rio torto

rio torto

10 agosto 2014


O vento não mudou…
 
 
 
 
 
 
 
 
Na canção ele mudava e ela não voltava. Estávamos em 1967 e havia um Festival com grande impacto social, já que tudo o resto era vedado na “democracia orgânica” da época.
A SillySeason, uma coisa instituída na “democracia liberal” imposta pelo poder do capital do século XXI, brinda anualmente a praça dos que se entretêm a exercer o poder sobre a populaça, servindo o País acima dos seus interesses. Aparece sem se dar conta neste mês de Agosto, do qual se diz que nada se passa. Trás sempre uma “bomba” que rebenta e cujos danos colaterais vão invariavelmente na mesma direcção. Mais um banco no lamaçal e desta vez o cujo dito em que o seu patrão natural era o dono disto tudo, na vox populis abalizada de todos os seus pares.

Interessa entretanto saber se afinal, neste Agosto esquisito com chuva e sol á mistura, se o vento mudou ou não. Que sim, mas que talvez, o próximo mais do “nim”, aliás uma instituição interessante da “democracia liberal”. Zola dizia a certo passo a Flaubert, a propósito do Naturalismo, “…considero o termo tão ridículo como você, mas irei continuar a repeti-lo vezes sem conta, porque têm de ser dados novos nomes às coisas, para que o público pense que são novas”. Mesmo que o vento não mude, mudaremos o nome das coisas, para que tudo fique na mesma. E é esta a tese substantiva da direita estúpida e cega que tiraniza a populaça.
A casa onde o pai matou a família toda e tentou alastrar a matança a longínquas paragens, vai agora ser dividida em duas, por ordem de um governo que lhe prestou ao tempo a mesma vassalagem que outros lhe foram prestando. Será então uma “casa boa” e uma “casa má”, um exercício de maniqueísmo que não orgulharia decerto o seu mentor, de tão rasteiro e pusilânime. Supõe-se, na simplicidade de quem tem apenas 2 ou 3 neurónios a funcionar, como a canalhada que ocupa as cadeiras do poder, que na casa boa ficam as coisas boas e na casa má, o resto que é mau. O curioso é que as pessoas até acreditam, com a beneplácita ajuda de comentadores, jornalistas vendidos e outros acólitos, que subscrevem as teses oficiais, com um descaramento que enoja. Para completar o quadro, nada como a putrefacta figura do regulador, que faz tudo menos regular, e que lembra o professor que descobre no final do ano que afinal a turma é um bando de assaltantes e filhos da dita, capazes de semear a confusão na escola toda.

Do lado de cá, a mesma sina, a mesma sorte. A de pagar os estragos do assaltante, para que a casa seja de novo “boa” e sirva para recolher os parcos proveitos dos que pagam, até ao dia em que volte tudo ao mesmo, porque ao velho ladrão há-de suceder um outro, dado que a fonte de recrutamento dos representantes dos patrões é sempre a mesma e gere os recursos que tem à mão, no ensino da ganância e da pilhagem. A solução é a única possível, como todas as soluções deste grupo de ladrões e corruptos. Nunca existe alternativa possível, porque nem sequer é ouvida qualquer voz que se permita discordar. É mesmo que seja ouvida é o mesmo que nada.
O vento afinal não mudou, nem ELA (Je voudrais sans la nommer vous parler d'elle) voltou. Pena…


 

 

 

 

27 junho 2014


PIRRO ou PORRA?

 
 
 
 
 
 
 
 
Só a ideia de ter como “representantes” uma boa dúzia de meninos ricos e mimados, cujo “valor” flutua na relva do mercado (ou no mercado da relva), assusta qualquer um. A pompa aqui ajusta-se a circunstância. O conjunto das chamadas figuras públicas e comentadores pagos que vieram a terreiro atestar a mais-valia desta selecção, mais valia que estivessem calados, foi tempo perdido, ilusões vendidas a preço de saldo e que talvez tenham deslumbrado as estrelas que penosamente se arrastaram pelos Brasis.
E aquele a chamam o “melhor do planeta” e que raramente consegue articular 2 frases sem sentido, como irá lidar com este rotundo fracasso? Afinal, mais uma vez, acaba por ficar aquém das expectativas.
Mas falemos de atitude. Com todas as cambiantes possíveis e imaginárias, houve de tudo, desde a arrogância (vai ser o ano de Portugal, somos melhores,…) até a resignação pura e dura (sabíamos que havia outros melhores que nós…), patente aliás no ultimo jogo. Mas há mais atitudes, como a do inefável Bento, “…não me demito, aconteça o que acontecer”. Tal com o outro, que também não, nem mais ou menos, apesar do/s fracasso/s evidente/s. Também, tal como o outro, tem um desígnio, pelo menos nacional, quiçá europeu, ou mesmo mundial, quem sabe? É também isso que irrita, de tão diletante.
A pífia campanha publicitária à volta da coisa quer sobretudo alimentar o incontido brio lusitano, ferido em tempos de servidão. Para fora, com algumas adendas, para dentro com prebendas e comendas, como iremos ver…

PIRRO na vitória, ou PORRA para isto tudo?

16 junho 2014



“FAZER UM GOL NESSA PARTIDA NÃO É FÁCIL, MEU IRMÃO…"(1)

Por ser dia de jogo, lembro o Afonsinho, aliás Afonso Celso Garcia Reis, o primeiro jogador de futebol no Brasil a conseguir o passe livre (…não preso a nenhuma equipa), na década de 70 do século passado, numa época que o Brasil vivia uma repressão feroz, sob a Ditadura Militar.

Afonsinho tornou-se conhecido pela luta contra duas ditaduras, a dos militares e a que escravizava os jogadores de futebol naquela época, o passe. E tudo isso aconteceu por conta de um episódio no Botafogo, quando ele ainda muito jovem, já havia liderado os seus companheiros de equipa contra os dirigentes do clube, por pagamentos de prémios atrasados. Mais, os dirigentes do clube e o técnico Zagallo blindaram a sua ida a selecção, por usar barba e cabelo comprido, um visual subversivo, segundo eles.

Afonsinho representava, por assim dizer, uma alma. Uma chama diferente, porque contra a corrente. A sua luta abriu caminho para que outros jogadores também lutassem pelos seus direitos.

E digo com ele (Gilberto), "Prezado amigo Afonsinho/eu continuo aqui mesmo/aperfeiçoando o imperfeito/dando um tempo, dando um jeito desprezando a perfeição/que a perfeição é uma meta/ defendida pelo goleiro/ que joga na selecção/e eu não sou Pelé nem nada…”.

Talvez aquele que hoje é “entronizado”, como melhor do mundo, o salvador da pátria (do futebol, pelo menos), não conheça Afonsinho, nem muito menos o que ele representou. Talvez porque a cultura seja a inversa. Ele, como a maioria dos seleccionados, ricos e mimados, investidos de um poder fátuo, por força da propaganda e dos milhões, a que devem obediência.

Apenas um jogo de futebol. Contra os dominadores da Europa e quiçá, arredores? De todo, apenas uma equipa de futebol, adversária e não inimiga, segundo as “boas regras” do desporto.

Se for então difícil “fazer um gol nessa partida…” é porque – apenas – não foram capazes de “…aperfeiçoar o imperfeito”, que é o zero-a-zero, o empate constante do meio-termo, do tal meio-campo em que se joga a/o tempo inteiro. O jogo, tal como a vida, é sempre p´ra frente, ao ataque, seja qual for o adversário, marcar golo é vencer, as lutas são para ganhar.

Afonsinho, meu irmão!
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(1)     “Meio de Campo”, Gilberto Gil
 
 

10 junho 2014


DESFALECER…
















Uma palavra esquisita. Deveria querer significar o contrário. Como desnaturado que, segundo o dicionário da língua portuguesa, significa “que se desnaturou, que não tem os sentimentos naturais”. Ou desfazer, que é naturalmente o contrário de fazer. O prefixo “des” refere separação ou acção contrária.
Acima de tudo, como diria o outro, “… é melhor que falecer”.
Este, ao que consta, desfaleceu hoje. Numa cerimónia pública em que mais uma vez, o governo foi mandado para a rua. O homem que, paulatinamente desfez o País, desde que esteve ao leme, durante 2 mandatos: indústrias, agricultura, pescas,... Gabando-se de ser o único a ter razão, nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, “deixem-nos trabalhar…”. Trabalhou de facto para a destruição, para transformar o País num deserto de serviços, muitos inúteis, como agora se prova. Ajudado e amparado por uma maioria fictícia, que talvez hoje nele nem se reveja, é um homem acossado. Governou e governou-se, tentando ostentar uma máscara de seriedade, institucional ou não, acima de barões e baronetes. A quem recorreu, quando necessário e que o premiaram no caso que todos conhecem.

Uma tristeza. Um País que desfalece aos poucos, por causa dele e dos que hoje o suportam. Que continuaram a obra do chefe, e que agora suportamos.
Desfalecemos um pouco, todos os dias, martelados e subjugados, pela notícia sempre igual, pelo comentário comprado e bem pago, pela medida sempre mais austera, que é necessário, para bem da nação. Este e os outros todos que pululam alegremente sobre a nossa tristeza, com a linguagem maldita da ficção de um mundo só para alguns.

Desfaleceu? Se disséssemos que era bem feito, estaríamos porventura a incorrer em pecado mortal. Como, apesar de não perfilharmos as teses da maldição, somos pessoas de bem, desejamos que não desfaleça mais. Que faleça de vez no cargo que ocupa, politicamente falando, claro…

28 abril 2014

25 ABRIL 2014

Ao rigor do tempo serão 40 anos.
Parece entretanto que foi ontem, pelo sentimento que colocamos, tanta coisa em jogo naquele tempo, onde o tempo apenas parecia contar para uma festa de sentimentos, esperança e desejo de um País melhor, livre da tutela dos senhores do dinheiro e da exploração.
A festa que o Chico dizia ser bonita pá.
Ganhava valor o trabalho, o capital olhava para o lado, esperando melhores dias em que pudesse voltar a tomar as rédeas.
Viemos de longe para aqui chegar, sonhando que a luta seria o sustentáculo dos direitos que pareciam ganhar terreno. Mas a luta ainda estava para vir.
 Hoje, dia 25 de Abril, longe da pátria, mas entre irmãos de luta que falam a mesmo língua, apenas sou capaz de sentir a saudade que a Cesária falou: sôdade.
Percorro o meu País. Em vez de pessoas com alegria de viver, deparo com “Gente que hoje anda / Falando de lado /E olhando pro chão, viu”. E sei que, como bem diz o Chico, “Apesar de você/Amanhã há de ser/Outro dia” e que
Quando chegar o momento/Esse meu sofrimento/Vou cobrar com juros, juro”.
As voltas com a injustiça e a ignominia que campeiam, lembro o Adriano exortando o Tejo,  “Lava bancos e empresas /dos comedores de dinheiro / que dos salários de tristeza /arrecadam lucro inteiro / Lava palácios vivendas /casebres bairros da lata / leva negócios e rendas /que a uns farta e a outros mata

Mas sei que quero a mudança. Porque já Luís de Camões a dizia: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / Muda-se o ser, muda-se a confiança / Todo o mundo é composto de mudança / Tomando sempre novas qualidades”.

Mas também sei que não quero a mudança que um punhado de gente sem escrúpulos escreve, com letras de fome e de pobreza. Essa a novidade que eles fizeram. E que Camões também avisou: “Continuamente vemos novidades / Diferentes em tudo da esperança / Do mal ficam as mágoas na lembrança / E do bem, se algum houve, as saudades”
Neste dia recordo, como seria de esperar, o Zeca Afonso. “A velha história ainda mal começa /Agora esta voltando ao que era dantes / Mas se há um camarada à tua espera / Não faltes ao encontro sê constante”.

25 de Abril sempre!

26 março 2014


O CABEÇA DA LISTA

Espezinhado pela sucessão crescente de eventualidades, algumas delas fortuitas, o candidato vacilou. Torpedeado pela comunicação social, hesitou, mas rapidamente se compôs, afinal era considerado mestre da palavra, pelo menos no que toca a velocidade com que dispara, salvo seja. Emagrecido, porventura após tratamento direccionado para abater gorduras, cujas são entendidas como tal pela análise da conjuntura, que por sinal são dirigidas à estrutura. Para quem considere que isto é um pouco complicado, aconselha-se a opinião, sempre conceituada, dos mais que muitos consultores que pululam por aí. Um pequeno parêntesis, para corrigir, de opinião, para da opinião, uma vez que é o sistema que está instituído e para o qual não há alternativa a curto prazo.

Saiu para a rua, vagueou sem direcção, assim o conta o poeta, na canção. O tema é sempre o mesmo, para o cabeça da lista. Consenso entre os do arco, cuja governação conhecemos há tanto tempo, que já lhe perdemos a conta. Ainda, os superiores interesses que se sobrepõem a não sei o quê, e que também sabemos de quem são, onde estão e como são cuidadosamente garantidos, a troca de rendas surripiadas sempre aos mesmos. Finalmente, a necessidade do controle, que diz ser orçamental, o esforço em reduzir a dívida, que a gente vê aumentar todos os dias, uma espécie de pinha que lhe cai sempre na cabeça. Do cabeça. Da lista.

Pudera ser dois, e desdobrar-se, num contorcionismo perfeito, e daria então ao eleitorado uma espécie de bipolaridade, à primeira vista atraente, para públicos menos avisados. Daria então duas faces, embora sempre a mesma, em matéria de facto. O cabeça pensou nisso, obviamente. E analisou essa possibilidade com a sua gente, consultores, intermédios dirigentes, superiores, e demais quadros que sabemos serem pintados com muita perícia e cuidado. E pagos, claro, aqui não há gordura, só músculo.

Após encontros promovidos para o efeito, eis que surgem então as duas faces, ambas oculadas, uma veloz e incisiva, outra fanhosa e paulatina. As duas querem aparentemente o mesmo, mas aos olhos da populaça, supõe-se que seja exactamente o contrário, sendo que convém que apareçam sob a capa de insanáveis divergências, baralhando assim o jogo que, sem ter começado no campo, se desenrola em plena bancada.

A cabeça pesa ao cabeça, porque o peso do discurso pesa na consciência, muito embora lhe tenham aconselhado deixar esse tipo de coisa, fora da coisa. Assim, passará ao ataque da lista, sempre com a cabeça no superior interesse que, como já se viu, é intenso. Mas, como tem 2 cabeças, poderá acontecer que uma delas se esvaia na ventania do Tempo, ou conforme o vento que passa, da trova que o pariu.

10 fevereiro 2014


Não, senhora Esteves!

A sucessão de protestos levou a presidente da Assembleia da República a admitir a necessidade de repensar as regras de acesso às galerias. Agora que os deputados já receberam um estudo sobre o que acontece noutros parlamentos, queremos ouvir a sua opinião. São aceitáveis os protestos a que temos assistido no Parlamento?”

Assim foi o Fórum de hoje na TSF. Já fui mais assíduo nestes fóruns. E já tive oportunidade de, de certa forma, denunciar a forma como são programados estes debates, sempre favoráveis ao poder instituído, uma vez que a estação de rádio em questão, opta por introduzir o debate, de forma sorrateira, através de posições de comentadores, quase sempre contratados para induzir posições (…)

Devo dizer que não me espanta a atitude da presidente da AR. Pena é que a República tenha figuras destas a frente dos seus destinos. A senhora em questão, além de ser desprovida da classe exigível ao cargo que ocupa, é (mais) um excelente exemplo de falta de transparência na coisa pública. Uma (mais uma) reformada de luxo, detentora de uma linguagem rasca, inapropriada e em nada condizente com a Democracia, apesar de encher o seu vazio discurso com a palavra, que lhe deveria merecer algum respeito. Chegou ao desplante de utilizar uma asserção de Simone de Beauvoir, for de qualquer contexto, para se insurgir contra os protestos, mais que legítimos, dos manifestantes. Triste exemplo, triste interprete, só possível mesmo nos tempos que correm e que transformam o nosso País no mais simplório exemplo de seguidismo às políticas de agressão internacional contra as populações. Estulto será pois perder tempo com esta personagem menor.

No entanto, enquanto ela lá está, necessário será fazer-lhe frente. E, uma das premissas que é preciso desmontar, é que os políticos, os deputados, são todos iguais e só lá estão para defender os seus interesses privados e particulares. Se bem que tal seja de facto verdade, talvez até para uma significativa maioria delas e deles. Embora possa parecer contraditório, urge demonstrar, pelo exemplo, uma coisa e a outra, ao mesmo tempo. Tal significa, denunciar casos evidentes como este, em que ex-Ministros, ex-Secretários de Estado e outros altos cargos, quando cessam são os únicos cidadãos que podem legalmente acumular 2 salários do erário público. Ou, a quantidade de escritórios de advogados “representados” na AR, que elaboram as leis e os decretos que vão proteger interesses privados de grandes empresas.

O que está, ou pretende estar, em jogo é, mais uma vez, um atentado a liberdade de expressão. Acontece que este é um dos aspectos do fascismo social que graça por toda (ou quase toda) a Europa. Embora grande parte dos intérpretes não saibam o que é a vida, sabem bem o papel que lhes está destinado. E esse é, neste momento, “apenas” o de contribuir de alguma forma para a transferência das rendas do trabalho para o capital, no feroz ataque as estruturas do designado Estado Social, que era o apanágio da Europa do pós-guerra. Silenciar protestos, limitar o direito a manifestação, reduzir o poder das estruturas representativas dos trabalhadores, reduzir salários e pensões, retirar os poucos benefícios ao desemprego, facilitar este, são alguns dos papéis que cabem a esta gente. E que, de facto temos que reconhecer, que os estão a desempenhar de forma exemplar. Acreditar que tudo o que se passa em Portugal, como na Europa, é um sinal de incompetência técnica, ou até funcional, é cair no mesmo erro.

Há pois que ser, agora mais que nunca, competente na forma ou formas utilizadas para o protesto cidadão. Ele tem que ser cuidadosamente atestado, diversificado e sobretudo útil. Em causa deveria estar, uma opinião que ainda não parece ter vingado ainda, é a desobediência civil. Talvez uma das mais eficazes atitudes da cidadania activa. Emprego aqui uma designação que parece ser redundante (toda a cidadania, para o ser, deverá ser activa). Se o for, será todavia uma forma de reforço voluntário, quando a indiferença prossegue assustadoramente o seu maléfico caminho…

O País tem uma Assunção que assume o seu papel de tentativa de destruição das bases do estado democrático. Tem uma Esteves, que sempre esteve do mesmo lado. Sabemos bem qual. E serve-se, ao que parece muito bem, do Estado. A solução é não votar em personagens como esta. Parece simples, mas não o é, na realidade. Porque o voto (ainda) não é a arma do Povo, mas sim uma arma atirada à cara do Povo. Também me parece que não é preciso dizer porquê. Se assim fosse, como seria possível votar no homem que tem “10 secretárias, 9 auxiliares e 12 funcionários que prestam apoio técnico-administrativo e que, parecem não ser o suficiente para suplantar as necessidades de atendimento telefónico no Palácio de São Bento(1) ? E que “alega “a ausência de recursos próprios” para sustentar a premência deste contrato, que custou aos cofres públicos cerca de 25 mil euros(2). E que finalmente, “este é o 5º contrato celebrado com a empresa em causa, tanto pelo gabinete do primeiro-ministro, como pela secretaria-geral da Presidência do Conselho de Ministros, desde 2011, o que perfaz um montante total fixado em 95 mil euros (3)

Estaremos pois (mais ) atentos a esta tentativa. Estaremos, sempre que necessário nas galerias da AR, porque é a Casa da Democracia. Daremos a entender a actual presidente que somos nós que defendemos uma Assembleia da República e não a Assembleia Nacional (4) com que ela parece mais identificada…

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(1) Notícia do Jornal i, 10 Fevereiro 2014

(2 idem, ibidem)

(3) idem, ibidem)

(4) Referência ao parlamento do tempo do fascismo

03 fevereiro 2014



  Sim, senhor doutor!




Devo uma explicação. Só hoje falo das praxes, dado que nos últimos dias estive a modos que “raptado”. Acontece que, sem que fosse minha intenção, fui apanhado por um grupo de doutores e caloiras, que me fizeram uma espécie de lavagem ao cérebro, fazendo-me acreditar que o relógio do Portas tinha saltado no tempo e ainda estávamos sob ocupação da troika e que o meu salário havia encurtado 36,32%, em apenas 2 anos. Incrível, não é?
Na Academia onde vou ocupando o meu tempo, cruzo-me diariamente com pequenos, às vezes mais grandes, de alunos, que dão pontapés violentos na língua materna, vilipendiando costumes tão queridos a nossa Pátria. Uma vez, ao passear numa praça pública, no fim do jantar, o chão de terra batida no jardim completamente enlameado, um grupo de caloiros arrastava-se pelo chão, gritando vigorosamente a frase do título. Parei para ver esse lindo espectáculo e, comovido, lá me juntei a eles e a elas, puxando as orelhas, havendo de jurar fidelidade aos doutores, que como eu, fazem as venturas da Academia. Uma vez, numa reunião de um dos órgãos de decisão, respondi a um colega, que me afrontava, sim senhor doutor!  Apesar de ele ter ficado com cara de parvo, foi uma maravilha.


Devo dizer, é tão bonito dizer isto, no meu tempo não era assim. Em Coimbra, não me foi permitido ser caloiro a sério, era um “caloiro estrangeiro”, nem vos digo porquê. Em vez da tradicional “rapadela” de cabelo, apenas “apanhava nas unhas”, quando pela noite me aventurava na “baixinha”. Serei pois, deixem que vos diga, um tremendo apaixonado pelos rituais académicos mais ilustres, como por exemplo, almoçar na cantina, com o tabuleiro em cima das pernas cruzadas, cu no chão, limpando o soalho para não dar trabalho às senhoras da limpeza. Sim senhor doutor!


À entrada do anfiteatro acumulam-se meninas e meninos, nem dá para tentar entrar. Não faz mal, a faculdade não é só aulas, a queima é muito mais importante e, que pena, ainda faltam uns meses… Acostumado ao barulho ensurdecedor, mas decerto estimulante,  nem dou pela passagem do tempo, hoje é mais cedo que ontem, que baralhada.


Há quem diga, há sempre gente assim, que a praxe a que sujeitam os caloiros é uma forma de iniciar a submissão, em termos sociais. Que nada, faz bem que os universitários, futuro de um país, se habituem ao lugar que vão desempenhar. Se não for cá dentro, que seja lá fora, também o País é tão pequeno, que se ficássemos todos em casa, era uma tremenda confusão, o dinheiro não chega, vivemos tanto tempo acima das nossas possibilidades, assim nos ensinam os que governam que, com grande sacrifício pessoal, se entregam a tão nobre tarefa.


Finalmente, há sempre gente maldosa a dizer, que o “sim, senhor doutor” é uma manifestação de cariz fascizante, pelo que engloba de aceitação tácita de autoridade. Que exagero, apenas vejo nisso um sinal de respeito. E, o respeitinho é muito bonito, disse já não sei quem. Ontem, a propósito, um aluno atirou-me a porta na cara, tropecei , dei com as fuças no chão, espalhei a papelada toda, ele nem deu conta, coitado, ia com pressa certamente, é a vida.


 Cheguei ao gabinete, porra que frio!





30 dezembro 2013


2013: um ano para esquecer, ou para lembrar?
Apenas uns dias para o final de mais um ano, a confiança quebrada será talvez o sinal mais visível de uma sociedade fustigada pela crise do capital. Aparentemente indiferente, que parece ser um outro sinal, embora com o timbre do protesto e da revolta. Ambos sinais de um tempo ausente, a espera de dias decisivos, quiçá presos por fios ténues, a quebrar quando menos se espera. Acorda-se para mais um dia, com a notícia de mais uma medida, mais um escândalo. Não se sabe bem quando tudo isto acabará, ou se acabará mesmo, pelo caminho que foi e é traçado conjuntamente a nível europeu e nacional, naquela que é a mais indecente experimentação de um modelo ensaiado entre um governo traidor e uma comissão europeia cúmplice do capital financeiro.

A realidade
Em 3 anos o PIB português recuou 3 mil milhões de euros, a dívida aumentou, os juros não baixaram mantendo-se na casa dos 6%, a taxa de desemprego aumentou, são encerradas em média 52 empresas por dia. Os números do desemprego ostentam a mais indigna situação do País, desde o 25 de Abril. O desemprego global, que em 2000 era de 4%, atinge os 17% em Setembro deste ano, a terceira taxa mais elevada da União Europeia. O desemprego jovem está nos 37%, também a terceira taxa maior da OCDE. Só o sector bancário, por exemplo, destruiu mais de 14 mil empregos, sendo o BCP o maior desempregador, com quase 80% daquele valor.

As desigualdades atingem o seu nível máximo a nível europeu. A troika é uma extensão do governo e este uma extensão daquela. A realidade mostra um País inteiro contra o governo, contra esta pretensa “maioria”, que só o é, em termos relativos, porque detém maior número de deputados na AR. Uma realidade de miséria social, de empobrecimento sucessivo de franjas da população, uma incapacidade de criar emprego, porque encerram empresas em vez de abrirem.

Uma justiça para ricos e influentes. “Na pirâmide da corrupção, temos no topo a corrupção do Estado”, acusou Maria José Morgado, responsável pelo Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa, ainda em 2012. Esta e outras acusações directas deveriam envergonhar o próprio governo, a quem compete a chefia do Estado. Ao contrário, é o mesmo governo que incentiva a corrupção, com os casos que são conhecidos, de “parceria grandes-empresas e Estado”, compadrios, apadrinhamento, ou simplesmente “pequenos” favores, como este: 20 administradores das maiores empresas portuguesas que têm mil cargos de administração, cada um deles com uma média de 50 empregos; curiosamente um deles tem 62 empregos; o ordenado mais alto, pago a uma destas pessoas, é de 2 milhões e meio de euros. E que dizer, quando a justiça se vira completamente do avesso, ao permitir que criminosos de delito comum, como os gestores e administradores do BPN, virem vítimas e sejam reembolsados pelo Estado, ou seja, por todos nós?
O vergonhoso recente acordo do PS com o governo, relativo ao IRC, serve unicamente os interesses das grandes empresas. E mostra, sobretudo a quem ainda espera algo daquele partido, ou pelo menos da sua direcção, de que forma é vista a cooperação com os situacionistas.

A ficção
Apesar de a realidade contrariar tudo o que dizem e fazem, os governantes actuais continuam a gerir uma saga, em tudo semelhante a um filme de terceira categoria. Procuram, todos os dias, mostrar um País que só existe no universo limitado delas e deles, alimentando a ideia que os sacrifícios a que obrigam, terão valido a pena, porque a economia está a crescer e o emprego está a aumentar. Chegando ao ponto de, nos últimos dias, o próprio PM ter inventado 120 mil empregos….

Este estado ficcional é alimentado, e bem, por uma comunicação social situacionista, em que pululam os comentadores da treta que todos os dias e a todas as horas vomitam a inevitabilidade da austeridade. Catrogas, Carreiras, Bessas, até o inenarrável César das Neves (…), ocupam literalmente todos os canais da rádio e televisão. Uma inqualificável e inaceitável unanimidade, só entendível por sabermos quem (lhes) paga para tal.

Para complementar o cenário, existem empresas de sondagens que descaradamente orientam a opinião pública, publicando pretensos estudos, cirurgicamente colocados em momentos chave, “ditando” já os próximos resultados eleitorais. Uma grosseira manipulação do eleitorado, que infelizmente “segue” aquilo que lhe é “vendido” pelas mesmas empresas onde estão os mesmos personagens, os mesmos interesses, as mesmas cumplicidades.
Acossados por todo o lado, os governantes circulam num limitado número de metros quadrados, nos gabinetes da capital, devidamente apoiados pelo pensionista de Belém, uma imagem de tristeza e mediocridade como não há memória, desde Abril de 74.

O que nos espera em 2014
O verdadeiro rosto da democracia é este: uma jornalista da TVI que denuncia, num programa televisivo, a situação de privilégio do ensino privado e as benesses que ora tem e o estado de ataque à escola pública, por parte do governo e do ministro Crato, é despedida da estação…

Não há uma única réstia de esperança. Nada se deve esperar para o próximo ano, a não ser a certeza de que é preciso lutar, por todos meios, contra o estado a que nos conduziram. Não será decerto esta quadra, tipicamente de moderação de palavras e actos, que nos levará a “perdoar”. Muito menos, a esquecer, parafraseando o Homem do século [1]. O dever de cidadania é de denunciar a situação, atacar o mal pela raiz. Porque, “… entre um governo que faz o mal e povo que o consente, há uma certa cumplicidade vergonhosa[2].

Saber actuar, não apenas reagir, poderá ser um voto realista. Pena é que alguns daqueles que deveriam, nesta altura, estar na linha da frente pela unificação de uma esquerda que contrarie a situação, se contentem a contar mais uns votos. Não basta a coerência, é preciso de facto uma acção concertada pela dignidade, pela democracia e pelo desenvolvimento. E que, naturalmente, dê força e sentido prático à resistência e ao protesto.
Não vivemos já numa Democracia. A consciência desta realidade será porventura meio caminho andado para a acção. O espaço designado de união europeia não é já um espaço democrático e não haverá dentro dele qualquer hipótese de movimento alternativo, capaz de construir cenários de regressão da situação presente. Resta encontrar uma alternativa fora desse espaço, esta uma leitura que se apresenta como possibilidade para o novo ano 2014.

A desobediência civil e outras iniciativas semelhantes devem estar na ordem do dia. A indiferença só serve os interesses da casta privilegiada que está no poder e que se move na esfera dele.

Os votos para 2014 decidem se de facto se este ano é para esquecer, ou para lembrar…


[1] Referência a um pensamento de Nelson Mandela
[2] Pensamento de Victor Hugo(1802/1885)