rio torto

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24 setembro 2015

UMA LÓGICA PERVERSA


A libertação total do homem está para além da libertação económica,
está na sua afirmação plena na vida
 Anónimo, Maio 68 França, recolha de Daniel Singer (“Prelude to Revolution”, 1970)


Muito embora nenhum crédito mereça, algumas afirmações do PM não podem passar em claro, pelo desplante e hipocrisia que revelam. PPC disse, no debate das rádios (17 de Setembro). Para além do habitual chorrilho de mentiras que debita, o PM em exercício disse que o País se mobilizou para resolver os problemas e que as pessoas compreendiam agora bem os sacrifícios que fizeram. A afirmação contém uma pesada carga demagógica e parece querer reeditar o ditado popular “Quanto mais me bates, mais gosto de ti”.

Que as pessoas se mobilizaram até é verdade, mas para resolver os seus próprios problemas, das suas casas, das suas famílias, dos seus ascendentes e descendentes. A circunstância de terem os salários e as pensões cortadas, para além de diminuir drasticamente o já baixo rendimento familiar, provocou uma dose de infelicidade imensa nas pessoas, privadas que foram dos seus direitos mínimos, atingidas duramente na sua própria dignidade, sujeitas ainda por cima à vergonha incrível da caridade, protagonizada nomeadamente por uma conhecida figura da praça mediática. Os empregos destruídos, a imigração forçada de centenas de milhar de jovens, muitos deles altamente qualificados, todos os níveis que medem a qualidade de vida a atingirem valores inacreditáveis nas médias da EU. E, mais uma vez, todo este cenário de pobreza e de miséria, a contrastar como o acumular sucessivo de grandes fortunas, devido à mais despudorada e vergonhosa transferência dos rendimentos do trabalho para o capital. A suprema mentira que o governo cultivou, e ainda cultiva, de que os chamados sacrifícios foram “distribuídos”. A vergonhosa manipulação dos números relativos ao emprego/desemprego, para tentar passar a mensagem que a situação estava a melhorar. O massacre diário contínuo da exaltação das exportações e os seus prováveis benefícios contrastam com a realidade, pois de facto, apesar do seu crescimento, “…elas têm-se revelado insuficientes para pelo menos compensar o gasto pelo país com importações, e muito menos para dar qualquer contributo para o crescimento económico.”[Rosa, 2015].

A segunda asserção tem a ver com a alegada compreensão dos portugueses face aos sacrifícios. Do ponto de vista governamental, os mesmos seriam vistos sob o ponto de vista punitivo. “viveste acima das tuas possibilidades”, logo pagarás os teus desmandos. A punição é portanto clara, cortar no que é considerado um privilégio, a saber, no salário que corresponde a retribuição do trabalho, agora cortado às cegas, para castigar quem “errou”. Mas nem tal seria suficiente, tendo sido necessário “castigar” ainda mais, com o brutal aumento de impostos da era Gaspar. E as pensões, cortadas também, quebrando desta forma a lógica de um direito inalienável para quem trabalhou uma vida inteira. A cegueira ideológica deste governo atingiria porém, em meados de 2014, aquela que terá constituído a maior e mais completa ignomínia, aquando dos cortes no complemento solidário de idosos, que deixou mais de 38 mil pessoas sem qualquer prestação social. Diga-se entretanto de passagem que a “compreensão” dos portugueses a estas medidas de miséria, se viu na rua, nas manifestações partidárias e não-partidárias, organizadas ou espontâneas. Mas não só, se pensarmos na quantidade de vezes que as pessoas se mobilizaram para “brindar” as/os membros deste governo, com “recepções” dignas do seu descaramento.

A propaganda de uma coligação que parece remetida, ou mesmo acantonada, aos seus limites quanto ao número de apoiantes é, na realidade, um somatório de mentiras, mesclado de uma visão estreita e comprometida. Tem um lado patético, como seja a da exibição constante de números em que nem sequer acreditam, bem como o da aposta em “figuras de estilo” de baixa qualidade intelectual e moral e de duvidosa reputação[1]. Mas tem ainda um lado trágico, que representa uma manifesta incapacidade de lidar com a situação que ajudaram a criar na Educação, na Saúde, na Segurança social, na Justiça e finalmente na gestão ruinosa traduzida na venda do País a retalho, supostamente para diminuir uma dívida que não pára de crescer e já ultrapassou os 130% do PIB. Os números apontados para o valor do défice de 2014 confirmam agora esta lógica perversa.

Os comentadores “oficiais”, quase todos da simpatia e graça do governo e que ocupam a quase totalidade dos lugares nos espaços de informação, “dividem-se” para saber o que eventualmente é mais importante nesta campanha, se apresentar propostas para o futuro, ou se analisar e julgar o passado. Mais uma vertente da “lógica perversa”. Será que é possível ignorar um edifício a construir sem ter em conta um cem número de condicionalismos precisos? Qualquer acto eleitoral significa, antes de tudo o mais, um juízo de valor sobre a governação em curso, que assim se sujeita ao veredicto popular. Este governo tem que ser julgado, pelo menos politicamente, pelo que fez (e não fez) em 4 anos de governação. E a questão que se coloca é, antes de mais, como poderemos esquecer? Esqueceremos Gaspar e o que significou o tremendo choque fiscal? Esqueceremos a sua substituta, que deveria antes estar a responder pelos prejuízos que deixou ao País pelas suas swaps? Esqueceremos o zigzag permanente do Portas e dos seus submarinos? Esqueceremos os ataques constantes à Escola pública, com a entrega de concessões e benesses aos colégios privados, bem como a enorme machadada no Ensino Superior e na investigação, do inenarrável Crato? Esqueceremos a ministra de uma Justiça que cada vez mais é um privilégio de classe? Esqueceremos a campanha insidiosa sobre a sustentabilidade da Segurança Social, no sentido de descredibilizar o sistema e entregá-lo aos privados? Esqueceremos o apoio dado por Cavaco a tudo isto? Esqueceremos finalmente a submissão completa deste governo às pressões e chantagens de uma União Europeia, uma traição à Pátria, consubstanciando o que existe de mais reaccionário e servil enfeudamento a políticas do estado alemão sem qualquer rasto que pudesse significar uma qualquer negociação?

Embora a resposta a estas questões possa parecer clara e evidente, pelo menos para a grande maioria da população, a verdade é que tal não parece suficiente para arredar do poder este grupelho de fanáticos, uma minoria que inclusivamente é atacada por destacadas figuras dos 2 partidos que a apoiam. Pode esta lógica perversa impor os seus desígnios a um Povo e, ainda por cima, “legitimada” pelo voto? Ninguém deve muito provavelmente ter uma resposta definitiva. A conjugação de diversos factores e de situações de contexto, aliados a uma convenção de fortes interesses particulares, pode por vezes condicionar atitudes e comportamentos e assim induzir o sentido de voto. Muito embora nos queiram fazer crer, não vivemos mais num sistema democrático, tão-somente uma pálida imagem de Democracia, onde a própria liberdade é colocada em causa, pela perda constante de direitos fundamentais. O exercício da Cidadania é condicionado pelo medo. A dívida oprime, a subjugação é determinada pelo conceito fútil que a dívida tem que ser totalmente paga, sem que os cidadãos conheçam verdadeiramente como a dívida é constituída. O serviço da dívida, para além da opressão que supõe, encerra mais uma lógica perversa. Porventura a mais perversa de todas, já que determina, ou parece determinar, a subjugação do País. Analisando as propostas conservadoras dos partidos que dizem constituir o “arco governativo”, concluímos da inevitabilidade de viver eternamente para pagar aos bancos e ao sistema financeiro em geral. A pergunta é, se não esquecemos, vamos pactuar?

Os tais sacrifícios de que fala PPC são de facto estes, confirmados nas recentes notícias sobre o BES. Como poderemos admitir? Como ousam ofender os direitos dos cidadãos, em nome de uma lógica perversa em que nos enredaram? Como ousam propor-nos as mesmas receitas que desbarataram um País, que em 4 anos regrediu, pelo menos, 13 anos?
Vale a pena ter memória. Vale a pena parar e pensar um pouco. Ainda vamos a tempo.
Alguém nos diz, tem cuidado!


[1] Sobre esta matéria é curioso ler uma entrevista do jornalista britânico Philippe Legrain ao Bruno Maçães, um dos rostos da propaganda, perfeitamente ao nível da que fazia António Ferro ao regime fascista, mas sem atingir o nível daquele (…). Disponível (ainda) em: http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2015/08/exportar-propaganda-rasca-nao-e-facil.html

23 setembro 2015

Restaurar a DIGNIDADE




A mudança é uma das características das sociedades. Era-o na antiguidade e é de novo no presente. Na realidade, “…mesmo quando tudo parecia parado, existiram movimentos, para muitos imperceptíveis, de mudança e de pensamento para o futuro” [Rodrigues, 2013]. No presente muito concreto, pese embora a resistência que tradicionalmente se lhe opõe, a mudança é agora sentida pela grande maioria das pessoas.
Num momento particularmente importante da vida das portuguesas e dos portugueses, a campanha eleitoral em curso para as Eleições de 4 de Outubro 2015 representa uma oportunidade significativa para afirmar a necessidade e a emergência de uma mudança. Particularmente afectadas por um conjunto de políticas hostis, as populações sentem o peso da carga de austeridade a que foram sujeitas, para liquidar os solver uma dívida que não pára de aumentar, apesar das promessas que lhes foram feitas no sentido contrário, como forma de explicar que valeriam a pena os sacrifícios. O certo é que foram só alguns, a grande maioria, a fazer sacrifícios, enquanto mais uma vez uma pequena maioria ia enriquecendo sobre a pobreza e a miséria. E o resultado? Segundo dados recentes do INE, registam-se no nosso País dois milhões de pobres (19,5% da população), com particular incidência nos mais jovens (entre os menores de 18 anos a pobreza chega a 25,6%). Mas há mais, uma vez que estes dados são parcialmente camuflados pela redução do nível de vida da população no seu conjunto, porque a “linha da pobreza” é uma medida estatística definida por 60% da mediana dos rendimentos de todos, e se estes baixam por causa da recessão, então muitas pessoas deixam de entrar na classificação mesmo que continuem pobres[1].
Como nos avisa Edgar Morin, o pensamento político está reduzido à economia, como se tudo pudesse ser calculado e, desta forma, parece passar despercebido à elite que se sente como poder instituído de forma permanente, pese mesmo a alternância habitual, que há vida para além da “sensibilidade” dos mercados e que bem mais importante seria olhar para a sensibilidade das pessoas e para o direito que lhes assiste de viver com dignidade e felicidade. Portugal foi o país que mais cortou nas prestações sociais. O investigador e professor universitário Carvalho da Silva afirma[2]O salário médio dos portugueses caiu umas dezenas de euros e mais de 50% ganham apenas até 8000 euros por ano. Mais de 20% dos trabalhadores dispõem no final do mês de apenas 450 euros líquidos (o SMN) e há milhares e milhares que ganham muito menos que o salário mínimo… Nestes quatro anos os portugueses perderam condições de acesso à justiça, à saúde e à educação, perderam qualificações e capacidades profissionais, em resultado do desemprego de longa duração e porque a grande maioria dos trabalhadores qualificados que emigraram não vão regressar. Um estudo de investigadores da Universidade do Porto, conhecido esta semana, mostra-nos que perdemos mais de 8 mil milhões de euros com a emigração dos jovens qualificados”.
Num momento em que se tentam mascarar pela via oficial os números do desemprego em Portugal e na Europa, será necessário colocar na agenda política novos temas que possam abordar nomeadamente a questão de um rendimento garantido, que significaria distribuir por todos os membros da sociedade a riqueza resultante das forças produtivas da sociedade no seu conjunto. Uma questão de justiça e de democracia, um sinal de confiança das pessoas nas instituições governamentais, num momento em que, de facto, a miséria priva as pessoas dos seus direitos fundamentais, naquele que será porventura o maior retrocesso civilizacional de que há memória, nos tempos recentes.

O papel das organizações governamentais e das organizações não-governamentais é diferenciado nas sociedades actuais. O papel das primeiras deriva do papel do Estado, definidos nos princípios constitucionais de cada país e confere-lhes a prática e a administração do poder e da justiça. Às segundas compete a promoção das populações, na sua proximidade natural com as mesmas e com a defesa de causas e princípios universalmente aceites e inscritos nas convenções e fóruns internacionais.  Pugnando por causas, as organizações não-governamentais, enquanto organizações da sociedade civil (OSC), defendem a dignidade da pessoa humana, como principio ético primeiro Este princípio orientará a defesa de outras causas, como o direito ao trabalho e a um salário digno, o direito à informação e à justiça, o direito a um serviço nacional de saúde eficiente e condigno, o direito a um sistema de segurança social que assegure a solidariedade inter-geracional e o direito a um serviço nacional de educação gratuito e assente em valores democráticos e inclusivos. As OSC são, ou deveriam ser, apartidárias. Mas não são de forma alguma apolíticas, como por vezes é subliminarmente entendido. Antes pelo contrário. A política, a sua concepção e práticas estarão sempre inscritas em cada intervenção, em todas as iniciativas, conferindo desta forma às populações o estímulo para o exercício das políticas, nas suas mais variadas formas. Compete-lhes em última instância a defesa dos direitos das populações e, naturalmente com um pendor mais determinante, aquelas franjas da população que são mais desfavorecidas. Mas não lhes compete, em caso algum, substituir o papel do Estado, que deve ser em última instância, o garante dos direitos e deveres dos cidadãos.
O direito ao voto não esgota de forma alguma a participação democrática. Não há, nem nunca houve, qualquer neutralidade em política. “Neutro é quem já se decidiu pelo mais forte”, afirmava Max Weber. A realidade demonstra claramente esta tese, nomeadamente no que reporta aos sectores da comunicação social dependentes e coniventes com o poder dos grandes grupos económicos que, a pretexto de uma qualquer “neutralidade”, alinham claramente com o sistema, apostando na sua eternização. “A política passa incessantemente pelo conflito entre realismo e utopia” [Morin, 1965]. Assumindo esse conflito, participaremos nas decisões, fazendo valer as nossas utopias. Não sendo a única arma democrática, nem se esgotando nele a cidadania, o direito ao voto é inalienável e pode significar e induzir a mudança: pela restauração da Dignidade.

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Fontes e Referências:
·       Morin, E. e J. Baudrillard, (2007), “A Violência do Mundo”, Ed. Instituto Piaget
·       http://www.jn.pt/opiniao/default.aspx?content_id=4787550
·       http://www.publico.pt/opiniao/jornal/retropia-em-educacao--a-utopia-a-olhar-o-retrovisor-26603032




[1] Adaptado do artigo “Mais oitocentos mil pobres na era da austeridade e da dívida”, da coluna do Jornal Público “Tudo Menos Economia”, por Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral
[2] Entrevista ao JN de 20 de Fevereiro 2015

10 setembro 2015

O SALTO

Toda a verdade e todo o erro, se repetidos mil vezes, tendem a converter-se no seu contrário. 
                                                                                                         Apenas pela razão de nos fatigarem.
Vergilio Ferreira



Na tentativa desesperada de promover um fenómeno telegénico, as três TV que temos lançaram no ar o Programa. Que as empata, a bem dizer, em termos de share, desta vez é assim mesmo. O belo Museu, que lembra os tempos em que o edifício da Central Tejo foi pioneiro no domínio da produção de electricidade, seria o cenário, assim como neutro, para ilustrar o “fenómeno”. Embora hoje, ou seja no dia a seguir, um jornalista pergunte “o que raio estavam os jornalistas a fazer ali?[1]”, o certo é que, para o bem ou para o mal de todos os nossos pecados, elas e ele acabam por mostrar ao País a triste mediocridade do jornalismo que se faz por cá, para além do habitual servilismo que prestam e que alimentam ao arco, chamado da governação. Pese embora a simpatia que quiseram (elas e ele) demonstrar, pelo menos ao nível bem pimba do fútil e mau-gosto iminentes. Dado então de barato que o conteúdo destas cenas interessa pouco a quem vê o ouve, seria no mínimo sensato colocar algumas questões diversas, que não as costumeiras coscuvilhices “…vai visitar o Sócrates?”, “…como vai agradecer o apoio do Sócrates?”, como se o homem fosse algum deus pudibundo de uma qualquer civilização perdida. Recordando o Fausto, “…e assim se faz Portugal, uns vão bem e outros mal[2], apetece dizer que, após o Programa, tudo ficou na mesma, os que estão bem assim irão continuar e os que mal estão não terão encontrado motivos para sorrir a Costa e muito menos a Passos. De qualquer forma, acabamos por ver este absolutamente cilindardo por Costa, que jogou ao ataque, quer na “posse de bola”, quer ainda na “organização defensiva”. Até terá sido penoso, sobretudo para quem ainda acredita na tal “coligação para a frente”, ver o homem andar para trás, descurando a defesa e “marcando na própria baliza”. E então, o Costa dá o salto em frente e enterra definitivamente o adversário, convidando-o a debater com o Sócrates, agora que este está em casa e pode ser visitado.
Então e as questões da Educação, a tentativa de destruição da Escola pública e a asfixia do sistema de investigação científica, as sucessivas concessões ao privado? Bem, quer dizer, hoje não. E a Europa, as dividas soberanas, um tratado que se diz orçamental e que significa o garrote ao investimento público e perpetua a dominação alemã? Sim, mas quer dizer, hoje não. E a venda de um País a retalho, com repetidas irregularidades denunciadas pelo Tribunal de Contas? Talvez, mas quer dizer, hoje não. E as derrapagens nas PPP, rodoviárias e não só, que obrigam o Estado a um sistema rentista, uma vassalagem aos privados, sempre a ganhar mais e mais? É, mas quer dizer, hoje não.
A denúncia de Costa relativa ao aumento inacreditável da dívida para 130% do PIB, depois de andarmos 4 anos a pagar para que fosse diminuída, colherá frutos no eleitorado, apenas porque é feita por quem é? Afinal não verdade que desde 2011 uma imensidão de gente, que não tem voz na comunicação social, dizia e disse exactamente o mesmo e tal não se traduziu aparentemente nas diversas sondagens até agora publicadas, salva umas pequenas migalhas? É de facto com alguma tristeza, “…Ai que tristeza, esta minha alegria/Ai que alegria, esta tão grande tristeza[3], que rejubilamos, apenas por não poder aspirar a mais que não seja a Direita perder a maioria, ainda que o salto do Costa possa não ser suficiente para atingir os mínimos olímpicos…

Temos que entender, assim aliás nos querem fazer querer, a suprema missão da informação dos tempos modernos. Ela nos conduz sempre a bom porto, sem que precisemos de dar o salto. Porque tal poderia significar que queríamos ir mais além e tal não convém à formatação que desenharam para nós. Ilustres ou míseros peões de uma realidade que nos ultrapassa, estaremos sempre “guiados” pelos media, sempre propriedade criteriosa de grupos económicos ou mesmo financeiros, os mesmos que de facto governam os Estados.
Para quê portanto dar O SALTO?


[1] Referência ao comentário do artigo de Ferreira Fernandes, DN 10 Setembro 2015
[2] Poema de Fausto Bordalo Dias “Uns Vão Bem e Outros Mal”, álbum “Madrugada dos trapeiros”, editado em 1977
[3] Extracto do poema “Desfado”, Pedro Silva Martins, cantado por Ana Moura

14 agosto 2015

MOURÃO – ALENTEJO (2) 

O PROPRIÉTARIO DAS SOMBRAS















Símbolos de um poder que oprimiu o País e ofuscou a liberdade e a criatividade das pessoas, diz-se dos que habitaram o reino das sombras. Tardava a luz que inundou o País no 25 de Abril, não sem deixar as gentes do Alentejo prisioneiras de uma espécie de castigo pela sua pesada interioridade e quiçá pela… Dela sobraria um Alentejo ansioso da sua pujança, que poderia ter algum significado no pensamento e nos escritos dos que haveriam de ilustrar na sua prosa a bravura e a honra do Povo alentejano. Que o diga, por exemplo Aquilino, que haveria de ser julgado e condenado por ter tido a ousadia de denunciar as arbitrariedades sobre as gentes do Alqueva no seu épico “Quando os Lobos Uivam[1]. Ou Saramago, um “homem como os outros, que sonha(va) e cujo sonho foi o de poder dizer do livro, isto é o Alentejo”, fazendo do seu “Levantado do Chão[2], um retrato da vida dos trabalhadores rurais e da opressão dos latifúndios e da forma como um Povo se pode e deve levantar. Ou ainda o Zeca, dizendo ao cantar, “…oh Alentejo esquecido/inda um dia hás-de cantar…”[3]. E agora é o Cante Alentejano alpendorado justamente a património da Humanidade, fazendo justiça a um Povo que sobreviveu a ditadura e impôs as suas tradições, a sua tenacidade e a sua glória.
Nos arquivos da Biblioteca da Luz, regista-se simplesmente “Alqueva, paisagem que muda, Povo que espera”. Embora a luz tenha sido mudada geograficamente de lugar, uma exigência imposta pela construção da grande barragem, o certo é que a nova Luz está bem viva e quiçá representa, pesem todas as contradições, o farol de um novo tempo, para um Alentejo que há-de ser lembrado também por isso.
Regressamos exaustos de mais um dia de exploração dos sinais que fazem esta rota de Mourão, alargada agora mais para Norte. A Casa dos Sentidos, onde passamos bons momentos com a família e os Amigos, não foi somente um ponto de encontro, foi também uma oportunidade de conhecer um refúgio de simpatia. Um tributo especial para a Ana, uma anfitriã e agora mais uma Amiga, com ela privamos e ficamos a conhecer a terra, as pessoas, os cheiros e os sabores, a história rica de tradições e costumes.
A luz do final da tarde esfuma-se, quase que cai a noite sobre Mourão quando voltamos, mas a outra (luz) há-de perdurar pela noite dentro, lembrando outros tempos que nos parecem agora tão perigosamente perto.


[1]Quando os Lobos Uivam”(1958) , Aquilino Ribeiro, Ed. Bertrand, 2ª edição
[2]Levantado do Chão”(1980), José Saramago, Ed. Caminho, 5ª edição
[3] “Cantar Alentejano”(1971), álbum “Cantigas do Maio”, Zeca Afonso

09 agosto 2015

MOURÃO – ALENTEJO (1)























Nobre e mui digna vila, com cerca de 1800 habitantes, Mourão tem a particularidade de, em tempos idos, ter existido fora do sítio geográfico em que hoje se situa. Razões históricas, ligadas a guerras e disputas com os vizinhos espanhóis, ocasionariam a dita desconstrução territorial. Os ocres e os azuis, por vezes também os verdes e o rosa, fazem as cores desta terra que tem, nas águas do Alqueva o complemento natural de uma paisagem rica de matizes, de percursos, de gentes que sabem receber, acolher e demoradamente conversar pela noite dentro, com aquele copo que deleita o corpo e liberta o espírito. As estórias de um Alentejo esquecido, mas sempre renovado. Haveríamos pois de conhecer a lenda da oliveira que, plantada no centro da vila, fornecia a quantidade de azeite suficiente para iluminar a Senhora das Candeias e que seria um dia, alvo da fúria dos elementos, ao ser atingida por um raio que a partiria em 5, visível ainda hoje.

Aqui o tempo é seguramente diverso de outros locais, se é que estes conseguem força suficiente para determinar a sua definição. Lembro a reflexão de Thomas Man[1], “É o tempo uma função do espaço? Ou vice-versa? Ou são ambos idênticos? O tempo é activo, traz consigo. Que é que traz consigo? A transformação[2], sábias interrogações, bem ao sabor do inquieto autor. E transporto o tempo para Dª Catarina de Bragança[3] que um dia, arrebatada pela devoção exacerbada à Santa, haveria de a “deslocar” para Londres, mesmo a contragosto das gentes da terra.

A visita a Adega Velha inclui, entre o espanto e o júbilo de conhecer coisas novas e diferentes, uma espantosa colecção de rádios e gravadores antigos, dos tempos da electrónica a válvulas, que ostentam uma parede inteira de uma das belas salas de repasto daquele que é seguramente um dos ícones da Vila.

Aprendemos sempre, com gentes, culturas e terras, por toda parte. Hoje sabemos desencapersionar, que é o mesmo que desafiar. Aceitemos então o desafio e vamos por estas terras do Alentejo a procura do sossego e do recato que a grande cidade tantas vezes nos retira.



[1] Escritor e ensaísta alemão, (1875-1955), Nobel de Literatura em  1929
[2] Citado de “A Montanha Mágica”, (1924) pag. 256
[3] Filha de D. João IV de Portugal, da Casa de Bragança, e da rainha D. Luísa de Gusmão (1638-1705)).

02 agosto 2015

SEALY SEASON 1

Nem todas as verdades são para todos os ouvidos.
O Nome da Rosa” (1980),  Umberto Eco
Entre as coisas menos importantes dos últimos dias, estará certamente o comentário de Tsipras sobre as camisas de Varoufakis, de qualquer forma um elogio daquele ao seu ex-ministro, não propriamente pelas camisas, mas sim pelo carácter. O tédio provocado pela história da composição das listas a deputados pelo centrão, confunde-se eventualmente com a promessa do despedimento de Edson Atayde, da campanha de Costa. Afinal quem é PAF, quem é? Todavia, é ele (Edson) que nos deixa, nas páginas do jornal[1], através do tio Olavo, uma bela mensagem, “Se o precipício é lindo, caia. Se a queda é longa, voe. Se o autocarro atrasa, cante. Se a solidão aperta, durma. Se a insónia atrapalha, dance. Pare, olhe a avance. Entre dois destinos, escolha o mais distante. Entre dois desígnios, o mais interessante. Saia na chuva sem chapéu, não tenha medo da água, você já não é feito de barro. Se a companhia é chata, desande. Se for boa, faça-a constante. Se há mar, mergulhe. Se há montanhas, mova-as. Se há desertos, regue-os, nem que seja de lágrimas ou de sangue. Só não fique eternamente parado á espera, do comboio, do avião ou do Godot”.
Aparentemente, o maisnstream desapareceu, eclipsou-se. Nada é mais comum, ou usual, viva a surpresa e a novidade, é bom. Notícias vindas do Reino Unido, enquanto o idiota do 1º Ministro coloca arame farpado para não entrar a escumalha (com a ajuda do Holande), dão conta de Jeremy Corbyn, catapultado para líder do Labour, com o jubilo natural dos revolucionários e toda Esquerda que se preza, o homem parece interessante e charmoso e ficou conhecido como opositor a intervenção no Iraque. E o execrável Blair até aconselha os que irão votar com o coração, a …fazer um transplante.O jornal[2] avança com a notícia de um folhetim de verão versando, como convém na conjuntura, “A Eleição Que Ninguém Quer Ganhar”, slogan bem criativo e às tantas com alguma razoabilidade, disponível a partir de 3 de Agosto, e 2º a 6ª feira, passe a publicidade.Volta Lionel Richie (Hello!) e um Pátio das Cantigas renovado, quem é que vai querer ver, quando o antigo é que tem piada? Os títulos dos livros em escaparate, revelam insondáveis mistérios, desde “Cidades de Papel” a “Ansiedade, Como Enfrentar o Mal do Século”, passando pelo mais que sugestivo “Insurgente”. Voto claramente e vou comprar (como faço todos os outros) no “Número Zero”, do Eco, leitura certa, inteligente e segura.
Lisboa acorda na Tapada da Ajuda para o Piknic Electronik, uma anunciada mescla de música e de sol, aconselhável a todas as idades, com entradas baratas e de borla para as criancinhas. Nós que gostamos da noite, curtimos um copo no Cais do Sodré com os Amigos, “brindando” a sealy season que ora “ameaça”.
Pensemos entretanto sobre que verdades eventualmente não queremos ouvir. Estamos aí!
 [1] DN, 1 Agosto 2015, pág. 15, coluna “The Crazy Ones
[2] Idem, ibidem

31 julho 2015

APÓS A CAPITULAÇÃO (2)


A paz é uma trégua para a guerra
V.I. Ulianov (Lenin)
Os acontecimentos de 12 de Julho continuam a marcar a agenda política, na Grécia e por toda Europa. Analisam-se e discutem-se algumas teses, que vinculadas por uma comunicação social prisioneira dos interesses económicos instalados, parecem condenar aqueles que tentaram mudar o curso da história europeia, atribuindo-lhe ainda por cima a responsabilidade e o ónus da culpa, sempre a culpa e, como se não bastasse, ainda a traição ao povo e a consequente irresponsabilidade política e também social. Erram aqueles que pensam finalmente que a Esquerda europeia sai fragilizada desta “batalha”, por não valorizarem o contexto global, bem como os pontos que foram marcados durante 5 meses seguidos contra o “adversário”. Talvez seja de alguma utilidade prática atender a factores estruturantes que condicionam a estratégia, elemento fundamental para o prosseguimento de uma luta que se impõe, em nome de Justiça, da Dignidade e da Democracia. E obviamente devem ser tiradas lições, sem qualquer espécie de constrangimento, pois só assim será possível equacionar o que se pode, o que se deve fazer, no futuro próximo.
  1. O verdadeiro significado do “acordo”. Dias depois de firmado, o governo grego disse ter sido coagido a assinar um acordo que obrigava a contradizer o essencial do seu compromisso eleitoral. Tsipras haveria de declarar que o povo grego fugiu da prisão da austeridade para depois ser atirado para a cela solitária, afirmando mesmo que na “vitória de Pirro” dos poderes da UE, “… ficou bem à vista o beco sem saída das políticas que defendem[1], deixando bem claro que tal se deve à posição da Grécia durante os meses de negociações promovidas sob asfixia financeira.
  2. A máscara do directório europeu e dos seus verdadeiros “braços armados”, o MEE[2] e o Tratado Orçamental[3]. Para quem eventualmente ainda mantinha alguma ilusão sobre uma pretensa humanização do capitalismo, personificada (na realidade) em alguns documentos e textos da Comissão e do Conselho Económico e Social, onde pontificavam referências a coesão social, igualdade de oportunidades, distribuição equitativa da riqueza, bem-estar social e outras que poderiam ser subscritas por uma imensa maioria social, toda esperança em alguma mudança caiu de facto por terra. Existe sim uma nova ordem económica anti-social, onde a designada austeridade ultrapassa as fronteiras da decisão das nações e se impõe como política, adoptada num plano supranacional sem qualquer controlo democrático [Loff, M].
  3. As conquistas do governo do Syrisa. O governo grego, no espaço de menos de 6 meses, reabre a televisão pública, publica a lei dos despejos, promove a empregabilidade de alguns sectores do Estado e fecha os centros de internamento para estrangeiros. Inicia o processo de auditoria da dívida soberana, para determinar a sua legitimidade e ainda a sua legalidade. Nada disto tem a ver com o actual “projecto europeu”, cujo principal, diria único objectivo, é estabelecer protectorados económicos, sobretudo nos países da periferia, sujeitando os Estados a regras de disciplina orçamental rígida e a maioria da população, os trabalhadores, ao abaixamento de salários e pensões e a completa desregulação do mercado laboral, acompanhando esse objectivo com um discurso de culpabilização (viver acima das possibilidades, designação de PIGS,…). Tsipras promoveu de facto algumas leis progressistas e diz que esse esforço irá prosseguir, com a aprioridade no “ataque à oligarquia”. A lei de regulação para a comunicação social, que se encontra em fase de discussão pública, é um dos próximos passos nesse sentido.
  4. O que se desenha, após o colapso, por parte do governo grego? Segundo Alexis Tsipras, “O assunto é sério. A nossa estratégia deve ser clarificada com tranquilidade e maturidade, através de processos coordenados que envolvam o conjunto das forças do partido. Por isso, deve ser marcado desde já um Congresso do Partido, tal como prevêem os estatutos. A nossa obrigação comum é a de proteger a unidade do partido”. E ainda, “Houve algum plano realista e sustentado que não foi adoptado? O que seria hoje essa solução alternativa e sustentada? Deve [a esquerda] entregar o governo aos representantes de um sistema político falido ou fazer a batalha nas condições agora surgidas?”. Não há de facto num horizonte próximo, outra medida que encaixe na actualidade e na conjuntura.
  5. Uma janela de oportunidade. A brecha provocada no dito “projecto europeu” pelos 6 meses de governo Syriza é possivelmente neste momento a mais importante arma que temos à mão. Seja pelo lado das (naturais) reservas da social-democracia europeia a um ataque cerrado do directório, comandado pela Alemanha, seja nas aparentes contradições (no mínimo de linguagem) entre EuroGrupo e FMI (…). É de facto uma brecha decisiva. Por um lado, poderá significar o fim da TINA[4] e, por outro lado, o cair da máscara do dito projecto europeu.
  6. Virão novas exigências, novos ultimatos? Muito provavelmente, uma vez que o “empréstimo” da troika, aumentando a liquidez à banca grega, são apenas uma ínfima parte do verdadeiro objectivo dos credores, cujo é destruir qualquer vestígio do que representou a vitória do Syriza nas eleições e não resolver a crise. Não só é um plano sem qualquer sentido, como foram os anteriores, como ainda representa uma ameaça sobre a economia grega.
Será que paira sobre a Europa uma guerra, cujos contornos não são propriamente fáceis de definir, mas para cujos limites existe já pelo menos uma aproximação? A resposta poderá ser dada pela sucessão dos acontecimentos que precipitaram a actual situação e que tem a ver com o tratamento que foi utilizado para responder a chamada crise das dívidas soberanas. Em vez de ter sido seguido o princípio da consulta aos Povos, da conjugação de esforços entre Comissão, Parlamento Europeu e Banco Central, optou-se pela via do EuroGrupo, à margem dos Tratados e sem qualquer formalidade legal que o enquadre devidamente na arquitectura do espaço europeu e pelo seguimento cego e implacável dos conteúdos quer do MEE, quer do Tratado Orçamental. Configura-se então um ataque cerrado a economia dos países, que passa pelo empobrecimento forçado da grande maioria das populações, portanto e de forma clara, uma guerra. Com a banca privada como suporte. E enquanto esta situação se mantiver, isto é Enquanto a banca for privada, qualquer governo é refém do capital financeiro”, como afirma Lafazanis[5].
A questão que se coloca hoje na Grécia é muito capaz de ser a paz como trégua para a guerra…


[1] Entrevista na rádio de 26 Julho
[2] MEE: Mecanismo Europeu de Estabilidade, um  “…mecanismo político e económico da União Europeia que assegura a estabilidade da Zona Euro a partir de 2012 e faz parte do conjunto das medidas elaboradas para o resgate do Euro. Fonte: Wikipedia.
O novo Tratado que cria o MEE foi assinado a 2 de Fevereiro 2011, pelos embaixadores em Bruxelas dos países da área do euro O MEE, que deverá entrar em funcionamento em Julho de 2012, será uma instituição financeira internacional, sediada no Luxemburgo, que apoiará os países da área do euro sempre que tal se afigurar indispensável para salvaguardar a estabilidade financeira”. Fonte InfoEuropa: https://infoeuropa.eurocid.pt/registo/000048144/            
[3] O Tratado Orçamental O Tratado reconhece a urgência da estabilização da Zona Euro e estabelece um patamar de menos de 3% de défice orçamental geral do produto interno bruto (PIB) e um défice estrutural de menos de 1,0% do PIB se o rácio da dívida em relação ao PIB é significativamente inferior a 60%. Foi assinado em Março de 2012, pelos Estados-Membros, com excepção do Reino Unido, da Croácia e da República Checa.
[4] TINA: There Is No Alternative (by  Margaret Thatcher)
[5] Panagiotis  Lafazanis, Ex-Ministro da Energia do Governo grego

20 julho 2015

APÓS A CAPITULAÇÃO


Assistir ao espectáculo do homem que assinou o “acordo” dizer que não concorda com ele, mas pede o voto para a sua aprovação, será porventura o lado patético da coisa política. Uma transformação cénica e conceptual, que dificilmente encaixa nos cânones tradicionais. Ver a praça Syntagma a ferro e fogo em violento protesto contra a situação e pensar que os intérpretes visados são os mesmos que há bem pouco tempo a ocupavam para exigir Liberdade, Democracia e Dignidade, é um volte-face demasiado rápido para ser entendível contra toda a lógica interpretativa.
Tsipras teve porventura tudo na mão na noite do Referendo, quando 62% dos gregos negava de forma rotunda um pacote de medidas bem mais macias do que as que constam agora do dito “acordo”. Como foi possível então, da noite para a manhã do dia seguinte, ter-se eventualmente desbaratado tamanho capital político? E aqui, das duas uma, ou Tsipras não sabia como capitalizar o resultado, ou interpretou de forma deficiente o próprio resultado. A demissão de Varoufakis estará decerto no centro da análise, pela carga simbólica que encerra, quer ainda na consideração da brecha que as suas posições determinadas provocaram no Governo. É bem verdade que tudo o que se passou nos dias seguintes foi uma demonstração inequívoca e lamentável das posições alemãs e, por arrasto, do designado Eurogrupo. Fazendo aliás ver como todo o designado projecto europeu foi por água abaixo, emergindo um directório de burocratas comandado pelo “maestro” Schauble que, não tendo a magia dos seus conterrâneos da música ou da literatura, tem o saber de um ditador hábil e perigoso, como os seus confrades dos anos 40 do século passado.

Tsipras agiu então de forma deficiente, ao apostar (forçar) na demissão do seu Ministro das Finanças? Porque de facto era ele o rosto da verdadeira e substantiva contestação. Porque era ele a face visível e credível do NÃO, consubstanciado no resultado do Referendo. Porque finalmente era ele o obreiro da luta contra o pensamento único. O esvaziamento completo da posição do Estado grego, a irrelevância a que foi votado pela “orquestra” europeia, mostrando a verdadeira face de um projecto em que as regras apenas existem para justificar o Mecanismo de Europeu de Estabilidade e impor o Tratado Orçamental, acima das convenções e dos tratados conhecidos. A lógica da negociação de Varoufakis assentava na premissa de “desgastar” o próprio Eurogrupo. Ele conhecia, desde o início, a predisposição do presidente Dijsselbloem: ou a aceitação da lógica do resgate com uma suspensão de qualquer tipo de reestruturação da dívida, ou a “destruição” da banca grega. Sendo que o Governo grego tinha sido eleito com mandato para pôr fim a essa espiral de austeridade, não fazia qualquer sentido negociar em sentido oposto, ou permitir que a dita “negociação” chegasse ao ponto que chegou. Mesmo com a pistola apontada à cabeça, como Tsipras terá admitido. A punição política chegaria ao seu extremo, a ideia base de destruir um Governo eleito e humilhar um País sairia então vencedora na madrugada de 13 de Julho.

Apenas 3 dados que podem ajudar a perceber o rotundo golpe que irá ser dado sobre o Povo grego.
  1. A adoção de medidas imediatas para melhorar a sustentabilidade a longo prazo do sistema das pensões, no âmbito de um vasto programa de reforma das pensões”, como diz o “acordo”, vai produzir uma redução das pensões mais baixas, ignorando que a razia no capital dos fundos de pensões se deveu ao PSI da troika em 2012 e aos efeitos nefastos da queda no emprego e do trabalho não declarado[Varoufakis];
  2. A racionalização do sistema do IVA e o alargamento da base de tributação para aumentar as receitas”, significa um golpe profundo na única indústria em crescimento da Grécia, o turismo;
  3. “O Governo grego precisa de se comprometer formalmente a reforçar as suas propostas numa série de domínios identificados pelas Instituições, com um calendário claro e satisfatório para a adopção de legislação e a sua aplicação”, significará a sujeição da Grécia ao afogamento orçamental, mesmo antes de ser garantido algum financiamento.

Não há qualquer dúvida que Tsipras não teve outra hipótese senão assinar o documento. Aliás, é Varoufakis quem o afirma, "Foi-nos dado a escolher entre ser executados ou capitular. Decidimos que capitular era a melhor estratégia". Contudo, nem a melhor estratégia está isenta de ter defeitos. O caso é precisamente este.
Após a capitulação, apetece dizer que o é poder da doxa contra o conhecimento, a velha e eterna disputa que, na Caverna[1], está de facto à porta.

Este “acordo” imposto a um Estado Soberano tem sido comparado a humilhação do Tratado de Versalhes, que terá aberto o caminho para a ascensão do nazismo após o fim da Primeira Guerra Mundial. Só se pode compreender uma situação deste género quando existe um aperto significativo das liberdades, condicionadas a políticas de excepção, como as que determinam as posições do Eurogrupo. Bem vistas as coisas, esta Europa do Tratado Orçamental, do Mecanismo de Europeu de Estabilidade, ambos datados do ano 2012, não passa de uma farsa gigantesca que tem um único objectivo, a criação de um clima de terror com base numa monstruosidade antidemocrática que significa a transformação dos pequenos países em protectorados alemãos. Serão porventura os seus adeptos aqueles europeístas convictos, “…gente de pergaminhos que invocam sempre o argumento de autoridade de ter estado desde o princípio com a Europa para assim legitimar o seu acordo com todos os caminhos para onde a Europa vai”[2]?

Talvez valha a pena ouvir os resistentes, gente da Esquerda que não verga os seus ideais e que nas alturas devidas procura ter uma voz diferente, contra a corrente, contra o pensamento único. Como por exemplo o fez Jean-Luc Mélenchon[3], ao afirmar “O Governo de Alexis Tsipras resistiu de pé como nenhum outro na Europa. Agora tem que aceitar uma trégua na guerra que está a travar. Devemos-lhe solidariedade”, destacando, contudo, que “nada nos pode obrigar a participar na violência que lhe estão a infligir”.



[1] Referência a Platão e sua imagem e alegoria (República, Livro VII)
[2] Citação de J.M Pureza, no livro “Linhas Vermelhas”, Ed. Bertrand, Coimbra, Julho 2015
[3] Deputado francês no Parlamento Europeu, líder da Frente de Esquerda  e co-presidente do Partido de Esquerda

12 julho 2015

QUEREM HUMILHAR A GRÉCIA


Tal como falou hoje o eurodeputado e vice-presidente do Parlamento Europeu Dimitris Papadimulis, a verdadeira intenção do Eurogrupo é derrubar um Governo legitimamente eleito pelo seu Povo. Tal “hábito” será aliás, pela forma como as potências a mando da Alemanha, uma coisa absolutamente estranha. Fazer um referendo, ouvir o Povo, ser fiel aos seus compromissos, denunciar o que a Europa fez à Grécia durante sucessivos anos, por conta de administrações colaboracionistas ou corruptas, não vergar ao pensamento único, é realmente demais para um grupo de gente que mais parece pertencer a qualquer comité regional alemão, tal a fidelidade canina e a recusa em pensar pela própria cabeça. Entre esta gente está, naturalmente, o PM português, traidor ao seu povo e destruidor da Pátria.
E falam em credibilidade. Quão credível de facto pode ser um Governo que é fiel ao seu Povo e cuida dos seus interesses? Quão fiel pode ser um Estado que foi palco da mais violenta ignomínia, vendido na praça pública, armado pelos grandes desta Europa que cada vez mais se assemelha ao terrível directório alemão de triste memória. Não, de facto a Grécia, para vós não é credível, porque sois vós que quereis definir essa mesma credibilidade, provando uma vez mais que quereis inclusivamente definir o “comportamento” de pessoas e Estados. Não, também não aceitamos que seja assim, tereis para sempre o nosso desprezo.

À medida que as horas passam não podemos ficar indiferentes ao desfecho desta incrível cena em que nos quereis incluir. Talvez desta forma estejais a contribuir para que as pessoas finalmente acordem e tal como Povo grego fez a 5 de Julho passado, vos referendem sempre e cada vez mais.  Tsipras, avisaria dias antes do acto patriótico na Grécia, “…Ao autoritarismo e à dura austeridade, responderemos com democracia, calmamente e de forma decisiva.” Muito embora a dureza cruel da situação e o cerco que é movido ao País tenha precipitado uma proposta que nunca estaria nos planos do seu Governo, a verdade é que a dignidade não se perdeu. Antes pelo contrário, o Governo grego vai, uma vez mais, lutar por si, pelo seu País, por uma Europa inteira, pela dignidade que parece perdida, por uma voz que fala e que não se pode calar, contra quem pretende silenciá-la.

Pode a Grécia sair? Se a questão fosse simplesmente essa, do ponto de vista de quem pretende impor o pensamento único e liquidar de vez qualquer insurreição, diríamos que já está fora. Outras questões, igualmente decisivas, estarão porém em jogo no difícil e intrincado tabuleiro de interesses internacionais, a saber a tal geopolítica de que tanto se fala e faz mover estados e nações e conjunturas financeiras que se sobrepõem à lógica, pretensamente simplista e vulgar de pensar nas pessoas. Irá porventura desenhar-se um equilíbrio, como em outras situações, ou a sanha ideológica prevalecerá e precipitará um desfecho, mais uma vez, punitivo e chantagista?
Até ver, os povos não adormecem permanentemente, nem que a situação de torpor que ora se vive o possa prever. Alguém se há-de importar um dia. Brecht avisou na altura do perigo fascista, “Primeiro levaram os negros/Mas não me importei com isso/Eu não era negro/Em seguida levaram alguns operários/Mas não me importei com isso/Eu também não era operário/Depois prenderam os miseráveis/Mas não me importei com isso/Porque eu não sou miserável/Depois agarraram uns desempregados/Mas como tenho meu emprego/Também não me importei/Agora estão me levando/Mas já é tarde…”

O Governo da Grécia, pelos vistos, importa-se, é tempo de fazermos o mesmo!

05 julho 2015

APESAR…

“… Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar
Apesar de Você”, Chico Buarque Holanda, 1970



Esperamos com alguma ansiedade. Acreditamos que é possível, ser este um princípio de contestação permanente e contínua, porque não queremos ficar para sempre indiferentes. Curioso que um dos últimos argumentos tenha sido aquele que tentava caracterizar os políticos de uma determinada forma, adultos seguramente, engravatados talvez, com o tal sentido de responsabilidade que lhes advém de um certo espírito de casta, porventura conquistado na dita experiência, termo que ganha foros de elevação quanto maior a promiscuidade com os negócios de ocasião. Falamos em português, em pretensos donos de Portugal, que circulam entre centros de interesse e partilha do aparelho de Estado, uma “eterna” dança entre conselhos de administração, secretarias de estado e ministérios, chefias na administração pública, lugares nas autarquias e empresas da construção civil, autores de pareceres e gabinetes de advogados, percursos meteóricos desde as jotas até ao poder. Serão estas e estes os qualificados por uma opinião pública produzida em circuitos fechados, com o beneplácito de um sector da comunicação social que fabrica comentadores que ostentam invariavelmente a sensatez de um pretenso equilíbrio, que oscila, conforme as necessidades, entre o centrão oficial, a tal elite consensual a que o País deve a douta lição do conformismo e da sabedoria perpétua.
Acontece que é precisamente tudo isto que não queremos. E a que contrapomos, a necessidade de uma nova elite, que saiba transformar em ciência política, as aspirações dos povos, em constante movimento. O movimento das ideias, a dialéctica da transformação e a interpretação constante dos conflitos sociais, na superação dos mesmos, com vista a identificação de processos e metodologias participativas, tendentes a aproximar as pessoas dos centros de poder, diria a serem as próprias pessoas a interpretar o mesmo poder. A experiência de que comunicação social fala, quando “avalia” um putativo candidato, deve então ser interpretada precisamente ao contrário, na exacta medida que é a que menos interessa.

No dia das decisões, seremos seguramente muito mais gregos que o se poderia pensar, embora não tenhamos o boletim na mão, para exercer um direito de cidadania, hoje seguramente um peso enorme para um povo atormentado pela pilhagem, pela ganância e pelo terrorismo de uma elite, a mesma que tem a experiência politica a que se reconhece “legitimidade”. Dizer que estar nas nossas mãos dizer NÃO é também um peso enorme, que apesar de sabermos necessário, implicará talvez da nossa parte, sacrifícios grandes e penosos. Como em todas as lutas, há que escolher um campo, não é jamais possível conciliar posições, porque NÃO é mesmo não. Não queremos, não colaboramos, não pactuamos, não aceitamos, não vos iremos tolerar, não esquecemos a vossa mentira permanente, o vosso silêncio e indiferença perante a fome, a desigualdade e a miséria, a vossa intolerável atitude de prepotência, invocando a Democracia para oprimir.


Basta de complacência. NÃO, decididamente NÃO!