rio torto

rio torto

10 junho 2014


DESFALECER…
















Uma palavra esquisita. Deveria querer significar o contrário. Como desnaturado que, segundo o dicionário da língua portuguesa, significa “que se desnaturou, que não tem os sentimentos naturais”. Ou desfazer, que é naturalmente o contrário de fazer. O prefixo “des” refere separação ou acção contrária.
Acima de tudo, como diria o outro, “… é melhor que falecer”.
Este, ao que consta, desfaleceu hoje. Numa cerimónia pública em que mais uma vez, o governo foi mandado para a rua. O homem que, paulatinamente desfez o País, desde que esteve ao leme, durante 2 mandatos: indústrias, agricultura, pescas,... Gabando-se de ser o único a ter razão, nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, “deixem-nos trabalhar…”. Trabalhou de facto para a destruição, para transformar o País num deserto de serviços, muitos inúteis, como agora se prova. Ajudado e amparado por uma maioria fictícia, que talvez hoje nele nem se reveja, é um homem acossado. Governou e governou-se, tentando ostentar uma máscara de seriedade, institucional ou não, acima de barões e baronetes. A quem recorreu, quando necessário e que o premiaram no caso que todos conhecem.

Uma tristeza. Um País que desfalece aos poucos, por causa dele e dos que hoje o suportam. Que continuaram a obra do chefe, e que agora suportamos.
Desfalecemos um pouco, todos os dias, martelados e subjugados, pela notícia sempre igual, pelo comentário comprado e bem pago, pela medida sempre mais austera, que é necessário, para bem da nação. Este e os outros todos que pululam alegremente sobre a nossa tristeza, com a linguagem maldita da ficção de um mundo só para alguns.

Desfaleceu? Se disséssemos que era bem feito, estaríamos porventura a incorrer em pecado mortal. Como, apesar de não perfilharmos as teses da maldição, somos pessoas de bem, desejamos que não desfaleça mais. Que faleça de vez no cargo que ocupa, politicamente falando, claro…

28 abril 2014

25 ABRIL 2014

Ao rigor do tempo serão 40 anos.
Parece entretanto que foi ontem, pelo sentimento que colocamos, tanta coisa em jogo naquele tempo, onde o tempo apenas parecia contar para uma festa de sentimentos, esperança e desejo de um País melhor, livre da tutela dos senhores do dinheiro e da exploração.
A festa que o Chico dizia ser bonita pá.
Ganhava valor o trabalho, o capital olhava para o lado, esperando melhores dias em que pudesse voltar a tomar as rédeas.
Viemos de longe para aqui chegar, sonhando que a luta seria o sustentáculo dos direitos que pareciam ganhar terreno. Mas a luta ainda estava para vir.
 Hoje, dia 25 de Abril, longe da pátria, mas entre irmãos de luta que falam a mesmo língua, apenas sou capaz de sentir a saudade que a Cesária falou: sôdade.
Percorro o meu País. Em vez de pessoas com alegria de viver, deparo com “Gente que hoje anda / Falando de lado /E olhando pro chão, viu”. E sei que, como bem diz o Chico, “Apesar de você/Amanhã há de ser/Outro dia” e que
Quando chegar o momento/Esse meu sofrimento/Vou cobrar com juros, juro”.
As voltas com a injustiça e a ignominia que campeiam, lembro o Adriano exortando o Tejo,  “Lava bancos e empresas /dos comedores de dinheiro / que dos salários de tristeza /arrecadam lucro inteiro / Lava palácios vivendas /casebres bairros da lata / leva negócios e rendas /que a uns farta e a outros mata

Mas sei que quero a mudança. Porque já Luís de Camões a dizia: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / Muda-se o ser, muda-se a confiança / Todo o mundo é composto de mudança / Tomando sempre novas qualidades”.

Mas também sei que não quero a mudança que um punhado de gente sem escrúpulos escreve, com letras de fome e de pobreza. Essa a novidade que eles fizeram. E que Camões também avisou: “Continuamente vemos novidades / Diferentes em tudo da esperança / Do mal ficam as mágoas na lembrança / E do bem, se algum houve, as saudades”
Neste dia recordo, como seria de esperar, o Zeca Afonso. “A velha história ainda mal começa /Agora esta voltando ao que era dantes / Mas se há um camarada à tua espera / Não faltes ao encontro sê constante”.

25 de Abril sempre!

26 março 2014


O CABEÇA DA LISTA

Espezinhado pela sucessão crescente de eventualidades, algumas delas fortuitas, o candidato vacilou. Torpedeado pela comunicação social, hesitou, mas rapidamente se compôs, afinal era considerado mestre da palavra, pelo menos no que toca a velocidade com que dispara, salvo seja. Emagrecido, porventura após tratamento direccionado para abater gorduras, cujas são entendidas como tal pela análise da conjuntura, que por sinal são dirigidas à estrutura. Para quem considere que isto é um pouco complicado, aconselha-se a opinião, sempre conceituada, dos mais que muitos consultores que pululam por aí. Um pequeno parêntesis, para corrigir, de opinião, para da opinião, uma vez que é o sistema que está instituído e para o qual não há alternativa a curto prazo.

Saiu para a rua, vagueou sem direcção, assim o conta o poeta, na canção. O tema é sempre o mesmo, para o cabeça da lista. Consenso entre os do arco, cuja governação conhecemos há tanto tempo, que já lhe perdemos a conta. Ainda, os superiores interesses que se sobrepõem a não sei o quê, e que também sabemos de quem são, onde estão e como são cuidadosamente garantidos, a troca de rendas surripiadas sempre aos mesmos. Finalmente, a necessidade do controle, que diz ser orçamental, o esforço em reduzir a dívida, que a gente vê aumentar todos os dias, uma espécie de pinha que lhe cai sempre na cabeça. Do cabeça. Da lista.

Pudera ser dois, e desdobrar-se, num contorcionismo perfeito, e daria então ao eleitorado uma espécie de bipolaridade, à primeira vista atraente, para públicos menos avisados. Daria então duas faces, embora sempre a mesma, em matéria de facto. O cabeça pensou nisso, obviamente. E analisou essa possibilidade com a sua gente, consultores, intermédios dirigentes, superiores, e demais quadros que sabemos serem pintados com muita perícia e cuidado. E pagos, claro, aqui não há gordura, só músculo.

Após encontros promovidos para o efeito, eis que surgem então as duas faces, ambas oculadas, uma veloz e incisiva, outra fanhosa e paulatina. As duas querem aparentemente o mesmo, mas aos olhos da populaça, supõe-se que seja exactamente o contrário, sendo que convém que apareçam sob a capa de insanáveis divergências, baralhando assim o jogo que, sem ter começado no campo, se desenrola em plena bancada.

A cabeça pesa ao cabeça, porque o peso do discurso pesa na consciência, muito embora lhe tenham aconselhado deixar esse tipo de coisa, fora da coisa. Assim, passará ao ataque da lista, sempre com a cabeça no superior interesse que, como já se viu, é intenso. Mas, como tem 2 cabeças, poderá acontecer que uma delas se esvaia na ventania do Tempo, ou conforme o vento que passa, da trova que o pariu.

10 fevereiro 2014


Não, senhora Esteves!

A sucessão de protestos levou a presidente da Assembleia da República a admitir a necessidade de repensar as regras de acesso às galerias. Agora que os deputados já receberam um estudo sobre o que acontece noutros parlamentos, queremos ouvir a sua opinião. São aceitáveis os protestos a que temos assistido no Parlamento?”

Assim foi o Fórum de hoje na TSF. Já fui mais assíduo nestes fóruns. E já tive oportunidade de, de certa forma, denunciar a forma como são programados estes debates, sempre favoráveis ao poder instituído, uma vez que a estação de rádio em questão, opta por introduzir o debate, de forma sorrateira, através de posições de comentadores, quase sempre contratados para induzir posições (…)

Devo dizer que não me espanta a atitude da presidente da AR. Pena é que a República tenha figuras destas a frente dos seus destinos. A senhora em questão, além de ser desprovida da classe exigível ao cargo que ocupa, é (mais) um excelente exemplo de falta de transparência na coisa pública. Uma (mais uma) reformada de luxo, detentora de uma linguagem rasca, inapropriada e em nada condizente com a Democracia, apesar de encher o seu vazio discurso com a palavra, que lhe deveria merecer algum respeito. Chegou ao desplante de utilizar uma asserção de Simone de Beauvoir, for de qualquer contexto, para se insurgir contra os protestos, mais que legítimos, dos manifestantes. Triste exemplo, triste interprete, só possível mesmo nos tempos que correm e que transformam o nosso País no mais simplório exemplo de seguidismo às políticas de agressão internacional contra as populações. Estulto será pois perder tempo com esta personagem menor.

No entanto, enquanto ela lá está, necessário será fazer-lhe frente. E, uma das premissas que é preciso desmontar, é que os políticos, os deputados, são todos iguais e só lá estão para defender os seus interesses privados e particulares. Se bem que tal seja de facto verdade, talvez até para uma significativa maioria delas e deles. Embora possa parecer contraditório, urge demonstrar, pelo exemplo, uma coisa e a outra, ao mesmo tempo. Tal significa, denunciar casos evidentes como este, em que ex-Ministros, ex-Secretários de Estado e outros altos cargos, quando cessam são os únicos cidadãos que podem legalmente acumular 2 salários do erário público. Ou, a quantidade de escritórios de advogados “representados” na AR, que elaboram as leis e os decretos que vão proteger interesses privados de grandes empresas.

O que está, ou pretende estar, em jogo é, mais uma vez, um atentado a liberdade de expressão. Acontece que este é um dos aspectos do fascismo social que graça por toda (ou quase toda) a Europa. Embora grande parte dos intérpretes não saibam o que é a vida, sabem bem o papel que lhes está destinado. E esse é, neste momento, “apenas” o de contribuir de alguma forma para a transferência das rendas do trabalho para o capital, no feroz ataque as estruturas do designado Estado Social, que era o apanágio da Europa do pós-guerra. Silenciar protestos, limitar o direito a manifestação, reduzir o poder das estruturas representativas dos trabalhadores, reduzir salários e pensões, retirar os poucos benefícios ao desemprego, facilitar este, são alguns dos papéis que cabem a esta gente. E que, de facto temos que reconhecer, que os estão a desempenhar de forma exemplar. Acreditar que tudo o que se passa em Portugal, como na Europa, é um sinal de incompetência técnica, ou até funcional, é cair no mesmo erro.

Há pois que ser, agora mais que nunca, competente na forma ou formas utilizadas para o protesto cidadão. Ele tem que ser cuidadosamente atestado, diversificado e sobretudo útil. Em causa deveria estar, uma opinião que ainda não parece ter vingado ainda, é a desobediência civil. Talvez uma das mais eficazes atitudes da cidadania activa. Emprego aqui uma designação que parece ser redundante (toda a cidadania, para o ser, deverá ser activa). Se o for, será todavia uma forma de reforço voluntário, quando a indiferença prossegue assustadoramente o seu maléfico caminho…

O País tem uma Assunção que assume o seu papel de tentativa de destruição das bases do estado democrático. Tem uma Esteves, que sempre esteve do mesmo lado. Sabemos bem qual. E serve-se, ao que parece muito bem, do Estado. A solução é não votar em personagens como esta. Parece simples, mas não o é, na realidade. Porque o voto (ainda) não é a arma do Povo, mas sim uma arma atirada à cara do Povo. Também me parece que não é preciso dizer porquê. Se assim fosse, como seria possível votar no homem que tem “10 secretárias, 9 auxiliares e 12 funcionários que prestam apoio técnico-administrativo e que, parecem não ser o suficiente para suplantar as necessidades de atendimento telefónico no Palácio de São Bento(1) ? E que “alega “a ausência de recursos próprios” para sustentar a premência deste contrato, que custou aos cofres públicos cerca de 25 mil euros(2). E que finalmente, “este é o 5º contrato celebrado com a empresa em causa, tanto pelo gabinete do primeiro-ministro, como pela secretaria-geral da Presidência do Conselho de Ministros, desde 2011, o que perfaz um montante total fixado em 95 mil euros (3)

Estaremos pois (mais ) atentos a esta tentativa. Estaremos, sempre que necessário nas galerias da AR, porque é a Casa da Democracia. Daremos a entender a actual presidente que somos nós que defendemos uma Assembleia da República e não a Assembleia Nacional (4) com que ela parece mais identificada…

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(1) Notícia do Jornal i, 10 Fevereiro 2014

(2 idem, ibidem)

(3) idem, ibidem)

(4) Referência ao parlamento do tempo do fascismo

03 fevereiro 2014



  Sim, senhor doutor!




Devo uma explicação. Só hoje falo das praxes, dado que nos últimos dias estive a modos que “raptado”. Acontece que, sem que fosse minha intenção, fui apanhado por um grupo de doutores e caloiras, que me fizeram uma espécie de lavagem ao cérebro, fazendo-me acreditar que o relógio do Portas tinha saltado no tempo e ainda estávamos sob ocupação da troika e que o meu salário havia encurtado 36,32%, em apenas 2 anos. Incrível, não é?
Na Academia onde vou ocupando o meu tempo, cruzo-me diariamente com pequenos, às vezes mais grandes, de alunos, que dão pontapés violentos na língua materna, vilipendiando costumes tão queridos a nossa Pátria. Uma vez, ao passear numa praça pública, no fim do jantar, o chão de terra batida no jardim completamente enlameado, um grupo de caloiros arrastava-se pelo chão, gritando vigorosamente a frase do título. Parei para ver esse lindo espectáculo e, comovido, lá me juntei a eles e a elas, puxando as orelhas, havendo de jurar fidelidade aos doutores, que como eu, fazem as venturas da Academia. Uma vez, numa reunião de um dos órgãos de decisão, respondi a um colega, que me afrontava, sim senhor doutor!  Apesar de ele ter ficado com cara de parvo, foi uma maravilha.


Devo dizer, é tão bonito dizer isto, no meu tempo não era assim. Em Coimbra, não me foi permitido ser caloiro a sério, era um “caloiro estrangeiro”, nem vos digo porquê. Em vez da tradicional “rapadela” de cabelo, apenas “apanhava nas unhas”, quando pela noite me aventurava na “baixinha”. Serei pois, deixem que vos diga, um tremendo apaixonado pelos rituais académicos mais ilustres, como por exemplo, almoçar na cantina, com o tabuleiro em cima das pernas cruzadas, cu no chão, limpando o soalho para não dar trabalho às senhoras da limpeza. Sim senhor doutor!


À entrada do anfiteatro acumulam-se meninas e meninos, nem dá para tentar entrar. Não faz mal, a faculdade não é só aulas, a queima é muito mais importante e, que pena, ainda faltam uns meses… Acostumado ao barulho ensurdecedor, mas decerto estimulante,  nem dou pela passagem do tempo, hoje é mais cedo que ontem, que baralhada.


Há quem diga, há sempre gente assim, que a praxe a que sujeitam os caloiros é uma forma de iniciar a submissão, em termos sociais. Que nada, faz bem que os universitários, futuro de um país, se habituem ao lugar que vão desempenhar. Se não for cá dentro, que seja lá fora, também o País é tão pequeno, que se ficássemos todos em casa, era uma tremenda confusão, o dinheiro não chega, vivemos tanto tempo acima das nossas possibilidades, assim nos ensinam os que governam que, com grande sacrifício pessoal, se entregam a tão nobre tarefa.


Finalmente, há sempre gente maldosa a dizer, que o “sim, senhor doutor” é uma manifestação de cariz fascizante, pelo que engloba de aceitação tácita de autoridade. Que exagero, apenas vejo nisso um sinal de respeito. E, o respeitinho é muito bonito, disse já não sei quem. Ontem, a propósito, um aluno atirou-me a porta na cara, tropecei , dei com as fuças no chão, espalhei a papelada toda, ele nem deu conta, coitado, ia com pressa certamente, é a vida.


 Cheguei ao gabinete, porra que frio!





30 dezembro 2013


2013: um ano para esquecer, ou para lembrar?
Apenas uns dias para o final de mais um ano, a confiança quebrada será talvez o sinal mais visível de uma sociedade fustigada pela crise do capital. Aparentemente indiferente, que parece ser um outro sinal, embora com o timbre do protesto e da revolta. Ambos sinais de um tempo ausente, a espera de dias decisivos, quiçá presos por fios ténues, a quebrar quando menos se espera. Acorda-se para mais um dia, com a notícia de mais uma medida, mais um escândalo. Não se sabe bem quando tudo isto acabará, ou se acabará mesmo, pelo caminho que foi e é traçado conjuntamente a nível europeu e nacional, naquela que é a mais indecente experimentação de um modelo ensaiado entre um governo traidor e uma comissão europeia cúmplice do capital financeiro.

A realidade
Em 3 anos o PIB português recuou 3 mil milhões de euros, a dívida aumentou, os juros não baixaram mantendo-se na casa dos 6%, a taxa de desemprego aumentou, são encerradas em média 52 empresas por dia. Os números do desemprego ostentam a mais indigna situação do País, desde o 25 de Abril. O desemprego global, que em 2000 era de 4%, atinge os 17% em Setembro deste ano, a terceira taxa mais elevada da União Europeia. O desemprego jovem está nos 37%, também a terceira taxa maior da OCDE. Só o sector bancário, por exemplo, destruiu mais de 14 mil empregos, sendo o BCP o maior desempregador, com quase 80% daquele valor.

As desigualdades atingem o seu nível máximo a nível europeu. A troika é uma extensão do governo e este uma extensão daquela. A realidade mostra um País inteiro contra o governo, contra esta pretensa “maioria”, que só o é, em termos relativos, porque detém maior número de deputados na AR. Uma realidade de miséria social, de empobrecimento sucessivo de franjas da população, uma incapacidade de criar emprego, porque encerram empresas em vez de abrirem.

Uma justiça para ricos e influentes. “Na pirâmide da corrupção, temos no topo a corrupção do Estado”, acusou Maria José Morgado, responsável pelo Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa, ainda em 2012. Esta e outras acusações directas deveriam envergonhar o próprio governo, a quem compete a chefia do Estado. Ao contrário, é o mesmo governo que incentiva a corrupção, com os casos que são conhecidos, de “parceria grandes-empresas e Estado”, compadrios, apadrinhamento, ou simplesmente “pequenos” favores, como este: 20 administradores das maiores empresas portuguesas que têm mil cargos de administração, cada um deles com uma média de 50 empregos; curiosamente um deles tem 62 empregos; o ordenado mais alto, pago a uma destas pessoas, é de 2 milhões e meio de euros. E que dizer, quando a justiça se vira completamente do avesso, ao permitir que criminosos de delito comum, como os gestores e administradores do BPN, virem vítimas e sejam reembolsados pelo Estado, ou seja, por todos nós?
O vergonhoso recente acordo do PS com o governo, relativo ao IRC, serve unicamente os interesses das grandes empresas. E mostra, sobretudo a quem ainda espera algo daquele partido, ou pelo menos da sua direcção, de que forma é vista a cooperação com os situacionistas.

A ficção
Apesar de a realidade contrariar tudo o que dizem e fazem, os governantes actuais continuam a gerir uma saga, em tudo semelhante a um filme de terceira categoria. Procuram, todos os dias, mostrar um País que só existe no universo limitado delas e deles, alimentando a ideia que os sacrifícios a que obrigam, terão valido a pena, porque a economia está a crescer e o emprego está a aumentar. Chegando ao ponto de, nos últimos dias, o próprio PM ter inventado 120 mil empregos….

Este estado ficcional é alimentado, e bem, por uma comunicação social situacionista, em que pululam os comentadores da treta que todos os dias e a todas as horas vomitam a inevitabilidade da austeridade. Catrogas, Carreiras, Bessas, até o inenarrável César das Neves (…), ocupam literalmente todos os canais da rádio e televisão. Uma inqualificável e inaceitável unanimidade, só entendível por sabermos quem (lhes) paga para tal.

Para complementar o cenário, existem empresas de sondagens que descaradamente orientam a opinião pública, publicando pretensos estudos, cirurgicamente colocados em momentos chave, “ditando” já os próximos resultados eleitorais. Uma grosseira manipulação do eleitorado, que infelizmente “segue” aquilo que lhe é “vendido” pelas mesmas empresas onde estão os mesmos personagens, os mesmos interesses, as mesmas cumplicidades.
Acossados por todo o lado, os governantes circulam num limitado número de metros quadrados, nos gabinetes da capital, devidamente apoiados pelo pensionista de Belém, uma imagem de tristeza e mediocridade como não há memória, desde Abril de 74.

O que nos espera em 2014
O verdadeiro rosto da democracia é este: uma jornalista da TVI que denuncia, num programa televisivo, a situação de privilégio do ensino privado e as benesses que ora tem e o estado de ataque à escola pública, por parte do governo e do ministro Crato, é despedida da estação…

Não há uma única réstia de esperança. Nada se deve esperar para o próximo ano, a não ser a certeza de que é preciso lutar, por todos meios, contra o estado a que nos conduziram. Não será decerto esta quadra, tipicamente de moderação de palavras e actos, que nos levará a “perdoar”. Muito menos, a esquecer, parafraseando o Homem do século [1]. O dever de cidadania é de denunciar a situação, atacar o mal pela raiz. Porque, “… entre um governo que faz o mal e povo que o consente, há uma certa cumplicidade vergonhosa[2].

Saber actuar, não apenas reagir, poderá ser um voto realista. Pena é que alguns daqueles que deveriam, nesta altura, estar na linha da frente pela unificação de uma esquerda que contrarie a situação, se contentem a contar mais uns votos. Não basta a coerência, é preciso de facto uma acção concertada pela dignidade, pela democracia e pelo desenvolvimento. E que, naturalmente, dê força e sentido prático à resistência e ao protesto.
Não vivemos já numa Democracia. A consciência desta realidade será porventura meio caminho andado para a acção. O espaço designado de união europeia não é já um espaço democrático e não haverá dentro dele qualquer hipótese de movimento alternativo, capaz de construir cenários de regressão da situação presente. Resta encontrar uma alternativa fora desse espaço, esta uma leitura que se apresenta como possibilidade para o novo ano 2014.

A desobediência civil e outras iniciativas semelhantes devem estar na ordem do dia. A indiferença só serve os interesses da casta privilegiada que está no poder e que se move na esfera dele.

Os votos para 2014 decidem se de facto se este ano é para esquecer, ou para lembrar…


[1] Referência a um pensamento de Nelson Mandela
[2] Pensamento de Victor Hugo(1802/1885)

14 novembro 2013


Animais de estimação
http://www.youtube.com/watch?v=LhUxL6lw_-g


Havia de ser a sabedoria, nas palavras mordazes de António Lobo Antunes, a lembrar que, em vez de governo “Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento. Claro que as crianças lhes acrescentaram um pin na lapela, porque é giro[1](1) . E existe ainda, um tio mais velho e um pai reformado e pensionista, que já não dizem coisa com coisa e já não se lembram bem do que fizeram ontem. Um panorama assustador, com personagens pífios, telecomandados do interior e do exterior pela alta finança, administradores da banca, gestores de grandes empresas e mais uns tantos representantes de obscuros interesses.

Ignorando por completo as pessoas e a realidade do tecido social, esse grupelho oriundo das juventudes partidárias, move-se num pequeno círculo de meia dúzia de metros quadrados, distribuídos por alguns gabinetes de Lisboa. Foram e continuam a ser amestrados por assessores de imagem e conteúdos (…)  para produzirem um discurso elíptico, monolítico e permanentemente típico de uma confrangedora mediocridade, todavia eivado de uma descarada arrogância intelectual. A vida fora dos gabinetes é-lhes de tal forma estranha que, quando confrontados com uma situação real, se refugiam nas metáforas que lhes foram incutidas à pressa. Embora não se tolerem mutuamente, como já se viu, como se vê todos os dias, tentam mostrar-se sempre muito unidos e solidários, se esta última palavra não lhes causasse arrepios em todo semelhantes à prata no vampiro.

Preparam o empobrecimento, para salvar a Pátria, porque esta não representa para eles o mesmo que para o cidadão comum. Não sabem o que é a vida, porque invariavelmente nunca trabalharam em coisa nenhuma. A não ser em esquemas de favor, de corrupção, que sabem nunca se descobrirão formalmente, dado que também a Justiça está dominada e perigosamente controlada. Vestem a pele de um cordeiro, que não tira os pecados do mundo como o outro, acrescenta pecados ainda piores, do ponto de vista social e comunitário.

Passeiam-se nas ruas e praças quando há festa, mas sempre com uma trupe de comandos que os protege da fúria popular. Inauguram umas coisas, porque é da praxe, sendo interrompidos pela cidadania que anda cá fora, que maçada. Ás “grandoladas” reagem com sensaboria, em parte porque nem sabem muito bem o que isso é, ouviram dizer, outra maçada enfim.

Acordamos e somos cada dia sobressaltados por mais uma notícia, mais um comunicado, mais uma resolução, no fundo mais um roubo, porque só assim o problema da divida se vai resolver. O pior é que nem assim se resolve, como se está a ver. E o nosso moral vai indo pelo cano abaixo, mas nada de importante, eles aguentam, dizia o outro inteligente (2) …

Mas, para nosso consolo existe o voto popular, as eleições. O poder do Povo, uma arma. Dessa forma, podemos descansar, certos que tudo mudará de um dia para o outro, com outros intérpretes, outras políticas, o povo é soberano, tudo bem. Descansemos assim as consciências, faltam só… Mas, no dia seguinte a este pensamento inocente, aparece uma sondagem que nos dá conta de que o partido a tem agora trinta e tal por cento, enquanto que o partido das meninas e dos meninos de pin na lapela tem somente vinte e tal. Ora, o tal partido foi o que antecedeu a este e disse mais ou menos a mesma coisa, mas de uma forma mais suave. Porque de facto, é preciso que mude alguma coisa para tudo ficar na mesma…

Então como vai ser, voltamos ao mesmo ou invertemos a situação? Mas eles (os donos das sondagens) já disseram afinal como é, muito antes da coisa ser, que podemos fazer? Bem, pelos vistos nada, mais vale não votar, ou votar em branco, porque está tudo organizado para assim ser. É também é por causa disso que o partido a, anterior e aleatoriamente citado não faz muitas ondas, austeridade, esta não pois claro, somente uma mais inteligente, mais um ano que se pede a sei lá o quê, etecetera e tal… 

Os animais de estimação são de uma forma geral conhecidos como fiéis ao seu dono. A excepção do gato é assinalável, mas é apenas isso, uma excepção que confirma a regra. Este grupelho e outros que lhe são aparentados são no fundo fiéis aos seus donos, aqui e por essa Europa fora. Qualquer teoria da conspiração antes formulada não consegue sequer chegar a esta. A redundância é tão grande que agora já não há fingimento. A conspiração existe mesmo. A pretensa incompetência deste grupelho e do tio e do pai são apenas a desculpa possível do “…pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem...” A questão é que eles sabem mesmo o que estão a fazer e pelos vistos estão a obter resultados. Não os que eles dizem que estão a ter, mas aqueles que eles esperam de facto ter. E não é por acaso que as reuniões, encontros e outras que tal a que chamam “avaliações” são uma tremenda fantochada.

Nas rádios e nas TV pululam os comentadores da treta. Mas é uma treta muito bem orquestrada. E que, ao dizer-se que a alternativa não existe, não se está a dizer que não existe alternativa. Está-se simplesmente a dizer que não pode existir alternativa. Isso é que seria eventualmente perigoso, para eles. Por isso se defendem, se escudam dentro de uma legitimidade formal que não tem qualquer sentido, se perpetuam num poder que usurparam ao Povo, utilizando os mecanismos legais que eles próprios determinam. Por isso, mesmo que a realidade os desminta por completo, terão sempre o mesmo discurso. Por isso mesmo, temos que encontrar formas de dar a volta, limitando para já ao mínimo o número de animais de estimação (por legislatura?) e promovendo o abate sistemático da maioria deles, como medida de saúde pública.    

Animais de estimação de vida sã?
 

 
 


(1) Referência ao artigo de ALA na Visão 1078, de 31 de Outubro 2013
(2) Referência as declarações de Fernando Ulrich no contexto da sua expressão "aguenta, aguenta...", em Janeiro deste ano

10 novembro 2013


 1 ANO DE FOME PARA O AUTOR!
http://www.youtube.com/watch?v=3ucdeQcrecI

O homem, do alto púlpito da sua arrogância, o matemático feito ministro, proclama um ano de fome para os portugueses. Quando um dos membros desta seita sinistra fala, exclui-se da urbe, convencido que está de um pretenso espírito de missão para salvar a Pátria. Equações à parte, o homem já provou toda a sua incompetência, no campo dos números reais[1]. Passou-se (!) para o campo dos números imaginários[2], numa aritmética que de racional tem muito pouco. Isto enquanto se vão conhecendo outros números reais, que atestam 154 milhões de euros entregues aos privados, para fazer concorrência à Escola Pública, personificados em “contratos de associação”, uma coisa assim como, eu exploro e tu (Estado) pagas. Muita gente pois a receber o que não deve, circunstância aparentemente pacífica, normal para os primos e primas dos centrões da nossa politica partidária, provando afinal que Euclides tinha razão ao demonstrar, por redução ao absurdo, que o conjunto dos números primos é infinito…[3]. Crato é afinal um absurdo ou o absurdo é mesmo o Crato? Pudera Euler[4] descer à terra para explicar a este senhor o único caminho possível, a ponte para o buraco onde se devia meter e dele só sair um ano depois de greve da fome “obrigatória”. Mas uma coisa podemos fazer, privatizar o Crato. Por 20 euros apenas, não vale decerto mais que o que propõe para a prova, exame, ou lá o que é(…) aos professores.
Em aritmética racional, é necessário distinguir cuidadosamente as proposições primitivas das proposições demonstráveis. Normalmente, através de uma teoria dedutiva. Na vida real (…) qualquer cidadão consegue demonstrar a inutilidade do Crato, pelo menos no que reporta ao serviço público. Presta um bom serviço aos tais privados, claro que sim, mas nós somos mais que eles e, a dedução possível é que o devemos simplesmente eliminar, porque não presta serviço algum a causa pública. Simplesmente, não presta!



[1] Em Matemática: números que têm uma correspondência biunívoca com os pontos de uma recta; são usados para representar uma quantidade contínua (conjunto R). Em linguagem corrente: números que retratam a realidade…
[2] Em Matemática: números complexos com parte real igual a zero, ou seja, um número da forma z=a+ib, em que i é a unidade imaginária (conjunto Z); resultam da necessidade de calcular distâncias no plano cartesiano. Em linguagem corrente: números que povoam o subconsciente (e inconsciente) daqueles que estão fora da realidade e que infelizmente povoam o universo do poder…
[3] Euclides de Alexandria, matemático grego, conhecido como o "Pai da Geometria". O Teorema de Euclides : Existe uma quantidade infinita de números primos
[4] Leonard Euler (1707-1783), físico, astrónomo e matemático suíço. Autor da Teoria do Grafos, de cuja aplicação mais conhecida é a resolução do “problema das 7 pontes de Königsberg”: http://users.prof2000.pt/agnelo/grafos/pontesh.htm