rio torto

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15 março 2015

O DIA DO PI

 
 
 
 
 
 
 
 
Torta feita pela Universidade Técnica de Delft no 'Dia do Pi'
(Foto: Wikimedia Commons)
A “irracionalidade” do valor da coisa (o ) contrasta com a putativa racionalidade de quem a usa. Seja no cálculo, seja na vida, qualquer número com 52 casas decimais é levado da breca para fixar. A parte aparentemente mais simples será porventura aquela que revela o conceito de aproximações sucessivas, ou se quiserem, séries infinitas de somas, multiplicações e divisões. Uma transcendência, dirão alguns, uma grande maçada, opinarão outros. Para uns e para outros, quer a Matemática ser a razão suprema de todas as coisas e, de uma certa forma, a razão de nos reconciliarmos com a existência, na medida em que entendemos as suas racionalidades. A espantosa ciência, de que muitos são afastados por uma incongruência, ou uma vez mais, irracionalidade desta feita sem comas, é a prova de que a mente humana é suficientemente capaz de interpretar a forma, a beleza e a cor. Para elas, a Matemática tem algumas interessantes respostas. Claro que um polígono será sempre um polígono e foi provavelmente socorrendo-se nisso, que Arquimedes formulou a representação matemática para o cálculo de , o que é designado agora como o método clássico para o respectivo cálculo.
Ao falarmos destas matemáticas curiosidades, lembramos um outro do mesmo nome, a que o realizador Ang Lee deu vida, no filme “A Vida de Pi”, um romance de Yann Martel.  Aqui já o nome se escreve com o alfabeto clássico, passando “Pi” a ser racional, ao contrário do outro, ao qual a Matemática chama “irracional”.

Assim são as vidas em universos distintos, aos quais a realidade que conhecemos assaca um valor determinado. Que, mesmo que não seja possível determinar, ao arrepio de uma quantas casas decimais, a vida atribui um valor certo. Parece contraditório, mas não o é, na exacta medida de que a relatividade das coisas lhe dá o peso que não parece ter. O pi matemático continuará a ser o que sempre foi. O pi da obra passará umas dezenas de dias no mar, num barco com um tigre de Bengala e após isso, na exacta dimensão do tempo que conhecemos, terá direito a umas dezenas de anos de vida, sem qualquer casa decimal a incomodá-lo.
Em vez de serdes só livres, esforçai-vos/Por criar uma situação que a todos liberte…”, opinava Bertolt Brecht. Libertar e mudar. Libertar, abrindo a mente para o que surgir como novo e analisar. Mudar, para que o sentido das coisas seja um desafio, dia após dia. Não vale a pena contrariar a Matemática. Mas vale decerto tentar libertar o que temos na mente, para mudar o rumo do barco, com ou sem um tigre lá dentro…

27 fevereiro 2015


O ano da Cabra, o Raio que o Parta…

 

O tempo das verdades plurais acabou.
Agora vivemos no tempo da mentira universal.
Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias.”
 José Saramago

Tabu, Lisboa, nº 84, Abril 2008
In José Saramago nas Suas Palavras


No ano chinês é a Cabra que manda. Aqui há uns anos atrás havia um Zé com o nome do bicho[1], lançado e apoiado por alguns free-lancers. Dizia ele que “…deixava tudo por ela”, num estertor de desritmo, a que alguns achavam piada. Mal sabiam que haveria de chegar uma altura em que se deixa tudo, por alguém ou por alguma coisa. Não dá para perceber a lógica de quem se quer estar contra e, num momento de fraqueza acaba por confessar, ainda que com elevado sentido de Estado, a favor. Dando até de barato que o termo “diferente” pode ser entendido para os dois lados, cujos parecem agora convergir para gáudio dos que acham que está tudo bem. “Chinesices”, diz o homem que ora bate com a porta, mesmo que a dita pareça estar trancada pelos cornos do bicho. Vêm então de tão longe os cidadãos que prestaram um serviço inefável a um país comprando, ainda que o preço de saldo, as principais empresas estratégicas, que ora irão florescer com uma bandeira vermelha, a qual ainda, bem desfraldada, causa algum arrepio.  

Vêm eles assim jantar num casino, onde um senhor lhes diz que o País está numa situação “…bastante diferente daquela em que estava há quatro anos”. O PM deste País que é nosso? O PR, prestimoso distraído que ainda se passeia nos jardins de Belém? Nada disso, apenas o putativo “líder da oposição” a ambos. Por isso Barroso, sem qualquer cerimónia, o manda “…para o raio que o parta, mais a canalha de direita que tomou conta do PS”. Se não fosse mesmo verdade, dava para pensar que se poderia estar perante um qualquer mal-entendido, desses em que o designado “arco do poder” é fértil e onde tudo e seu contrário acontecem, consoante vira o vento e muda a sorte. Ouvimos e portanto acreditamos que é possível a coexistência, declarada antes impossível, mas sempre possível neste universo da Cabra, que ora reina, para bendita ou desdita ventura. Todo é possível. E o seu contrário também. Esclarecidos estamos, oh brandos costumes que ditam a moderação de que tanto gostam.

Como nós dizemos em Portugal, os amigos são para as ocasiões…”, sentenciou Costa, aludindo a uma asserção popular. Continuando o seu raciocínio veio depois a proferir a tal chinesice que motiva crónicas como esta. Poderá a espuma dos dias varrer a sentença, para que tudo volta à calmaria de que aquela minoria que ocupa uns míseros metros quadrados entre o Terreiro do Paço e Belém gosta?  Ao proferir palavras de consideração e reconhecimento, Costa poderia estar a pensar “…Só amando os homens, as acções, a banalidade dos trabalhos/Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver...”[2]. A(s) resposta(s) estará(ão) eventualmente na Passagem Das Horas, dos dias, dos meses que ainda faltam para se submeter ao exame final, que em Setembro notará o melhor para “governar”. E se o Álvaro de Campos simpatizava “…com alguns homens pelas suas qualidades de carácter[3] e com outros “…pela sua falta dessas qualidades[4], Costa parece simpatizar com todos ao mesmo tempo, arrumando de vez as contradições antagónicas da retórica conhecida.

Difícil se calcula a resposta a quem o manda ao “…raio que o parta”. Barroso estaria provavelmente a pensar em Orwell, quando afirmava “Num tempo de engano universal, dizer a verdade é um acto revolucionário”. Nem toda a diplomacia do mundo, em que os mestres do centrão são exímios, conseguirá passar uma esponja ao que se passou na Póvoa do Varzim. O Ano da Cabra está aí, quem vier atrás que feche a porta…



[1] Referência ao “cantor” Zé Cabra, popular entre 2006 e 2010
[2] Extraído de “A Passagem Das Horas”, Álvaro de Campos, 1916
[3] Idem, ibidem
[4] Idem, ibidem

30 dezembro 2014


DANÇA 2014!

 

Hinos aos deuses, não.
Os homens é que merecem …
Apenas se os deuses querem
Ser homens, nós os cantemos.
E à soga do mesmo carro,
Com os aguilhões que nos ferem,
Nós também lhes demonstremos
Que são mortais e de barro
.”

“Cântico de Humanidade”, Miguel Torga, in 'Nihil Sibi', 1948





 Há quem tenha medo que o País pense”, uma frase que marca o ano que encerra. Quando os bolseiros do Ensino Superior em Portugal vieram para a rua mostrar a sua indignação perante as politicas aviltantes do Ministério da Educação, face a intenção declarada e assumida de eliminar 50% das unidades de investigação. Se isto não diz tudo sobre a governação do País, aí está, mesmo no final do ano, o anunciado corte de 100 milhões de euros na área social. Um ano (mais um…) de miséria completa, não só literalmente para a maior parte da população, mas também no domínio do simbólico, por representar a falência completa de uma política fundamentalista, dirigida contra os trabalhadores e destinada a transferir destes para o capital, mais rendas, mais proveitos e benefícios. Acordar todos os dias, durante um ano inteiro, com dois tipos de pesadelo, o de ir conhecendo mais cortes e menos direitos, por um lado e, por outro lado, a desdita de ouvir o primeiro-ministro nos órgãos de comunicação social a falar todos os dias, pronunciando-se sobre tudo e mais alguma coisa, no que constitui a mais escandalosa infâmia dos últimos tempos. Os mesmos tempos onde alguém se dá ao luxo de escrever “O poder negocial dos trabalhadores portugueses é demasiado elevado e prejudica os lucros das empresa…”, aconteceu no mês de Dezembro, num estudo de dois economistas do Banco Central Europeu (BCE), intitulado "Concorrência na economia portuguesa: estimativas para as margens de preço-custo em mercados de trabalho imperfeitos". Aqui está uma redundante afirmação que, a acreditar em quem a produz, classifica como “imperfeitos” os mercados de trabalho, muito embora a dita “imperfeição” não lhes seja (mesmo assim) favorável, entendendo-se então que a “perfeição” a atingir signifique no limite, “…a desregulamentação na formação de salários e a contratação colectiva, uma maneira de introduzir mais concorrência entre trabalhadores, em benefício do valor acrescentado das empresas.”, assim mesmo, sem tirar nem pôr.
Apesar de tudo, parece que o País realmente pensa. Não age, mas pensa. E pensa sobretudo no que futuro dos seus filhos e na forma como resolver a questão da crescente diminuição de rendimentos e na progressiva perda de direitos e de soberania. E pensa também, supõe-se, na tremenda injustiça da própria e, assim designada, Justiça. Embora rejubilante, em face da detenção de um ex-PM, tal não dá para que esconda a mais impudorada indecência em que pululam casos extremos e descarados de corrupção e de abuso, aos quais a resposta dada é protelamento, para posterior arquivamento; bem vistas as coisas, o que o País precisava mesmo, nesta altura, era do espectáculo deprimente de um batalhão de jornalistas a porta de uma prisão, enquanto o governo vai promovendo a política de terra queimada, aumentando a dívida externa, vendendo tudo o que mexe a preço de saldo, desacreditando as instituições públicas na Educação, na Saúde e na Segurança Social, promulgando sucessivamente a destruição do País,
Esta “A imagem de um País que mata devagar, por cansaço. Não a imagem de uma ditadura cruel e sanguinária, mas de uma ditadura oculta, em que, quem tem fome tem pudor em falar nisso e, no fim, nem se sabe se sucumbe a falta de alimento, ou ao silêncio a que se auto-impõe”, assustadora imagem de um Autor desconhecido(a) que, aproveita o final de 2014 para expressar publicamente a sua tristeza e revolta por o estado a que isto chegou.
Brindemos qualquer coisa tão simples com a dança. Um Amigo enviou-me a alegoria “Viver é aprender a dançar/com as dificuldades de todos os dias!/Boa Dança para 2015!”. De facto, um gesto higiénico e ao alcance de todos, mesmo daquelas e daqueles que nada têm a esperar da canalha que está aos destinos de um País que merece bem mais e melhor.
Dancemos pois!
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(a) Vasco Gato, “Fera Oculta”, Novembro 2014, Douda Correia Editora
 
 
 
 
 

21 novembro 2014


O ACORDO


De pé, cabeça baixa e orgulho na sua condição, as mulheres e os homens do bloco central haveriam de selar um compromisso. Importa lá que se diga tudo o que de mau nos vier á cabeça, indigno, infame, ilegítimo, irracional, iníquo, incrível, inapropriado, e outros começados ou não no “i” que inicia termos com os quais a gramática nos delicia, em bom português, sem acordo. Olhamos os céus e vemos disto. Parece que todos os dias alguém se quer aproximar, já o homem de Belém os chamaria, nos seus patéticos apelos de consenso. Mal sonharia decerto que nesta pequena ilha se poderiam encontrar e fazer as delícias hipócritas de uma (com)sensualidade inimaginável. Mas aí está, o karma pelos vistos existe e qualquer que seja o desfecho final, este namoro perdido deu o seu primeiro beijo e foi, foi sim, bonito de se ver, todos perfilhados, respondendo a uma chamada previsível, a qual respondem certinhas e certinhos, a espera de mais prebendas uns dos outros, uma das outras. Porque não chega acabar um mandato e aquilatar-se a um cargo numa empresa pública, num escritório de pro-legisladores, num conselho de administração, numa curadoria, numa fundação ou em qualquer posto ou cargo que seja inventado agora mesmo, simplesmente porque tem que ser por alguém preenchido. Não basta. Mas basta sim que, a 1 ano de terminar o seu mandato, o titular esteja a pensar o que vai ser da sua vida, da pobre da família por quem se sacrificou, do País que fez o sacrifício de o aguentar, enfim da condição de servidor de uma pátria que nunca se põe em causa, a não ser que o renegue.
Nada como estar de acordo em qualquer item, restaurando uma aberração política dos anos 80. Afinal os mesmos que a haviam determinado. Para o resto da vida, bastariam uns singelos 8 anos de serviço público, leia-se de deputado, para ter direito a uma subvenção. Uma tremenda agressão a todos quanto sofrem na pele os desmandos permitidos por politicas vergonhosas, no fundo da responsabilidade daquelas e daquelas que ora se arrogam de um direito que pensam universal, quando será no limite uma simples prenda de jogo, muitas vezes, como se sabe, bem sujo. Acordo sem negociação, ao que parece, já que a mesma nem sequer se coloca pelos visto, dada a “clareza” da matéria em questão. Acordo ou acordos que se abjuram quando se fala de temas em que deveriam acordar. Mas acordados estão para este, uma vez que os outros estão na linha do caça-votos, ora governas tu, ora governo eu, com algumas ligeiras diferenças de metodologia ou de cronograma, que no essencial a coisa vai dar ao mesmo, para que tudo fique na mesma é preciso mudar qualquer coisa.

Conjectura-se que hipoteticamente poderá esta medida desencadear uma onda populista, seja o que isso for, uma vez que ainda ninguém conseguiu definir muito bem a coisa. Ser populista é, para os comentadores do regime, tudo o que lhes foge da alçada, tudo a que seu pensamento restrito produz e decreta. É no fundo uma filosofia que o Guerra Junqueiro classificava como a “filosofia do porco: devorar[1]. “Um regímen corrupto só na corrupção subsiste. Mantém-se na corrupção como alguns bacilos na porcaria…Regímen sinistro, a tua sombra esterilizou o nosso campo. Quebrar-te um ramo ou espezinhar-te um fruto, para quê? Deitarás mais ramos, deitarás mais frutos…[2]. Falar assim, nos tempos de lume brando em que nos querem queimar, é provavelmente populismo. Mas contudo é demasiado real, embora raramente objecto de abordagem. Lemos os clássicos e encontramos por vezes respostas que encaixam, por isso é que são clássicos, porque “…constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições de apreciá-los[3].
Clássica é finalmente a atitude dos dois partidos centrões. Uma atitude que entronca no permanente assalto do aparelho de estado e na perpetuação de influências e congruências, que têm um denominador comum na dominação e na burocracia, que usam em seu benefício, com as leis que continuamente fabricam.

Continuando a seguir o Guerra Junqueiro, sobre o regímen que ele acusava, “…o que é preciso, árvore tenebrosa, é arrancar-te pela raiz e fazer contigo uma fogueira. Depois arearemos o campo, semearemos o trigo…”[4].


[1] Extracto de “O Regímen”, Manifesto escrito em 1899, e divulgado e distribuído a 25 de Novembro desse ano, por ocasião das eleições de deputados do dia seguinte. Foi publicado no dia 26 de Novembro, na 1ª página do Jornal  Voz Pública. O Manifesto está transcrito na íntegra, na obra “Horas de Combate”, de Guerra Junqueiro, edição da Lello & Irmãos, 1978
[2] Idem, ibidem
[3] Extracto da obra “Porquê Ler os Clássicos?”, Italo Calvino, edição Teorema, 1994, cap.1
[4] Idem, 1 e 2.

27 outubro 2014


E você, sabe mesmo o que é o stress?
 
 
 
 
 
 
 
 
A gente pensava saber o que o termo diz e supõe. Até ao momento em que nos informaram que os mercados (aqueles) ficavam, de vez em quando nervosos, sempre que havia uma mijadela qualquer de um animal destreinado, ou descontrolado. Fosse lá o animal quem fosse, desde a vulgar besta de carga, até um ministro liberal, aliás agora, neoliberal. Mas havia de haver mais, para nosso desconforto (ou não). Agora parece ser os bancos, não os de jardim, mas os outros que se alimentam do nosso dinheiro, que passam a estar sujeitos a testes de stress.  Uma breve, mas profícua, pesquisa encontramos, no Dicionário da Porto Editora, o significado do termo: “conjunto de perturbações psíquicas e fisiológicas, provocadas por agentes diversos, que prejudicam ou impedem a realização normal do trabalho; tensão, pressão”. E ficamos felizes, porque (concluímos) que os ditos (bancos) se estão humanizando (assim, á brasileira, fica melhor), através da aquisição de competências dignas do humano, tais com as psíquicas e fisiológicas. Uma forma de estar que os aproxima de nós. Nem que tal tenha a ver com a circunstância, nada despicienda, de tal aproximação ter como consequência a melhor “extracção” de capital, motivada pelos tempos que correm, em que como se sabe, fica bem “desviar” capitais de um lado para o outro, de modo a permitir que os tais 1% vivam de facto com a abundância digna de senhores, que o são, pelo simples facto de o terem que ser. Até aqui, nada de especial, nada de novo. De estranhar era ser o contrário, hipótese nada usual e que a ser verdadeira significaria uma inversão completa de valores, o que não se ajusta de todo aos tempos que correm. Concluímos ainda que quando os bancos entram em stress, não devem ser atormentados com outras preocupações, porque podem simplesmente dar-lhes assim uma coisinha má e colapsarem. E, ao colapsar, podem arrastar atrás de si (ou à frente de si?) toda uma série de coisinhas más. Para nós, claro. Porque, e aqui reside a diferença fundamental ao humano ser, quando colapasam, nós é que temos o remédio santo para resolver a coisa: mais dinheiro. Chegada a coisa a estes termos, pergunta-se: vale a pena colapsar? Resposta mais que evidente, também ao contrário do humano ser que pode mesmo ir desta para melhor (ou pior, conforme a crença): sim, vale a pena. Conhecidos e detectados já alguns exemplos, no nosso País, confirmam a sentença. Um há até que passou a ser “bom” e “novo”, depois de lhe ter dado a tal coisinha má, que poderá até ser boa, conforme a crença, cuja neste caso vertente, tem a ver com a chamada supervisão, que é uma coisa complicada e que não vou abordar nesta redacção, por falta de linhas.
Qualquer visão, porventura catastrofista, que pretenda associar este fenómeno a um novo ataque à população mais desfavorecida, será então pura maledicência. Até porque, distintas figuras públicas se apressam a dizer que podemos todo ficar tranquilos. E quando essa (e outras) figuras falam, devemos ouvi-las, porque estão sempre a defender os superiores interesses da nação, acima de interesses partidários. Mesmo que essas figuras, que alguns dizem ser tristes, pertençam aos tais partidos, podendo parecer estranho que, se pertencem aos ditos, não defendam os interesses daqueles. Mas, tal como o outro assunto, é por demais complicado me propor abordá-lo. Bem vistas as coisas, eles cuidam bem de nós, para que havemos de querer perceber tudo e mais alguma coisa, em vez de trabalhar para pagar impostos, a bem da nação? E sabemos finalmente que se trabalharmos bem e denunciarmos aqueles que o não querem fazer, e que estão sempre no contra, podemos ter acesso a uma prendinha, mesmo não sabendo quando nem como.

Explicado assim, porque as coisas devem ser claras, podemos antever um risonho futuro para todos nós, caso cuidemos bem, tratando bem, depositando bem, transmitindo assim ao “nosso” banco a calma necessária para o stress não se manifeste. Porque, repito, caso ele se manifeste mesmo, quem paga somos mesmo nós. E, atenção, caso saibamos de algum que esteja a ser submetido a um teste (de stress), rezemos por ele a nossa senhora, para que nada de mal lhe aconteça e que regresse, são e salvo, ao nosso terno convívio, para bem de todos nós.

Se entretanto não ficaram convencidos com a minha redacção, descansem que eu também não…

22 setembro 2014


 
 
 
 
 
 
 
 
Às vezes é bom rever a história do nosso País.
No final do século XXI e inicio do século XX, podemos encontrar belos exemplos de patriotas e democratas que, sem papas na língua, brandiam na decrépita monarquia e depois, nos traidores da Pátria, no alvorecer da I República. Não existia o politicamente correcto, não havia o famigerado “centrão”, despontava o ideal socialista na sua pureza, os revolucionários não tinham medo de o ser, a política ganhava estatuto, os cidadãos começavam a compreender a cidadania.

Guerra Junqueiro (1850-1923), poeta revolucionário, autor também de bela e inspirada prosa, foi uma dessas figuras, tendo contribuído com a sua acção cívica e politica para o derrube da monarquia. O texto que se segue é uma colagem de palavras integralmente suas, vai devidamente citado e datado, dá ganas de o tomar por actual, e como tal faço, com a devida vénia, a minha:

 PROCLAMAÇÃO 

Caros Concidadãos,

O que há de mais baixo no homem, a imbecilidade, a vaidade, a inveja, a hipocrisia, a cobiça –gula de porco,, veneno de réptil, cinismo de macaco, rancor de fera – eis o governo da nação, eis a norma da Pátria. Quem nos governa, quem nos tem governado? Ladrões! Mas, nem só ladrões, também idiotas vulgares, ambiciosos medíocres, a farsa além da infâmia, a estupidez além do crime.
Mas, uma ordem social, que eleva criminosos a martiriza justos, é a negação das leis humanas, e cumpre-nos arrasá-la de alto a baixo, a ferro e fogo, até aos alicerces[1]. “A sociedade portuguesa está organizada para o mal. Não é já o mal esporádico e fortuito, em casos isolados que rapidamente se combatem. Não, é o mal colectivo, o mal em norma de vida, o mal em sistema de governo. Porque o mal são eles e querem conservar-se. Um regímen corrupto só na corrupção subsiste. Mantém-se na corrupção, como alguns bacilos na porcaria. A filosofia de vida de um tal regímen é a filosofia do porco: devorar. O regímen, pelos homens que o exercem, denota um fim: viver estupidamente, clinicamente, a vida bruta da matéria. Os deputados são, ordinariamente, os lacaios do regímen. Dão-lhes decretos a aprovar, como dão botas a engraxar. Regímen sinistro! A tua sombra esterilizou o nosso campo; os teus frutos gelaram o nosso coração. Quebrar-te um ramo ou espezinhar-te um fruto, para quê? Deitarás mais ramos, deitarás mais frutos, o que é necessário, árvore tenebrosa, é arrancar-te pela raiz, e fazer contigo uma fogueira.” [2].

Há tiranias dominadoras e fulgurantes, de olhos de águia, e tiranias lívidas, oblíquas, de olhar de hiena. Ambas trágicas.” [3]
A tirania de engorda e de vista baixa, uma fase indecorosa? Jamais! As palavras são indecorosas, quando há mentira nas palavras. A nossa língua é indecorosa, quando segrega embustes e veneno. E se é temível o veneno da serpente, porque mata um homem, que veneno infernal o de um homem, quando perturba ou mata milhões de almas.” [4]

Viva a República! Viva Portugal!
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Fonte: Junqueiro, A.G., “Horas de Combate”, Lello & Irmãos Editores, Porto 1978


[1] Extracto de Discurso pronunciado num Comício do Partido Republicano, a 27 de Julho 1897, onde estavam presentes personalidades como Manuel de Arriaga, Teófilo Braga e Afonso de Lemos, in:
[2] Extracto do Manifesto “O Regímen”, publicado no Jornal Voz Pública, a 25 de Novembro 1899
[3] Extracto do Discurso pronunciado a 2 de Dezembro 1906, no Porto, na Rua da Alegria e que foi publicado no Jornal Voz Pública, em cabeçalho desse dia.
[4] Extracto da defesa em Tribunal, a 10 de Abril 1907, de Guerra Junqueiro, acusado pelo Ministério Público de ofensas a el-rei D. Carlos, feitas na Câmara dos Deputados, em Abril do ano anterior.

21 setembro 2014

NUNO PAULA DO CRATO TEIXEIRA DA CRUZ







 
 
 
 
 
Unidos numa simbiose pífia, eivada de lugares comuns de gosto duvidoso, Paula e Nuno de seus nomes, interpretam a inesquecível peça de pedir perdão. Bons costumes, lição estudada para consumo eleitoral, acto de contrição de contornos inexauríveis. Há coisas piores, como por exemplo, a dissonância. Ele fala da incongruência da fórmula, ela confessa-se surpreendida pelo afundamento do sistema. Ambos protagonizam um interessante “estado de citius”, em que o denominador comum é a monstruosidade passa-culpas, com uma demissão de um ou outro técnico, na boa pinta nacional, de uma forma de fazer política e lidar com adversidades tidas como naturais. Peço desculpa, fico de bem com a minha pobre consciência e tudo continua mais ou menos na mesma, a justiça como uma vontade do regime, que parvo que eu sou…

Mas vendo bem as coisas, um e outro são titulares nesta famigerada “selecção nacional”, onde o treinador vale ainda menos (se possível) que o Paulo Bento e que não se demite, nem é demitido, monstruosa figura, que nem de estilo, porque nenhum tem que não seja o de uma mediocridade extensiva a todo o plantel. E, por falar em congruência, manda a Matemática que, sendo a e b números inteiros, “a” é congruente com “b” para o módulo “k” (diferente de zero), se a diferença entre a e b, for divisível por k. Como a diferença entre o Nuno e a Paula é zero, qualquer que seja a capa (k), existe congruência absoluta, a que se pode chamar, sem qualquer rebuço, mediocridade.

A circunstância, decerto falaciosa, de um banal pedido de desculpas, não encaixa neste bando de deploráveis criaturas. Podem continuar a falar, até ao fim, seja ele qual for. Já ninguém, nem sequer os seus apaniguados, os leva a sério. Nem merecem a mínima credibilidade, pena é que não paguem ao País, o preço da sua incompetência.

29 agosto 2014

Um Alien revivalista, aqui…
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aterrado no cruzamento, o personagem ressuscitava Azimov [1], transportando-o debaixo do braço, sob a forma de livro, unido a ele pelas leis da física que conhecemos. O mentor haveria de supor, há 50 anos, um ano de 2014 com casas debaixo de terra e cidades no mar. E, curiosamente, a acentuação das desigualdades entre ricos e pobres. Nos 4 caminhos, o personagem rodava quando o automóvel se aproximava, escondendo dos terrestres a sua verdadeira face. Um fenómeno que Azimov bem poderia ter imaginado, quando dedicou a sua vida a nobre causa da bioquímica, temperada com a ficção científica, circunstância que o levaria até a ser considerado um mestre, equiparado a Artur C. Clark [2]. Bem vistas as coisas, a maldade de esconder a face acaba por ser uma constante dos tempos que correm, em que um rosto invisível e de contornos mal definidos domina as vidas daqueles que ainda sonham com a luz. Ingrata, a passagem das horas, remete-nos para uma realidade sinistra, que renegamos inconscientemente. O personagem, em vez de nos convidar a entrar na sua nave, roda 180 graus sobre si próprio, apenas permitindo ver o autor do livro que transporta. Que, por sua vez, nos remete para um afastamento da natureza, quiçá um Império Galáctico [3], sob a égide de uma qualquer Goldman Sachs. Assim, o dia em que personagem passou por aqui, ficará marcado pela certeza e pela incerteza. Quanto a primeira, dificilmente se poderia imaginar o fim de tarde atribulado que provocou. No que concerne a segunda, daremos como adquirida a dúvida legítima “estivemos realmente lá?”. “Sentir tudo de todas as maneiras / Viver tudo de todos os lados / Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo…[4], sentenciou o Poeta, na sua fase decadentista. Comungamos com ele porventura, ao deparar com o personagem? Ou, por outro lado, “matamos” o personagem, simplesmente por incomoda a nossa débil existência? De qualquer forma, pelas dezassete horas e trinta minutos do tempo que conhecemos, no cruzamento assinalado no mapa, haveria de ocorrer um fenómeno. Fica o registo de um protagonista ansioso, mesmo sem saber muito bem de quê…
 


[1] Azimov, Isaak Yudavich (1920/1992), escritor e bioquímico americano, nascido na Rússia, autor de obras de ficção científica e divulgação científica.
[2] Clarke, Arthur Charles (1917/2008), escritor e inventor britânico, autor de obras de divulgação científica e de ficção científica
[3] Referência a uma série de contos de ficção científica, com esse nome, do autor Azimov
[4] Excerto de “A Passagem das Horas”, Álvaro de Campos, 1916

10 agosto 2014


O vento não mudou…
 
 
 
 
 
 
 
 
Na canção ele mudava e ela não voltava. Estávamos em 1967 e havia um Festival com grande impacto social, já que tudo o resto era vedado na “democracia orgânica” da época.
A SillySeason, uma coisa instituída na “democracia liberal” imposta pelo poder do capital do século XXI, brinda anualmente a praça dos que se entretêm a exercer o poder sobre a populaça, servindo o País acima dos seus interesses. Aparece sem se dar conta neste mês de Agosto, do qual se diz que nada se passa. Trás sempre uma “bomba” que rebenta e cujos danos colaterais vão invariavelmente na mesma direcção. Mais um banco no lamaçal e desta vez o cujo dito em que o seu patrão natural era o dono disto tudo, na vox populis abalizada de todos os seus pares.

Interessa entretanto saber se afinal, neste Agosto esquisito com chuva e sol á mistura, se o vento mudou ou não. Que sim, mas que talvez, o próximo mais do “nim”, aliás uma instituição interessante da “democracia liberal”. Zola dizia a certo passo a Flaubert, a propósito do Naturalismo, “…considero o termo tão ridículo como você, mas irei continuar a repeti-lo vezes sem conta, porque têm de ser dados novos nomes às coisas, para que o público pense que são novas”. Mesmo que o vento não mude, mudaremos o nome das coisas, para que tudo fique na mesma. E é esta a tese substantiva da direita estúpida e cega que tiraniza a populaça.
A casa onde o pai matou a família toda e tentou alastrar a matança a longínquas paragens, vai agora ser dividida em duas, por ordem de um governo que lhe prestou ao tempo a mesma vassalagem que outros lhe foram prestando. Será então uma “casa boa” e uma “casa má”, um exercício de maniqueísmo que não orgulharia decerto o seu mentor, de tão rasteiro e pusilânime. Supõe-se, na simplicidade de quem tem apenas 2 ou 3 neurónios a funcionar, como a canalhada que ocupa as cadeiras do poder, que na casa boa ficam as coisas boas e na casa má, o resto que é mau. O curioso é que as pessoas até acreditam, com a beneplácita ajuda de comentadores, jornalistas vendidos e outros acólitos, que subscrevem as teses oficiais, com um descaramento que enoja. Para completar o quadro, nada como a putrefacta figura do regulador, que faz tudo menos regular, e que lembra o professor que descobre no final do ano que afinal a turma é um bando de assaltantes e filhos da dita, capazes de semear a confusão na escola toda.

Do lado de cá, a mesma sina, a mesma sorte. A de pagar os estragos do assaltante, para que a casa seja de novo “boa” e sirva para recolher os parcos proveitos dos que pagam, até ao dia em que volte tudo ao mesmo, porque ao velho ladrão há-de suceder um outro, dado que a fonte de recrutamento dos representantes dos patrões é sempre a mesma e gere os recursos que tem à mão, no ensino da ganância e da pilhagem. A solução é a única possível, como todas as soluções deste grupo de ladrões e corruptos. Nunca existe alternativa possível, porque nem sequer é ouvida qualquer voz que se permita discordar. É mesmo que seja ouvida é o mesmo que nada.
O vento afinal não mudou, nem ELA (Je voudrais sans la nommer vous parler d'elle) voltou. Pena…