rio torto

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11 janeiro 2016

“NÃO VALE A PENA TAPAR O SOL COM A PENEIRA" 



A luta do homem pelo poder
é a luta da memória contra o esquecimento
Milan Kundera

Indiferente às invectivas de Belém, Sampaio da Nóvoa responde com a serenidade e a competência que já se lhe conhecem. Muito embora Belém traga argumentos estudados sobre uma data de questões laterais, não consegue disfarçar o tremendo incómodo que provocou no Partido Socialista, quando decide avançar com a sua candidatura. E de facto é aqui que reside a questão central: Belém lança a candidatura no momento em que Costa concretiza os acordos que haveriam de consubstanciar o novo Governo, uma espécie de revanchismo atrasado e afinal inconsequente. Belém personifica uma posição divisionista e sectária dentro do seu partido e coloca o Secretário-Geral na posição ingrata em que hoje se encontra, muito embora seja voz comum o seu apoio pessoal a candidatura de Nóvoa.

Interpretamos constantemente o discurso de Nóvoa, com a esperança que pretende deixar passar, no “tempo novo” que se vai construindo, deixando para trás o desânimo, a pobreza e as trevas. Uma nova utopia? Bem pode dizer-se agora que sim, que parece visar a sociedade livre, de indivíduos livres de que Thomas More falava na sua obra[[1]]. É um discurso novo, sem qualquer dúvida e por muito que a comunicação social nos queira vender o candidato da Direita, a palavra e a escrita serão a nossa marca de liberdade e de dignidade.

Enquanto Belém se sente confortável ao convidar presidentes ou chefes de estado estrangeiros a almoçar em lares de idosos, um autêntico fait-divers para quem anda nas andanças presidenciais preocupada mais em chamar a atenção do que propriamente tomar atenção às pessoas, Nóvoa aproxima-se das pessoas e conquista a sua atenção. A melhor prova da falta de atenção da agora candidata terá sido a sua “distracção” aquando de iniciativas parlamentares destinadas a pedir a fiscalização de actos do anterior governo.

Mal ficaria por certo Belém se fosse contar espingardas dentro do seu próprio partido, tal é a torrente de figuras, mediáticas mas não só, que em todo o País apoiam Sampaio da Nóvoa. Vai invocando os 3 nomes[2], deveras respeitáveis por sinal, e pouco mais que isso, uma vez que a sua candidatura é de divisão e não de união. Sinal que baste neste momento e portanto como bem disse Nóvoa durante o debate, não vale a pena tapar o sol com a peneira"… 




[1]Utopia”(1516), Thomas More, Ed.  Livros de Bolso / Europa América
[2] Alegre, Santos e Jardim

08 janeiro 2016

TUDO E O SEU CONTRÁRIO

Antes de mudar de ideia,
certifique-se primeiro de que já tem uma..)”,
Albert Brie












1.   O debate entre Nóvoa e Marcelo mostrou ao País o que é e que não é um verdadeiro estadista. Ou mesmo, um autêntico candidato presidencial. Marcelo sai do armário e mostra ao país a verdadeira face, colérico, irritado e intolerante, um homem que acossado, se revelou afinal bastante previsível. Resulta pois confrontá-lo, quanto mais não seja, com ele mesmo, receita que Nóvoa aplicou com sucesso assinalável. Confrontado assim com as suas proporias contradições, descontrolou-se, perdeu o equilíbrio, meticulosamente cuidado durante anos e anos na TV, que bem poderia apelidar-se de TV Marcelo[1]. O homem pensava que eram favas contadas, protegido pelos barões de uma comunicação social amestrada e orquestrada, pelos patrões das empresas de sondagem (vota Marcelo ou vota noutro…?), pelos colegas comentadores, painelistas, politólogos e outros associados, dos jornais, das rádios e das TV. Como bem afirma Pedro Reis[2], “O deputado e líder do PSD tornou-se num heterónimo candidato independente, que nada tem a ver com os partidos. O homem que participou nas campanhas eleitorais de Passos Coelho e Paulo Portas, passou a um ser um heterónimo virgem nestas andanças”.
Este debate deveria ter ocorrido em canal aberto. Desta forma, as portuguesas e os portugueses poderiam ter visto a verdadeira face de Marcelo, o homem que surgiu das profundezas do aquário da TVi, águas mornas de refúgio e recato, longe do tal povo que agora lhe surge tantas vezes na boca, mas que não enquadrada lá muito bem com a sua imagem de vedeta de estúdio.  Esse povo teria então visto o homem perder quase tudo numa noite, ou melhor em apenas uma escassa meia-hora. Na realidade, perdeu tudo. Perdeu em argumentos, ficando provado (seria mesmo necessário?) que é capaz de defender tudo e o seu contrário. Perdeu na dimensão de estadista, não se tendo conseguido descolar devidamente da facção que o apoia e do cavaco que o chamou para seu conselheiro. Perdeu na verdade dos factos, não foi ele afinal que votou contar o Serviço Nacional de Saúde, nos primórdios da Revolução, não foi ele (todos lhe reconhecemos a habilidade…) que criou dezenas e dezenas de “factos políticos”, que lhe valeram a alcunha de cata-vento político? Perdeu na pose, na compostura e no decoro, passou as marcas (nem parecia ele…) da decência “normal” e cordata, tão na linha da habitual imagem angélica e beatífica.

2.   Do outro lado não estava porém uma pessoa qualquer. Sim, esteve um Português, um homem a quem ninguém pode imputar intriguismo, puro tacticismo, ou baixa política, na vida pública. Igual a qualquer outro cidadão (“apenas mais um de vós…”), que procura o melhor para o seu País. Não tem um percurso político-partidário habitual? Tanto melhor, que pelo menos tal não significa qualquer estigma, com todo o respeito para quem o possua. Um homem comum, digno da sua palavra e do seu compromisso, assumido pelo País. Um homem a quem se reconhece o devido mérito pelos lugares públicos que desempenhou e que honrou com dignidade. Um homem que defende a Cidadania, que disse ao que vinha no tempo devido. Não é tudo e o seu contrário. É um homem de causas, que podem mobilizar o País. Um homem que promete “… uma ampla discussão pública” sobre a Europa e a participação de Portugal no projecto europeu, que afirma que “É preciso trazer a vida para dentro da política, com humanidade. É preciso unir uma sociedade rasgada, juntando os portugueses, as portuguesas, numa luta comum, sem medo de existir…”. E que diz, com muita clareza, “Só conseguiremos construir um país à altura dos desafios globais do século XXI se conseguirmos vincular as novas gerações e aproveitar o seu dinamismo e a sua capacidade de renovação. É também por isso que não podemos aceitar a emigração da nossa juventude qualificada, da nossa ciência e do nosso conhecimento”.

3.   Que diferença!...



[1] TV Marcelo, é uma empresa Nacional com 50 anos de experiência no ramo da Assistência Técnica ao domicilio e especializada em Reparação TV; in: http://tvmarcelo.com/          
[2] https://www.facebook.com/pedro.reis.79230?ref=ts&fref=ts      

05 janeiro 2016

Uma VERGONHA!

Não quero contribuir para mais publicidade ao “comentador oficial do regime”. Por isso não publico qualquer imagem, ao contrário das pessoas que, com a maior boa vontade e pensando que isso é bom (…) comentam o jornal Público de dia 4 Janeiro, com as imagens da capa.Uma VERGONHA!

É de facto a maior burla eleitoral de que há memória. Também quero saber o que vai fazer a Comissão Nacional de Eleições.
E o provedor do leitor do jornal em questão.
E o País assiste impávido e sereno a este golpe baixo na ética republicana?

Há que fazer alguma coisa, levantar o País e denunciar esta fraude!
Não pode ser tudo possível em Portugal. Isto é de mais e todos os dias, a toda a hora, em praticamente todos os órgãos de comunicação social, se vende (barata) a tese de que o homem vai ganhar, já ganhou aliás e nem precisa da 2ª volta.

As portuguesas e os portugueses sérios, qualquer que seja a sua filiação político-partidária, não podem ficar indiferentes ao tratamento desigual, que mina a eleição presidencial e enfraquece a Democracia.

Vamos encabeçar um movimento que denuncie esta situação, já basta de MENTIRA e de DESCARAMENTO!

01 janeiro 2016

2016

Não habitamos um país, habitamos uma Língua. Uma pátria é isso
Emil Cioran, 1965


Procuramos sempre captar nos escritos, os sinais e os símbolos da nossa permanente inquietude e insatisfação, nesta voragem dos dias, que loucos parecem à vista do observador menos atento. Há outros (diversos) rascunhos que, por uma ou outra razão, não vêm a luz do dia, e como tal estão enterrados num qualquer baú, nunca se sabendo se serão recuperados, reciclados ou simplesmente enviados para a caixinha divinal da reciclagem. Ou seja, lixo.

Poderia lembrar que o último ano de chumbo chamado 2015, acabou por ser, na sua recta final, pejado de surpresas, algumas das quais com aquela sensação de agrado, que não conhecíamos há muito, muito tempo. Não escondemos pois a alegria e a esperança de ver o País respirar de novo, após 4 anos completos de imobilismo, da mais vil campanha de descredibilização do País, da responsabilidade de uma seita, que desrespeitou as mais elementares regras da democracia, vilipendiou e empobreceu as pessoas, degradou as instituições e as suas organizações de base, vendeu o País ao desbarato, sempre com a suprema infâmia de transferir para o capital os rendimentos do trabalho, já de si mal-amado e mal pago. Foi tudo mau de mais para ser verdade, mas o facto é que o tal grupo foi avançando, de asneira em asneira maior, da tentativa ao real, da campanha ideológica mais refinada à mais diabólica atitude de conservadorismo podre e balofo que nos fez recuar muitas vezes ao tempo já longo do fascismo mais requentado. Não é possível enumerar todo o mal que fizeram ao País, vão-se agora sabendo alguns pormenores que, juntos aos sinais que se adivinhavam, ajudam a construir uma narrativa de miséria e de terror. Não poderemos esquecer aquela “gente medíocre que se tornou salvífica pelo serviço que prestaram a interesses particulares presentes na economia”, assim classificada pelo Pacheco Pereira. Não poderemos esquecer o que fizeram, por exemplo, nos Estaleiros de Viana do Castelo e na TAP, apenas dois exemplos de como foi possível desbaratar os dinheiros públicos e reduzir a cinzas uma e outra empresa, para poderem utilizar o argumento da putativa falência que teria que ter unicamente uma solução a vista: a sempre inevitável privatização.

Neste ano que ora começa é em primeiro lugar mais que necessário destruir o mito dos apelados “superiores interesses nacionais”. O nosso País tem, como todos os outros, interesses perfeitamente contraditórios, que não são de forma alguma conciliáveis. Repare-se como a clique que normalmente ocupa o poder se refere às classes trabalhadoras: greves que põem em causa a economia, contabilizam-se inclusivamente os “prejuízos” por cada dia de greve (…), sindicatos controlados pelos comunistas, aumento de salários, como assim (?), onde se vai buscar o dinheiro, fraca produtividade, pouco tempo útil de trabalho, entre tantas outras declarações que se repetem até a exaustão, marteladas devidamente na comunicação social que superiormente controlam, a bem da nação (…). O reverso da medalha não tem contudo expressão idêntica. Falamos dos milhares de milhões desbaratados pela banca e alta finança, um sucessivo multiplicar de situações danosas, quer a nível das aplicações financeiras de alto risco, sempre em prejuízo do Estado, que na escandalosa situação de falência dos bancos, acompanhada sempre pela classificação de “resolução”, escondendo a verdadeira situação de descontrolo sistemático de contas, sempre na expectativa de que o Estado venha “salvar” a situação, com a injecção de mais uns milhões, que sempre aparecem milagrosamente, na hora certa e no momento oportuno.

Este será o mais grave dos sintomas de uma doença que parece alastrar, acompanhada do remédio mais impuro de que há memória: a pretensa inevitabilidade, a Europa tem as suas regras, em todos os países é a mesma coisa, olhem a Grécia e no que deu a rebeldia de um governo irresponsável e muitas outras atoardas, que infelizmente pegam, é ver algumas pessoas comuns com o mesmo discurso, vergadas ao peso de uma evidência que para elas já é adquirida e que não se julgam capazes de desmontar.

A Direita é o que é. O mais requentado argumento do imobilismo e conformismo foi dado por Paulo Portas aos jotas da autoproclamada Juventude Popular: "Deixem a utopia aos revolucionários e ocupem-se da realidade, de melhorar a vida da vossa geração e servir melhor o vosso país como se faz em qualquer país da Europa ocidental…". Formatar assim cidadãos, aqueles que um dia serão ministros ou secretários de estado, é a sua missão. Analisem cada uma e cada um dos que ocuparam aqueles cargos no defunto governo, estiveram durante 4 anos a frente do País, na mais clara expressão do que é a mediocridade e a inconsciência social.

Desafios enormes no ano que começa. A nível interno e também externo. Uma nova atitude, um novo discurso, a esperança sempre presente. Saber estar no País e no Mundo de forma diferente, uma posição de crítica sistemática, de defesa de direitos e de afirmação de deveres, na perspetiva da Cidadania. Na defesa das pessoas e do ambiente. Na exigência de uma Educação de alta qualidade, na defesa e afirmação da Escola Pública e de um Ensino Superior em que a investigação científica seja devidamente respeitada e apoiada. Na responsabilização das instituições, no funcionamento equilibrado do Estado e no compromisso que este tem para com os cidadãos que pagam os seus impostos e que esperam que aquele cumpra a sua missão. No questionar permanente da posição que o nosso País detém, na Europa, na Lusofonia e no Mundo, uma língua falada por 244 milhões de pessoas, uma riqueza incomparável e sempre mal aproveitada. Acima de tudo, o País tem uma dívida imensa sobre os jovens, meio milhão escorraçado pelo governo mais vil da República, desrespeito pela sua condição de futuro do País. E finalmente, a dívida incomensurável sobre os idosos, a quem o mesmo governo retirou direitos e colocou na margem da sociedade.

É da responsabilidade de todos nós defender a solução governativa que foi possível encontrar no consenso das Esquerdas. Nada que nos deva deslumbrar demasiado. Tudo que nos deve manter atentos e exigentes, tendo enfim consciência que não é possível mudar tudo de uma vez. Mas sabendo também que não é com episódios como o da “resolução” da questão Banif que se vai configurando um futuro diferente. Oferecer mais um banco português, pago com o nosso dinheiro, a um banco estrangeiro, que o recebe de graça e ainda com um bónus é de facto um sinal negativo, que mais uma vez fica mal ao Estado e ao Governo.

Trazer as pessoas de volta a nobre arte da Política será porventura o maior desafio para 2016. Mobilizar o País para votar nas presidenciais, faltam apenas 3 semanas. Saber que cavaco vai embora não é suficiente, é preciso muito mais, a saber, colocar na Presidência, uma figura de prestígio nacional e não um comentador de revista.


Somos pois pela utopia, que supõe conceitos e ideais de uma sociedade em evolução, sempre para melhor, sempre pela transformação permanente. Algo (e muito) nos separa daqueles que pensam que a “realidade” nos impõe a inevitabilidade. A luta continua portanto em 2016!

22 dezembro 2015

O JANTAR

 Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for 
Fernando Pessoa
 Juntamo-nos porque sim. A amizade cruza-se com a oportunidade, sempre há o Natal e nunca deixamos passar uma festa assim, sem o calor da Casa que tem unido, nos bons e maus momentos, os espíritos inquietos de que falava Pessoa e que, por aqui e por ali, vão semeando pequenas revoluções, mas com um sentido estético digno de realce. E já agora, diga-se, de bom gosto. Claro que se fala da situação e das grandes mudanças a que tivemos direito e que, diga-se também, contribuímos, com a nossa inquietude, irreverência e permanente insatisfação. Umas pequenas maldades, aquelas que nunca revelamos, mas que vêm constantemente à tona, quando de alguns personagens menos qualificados falamos, aproveitando para brandir a fúria destemida de portugueses de gema, republicanos e laicos, inspirados num Eça e num Antero, que nunca poupavam os adversários, na sociedade e na política.
Avançamos sempre soluções, apontamos caminhos, elaboramos cenários, pois é essa a nossa forma de estar, no espaço mediático de Telheiras, refúgio clássico de inquietudes, misturados com esperançosas alternativas, que apontam sempre ao futuro, inspirados num Almada (“… até hoje fui sempre futuro”), presente mesmo sem o imaginar, que descansa em paz seja lá onde for. Antecipamos o governo das Esquerdas, pelo menos em esperança que tardava, deixando no ar uma semente revolucionária, que afinal aí está, para que a felicidade voltasse aos lares da Pátria, a partir de Telheiras, qual chaimite encapotada, passeando nas ruas da cidade, à espera da alegria.
 Lembro, de uma forma provocatória, a nossa francofonia, invocando o Maio 68, o Sartre, a Simone e o Marcuse, entre tantos que me lembro, a música inesquecível do Brel, do Ferré ou do Aznavour, os filmes marcantes do Resnais, do Godard, do Truffaut, do realismo dos anos 60 e 70, que vivemos com intensidade determinada. E ainda, pois claro, do Camus e do Vian, que ainda hoje devoramos, pelo menos em pensamento. Mesmo dando de barato uma certa e perigosa tendência dos franceses para a extrema-direita, assinalamos Paris, uma cidade de grandes referências, deixando aqui esta encantadora tirada, devidamente assinada, ainda que não datada: “Etrangère, séductrice et troublante, la langue française est un puissant moyen de contestation et de rencontre” [Bourguiba, H.]
Perscrutamos as presidenciais. Sim, porque mesmo na ausência incómoda e ameaçadora das camaras televisivas, dos microfones ameaçadores das rádios e do cheiro do papel de qualquer pasquim, o Grupo manifesta-se e vota decida e determinadamente contra o esperto de Cascais e sentencia-lhe o castigo imenso de uma segunda volta que o atirará para o caixote do lixo da História, na companhia da Judite, na melhor das hipóteses. SNAP é o nosso lema, com espírito, com alma portuguesa e com a Cidadania que prezamos, difundimos e, há que dizê-lo com frontalidade, praticamos diariamente.
Na realidade, é bom que aconteça tudo aquilo que abordamos. Primeiro porque sim, segundo porque também. Saímos e ficamos mais ricos. Mesmo sem a devolução da sobretaxa. Irmanados no mesmo espírito de revolução permanente, aquela que sem a nomear, nos ensinou o imortal Moustaki, saímos da Casa, saudamo-nos com aquela emoção e vamos as nossas vidas, marcando sempre encontro num dia qualquer. A nós, ninguém nos cala!

14 dezembro 2015

“UMA VERGONHA?[1]

A vergonha, isso passa quando a vida é longa....”
Jean-Paul Sartre

Retirado ou roubado o título ao seu autor, repasso a leitura e apenas consigo vislumbrar um Vasco cansado, ressabiado a agora sem o “pulimento” que já exibiu em tempos.  Continua porém Valente, supostamente arrogado na valentia típica do leão enfurecido quando falha sucessivamente as suas arremetidas.

Porque insiste Vasco em atacar o candidato Sampaio da Nóvoa? Porque não gosta do estilo, da forma, do conteúdo, ou quiçá da figura? Porque não se revê (claro!) num discurso diferente, na defesa das causas da cidadania que tenta reposicionar a costumeiro fraseamento político-partidário? Porque não aceita que um brilhante académico, com provas dadas no Ensino Superior Público, com teses e escritos sobre o ensino e a formação em Portugal, reconhecidas por sensibilidades tão diversas da vida pública portuguesa, se posicione como “mais um de cada um de vós”, dizendo claramente ao que vem e o que se propõe fazer?
O que faz mexer assim a idiossincrasia retorcida do Vasco, o mais velho dos velhos de um Restelo recuperado? Para quem escreve este diletante personagem, que se deve julgar apóstolo da descrença lusitana e do mais retrógrado sentimento apócrifo de um nacionalismo borolento? Oh Vasco, atenta por exemplo Amós, que diz, "Aos profetas ordenastes, dizendo: Não profetizeis" (Am 2.12 cf. 7.10-13).

Numa coisa acerta o Vasco, quando afirma “…há milhões de portugueses que podiam com a mesma cara garantir o mesmo”, sendo que na interpretação livre do conceito radica a ideia (correcta) de ter na Presidência da República, talvez pela primeira vez, um Homem que defende uma cidadania efectiva e plena. Lembro apenas, “Dou-me a esta candidatura sem hesitações, sem calculismos, sem medo. Em nome da liberdade, da dignidade e do futuro. A candidatura pertence aos portugueses. Darei tudo o que puder, o melhor de mim mesmo, mas sei que esta tarefa só tem sentido se for vivida e assumida, por inteiro, pelas mulheres e homens deste país, de todas as terras, de todas as origens, de todas as condições.[2]” Se tal não diz nada ao Vasco, dirá porventura a milhões de portuguesas e portugueses, cansados da retórica e do distanciamento.

Vasco é passado, o nosso Candidato é futuro. É isso que irrita o Vasco. Claramente, o que escreve é mesmo…uma vergonha!



[1] Referência a crónica de Vasco Pulido Valente, jornal Público, 11 de Dezembro 2105
[2] Extracto da Carta de Princípios da candidatura a Presidente da República de António Sampaio da Nóvoa
(Porto, 25 de Maio de 2015)

22 novembro 2015

A ESPERA

Sofre mais aquele que espera sempre
do que aquele que nunca esperou ninguém?...”
Pablo Neruda


Numa altura em que se espera pela decisão presidencial e se tenta perceber a razão da demora, passam as notícias pelas misérias de uma elite atabalhoada e presa ainda pela surpresa e pela vaga que emerge de uma nova relação de forças. Todavia, eles não desistem, como se fossem senhores de tudo e de todos, disparando para todas as direcções, na tentativa vã de manter privilégios e poderes mais ou menos ocultos, donos que se julgam até de algumas consciências. É verdade. E funciona, pela astúcia, pela intimidação e pela vil arma da mentira descarada e despudorada. Todavia, se achamos normal que os senhores do poder e do dinheiro, estrebuchem com a hipótese do governo das Esquerdas, espantamos com opiniões colhidas e ouvidas, aqui e ali, de cidadãos anónimos que reproduzem, quais papagaios amestrados, as mesmas frases, as mesmas estafadas alarvidades, para além dos mais despudorados ataques a inteligência, vomitando ódio, nos fóruns da rádio e nas redes sociais. Pergunta-se o porquê e mais não se vislumbra a não ser a mais completa lavagem ao cérebro que há memória no nosso País, levada a cabo pela Direita reaccionária. E que, sob a forma de avantesma, como lhe chama J. Pacheco Pereira, “…aparição de uma pessoa morta, pessoa ou objecto assustador, disforme ou demasiado grande[1], parece ensombrar ainda o panorama político, ou pelo menos a cabeça daquelas e daqueles que se deixam ensimesmar.

O problema principal é que esta gentalha decide e faz o que bem quer e parece não haver forma de lhes travar o passo. Parece mais uma inevitabilidade, que aliás sempre foi bem tolerada em Portugal: mesmo sabendo que roubam, “eles roubam todos, são todos iguais, portanto mais vale deixar ficar lá estes, do que outros…”. Um dos melhores exemplos de roubo é o negócio de venda da TAP, conforme vem espelhado no Jornal Expresso, onde se pode ler “Cabe ao Estado português, ao abrigo do acordo entre a Parpública e os bancos, assumir o risco de incumprimento da dívida da companhia aérea portuguesa, À banca é mesmo conferida a prerrogativa de renacionalização da TAP. Estão em causa 770 milhões de euros[2]. Um outro exemplo, também deveras elucidativo é o da hipotética “devolução” da sobrecarga do IRS, que agora se verifica ser zero, quando na véspera das eleições andava pelos 35% e serviu desta forma para angariar mais alguns votos, bastantes decerto. E se neste caso da sobretaxa, a Direita fez o mesmo durante 4 anos, ou seja, mentiu descaradamente ao País, sobre os números da execução fiscal, para tentar mostrar um paraíso que lhes desse (e deu, de facto…) votos e tal configura aparentemente apenas um pretexto para o julgamento político, já o caso da TAP, configura para além desse, uma eventual possibilidade de julgamento criminal. Lendo a notícia do Expresso, “As negociações de última hora deram aos bancos a segurança de que, se for necessário, o Estado repõe a garantia pública à dívida bancária”, sublinhando ainda que “em causa estão quase 770 milhões que euros, que incluem uma dívida bancária de 646,7 milhões e 120 milhões adicionais pedidos pelo consórcio comprador para o financiamento corrente”. Então, na base destas afirmações, competirá ao Ministério Público instaurar o respectivo processo-crime contra o Secretário de Estado que conduziu as negociações. Ou será que só existe um caso no País de delapidação dos bens públicos, ainda assim eventual? Os recentes chumbos e outras chamadas de atenção do Tribunal de Contas indiciam claramente eventuais irregularidades e até fraudes em praticamente todos os negócios efectuados pelo Governo, designadamente nas diversas privatizações.

Se tal não bastasse para (re)definir esta Direita, ela aí está na verdade dos factos, a indesmentível prova que se mete pelos olhos dentro. É só mesmo preciso estar atento e ler os sinais. O Presidente em exercício é hoje a cara dessa Direita, ou melhor de uma certa facção partidária, exercendo os seus últimos dias no cargo, com um desplante completo de desprezo pelas outras forças partidárias e, obviamente por um País na sua plenitude. Ainda que definitivamente morto, mexe ainda, sempre para o mesmo lado, assustando assim os portugueses e ajudando objectivamente toda a desestabilização, provavelmente para semear uma qualquer solução autoritária, bem ao seu perfil e gosto pessoais.

Mas há, felizmente, pessoas atentas. Ao assinalar a passagem do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza e dos Sem-abrigo[3], o economista Carlos Farinha Rodrigues responsabilizou o actual governo pelo agravamento da pobreza em Portugal e alertou que mesmo havendo uma mudança de políticas, o país vai demorar "muitos anos" até conseguir reparar os danos causados. Na opinião deste economista, “… mesmo que haja uma inversão das actuais políticas e mesmo que o actual Governo seja substituído por outro disposto a combater a pobreza e a exclusão social, vai demorar muitos anos até reparar os danos que ocorreram durante estes três ou quatro anos". Este é seguramente o caminho do futuro governo que se espera e, se a espera desespera, saibamos no mínimo, estar conscientes que a solução das Esquerdas seja seguramente sólida para conseguir inverter o rumo.




[1] Extraído do artigo de 21 de Novembro 2015, no Jornal Público
[2] Extraído do artigo publicado na edição de 21 de Novembro 2015
[3] No passado 17 de Outubro

15 novembro 2015

O NOVO DISCURSO

O Portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
 
Homem de Palavra(s)”, Ruy Belo


11. Eles são o passado…
Os que entendem como eu/as linhas com que me escrevo/reconhecem o que é meu/em tudo quanto lhes devo[1], lembro o Ary e como tal me confesso (salvo seja!) feliz e de certa forma grato, com os últimos acontecimentos que irão decerto proporcionar ao nosso País um clima diferente, diria até, antagónico com o que antes nos dominava e oprimia.
Porque, é preciso dizê-lo sem quaisquer rebuço, esta gente que agora se fina, sem a mais pequena nota de dignidade, vive ainda no estertor da mentira e da manipulação grosseira. Incapaz de compreender, incapaz de aprender, incapaz de comunicar, a não ser com um discurso passadista, balofo e parolo, perfeitamente ao nível do defunto de Santa Comba, incarnado agora pelo inquilino de Belém que, mesmo na recta final do seu triste e cinzento mandato se arvora no direito de aconselhar e ditar regra, no mais acabado exemplo de uma mediocridade assustadora.  
É bom que se diga o que esta gente menor representou no nosso País, a quem retirou soberania, às claras. Personagens sem qualquer currículo relevante que não seja a passagem por postos-chaves subtraídos à custa de prebendas e outras sujeiras. Uma elite vergonhosamente antidemocrática e manipuladora. E suja, com as mãos cheias de pobreza. Castradora das consciências. Antipatriotas, vendidos ao capital e aos interesses internacionais que nada têm a ver com o nosso País, a não ser pela vontade de pilhagem constante e permanente. Capazes de tudo para devolver aos ricos o que roubavam aos mais pobres. Incapazes de compreender a infelicidade, incapazes de dialogar a não ser com eles próprios. Capazes de roubar até as pensões de sobrevivência dos mais pobres, na mais despudorada vergonha de que há memória, indo até ao ponto de se vangloriar por ir para além da troika, na defesa da famigerada austeridade expansionista, um conceito negado na prática por uma pobreza que chega aos 20% da população e com uma dívida que não pára de aumentar, exactamente a segunda maior dívida pública em comparação com o PIB (128%) logo a seguir à Grécia (174,9%)[2]”,

22. Como eram e ainda são sustentados
O que se tem visto na comunicação social é do mais rasteiro possível. Algumas e alguns jornalistas que entrevistam ou simplesmente falam com políticos de esquerda, colocam as mesmas questões que a Direita engendra. O discurso é sempre o da justificação de uma situação, quase sempre derivada das condicionantes do discurso da Direita. As mesmas questões, a mesma argumentação, os mesmos chavões (“afinal quanto custa”, “mas não há dinheiro”,…). Os comentadores, a quem foi sistematicamente dado o “poder” de perorar sobre tudo, emitindo opiniões pretensamente baseadas em uma hipotética sabedoria de centro, estribada em consensos pré-definidos, enchem as páginas dos jornais, aparecem nas rádios e nas televisões, juntos ou isolados, senhores de uma razão mais que balofa, tentando construir cenários que desaguam sistematicamente na mesma lógica.
Sendo que o papel que os meios de comunicação desempenham no quotidiano das pessoas, como promotores e difusores de ideias e valores na sociedade contemporânea é por si mesmo relevante, não deixa de ser preocupante que exista no momento presente um perigoso movimento de doutrinação permanente, por vezes nos limites da decência.
Senão vejamos. Foi a propaganda constante e sistemática, concebida e trabalhada com as empresas de sondagens, que levou a coligação de Direita a obter um score de 38%, com base na repetição sucessiva do conceito “…estamos agora melhor que antes”, de carácter fascistóide, enquanto que o País ficava cada vez mais atrasado e desigual. Foi e ainda é a repetição exaustiva da tese “…não há dinheiro” que justificava sempre os sucessivos golpes no Estado Social e na Escola Pública e que é ainda utilizada como inibidora a qualquer ideia ou proposta de desenvolvimento do País. Existe hoje um conjunto de indivíduos de estatura, no mínimo mediana, que pululam na comunicação social, saltitando entre redacções de jornais e estações de rádio e de televisão, formados no lume brando da mediocridade e que parecem dominar o espaço mediático, que aliás partilham com a espécie política do centrão, agora posta (finalmente) em causa. São, como bem os define António Guerreiro, “… os escritores subalternos, os animadores da televisão e os profissionais da idiotice impressa ou teledifundida, munidos de um vasto arsenal de instrumentos, que se tornaram os grandes mediadores. É através deles que se acendem as discussões políticas, ideológicas, culturais, à medida do exíguo espaço mental e da lógica do fait divers de onde nasceram[3].
É dramático que não exista ainda em Portugal um órgão de comunicação social de Esquerda. Um contraponto mais que necessário, a definição, teorização e consolidação de uma estratégia de resistência, conceito agora ainda mais importante, numa altura em que se perfila um governo apoiado por toda a Esquerda parlamentar e que se impõe defender contra os interesses instalados. Uma necessidade sempre adiada, agora mais que evidente.

33. Escolhamos as palavras
Podemos agora dizer as palavras que andavam arredias, porque não há céu delas que a cidade não cubra[4]. Dignidade, a reconhecer de novo. Conhecimento, a sustentar o Desenvolvimento. Podemos agora descobrir a esperança e glosar o entendimento. Queremos também protagonizar a Mudança. Não é simplesmente o facto de virmos a ter um governo de esquerda que nos deve satisfazer. É, isso sim o mais importante, a circunstância de fazer parte e de trabalhar para que exista a mudança. Fazer parte, é integrar conhecimento, é difundir e disseminar a democracia, através da participação. Como afirma José Goulão “…A nova realidade política em Portugal é dominada por gente séria, que sabe o que quer para o país, que põe os portugueses acima dos negócios, que finalmente privilegia o que a une sobre o que a divide, que preza a soberania nacional. Toda uma situação que tem um potencial único para travar e começar a inverter as consequências trágicas da política de caos, desmantelamento e parasitismo a que os portugueses, com excepção das minorias servidas pelo governo cessante, têm estado submetidos.”[5].
Esta é a oportunidade para virar a página. Não só da austeridade, mas também do discurso político. Trazê-lo para perto dos cidadãos, falar das pessoas e dos seus problemas, conceptualizar a diferença na diversidade. Dizer a verdade, identificando os problemas e propondo soluções, com respeito pelos cidadãos. Fazendo da politica uma actividade nobre e digna, no palco de uma República a reconstruir.  



[1] Excerto de “Poeta Castrado, Não”, in “Resumo” Lisboa, 1973.
[2] Entrevista a Agência Lusa do presidente da Cáritas Portuguesa, Lisboa, 24 Abril 2015
[3] Extracto do artigo “A cultura é dos subalternos”, António Guerreiro, Público, 13 Novembro 2015
[4] Referência ao poema “A Cidade”, José Afonso
[5] Extracto do artigo “Unidos como os dedos da mão”, José Goulão, Mundo Cão, 8 Novembro 2015

09 novembro 2015

O DISCURSO - 3

Se esperas pelo dia claro, deixa sempre a janela aberta...”
Do Livro Dos Conselhos

Há razões para termos esperança?
Socorro-me da interrogação de Teixeira da Mota(TM), desabafada no Jornal Público da passada 6ª feira. Embora a reflexão que é produzida não mereça a mínima credibilidade, vale a pena constatar o discurso, “…Neste momento em que o nosso país está sob a ameaça da instauração da ditadura do proletariado, em que as hordas do bolchevismo já não são uma ameaça no horizonte mas uma realidade facilmente constatável, em que o único partido que constituía um dique ao avanço dessas forças dissolventes e antipatrióticas já se encontra capturado pela esquerda radical…”[1], para perceber do que é capaz quem quer analisar … a liberdade de expressão na Finlândia. Como consequência do discurso produzido, TM declara do alto da sua menoridade, “…vem aí a legalidade revolucionária, os códigos serão rasgados, os contratos não serão para cumprir e os fins revolucionários justificarão todos os meios”. Embora com um formato em que se mistura o virulento e o patético, é este o discurso da intimidação e do medo que nos foi passado durante os últimos 4 anos, ainda por cima a pretexto de uma política de saque e de ataque à dignidade pessoal e profissional de cada um de nós. Alinhando pela via ansiolítica da esperança deste senhor, estão ainda (pelo menos) outros dois articulistas. Vejamos o que nos transmite Sousa Carvalho, na sua sapiência de táxi, “…o PCP e o Bloco de Esquerda deram a António Costa um automóvel para conduzir que só tem acelerador, mas não tem travões. Se for preciso austeridade para consolidar as contas públicas, o país vai capotar, porque o acordo à esquerda não admite austeridade sobre salários, pensões e impostos. É por isso que os comunistas mostram grande resistência em integrar um governo PS[2]. E finalmente, este maravilhoso exemplar, de fino recorte literário, do senhor Alvim, “…Agora e com a cumplicidade activa de um candidato a primeiro-ministro socialista derrotado de forma eloquente nas eleições legislativas, um país incrédulo e que quer avançar vê-se remetido à força e antidemocraticamente para uma espécie de putativa convenção da Internacional Comunista, aplaudida de pé pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP[3]. Com tudo isto, bem poderia dizer-se que só faltou, nesse dia, a sempre avisada crónica do Pulido Valente[4], para rematar tanto ódio e tanta cretinice junta. Num dia, assinala-se em que Francisco Assis publica o seu “pensamento” sobre a matéria em questão, a saber-se, a hipotética formação de um governo das Esquerdas.

Será que é de equacionar uma tremenda e intrincada contradição entre liberdade e moral neste tipo de discurso? Se atentarmos a Kant, para quem o exercício da liberdade em sua plenitude é inseparável do conceito da moral, poderemos ter parte da resposta. Todavia é a elaboração de uma justificativa racional[5] que fundamenta a validade objectiva de enunciados, que, segundo Habermas, consubstanciam determinados padrões dominantes. Aqui se poderá então encontrar um paradigma constante em praticamente toda a retórica da direita, neste momento, sem qualquer dúvida, histórico, em Portugal, e nesse tremendo equívoco que será a Europa dos dias que correm. 

É com alguma expectativa que aguardamos o final da tarde de Domingo. Chegam as 7 da tarde e sabemos já da posição do Comité Central do PCP, relativamente ao acordo para um Governo do Partido Socialista, para uma legislatura. Um desfecho mais que previsível, a que as declarações de Costa e Jerónimo, só vieram confirmar, acima de tudo pela afirmação mútua de esforço, muito trabalho e muita seriedade.
Então, como evidente se torna, a resposta a pergunta inicial, ganha agora uma nova dimensão. Não só há razões para termos esperança, como há esperança que uma nova razão emirja da sujidade e obscurantismo com que nos brindaram estes últimos anos. O discurso tem forçosa e obrigatoriamente de mudar. Para que se torne possível, viver melhor, sonhar um pouco também, descobrir que há motivos para participar na vida política, por uma democracia efectiva, pela dignidade amordaçada, pelos direitos espezinhados.
Poderíamos ainda dizer que, contra ventos e marés, valerá a pena desfrutar do momento. E lembrar o Almada, para quem as pessoas que mais admirava eram precisamente aquelas que melhor divergiam da sua pessoa.  

Há razões para termos esperança!
É uma afirmação. Libertada no dia em que se sabe que tudo pode ser diferente, que não estaremos já capturados pela inevitabilidade. Que podemos de novo olhar em frente e vislumbrar um pouco de luz e de cor. Poesia? Sim, decerto, com certeza!








[1] Retirado do artigo “A liberdade de expressão na Finlândia”, por Francisco Teixeira da Mota, Jornal Público de 6 Novembro 2015, pág. 47.
[2] Retirado do artigo “A diferença entre um programa e uma resma de papel”, por Pedro Sousa Carvalho, Jornal Público de 6 Novembro 2015, pág. 48
[3] Retirado do artigo “O governo de Portugal é dos portugueses”, por Miguel Alvim, Jornal Público de 6 Novembro 2015, pág. 48
[4] Referência a crónica de Vasco Pulido Valente, todas (excepto esta…) as 6ªs feiras
[5] Conceito defendido por Jürgen Habermas, em “O Discurso Filosófico da Modernidade”, 1990

01 novembro 2015

O DISCURSO – 2


Se, reproduzindo o discurso alheio,
a gente o altera tanto
é porque não o compreendeu..”
Goethe

1.    Vale a pena ainda dizer
Vale a pena analisar, debater e porventura guardar as palavras ditas e escritas que, por estes dias, têm sido produzidas, muito ao sabor das circunstâncias.
Rompe-se o silêncio na sociedade civil. Destrói-se o incrível muro, erguido diga-se de passagem pelos próprios, de um pretenso “arco de governação” em Portugal. Que deu os frutos que se conhecem, mas que talvez não esteja tão à vista quanto hoje. Talvez não tivesse sido líquido para a grande maioria das pessoas a tremenda teia de interesses partilhada entre 3 famílias partidárias, aparentemente diversas, mas quiçá irmanadas na absorção completa dos lugares disponíveis do aparelho de Estado, para as suas cliques. Uma aliança contranatura, de um discurso por vezes antagónico, mas a que se parece sobrepor sempre a mesma filosofia dura de uma cruel e sangrenta disputa de lugares, destinada a ocupar pastas ou postos-chave em conselhos de administração, assessorias diversas, de conhecidas prebendas.
Com a ruptura que parece protagonizar o entendimento das Esquerdas, abre-se provavelmente um novo caminho. Se para alguns é uma nova esperança, para outros será seguramente o fim de conhecidos privilégios. Se as direcções partidárias estudam e analisam um novo discurso, tal só poderá significar uma nova percepção da realidade. Um exemplo paradigmático será porventura o anúncio, outrora improvável, da apresentação de uma moção de rejeição única ao programa do governo recentemente empossado. O novo discurso representará decerto um enorme salto qualitativo relativamente a costumeira fórmula adoptada por PCP e BE, que analistas, comentadores e politólogos classificavam como “cassete” típica de quem apenas aspirava ao protesto e nunca a governação.

2.    Vale a pena esperar
Todas as semelhanças e diferenças são possíveis. A adopção de um formato discursivo de tipo novo, é necessária e urgente. E poderá significar uma efectiva ruptura, desde que se baseie numa real alternativa de poder, contra a minoria que parece não querer entender que existe mesmo uma alternativa. Acredita-se que seja penoso, para quem sempre afirmou a inevitabilidade, pela imposição de uma força legitimada, lidando sempre muito mal com a diferença, ver agora a alternativa surgir e ficar de certa forma impotente para a deter. O discurso desta vez não poderá ser somente o de uma alternância, pura e simples, essa já foi durante décadas. Para além de dever ser um discurso claro e afirmativo, ele deverá ser também um discurso de conteúdo e não apenas de retórica. Diz por estes dias que esta deu agora lugar a dialéctica, enriquecendo desta forma o debate político, acrescentando-lhe a substância que a retórica lhe retira.  
Quem foi diminuído, subjugado e traído espera decerto muito. Espera que lhe seja em primeiro lugar devolvida a dignidade perdida. Espera ainda que lhe sejam apresentadas medidas claras, tendentes a devolução das condições de vida condigna. Espera certamente a inversão de (pelo menos) algumas decisões ultrajantes do anterior governo que levaram a venda do País a retalho, sem quaisquer contrapartidas que não tenham sido a camuflagem de um défice necessariamente maquilhado. Esperam finalmente o reconhecimento de uma efectiva cidadania, contra o medo ainda instalado e que a Direita utiliza diariamente de uma forma vil e soez. Este é o discurso típico das ditaduras e dos regimes que se sentem ameaçados na sua legitimidade e que não tem já outro recurso que não seja a forma típica de intimidação como arma.
É muito positivo que a “coligação” das Esquerdas tenha escolhido temas como a defesa do Estado Social, dos salários e das pensões e da reposição das condições de vida. Mas é seguramente necessário que o discurso seja de mudança. Não compreender isto seria dar um golpe fatal nas esperanças da maioria da população, que acredita e aposta na Esquerda, para um futuro diferente. O discurso volta uma página decisiva. É mesmo necessário aproxima-lo da vida das pessoas, um discurso que fale a verdade, uma linguagem que faça as pessoas sentirem que vale a pena viver em sociedade de uma forma decente e feliz. Afinal, um discurso de Liberdade. E há quem o esteja a fazer, aqui e agora. É só mesmo preciso ouvir, ler e pensar um pouco. Vale a pena apostar num discurso que conjugue o Condimento, a Cidadania e o Desenvolvimento. Um discurso com futuro, contra o medo.

3.    Vale a pena sonhar
Curioso será então reflectir, caso se inverta o rumo das políticas do centrão partidário que, durante cerca de 40 anos dominou, o que vai ser da enorme multidão de comentadores, painelistas e outros quejandos, que vivem à sombra do regime, que alimentam e são alimentados por ele. Sempre unânimes, mesmo que por vezes ainda não, sempre em conivência com a inevitabilidade, pregando de sua cátedra o discurso confortável, conformista e naturalmente cúmplice, terão provavelmente o mesmo fim dos que ajudaram a promover e a incentivar. E que diriam se, numa qualquer esquina da cidade, deparassem com este diálogo:
“- A que horas começa a Revolução?
  - Ah, meu caro, a Revolução é um sentimento, é uma sensação única e uma necessidade de mudança (…)
 - A que horas começa?
 - Às três, na praça central…”[1]






[1] Extraído e adaptado de “O Trocicologologista, Excelência”, de Gonçalo M. Tavares, Ed. Caminho, Lisboa 2015, pág. 7