rio torto

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20 julho 2015

APÓS A CAPITULAÇÃO


Assistir ao espectáculo do homem que assinou o “acordo” dizer que não concorda com ele, mas pede o voto para a sua aprovação, será porventura o lado patético da coisa política. Uma transformação cénica e conceptual, que dificilmente encaixa nos cânones tradicionais. Ver a praça Syntagma a ferro e fogo em violento protesto contra a situação e pensar que os intérpretes visados são os mesmos que há bem pouco tempo a ocupavam para exigir Liberdade, Democracia e Dignidade, é um volte-face demasiado rápido para ser entendível contra toda a lógica interpretativa.
Tsipras teve porventura tudo na mão na noite do Referendo, quando 62% dos gregos negava de forma rotunda um pacote de medidas bem mais macias do que as que constam agora do dito “acordo”. Como foi possível então, da noite para a manhã do dia seguinte, ter-se eventualmente desbaratado tamanho capital político? E aqui, das duas uma, ou Tsipras não sabia como capitalizar o resultado, ou interpretou de forma deficiente o próprio resultado. A demissão de Varoufakis estará decerto no centro da análise, pela carga simbólica que encerra, quer ainda na consideração da brecha que as suas posições determinadas provocaram no Governo. É bem verdade que tudo o que se passou nos dias seguintes foi uma demonstração inequívoca e lamentável das posições alemãs e, por arrasto, do designado Eurogrupo. Fazendo aliás ver como todo o designado projecto europeu foi por água abaixo, emergindo um directório de burocratas comandado pelo “maestro” Schauble que, não tendo a magia dos seus conterrâneos da música ou da literatura, tem o saber de um ditador hábil e perigoso, como os seus confrades dos anos 40 do século passado.

Tsipras agiu então de forma deficiente, ao apostar (forçar) na demissão do seu Ministro das Finanças? Porque de facto era ele o rosto da verdadeira e substantiva contestação. Porque era ele a face visível e credível do NÃO, consubstanciado no resultado do Referendo. Porque finalmente era ele o obreiro da luta contra o pensamento único. O esvaziamento completo da posição do Estado grego, a irrelevância a que foi votado pela “orquestra” europeia, mostrando a verdadeira face de um projecto em que as regras apenas existem para justificar o Mecanismo de Europeu de Estabilidade e impor o Tratado Orçamental, acima das convenções e dos tratados conhecidos. A lógica da negociação de Varoufakis assentava na premissa de “desgastar” o próprio Eurogrupo. Ele conhecia, desde o início, a predisposição do presidente Dijsselbloem: ou a aceitação da lógica do resgate com uma suspensão de qualquer tipo de reestruturação da dívida, ou a “destruição” da banca grega. Sendo que o Governo grego tinha sido eleito com mandato para pôr fim a essa espiral de austeridade, não fazia qualquer sentido negociar em sentido oposto, ou permitir que a dita “negociação” chegasse ao ponto que chegou. Mesmo com a pistola apontada à cabeça, como Tsipras terá admitido. A punição política chegaria ao seu extremo, a ideia base de destruir um Governo eleito e humilhar um País sairia então vencedora na madrugada de 13 de Julho.

Apenas 3 dados que podem ajudar a perceber o rotundo golpe que irá ser dado sobre o Povo grego.
  1. A adoção de medidas imediatas para melhorar a sustentabilidade a longo prazo do sistema das pensões, no âmbito de um vasto programa de reforma das pensões”, como diz o “acordo”, vai produzir uma redução das pensões mais baixas, ignorando que a razia no capital dos fundos de pensões se deveu ao PSI da troika em 2012 e aos efeitos nefastos da queda no emprego e do trabalho não declarado[Varoufakis];
  2. A racionalização do sistema do IVA e o alargamento da base de tributação para aumentar as receitas”, significa um golpe profundo na única indústria em crescimento da Grécia, o turismo;
  3. “O Governo grego precisa de se comprometer formalmente a reforçar as suas propostas numa série de domínios identificados pelas Instituições, com um calendário claro e satisfatório para a adopção de legislação e a sua aplicação”, significará a sujeição da Grécia ao afogamento orçamental, mesmo antes de ser garantido algum financiamento.

Não há qualquer dúvida que Tsipras não teve outra hipótese senão assinar o documento. Aliás, é Varoufakis quem o afirma, "Foi-nos dado a escolher entre ser executados ou capitular. Decidimos que capitular era a melhor estratégia". Contudo, nem a melhor estratégia está isenta de ter defeitos. O caso é precisamente este.
Após a capitulação, apetece dizer que o é poder da doxa contra o conhecimento, a velha e eterna disputa que, na Caverna[1], está de facto à porta.

Este “acordo” imposto a um Estado Soberano tem sido comparado a humilhação do Tratado de Versalhes, que terá aberto o caminho para a ascensão do nazismo após o fim da Primeira Guerra Mundial. Só se pode compreender uma situação deste género quando existe um aperto significativo das liberdades, condicionadas a políticas de excepção, como as que determinam as posições do Eurogrupo. Bem vistas as coisas, esta Europa do Tratado Orçamental, do Mecanismo de Europeu de Estabilidade, ambos datados do ano 2012, não passa de uma farsa gigantesca que tem um único objectivo, a criação de um clima de terror com base numa monstruosidade antidemocrática que significa a transformação dos pequenos países em protectorados alemãos. Serão porventura os seus adeptos aqueles europeístas convictos, “…gente de pergaminhos que invocam sempre o argumento de autoridade de ter estado desde o princípio com a Europa para assim legitimar o seu acordo com todos os caminhos para onde a Europa vai”[2]?

Talvez valha a pena ouvir os resistentes, gente da Esquerda que não verga os seus ideais e que nas alturas devidas procura ter uma voz diferente, contra a corrente, contra o pensamento único. Como por exemplo o fez Jean-Luc Mélenchon[3], ao afirmar “O Governo de Alexis Tsipras resistiu de pé como nenhum outro na Europa. Agora tem que aceitar uma trégua na guerra que está a travar. Devemos-lhe solidariedade”, destacando, contudo, que “nada nos pode obrigar a participar na violência que lhe estão a infligir”.



[1] Referência a Platão e sua imagem e alegoria (República, Livro VII)
[2] Citação de J.M Pureza, no livro “Linhas Vermelhas”, Ed. Bertrand, Coimbra, Julho 2015
[3] Deputado francês no Parlamento Europeu, líder da Frente de Esquerda  e co-presidente do Partido de Esquerda

12 julho 2015

QUEREM HUMILHAR A GRÉCIA


Tal como falou hoje o eurodeputado e vice-presidente do Parlamento Europeu Dimitris Papadimulis, a verdadeira intenção do Eurogrupo é derrubar um Governo legitimamente eleito pelo seu Povo. Tal “hábito” será aliás, pela forma como as potências a mando da Alemanha, uma coisa absolutamente estranha. Fazer um referendo, ouvir o Povo, ser fiel aos seus compromissos, denunciar o que a Europa fez à Grécia durante sucessivos anos, por conta de administrações colaboracionistas ou corruptas, não vergar ao pensamento único, é realmente demais para um grupo de gente que mais parece pertencer a qualquer comité regional alemão, tal a fidelidade canina e a recusa em pensar pela própria cabeça. Entre esta gente está, naturalmente, o PM português, traidor ao seu povo e destruidor da Pátria.
E falam em credibilidade. Quão credível de facto pode ser um Governo que é fiel ao seu Povo e cuida dos seus interesses? Quão fiel pode ser um Estado que foi palco da mais violenta ignomínia, vendido na praça pública, armado pelos grandes desta Europa que cada vez mais se assemelha ao terrível directório alemão de triste memória. Não, de facto a Grécia, para vós não é credível, porque sois vós que quereis definir essa mesma credibilidade, provando uma vez mais que quereis inclusivamente definir o “comportamento” de pessoas e Estados. Não, também não aceitamos que seja assim, tereis para sempre o nosso desprezo.

À medida que as horas passam não podemos ficar indiferentes ao desfecho desta incrível cena em que nos quereis incluir. Talvez desta forma estejais a contribuir para que as pessoas finalmente acordem e tal como Povo grego fez a 5 de Julho passado, vos referendem sempre e cada vez mais.  Tsipras, avisaria dias antes do acto patriótico na Grécia, “…Ao autoritarismo e à dura austeridade, responderemos com democracia, calmamente e de forma decisiva.” Muito embora a dureza cruel da situação e o cerco que é movido ao País tenha precipitado uma proposta que nunca estaria nos planos do seu Governo, a verdade é que a dignidade não se perdeu. Antes pelo contrário, o Governo grego vai, uma vez mais, lutar por si, pelo seu País, por uma Europa inteira, pela dignidade que parece perdida, por uma voz que fala e que não se pode calar, contra quem pretende silenciá-la.

Pode a Grécia sair? Se a questão fosse simplesmente essa, do ponto de vista de quem pretende impor o pensamento único e liquidar de vez qualquer insurreição, diríamos que já está fora. Outras questões, igualmente decisivas, estarão porém em jogo no difícil e intrincado tabuleiro de interesses internacionais, a saber a tal geopolítica de que tanto se fala e faz mover estados e nações e conjunturas financeiras que se sobrepõem à lógica, pretensamente simplista e vulgar de pensar nas pessoas. Irá porventura desenhar-se um equilíbrio, como em outras situações, ou a sanha ideológica prevalecerá e precipitará um desfecho, mais uma vez, punitivo e chantagista?
Até ver, os povos não adormecem permanentemente, nem que a situação de torpor que ora se vive o possa prever. Alguém se há-de importar um dia. Brecht avisou na altura do perigo fascista, “Primeiro levaram os negros/Mas não me importei com isso/Eu não era negro/Em seguida levaram alguns operários/Mas não me importei com isso/Eu também não era operário/Depois prenderam os miseráveis/Mas não me importei com isso/Porque eu não sou miserável/Depois agarraram uns desempregados/Mas como tenho meu emprego/Também não me importei/Agora estão me levando/Mas já é tarde…”

O Governo da Grécia, pelos vistos, importa-se, é tempo de fazermos o mesmo!

05 julho 2015

APESAR…

“… Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar
Apesar de Você”, Chico Buarque Holanda, 1970



Esperamos com alguma ansiedade. Acreditamos que é possível, ser este um princípio de contestação permanente e contínua, porque não queremos ficar para sempre indiferentes. Curioso que um dos últimos argumentos tenha sido aquele que tentava caracterizar os políticos de uma determinada forma, adultos seguramente, engravatados talvez, com o tal sentido de responsabilidade que lhes advém de um certo espírito de casta, porventura conquistado na dita experiência, termo que ganha foros de elevação quanto maior a promiscuidade com os negócios de ocasião. Falamos em português, em pretensos donos de Portugal, que circulam entre centros de interesse e partilha do aparelho de Estado, uma “eterna” dança entre conselhos de administração, secretarias de estado e ministérios, chefias na administração pública, lugares nas autarquias e empresas da construção civil, autores de pareceres e gabinetes de advogados, percursos meteóricos desde as jotas até ao poder. Serão estas e estes os qualificados por uma opinião pública produzida em circuitos fechados, com o beneplácito de um sector da comunicação social que fabrica comentadores que ostentam invariavelmente a sensatez de um pretenso equilíbrio, que oscila, conforme as necessidades, entre o centrão oficial, a tal elite consensual a que o País deve a douta lição do conformismo e da sabedoria perpétua.
Acontece que é precisamente tudo isto que não queremos. E a que contrapomos, a necessidade de uma nova elite, que saiba transformar em ciência política, as aspirações dos povos, em constante movimento. O movimento das ideias, a dialéctica da transformação e a interpretação constante dos conflitos sociais, na superação dos mesmos, com vista a identificação de processos e metodologias participativas, tendentes a aproximar as pessoas dos centros de poder, diria a serem as próprias pessoas a interpretar o mesmo poder. A experiência de que comunicação social fala, quando “avalia” um putativo candidato, deve então ser interpretada precisamente ao contrário, na exacta medida que é a que menos interessa.

No dia das decisões, seremos seguramente muito mais gregos que o se poderia pensar, embora não tenhamos o boletim na mão, para exercer um direito de cidadania, hoje seguramente um peso enorme para um povo atormentado pela pilhagem, pela ganância e pelo terrorismo de uma elite, a mesma que tem a experiência politica a que se reconhece “legitimidade”. Dizer que estar nas nossas mãos dizer NÃO é também um peso enorme, que apesar de sabermos necessário, implicará talvez da nossa parte, sacrifícios grandes e penosos. Como em todas as lutas, há que escolher um campo, não é jamais possível conciliar posições, porque NÃO é mesmo não. Não queremos, não colaboramos, não pactuamos, não aceitamos, não vos iremos tolerar, não esquecemos a vossa mentira permanente, o vosso silêncio e indiferença perante a fome, a desigualdade e a miséria, a vossa intolerável atitude de prepotência, invocando a Democracia para oprimir.


Basta de complacência. NÃO, decididamente NÃO!

03 julho 2015

OXI(GÉNIO) PARA A LIBERDADE
Aprende a nadar, companheiro 
que a maré se vai levantar 
Que a liberdade está a passar por aqui
Maré Alta”, Sérgio Godinho, “Os sobreviventes”, 1971











A história nunca se repete. A história às vezes repete-se. Ambas as formulações podem ser verdadeiras, se devidamente contextualizadas. O NÃO ao fascismo que destruiu milhões de cidadãos indefesos levantou a Europa inteira contra o que parecia ser um “desígnio nacional”, apoiado por aquilo a que Bergman designar por “Ovo da Serpente”. Os cidadãos europeus souberam dizer NÃO ao fascismo, mesmo que tal lhes tenha custado muitos milhares de vítimas. Embora tenha resistido em Espanha e em Portugal, o mesmo fascismo acabaria derrotado pela vontade dos povos. A situação criada na Europa pela chamada crise das dívidas soberanas e pelo seu aproveitamento para impor a austeridade a todo o custo sobre os mais desfavorecidos, configura um novo tipo de fascismo, a que alguns chamam “fascismo branco”. Da ascensão do fascismo na Europa, nos anos 30 do século passado, ao fascismo branco dos dias de hoje, vai um pequeno passo. Das crises económicas de outrora à crise financeira de hoje, a intervenção do capital é realmente decisiva. A pobreza de uns, aliada à riqueza de outros, tem sempre um peso desigual, “…quantos pobres são necessários para produzir um rico?”[1]. O que sabemos é que a crise é um bom negócio para a acumulação dos mais ricos e a austeridade a forma mais célere de transferência de rendimentos do trabalho para o capital: desde 2010, os 25 mais ricos do nosso País viram a sua fortuna crescer 17,8%, qualquer coisa como cerca de 18 mil milhões de euros.

De facto, apesar dos imensos avanços técnicos, científicos e tecnológicos, o estado a que se chegou significa um enorme retrocesso civilizacional: perda de direitos, limitação das liberdades individuais, diminuição de rendimentos das famílias, aumento do desemprego, limitações terríveis no acesso ao emprego, aumento da idade da reforma, enfim, diminuição significativa da qualidade de vida da maior parte da população. E aqui, a Grécia será porventura um exemplo paradigmático. Um dos países que mais sofreu e sofre com a dita crise, que foi durante muito tempo o cesto dos papéis para onde foi atirado todo o lixo da gestão dos bens públicos, com administrações corruptas, ou simplesmente colaboracionistas com todos os desmandos dos senhores do dinheiro, o País que a Europa tentou armar a toda a força, à custa de um endividamento sem fim, o País onde o povo paga os cortes verdadeiramente atentatórios dos direitos humanos, com uma dívida sempre a aumentar e que chega a quase 200% do PIB e com uma taxa de desemprego que, em 7 anos, subiu 226,2% (passou de 8,4% para 27,4%)[2].

Mas, por outro lado, um País que aprendeu a dizer NÃO. Na língua grega, o OXI. Na nossa, apenas as iniciais de OXIgénio, um pequeno balão para alimentar a Liberdade. Sim, a liberdade de ser contra, quiçá o único instrumento que temos para tentar resistir a uma avassaladora ameaça, que passou de latente, a efectiva neste momento. A afirmação do capital financeiro e a sua investida, são factores ilustrativos do fascismo branco.

OXI! O dizer NÃO é uma necessidade vital para a sobrevivência. Como podemos ficar indiferentes quando a chamada União Europeia alimenta um verdadeiro campo de escravos na Grécia? A curiosa visão dos senhores do dinheiro e do Poder nesta Europa bizarra é de uma liquidez espantosa, a austeridade sem fim em troca da solidariedade. Ou seja, alimentamos à míngua pessoas que são liquidadas aos poucos, enquanto convém. E atenção, ai de quem se manifeste contra, que ouse questionar a “bondade” das medidas impostas. Não há alternativa, é o pensamento único que floresce, que prevalece, que oprime. É um novo fascismo, sem qualquer dúvida, muito bem caracterizado hoje por Christine Lagarde (FMI) quando diz que é assim que tem que ser, os países têm que fazer sacrifícios, é igual para todos. E ainda que, futuras negociações tem que ser feitas com “pessoas adultas”, significado que só pode ser, entre pessoas que pensem como ela (…), apenas com divergências pequenas, que apenas servem para “colorir” a verdadeira imposição.
Um OXI rotundo e claro!
É o que se espera venha a acontecer. Mesmo não podendo votar em Atenas, “votemos” nas praças e avenidas, em todo o lado, em toda a parte. Para RESPIRAR liberdade!
O OXI vai agora muito para além do protesto e é uma atitude de cidadania, de soberania e de Liberdade. É um NÃO contra o pensamento único, contra o fascismo branco. Não podemos deixar crescer a serpente dentro do ovo, o melhor mesmo é queimar o ovo para que a serpente não nasça. Provavelmente, tal como no século passado, acordamos tarde demais, deixando a serpente crescer. Pior ainda, porque houve quem a tivesse alimentado pensando que ela era incapaz de morder e de matar…
Agora só há uma solução, cortar-lhe a cabeça.
Para respirar LIBERDADE, que está a passar por aqui!





[1] Almeida Garret
[2] Dados Eurostat 2015

30 junho 2015

JUSTIÇA!

A actuação da PARPÚBLICA é posta em causa, de forma clara e evidente, na auditoria do Tribunal de Contas (TdC). A “PARPÚBLICA, Participações Públicas, SGPS, SA, Sociedade Gestora de Participações Sociais de capitais exclusivamente públicos, criada por Decreto-Lei no final de 2000 constitui um instrumento do Estado para a gestão de participações em empresas em processo de privatização, apoiando os processos de privatização, no quadro aprovado pelo governo. As missões cometidas à PARPÚBLICA pelo diploma que a constituiu desenvolvem-se através dos mecanismos próprios de uma SGPS, ou seja da sua carteira de participações e através da prestação de serviços à tutela[1]
A holding que gere as participações empresariais do Estado e que foi a entidade executora das privatizações da EDP (conclusão da 7ª e 8ª fase) e da REN (2ª fase), que são apreciadas nesta primeira auditoria, merece reparos pela falta de transparência em aspectos relacionados com a escolha dos consultores para os negócios. Segundo o TdC, estes processos de privatização (realizados entre 2011 e 2013) tiveram encargos totais de consultadoria de aproximadamente 28 milhões de euros, dos quais 411 mil euros referentes a assessoria jurídica e o remanescente relativo a consultadoria financeira (que incluiu 50 mil euros da avaliação das empresas e 27 milhões da assessoria da venda).
Diz o TdC que “a PARPÚBLICA não assegurou que os consultores financeiros (seja para a avaliação prévia ou a assessoria no decurso do processo de venda) ficassem impedidos de assessorar posteriormente os potenciais investidores, no mesmo processo, o que veio a acontecer com a contratação do BESI no processo de (re)privatização da EDP e da REN”. Não só o banco de investimento do antigo BES prestou serviços ao Estado como avaliador, como depois foi consultor financeiro dos compradores: a China Tree Gorges, no caso da EDP, e a State Grid, compradora da REN. “Constata-se, assim, que a PARPÚBLICA não tomou as devidas precauções para evitar os conflitos de interesse, o que não é consentâneo (…)  com a experiência da empresa
A auditoria refere outra situação relacionada com os consultores financeiros em que a “actuação da PARPÚBLICA torna-se passível de censura pública”. O TdC recorda que as avaliações económicas e financeiras da REN e da EDP couberam ao Millennium BCP, Caixa Banco de Investimento (CaixaBI) e BESI, entidades que já estavam pré-seleccionadas para o efeito. Mas os restantes trabalhos de consultadoria financeira foram efectuados conjuntamente pelo CaixaBI e pela Perella, que foi subcontratada pelo banco de investimento da CGD “com o consentimento tácito da PARPÚBLICA, sem estar incluída na lista dos pré-qualificados para a assessoria financeira aos processos de privatização”.
O TdC sublinha que a PARPÚBLICA “não poderia, por acção ou por omissão, consentir a subcontratação por um candidato pré-qualificado de outra entidade que não figurava na lista”. Um subcontratado que agiu “de forma interventiva e autónoma (…) com o assentimento da PARPÚBLICA”. E embora, em sede de contraditório, a holding pública tenha vindo “alegar que a participação da Perella se resumia à mera figura de auxiliar”, prevista na lei, o TdC lembra que a Perella dividiu equitativamente com o CaixaBI os honorários pagos pela PARPÚBLICA para a assessoria financeira (27 milhões). Mas o TdC vai mais longe e diz que a holding pública evidencia “falta de transparência” no que toca à “contratação de consultores externos associados aos processos de privatização”; acusa-a de incumprir as orientações da Direcção Geral do Tesouro e Finanças (DGFT) em matéria de contratação de consultadoria técnica e também contesta o entendimento da PARPÚBLICA de que não está sujeita ao código de contratação pública (CCP) e de que não tem por isso de publicar os respectivos contratos no portal BASE.
Estas vendas geraram uma receita bruta de 3,2 mil milhões de euros, dos quais 2,7 mil milhões foram entregues pela PARPÚBLICA ao Estado para amortização da dívida pública, refere o TdC. Apesar de considerar os modelos de privatização e os encaixes “adequados” e de referir o impacto positivo das operações nas avaliações regulares da troika, o TdC destaca que, “numa perspectiva de racionalidade financeira, o timing imposto” para a sua concretização representou para o Estado “um custo de oportunidade” por terem sido realizadas num “enquadramento económico muito negativo”, ao que se soma “a perda de dividendos futuros, anualmente distribuídos por estas empresas”.

E agora, perguntará o cidadão comum, o que se vai passar? E pensará, tal como nós, que uma atitude de lesar o Estado Português em cerca de 2 mil milhões de euros, deve ser severamente punida, apurando as demais responsabilidades de uma Empresa, sublinhe-se, constituída por “…capitais exclusivamente públicos”. Mais, acredita-se que estão em causa, para além da transparência, o costumeiro clientelismo (bem à maneira dos partidos do dito “arco do poder”), com evidente utilização da máquina do Estado em benefício próprio. Trata-se afinal, como em praticamente todos os processos de privatização feitos por este governo, de uma venda ao desbarato. E, segundo bem disse Catarina Martins[2], “… a perda de dinheiro não é o pior. O pior é a perda de capacidade estratégica, de capacidade de decisão e capacidade de garantia de que o nosso país tem energia”.
Sim, o que vai passar? Claro que não é suficiente o "julgamento" político. Lógico seria, em termos de Justiça, que imediatamente fosse accionado a respectiva queixa-crime contra os responsáveis. Quem faz isso? O Ministério Público, certamente, diria (uma vez mais) o cidadão comum. Aqui parece haver, de facto, matéria para deter imediatamente em prisão preventiva, aquelas ou aqueles que lesaram os bens públicos. E ainda, a suspensão imediata das actividades da tal Empresa.
Se tal não for feito, de imediato, o tal cidadão comum dirá, uma vez mais, que a justiça no nosso País, é realmente…treta…



[2] ESQUERDA.NET, 29 Junho 2015

28 junho 2015

 A VERDADEIRA CHANTAGEM


Após a malograda tentativa de chegar a um acordo, Varoufakis retira-se da reunião dos ministros das finanças europeus. Ganha a verdadeira chantagem sobre a Grécia, um verdadeiro ultimato para os gregos aceitarem uma severa e degradante austeridade sem fim e sem qualquer perspectiva de recuperação social e económica, uma punição moral sobre um povo, que escolheu um caminho diferente: a recusa terminante ao pensamento único e a defesa da democracia e da soberania. É sempre bom lembrar a que os governos gregos anteriores fizeram foi endividar o seu povo, com acordos e cedências perante a finança internacional, que chegou ao ponto de armar o País, por exigência da França e da Alemanha.

A unanimidade do conselho europeu é significativa, juntos no pensamento único, a TINA (There Is No Alternative!), para vergar um governo legitimamente eleito e que, este sim, defende o seu Povo. Diria Tsipras, a propósito “…Ao autoritarismo e à dura austeridade, responderemos com democracia, calmamente e de forma decisiva.” Só que “isto” não pode acontecer no tal “espaço europeu” que nos prometeram de solidariedade e de respeito pelas pessoas. Invisível ou talvez não, o punho imperial da Alemanha, bate em cima da mesa, quando há desrespeito pelas ditas “regras da União”. E uma das formas de impor o poder é, receita comum, a austeridade sem limites. O FMI recusa todas as propostas apresentadas pelo Governo grego e “decreta” o “normal” nestes casos:  aumento do IVA na restauração para 23%, eliminação das reformas antecipadas a partir do fim do mês,  congelamento das pensões até 2021, subida das contribuições para saúde dos pensionistas de 6%, suspensão dos pagamentos pelo Estado do  fundo de pensões até 2017, fim do suplemento para pensões mais baixas, fim do tratamento fiscal preferencial para agricultores e subsídios ao gasóleo agrícola, aprovação, até Novembro deste ano, de legislação laboral que racionalize a tabela salarial do Estado grego. Estas propostas violam directamente os direitos sociais e fundamentais europeus e são reveladoras de que, no que diz respeito ao trabalho, à igualdade e à dignidade, do objectivo de alguns dos parceiros e instituições para uma humilhação do povo grego. Elas seriam, sem qualquer dúvida, um novo fardo insustentável e representariam um autêntico boicote à recuperação da economia e da sociedade, afinal uma perpetuação da instabilidade, acentuando ainda mais as desigualdades sociais.
Sabendo de antemão que, medidas como estas, irão escravizar completamente o País, as chamadas “instituições” cavalgam a onda da mais intolerável ditadura e desprezo pelas populações, unicamente com o intuito de cumprir mais um programa de falhanço completo, com uma dívida sempre a subir. Mas o que se trata aqui é ainda mais de uma inqualificável atitude para derrubar um Governo eleito, apenas isso. A própria integração europeia está agora mais que nunca ameaçada. Ao pedido formal, satisfeito seguramente se na Grécia existisse um governo igual aos outros, para prolongar por alguns dias o programa actual, para que o povo grego possa decidir, livre de qualquer pressão e chantagem, a troika diz majestaticamente não.

Entretanto, o Parlamento grego aprova e ratifica a proposta do Conselho de Ministros de um Referendo a realizar no próximo 5 de Julho e esta decisão vai decerto (mais uma afinal) irritar os líderes europeus e perturbar os ditos mercados, causando-lhe o tal “nervosismo” que pode depois prejudicar as taxas de juros do serviço da dívida. E para as pessoas? Nem por um momento há uma referência a desigualdades ou a miséria das pessoas. Isso não conta, pura e simplesmente.


Está instalada uma potencial guerra. Porque agora já não é possível voltar atrás. Ou vence o pensamento único, mais austeridade, mais dívida, mais pobreza e mais miséria, mais umas centenas e milhares de ricos a crescer as fortunas, mais morte afinal. Ou se perfila uma nova atitude, a rejeição total e definitiva da subjugação, como já aconteceu num passado não muito distante. Agora já não haverá possivelmente meio-termo e aqueles que jogam sistematicamente nessa via, vão ter que pensar melhor e posicionar-se de um dos lados. A frase feita, “A Luta Continua” não podia ser mais actual. Estamos decididamente aí!

23 junho 2015

VENDIDO!























VENDIDO!
Na fachada do Parlamento, o cartaz que parece absurdo, ganha forma e sentido na realidade. Uma actualidade gritante, escandalosa, dolorosa e vil. A Assembleia da República, ou melhor, o majestático edifício do largo de S. Bento, na sua imponência o símbolo da República, já conheceu, nestes dois séculos, conhecidas atribulações. Conta a história, que se trata de um palácio de estilo neoclássico, construído em finais do século XVI como Mosteiro de S. Bento da Saúde, para os monges beneditinos.
VENDIDO!
A uma qualquer remax, fruto dos tempos gloriosos da bolha imobiliária, a que só falta a foto de um chinês e o respectivo número de telemóvel de contacto.
VENDIDO!
Como tanta coisa neste País que, apesar das diatribes de indivíduos sem espinha e sem escrúpulos, é o nosso País, de que nos orgulhamos, o mesmo dos nossos filhos e dos nossos netos.
VENDIDO!
Desde a REN à PT, a CIMPOR, os Correios, às empresas de transportes públicos, tudo é vendido ao desbarato. Vem o chinês e diz “Portugal é o melhor país para comparar empresas”, pudera a oferta é boa e ao preço da uva mijona. Alguém regula isto? Mas seguramente que deve existir algum comité, pessoas que zelem pela Pátria dos Descobrimentos, a tal que deu mundos ao mundo e que agora “dá” empresas ao mundo, vá lá, tudo em saldo, segundas oportunidades, até 70%, entre e veja por si!
VENDIDO!
Triste Pátria que pariste filhos desta igualha, qual puta triste e abandonada às sortes.
VENDIDO!
já não temos a nossa companhia aérea, essa até deve ter ultrapassada a barreira dos 70% de saldo, levada por uma americano que afinal é brasileiro, à muleta de um português que é uma “barraca”. Triste.
VENDIDO!
A alma não se vende, pois não? De todo, diria o Pires de Lima, tudo tem um preço, nem que seja o de uma SuperBock!
VENDIDO!
O burocrata de serviço passará a factura, com número de contribuinte e passaporte para um cupão que dará acesso a um sorteio para um belo Audi, passe a publicidade.
Portugal é A loja dos 300 da Europa, VENDO!
Entretanto, posso dizer, com muito orgulho, como o homem que colocou a tarja,  “A MIM NINGUÉM ME VENDE”!


22 junho 2015

AINDA E SEMPRE A GRÉCIA…


“…É essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro,
que eu me pergunto se tem algum sentido numa situação
ou no quadro de existência de uma espécie que se diz racional
“Diálogos com José Saramago”, Carlos Reis, Lisboa 1997


Essencial voltar à Grécia. Num momento em que por toda Europa as ruas se enchem de pessoas a mostrar a sua solidariedade. Que obviamente não existe nunca da parte dos credores. É tão importante hoje manifestar apoio á Grécia, quanto compreender que é mesmo a Democracia e a Soberania que estão em causa., perante a ameaça totalitária, de cariz perigoso e atentatório da Liberdade.
Perante o que se passa, qual será por exemplo, o sentimento de um qualquer reformado grego de média ou baixa renda, depois de ter visto a sua pensão reduzida praticamente 60%, durante 11 vezes consecutivas? E qual será a atitude de uma família grega, também de média ou baixa renda, com a maior parte do seu agregado desempregado, receber notícia que o IVA sobre os produtos essenciais vai subir? A resposta é por demais evidente, e indiciaria somente REVOLTA. Por isso é que, qualquer que seja o desfecho do teor do acordo a negociar hoje, o Governo grego não pode, nem deve, ceder um milímetro que seja nas sua “linhas vermelhas”. E, ao pensar nisso, naquelas e naqueles que sofrem hoje na pele os desmandos dos anteriores governos, que deram origem a uma situação perto de uma catástrofe humanitária sem precedentes e com mais de metade da população em risco de miséria, o Governo grego pensa e sabe que haverá um aumento exponencial de encargos, provocados por uma dívida absolutamente insustentável, inerente a assunção de novos compromissos. Uma dívida que contém uma parte odiosa e outra parte ilegítima, por serem devidas a encargos sobre as novas gerações e constituírem em grande parte verbas para salvar bancos, essencialmente franceses e alemães…  
O Estado grego tem que pagar cerca de 1,6 mil milhões de euros ao FMI, até dia 30 de Junho. E ainda, cerca de 5,4 mil milhões de euros em reembolso de dívida, durante este ano de 2015. Entretanto, terá que receber 7,2 mil milhões de euros dos credores, sendo que metade deste valor será de imediato congelado, caso haja incumprimento. Claro que este último cenário não interessa de todo ao clube europeu, por estarem em jogo “superiores interesses”, ligados à banca e ao sector financeiro. Por este motivo, e sobretudo por ele, convém aos credores que hoje seja ratificado um acordo que, no mínimo, signifique um período extraordinário de continuação da “assistência” à Grécia. Por alguma razão, Tsipras afirmou (e bem!) que a divida grega tem que ser reestruturada de forma definitiva e não somente pontual.  
É necessário divulgar, dizer bem alto para toda gente fique informada, que a França e a Alemanha querem que a Grécia assuma mais de 2 mil milhões em armamento! Tal como em 2010, não se deve esquecer, os mesmos 2 países pressionaram a Grécia a comprar equipamento de guerra, utilizando a crise como alavanca para persuadir a Grécia a investir na indústria bélica francesa e alemã; lembra-se aqui o que disse à imprensa um assessor do primeiro-ministro George Papandreou, em Março desse ano: "Ninguém está a dizer: 'Comprem os nossos navios de guerra ou não os salvamos', mas a implicação evidente é que eles serão mais favoráveis se fizermos o que eles querem na questão dos armamentos"[1],
Apenas uma atitude é possível: não ceder. Porque ceder significaria capitular perante a pressão dos credores. Não ceder, significa defender uma Europa solidária, conceito que é perfeitamente actual e necessário e tal significa colocar as pessoas no centro das políticas, ou seja, lutar por uma Europa dos Cidadãos.  Não ceder significa finalmente lutar contra o pensamento único.



[1] Declarações feitas à agência Reuters, sob a condição de anonimato

21 junho 2015

UM TERMO GREGO PARA VARIAR


Lavar as mãos em face da opressão
é reforçar o poder do opressor, é optar por ele
Paulo Feire

Alexitimia é um termo grego, que diz da dificuldade em expressar, nomeadamente sentimentos ou emoções. Introduzido por Peter Sifneos[1] nos anos 60, fala de uma perturbação que afecta o processamento emocional, da qual resulta a incapacidade de exprimir as emoções, sob a forma de sentimentos. Resume provavelmente um comportamento ou um padrão de comportamentos, ao qual poderíamos, estendendo o conceito, juntar determinadas componentes sociais, uma vez que todo indivíduo se move num cenário desse tipo, mesmo que involuntariamente. Encontraríamos decerto alguém que receia qualquer coisa, porque teme não se saber exprimir, porque outros já disseram o que ela/ele tinham para dizer. Ou porque simplesmente tem medo, de perder o emprego, de fazer greve, porque teme o patrão…
Estaremos a produzir pessoas, potencialmente pacientes, que mostram dificuldades em falar sobre as suas emoções e sentimentos, porque terão atingido um ponto máximo da sua capacidade de compreender, pelo menos aquelas emoções? E que daí pode resultar um atrofiamento humano e social, numa vasta camada da população que perdeu a sua capacidade de atingir a felicidade ou sequer de a procurar. Seres amorfos, como convém ao regime do pensamento único? Zombies sociais que vagueiam pelas cidades, servindo apenas para produzir, ou para “render” até não serem capazes de fazer mais nada. Mas, o mais tarde possível, porque dar-lhe uma reforma aos 65 anos é cedo demais, o estado dirá sempre que não tem dinheiro para lhe pagar. O pagamento é, fórmula perversa, exactamente ao contrário, uma vez que é a pessoa que paga o “exagero” de viver mais tempo, circunstância prescrita pelo sistema, na definição da esperança média de vida, que “determina” tal capacidade.
A percepção que a Direita tenta impingir de que o País está melhor é porventura a falácia mais iníqua que enfrentamos. Como podemos aceitar tal dislate, quando dia a dia verificamos uma coisa tão simples quanto isto: ganhamos menos que há 4 anos, sem um aumento mínimo que fosse correspondente a inflação. Sistematicamente, no início de cada ano, aumentam os preços dos transportes, da energia, das telecomunicações, da água, dos bens essenciais, tudo sujeito as regras de um mercado que se quer rei e senhor, para regular a actividade económica e financeira. Entretanto, apesar de todos os sacrifícios, a dívida aumenta e aumentará sempre, com esta politica de devastação, até se chegar ao “ponto de equilíbrio” imposto pela ditadura do pensamento único que significa na prática um estado mínimo, com tudo a sua volta nas mãos dos privados que irão gerir a coisa pública a seu belo prazer, deixando esta de ser pública, porque quase tudo será privado e submetido a uma estratégia de obtenção de lucro máximo, pelo serviço mínimo.
Parece entretanto que esta lógica resulta, a avaliar por sondagens que são ardilosamente fabricadas. Passa a mensagem que valeu a pena fazer sacrifícios, que a austeridade embora “desagradável”, foi necessária para acertar as contas, para baixar o défice, para ”pagar o que devíamos”, porque “andávamos a viver acima das possibilidades” e porque é preciso “honrar os compromissos”. Seria interessante que aqueles que aparentemente assimilaram este discurso soubessem, por exemplo, que em 2010, uma grande maioria da população portuguesa (63%) nada devia aos bancos ou a qualquer instituição financeira[2]. Ou que, quem de facto deve é quem mais rendimentos tem, ou seja, que a dívida média das classes de rendimentos mais altos é cerca do dobro da classe de rendimentos mais baixos e que dívida média da riqueza mais alta é cerca de 6 vezes maior do que a classe de riqueza mais baixa. E ainda que no grupo dos 10% das famílias com maiores rendimentos, quase 58% das famílias eram devedoras, no grupo dos 20% das famílias com menores rendimentos, somente 18% das famílias eram devedoras[3].
Não admira pois que a busca de felicidade, consubstanciada numa pretensa melhoria de qualidade de vida, seja um paradoxo permanente. Uma legítima pretensão, perfeitamente inatingível, para 90% de uma população devastada pelos efeitos destas políticas de miséria. Como pode a grande maioria das pessoas sujeitas a medidas ditatoriais (o termo é este, tão simples quanto isso…) aceitar tal circunstância e ainda por cima dar o seu voto aqueles que os colocaram nesta situação? Só mesmo em estado de bloqueio permanente, uma qualquer alexitimia, que comprime a pessoa e a impede de manifestar, de forma sadia e salutar, o seu ponto de vista, as sua verdadeiras emoções e sentimentos.
Na mesma lógica, os que atacam a Grécia esquecem-se sempre que, quando o fazem, estão a transferir esses ataques para os anteriores governos, chefiados pelos partidários das políticas alinhadas com eles. Mas o que verdadeiramente lhes interessa neste momento é atacar. Para mobilizar trunfos e baterias sobre um governo legítimo, que defende o seu Povo e que faz resistência ao pensamento único e à miserável exploração do capital internacional, prestando também um excelente serviço à política europeia na defesa dos direitos humanos e universais. Quando se diz,”“Não queremos a Grécia fora do euro” significa, por esta ordem, “queremos derrubar o governo do Syriza”, “queremos o Syriza humilhado a morder o pó das suas promessas eleitorais”, “queremos os gregos a sofrerem mais porque votaram errado e têm que ter consequências”[4].
Não será porventura despiciendo nos tempos que correm, aparecer um termo de origem grega, com esta dimensão. A alexitimia pode configurar simplesmente um dos resultados da … opressão.




[1] Psiquiatra e pesquisador grego (1920-2008)
[2] Dados do Relatório Preliminar do Grupo Técnico, da Iniciativa Auditoria Cidadã à Dívida, sob o título “Conhecer a Dívida para Sair da Armadilha”, Lisboa Dezembro 2012
[3] Idem, ibidem
[4] Transcrição da crónica de José Pacheco Pereira, Jornal Público, 20 de Junho 2015

19 junho 2015

A VERDADEIRA CHANTAGEM…

Tristes aqueles que julgam ter o poder na mão,
tão cedo quanto menos esperam, ele lhe irá fugir…”,
Do Livro dos Conselhos

Não que tenham algum valor significativo. Nada aliás de estranhar do comportamento daquele que, na prática e para desgraça de todos nós, é o mais alto dignitário do Estado Português. Aquilo que ele diz, aquilo que sempre disse, desde que este governo miserável entrou em funções, acaba por ser um reforço ou a mais descarada colagem às politicas que têm continuamente desgraçado o País e colocando-o na mira dos mais inconfessados interesses privados e na perca contínua de soberania. Pior era decerto impossível. Mas o homem conseguiu ontem o impensável: insultar um País, os seus legítimos representantes, acusando-os de “chantagem sobre a Europa”!. Como se fosse possível configurar tal cenário, um povo que luta desesperadamente por ultrapassar uma situação de pilhagem contínua, da Europa, do FMI, permitida aliás por sucessivos governos colaboracionistas com uma situação intolerável, que chegou ao ponto, do armamento forçado em 2010[1].
É absolutamente inaceitável que a grande maioria da comunicação social, falada ou escrita, continue “colada” ao pensamento único, passando no dia-a-dia sucessivas informações, que só podem ter como intenção criar um clima de desconfiança generalizada naqueles que governam a Grécia. A forma como são transmitidas essas notícias, a avalanche contínua de declarações dos “responsáveis adultos” das, agora designadas, instituições, têm um efeito devastador na formação de uma opinião pública. Ao mesmo tempo que são repetidas até a exaustão frases como “a bola está agora do lado da Grécia”, “a Grécia não apresentou alternativas as medidas propostas”, “a Grécia não aceita propostas dos credores”, “o FMI e as instituições apresentam novas propostas tendentes a conseguir um acordo”. E, como contraponto, a única (com as variantes mais diversas) sentença para o outro lado, “a Grécia não aceita passar as linhas vermelhas que definiu, nem cortes nas pensões, nem nos salários, nem na desregularão laboral”. Quando se argumenta que um país tem que defender, acima de todo o resto, o seu povo e respeitar a vontade expressa em eleições, a resposta é sistematicamente a mesma, consubstanciada na tese “sim, mas acima de tudo estão os compromissos assumidos, é muito bonito defender medidas com o dinheiro emprestado”. E de novo a mesma narrativa do lado dos credores, da Direita europeia, dos colaboracionistas é repetida por comentadores acéfalos, vendidos ou simplesmente subjugados, mas também (pasme-se!) por pivots de telejornais, que repetem a famigerada tese “…mas não há dinheiro!”.
Acima de tudo é uma questão política. O que os defensores e praticantes do pensamento único não admitem, não podem e não admitem mesmo, é que exista uma voz diferente, falando contra a ideia dominante. Tivera a Grécia, neste momento, um governo colaboracionista, e ver-se-ia exactamente a posição contrária, todos e em força para salvar o País.
Acontece porém que são sistematicamente ignoradas, todas as propostas feitas pelo governo grego às instituições, precisamente porque o que interessa é descredibilizar as pessoas e as entidades gregas. Ora esta é uma outra vertente da desinformação sistemática e que tem a ver com algo que é sempre sensível para a opinião pública, a ideia dos extremismos. O governo grego, pela voz do Sirysa é extremista, tem posições extremistas, prometendo ao povo o impossível, um “conto de fadas”, na opinião de um conhecido “estadista europeu”. Quando se lê, quando se estuda e analisa o conteúdo das propostas gregas, chega-se a conclusão que são propostas sensatas, que qualquer pessoa de bom senso e de boa fé, defenderia perante uma situação de crise, de tragédia humanitária e de pobreza galopante. Atente-se por exemplo nestas 4 propostas apresentadas em Março deste ano, pelo primeiro-ministro grego e que têm como objectivo “…garantir ganhos de receita para o Estado e uma maior eficiência no controlo da despesa pública e combater situações de maior pobreza que se registam actualmente na sociedade grega”:
     . criação de um conselho de finanças públicas;
  • novas regras orçamentais, para mudar a lei orgânica do orçamento que inclui a introdução de tectos de despesa sectoriais e a introdução de mecanismos correctivos para os organismos que não cumprirem as regras;
  • legalização do jogo online, para conseguir mais receitas fiscais e obter receitas imediatas com a obtenção de licenças;
  • desburocratização do Estado, com aprovação de  legislação que proíbe os serviços do Estado de exigir aos cidadãos e às empresas documentos e certificados emitidos pelo próprio Estado.
Uma asserção tem um valor muito especial, agora como sempre na terminologia, essa sim extremista e cega do pensamento único, é “…a Grécia ter de continuar com as reformas”. Sabemos bem, quanto mais não fosse pelo exemplo dos fiéis depositários de tal pensamento em Portugal, o que isso significa: austeridade mais austeridade, cortes nos salários e nas pensões e nos serviços sociais do Estado, privatizações, desvalorização progressiva da contratação colectiva, perca galopante do valor do trabalho. Tudo receitas para empobrecer a grande maioria da população e enriquecer progressivamente uma minoria de privilegiados, dos quais no nosso País, uma maioria imensa vive “pendurada” no próprio Estado, alimentando-se dele enquanto pode.
Todos os dias as notícias nos anunciam sempre e mais desgraças. Ou é mais uma privatização vergonhosa e descaradamente ilegal (pelas próprias normas que a orientam, caso da TAP…), ou mais um aumento dos bens essenciais, um aumento (sempre) dos combustíveis num mercado perfeitamente selvagem e onde está sempre tudo bem para o Regulador, uma progressiva diminuição do poder de compra, sucessivos atentados a uma justiça digna, mais um, sempre mais um escândalo de favorecimento e de corrupção que depois dá em nada. Não há um prenúncio de as coisas melhorarem, a não ser na cabeça das figuras menores e, muitas vezes ridículas e patéticas dos governantes, e que vivem num “limbo” especial, sempre com a mais intolerável arrogância e diletantismo. Temos apenas uma luz que vem do berço da Democracia, um País que se tenta levantar contra a injustiça e a iniquidade, a tentar provar que não pode ser sempre assim, que os povos têm mesmo que se levantar pela sua soberania, pela defesa das pessoas e dos seus direitos, contra as desigualdades, contra as injustiças sociais, pela erradicação da pobreza. Contra todos aqueles que ditam o pensamento único. Contra os colaboracionistas também, aliás muito cuidado com eles, porque utilizam uma linguagem ambígua e propositadamente confusa e que na prática apenas serve para distrair…
Existe hoje uma verdadeira chantagem, que é a única que não existe na Grécia: é a deste governo, desta “coligação”, deste simulacro de Presidente, sobre as pessoas, com o pretexto “nós ou o caos, o desperdício, o retorno, agora que fizemos os sacrifícios e está tudo bem…”. Essa é uma chantagem a que urge responder e essa resposta, embora parecendo mais que óbvia, não encontra ainda reflexo nas projecções de voto.


[1] No meio de uma crise económica, o Governo grego gasta milhares de milhões em armamento”, declara o diário polaco Dziennik Gazeta Prawna, indignado. Em Março, o Governo de George Papandreou assinou um negócio para a compra de dois submarinos à Alemanha, num total de 1,3 mil milhões de euros; e, em Maio, comprometeu-se a comprar navios de guerra e helicópteros à França, no valor de 2,5 mil milhões de euros. De acordo com peritos, concordar com ambas as transacções era uma das condições informais para que a UE e o FMI concedessem à Grécia o pacote de apoios de 110 mil milhões de euros.

11 junho 2015

Contributos Para O Desassossego (2)

A TRISTE APARÊNCIA DA DESGRAÇA

A única coisa que importa é o triunfo do agora.
É a isto que eu chamo a «cegueira da razão»”.
“Outros Cadernos, El Cronista”, José Saramago, 1998


A pobreza confrangedora do discurso combina na perfeição com o personagem triste e vergado ao peso da péssima imagem que tem no País. Sem a mínima possibilidade de elaborar umas palavras que façam a diferença, sempre colado e conivente com a desastrosa política do governo, o homem lá vai repetindo um discurso cansativo, de recorte sistematicamente semelhante, não poupando os que ainda são capazes de o ouvir durante mais de 2 minutos. Para quem fala ele afinal? Para fora, para dentro, para os privilegiados (como ele) dos negócios do BPP, para meia dúzia de reformados de luxo (como ele), para os detentores de refúgios no Algarve, para os banqueiros, para os homens de recorte duvidoso que sempre o acompanharam, para uma minoria social que cada vez mais cresce em dividendos e prebendas? Entretanto que palavras tem para os que sofrem na pele os desmandos da sua clique, para os desempregados que penam dia a dia sem qualquer esperança de encontrar trabalho digno, para os jovens que são o futuro do País e que não vislumbram futuro nenhum, para os seniores que vêem cortadas as sua pensões e têm que sustentar filhos e netos, para uma enorme massa humana que vive no limiar da pobreza? Nada, um completo vazio, tal como a sua personagem entediante. Arautos da desgraça? Que dizer disto, quando o futuro parece ser penalizar sempre e cada vez mais as gerações que vivem do trabalho, cada vez mais precário e indigno? Desgraça é ter um personagem destes num lugar que deveria ser de respeito. Desgraça é ouvir a lengalenga do costume, sempre pautada pelo elogio da injustiça social e da conformidade perante o ataque aos direitos das pessoas. Alguém disse, suprema ironia, que se iria condecorar a si próprio, pois ninguém no futuro será capaz de o fazer. Tendo falhado em toda a linha, vem agora “despedir-se” com mais do mesmo e sem o mínimo sinal de generosidade. Nem para os que nele alguma vez terão confiado o voto. Superior a tudo isso, pairando numa nuvem seca que não é capaz de dar um único pingo, o homem não é capaz de acabar o mandato com dignidade, porque é muito capaz de não conhecer o termo, ou dele ter a imagem distorcida que caracteriza o seu semblante tenso e carregado, capaz apenas de produzir um sentimento: tédio.


Sem ser capaz de dizer em português correcto “cidadãos”, preferindo os “cidadões” que qualquer corrector emenda de imediato. O homem que sempre teve razão triunfa no agora, porque o agora é efémero. Como é porventura limitado na capacidade de análise, contenta-se apenas com isso.