rio torto

rio torto

08 outubro 2016
































PIRELIÓFERO
Nome pouco comum, que evoca o “pir” de fogo e o “hélios” de sol e liga “forus” que conduz. A máquina que conduz o fogo do sol.
Em quatro fantásticos dias, dos Arcos de Valdevez a Sorède, atravessando a Espanha, calcorreando a Catalunha e os Pirenéus Orientais, tanta gente boa que conhecemos ou simplesmente reencontramos. Fizemos a homenagem ao Homem que desde finais do século IXX até aos anos trinta do século XX, de Portugal a França aos Estados Unidos da América, haveria de levantar bem alto a bandeira do Conhecimento. E ainda, as bandeiras do Desenvolvimento e da Sustentabilidade, da Ecologia, da Ecosofia, enfim da Ciência, da Técnica e da Tecnologia no espírito do Humanismo.
O dia 29 de Setembro 2016 ficará marcado pela inauguração do Pireliófero. As intervenções desse dia haveriam de lembrar como foi possível chegar até aqui e ter diante de todos, não só a máquina, mas também aquelas e aqueles que contribuíram para que tal fosse agora possível. 
Jacinto Rodrigues, o académico português que há muitos anos vem pesquisando e divulgando a obra do Padre Himalaya, brilhou em Sorède, como só ele sabe, historiando e contando estórias. Filosofando sobre a sustentabilidade, rebuscando a vida do MAG Himalaya, trazendo para o sol do dia, o sol da energia aplicada mesmo ali na sua frente.
Estivemos em Sorède em homenagem ao Homem, ao cientista e a sua obra. Uma réplica da máquina, que haveríamos de apreciar, na sua imponência majestática e na sua tremenda presença. Todos os que estiveram na manhã de 29 de Setembro puderam testemunhar a figura incontornável daquele que bem poderia figurar como o Leonardo Da Vinci português, dada a sua capacidade de antecipar questões ligadas ao Desenvolvimento, nas mais variadas esferas do conhecimento, da química à electricidade, da mecânica à termodinâmica. Mas ainda, da arquitectura dos territórios à hidrografia, das questões económicas e sociais.
O denominador comum de todas as intervenções centrou-se no paradigma "Usando o passado para construir o futuro, " tendo por base as energias renováveis e naturalmente, o forno, como precursor para o meio ambiente e desenvolvimento sustentável, a natureza, elemento do nosso planeta.

No dia seguinte, subimos a 750 metros de altitude para ver o local onde o Padre Himalaya construiu o primeiro forno solar. Caminho de pedras, caminho de cabras, sempre a subir, tal como o encanto e a emoção. Imagino o Manuel Gomes a subir, quiçá com um burro carregado de espelhos e outras peças de maquinaria. Tudo para conseguir captar ou capturar um sol que nunca o abandonaria e que ele “perseguia” com o intuito de poder desvendar a sua enorme força energética, ainda para mais ao alcance de todos, de uma forma sustentável. Pedras e mato, no caminho da energia, esta a espreitar por entre a imensa floresta, escondida no mais recôndito sítio. Ela que se oferece a quem a quiser entender, a quem a quiser aqui buscar. E usar, a bom proveito para os fins que se entender.
A natureza a funcionar, sim. Sobes e sentes oxigénio a mais, num ar mais difícil de respirar, as pernas a tremer. Lá em cima o sítio exacto, onde no ano longínquo de 1900, o Padre Himalaya haveria de construir a primeira máquina que conduz o fogo do sol.

Vale sempre a pena lembrar a Obra e o Homem. O evento de Sorède foi um exemplo vivo da Ciência, Técnica, Tecnologia e Humanismo. Face ao já previsto esgotamento dos bens naturais e das energias convencionais ou fósseis e ainda a destruição alargada da biodiversidade, é imperioso abordar todas as questões ligadas ao Desenvolvimento. Sob os seus mais variados ângulos como a que reporta à contaminação tóxica e à poluição global do ar, da água, da terra e dos organismos vivos. Um desenvolvimento sustentável, ecologicamente sustentável, social, ambiental e politicamente empenhado, na construção de um novo modelo global para erradicar a pobreza, na promoção da prosperidade e o bem-estar de todos, na protecção do ambiente e no combate às alterações climáticas, seguindo assim o compromisso da cimeira das Nações Unidas de Setembro de 2015.

Aquilo que possamos fazer pela Natureza e pelo Homem, nela enquadrado e cúmplice directo da sua sustentabilidade, decerto determinará o futuro do planeta.

Padre Himalaya!

03 outubro 2016

A ENTREVISTA


Na entrevista ao Jornal Público de hoje (3 Outubro) ao PM do Governo de Portugal, existem várias “armadilhas” montadas pelo jornalista de serviço. Nada que seja incomum. Apenas para registar a enorme manipulação de grande parte da comunicação social e particularmente deste periódico.

A primeira questão e a forma como é colocada são assaz paradigmáticas. O jornalista David Diniz (DD) afirma “…sem dinheiro e com Bruxelas a condicionar a política orçamental”. O chavão “não há dinheiro” é um (apenas um) dos pontos de convergência entre os chamados “jornalistas económicos” e a Direita radical. Trata-se de uma invenção que enforma a propaganda mediática para assustar a população menos avisada, que constitui, a acreditar nas sondagens, a massa votante nos partidos do centro partidário. Tal propaganda acaba mesmo por funcionar, fundamentalmente por duas ordens de razões, sendo a primeira o simples facto de que a forma como é exposto ser de tal forma redundante a positiva que parece mesmo verdadeira. A segunda razão é do foro psicológico e funciona exactamente da mesma maneira que a asserção passista[1]vivemos acima das nossas possibilidades”, punitiva e castradora de consciências. De tal forma são as pessoas massacradas com este tipo de publicidade enganosa, que acabam por a interiorizar.

A organização da entrevista obedece a um formato ardiloso. Começa por perguntas e respostas a ocupar o lado esquerdo, páginas 2, 4 e 6. E no lado direito, páginas 3 e 5 são apresentados textos onde são inseridas afirmações do PM, mas onde não existe contextualização a não ser a “verdade” discursiva do autor da peça. Um evidente exemplo é a forma como a questão das pensões é abordada. Na página 3 é elaborada uma pretensa posição do Partido Socialista, ou neste caso particular do António Costa (AC), que o Jornal tenta “opor” às posições concernentes do PCP e do BE. Todo o texto, a 3 colunas, é uma montagem abstrusa, com uma única finalidade (sempre a mesma) de tentar mostrar à opinião pública eventuais discrepâncias, neste caso concreto chamam-lhe “dissabores”, entre os partidos da Coligação.

Na página 5, a mesma situação, agora acerca do famigerado “índice de crescimento” da economia. Este é aliás um tema (mais um) recorrente e que integra um discurso catastrofista, afinal o “cântico” da Direita. Uma vez mais. O título “Economia deverá crescer pouco acima de 1% este ano” é da autoria de DD. É o que se lê quando se olha a página 5. O restante, o que diz o PM, acaba por não-se-ler, no sentido do condicionamento do que o artigo “obriga” a ler. O exemplo do que pensa AC e toda a Coligação está de facto lá, “o que vai permitir às nossas empresas serem mais competitivas é terem pessoal mais qualificado”. Tal é porém ofuscado pelo citado título.

Na página 6 há uma questão que, da forma como é colocada, não passa de uma vulgar provocação. Ao PM e ao país inteiro. Vejamos, relativamente a uma putativa posição de P. Passos Coelho (PPC), “…tem medo que as contas não batam certo no fim de 2016 e que ele tenha razão?”. E, no final da resposta de AC, DD ataca “…não vale a pena repetir”, soberba arrogância. Mesmo ao lado, a montagem do Jornal coloca uma foto de PPC. E a investida de DD continua, depois de AC explicar o seu ponto de vista sobre a forma como tem sido construída uma imagem negativa do País, o jornalista volta á carga, “…a verdade é que a economia não está propriamente em aceleração, o investimento…” . O restante conteúdo da página 6 é, segundo a “cartilha Gomes Ferreira[2]”, não propriamente uma entrevista, mas sim a afirmação constante da “verdade”, segundo DD, ao bom estilo do outro (o da cartilha). O que parece (…) é que a DD não interessa propriamente ouvir o que pensa o PM, mas sim afirmar a sua posição própria, punitiva e passista de toda a Direita. Brilhante.

A contribuição do Jornal Público para o esclarecimento da população é rematada, de forma redundante, com a publicação de “cinco gráficos para perceber como está a economia ao fim de um ano”, sem qualquer referência a uma fonte. A “verdade” está sempre nos gráficos, interpretados aliás de forma grosseira. A posição do Governo aparece sempre como contraponto, desmontada pelo autor Sérgio Aníbal, presumível autor dos gráficos (?) que encimam a página 8: “1,1% para o crescimento de 2016 e 2,8% para o défice público durante a primeira metade de 2016”.
O Jornal Público nem se dá ao trabalho de disfarçar a sua simpatia (e apreço?) a PPC, ao dar-lhe mais de metade da página 10 (Política), uma bela foto “institucional” a entrar para uma viatura que se presume “oficial” e ainda as habituais afirmações rascas que o caracterizam, menção especial para a “acusação ao Governo e dos partidos que o apoiam de quererem construir uma sociedade mais pobre e mais injusta”. É mesmo preciso muita lata…

Como bem disse António Barreto, “Quase não há comentadores isentos, ou especialistas competentes, mas há partidários fixos e políticos no activo, autarcas, deputados, o que for, incluindo políticos na reserva, políticos na espera e candidatos a qualquer coisa![3].
E assim se faz Portugal. Ou o querem fazer…



[1] Passista, de Passos e C&a
[2] Do autor José Gomes Ferreira, jornalista de “análises económicas” da SIC, licenciado em Comunicação Social pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa, onde se “notabilizou” como um aluno mediano a Matemática e com dificuldade em perceber equações (informação Wikipedia)

[3] In “As notícias na televisão”, artigo de opinião, DN, 25 Setembro 2016

29 agosto 2016

FORA DE SERVIÇO


Ouço a rádio
Não vejo televisão.
Passa por mim qualquer coisa como uma sombra de um tempo passado. Entre festivais de verão e fogos florestais, existe uma secreta tradição de passadismo, misturada com uma dose extra de estupidez de verão. Desculpável, pois claro.
Que dizer de tanta verborreia, do Brasil à Europa, que caiba em linhas singelas, para entreter incautos cidadãos e cidadãs, enlevados entre um banho de mar e uma toalha estendida ao vento? Fiquem onde estão, nem precisam sequer fazer um pequeno esforço de se levantarem, alguém vela por todos vós, a segurança social está firme no seu posto, não resta uma sombra por ocupar, vá lá, afirma-se que lá mais para Setembro rebenta tudo com a proposta de orçamento. Sentença, mais uma, de painelistas profícuos, que antevêem (outra vez) num qualquer Pontal a esperança ultima da nação, ao mesmo tempo que relatam “Mata mulher com caçadeira e suicida-se”.
Passa a vida estival em burkini e se calhar apanhas uma multa, poderia ser uma das frases da actualidade, que retiradas do contexto, produzem o mesmo efeito que fora dele. Ainda bem que há Algarve, todos por lá passam e também eu, embora possamos encontrar em uns e outros razões diversas. Mas nada disso interessa, estamos (estivemos) enlevados nos olímpicos jogos, esperamos tudo de atletas distintos, fizemos o choradinho do costume e aterramos na Liga NOS, que se perdeu o Campeonato Nacional de tempos idos, que é o que conta, por mais promessas e juras que façamos sobre a importância dos outros “esportes”.
Em tempo de férias, uma inevitabilidade constante, penso sempre nas palavras do sábio Zaratustra, que “Fora de Serviço”, dizia “Agora, porém, estou fora de serviço; encontro-me sem amo, e, apesar disso, não sou livre; por isso só me comprazo nas minhas recordações(a)

A vida flui como dantes, será “… sempre a perder” como diz a canção (b)?
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(a)   In “Assim Falava Zaratustra”, pág. 403, F. Nietzsche ( 1883/85)

(b)   Referência a letra de “Homem do Leme” dos Xutos & Pontapés

04 julho 2016

EMPATE ANTES DO FINAL…

Estranha sorte de empata. Imensa sabedoria porém do Homem que ganha com os empates. Porque há quem empate para empatar mesmo, num aborrecido registo que nos maça, por não produzir outro resultado que não seja o incomensurável tédio que arrasta para a linha de fundo. Engenheiros que somos, da obra e da palavra, tentamos entender o mundo como uma sucessão contínua de acontecimentos aleatórios, com os quais convivemos e muitas vezes nos debatemos em polémicas redutoras. Alguns de nós serão, aquilo de Marcel Duchamp chamava “Engenheiros do Tempo Perdido”, uma alusão simples e quiçá profética à construção patética de cenários aburguesados e conservadores. Quando acordamos para a realidade apenas vemos sombras, empatados que andamos por quem nos quer progressivamente amarados a uma visão unívoca e pindérica, oriunda de mentes menores, embora terrivelmente eficazes nos seus propósitos e objectivos de dominar e pisar consciências e direitos.

A terrível eficácia do engenheiro, aprendida em livros e sebentas é progressivamente pincelada pela vida, nas suas múltiplas e talvez inesperadas facetas. Moldado em termos humanos, o engenheiro quer demonstrar que a sua obra só faz sentido se for útil à comunidade. A sorte que o tempo lhe confere é apenas entre a ideia e a obra. Entre o pensamento e a acção. Usando a eficiência conceptual e a eficácia certeira.
Se o engenheiro conseguir ser, segundo o universo pessoano, um “recortador de paradoxos”, irá aproximar-se do intelectual na sua plenitude, ousando então compreender que a forma de realizar poderá ultrapassar a própria realização. Aí, mesmo que o empate subsista e que alguém tente sabotar a obra e/ou o seu percurso, virá o decisivo momento do penalti, que retira a dúvida e estabelece o resultado. A utilidade prática do engenheiro nunca se esgota contudo na obra, disseminada que seja a ideia, no sentido do progresso social, da igualdade e da Liberdade.

Na senda da busca pelo saber, poderemos atentar no engenheiro Álvaro de Campos. “Toda coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos…É pena a gente não ter exactamente os olhos para saber isso, porque então eramos todos felizes[1]
A felicidade é agora e mais que nunca um direito a reclamar. Solnado diria, bem a propósito “façam favor de ser felizes”. Seguimos-lhe as pisadas, rumo ao golo, mesmo que seja com a mão, roendo bem a canela do adversário. Há que mereça bem mais do que isso…



[1]Textos de Crítica e de Intervenção”, Fernando Pessoa, Lisboa 1931

20 junho 2016

A DIMENSÃO












"A desvalorização do mundo humano 
cresce na razão directa da valorização
do mundo das coisas"

Karl Marx




A estátua e o homem. O exagero não estará porventura na dimensão do órgão, mas poderá residir no facto em si, atribuindo uma messiânica função a quem não tem, lá está, a dimensão suficiente. Pondo de lado o órgão, claro. O que se vê em campo, pela tal selecção a quem alguns querem atribuir a dimensão nacional e uma representatividade que ultrapassaria a nação e se projectaria na tal globalidade europeia ou mesmo mundial, não fora a traição dos resultados, pese sempre a postura em campo, que se diz digna, superior e de bom recorte técnico. Brinca-se hoje com o poste, fosse ele a origem de todo o mal, a angústia do penalti aqui em toda a sua (imaginem!) dimensão. Aquele que era, pelos vistos, um desígnio, legitimamente configurado para a vitória total, voa agora baixinho rasteiro, ao nível do gramado, que de tão sintético se torna verdadeiro. O homem que se diz o melhor do mundo e possivelmente arredores, é realmente soberbo na linguagem gestual que ostenta a cada jogada, a cada paragem de jogo, para as câmaras, para a ribalta que o lançou como um produto acabado do consumismo e da mais patética e promíscua socialite, uma dimensão que nos ultrapassa e terá quiçá compreensão ao nível do etéreo, nunca lá chegaremos, nem a tal aspiramos, de simples mortais que somos, sem direito a estátua, nem a tamanha dimensão. Se acreditarmos no jargão popular, esse sim ao nível do comum dos mortais, “quanto mais se sobe, maior é a queda”, decerto que já não queremos subir a tal dimensão, donde excluímos naturalmente o órgão, sobretudo aqueles que o podem ter.

Por alguma razão ao ouvir hoje a estação de rádio TSF conceder 25 minutos a uma conferência de imprensa de um jogador, a quem colocaram as questões mais parvas e contudo profundas, retorquindo o dito (jogador) com o mais redondo discurso, embora revelador, senti o verdadeiro significado da dimensão. E ainda, o verdadeiro sentido da essência, numa angélica busca interior da maior dimensão. Conclui, imaginem, que basta marcar um golo ao adversário e não sofrer nenhum, para seguir em frente.
Seja lá para onde for…

15 maio 2016

TOURADA



Afirma com energia o disparate que quiseres e acabarás por encontrar quem acredite em ti
Virgílio Ferreira








Eu sabia. 
Haveria de estar em frente da TV precisamente um quarto para o meio-dia. Daria para gravar, mas ao vivo era outra coisa. E sabia que, do outro lado do mundo, haveria uns não sei quantos milhões a ver a coisa que dava por cá, um prodígio de valor porque, como um dos intérpretes viria a dizer, o nosso produto é bom. Já há uns dias atrás, um idiota mascarado de economista trocaria uns quantos papéis com números manipulados, para mostrar ao povo que o apocalipse se aproximava perigosamente e era preciso fazer qualquer coisa para subtrair o poder a quem o tinha usurpado, na gloriosa pátria bem-amada. Onde o produto, não nos esqueçamos, é bom, dando portanto para exportar, enriquecendo assim a suposta e inerente taxa que faz a riqueza do país aumentar. Não interesse para quem, isso é outra história.
Havia de tudo na messe, era só apostar e aparecia sempre um tipo de calções com a bandeja das oferendas que um catroga qualquer (dava por esse nome) coleccionava aos milhões e passava para o outro lado do mundo, numa orquestrada sinfonia espaventosa. Embora em tempos idos, o tal tipo pregasse a pobreza como onírica ventura. Não havia pois qualquer dúvida, era o acontecimento do século, no rescaldo do 13 de Maio, de boa memória para a populaça, um bom negócio afinal para juntar umas coroas, em velas, passeatas e afins. A pátria vendida a preço de saldo, mas com aquela garra lusitana que orgulhava sempre o pequenote rapazola que andava sempre (havia-lhe ganho o gosto durante 4 anos) com um emblema na lapela e chutava sempre para canto, quando se falava em inaugurações.
O país rendido aos pés da estupidez, marchava direitinho para a terra santa, enquanto uns quantos empunhavam estranhas bandeiras, umas com uma seta para cima e outras com um alvo e duas setas apontadas para ele, em que só acertavam de cada vez que falhavam. Que me lembre, havia uma senhora de crista, que gritava bem alto o peixe que vendia, bem fedorento diga-se entretanto, de podre que devia estar.
Era para ser festa uma dia depois, quando a maralha descesse a rua e irrompesse na praça, onde um marquês ostenta uma bandeia encarnada. Mas tão não era novidade, de há 3 anos a esta parte, nada de anormal, muito embora a saudável estranheza de muitas bandeiras vermelhas na rua, assuste sempre aqueles (e aquelas) que preferem a cova da iria à cova da moura, vá lá saber-se porquê, mistérios insondáveis quiçá.
Havia ainda uma estória mal contada e que envolvia o tipo que andava a tirar o tapete aos colégios, uma trama imensa, um golpe insidioso contra a “liberdade de escolha”, que para os detractores não era mais que a obrigação que a maioria terá em lhes amparar e confortar o luxo a que divinamente têm direito.
No meio de tanta confusão ficamos sem saber quem ganhou o jogo, embora a esperança fique de pé, para mais logo a invasão ser uma vaga de fundo. Sabemos que, hoje como antes, “toureamos ombro a ombro as feras[1]. E que na tourada da vida acabaremos sempre por ter que “pegar o mundo/pelos cornos da desgraça/e fazermos da tristeza/graça[2].
Quanto ao resto, que nos valha são marcelo, senhor de Belém e de todos os afectos. Amém.



[1] Extracto do poema “Tourada”, José Carlos Ary dos Santos, Lisboa 1973
[2] Idem, ibidem

25 abril 2016

OS FILHOS DE ABRIL


O homem não teria alcançado o possível se,
repetidas vezes, não tivesse tentado o impossível.
Max Weber












Ei-los que chegam de todo o lado às ruas, praças e avenidas a louvar a Festa, que em tempos foi bonita pá, sim senhor e agora, muitos anos depois, tanta água do rio que passou e que percebe não volta a passar, para o bem e para o mal da esperança que sempre nos conforta.
Eles são os filhos da Revolução, a quem passamos um património pleno de convulsões e contradições. São agora maiores, vacinados pelos tempos amargos dos dias de chumbo que ainda nos assolam, pela sua tremenda marca.

São altivos e sabem porque a árvore não deu frutos, pelo menos os suficientes para alimentar a luta que deve ser permanente, como a Revolução, que assim nos ensinaram. E se contestamos quase tudo, tal não contestaremos, porque faz parte da nossa cultura.
A rua nos obriga a vir gritar a Liberdade. Desceremos a Avenida proclamando o reinado das pessoas dignas e lembrando os tempos “…dos passeios que demos/Pela cidade? Dos dias que passámos/Nos braços da cidade?/Coleccionámos gente, rostos simples, frases/De nenhum valor para além do mistério[1]

Os filhos de Abril sabem que devem continuar a tarefa suprema de interpretar a Democracia na sua plena asserção. Que lhes compete lutar quando as forças nos começarem a trair. Agora, no tempo em que estamos lado a lado, queremos sempre saber se basta “…agitar a malta”, ou se o que faz falta mesmo “…é dar poder à malta”[2]. Acreditamos que sim, que a nova esperança que reina em Portugal seja a afirmação de poder mudar, de poder inovar, de poder construir.

Sabendo que a “liberdade está a passar por aqui”, embarquemos na Maré Alta[3] de Abril, gerações juntas na mesma empresa, rio de esperança, flor sem tempo, terra da fraternidade!

25 DE ABRIL, SEMPRE!




[1] Extracto de “Surrealismo/Abjeccionismo”, Alexandre O´Neill, 1963

[2] Referência a canção do Zeca
[3] Extracto da canção, Sérgio Godinho, 1971

17 abril 2016

O ABRIL DA NOSSA MEMÓRIA







Da memória colectiva se escreve um país, se constrói uma identidade, se afirma uma vontade imensa de Liberdade. Crescemos de certa forma com Abril, no ano 74 do já passado século, que contudo é a nossa referência de conceitos, princípios e determinação pela mudança. Fizemo-nos adultos, formamo-nos cidadãos, afirmando valores de contestação de uma sociedade podre, castradora e ruim. E, convém não esquecer, repressiva e asfixiante, na vertente fascista nacional protagonizada por lacaios de uma ideologia nefasta da crueldade e da miséria. Passamos por tudo isso, privamos com todos os que sempre acreditaram. E “Foi então que Abril abriu/as portas da claridade/e a nossa gente invadiu/a sua própria cidade”[1]. O exemplo de uma tribo que emergiu quando necessário, tornando dia a longa noite, acordando para a dignidade.

Passaram tantos anos, tantas desilusões, tanta água que, ao invés de limpar a sujidade e a miséria, parecia alimentar a fonte da iníqua injustiça. Nunca se deixou de lutar, é verdade, mas parecia sempre uma luta desigual, uma frente que avançava num ritmo tão lento que exasperava. Alguém teria dito “Temos fantasmas tão educados/que adormecemos no seu ombro…”[2] . Eles que porventura nos tolhiam o espírito e nos toldavam a memória? E nos dificultavam o raciocínio lógico que permitiria vislumbrar mais longe do que a varanda do sótão? Se pudéssemos enterrá-los, explodiriam as consciências e libertaríamos a tribo de Abril para a sua verdadeira vocação, rejeitar os dogmas e afrontar o poder, restaurando a dignidade perdida, promovendo a esperança.

Escrevemos hoje 17 de Abril, porque não podemos esquecer o mesmo dia do ano 1969. Em Coimbra, lançaríamos nesse dia um firme e violento golpe no regime fascista, que iria continuar nos meses seguintes com acções de luta, na academia e junto das populações. E levaríamos a Lisboa a 22 de Junho, na final da taça de Portugal uma das manifestações que mais abalou o regime e que levaria a substituição do ministro Saraiva, um dos pilares do fascismo marcelista.

A circunstância de a Esquerda ser agora maioritária no Parlamento e apoiar um Governo que reverte os malefícios de 4 anos de chumbo e de mais de 30 de compromisso, em nada afecta o apelo irresistível da rua para ocupar um espaço de luta permanente, a 25 de Abril e no 1º de Maio. Assim pugnaremos sempre por uma sociedade que aposte nas pessoas e não nos malfadados mercados, fonte de desigualdade, exploração e corrupção.

Na imensa vaga passadista que atravessa a Europa, o poeta no Governo, poderá ser a afirmação da benignidade da política, levando a imaginação ao poder, ou pelo menos a Cultura a um lugar que perdeu durante anos a dignidade a que tem direito.

Abril abre portas na nossa memória…

 [1] Extracto de “As Portas que Abril Abriu, José Carlos Ary dos Santos, 1975
[2] Extracto de “Queixa das Almas Jovens Censuradas”, Natália Correia, 1957

03 abril 2016

A IMPORTÂNCIA DA TRAVESSIA

Da leitura de um artigo de revista retiro um ensinamento. O autor diz, na sua aparente simplicidade, “…para mim, passar o rio já era um acontecimento”, uma asserção modesta e soberba ao mesmo tempo. Diria que redundante, não fora (para o autor) a principal e crucial medida da sua existência. Um artista, jovem, que marca o tempo na arte de rua, transportando afinidades e cumplicidades para os muros e praças, com rostos de gente que trabalha e luta na azáfama dos dias sem tempo. Cruzo com ele (fazemos sempre o mesmo quando nos agrada a sentença) a travessia que faço diariamente, a caminho do trabalho. Ele falava precisamente disso, quando atravessava o rio, o outro lado da cidade grande era sempre o destino. Ao mesmo tempo, um apelo terrível a criatividade, é de um artista que trata a matéria. Ao engenho de rever corpos e coisas misturadas nas ruas e avenidas, a procura de um mimetismo, muitas vezes escuso. Paro a pensar se a travessia, invariavelmente a mesma, tem significado diverso consoante o estado de espírito ou a marcha do tempo, que sempre soma. Procuramos qualquer coisa que marque o ritmo de forma constante e sem saltos ou, ao revés, esperamos algo que diariamente nos surpreenda? Provavelmente cada um encontrará para si o sinal correcto, a medida mais ou menos exacta, diletando para si uma qualquer fuga em frente, simplesmente para não querer pensar.

Vale sempre atravessar em vez de ficar no mesmo sítio, paráfrase da retórica interpretativa a que cada um tem direito, na liberdade do acto e na disponibilidade para a acção. Por mim, prefiro a travessia, mesmo contando que do outro lado pode estar o inesperado. Aí, vale mesmo a pena.

21 fevereiro 2016

O SENHOR BAUDOLINO













Podia chamar-te Baudolino[1] , observando o céu e contemplando as estrelas, partindo na aventura do maior mentiroso do mundo, que inventaste. Foste o nome daquela rosa[2] que todos leram e alguém quis filmar. Filosofaste sobre o Pêndulo[3] , lembrando que poderia haver um plano para governar a humanidade, quem sabe prevendo a trama da sociedade do domínio do capital. Ensinaste-nos a elaborar a tese de doutoramento[4] , e ficaste à espera na ilha do dia antes[5] , provavelmente para todo o sempre, encantando as ninfas com a tua arte, o teu humor, a tua categoria de príncipe. Que a Rainha Loana[6] , dona de uma misteriosa chama te chame agora para contar novas histórias. Sabemos ora que “não são as notícias que fazem o jornal, mas o jornal é que faz as notícias, e que saber juntar quatro notícias diferentes significa propor ao leitor uma quinta notícia”[7] , lendo o teu livro mais recente, que escreveste com aquela garra e atrevimento que fazem os grandes mestres. Deixa-nos lembrar-te como um grande pensador da vida, ou como o Guilherme de Barskerville, que desafiou o poder. 

Passo-te a palavra, num gesto de louvor: “… às vezes, um ândito escuro, uma estrada frouxamente iluminada, um lampião entrevisto na neblina, podem estimular a imaginação e colocá-la em orgasmo inventivo…”[8]

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[1] Homenagem à obra do mesmo nome, 2000
[2] Homenagem à obra “O Nome da Rosa”, 1980
[3] Homenagem à obra “O Pêndulo de Foucault”,1988
[4] Homenagem à obra “Como se faz uma Tese”, 1995
[5] Homenagem à obra do mesmo nome, 1994
[6] Homenagem à obra “A Misteriosa Chama da rainha Loana”, 2004
[7]Referência a obra “Número Zero”, 2015
[8]Citação da obra “Apocalípticos e Integrados”, 1964


14 fevereiro 2016

TRANSFORMAR A RESTRIÇÃO EM AFIRMAÇÃO (1)





Perante um obstáculo, a linha mais curta entre dois pontos pode ser a curva…”
Bertolt Brecht












A redefinição da luta política é, nas circunstâncias actuais, uma aprendizagem com contornos de uma intervenção ajustada e equilibrada, num sentido que se pretende positivo e integrador. Curiosamente este é um tempo de afirmação, embora o seja também tempo de resistência. Nunca como agora, a esperança de uma solução diferente esbarra na atitude reaccionária que se insinua na sociedade civil através de agentes meticulosamente colocados em diversos postos-chave da comunicação social, primando por uma postura calculista e visando descredibilizar pessoas e instituições que pretendem a mudança. Compete às forças vivas que estão pela viragem, mas também apostam na defesa da dignidade perdida, desencadear processos que imprimam na sociedade civil a compreensão da nova política, das suas vantagens e também dos seus compromissos.
1.      Em primeiro lugar a questão da reversão das políticas que arrasaram o País, o seu tecido económico-social e as pessoas de forma directa nos seus rendimentos. A inversão do ciclo é consensual à esquerda e constitui no momento o acordo base (que se pretende) para uma legislatura. Passa pelo equilíbrio desta solução de governo, o sucesso da reversão. Mas também de redefinição das linhas programáticas da própria solução governativa. É por esta razão urgente que o discurso político mude radicalmente. Precisamente na base concreta da afirmação de ideias, princípios e conceitos que se supunha adquiridos na sociedade civil portuguesa após o 25 de Abril de 74, mas que foram sucessivamente hipotecados por décadas de uma realpolitik que os assassinou, pelo menos ideologicamente. A afirmação de um novo discurso pode (deve) ser feita de duas formas. Por um lado, através de “acerto” de linguagem entre as forças partidárias que subscreveram os acordos à Esquerda, de uma forma pedagógica, no que reporta a comunicação e difusão da mensagem. E, por outro lado, na assunção de medidas legislativas concretas, em áreas-chave do poder, como a Educação e a Cultura. O novo Poder tem que se afirmar na comunicação social, que ora lhe é adversa. E fazê-lo de uma forma assertiva e irrepreensível. O “simples” facto de, ao contrário do que aconteceu nos últimos 4 anos, o PM não aparecer nas rádios e nas TV, todo o dia e a toda a hora, a opinar sobe tudo e mais alguma coisa, pode ser um bom exemplo. Que todavia deve ser substituído por um outro tipo de intervenção, de formato diverso, possivelmente explicativo e que está a ser ensaiado, por exemplo, com a “saída”  do Terreiro do Passo e o contacto directo com as pessoas.
2.      Em segundo lugar, e não necessária e cronologicamente após o primeiro, há que equacionar a questão da dialéctica e do confronto ideológico, como premissas de desenvolvimento e de capacitação das pessoas e das instituições. A educação para a cidadania será porventura um dos passos possíveis, já que é aceite de forma consensual e que inclusivamente ultrapassa a barreira ideológica entre Esquerda e Direita, mas onde a Esquerda tem um enorme ascendente social, por razões óbvias. Explorar as contradições entre riqueza vs. distribuição no desenvolvimento das sociedades, economia vs. finanças, público vs. privado, investimento vs. desenvolvimento, são exemplos vivos de como pode ser incentivado um debate sério e responsável.
3.      Em terceiro lugar, virão aquelas medidas que nunca são tomadas por nenhum governo do antigo centrão partidário e que constituem a pedra de toque dos regimes baseados no favor e na influência. A reforma do Estado é porventura a melhor prova que o novo Poder pode dar á população, de que está interessada em mudar o sentido da política, para algo que aproxima as pessoas e não o contrário. Intervenções necessárias e urgentes devem ser propostas e efectuadas em sectores como a Educação, a Saúde e a Segurança Social. Há ainda um sector onde de deveriam supor mudanças radicais, para aproximar as pessoas ao Estado: a Justiça. A verdadeira reforma do Estado começa sempre pela assunção do princípio básio de colocar o Estado ao serviço das populações, contra a tese instrumental dominante. O exemplo negativo das designadas “entidades reguladoras” será talvez o paradigma do que não-deve-ser. Existem neste momento em Portugal 17 entidades reguladoras, agora (decisão do finado governo da Direita) com privilégios especiais na remuneração das respectivas chefias, traduzidos em aumentos de 170 por cento. Não existia entretanto, nem sequer no portal do Governo, um local que simplesmente listasse quais são estas entidades reguladoras, um dos sintomas reveladores da falta de transparência da administração central. A melhoria dos serviços públicos de saúde, educação e ensino superior, previstos no acordo das Esquerdas é outro dos centros de intervenção, bem como uma administração desburocratizada e eficiente. E ainda a premência da criação das Regiões Administrativas, o reforço da autonomia administrativa e financeira do Poder Local.
A Direita portuguesa está desqualificada. A única “qualificação” actual que se lhe conhece é alimentada pela “interiorização que muitos jornalistas e comentadores fizeram do argumentário da direita nos últimos quatro anos[1]. É espantoso como a insistência em meia dúzia de conceitos-chave, martelada pelas rádios, TV e jornais, produz efeito nas pessoas, pelo menos a nível do que se pode considerar a chantagem pelo medo desta solução governativa. E, para além disto, existe uma campanha, agora conhecida e denunciada como “os truques da imprensa portuguesa” que consiste na produção constante de notícias alarmistas, e algumas delas completamente falsas. E finalmente, a divulgação de “sondagens” de duvidosa credibilidade (para não dizer outra coisa…) e que constitui uma manobra tendente a recolocar a Direita de novo no poder. Um exemplo, e é apenas um, dos tais truques, tem a ver com a recente subida do preço dos combustíveis, Enquanto a matéria-prima (crude/brent) desceu mais de 60%, os combustíveis desceram menos de 30%. Entretanto, a Galp apresenta lucros de mais de 600 milhões. Mas, por sorte sua, a imprensa continua a falar do "brutal aumento de impostos."
Compete pois à Esquerda qualificar-se. E tal significa assumir, para além da reversão das medidas, uma postura permanente na adopção de medidas que devolvam a dignidade às pessoas. Perceber a importância histórica desta solução de governo, significa antes de mais o reforço da solução governativa, ora ameaçada pelos burocratas de Bruxelas, com o apoio dos cães de fila habituais. E esse reforço começa pela coesão interna da solução governativa, tendente, em primeira instância em conquistar a população, nomeadamente das suas camadas mais desfavorecidas.
(continua)



[1] Citação do artigo “Brincar com o fogo”de J. Pacheco Pereira, no jornal Público de 06/02/2016

30 janeiro 2016


Devíamos estar a falar de coisas mais importantes…
















Como por exemplo. De saber como podemos aumentar a produção nacional. De como poderemos aproveitar melhor os recursos nacionais. De como poderemos melhor distribuir a riqueza que produzimos. De como equilibrar os rendimentos, erradicando de vez a pobreza. De como devemos melhorar o ensino público. De como deveremos oferecer melhores cuidados de saúde a população. De como trabalhar menos e produzir mais e melhor. De como preencher o lazer, porque a ele temos direito. Não, o que discute é o famigerado Orçamento de Estado 2016. Reformulo, porque nem 0,1% da população está interessado nisto, o que nos querem fazer discutir. A comunicação social predadora faz deste tema um alarido permanente. Como nunca se viu. Quem se lembra de discutir o Orçamento de Estado? “Fruto de uma cultura obesa e que fabrica a conformidade e o consenso[1], como bem diz A. Guerreiro, o séquito voraz de comentadores, analistas e painelistas atira-se ao Governo como nunca havia feito aos anteriores, fazendo passar a mensagem que a Comissão Europeia “chumba” o Orçamento. A histeria é de tal ordem que chega ao cúmulo de albergar frases como “Costa sob fogo, Bruxelas pressiona”, “Comissão chumba Orçamento”, “Governo apertado entre Bruxelas e PCP”, numa clara intenção de reinventar a malfadada inevitabilidade. A histeria desta comunicação social é a pedra de toque cavada pela Direita. Desta vez é o Orçamento, como antes foi a tese da fragilidade dos acordos. Bafejados pelos favores da Direita, que deles por sua vez se alimenta, escrevem e postulam com a arrogância que os define. O objectivo é sempre o mesmo. Criar um clima de suspeição permanente na opinião pública, que mais cedo ou mais tarde, estará disposta a atirar a primeira pedra a um Governo que tenta, contra a corrente, devolver ao Povo o que lhe foi roubado. Curiosamente, parece que as pessoas já se terão “esquecido” das malfeitorias a que foram sujeitas, às vezes a memória é curta…  
Proust disse, “A sabedoria não se transmite, é preciso que nós a descubramos fazendo uma caminhada que ninguém pode fazer em nosso lugar e que ninguém nos pode evitar, porque a sabedoria é uma maneira de ver as coisas[2]. Ser sabedor implica, nos momentos difíceis, ser capaz de pensar do lado discreto das coisas. Não fazer ondas desnecessárias, descobrir nesta caminhada a melhor forma de levar às pessoas a mensagem certa no momento oportuno. Este será porventura o momento de o Governo se aproximar daqueles que renegam a política, porque se afastaram pura e simplesmente das decisões. Ou porque delas foram afastados.
Os acordos celebrados pelas Esquerdas são em muitos anos um sinal de mudança. Há quem não queira mudança alguma. Ou porque não lhe convém, ou porque lhe convém manter os seus privilégios. Haverá porventura uma última razão, que tem a ver com a circunstância de não acreditar em nada, porque já perdeu a esperança. Tão simples quanto isto. Pela primeira vez existe uma maioria parlamentar que pode virar a página. No nosso País há tanta coisa para fazer, que alimentar as querelas dos que não aceitam que é possível, é simplesmente perder tempo. Faz bem pois o Governo que tem mantido uma atitude de recato aconselhável perante as investidas antipatrióticas dos que desejam de facto o regresso ao passado.
Quem fala dos benefícios sociais até agora revertidos? Quem se preocupa com as camadas desfavorecidas da população, marginalizadas durante os últimos anos? Que fala, por exemplo, de felicidade? Quem quer que ainda tenhamos medo?
Já agora, lembro David Bowie, quando dizia,“Viver com medo é a manifestação da miséria mais profunda”.



[1] António Guerreiro, “Escritora, Princesa do Espírito”, Público/Iplison, 29 Jan 2016
[2] Marcel Proust, in “Em Busca do Tempo Perdido- Do Lado de Swann”.