rio torto

rio torto

12 junho 2011





OLÍMPIA, sempre!










Fazia ainda a manhã os seus primeiros passos. Lisboa a 9 de Junho, procurava qualquer coisa no Martim Moniz, de que rapidamente me esqueci, quando recebo da Augusta a notícia mais triste deste ano. A nossa querida Olímpia, não foi capaz de resistir à luta que vinha travando, há mais de dois anos. Faria a 29 de Novembro deste ano, 47 anos. Uma vida que acaba cedo de mais, uma daquelas injustiças que acontecem. Simpatia, profissionalismo, dedicação às nossas causas, um amor imenso que distribuía pelos amigos, uma tremenda vontade de viver, na alegria do seu sorriso do tamanho do mundo. Onde quer que estejas agora, queria Amiga, sabe que te recordaremos sempre com aquela saudade que não se define, sente-se somente, uma dor que custará a passar…

06 junho 2011

Contornar o obstáculo






"Perante um obstáculo,
a linha mais curta entre dois pontos pode ser a curva
…"

Bertolt Brecht, in: “Vida de Galileu






Fecha-se um ciclo político, com o apuramento dos resultados do acto eleitoral de 6 de Junho. Pela primeira vez, a direita consegue o “sonho” de Sá Carneiro, uma maioria, um governo, um presidente. Quaisquer que sejam as ilações, diferentes obviamente segundo a perspectiva, a verdade é que o País foi sistemática e criteriosamente conduzido a uma situação de ruptura das finanças públicas, pela governação dos 3 partidos do convencionado arco do poder. Atribuo inteira responsabilidade da situação a que chegamos à politica desastrosa do Partido Socialista e à diletante prestação de José Sócrates, que agora sai de cena, deixando o Partido num estado de indefinição, contrariando as expectativas legítimas de milhões de portugueses, que nele (partido) depositaram alguma esperança de mudança. A atitude de permanente aproximação à direita liberal, significa numa palavra, a traição. Tudo foi permitido, durante os 6 anos de governação: banca agarrada ao poder, alimentando-o e alimentando-se dele, não contribuindo (como qualquer empresa) com o pagamento do imposto devido, destruição do aparelho produtivo, com o inevitável decrescimento e aumento do desemprego, diminuição crescente do poder de compra, descrédito completo do sistema de justiça, ausência de vontade politica de combater a corrupção, enfim, o assalto sistemático ao aparelho de Estado, para contrabalançar a quota relativamente ao PSD – CDS. O horror à esquerda, tantas vezes manifestado pela liderança do secretário-geral, numa arrogante manifestação, que ele próprio designava de coragem. Tudo era afinal contrariado pela prática constante de multiplicação de institutos e agências, com uma plêiade de acólitos, geralmente pagos a peso de ouro, num País que cada vez foi ficando mais desigual.

Mas este acto eleitoral confirma uma democracia cada vez mais fragilizada. As maiorias são agora criteriosamente fabricadas por uma comunicação social cúmplice do poder económico das grandes empresas, com o seu séquito de comentadores e analistas, confortavelmente acomodados, e ainda pelas empresas de sondagens que, sob a capa diáfana da auscultação do eleitorado, mais não fazem de que orientar, dia a dia, semana a semana, o sentido de voto. Contudo, esta maioria que ora se apresenta, pode ter legitimidade politicamente assegurada por uma minoria de votantes. Mas não tem seguramente uma maioria social. E porque uma democracia, como a entendemos, não se esgota no voto, vamos esperar a resposta social que aí vem. Diria, mais que esperar, vamos como é dever de cidadania, fazer o que for possível, para modificar o estado da arte desta politica, no sentido da mudança social.


Tal como quase 8% dos portugueses dei o meu voto, como habitualmente, à CDU. Que cresceu mais um pouco, contrariando uma sempre anunciada morte, ou declínio. A expectativa de uma alternativa (?) à esquerda gorou-se e terá deixado em muita gente boa, um amargo de boca. Os dias que virão, se não significarem o desengano e até uma desmobilização, poderão servir para uma reflexão profunda no seio da Esquerda em geral. Embora não reste muito tempo para pensar, porque é preciso agir, mal não faz certamente reflectir.


O profundo sentimento de desalento não deve durar mais uns dias de luto, porque a luta (essa sim) é que interessa!

04 junho 2011

O SILÊNCIO DA REVOLTA





Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence
…”


Sounds of Silence”, Paul Simon, “”Wednesday Morning, 1964




Quase nas vésperas de um grande acontecimento que marcará Lisboa como Capital da Palavra (a), elege-se o Silêncio como forma sublime de expressão. Que viva pois o silêncio, como atitude de inteligência, que não de passividade, forma de protesto, que não da indiferença malévola para que são atirados centenas, milhares ou milhões de portugueses que têm direitos.



Ao evocar mestres da palavra, como Cesariny, Luiz Pacheco, O´Neil ou Jorge Sena, poderíamos talvez convocar a cidadania, não como conceito académico, tantas vezes usado com despudor, mas possivelmente sob o formato de workshop permanente de monitorização do embuste generalizado que graça pela clique dirigente de há 36 anos a esta parte. Seria quiçá uma jogada de contra-ataque, mesmo num campo potencialmente adverso.

Aprendemos ainda que o Silêncio é a alma de um Poeta. E, naquele lirismo que guardamos bem dentro de nós, imaginamos talvez que poderíamos arremessar silêncios aos pobres intérpretes da inevitabilidade, que juntos, coligados, isolados ou copulados, invadiram as cidades, vilas e aldeias do País ocultado e subjugado, que eles mesmo há muito que hipotecaram. E que nos cantam, ou a canção do bandido ou a da charlatão, uns e outros emitindo ruído de mais para ouvidos sensíveis de quem tem ainda alguma alma. E, com a divisa, Não há neutralidade no Silêncio, poderíamos quem sabe neutralizar-lhes o que lhes é mais caro: a atenção que julgam que merecem.

Hoje haverá silêncio. O silêncio da Regra, o institucional. Amanhã haverá porém o outro, que ora convocámos, e que poderá durar semanas, meses, o tempo que for preciso, para os profetas e intérpretes da desgraça a que levaram o País, aprendam de uma vez para sempre, que nem tudo se resume no voto e que há ainda quem não se resigne e que lhes pode ensinar uma outra palavra, que pode bem ser a do som que faz o silêncio…
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(a ) A propósito do Festival do Silêncio, Lisboa Capital da Palavra, Festival do Silêncio, 15 a 25 Junho (http://www.festivalsilencio.com)

24 maio 2011

A suprema hipocrisia….


A noticia do EXPRESSO “Lavagem de dinheiro em Portugal é preocupante, dizem EUA” é soberba! Então, o Departamento de Estado norte-americano considera Portugal como um país preocupante ao nível do crime de "lavagem de dinheiro". O primeiro dos países a instituir a lavagem de dinheiro, a permitir o tráfico desenfreado de armas e de drogas, a ser o responsável numero 1 por todas as atrocidades económicas e até de direitos humanos, vem agora “… aconselhar que os países mais vulneráveis a este crime devem criar sistemas de combate à lavagem de capitais, de acordo com as leis internacionais.”



Fantástico! Acontece que eles estão, ao que aprece no nível máximo de preocupação, no que a tal reporta. A notícia diz ainda “o crime da lavagem de dinheiro está ligado ao tráfico de droga e ao terrorismo, sendo a inflexibilidade do sigilo bancário, a existência de offshores e a falta de legislação eficaz os principais responsáveis pelo crime nestes países.” Que grande novidade! Anda a esquerda portuguesa a denunciar isto há anos e todo mundo assobia para o ar. Quando João Cravinho apresentou uma proposta de lei no Parlamento, foi logo desterrado…

Estão a gozar com quem???

23 maio 2011

Sonhos e Votos


"Perante um obstáculo, a linha mais curta entre dois pontos pode ser a curva."

Bertolt Brecht, in “Vida de Galileu












Ei-los que surgem na rua, manifestando o protesto, mas também a angústia que porventura será hoje um lugar-comum, uma espécie de dor colectiva, perante tanta desfaçatez, tanta mentira. E tanto desencanto. Uma simples frase, que simboliza um sentimento, “os nossos sonhos não cabem nas vossas urnas”, quem sabe uma bandeira para o futuro, tão fácil que é hoje aderir a este pensamento de revolta, que é disso que fala quem, de dia para dia, desde há que tempos, sofre na pele a fúria da ganância e do desrespeito. A maioria que trabalha e que vai pagando a tal crise para que não contribuiu. Sendo o sonho uma constante da vida, que nos deixem ao menos fazê-la tão concreta e definida como outra coisa qualquer, o Poeta assim o disse e não nos cansaremos decerto de o repetir vezes sem conta, acampando com elas e com eles, num qualquer Rossio, atirando á cara dos donos deste Portugal, ou doutros espaços por aí fora, a realidade das injustiças e da desigualdades.

Nada melhor para um início de campanha para que nos atiraram… Uma que ora começa, devidamente “preparada” pelas agências de sondagem, para nos convencer que a direita é que é preciso, que tem as soluções que melhor se enquadram na austeridade que nos querem impor, mais de nada, menos de quase tudo. Na rua, poderá haver uma outra campanha, que não a deles, na rua estará porventura a resposta, para a maioria que silenciosa não o é, felizmente. Para que o dia do voto, não seja mais uma vez, a consumação do mesmo que temos tido, há mais de 30 anos, de sonho de qualquer coisa melhor que isto. Enquanto os fanáticos da inevitabilidade se passeiam em praças e avenidas que não lhes pertencem, tentando legitimar a sua estratégia de assalto ao poder, a proposta de lhes cortar a palavra de circunstância, parece ser mais interessante. Outros passos e outras portas poderão despontar com a voz daquelas e daqueles que ora se mostram, dizendo que o sonho comanda a vida.

Assim se pode também fazer a Luta!

02 maio 2011

Morto, disse ele….








"Lamento, mas não fui eu que inventei o mundo nem a morte..."




do Livro dos Conselhos


O maior e melhor golpe publicitário da administração Obama! A liquidação do mal personificada, num golpe de teatro bem arquitectado, pelos vistos há largos meses atrás. Morte é espectáculo e, por isso mesmo, a notícia da morte de Bin Laden, familiar (ao que sei) de George W. Bush, treinado e armado pelos EUA, na luta contra o perigo soviético, é a melhor forma de promoção possível, para a quebra de popularidade do presidente americano. O rosto de todo o mal que existe na terra, figura exemplar da moral americana e seguida por grande parte do mundo ocidental, Israel e, naturalmente todos os aliados empresariais das indústrias da guerra, na posse dos EUA. Imagina-se (a acreditar nas notícias) o telefonema de Obama a Bush, a comunicar, Finalmente matamos o homem, com pretendias, lembras-te, “vivo ou morto!”.
Sem estar em causa a morte de um fanático, convém não esquecer os outros, como ele, produtos de uma sociedade transviada de valores democráticos e de solidariedade. Quem se lembra do outro 11 de Setembro, Santiago do Chile 1973, do assalto a La Moneda, do assassínio de Salvador Allende, perpetrado pela CIA, ou seja, pelos EUA?

O mundo não fica assim mais seguro após esta morte, aliás nenhuma morte faz mais seguro o que quer que seja. Para seguir a lógica da administração americana, que se havia de fazer a criminosos como Bush, Donald Rumsfeld ou Dick Cheney? E a todas aquelas e aqueles que defenderam a teoria do "eixo do mal"?
O que assistimos é de facto, os americanos espalharem durante décadas, a miséria e a guerra pelo mundo inteiro, a troco de aparentemente nada á vista, que não sejam, a fúria armamentista, a fome do lucro e da exploração, mescla do sonho americano, agora como sempre….

01 maio 2011



Eu vi este povo a lutar
Para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
Que levavam História na mão

Sobre as águas calmas
Um vulcão de fogo
Toda a terra treme
Nas vozes deste povo
….
Só a nosso mando
É que há liberdade
Vamos lá lutando
P’ra mudar a sociedade
…”

Eu Vi Este Povo A Lutar (Confederação)”, José Mário Branco









Eu também vi. Não sei bem quando, onde, mas sim porquê. Nunca há resposta, porque é sempre cedo para duvidar e tarde para desistir. Mas é Maio, a seguir aos 37 anos de Abril, todos os dias há notícias sobre a privação da liberdade de um País vergado ao jugo da finança internacional, intoleravelmente submetido à vontade dos mercados, ditos inquietos e ansiosos e dessas e desses que são donos da riqueza e do País que nós libertamos. Mas… a terra treme mesmo, nas vozes deste povo. Não é chegada a hora de decretar a insubmissão? Porque a indignação já não basta, para o que nos vai na alma, o espaço é curto demais: entre a resistência antiga e a luta que desponta. Maio, assim maduro, quando o Poeta chamou as flores. Depois vieram os traidores e é o que se vê: aperto, austeridade, conciliação de interesses, e outras pinturas de uma estória recente, mal contada, mal-parida e mal-cheirosa. Somos sete rios de uma multidão, que vai acordando, ao som da proclamação da revolta.



Já chega de resignação!





25 abril 2011

SEMPRE!








Ali está o rio
Dois homens na margem estão
Se um dá um passo o outro hesita
Será um valente? O outro não?
Bom negócio faz um deles
Tem o triunfo na mão
Do outro lado do rio
Só um come o fruto, o outra não
Ao outro passo o perigo
Novos castigos virão
Se ambos venceram o rio
Só um tubo ganha o outro não
Na margem já conquistada

Só um venceu a valer
Perdeu o outro a saúde
Mas nada ganhou p´ra viver
Quem diz "nós" saiba ver bem
Se diz a verdade ou não
Ambos vencemos o rio
A mim quem me vence é o patrão


Ali Está O Rio”, Zeca Afonso


Sempre, a palavra que acompanha o 25 de Abril. Sempre. Nunca nos cansamos de descer a Avenida, com palavras-chave, uma ordem de liberdade não concedida, porém conquistada. Ano após ano renovamos a esperança com cantos de luta, a cantiga sempre foi uma arma, contra o esquecimento a indiferença. Tanto mar, aqui e além, tão longe e tão perto que nos assusta a velocidade do tempo, um contra-relógio, turbilhão de ideias e sentimentos encontrados. Sempre, vá lá saber-se porquê, desencontrados, desenquadrados do pensamento oficial, de uns quantos que parecem ser proprietários disto tudo, distorcendo o que construímos dia a dia, desde que selamos o pacto contra a ditadura fascista, naquela manhã. Sempre do lado esquerdo de um rio com “… barcos pintados de muitas pinturas”, desafiando o tempo que é sempre o nosso, igual e todos os dias diferente. Desde que subimos o rio, deparamos com os escolhos de um tempo austero, um esforço titânico de sobrevivência difícil, escolhas de percurso quiçá mal definidas, ao sabor de uma maré que nos disseram ser a corrente que convinha. Sempre duvidamos, sempre questionamos. Agora que muito tempo passou, não temos já a mesma força, nem temos connosco quem mais gostaríamos, poderíamos questionar se ainda vale a pena descer a Avenida. Então, vem à memória a mesma palavra batida: SEMPRE. Porque, a rua é nossa e a liberdade que nela mora, não é de forma alguma negociável. E se pensamos o que nos resta, lembramos a indignação e levantamos bem alto a bandeira vermelha da insubmissão e da revolta. Porque, neste rio, “… isto que é de uns / também é de outros / não é mais nem menos…”. Das memórias que guardamos, fica uma que teimosamente nos acompanha, hora a hora, dia a dia, por este rio acima. Sempre!
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Referências:
• “Ali Está O Rio”, in: “Enquanto Há Força”, Zeca Afonso, Lisboa, 1978
• “Por este Rio acima”, Fausto Bordalo Dias, Lisboa, 1982


18 abril 2011

NOBRE?



“… Chegam depois boas maneiras

Com anéis e pulseiras,

de sapatos de salto

São as bichas matreiras,

que só dizem asneiras

São rapazes pescados no alto E o que resta

É pó de talco…”


Café”, José Carlos Ary dos Santos, 1973



Da nobreza da atitude, pouco sobra para o que quer ser tribuno, mas o maior de entre eles. De tal forma, que não deixa espaço de manobra aos demais: se não o elegerem como chefe máximo, os abandona, porque o seu anseio não é sentar-se com eles. Enfim, um nobre. Não de atitude, mas sim daquela nobreza bafienta, de uma monarquia obsoleta, porque quem sempre demonstrou simpatia. Mistura tudo e todos, numa amálgama esquizóide, com uma linguagem que não difere muito de um Berlusconi, ou dos “modernos” populistas trauliteiros no norte da Europa. Salvaguardadas s as devidas diferenças, que muitas serão, na forma de ver um mundo em mudança, mais valera que continuasse a fazer o que bem fazia, em vez de se tornar naquilo que se vê: um palhaço (sem ofensa para os que o são, na arte) que come da mão de quem lhe acena, mais um aninhado à vergonha da mesquinha e oportunista política, mais um cinzento (pintado agora de laranja…) a acrescentar à longa lista de incompetentes.

Só para lançar a confusão? Manobra publicitária negativa? Contra-informação? Ou o homem está mesmo convencido daquilo, a mais abstrusa retórica, levado ao extremo do risível. O Poeta tem razão: afinal, o que resta, é mesmo…. pó de talco!

08 abril 2011


A ignóbil ameaça

Parte 5: os Abutres Onde se fala de quem se alimenta dos despojos, aqui e ali, sempre dos mesmos…





Abutres da pior espécie. Estes horrendos personagens que se dedicam á pilhagem organizada, através de uma actividade negocial perfeitamente legalizada, com esta divisa: enriquecer o mais rapidamente possível, sem olhar a meios e pagando ao Estado o mínimo possível, com a complacência completa dos responsáveis máximos deste e de outros governos cúmplices. Estado que sempre lhes vai prestando vassalagem, com argumentos que roçam o ridículo, não fora a gravidade da situação. Há uns meses atrás, o governo “socialista” dizia que era necessário ter (leia-se, o País) uma banca forte, para aguentar tempos de crise. Os sinais vindos a público em Fevereiro, confirmavam: “Quatro bancos lucraram 3,9 milhões de euros por dia” e ainda “BCP, BPI, BES e Totta tiveram um resultado líquido positivo de 1,43 mil milhões de euros em 2010” e mais ainda, que tal se deveu fundamentalmente ao que pagaram de imposto “…, no total o imposto pago somou 134,8 milhões de euros, que representa uma descida de 56% face a 2009(1) . Para finalizar este leque de dados, ficava a saber-se que “o BCP sobe os lucros e aumenta capital em 120 milhões de euros, aumentando os resultados em 34%(2) . A avaliar pelos dados, a banca está portanto forte, como Sócrates pretendia, engordando sucessivamente, tal como sanguessuga muito pior que a outra, porque se alimenta da miséria. Repito, está duplamente forte: porque, os fabulosos lucros que detém, não são taxados como deveriam ser e ainda, porque montam engenhosos processos financeiros para colocar esses lucros, em off-shores e paraísos fiscais. A notícia vinda a público de que a banca portuguesa não estaria na disposição de financiar o Estado, uma vez que “deixou de haver condições…” é de um requinte malévolo, acintoso e repugnante. O terrível Bando dos 4 , já deve neste momento ter definida a estratégia de assalto final às finanças públicas esperando a melhor oportunidade para atacar de novo, no momento propício, na nova cena(seja ela qual for) que se desenha. Dos 3 leaders dos bancos privados não era de esperar outra coisa, afinal: eles controlam, como marionetes todas/os, as/os políticas/as profissionais do centrão ( PS+PSD) ; controlam e dão ordens directas e cirúrgicas, definem as regras, encenam com a devida antecedência todos os cenários, estão presentes sem o mínimo pudor, em todos os palcos de decisão, deste País no qual põem e dispõem, cada vez com mais …. Do leader da C.G.D. , o banco do Estado, a única resposta possível seria o imediato afastamento compulsivo do cargo que ocupa, sem direito a indemnização alguma; este aspecto é muito importante, uma vez que tal verba deve ultrapassar largamente o que o governo “socialista” queria retirar às pensões mais modestas, no “falecido” PEC IV. Atrevo-me a propor uma nova versão daquele, porventura com outra terminologia mais adequada ao momento. De facto PEC, querendo traduzir a ideia de Plano de Estabilidade e Crescimento, redundou exactamente no oposto. Ironia suprema: não é Plano, apenas uma manta de retalhos que parece(ia) não ter fim, trouxe mais instabilidade e recessão, em vez de crescimento. Aposto pois num PNB que, embora já tenha patente consignada, na gíria económico-financeira, passa a ser sumariamente: Plano de Nacionalização da Banca. E, para que seja possível, viável, aplicável e devidamente ajustável e enquadrável numa putativa resposta à ”crise deles” proponho ainda o PSE, simplesmente: Plano de Saída do Euro, uma meda que a todos (?) inebriou no longínquo 2002 e que, para mais não serviu que aprofundar a pobreza dos pobres e enriquecer diariamente a riqueza dos ricos, redundância já perdoada pelos leitores mais simpáticos. Otelo, volta, estás perdoado! Não queres meter estes (e mais outros que depois te direi…) no Campo Pequeno? Não, não é no Centro Comercial, é mesmo na Praça de Touros, que poderá ser renomeada para PS-PSD-CDS: PRAÇA SOCIAL para PESSOAS SEM DESCARAMENTO: CATIVEIRO DEVIDAMENTE SELECIONADO -------

(1) JN, de 9 Fevereiro 2011, página 4

(2) Diário Económico, de 3 Fevereiro 2011, página 34

25 março 2011

O PARADIGMA DO (DES)ENGANO



Ironia, verdadeira liberdade!
És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos, da veneração da rotina,
do pedantismo das ciências, da admiração das grandes personagens, das mistificações da política, do fanatismo dos reformadores, da superstição deste grande Universo, e da adoração de mim mesmo

PROUDHON, J.[1809-1865]







Quis o destino que saísse de cena num dia de sol, ofuscado porventura pela claridade de inexistentes holofotes de uma fama efémera. Sempre foram 6 anos de circunstâncias contraditórias que, em alguns deixou marcas encantatórias, não suficientes contudo para lhe conferir o lugar que quiçá ambicionaria para si e para o séquito de aprendizes que constituiu. Com tiques e truques que, diga-se de passagem, produziram alguns efeitos especiais num universo limitado, que muitas vezes confundiu com uma realidade que raramente se deixa trair. Traição sim, já que personagens assim merecem o julgamento de quem os pôs em cena, o preço que se paga pela negação de princípios e pela violentação de aspirações legítimas. Quem fala e age com a autoridade de uma razão, disfarçada com aquele rigor que tantas vezes invocou para tomar as tais medidas que todos deveriam aceitar, porque provinham de um desígnio nacional, muito acima dos pequenos interesses, sonha e acorda agora, aparentemente espezinhado por aqueles que sempre protegeu e acarinhou. Quatro longos anos confortado por uma maioria, que esperaria algo diferente, não foi capaz de construir um edifício seguro para uma família desfavorecida, preferindo alimentar interesses, apadrinhar medíocres funcionários, proteger protectorados instalados, cimentar desigualdades. No limite, contribuiu para teorizar um paradigma de desencanto, protótipo de um desengano generalizado. Quem porventura levantasse a voz dentro de casa, era imediatamente silenciado, renegado para o armário das recordações, ou mesmo atirado borda fora, devidamente epitetado de extremista, radical, ou qualquer coisa do género.

Os que protegeu, agora querem mais, sempre mais, uma desmedida ganância que vem de trás, de muito longe. Que sempre se aproveitam da desgraça alheia, para se alcandorarem na cena, um patético espectáculo de mentira, alimentado pelos comentadores arregimentados pelas agências para-governamentais que, todos os dias, nos entram pelos ouvidos, pelos olhos, distorcendo a realidade.

Antes de sair de cena, digamos que preparou o terreno. Ninguém melhor que ele, para alimentar o paradigma do desengano. Uma brilhante jogada, alicerçada na tese de que os culpados da dívida pública são os funcionários, os reformados e os doentes. A realidade é contudo bem diferente, já que foram as políticas de redução fiscal que obrigaram as administrações públicas a endividar-se junto dos agregados familiares favorecidos, através dos mercados financeiros, de modo a financiar os défices gerados. Ou seja, com o dinheiro poupado nos seus impostos, os ricos puderam adquirir títulos (portadores de juros) da dívida pública, emitida para financiar os défices públicos provocados pelas reduções de impostos. De facto, o aumento da dívida pública é o resultado de uma política que favorece as camadas sociais privilegiadas: as “despesas fiscais” (descida de impostos e de contribuições) aumentaram os rendimentos disponíveis daqueles que menos necessitam, daqueles que desse modo puderam aumentar ainda mais os seus investimentos, sobretudo em títulos do tesouro, remunerados em juros pelos impostos pagos por todos os contribuintes. Este é pois um perverso mecanismo de redistribuição invertido, das classes populares para as classes mais favorecidas, através da dívida pública, cuja contrapartida é sempre o rendimento privado.

A cena, agora em regime de vacatura, está aberta a novos protagonistas. Aqueles que se perfilam, acobardam-se na mentira, na corrupção, no favorecimento de negócios especulativos e na destruição das políticas de desenvolvimento. Desses, não é de esperar coisíssima nenhuma, a não ser a malfadada austeridade, que recairá sempre e mais uma vez sobre os culpados do costume.

Recuando seria bom ao tempo das Farpas, onde se apelidavam alguns personagens da cena de canalhas, bandalhos e outros epítetos, ora politicamente incorrectos, mas cuja transposição não seria de todo despicienda…
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Referências:
Askenazy , P., (2009) “De la dette et la crise en Europe
Ziegler, J., (2002), “Les Nouveaux maîtres du monde et ceux qui leur résistent

21 janeiro 2011

Manipulação, aldrabice, descaramento…

Por vezes a mentira
exprime melhor do que a verdade
aquilo que se passa na alma


Do Livro dos Conselhos

Ultimo dia de campanha, marcado pela desfaçatez de Cavaco ao propor um imposto extraordinário sobre os rendimentos e ao dizer que havia outras soluções que não os cortes de vencimentos. Criar um imposto para os ricos, ele que patrocinou sempre a defesa dos interesses daqueles é, para além de um exercício rasca de demagogia e de caça ao voto dos incautos, um descaramento só possível de um homem que mente, que engana, que insulta aqueles que julga representar. Envolvido, se sabe hoje, em mais uma data de ilegalidades e de fraudes fiscais relacionadas com a moradia do Algarve, o homem tem ainda a ousadia de ameaçar o País com o fantasma patético de uma subida das taxas de juros da divida soberana, caso haja uma segunda volta.

É bom que saiba que alguma comunicação social o leva ao colo. O grupo Marketest fez, uma vez mais, a encenação para a montagem de uma putativa vitória. E logo à primeira volta. Numa sondagem do inicio da semana, a empresa, aliada à TSF e Diário Económico atribui a vitória a Cavaco, com mais de 70% dos votos. Esta sondagem é feita com base numa ficha técnica onde, por exemplo, são inquiridas 155 pessoas no Litoral Norte, sem inclusão do Grande Porto, quase no mesmo número que em Lisboa, onde existem 2,5 milhões de eleitores e onde o Interior Norte tem 181, ou seja mais 25 que a Grande Lisboa. Isto não é uma sondagem, mas muito simplesmente uma fraude montada por quem de direito (!) para manipular o eleitorado e condicionar o seu voto. Aliás, o “parceiro” TSF tem vindo a desenvolver uma insidiosa campanha de manipulação da opinião pública, desde há muito tempo, valendo-se do estatuto que julga ter, de maior rádio do País. Diz a Marketest “Desenvolvemos Estudos para fornecermos aos nossos clientes Informação com Qualidade, Rigor e Independência prestando assim, um serviço de reconhecido valor acrescentado(a) . Nota-se mesmo o Rigor, com maiúscula e tudo! Em sucessivas eleições, as suas “sondagens”, nunca sequer se aproximaram da realidade. “Aldrabice pura e dura(b) , assim o classifica hoje, de forma clara, António Vilarigues. Nem mais!

Estes são os agentes dos donos de Portugal. Desmascará-los é pois a palavra de ordem. Bem vistas as coisas, num estado de Direito, esta empresa e os seus aliados deveriam ser avaliados pelo mau serviço que fazem e que prestam ao País. Estamos no direito de presumir por quem são pagos para emitirem tais desmandos. A forma como transmitem as notícias, a interpretação que delas fazem, a forma como as apresentam (Cavaco chega aos tantos por cento, Alegre não consegue mais que…, Francisco só atinge…), sem o mínimo de rigor e imparcialidade, com toda uma carga intencional onde se discorre um único objectivo.

Uma vergonha!
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(a) Site da Marketest, in: http://www.marktest.com/wap/a/q/id~c7.aspx
(b) Jornal “Público”, 21 Janeiro 2011, página 38

18 janeiro 2011

Ele e Ele…



De todas as coisas seguras,
a mais segura é a dúvida


Do Livro dos Conselhos





Fez a desdita que um dia subisse das profundezas do País obscuro, o personagem cinzento que, a propósito da rodagem de um vulgar automóvel e encalhasse algures na Figueira da Foz, para salvar o partido e, quem adivinharia então, a pátria. Saber-se-ia depois o seu apego às coisas singelas da vida pequeno-burguesa, quiçá retrato de um País ainda mal refeito de uma revolução, cujas marcas por ele não teriam eventualmente passado. Do pouco que dele se conhecia, ficariam entretanto tristemente célebres os registos do tabu, do homem que não tinha dúvidas e raramente se enganava, que não lia jornais. Professor de Finanças, 1º Ministro, um caminho curto e rápido, para meter o país na ordem, dos desvarios revolucionários, radicais e extremistas. Expressão firme e hirta, fala contida, tremeliques de palavra, algum desdém pelas regras democráticas, desprezo quase constante pelo contraditório, termo que aliás não caberá no seu parco vocabulário. Após um interregno sabático, em que se terá dedicado ao aprovisionamento de alguns duvidosos títulos da banca, eis que o homem consegue a Presidência, fruto de uma dádiva confucionista da esquerda maioritária, num arremesso de autoridade que, no final do mandato era por demais notório, Se tivessem ouvido os meus conselhos


Do outro lado, enterrado pela História, o outro ele poderia segui-lo com alguma expectativa, se a natureza não fosse o que é. O mesmo percurso, a mesma contenção, os tiques mais ou menos autoritários, uma assustadora réplica que, podendo parecer desajustada, não o é contudo na forma e quiçá no conteúdo. Dois exemplos porventura significativos. A forma como ambos se referem à Mulher e à Pobreza. Que bem que ficaria Maria, nos chás de caridade do Movimento Nacional Feminino, a recitar banalidades e a arranjar madrinhas para os soldados. O ele da direita poderia fácilmente dizer da governanta, “Esta é a minha senhora. Esta senhora trabalhou praticamente a vida toda. Sabe qual é a reforma dela? Não chega a 800 euros por mês. Foi professora em Moçambique, em Portugal, nunca descobriram a reforma dela. Portanto depende de mim, tenho de trabalhar para ela. Mas como ela está sempre ao meu lado e não atrás, merece a minha ajuda(a) . As palavras valem o que valem, não merecem qualquer comentário, mostram porém a pequenez de espírito e a moral de quem as profere.


Do ele da esquerda, salvo seja, diria Defensor porventura a frase mais emblemática da campanha, “Não suportou que eu o olhasse nos olhos…” (b) . Desconcertante constatação, o homem de facto não olha para nós, aliás não é capaz de sorrir, apenas de um esgar de tédio mal disfarçado. Gosta de mandar, pois pensará, como o outro, que é um desígnio dos homens providenciais, “Se soubesses o que custa mandar, gostarias de obedecer toda a vida(c) .


Num gesto incontido, como na imagem, a mão direita levantada poderia, talvez um pouco mais esticada, assemelhar-se à saudação preferida do outro, num arrebato típico do palhaço Strangelove (d) . A distância que os separa, que nos separa, não permite devaneios destes, que nos perdoe a asserção, fica somente o registo, só para se saber que a gente não esquece.
O ele que já foi, quando confrontado, mandava-nos para a PIDE, o ele que existe, quando acossado, manda-nos para o site. Sublime diferença, típica da era digital, da sociedade dita da informação. Sobre ela, e nela, tudo é aparentemente viável. Tudo é virtualmente possível. Até fabricar e manipular sondagens que, desde muito antes do início das campanhas, orientam o dito eleitorado, figura suprema da democracia representativa, guindada aos píncaros da bondade do voto directo e isento. Nada mais falso, há agora, muito mais que no tempo do outro ele, todas as possibilidades de eleger um macaco para presidente, se essa for a vontade dos donos de um qualquer poder.


Num exercício de liberdade criativa o ele vivo decerto iria subscrever, como muitos já o fazem e não pensam nisso, a sentença fatal do ele já morto, “Quem se coloca no terreno nacional não tem partidos, nem grupos, nem escolas...” (e).


Alguma coisa de válido neste ele que ora se perfila para mais 5 anos? Nada encontro, por mais que procure. Fez roteiros para a inclusão, pois sim, só se foi para nos incluir no seu pensamento retrógrado e retorcido. Com ele, Portugal ficará decerto mais cinzento, mais injusto e mais desigual. Haverá quem nele encontre algo de interessante? Claro que sim, o termo não é pacífico sequer, uma vez que deriva de interesse; e ele defende mesmo interesses, só que nenhum dos interesses que lhe interessam, me interessa particularmente. De todo.

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(a) Discurso de Cavaco Silva, Ponte de Lima, 14 Janeiro 2011
(b) Revista “Visão”, 13 Janeiro 2011
(c) Referência a uma das “máximas” da A. Oliveira Salazar
(d) Referência à obra co-escrita, dirigida, produzida e realizada por Stanley Kubrick , “Dr. Strangelove”; filme, EUA, 1989
(e) Salazar, A. Oliveira, "Discursos”, Lisboa, 1935

31 dezembro 2010

A Voz que é preciso em 2011!
“…Em Lisboa fica o Tejo a ver navios
dos rossios de guitarras à janela…

Foi por ela que eu passo coisas graves
e passei passando as passas dos Algarves
com tanto santo milagreiro todo o ano
foi por milagre que eu até nasci profano
…”

“Foi Por Ela”, Fausto Bordalo Dias













Se há um ano atrás esperávamos mudar o Mundo, ou simplesmente alguma coisa para melhor, encalhamos hoje num porto que de seguro nada tem, a não ser a amarra que nos liga teimosamente à luta. Já não há rossios de guitarras à janela, que foi por ela (a luta) que eu passei das minhas contas, canto que é de Amor, mas de Luta também, precisa mais que nunca, como resposta à ignóbil ameaça que enfrentamos. Pois que acabamos o ano como começamos, será uma sina, será que é fado, será que ainda é o bolorento e cinzento ar dos brandos costumes do fascismo, agora temperados pela voz de um senhor que manda e quer mandar mais, candidato que nos quer calar, porque diz, fala-se muito e muito alto, ora essa, mas a gente quer é gritar que não está de acordo! Não senhor, embora possa parecer, a gente quer é varrer isto tudo, a gente quer dizer aoTejo, “lava a cidade de mágoas / leva as mágoas para o mar / lava-a de crimes e espantos / de roubos, fomes, terrores, / lava a cidade de quantos / do ódio fingem amores / Afoga empenhos favores / vãs glórias, ocas palmas/ leva o poder dos senhores / que compram corpos e almas…” . Esperança é aquilo por que se luta, passar a palavra, porque amanhã pode ser tarde demais, hoje pois, é como se fosse já amanhã, nem tarde nem cedo, espero que estejas sempre comigo, que não percas nunca este rumo, simples acorde, qualquer que seja a letra, é a tua porque sabes o que queres, que mais se pode desejar para um ano que à porta está e tens que o deixar entrar. Frio no Norte, ou trinta e tal graus no Sul, desde que não se deixe esvair o tropical sentido na lapela, ontem mesmo hoje e sempre ainda agora
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Referências:
o “Foi Por Ela”, Fausto Bordalo Dias, “Para além das cordilheiras”, 1987
o “Tejo Que Levas As Águas”, Manuel da Fonseca e Adriano Correia de Oliveira, “Que nunca mais”,1975

12 dezembro 2010

Brava era a Avelã



“… E, contudo, cada indivíduo parece trazer à sua volta um halo de intangibilidade divina…”

Placa à entrada da aldeia, de Miguel Torga, in “Diário VII, 3ª edição revista, pág. 185/186”
















Brava era a Avelã. Em tempos porventura remotos, que difícil é sempre medir o Tempo, em tempos que outros valores se parecem levantar. Deles entretanto fala sempre a natureza agreste da Terra Fria, onde quentes são as gentes e os modos como nos recebem e acarinham. E há os cheiros e os sabores, misturados com os vinhos, as aguardentes que temperam os repastos a qualquer hora. Porque andamos sem relógio, sem tempo determinado, sem aquelas obrigações que tolhem o dia-a-dia e, por vezes, as consciências. Recordamos os tempos da Guerra Civil espanhola, onde tantos resistentes foram assassinados, a aldeia guarda as memórias de algumas e alguns que defendiam a liberdade sem fronteiras, quando estas eram implacáveis para quem ousasse atravessá-las. Lembramos tempos em que o contrabando era uma arte, de fuga às regras das ditaduras de cá e de lá. De trás dos montes surgiam de quando em vez, sinais de revolta às tiranias, dos ecos poderiam falar as velhas pedras, caso lhes fosse possível o devaneio. O Pinto que o diria, se cá ainda estivesse, as estórias que contaria, das fugas e das traições, das cumplicidades dos camaradas das mesmas lutas de outrora e que hoje nos conta o Zé, nosso anfitrião. Ele e a Carminda, amigos de longa data, que souberam transformar as casas antigas em atraentes lares de refúgio, que desafiam a paisagem da albufeira, acrescentando valor ao belíssimo enquadramento daquela com a serra. Não há nada que falte, está tudo lá, a terra faz o resto: o limonete e o hipericão do Gerês, para o chá, a couve para a sopa, o tronco para a lareira., que quente faz o frio lá fora. Lembro Miguel Torga que à entrada da aldeia, atesta na pedra. “Por mais que tente, não consigo reduzir estas vidas de planalto a uma escala de valores comuns…”

Avelã Brava, Negrões, uma força incomensurável da Natureza…

22 novembro 2010

NÃO AO TOTALITARISMO ORGANIZADO (NATO)


Pactos e alianças são um bom remédio
Para entreter marechais e lhes combater o tédio
…”

Máquina Zero”, Rui Veloso, in “Guardador de Margens”, 1983








A ocidente nada de novo. As mesmas ideias, os mesmos conceitos, os mesmos intervenientes, a mesma presunção de sempre: o domínio do Mundo, uma estratégia conhecida, a organização totalitária da violência belicista. Ainda que mascarada, pela “nova” linguagem da direita, uma “Aliança de Democracias”. Passearam-se em Lisboa, a alta velocidade, teóricos, militares de carreira e de caserna, consultores de segurança e claro, políticos empenhados na “causa”. A bem da “estabilidade”, do "diálogo constante", da “concertação”, cortaram a 2ª Circular, o Eixo Norte-Sul, ocuparam com pompa e circunstância uma cidade, um simbolismo que mais parece um paradoxo. Houve quem dissesse que tinham “…transformado o Parque das Nações no mais belo bunker do Ocidente”(1) . Isolados das pessoas comuns, eles são mesmo assim, ao fim e ao cabo são essas pessoas comuns que lhes pagam a factura da “segurança”, eles têm que ter segurança, a sua defesa pessoal não pode ser ameaçada. Esse, parecendo que não, é um cerne da questão: somos nós que pagamos sempre a segurança deles, neste e noutros cenários.


Tolerância de ponto, outrora um sacrilégio à produtividade, que dizem baixa. Eles, claro. É preciso afastar as pessoas da rua, a contestação deve ser abafada, assim determina o poder supremo. Lisboa é, apesar de tudo, uma cidade calma, apenas algumas e alguns deitados na via pública, nada de especial. Sim? Não, o perigo espreita a qualquer esquina e, por isso, há que encomendar 5 novos blindados para a polícia poder reprimir à vontade. Não chegam a tempo, vem a saber-se agora, depois da cimeira. Nada que constitua problema para o ministro das polícias. Tal como os submarinos, decerto haverá cenários de guerra no País profundo para intervir, aliás até mais simples, dado que andam em terra firme: Cova Moura, Bela Vista, Musgueira, Lóios, bem precisam de repressão, com blindados ainda melhor. Alguém sustentou: e se a cimeira fosse numa ilha? Ou num porta-aviões. Ou, porque não, na Casa Branca, não é de lá que emana todo o poder?


Os cães de fila do costume perfilham-se em declarações sobre hipotéticas opções, sempre orientado para essa coisa dos “valores ocidentais”. O caso do Luis Amado será porventura o mais significativo, até pelo tempo de antena que lhe vêm concedendo, desde que se prestou à defesa do bloco central. Esse mesmo que ocultou os voos da CIA, que pretende que a Constituição consagre um limite ao défice, que enfim, considera “… a partilha de valores civilizacionais comuns entre os EUA e a Europa continua a ser um princípio fundamental de organização do mundo ocidental na relação com o resto do mundo(2) ; e ainda que Portugal deve ser “…um aliado leal e firme da Aliança(2). Não poderia haver melhor exemplo de cão de fila: acrítico, seguidista e lambe-botas.


A Europa nunca foi, nem nunca provavelmente será, unida. E é por essa razão que os EUA têm conseguido manter uma política de expansionismo declarado. A maior vergonha da última década, foi o aplauso á invasão do Iraque, realizada e produzida por G.W. Bush, contracenada por Aznar, Blair e Durão Barroso e apadrinhada por esta Aliança, que agora se diz de defesa da segurança dos cidadãos. Nunca existiu qualquer tratado do atlântico norte, para essa finalidade. O que existiu foi uma santa aliança contra a União Soviética, um pacto político contra o comunismo. Como tal já não fará sentido na actualidade, há que reinventar um inimigo qualquer. Dos EUA, claro. E que a dita União Europeia, que não existe, vá atrás. Para isso, deverá bastar a NATO. Já está formalizada, implementada, cimentada nas consciências, não será necessário grande esforço para se afirmar. “Quem ataca um, ataca os outros(2), assim o diz Obama; mas esta era a teoria de Bush, não era? E diz mais, “a NATO é a aliança mais bem sucedida da história humana” (2). A esta hora, aquelas e aqueles que acreditaram no “Yes, we can”, estarão porventura a pensar melhor… Para ajudar, acrescento mais ainda, segundo Obama: “… ao avançarmos com a colaboração sobre o sistema de defesa anti-míssil, podemos transformar aquilo que foi fonte de tensão no passado numa fonte de cooperação contra a ameaça comum(2) e finalmente “o nosso trabalho conjunto promove os nossos interesses e protege as liberdades que acarinhamos enquanto democracias”. G.W. Bush diria exactamente o mesmo, se é que não o disse, na altura, da mesma forma.


A NATO conta nas suas fileiras com quase 1 milhão e 400 mil efectivos dos EUA, cerca de 40% do total de efectivos de 28 países. Há 6 países que contam 70% do total: EUA, Turquia, Alemanha, França, Itália e Reino Unido. Uma espécie de donos da guerra. Apesar das evidências de quem manda de facto na NATO, do que é a dita Aliança há algumas posições, no mínimo interessantes, sobre a matéria. Os casos de Nuno Severiano Teixeira (NST) e de Ana Gomes (AG). Ambos partem de uma premissa falsa: a de que está cometida à NATO a gestão de crises e a da manutenção da paz, a nível europeu. AG diz mesmo que “o principal desafio que (a NATO) enfrenta é liderar pelo exemplo para defender os Aliados e contribuir para a segurança global(2). Nada mais enganador, basta ver os “exemplos” das desastradas intervenções nos Balcãs e no Afeganistão. NST interroga-se “E nós, o que queremos da NATO?(2), para depois encontrar uma resposta evasiva: “todos estes pontos do novo conceito são do interesse nacional e Portugal deve aproveitar esta oportunidade para valorizar a sua posição na Aliança(2). Isto quer dizer exactamente o quê? Absolutamente nada, ou então exactamente tudo: seguidismo cego, surdo e mudo.


No meio da confusão, registe-se que 30 mil pessoas se manifestaram contra a NATO em Lisboa. 400 polícias armados e mais de cem carros para “manter a ordem”. Domingo, 20 Novembro, céu muito nublado. Pois!
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(1) Fonte: Fernando Alves, TSF, “A semana passada”, 19 Novembro
(2) Fonte: Jornal Público, 20 Novembro

14 novembro 2010


A ignóbil ameaça
Parte 4: o Bando dos 4


Onde não de fala (como poderia parecer…) da ala radical do regime na Revolução Cultural Chinesa, mas sim do apoio mais que necessário à banca “nacional”




Um bando. Não propriamente de pardais à solta, que esses são ainda os putos da nossa melhor memória. Estes são peixe graúdo. Dão pelos seus nomes, sobejamente conhecidos: Ricardo Salgado, Faria de Oliveira, Santos Ferreira Fernando Ulrich, patrões do BES, CGD, BCP e BPI. Chamemos-lhe o Bando dos 4, designação que de inventada já que não por mim, adopto sem a licença devida, sabendo que a usurpação não constituirá decerto notícia, a tal não aspiro. Este Bando nunca será objecto de qualquer investigação, não há necessidade, são decerto cidadãos acima de qualquer suspeita, a sua credibilidade é infinita, as suas influências e opiniões são apenas para consolidar o interesse nacional, os superiores interesses do País. Um País que nunca seria capaz de sobreviver sem a sua prestação, o seu empenhado esforço em salvar os portugueses, todos os portugueses claro, da terrível ameaça de uma crise, para a qual eles nada contribuíram, antes pelo contrário, que sempre avisaram do que era preciso: mais flexibilidade laboral, menos Estado Social, menos salários, menos despesa pública; sempre avisaram que vivíamos desde há muito acima das nossas possibilidades, menos eles está visto, dado que auferem, todos eles, salários baixíssimos, apesar de serem muito competentes, eficientes, eficazes e providenciais. Longe do pensamento deles exercer pressão alguma sobre os governos e demais acólitos. Absolutamente impolutos, movidos pelos superiores desígnios de justiça social, pretendendo apenas salvar o País da crise

E foi, precisamente nesse sentido, que o Bando atacou, ou seja actuou na altura certa, no momento oportuno, na cena política, junto dos 2 partidos do poder. Nada tendo a ver com a especulação contínua dos mercados financeiros, longe da lamacenta e pantanosa área que nos ameaça, eles foram absolutamente firmes (e provavelmente hirtos…), "Há que ter confiança no futuro", disse Ricardo Salgado. Também Ulrich adiantou, para que todos fiquemos descansados, "A situação do País é séria, mas estamos todos a trabalhar". Supremos homens estes, que pensam e “trabalham” por todos nós, os malandros que por aí pululam, a viver do rendimento mínimo sem quererem aceitar os empregos que lhes oferecem, não sabem o que é vida de um banqueiro, sempre com o fio da navalha sobre as suas cabeças penteadas ou simplesmente rapadas (…), os neurónios em actividade permanente para engendrar as melhores soluções para o País. Uma putativa hipótese de temer dificuldades no crédito, caso o OE não passasse, foi logo afastada por Ricardo Salgado, Apenas especulações, disse ele, com toda a razão. Afinal, os especuladores são sempre os outros, a saber, aqueles que se atrevem a desconfiar da isenta e descomprometida posição de quem mais não faz que seja o Bem. Que deve dizer-se a propósito, se consubstancia em oferecer crédito barato a pessoas e empresas, enviando (por exemplo) simpáticas cartas, eu que o testemunhe, tenho recebido muitas, convidando ao endividamento, perdão, ao acesso a créditos na casa dos 27 a 31%, sempre abaixo dos 32% permitidos pelo Banco de Portugal. Enfim, pessoas de bem, que injectam no BPN 4,6 mil milhões de euros, prestando assim um assinalável benefício a Portugal e a um dos bancos mais sólidos no mercado. Não pensem, não questionem sequer, lembrem-se que dilectas figuras nacionais, como por exemplo Cavaco Silva, o nosso Presidente, têm lá as suas fracas posses, que seria de um Presidente na penúria, deus sabe o que poderia acontecer ao País.

Nos primeiros nove meses do ano, os quatro maiores bancos privados a operar no mercado nacional alcançaram um lucro conjunto de 1,12 mil milhões de euros. O montante representa uma subida de 5%, face aos 1,07 mil milhões de euros arrecadados em igual período do ano passado, o que, na prática, significa que os cofres do BCP, do SANTANDER Totta, do BPI e do BES encaixaram 5,7 milhões por dia”, podia ler-se no Diário Económico de 3 de Novembro. E depois? Não são estes bancos (pelo menos) a sustentar o desenvolvimento económico do País, a apostar no incremento do sector produtivo? Não há exemplos mais que evidentes disso mesmo? Não? Está bem, não há de facto, mas podia haver se porventura estivéssemos mais atentos. Problema nosso, não acreditamos, não temos confiança e por isso estamos como estamos. Depois deste esforço de banqueiros, governantes, partido da oposição, que um só há, o resto é conversa, todos de acordo em aplicar o devido correctivo a quem andou por aí a gastar o que não devia, todos e todas nos centros comerciais, nos supermercados, a passear de borla nas SCUT, a comprar medicamentos comparticipados, a fazer asneiras todos os dias gozando os senhores que mandam em nós, sem respeito nenhum, enfim á espera de um FMI para meter tudo na ordem.

O País muito deve a este Bando. Longa vida a homens (são todos homens…) como estes. É deles o futuro da Nação. Não duvidem. Dou-vos um exemplo que baste: um destes homens, precisamente o Ricardo Salgado, encabeça a lista dos donos dos bancos que vão “colocar a dívida”, “ajudando Portugal a acompanhar a evolução dos mercados financeiros” (Diário Económico, 11 Novembro 2010, pág. 6).

Vergados pela força da razão e sabendo que a razão tem força, não temos mais que prestar-lhes a homenagem devida. Ninguém se lembrou disto, no passado 6 de Novembro, na Manifestação Nacional das 2 Centrais Sindicais. Uma injustiça!

07 novembro 2010

A ignóbil ameaça
Parte3: “Acordo” e Orçamento: para o abismo, um passo em frente, se faz favor

(onde se fala de telemóveis, da casa do Catroga, de personagens providenciais e outras coisas mais….)



Acordamos na passada semana para o “Acordo”. Passamos dias a fio acordados, com a perspectiva de um não-acordo, uma novela contínua de desavenças mal disfarçadas, de avanços e recuos, de declarações de amor e ódio, sempre a bem da nação, na linguagem cifrada do centrão, “a bem de todos os portugueses”, do “interesse nacional”, da "abertura para o compromisso", da “concertação”, do “equilíbrio” e outras baboseiras para enganar a grande maioria dos portugueses. Inquietos que somos, de procurar algum sentido, no meio de tanta confusão, descortinamos algumas cenas patéticas, como a da foto de Eduardo Catroga, a “mais importante da minha vida…”, a frase de Cavaco “Em que situação se encontraria o País sem a acção intensa e ponderada, muitas vezes discreta, que desenvolvi ao longo do meu mandato?”. Nada a amenizar a situação catastrófica anunciada já pelas inefáveis agências de rating, de penalizar o país com juros mais altos, a intolerante pressão dos mercados financeiros a quem está entregue a dívida soberana. A encenação completa, a mais vergonhosa campanha levada a cabo pela comunicação social com sondagens insidiosas, declarações dos mesmos economistas de sempre, dos mesmos comentadores políticos, a reforçar a inevitabilidade: é duro, mas tem que ser, vivemos há muito acima das nossas possibilidades, o país afunda-se cada vez mais. A panaceia: cortar nos salários, reduzir as prestações sociais, redução as despesas no âmbito do Serviço Nacional de Saúde, aumentar (sempre mais) o IVA, …

Suprema e ignóbil ameaça!

Nada sobre alternativas. Nada sobre as propostas apresentadas, por exemplo, pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda. Ninguém fala nisso. Nem sequer se equaciona analisar e discutir propostas concretas que, a serem aplicadas, mudariam a face de um país subjugado pelo capital financeiro, pela ditadura do sector bancário, pela vergonha dos favores e contrapartidas das “parcerias público-privadas”, pelo off-shore da Madeira, pelos ordenados faustosos nas empresas públicas, intervencionadas ou privadas, pelos conselhos de administração repletos de consultores, assessores e outros parasitas. Nada interessa a não ser a inevitabilidade. De PEC em PEC até á derrocada final: um orçamento de miséria para os trabalhadores, da perda de autonomia das famílias da classe média, do agravamento da situação de pobreza extrema de 2 milhões de portugueses.

Mas há alternativas. A começar por medidas concretas como por exemplo: a criação de um imposto sobre transacções financeiras, a tributação extraordinária do património imobiliário de luxo, a tributação agravada sobre a aquisição ou posse de bens de luxo, a tributação das mais-valias bolsistas, incluindo rendimentos das SGPS, a aplicação de uma taxa de IRC de 25% ao sector bancário e grupos económicos com lucros superiores a 50 milhões de euros. Paralelamente, iniciar a recuperação do Estado social, aumentando o salário mínimo nacional para 500 euro, promover o investimento para o emprego, única forma de valorizar o trabalho e assegurar a legítima expectativa de aproximar o nível de vida das populações mais desfavorecidas para a média europeia. Só alguns exemplos concretos, para os quais existe quantificação devida e que, por si só, garantiriam uma quebra no défice, superior á que o governo pretende. E que, diga-se desde já, não vai decerto conseguir.
Como é possível exigir sacrifícios sempre aos mesmos, sem oferecer contrapartida alguma às pessoas, a não ser a degradação progressiva das suas condições de vida? Como é possível “convencer” alguém com a medida de aumento da taxa do IVA em 2 pontos, “esquecendo” que, a partir daí, os aumentos dos bens essenciais, os transportes, os combustíveis, aumentarão em flecha? Como é possível, com estas medidas combater a pobreza e a pobreza extrema? Como é possível cortar salários a quem legitimamente tem as suas expectativas, em termos mínimos de qualidade de vida, a sua prestação da casa, do carro?

A conclusão que se pode legitimamente tirar é a de que, na realidade, os promotores destas medidas não estão minimamente interessados em combater a pobreza, em lutar contra as desigualdades, contra as injustiças. A sua luta é outra: manter os privilégios e, como se isso não bastasse, aumentar o fosso entre ricos e pobres, engrossando os lucros das grandes empresas, dos bancos, dando sempre mais a quem mais tem, orientando a sua política para enriquecer mais e mais os senhores do capital.

Os culpados têm nome. O Partido Socialista sempre na frente, seguindo aliás o (mau) exemplo de praticamente todos os seus congéneres europeus e o seu aliado PSD. O PS manifesta nos momentos decisivos a sua perigosa inclinação para a direita, desde Soares a Sócrates, passando por Guterres e Sampaio. Sempre com o mesmo agastado discurso dos “superiores interesse do País”, do “interesse nacional acima dos interesses do partido”. A linguagem do engano, do desencanto a quem votou à espera da mudança. O “elevado sentido de Estado”, a capitulação aos interesses da banca e do sector financeiro, em linguagem travestida de social e de moderação. Uma suprema traição, este partido do “socialismo na gaveta”, porque ainda temos memória e não esquecemos, nunca esqueceremos, a verdadeira face de quem nos trai. Dos outros (o aliado), nem merece perder muitas palavras: estão em todo o lado, do lado de lá, que é obviamente o dos interesses dos lucros desmedidos, da economia da ganância e do desperdício, dos escândalos do BPN, do BCP, das empresas públicas, dos off-shores, das parcerias, das super-reformas. Protestam, vociferam, fazem birras, muito fumo, para no final se amarem, irmanados, de mãos dadas para o abismo a que condenam o País. Se a coisa porventura falhar, lá estarão, como sempre fazem a culpar-se uns aos outros e fazendo sempre exactamente as mesmas coisas, a mesma política, os mesmos interesses, a mesma crença na providencialidade do mercado e do capital, o supremo bem que os vai aguentando no Poder, lhes vai dando todas as benesses, lhes vai alimentando corpo, alma e carteira de títulos.

Em sua casa, Teixeira & Catroga selaram o acordo para a capitulação. Provavelmente com chá e scones, a foto não mostra. Mas mostra um dos homens de Cavaco, com um percurso impressionante, da CUF à SAPEC, passando pela Quimigal, acumulando (todos eles acumulam…) funções de administrador da Nutrinveste, do Banco Finantia e membro do Conselho Geral e de Supervisão da EDP, para além da dita SAPEC. Privado, empresas públicas e bancos, os donos de Portugal são assim, recebem em sua casa por vezes, aprendizes como o senhor Ministro, que quando cessar as funções terá á sua espera um cargo qualquer, como o senhor que o recebeu.

São os homens providenciais. Deles devemos esperar que salvem o País. Leia-se, que salvem os bancos falidos, os administradores corruptos e os consultores e comentadores pagos para semearem a inevitabilidade. Cavaco é um bom exemplo, podia dizer, após uma longa reflexão, decido candidatar-me para defender o meu dinheiro no BPN e as minhas não-sei-quantas-reformas-douradas. Desculpem, o que eu queria dizer não era bem isto, entusiasmei-me…

Entretanto, a realidade do País, aí está para quem quiser estar acordado. Já a 29 de Julho deste ano, o Diário de Notícias titulava “BCP, BES e BPI ganharam três milhões por dia mas pagaram menos um terço de impostos”, e escrevia depois, “Três milhões de euros por dia. Foi este o lucro líquido registado pelos três maiores bancos privados portugueses no primeiro semestre do ano, num contexto de crise que levou a banca a apertar as condições de acesso ao crédito às empresas e famílias”.

Quem explica isto? Tentarei voltar para tentar.

17 outubro 2010

O post do desassossego
Um post do desassossego
O desassossego de um post





Imagem: http://blog.umfernandopessoa.com/




Tenho em mim todos os sonhos do mundo…”

In “Tabacaria”, Álvaro de Campos


Do livro fez um filme. Do filme nasceu este post. O João dizia que é um filme bonito, que não sabe se será um filme bom, que serão precisos 20 anos para saber isso. Talvez. O que conta é a obra. E essa dá para ver, para pensar, para inquietar. Para desassossegar, como convém, em tempos de calmaria, de recusa ao acto de questionar, porque é mais fácil deixar andar, deixar de pensar. "Benditos os que não confiam a vida a ninguém", dizia o Bernardo Soares. Como o Filme é actual, a asserção é mais actual ainda, um sinal de inconformismo, tens que ser tu o dono do teu próprio destino, tens que ser tu a viver, muito embora “Viver não é preciso, navegar é preciso”. Naveguemos pois como fez o João, pela arte do cinema, pela democracia da luz, no contraste com as sombras. Sombras de um tempo difícil, mas sempre necessário para a descoberta, quanto mais não seja de si próprio. É na sombra que descobrimos a luz que outros nos parecem querer subtrair. Bernardo “encontra” Fernando e entrega-lha o texto. Do desassossego. Da ironia ou da utopia? Ambas e uma só, transportadas para uma actualidade “Irrita-me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são infelizes. Por isto, contudo, amo-os a todos. Meus queridos vegetais!”. João transporta Bernardo á Lisboa actual, do restaurante da lagosta à sopa dos pobres, colocando nas vozes a democracia da palavra, a ironia do gesto, a utopia dos sonhos: “Alguns têm na vida um grande sonho e faltam a esse sonho. Outros não têm na vida nenhum sonho, e faltam a esse também." E depois, "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce". Coragem é a OBRA do João, sublime protótipo do desassossego!

Fica bem Amigo, eu aprendi a lição! "Claro em pensar, e claro no sentir, / e claro no querer".
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Citações e referências:
o “Mensagem”, Fernando Pessoa
o "Livro do desassossego"‎, Fernando Pessoa
o “Tabacaria”, Álvaro de Campos
o “Poesia”, Fernando Pessoa
o "Vidas", Plutarco

05 outubro 2010

VIVA A REPÚBLICA I.R.C!



Uma república sem cidadãos de boa reputação
não pode existir nem ser bem governada;
por outro lado, a reputação dos cidadãos
é motivo de tirania das repúblicas…”
Maquiavel











Quero também celebrar os 100 anos da República em Portugal, de uma forma especial. Que pode ser apenas a minha interpretação. Que espero não seja só a minha interpretação. Que sirva para passar uma palavra de ordem. Estranha que seja á primeira vista, tem uma razão de ser. E não é aquela que pode transparecer da sigla que levará a interrogações legítimas a quem lê. Insubmissão, Radicalismo e Cidadania poderá então ser o lema, para lembrar as mulheres e os homens que a 5 de Outubro de 1910 tiveram a lucidez e a ousadia de derrubar a monarquia e proclamar a República em Portugal. 100 anos é tempo suficiente para pensar pelas linhas tortas. Pensar e agir. Penso agora, imagine-se, nas palavras “sensatas” de Cavaco Silva: “é preciso rigor, bom senso e contenção verbal”. E ainda na unanimidade entre Cavaco e Sócrates, recolhida na comunicação social de hoje: “As comemorações oficiais do Centenário da República ficaram hoje marcadas pela convergência do Presidente da República e do Primeiro-Ministro em torno da necessidade de "coesão nacional", para enfrentar as dificuldades que o país atravessa.” (1) Contraponho:


Insubmissão; o ser crítico, atento e não confortado com a realidade, que é para transformar e não para aceitar como inevitabilidade; o ser livre de espírito e corpo, o querer participar e intervir como agente de transformação; o “ser realista, exigir o impossível(2); quando Sócrates se “revolta” contra a “agitação irresponsável e demagógica”, está a dizer precisamente que nos acomodemos, que sejamos submissos; é contra tal, que somos contra!

Radicalismo; ser radical, defender as suas ideias, mesmo que sejam aparentemente contra o pensamento dominante, único, tão perigoso nos tempos que correm; eram assim os pensadores da República; lutar contra a demagogia “moderna” que tenta confundir radicalismo com fundamentalismo, sabe-se bem porquê.

Cidadania; o ser cidadã(ao) de pleno direito: exigir direitos, sem esquecer os deveres; contra quem quer impor deveres e esquece sistematicamente os direitos; direitos a que temos direito: um salário digno, a igualdade perante a justiça, a inclusão social, a educação e a saúde para todos, uma vida plena de satisfação, numa sociedade igualitária e global.
Para os que pensam que os desmandos da I República contribuíram para o golpe fascista de 28 de Maio, diremos simplesmente a verdade: o golpe não foi feito contra a situação, mas sim contra os ideais e os conceitos. Essa a verdade.

Viva pois a REPÚBLICA I.R.C!
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(1) Jornal Expresso, in: http://aeiou.expresso.pt/cavaco-e-socrates-querem-coesao-nacional=f607440
(2) Pensamento de Herbert Marcuse (Maio 68)