Sérgio (31 Ago 1945 - ___)
Lennon , John (9 Out 1940 – 8 Dez 1980)
Nietzsche , Friedrich (18 Out 1844 – 25 Ago 1900)
Rousseau, Jean-Jacques, (28 Jun 1712 - 2 Jul 1778)
Santos, J. C. Ary (7 Dez 1936 — 18 Jan1984)
Vian, Boris (10 Mar 1920 – 23 Jun 1959)



07 fevereiro 2010

Seduzido e Abandonado (parte I)



Seduzido pelo triplo brilho da beleza, do infortúnio e da nobreza…”

Balzac (A Mulher Abandonada)




A expressão pode ser aplicada a qualquer um(a), constituindo aliás um facto recorrente nos tempos que correm. Há sempre coisas que acontecem na vida, que de madrasta que é, nos finta e dribla, nos dá a volta, por baixo ou por cima, conforme os casos, a disposição e o livre arbítrio, que dizem ser uma das faces da democracia que vamos tendo (…). Seria fastidioso recorrer aqui a elegantes figuras de estilo, mais ou menos na moda, para descrever o que afinal não tem descrição possível. Nos casos mais agudos, o interessado é sempre o ultimo a saber, o que sendo grave, não parece constituir problema, para quem à partida se assume como tal. Está bom de ver que a especulação à volta deste interessante tema, a nada leva, a não ser ao(s) próprio(s), em termos de introspecção, quiçá para remediar alguns males menores.
Com todo o respeito que me merecem algumas (muitas por sinal) figuras que até representam história e para não referir as(os) amigas(os) que a ele pertencem, reporto e dedico estas crónicas (sendo esta uma primeira e englobante peça) ao Partido Socialista. Que se diz e se pretende herdeiro dos ideais da República. Pelo menos. E também da liberdade e da democracia, que hesito em escrever em maiúsculas, talvez até para não lhes restringir âmbitos, nem fronteiras.
A liderança actual, que conduziu á conquista de uma das maiorias absolutas mais significativas após o 25 de Abril, empolgou na verdade os dirigentes e o próprio Secretário-Geral. Contudo, a trajectória errante, que caracteriza os chamados “partidos do poder”, veio a delimitar a hipotética base de apoio que “deveria” confirmar a maioria absoluta, tendo conduzido ao que se conhece, nomeadamente a uma escorregadia maioria, perigosa e manhosa, mas que no fundo até talvez não desagrade aos teóricos académicos simpatizantes do “centrão”. Sobre o qual tenho uma posição definitiva, mesmo sabendo os riscos do termo “definitivo” (que desafia a dialéctica): o pântano. Assim mesmo,” terreno encharcado de água estagnada, lodaçal, charco, atascadeiro, tremedal, atoleiro,…” . No “pântano” se afundam geralmente os que, em águas turvas navegam, ao sabor das meias-tintas, dos compromissos contranatura, das alianças duvidosas, dos imperfeitos pretéritos. As conciliações impossíveis, por querem abranger interesses inconciliáveis, normalmente designadas “a bem do País” e que se podem “traduzir”: a bem dos mesmos de sempre. Aliás, basta vê-los a repartir lugares de topo na administração pública e nas grandes empresas, sempre com os “outros companheiros” do centrão.
A recente “negociação” do Orçamento de Estado para 2010 é o retrato fiel das considerações até agora escritas. Para o bem do País, a aproximação à direita (e extrema-direita) parlamentar não é somente uma deriva regular; encara e retrata uma vocação conservadora e espelha fielmente a escolha dos caminhos a trilhar, num futuro breve, por um Governo de burocratas e tecnocratas de estatura mediana. Mesmo as tímidas medidas de restringir alguns benefícios da Banca, dos vencimentos dos gestores, estão manchadas pela manutenção dos privilégios daqueles que supostamente são os causadores da tal crise mundial, que serve de pretexto para tudo e mais (ou menos?) alguma coisa.
Mesmo assim, a direita não fica satisfeita e quer mais, sempre mais. É por isso que a sedução direitista, irá levar mais tarde ou mais cedo, ao abandono de um putativo acordo de princípio. Temos então, um Partido seduzido e abandonado. Aliás, a estranha votação da Lei das finanças Regionais, é a prova mais evidente do sentimento “abandonado”. Mas, a isto voltarei, porque vale a pena esmiuçar a coisa.

Para mal de vários pecados, o mesmo Governo treme de novo com algumas “calhandrices”, a saber, coscuvilhices e mexeriquices, espécie bem portuguesa, delimitada aqui e além, por laivos de ignorância mal contida. O certo é que as coisas vão-se sabendo, algum fumo paira no ar, mais uma vez, o pântano. Contudo, a sedução não deixa de ser perigosa: ou conduz á paixão, ou ao desastre do abandono.

Fim da primeira parte.

07 Fevereiro 2009
Alf



Uma fábula chamada “Caim”








Dele disse um dia ter escrito uma das belas obras do século XX: “O ano da morte de Ricardo Reis”. Sobre o homem e a sua Lisboa, uma fantástica alegoria da vida e da morte. Sobre ele, escrevi mais vezes, de uma forma geral quando publicava qualquer coisa. Suspeito serei pois de gostar de ler Saramago e de objectivamente ser pouco objectivo, redundância perdoada à partida. Volta a escrever agora, incomodando conservadores de todas as matizes, consciências pesadas e enfeudadas em estereótipos e arquétipos à medida da sua (deles) curta visão de detêm da realidade, mas que sempre tentam impor aos demais. Fantasmas e medos de um passado que não capazes de reinventar. A estória de Caim é uma reflexão séria e, ao mesmo tempo, divertida: um misto de lenda, ficção, humor e ridículo. Que faz pensar, questionar, especular e até (porque não dizê-lo?) esmiuçar…
O homem e a divindade: o poder absoluto e um poder relativo, assim um pouco à medida do possível. Ou a luta pela autonomia, na realidade falaciosa e sempre condicionada. O diálogo de caim com o deus é um reflexo do diálogo do cidadão com o poder, nos dias de hoje: é interessante, politicamente correcto, mas na prática, não dá mesmo. As viagens no tempo do homem que quer mesmo enfrentar deus, ao ponto de eliminar cirurgicamente um a um, uma a uma, os humanos da arca; porque deixa de acreditar na dita espécie, que entretanto irá vingar 2 mil e dez anos (para já…); ele que apenas quer (e não é o queremos todas(os)?) fruir a vida e a liberdade.
O jardim do éden, que afinal existe mesmo para uma data de privilegiados, “…charlatões e charlatonas /discutem dos seus assuntos /repartem-se em quatro zonas/instalados em poltronas”, imagem mais que possível. Onde tudo existe à mão de semear, mas contudo bem guardado, afinal bens e riquezas, ao dispor das regras impostas pelos senhores de um mundo cada vez mais injusto, exclusivo e cada vez mais perigoso. Um mundo que desqualifica, limita e reprime os que tentam sobreviver e/ou que lutam pela liberdade e pela inclusão. Em “Caim” pode ver-se qual a qualidade da tal "Democracia” que nos ensinaram e que está a dar neste momento lições exemplares a todo o Mundo, a todos os mundos…

Alguém disse um dia que talvez este seja mesmo “Um Mundo ao contrário”. Saramago exalta o homem que desafia o deus arrogante, injusto, exclusivo e repleto de caprichos, (mais ou mesmo idiotas), que faz o que lhe apetece e quem se diz insondáveis serem afinal os seus desígnios. Para todas(os) que querem e que intervêm para a mudança, tudo isso não passa de mais um devaneio. Todavia, a atenção que porventura prestamos, nunca será demais, sendo porventura um dos ensinamentos que podemos extrair da obra.

Aos que ora reclamam /vociferam pela liberdade de expressão convém lembrar 2 abjectos personagens, que não sendo bíblicos, bem poderiam figurar entre os que, á boa tradição inquisitória, são capazes de “horrores, incestos, traições, violências, carnificinas”, de que fala o Autor: os PSDs Mário David e António de Sousa Lara; o primeiro ao declarar “abdique da nacionalidade portuguesa”; o segundo, ao considerar “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de “blasfemo”, tendo chegado ao ponto de o vetar, na qualidade de Sub-Secretário de Estado adjunto da Cultura, de uma lista de romances portugueses candidatos a um prémio europeu.


05 Janeiro 2009
Alf
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Citações:
o José Saramago
o Sérgio Godinho
o Tim / Zé Pedro (Xutos & Pontapés)

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Nota final: este texto foi escrito a 24 de Janeiro, uns dias antes da brilhante palestra do meu Amigo Tozé (o escritor António José Borges), que teve lugar a 27 de Janeiro, na Sociedade da Língua Portuguesa, sobre o tema em apreço. Constituindo matéria de pesquisa, no âmbito da sua tese de doutoramento sobre Saramago (que aguardamos ansiosamente a publicação), a palestra foi ainda um momento de aproximação de ideias, conceitos e de pessoas. De reflexão também. Bem hajas por isso Tozé!

03 fevereiro 2010

Foi bonita a Festa, pá….

"Foi bonita a festa, pá
fiquei contente…
Sei também como é preciso, pá
navegar, navegar…
Canta a Primavera, pá
manda novamente algum cheirinho de alecrim

“Tanto Mar” (extracto), Chico Buarque, 1976




Um dia pleno de alegria, um sentimento que nos atravessa, dificuldade de conter as emoções, elas que são o sal e a terra. O fogo também, que nos conforta e nos aquece por dentro. Afinal, os elementos estão connosco, é a solidariedade que nos convoca para a Festa. Não bastasse a satisfação por ver a profissional, com a dignidade, profissionalismo e respeito que nos merece, a ser eleita para um lugar que lhe assenta como uma luva, mas ainda o facto de reencontrar a Amiga, após mais de 15 longos anos, com a frescura que é uma marca da sua personalidade. Fiquei pois muito contente, é gratificante um dia assim e se a vida é feita de momentos uns mais e outros menos, que este o seja simplesmente, o momento em que o cravo de Abril que o Poeta canta, ganha de novo a cor que lhe pertence. É para ti, a flor que deixo, com o carinho que nos faz os olhos húmidos de sentimento incontido. Sabes, sabemos todos, os que estamos contigo hoje, o que vai ser preciso navegar. Mas, “navegar é preciso, viver não é preciso…”, lembras-te dos anos em que partilhamos ideais e espalhávamos confiança? Pois agora, neste barco navegaremos contigo, com a mesma confiança de outrora, com a mesma determinação e mesmo espírito de vencer Tanto Mar. E agora, que a Primavera não tarda, vamos trazer o tal “cheirinho de alecrim”, que pode ser o sinal da diferença, da inquietude dos livres-pensadores, da vontade e do empenhamento humanista. Que se reflecte, por exemplo, quando dizes que “ a participação cultural e social é também consciência dos direitos de cada um e dos outros – os Direitos Humanos como referência universal –, consciência crítica e solidária com outros povos, com o ambiente, com o desenvolvimento sustentado numa visão global e conectada do mundo, dos seus problemas e soluções”.

O barco, noite no céu tão bonito /Sorriso solto perdido / Horizonte, madrugada / O riso, o arco, da madrugada”. Pode ser o nosso compromisso, o teu compromisso “O compromisso comum, onde o sentimento genuíno de coesão se alicerça…”, ou ainda “integrar, sem exclusões, intervir na sociedade de forma sólida, sustentada e reconhecida…”. O barco vai de saída, mas tu não vais navegar à vista, mas sim com sentido de estratégia bem claro, definido e assumido. No barco, estamos contigo. Bem hajas, querida Amiga!

02 Fevereiro 2009
Alf

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Citações:
o Caetano Veloso
o Chico Buarque de Holanda
o Fausto Bordalo Dias
o Fernando Pessoa
o Rosário Gâmboa