rio torto

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21 junho 2015

UM TERMO GREGO PARA VARIAR


Lavar as mãos em face da opressão
é reforçar o poder do opressor, é optar por ele
Paulo Feire

Alexitimia é um termo grego, que diz da dificuldade em expressar, nomeadamente sentimentos ou emoções. Introduzido por Peter Sifneos[1] nos anos 60, fala de uma perturbação que afecta o processamento emocional, da qual resulta a incapacidade de exprimir as emoções, sob a forma de sentimentos. Resume provavelmente um comportamento ou um padrão de comportamentos, ao qual poderíamos, estendendo o conceito, juntar determinadas componentes sociais, uma vez que todo indivíduo se move num cenário desse tipo, mesmo que involuntariamente. Encontraríamos decerto alguém que receia qualquer coisa, porque teme não se saber exprimir, porque outros já disseram o que ela/ele tinham para dizer. Ou porque simplesmente tem medo, de perder o emprego, de fazer greve, porque teme o patrão…
Estaremos a produzir pessoas, potencialmente pacientes, que mostram dificuldades em falar sobre as suas emoções e sentimentos, porque terão atingido um ponto máximo da sua capacidade de compreender, pelo menos aquelas emoções? E que daí pode resultar um atrofiamento humano e social, numa vasta camada da população que perdeu a sua capacidade de atingir a felicidade ou sequer de a procurar. Seres amorfos, como convém ao regime do pensamento único? Zombies sociais que vagueiam pelas cidades, servindo apenas para produzir, ou para “render” até não serem capazes de fazer mais nada. Mas, o mais tarde possível, porque dar-lhe uma reforma aos 65 anos é cedo demais, o estado dirá sempre que não tem dinheiro para lhe pagar. O pagamento é, fórmula perversa, exactamente ao contrário, uma vez que é a pessoa que paga o “exagero” de viver mais tempo, circunstância prescrita pelo sistema, na definição da esperança média de vida, que “determina” tal capacidade.
A percepção que a Direita tenta impingir de que o País está melhor é porventura a falácia mais iníqua que enfrentamos. Como podemos aceitar tal dislate, quando dia a dia verificamos uma coisa tão simples quanto isto: ganhamos menos que há 4 anos, sem um aumento mínimo que fosse correspondente a inflação. Sistematicamente, no início de cada ano, aumentam os preços dos transportes, da energia, das telecomunicações, da água, dos bens essenciais, tudo sujeito as regras de um mercado que se quer rei e senhor, para regular a actividade económica e financeira. Entretanto, apesar de todos os sacrifícios, a dívida aumenta e aumentará sempre, com esta politica de devastação, até se chegar ao “ponto de equilíbrio” imposto pela ditadura do pensamento único que significa na prática um estado mínimo, com tudo a sua volta nas mãos dos privados que irão gerir a coisa pública a seu belo prazer, deixando esta de ser pública, porque quase tudo será privado e submetido a uma estratégia de obtenção de lucro máximo, pelo serviço mínimo.
Parece entretanto que esta lógica resulta, a avaliar por sondagens que são ardilosamente fabricadas. Passa a mensagem que valeu a pena fazer sacrifícios, que a austeridade embora “desagradável”, foi necessária para acertar as contas, para baixar o défice, para ”pagar o que devíamos”, porque “andávamos a viver acima das possibilidades” e porque é preciso “honrar os compromissos”. Seria interessante que aqueles que aparentemente assimilaram este discurso soubessem, por exemplo, que em 2010, uma grande maioria da população portuguesa (63%) nada devia aos bancos ou a qualquer instituição financeira[2]. Ou que, quem de facto deve é quem mais rendimentos tem, ou seja, que a dívida média das classes de rendimentos mais altos é cerca do dobro da classe de rendimentos mais baixos e que dívida média da riqueza mais alta é cerca de 6 vezes maior do que a classe de riqueza mais baixa. E ainda que no grupo dos 10% das famílias com maiores rendimentos, quase 58% das famílias eram devedoras, no grupo dos 20% das famílias com menores rendimentos, somente 18% das famílias eram devedoras[3].
Não admira pois que a busca de felicidade, consubstanciada numa pretensa melhoria de qualidade de vida, seja um paradoxo permanente. Uma legítima pretensão, perfeitamente inatingível, para 90% de uma população devastada pelos efeitos destas políticas de miséria. Como pode a grande maioria das pessoas sujeitas a medidas ditatoriais (o termo é este, tão simples quanto isso…) aceitar tal circunstância e ainda por cima dar o seu voto aqueles que os colocaram nesta situação? Só mesmo em estado de bloqueio permanente, uma qualquer alexitimia, que comprime a pessoa e a impede de manifestar, de forma sadia e salutar, o seu ponto de vista, as sua verdadeiras emoções e sentimentos.
Na mesma lógica, os que atacam a Grécia esquecem-se sempre que, quando o fazem, estão a transferir esses ataques para os anteriores governos, chefiados pelos partidários das políticas alinhadas com eles. Mas o que verdadeiramente lhes interessa neste momento é atacar. Para mobilizar trunfos e baterias sobre um governo legítimo, que defende o seu Povo e que faz resistência ao pensamento único e à miserável exploração do capital internacional, prestando também um excelente serviço à política europeia na defesa dos direitos humanos e universais. Quando se diz,”“Não queremos a Grécia fora do euro” significa, por esta ordem, “queremos derrubar o governo do Syriza”, “queremos o Syriza humilhado a morder o pó das suas promessas eleitorais”, “queremos os gregos a sofrerem mais porque votaram errado e têm que ter consequências”[4].
Não será porventura despiciendo nos tempos que correm, aparecer um termo de origem grega, com esta dimensão. A alexitimia pode configurar simplesmente um dos resultados da … opressão.




[1] Psiquiatra e pesquisador grego (1920-2008)
[2] Dados do Relatório Preliminar do Grupo Técnico, da Iniciativa Auditoria Cidadã à Dívida, sob o título “Conhecer a Dívida para Sair da Armadilha”, Lisboa Dezembro 2012
[3] Idem, ibidem
[4] Transcrição da crónica de José Pacheco Pereira, Jornal Público, 20 de Junho 2015

19 junho 2015

A VERDADEIRA CHANTAGEM…

Tristes aqueles que julgam ter o poder na mão,
tão cedo quanto menos esperam, ele lhe irá fugir…”,
Do Livro dos Conselhos

Não que tenham algum valor significativo. Nada aliás de estranhar do comportamento daquele que, na prática e para desgraça de todos nós, é o mais alto dignitário do Estado Português. Aquilo que ele diz, aquilo que sempre disse, desde que este governo miserável entrou em funções, acaba por ser um reforço ou a mais descarada colagem às politicas que têm continuamente desgraçado o País e colocando-o na mira dos mais inconfessados interesses privados e na perca contínua de soberania. Pior era decerto impossível. Mas o homem conseguiu ontem o impensável: insultar um País, os seus legítimos representantes, acusando-os de “chantagem sobre a Europa”!. Como se fosse possível configurar tal cenário, um povo que luta desesperadamente por ultrapassar uma situação de pilhagem contínua, da Europa, do FMI, permitida aliás por sucessivos governos colaboracionistas com uma situação intolerável, que chegou ao ponto, do armamento forçado em 2010[1].
É absolutamente inaceitável que a grande maioria da comunicação social, falada ou escrita, continue “colada” ao pensamento único, passando no dia-a-dia sucessivas informações, que só podem ter como intenção criar um clima de desconfiança generalizada naqueles que governam a Grécia. A forma como são transmitidas essas notícias, a avalanche contínua de declarações dos “responsáveis adultos” das, agora designadas, instituições, têm um efeito devastador na formação de uma opinião pública. Ao mesmo tempo que são repetidas até a exaustão frases como “a bola está agora do lado da Grécia”, “a Grécia não apresentou alternativas as medidas propostas”, “a Grécia não aceita propostas dos credores”, “o FMI e as instituições apresentam novas propostas tendentes a conseguir um acordo”. E, como contraponto, a única (com as variantes mais diversas) sentença para o outro lado, “a Grécia não aceita passar as linhas vermelhas que definiu, nem cortes nas pensões, nem nos salários, nem na desregularão laboral”. Quando se argumenta que um país tem que defender, acima de todo o resto, o seu povo e respeitar a vontade expressa em eleições, a resposta é sistematicamente a mesma, consubstanciada na tese “sim, mas acima de tudo estão os compromissos assumidos, é muito bonito defender medidas com o dinheiro emprestado”. E de novo a mesma narrativa do lado dos credores, da Direita europeia, dos colaboracionistas é repetida por comentadores acéfalos, vendidos ou simplesmente subjugados, mas também (pasme-se!) por pivots de telejornais, que repetem a famigerada tese “…mas não há dinheiro!”.
Acima de tudo é uma questão política. O que os defensores e praticantes do pensamento único não admitem, não podem e não admitem mesmo, é que exista uma voz diferente, falando contra a ideia dominante. Tivera a Grécia, neste momento, um governo colaboracionista, e ver-se-ia exactamente a posição contrária, todos e em força para salvar o País.
Acontece porém que são sistematicamente ignoradas, todas as propostas feitas pelo governo grego às instituições, precisamente porque o que interessa é descredibilizar as pessoas e as entidades gregas. Ora esta é uma outra vertente da desinformação sistemática e que tem a ver com algo que é sempre sensível para a opinião pública, a ideia dos extremismos. O governo grego, pela voz do Sirysa é extremista, tem posições extremistas, prometendo ao povo o impossível, um “conto de fadas”, na opinião de um conhecido “estadista europeu”. Quando se lê, quando se estuda e analisa o conteúdo das propostas gregas, chega-se a conclusão que são propostas sensatas, que qualquer pessoa de bom senso e de boa fé, defenderia perante uma situação de crise, de tragédia humanitária e de pobreza galopante. Atente-se por exemplo nestas 4 propostas apresentadas em Março deste ano, pelo primeiro-ministro grego e que têm como objectivo “…garantir ganhos de receita para o Estado e uma maior eficiência no controlo da despesa pública e combater situações de maior pobreza que se registam actualmente na sociedade grega”:
     . criação de um conselho de finanças públicas;
  • novas regras orçamentais, para mudar a lei orgânica do orçamento que inclui a introdução de tectos de despesa sectoriais e a introdução de mecanismos correctivos para os organismos que não cumprirem as regras;
  • legalização do jogo online, para conseguir mais receitas fiscais e obter receitas imediatas com a obtenção de licenças;
  • desburocratização do Estado, com aprovação de  legislação que proíbe os serviços do Estado de exigir aos cidadãos e às empresas documentos e certificados emitidos pelo próprio Estado.
Uma asserção tem um valor muito especial, agora como sempre na terminologia, essa sim extremista e cega do pensamento único, é “…a Grécia ter de continuar com as reformas”. Sabemos bem, quanto mais não fosse pelo exemplo dos fiéis depositários de tal pensamento em Portugal, o que isso significa: austeridade mais austeridade, cortes nos salários e nas pensões e nos serviços sociais do Estado, privatizações, desvalorização progressiva da contratação colectiva, perca galopante do valor do trabalho. Tudo receitas para empobrecer a grande maioria da população e enriquecer progressivamente uma minoria de privilegiados, dos quais no nosso País, uma maioria imensa vive “pendurada” no próprio Estado, alimentando-se dele enquanto pode.
Todos os dias as notícias nos anunciam sempre e mais desgraças. Ou é mais uma privatização vergonhosa e descaradamente ilegal (pelas próprias normas que a orientam, caso da TAP…), ou mais um aumento dos bens essenciais, um aumento (sempre) dos combustíveis num mercado perfeitamente selvagem e onde está sempre tudo bem para o Regulador, uma progressiva diminuição do poder de compra, sucessivos atentados a uma justiça digna, mais um, sempre mais um escândalo de favorecimento e de corrupção que depois dá em nada. Não há um prenúncio de as coisas melhorarem, a não ser na cabeça das figuras menores e, muitas vezes ridículas e patéticas dos governantes, e que vivem num “limbo” especial, sempre com a mais intolerável arrogância e diletantismo. Temos apenas uma luz que vem do berço da Democracia, um País que se tenta levantar contra a injustiça e a iniquidade, a tentar provar que não pode ser sempre assim, que os povos têm mesmo que se levantar pela sua soberania, pela defesa das pessoas e dos seus direitos, contra as desigualdades, contra as injustiças sociais, pela erradicação da pobreza. Contra todos aqueles que ditam o pensamento único. Contra os colaboracionistas também, aliás muito cuidado com eles, porque utilizam uma linguagem ambígua e propositadamente confusa e que na prática apenas serve para distrair…
Existe hoje uma verdadeira chantagem, que é a única que não existe na Grécia: é a deste governo, desta “coligação”, deste simulacro de Presidente, sobre as pessoas, com o pretexto “nós ou o caos, o desperdício, o retorno, agora que fizemos os sacrifícios e está tudo bem…”. Essa é uma chantagem a que urge responder e essa resposta, embora parecendo mais que óbvia, não encontra ainda reflexo nas projecções de voto.


[1] No meio de uma crise económica, o Governo grego gasta milhares de milhões em armamento”, declara o diário polaco Dziennik Gazeta Prawna, indignado. Em Março, o Governo de George Papandreou assinou um negócio para a compra de dois submarinos à Alemanha, num total de 1,3 mil milhões de euros; e, em Maio, comprometeu-se a comprar navios de guerra e helicópteros à França, no valor de 2,5 mil milhões de euros. De acordo com peritos, concordar com ambas as transacções era uma das condições informais para que a UE e o FMI concedessem à Grécia o pacote de apoios de 110 mil milhões de euros.

11 junho 2015

Contributos Para O Desassossego (2)

A TRISTE APARÊNCIA DA DESGRAÇA

A única coisa que importa é o triunfo do agora.
É a isto que eu chamo a «cegueira da razão»”.
“Outros Cadernos, El Cronista”, José Saramago, 1998


A pobreza confrangedora do discurso combina na perfeição com o personagem triste e vergado ao peso da péssima imagem que tem no País. Sem a mínima possibilidade de elaborar umas palavras que façam a diferença, sempre colado e conivente com a desastrosa política do governo, o homem lá vai repetindo um discurso cansativo, de recorte sistematicamente semelhante, não poupando os que ainda são capazes de o ouvir durante mais de 2 minutos. Para quem fala ele afinal? Para fora, para dentro, para os privilegiados (como ele) dos negócios do BPP, para meia dúzia de reformados de luxo (como ele), para os detentores de refúgios no Algarve, para os banqueiros, para os homens de recorte duvidoso que sempre o acompanharam, para uma minoria social que cada vez mais cresce em dividendos e prebendas? Entretanto que palavras tem para os que sofrem na pele os desmandos da sua clique, para os desempregados que penam dia a dia sem qualquer esperança de encontrar trabalho digno, para os jovens que são o futuro do País e que não vislumbram futuro nenhum, para os seniores que vêem cortadas as sua pensões e têm que sustentar filhos e netos, para uma enorme massa humana que vive no limiar da pobreza? Nada, um completo vazio, tal como a sua personagem entediante. Arautos da desgraça? Que dizer disto, quando o futuro parece ser penalizar sempre e cada vez mais as gerações que vivem do trabalho, cada vez mais precário e indigno? Desgraça é ter um personagem destes num lugar que deveria ser de respeito. Desgraça é ouvir a lengalenga do costume, sempre pautada pelo elogio da injustiça social e da conformidade perante o ataque aos direitos das pessoas. Alguém disse, suprema ironia, que se iria condecorar a si próprio, pois ninguém no futuro será capaz de o fazer. Tendo falhado em toda a linha, vem agora “despedir-se” com mais do mesmo e sem o mínimo sinal de generosidade. Nem para os que nele alguma vez terão confiado o voto. Superior a tudo isso, pairando numa nuvem seca que não é capaz de dar um único pingo, o homem não é capaz de acabar o mandato com dignidade, porque é muito capaz de não conhecer o termo, ou dele ter a imagem distorcida que caracteriza o seu semblante tenso e carregado, capaz apenas de produzir um sentimento: tédio.


Sem ser capaz de dizer em português correcto “cidadãos”, preferindo os “cidadões” que qualquer corrector emenda de imediato. O homem que sempre teve razão triunfa no agora, porque o agora é efémero. Como é porventura limitado na capacidade de análise, contenta-se apenas com isso.

29 maio 2015

Contributos Para O Desassossego (1)

De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida
Bertolt Brecht 



Para ler um deles (contributos), talvez não seja necessário ler o anterior. Ou então, sim.
Na aventura que ora inicio de me candidatar a Deputado da República, entendo dever esclarecer-me, primeira e sábia ideia que me passaram. Mas também contribuir para que seja entendível o meu pensamento sobre matérias consideradas de interesse. Ou apenas, as que eu entender que mereçam alguma reflexão. E, por algum motivo, escolho o pensamento do Brecht.
Descubro algumas afinidades com tanta gente boa que, militando em partidos políticos, ou simplesmente actuando politicamente na sua zona de influência, suportam dúvidas e incertezas que por vezes acumulam em desassossegos mais ou menos permanentes. Estou com elas e eles, não faço mais que isso, apenas de quando em vez me atrevo a transportar para o papel reflexões, que entendo de alguma utilidade prática. Ou não, se quiserem.
Assim constato existir em alguns sectores do Partido Socialista (PS) a tese de um pretenso aventureirismo de certas esquerdas, reactivando uma ideia antiga sobre o facto de esses partidos ou movimentos à esquerda do PS, poderem ser inclusivamente “aliados” da Direita, quando o PS está no governo. Ou simplesmente, para sacar um putativo “voto útil” para evitar o regresso ou a manutenção da Direita no Poder. No contexto actual, a questão da Grécia e tudo o que com tem a ver com o País, é paradigmático. Foi bom, mas depois estragaram tudo, o seu aventureirismo (lá está o busílis…) é evidente e, mais tarde ou mais cedo, vão ceder. É curioso que, nesta asserção, a Direita diz exactamente o mesmo, ainda que por outras palavras. O PS tem essa interpretação, em parte porque acredita que é alternativa. Uma situação que se pode aceitar filosoficamente, mas que a realidade se encarrega de refutar. E, o que acontece, é que o PS continua com imensa dificuldade em passar a mensagem, pelo menos para o exterior, a provar tal, é mesmo que não “descola” nas sondagens. E porque acreditam serem alternativa? Bom, porque sempre assim foi, porque se não é a Direita, são eles, e vice-versa, até ao infinito. Para tal, contribui a indesmentível circunstância de juntos dominarem todo o aparelho de Estado, as Empresas públicas, os Bancos e as suas administrações, a Justiça, as famigeradas entidades reguladoras (que regula coisa nenhuma…), enfim tudo o que mexe.
O PS apresenta de facto propostas muito mais próximas da Direita do que julga (…). Os seus responsáveis não rejeitam o Tratado Orçamental, aliás até evitam falar disso e, quando o fazem, escudam-se na premissa, melhor dizendo na falácia, “…estamos na Europa, não podemos sair”. Não fala (não pode ou não quer?) na auditoria da dívida, como uma atitude de cidadania, para que não se confunda nunca, no contexto de uma sociedade de mercado contemporânea, a questão da dívida com o acto de “honrar um compromisso”. E porque, esse “pequeno” passo teria um enorme significado político, quando muito ao nível do que é (ou deveria ser) a participação cidadã qualificada e condições de exercício do direito à informação de todos os cidadãos e cidadãs.
O PS tem um estranho discurso sobre a austeridade. Não basta dizer que é contra, é preciso ser mesmo contra. E ser contra, significa tomar medidas para tal e não somente um acto proclamatório, Um caminho diferente da austeridade…”, como se pode ler no Programa Eleitoral. Pode ou não ler-se aqui uma outra ideia, que tem a ver com menos um pouco de austeridade, o castigo iníquo aplicado aos povos pelos desmandos do capital financeiro. Menos um pouco, parece ser afinal o desígnio…
E sobre a TSU? Muita tinta vem correndo sobre esta matéria, mais uma em que o PS navega em águas turvas,  “À medida que se concretizem e consolidem as fontes de financiamento alternativas admite-se uma redução da taxa contributiva para a Segurança Social a cargo das empresas”. Pode perguntar-se afinal, se promover a sustentabilidade da Segurança Social é diminuir as receitas. Mas tal tem a ver, uma vez mais, com a cedência no plano laboral aos patrões. E assim, o PS não é capaz de dizer claramente que tal passa por um aumento significativo do salário mínimo nacional e pela “promoção do emprego através da dinamização das actividades de investigação associadas à produção[1]. E já agora (porque não?) pela afectação à Segurança Social de uma taxa sobre as transacções na Bolsa de Valores.
Mas há mais a dizer sobre o PS. Os seus apoiantes estão convencidos que existe uma dinâmica de discussão alargada subjacente a apresentação da proposta do grupo de economistas e ao documento de programa eleitoral. Mais um engano, entre tantos. Vejamos as questões que o PS propõe e pede resposta num documento que se chama “Programa Participativo de Governo” [2]: (1)O que deve ser feito para incentivar o regresso de emigrantes a Portugal?” (2)O PS defende que sejam disponibilizados serviços públicos junto de cidadãos seniores (mais de 65 anos) no local onde estes os solicitarem, evitando a sua deslocação. Qual a área onde é mais urgente iniciar este serviço?”; (3) “No sentido de promover o acesso de todos os cidadãos aos bens e serviços culturais, bem como para fomentar o desenvolvimento académico e criativo dos mais jovens, em qual das opções, na sua opinião, os esforços se devem concentrar?”; (4) “Para fazer face a contactos de marketing indesejados, o que será melhor?”; (5) “Em que área governativa do Estado deve ser realizado um primeiro orçamento participativo, à semelhança do que acontece já em alguns municípios?”; (6) “O PS defende que o próximo Governo deve voltar a apostar no SIMPLEX e nas políticas de simplificação administrativa que o Governo de direita desprezou. Qual a área/setor onde deve ser dada a máxima prioridade?”; (7) “O PS defende a redução nos preços de alguns registos. Uma vez que é possível a redução de preços nos registos das pessoas e das empresas e até um dado valor limite, o que é preferível?”. Por mais importantes que sejam (e serão decerto) estas questões, parecem no contexto actual pouco ajustadas a uma realidade que afecta milhões de portugueses sem emprego e alguns no limiar da pobreza.

O PS não é, nem nunca foi, capaz de promover convergências à sua esquerda, pelo menos a nível de governo do País. Aliás até há dirigentes que afirmam que a Esquerda é o PS, depois existe a Direita, com a qual outros (e não são poucos) dirigentes gostariam de se coligar e depois há a extrema-esquerda, assim classificada para ser acantonada de esquina para o qual a imensa sabedoria do PS a remete. E, com esta atitude, dita “moderada” e “sensata”, o PS consegue o quê? Nas últimas sondagens, uns míseros 4 ou 5% a mais que a Direita que diz renegar e da qual se diz demarcar completamente. A procura da consensualidade, assenta no pântano da indefinição permanente em que sucessivas direcções navegam, é um triste legado da história recente da Esquerda portuguesa. Como o é, em Espanha, na França, na Itália, para citar apenas exemplos da Europa do sul. E como foi na Grécia, sabendo-se da confrangedora prestação do PASOK. Uma consensualidade protagonizada por uma elite politicamente empenhada em defender privilégios e influências que reflectem na maioria da comunicação social, o espelho de uma realidade a que a maioria dos portugueses é perfeitamente alheia, mas que paga (e bem) os seus desmandos.

Na situação de destruição activa e sistemática do País, levada a cabo pela Direita, o PS deveria, até em termos de lógica discursiva, estar todos os dias e a toda a hora, no combate frontal ao governo. Mas de facto não é isso que acontece. O PS continua a pensar (vã ilusão) que é um partido “responsável”, que se distingue da “esquerdalha” que só vê a Grécia como resposta. O PS é na verdade um partido responsável. Responsável, pela degradação da forma de fazer política no nosso País, ajudando a criar a tese do “bloco central”, onde coexiste amigável e colaborante com a Direita. Responsável pela marginalização da Esquerda, assumindo-se como a única alternativa à Direita, cometendo os mesmos erros que apontam quando está na oposição, pactuando com ela quando está no Poder, subjugando-se aos mesmo interesses. Responsável ainda, pela relativa indiferença de uma grande maioria, “não vale a pena, são todos iguais…”
O PS não assume a necessidade da ruptura. E só a ruptura pode induzir uma alternativa política justa e eficaz. Justa, porque atenta as desigualdades e a urgência da erradicação da pobreza, como é defendido nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)[3], que sucedem aos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (UN, 2000). Eficaz, na medida em que não cria (não pode criar) qualquer tipo de ilusões quanto ao caminho a seguir, a saber, o desenlace total e completo com as políticas que atentam contra os direitos das pessoas e dos Estados Soberanos. A luta que se impõe é precisamente contra a imposição do pensamento único, uma dominação intolerável, quer do ponto de vista intelectual quer do ponto de vista da justiça. Marx escreveria em 1846, “Os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes …O pensamento daqueles a quem é recusado os meios de produção intelectual está submetido igualmente à classe dominante. Os pensamentos dominantes são apenas a expressão ideal das relações materiais dominantes concebidas sob a forma de ideias e, portanto, a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante; dizendo de outro modo, são as ideias e, portanto, a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante; dizendo de outro modo, são as ideias do seu domínio[4]. A actualidade deste pensamento é bem evidente, para quem esteja atento ao que se passa em Portugal e na Europa, no que respeita a dominação.
Mas o PS tem uma oportunidade única, a possibilidade de nos surpreender. De fazer uma inversão. E tal pode passar, por exemplo, pela afirmação de um alternativa clara à Direita. Ainda irá porventura a tempo de colocar no seu programa de governo, posições claras sobre uma auditoria cidadã à dívida e sobre a rejeição do tratado orçamental europeu. Faria, a bem dizer, a diferença. Em Portugal, mas também no espaço europeu. António Costa daria assim uma bofetada de luva branca nos barões do seu partido, comprometidos provavelmente com uma parte da divida privada acumulada e que oprime significativamente o nosso País. Contribuiria para o relançamento da esperança em milhões de portugueses que nele (ainda) apostam como alternativa. Subiria seguramente uns 8 a 10 pontos percentuais nas sondagens, descolando de vez desta Direita opressora.
Como (ainda) nos é permitido sonhar, fizemos aqui um exercício de análise possível. E como, do sonho à realidade vai um curto passo, o tal que “…comanda a vida”, é bem possível que consigamos cavalgar a onda de esperança que mora em cada um de nós. Porque entretanto, há uma Tabacaria[5] na esquina onde se lê “Não sou nada/à À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”…


[1] Proposta da minha candidatura: http://tempodeavancar.net/?page_id=8535       
[2] In: www.canalaberto.pt        
[4] In “A ideologia  Alemã” (1846), MARX, Karl & ENGELS, Friedrich, (1976: 55 e 56)
[5] Referência ao poema de Álvaro de Campos (1926), com o mesmo nome


03 maio 2015

O QUE MAIS IMPORTA

A glória em vida é algo problemático:
é aconselhável não se deixar deslumbrar por ela, muito menos estimular
Thomas Mann


Não estou aqui para vos entreter”, dizia esta semana aos jornalistas o senador independente do Vermont, Bernie Sanders, ao oficializar a sua candidatura à Presidência dos Estados Unidos. Com tal afirmação, pretenderia de certa forma chamar a atenção para o facto de os jornalistas tratarem os políticos como estrelas do mundo do espectáculo. Sanders parece ser uma figura diferente no panorama mais que cinzento das eleições americanas, mesmo sabendo que essa diferença será sempre cilindrada em favor do gosto local pelo estilo precisamente espectacular contra o qual Sanders falava.
Para entreter alguns espíritos de fino recorte, no panorama nacional, sem com isto lhe querer atribuir mérito especial no que escreve, temos o senhor Vasco Pulido Valente (VPV). Há quem defenda que VPV tem a língua afiada das figuras da I República e que utiliza o argumentário conhecido por “pessimista” para mostrar realidades que existem na sua própria cabeça e para escorrer teses e cenários que acolhem algumas cabeças pensantes, daquelas que não querem e se calhar não podem fazer melhor. Com todo o respeito, considero que VPV não passa de um sujeito mal-educado, uma figura triste do conservadorismo lusitano que tanto procura glorificar, nas suas crónicas azedas e algumas vezes eivadas de uma confrangedora falta de nível. Arrevesado. Parecendo propositadamente intolerante para esquerda e direita, a sua prosa acaba sempre por condescender para o lado dos que detêm o poder que, como se sabe, são quase sempre os mesmos.
Nos últimos tempos, VPV tem destilado um ódio mesquinho sobre a candidatura de Sampaio da Nóvoa. VPV considera a candidatura de Nóvoa fruto de um “tacticismo perceptível”. Claro que quem “percebe” é ele, o centro de toda a discussão. Que, como evidente se torna, nunca se fará sem ele e a sua inspiração, que apetecia classificar de divina, não fora a coisa um pouco obscena. De tão obstinado na sua “perseguição” a Nóvoa, “o total vazio”, o “homem que ninguém conhece”, VPV nem equaciona a possibilidade de estar a promover o candidato que abjecta. Dirige-se ao “povo miserável”, assim mesmo, sem qualquer sombra de respeito, do alto da sua mais que ridícula sobranceria. A sua última obra, simbolicamente editada a 1 de Maio 2015, dá pelo nome de “Degradação”. Singular? De todo, apenas uma auto-afirmação de deslumbramento do que pensa que é e de como vê a “canalha” que o rodeia.
Claro que Nóvoa também não está aqui para nos entreter, aproximando-se assim de Sanders, ainda que sem qualquer desejo expresso. Mas não deixa de ser de ser, no mínimo curioso, que algumas das teses do americano, nomeadamente o combate às desigualdades e a interferência do poder económico na política, sejam seguramente preocupações de Nóvoa.
Para quê perder mais tempo com VPV? Bem mais interessantes parecem ser a figura e as propostas de Nóvoa. No plano prático, mas também no simbólico. A referência a “palavra” e às “palavras” indiciam uma linguagem avessa a confusões, eivada de evidente vontade de mudança. Na realidade, o País mergulhou na discurso eminentemente “consensual”, com pensamentos primários e atafulhados de coisa nenhuma, de que é exemplo evidente a sentença espúria, “é preciso colocar os interesses nacionais acima dos interesses partidários”. Homem de palavra, mas também homem da palavra, Nóvoa procura um estilo e parece reeditar Flaubert, quando este o classificava como algo, “…que está sob as palavras como dentro delas, sendo igualmente a alma e a carne de uma obra.”

Podemos porventura pensar que o tempo muda tudo. Parece bem mais importante fazer alguma coisa para mudar algo. A proposta de Nóvoa parece ir por aí, vale a pena apostar…

24 abril 2015


Não bastam as palavras cândidas da deputada Inês Medeiros a descansar quem outra coisa possa pensar sobre a medida tomada ontem e divulgada hoje, pelo arco do poder que domina o País há 40 anos. Na data simbólica em que celebramos o 25 de Abril, eis uma reedição do 24 de Abril. Nem mais. Exame prévio é a realidade que conjecturaram para as condições especiais a observar para a cobertura da próxima campanha eleitoral. Que a direita aproveite este dia (o 24) para se reafirmar perante um eleitorado que ainda sonha porventura com um salazar em cada esquina, nada a estranhar. Que o Partido Socialista venha renegar mais uma vez os conceitos e princípios que levaram a sua constituição, já soa esquisito para um eleitorado que ainda acredita numa alternativa, ou seja que ele possa ser uma alternativa à direita. Que o cravo seja sempre vermelho e não se transforme na rosa que vai continuamente murchando, dia a dia, hora a hora, uma mutação completa, uma máscara assustadora, que veste pele de cordeiro e até parece ser simpático, falando para as pessoas, a cidadania no discurso pretensamente diverso de uma direita conservadora, castradora e socialmente devastadora.
Há agora, ou sempre houve mais ou menos disfarçado, um machado que quer mesmo cortar a raiz ao pensamento. E porque este é livre como o vento, “…não há morte para o vento, não há morte”, assim o diz o Poeta, “…Nada apaga a luz que vive num amor num pensamento”.
Quis saber quem sou, o que faço aqui…”, penso e canto baixinho a canção que anunciava a alvorada há 41 anos. A revolta de um povo, de um País amordaçado. E revoltado fico, sem encontrar resposta que não seja a permanente inquietação que o Moustaki tão bem relatava, mesmo sem lhe dizer o nome, mas que só podia ser um: Revolução.

O estado de indefinição constante do partido que quer o Poder, para manter as coisas mais ou memos na mesma, deveria merecer melhor atenção. Pelo menos aqueles que nele acreditam ainda, mas que pensam o mesmo que nós, que partilham em sucessivas eleições o mesmo desejo de mudança, um futuro diferente para o País que é o seu, que é o nosso. É mesmo triste que, não sendo capaz de proclamar, nem muito menos promover, a necessária ruptura, se veja constantemente a navegar nas águas turvas da consensualidade forçada, perigosa e enganadora. Não é austeridade, mas austeridadezinha, não é corte de salários, mas somente um pequeno congelamento, não é aumento da dívida, apenas uma ligeira adapatação, não há corte nas pensões, mas apenas pensões congeladas. Não são palavras duras para as pessoas, apenas um discurso mole, outrora devastador, agora muito mais simpático, com um rosto sorridente e pretensamente terno e enlevante.
Mas, de um momento para o outro, surge um ultra rápido consenso que mais parece uma medida de Marcelo Caetano. Uma tremenda provocação aos ideais da Liberdade consagrados pelo 25 de Abril. É com imensa tristeza lembrar desta forma o dia em que nos livramos da opressão. O centrão partidário mostra mais uma vez a sua verdadeira face, um acumular constante de submissão aos asfixiantes aparelhos que suportam, reféns dos grandes interesses e que alimentam personagens de baixo recorte, feitos à medida, uma tremenda mentira ao povo que os elege.

Quando mais logo, pela noite dentro, cantarmos “… o Povo é quem mais ordena, dentro de ti, oh cidade!”, sentiremos decerto um grande aperto na garganta, uma imensa mágoa. Que ao menos, ela se transforme em raiva e fúria e nos leve a agir. Em nome da Liberdade, da Democracia verdadeira, da Cidadania, do nosso 25 de Abril!

 

17 abril 2015




Seria a 28 de Maio de 1969 que a Academia de Coimbra decidia em Assembleia Magna a Greve aos Exames. Seriam mais de 5000 estudantes a votar favoravelmente a proposta da Direcção da Associação Académica de Coimbra. Os acontecimentos seriam precipitados, dia após dia, num frémito constante, num desafio a Salazar e ao poder de uma ditadura castradora e anquilosante. Dizer quando tudo começou seria eventualmente um exercício possível, historiando factos e acontecimentos que o ano de 69 deu à política portuguesa. Mas para muitos, como eu, significou a entrada na Universidade, na cidade onde tudo aconteceu, numa dimensão épica. Costumávamos dizer que só nesse ano viríamos a descobrir que havia ocorrido o Maio de 68 em França. Sim, exactamente 1 anos depois, tal era o nível de conhecimento das coisas naquela época.

Poderíamos então recorrer ao 17 de Abril. Já lá vão 46 anos e havermos de o recordar como se fosse hoje. A mobilização da malta para o edifício das Matemáticas seria trabalho de muitos dias e muitas noites. Sabíamos que viriam os odiosos Hermano Saraiva e Américo Tomás. Um como o outro representavam o pior de um regime caduco e podre. O primeiro, à época Ministro da Educação, era pela Academia chamado “Hermano I, o Firme”, título que obteve de uma famosa intervenção na Televisão, onde declarava “firmeza”, perante a luta estudantil. Seria uma manhã fantástica, com a imensa turbe a dirigir-se para as Matemáticas, mesmo ao cimo da escadaria monumental, um símbolo da Universidade. Tanta gente, tanto empenho, tanta e tamanha luta, um desafio à temível polícia e um regime que agonizava e ao qual demos um valente pontapé. A chegada da comitiva, primeiro em silêncio, depois na tremenda pedrada no charco, quando o Celso Cruzeiro incentiva a nossa entrada no edifício das Matemáticas. Depois lá dentro, os discursos pífios de sempre, a tremenda provocação de ver um estudante levantar-se e muito respeitosamente pedir para falar. Era o Alberto Martins, o nosso líder, o Presidente da Associação Académica, a cara de parvo do Tomás a dizer, “Bem, mas agora vai falar o senhor Ministro das Obras Públicas”. E, quando nos preparávamos para a provocação seguinte, eis que toda a mesa se precipita para a porta, sem qualquer explicação, fugindo dos estudantes, naquela que seria a suprema humilhação do regime. Lembro bem o sítio onde estava, ao pé da porta, eles passaram bem ao lado, uma revolta imensa que não tem descrição em palavras.
Deixamos sair a fantochada de governantes, pides e congéneres. Reentramos na Sala 17 de Abril e aí “inauguramos” o novo edifício. O dia continuaria depois nos jardins da Associação Académica, com intervenções, convívio, um mar de gente, uma imensa onda de solidariedade e ao mesmo tempo de revolta contra a situação.

Bertolt Brecht dizia “Apenas quando apreendemos a realidade é que seremos capazes de a mudar”. Naquele dia percebemos muita coisa. Hoje, 46 anos depois compreendemos o quanto falta mudar…

15 março 2015

O DIA DO PI

 
 
 
 
 
 
 
 
Torta feita pela Universidade Técnica de Delft no 'Dia do Pi'
(Foto: Wikimedia Commons)
A “irracionalidade” do valor da coisa (o ) contrasta com a putativa racionalidade de quem a usa. Seja no cálculo, seja na vida, qualquer número com 52 casas decimais é levado da breca para fixar. A parte aparentemente mais simples será porventura aquela que revela o conceito de aproximações sucessivas, ou se quiserem, séries infinitas de somas, multiplicações e divisões. Uma transcendência, dirão alguns, uma grande maçada, opinarão outros. Para uns e para outros, quer a Matemática ser a razão suprema de todas as coisas e, de uma certa forma, a razão de nos reconciliarmos com a existência, na medida em que entendemos as suas racionalidades. A espantosa ciência, de que muitos são afastados por uma incongruência, ou uma vez mais, irracionalidade desta feita sem comas, é a prova de que a mente humana é suficientemente capaz de interpretar a forma, a beleza e a cor. Para elas, a Matemática tem algumas interessantes respostas. Claro que um polígono será sempre um polígono e foi provavelmente socorrendo-se nisso, que Arquimedes formulou a representação matemática para o cálculo de , o que é designado agora como o método clássico para o respectivo cálculo.
Ao falarmos destas matemáticas curiosidades, lembramos um outro do mesmo nome, a que o realizador Ang Lee deu vida, no filme “A Vida de Pi”, um romance de Yann Martel.  Aqui já o nome se escreve com o alfabeto clássico, passando “Pi” a ser racional, ao contrário do outro, ao qual a Matemática chama “irracional”.

Assim são as vidas em universos distintos, aos quais a realidade que conhecemos assaca um valor determinado. Que, mesmo que não seja possível determinar, ao arrepio de uma quantas casas decimais, a vida atribui um valor certo. Parece contraditório, mas não o é, na exacta medida de que a relatividade das coisas lhe dá o peso que não parece ter. O pi matemático continuará a ser o que sempre foi. O pi da obra passará umas dezenas de dias no mar, num barco com um tigre de Bengala e após isso, na exacta dimensão do tempo que conhecemos, terá direito a umas dezenas de anos de vida, sem qualquer casa decimal a incomodá-lo.
Em vez de serdes só livres, esforçai-vos/Por criar uma situação que a todos liberte…”, opinava Bertolt Brecht. Libertar e mudar. Libertar, abrindo a mente para o que surgir como novo e analisar. Mudar, para que o sentido das coisas seja um desafio, dia após dia. Não vale a pena contrariar a Matemática. Mas vale decerto tentar libertar o que temos na mente, para mudar o rumo do barco, com ou sem um tigre lá dentro…

27 fevereiro 2015


O ano da Cabra, o Raio que o Parta…

 

O tempo das verdades plurais acabou.
Agora vivemos no tempo da mentira universal.
Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias.”
 José Saramago

Tabu, Lisboa, nº 84, Abril 2008
In José Saramago nas Suas Palavras


No ano chinês é a Cabra que manda. Aqui há uns anos atrás havia um Zé com o nome do bicho[1], lançado e apoiado por alguns free-lancers. Dizia ele que “…deixava tudo por ela”, num estertor de desritmo, a que alguns achavam piada. Mal sabiam que haveria de chegar uma altura em que se deixa tudo, por alguém ou por alguma coisa. Não dá para perceber a lógica de quem se quer estar contra e, num momento de fraqueza acaba por confessar, ainda que com elevado sentido de Estado, a favor. Dando até de barato que o termo “diferente” pode ser entendido para os dois lados, cujos parecem agora convergir para gáudio dos que acham que está tudo bem. “Chinesices”, diz o homem que ora bate com a porta, mesmo que a dita pareça estar trancada pelos cornos do bicho. Vêm então de tão longe os cidadãos que prestaram um serviço inefável a um país comprando, ainda que o preço de saldo, as principais empresas estratégicas, que ora irão florescer com uma bandeira vermelha, a qual ainda, bem desfraldada, causa algum arrepio.  

Vêm eles assim jantar num casino, onde um senhor lhes diz que o País está numa situação “…bastante diferente daquela em que estava há quatro anos”. O PM deste País que é nosso? O PR, prestimoso distraído que ainda se passeia nos jardins de Belém? Nada disso, apenas o putativo “líder da oposição” a ambos. Por isso Barroso, sem qualquer cerimónia, o manda “…para o raio que o parta, mais a canalha de direita que tomou conta do PS”. Se não fosse mesmo verdade, dava para pensar que se poderia estar perante um qualquer mal-entendido, desses em que o designado “arco do poder” é fértil e onde tudo e seu contrário acontecem, consoante vira o vento e muda a sorte. Ouvimos e portanto acreditamos que é possível a coexistência, declarada antes impossível, mas sempre possível neste universo da Cabra, que ora reina, para bendita ou desdita ventura. Todo é possível. E o seu contrário também. Esclarecidos estamos, oh brandos costumes que ditam a moderação de que tanto gostam.

Como nós dizemos em Portugal, os amigos são para as ocasiões…”, sentenciou Costa, aludindo a uma asserção popular. Continuando o seu raciocínio veio depois a proferir a tal chinesice que motiva crónicas como esta. Poderá a espuma dos dias varrer a sentença, para que tudo volta à calmaria de que aquela minoria que ocupa uns míseros metros quadrados entre o Terreiro do Paço e Belém gosta?  Ao proferir palavras de consideração e reconhecimento, Costa poderia estar a pensar “…Só amando os homens, as acções, a banalidade dos trabalhos/Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver...”[2]. A(s) resposta(s) estará(ão) eventualmente na Passagem Das Horas, dos dias, dos meses que ainda faltam para se submeter ao exame final, que em Setembro notará o melhor para “governar”. E se o Álvaro de Campos simpatizava “…com alguns homens pelas suas qualidades de carácter[3] e com outros “…pela sua falta dessas qualidades[4], Costa parece simpatizar com todos ao mesmo tempo, arrumando de vez as contradições antagónicas da retórica conhecida.

Difícil se calcula a resposta a quem o manda ao “…raio que o parta”. Barroso estaria provavelmente a pensar em Orwell, quando afirmava “Num tempo de engano universal, dizer a verdade é um acto revolucionário”. Nem toda a diplomacia do mundo, em que os mestres do centrão são exímios, conseguirá passar uma esponja ao que se passou na Póvoa do Varzim. O Ano da Cabra está aí, quem vier atrás que feche a porta…



[1] Referência ao “cantor” Zé Cabra, popular entre 2006 e 2010
[2] Extraído de “A Passagem Das Horas”, Álvaro de Campos, 1916
[3] Idem, ibidem
[4] Idem, ibidem