rio torto

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22 junho 2017

  PARA UM NOVO PARADIGMA DE DESENVOLVIMENTO 


Agir para não deixar ninguém para trás!
As palavras são retiradas do Relatório de Portugal que reúne os resultados do processo de consulta à Sociedade Civil, relativo às recomendações para implementação dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), no nosso País. Os 17 ODS constituem uma resolução da cimeira da ONU de Setembro 2015, que aponta um “…novo modelo global para acabar com a pobreza, promover a prosperidade e o bem-estar de todos, proteger o ambiente e combater as alterações climáticas[1].










O processo de consulta pública, que decorreu em 2016, foi construído e implementado por um conjunto de Plataformas e Redes da Sociedade Civil portuguesa[2], tendo em vista produzir um contributo estruturado comum das diversas organizações e, simultaneamente, influenciar a definição da Estratégia Nacional para a Implementação dos ODS, dando voz às aspirações e expectativas da Sociedade Civil relativamente à implementação da Agenda 2030 em Portugal. Os resultados apontam para a necessidade de sintetizar uma estratégia nacional, acompanhada por um plano global para implementação dos ODS, um documento programático de longo prazo. Foi com essa intenção que se realizou, no passado dia 19 de Abril, na Assembleia da República (AR), um Seminário para apresentação das recomendações para implementação dos ODS em Portugal. Na sessão foi salientado que o Plano deveria ser construído de forma participada, bem como ter em conta as dimensões nacional, regional e local e ainda a necessidade de se integrar com outros programas, nomeadamente PT 2020, Habitat III, e Estratégia de Desenvolvimento Local. O Plano deve estabelecer prioridades em função de necessidades localizadas, e utilizar uma linguagem simples e propositiva para o público em geral e ter uma abordagem holística. Deve ainda ter força vinculativa e não apenas persuasiva. Deve pressupor uma monitorização permanente e uma avaliação regular e participativa. Deve promover o conceito “Place-based approaches”, que significa “…a transposição e adaptação dos objectivos ao nível local, incentivando a criação de Planos Locais de intervenção integrada e a consciência da interligação dos problemas (e soluções) locais aos problemas (e soluções) globais.”[3]. Deve também “…reforçar o combate à corrupção, à regulação efectiva dos paraísos fiscais e respectiva regulamentação fiscal”.[4] E deverá criar ainda “…condições e incentivos para que o sector empresarial se posicione como investidor social e ambiental e/ou financiador de intervenções sociais e ambientais...” Deverá finalmente “…apoiar a Sociedade Civil dos países em desenvolvimento na influência dos respectivos Governos e estruturas de decisão[5].
Na sessão abordou-se ainda a necessidade de a AR: (a) conferir força vinculativa ao Plano, através de uma Resolução ou de um Decreto-Lei, (b) desenvolver uma acção permanente de fiscalização do Governo, (c) promover uma Comissão Parlamentar permanente para os ODS.

    O Pacto Global das Nações Unidas
    Merece particular referência o designado Pacto Global das Nações Unidas (UN), lançado em Julho 2000, em Nova Iorque. Havia sido anunciado por Kofi Annan[6] no Fórum Económico Mundial, em Davos, a 31 de Janeiro 1999. Esta iniciativa das UN teve como objectivo primeiro mobilizar a comunidade empresarial internacional para a adopção, nas práticas de negócios, de valores fundamentais e internacionalmente aceites nas áreas de direitos humanos, relações de trabalho, meio ambiente e combate à corrupção, contando com a participação de empresas, sindicatos, organizações não-governamentais e demais parceiros necessários para a construção de um mercado global mais inclusivo e igualitário. Uma rede que hoje se alarga a mais de 12 mil organizações, articuladas em cerca de 150 redes. O Pacto Global contempla 10 princípios que derivam de declarações universais, como a Declaração Universal de Direitos Humanos, a Declaração da Organização Internacional do Trabalho sobre Princípios e Direitos Fundamentais do Trabalho, a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento e ainda, a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção. Não sendo um instrumento regulatório, nem um código de conduta obrigatório, parece constituir mais uma iniciativa voluntária que procura fornecer directrizes para a promoção do crescimento sustentável e da cidadania. Eis os princípios. Direitos Humanos: (1) As empresas devem apoiar e respeitar a protecção de direitos humanos reconhecidos internacionalmente, (2) Assegurar-se de sua não participação em violações destes direitos; Trabalho: (3) As empresas devem apoiar a liberdade de associação e o reconhecimento efectivo do direito à negociação colectiva, (4) A abolição de todas as formas de trabalho forçado e obrigatório, (5) A abolição efectiva do trabalho infantil, (6) Eliminar a discriminação no emprego; Meio Ambiente: (7) As empresas devem apoiar uma abordagem preventiva aos desafios ambientais, (8) Realizar iniciativas para promover a responsabilidade ambiental, (9) Encorajar o desenvolvimento e a difusão de tecnologias amigas do ambiente; Contra a Corrupção: (10) As empresas devem combater a corrupção em todas as suas formas, incluindo extorsão e suborno. O Pacto Global configura à escala mundial, a Global Compact, organizada em redes, locais ou regionais, que permitem estreitar laços entre as empresas e outras partes interessadas e que, ao mesmo tempo, promovem uma partilha de experiências e desenvolvimento colectivo. No nosso País, existe a rede nacional do Global Compact, a Global Compact Network Portugal (UN GCNP), que reúne os subscritores da iniciativa com sede ou que operam em Portugal e que foi constituída formalmente em 2007.

Questionar o modelo actual de Desenvolvimento
Retomando algumas das premissas que parecem estar subjacentes às recomendações internacionais e que estão plasmadas nos ODS, a saber, a luta pela erradicação da pobreza, a promoção da prosperidade e do bem-estar de todos, a protecção do ambiente e combate às alterações climáticas”, encontramos porventura uma excelente base para tentar aproximar um modelo para o Desenvolvimento.
Em primeiro lugar haverá que redefinir o termo “Desenvolvimento”. Porque, apropriado de forma inadequada, pode dar origem a algumas confusões e ser inclusivamente fonte de equívocos. Qualquer dicionário da língua portuguesa poderá apresentar a designada “acção ou resultado de (se) desenvolver”, quer ao nível do significado, quer ao nível dos seus sinónimos, adjectivos como avanço, prosperidade, evolução ou progresso; mas também, propagação ou desdobramento; ou ainda, elaboração,  evolução,  explanação ou prolongamento. E finalmente um termo que encerra um conceito e que tem provocado uma tempestade de ideias, nem sempre aproveitadas da melhor forma: crescimento.
Mesmo que, como em muitos autores, lhe juntemos o termo “Sustentável”, poderemos talvez ficar pela rama do conceito, se o associarmos a uma “…forma de desenvolvimento e crescimento económico que tem como objectivo garantir a preservação adequada dos recursos naturais e do meio ambiente, tanto em termos espaciais como em termos temporais[7]
É necessário antes de mais, questionar o próprio modelo de desenvolvimento. Uma série, que parece não terminar, das chamadas “crises” na última década é tão só o resultado de uma concepção de desenvolvimento que ignora os dados naturais e sociais[8]. Baseiam-se na premissa dos recursos inesgotáveis, a prevalência do valor de troca em detrimento do valor de uso e, invariavelmente a acumulação de lucro e do capital. Resultado, uma acumulação de riqueza, sob a forma de produtos transaccionáveis, que conduz a uma tremenda desigualdade social, entre países e, principalmente nos países periféricos, a um enorme gap entre ricos e pobres, agravados ainda por cima por sucessivas políticas que, favorecendo sempre a finança, conduzem a situações de injustiça permanente. Ao renegar para segundo plano as pessoas, o modelo vigente de desenvolvimento, esgota os recursos do planeta, destrói a vida natural, produz situações de catástrofe e conduz uma imensa maioria da população mundial ao ostracismo e à pobreza. De facto, o modelo de desenvolvimento actual é baseado sobretudo na lógica do crescimento económico, com a sucessiva produção de bens. Calcula-se que, a continuidade daquela lógica, acarretaria no futuro mais 3 planetas Terra para a albergar. Produzindo demais e esgotando os recursos naturais, a consequência primeira é a de uma sociedade em luta constante pela sobrevivência. “Por um lado produzem-se necessidades artificiais e compulsivas que geram destruição enquanto as necessidades básicas (alimentação, saúde e cultura) não são satisfeitas em largos sectores da sociedade” [Rodrigues, J., 2007]. Dados publicados em 2010 mostram que, entre 1950 e 2005, a produção de metais cresceu 6vezes, o consumo de petróleo subiu 8 vezes e o de gás natural, 14 vezes. Actualmente, um europeu consome em média 43 quilos em recursos naturais diariamente, enquanto um americano consome 88 quilos, mais do que o próprio peso da maior parte da população[9]. O relatório elucida ainda que “Em 2006, os 65 países com maior renda, em que o consumismo é dominante, foram responsáveis por 78% dos gastos mundiais em bens e serviços, mas contam com apenas 16% da população mundial. Somente os americanos, com 5% da população mundial, ficaram com uma fatia de 32% do consumo global. Se todos vivessem como os americanos, o planeta só comportaria uma população de 1,4 bilhão de pessoas.”



                            




Isabel do Vale, Natura, (2013)
     O caminho do Ecodesenvolvimento
O pensamento dominante, suportado por uma imensa máquina de comunicação social, pretende criar a ilusão de que não existe alternativa (T.I.N.A.). Ele é de facto suportado por uma lógica de causalidade li near, excluindo propostas ou soluções que possam, em qualquer caso, prejudicar a continuidade das políticas desastrosas para a maioria da sociedade. Todavia, a consciência da necessidade de mudança começa a enraizar-se em sectores cada vez mais vastos, a começar pelos mais jovens e aproveitando a difusão permanente de informação sobre as questões sociais, ambientais e de políticas do território.
Opor o pensamento sistémico ao pensamento linear é o primeiro passo para a mudança civilizacional. É cada vez mais necessário cimentar um modelo de tipo novo, baseado em um paradigma de desenvolvimento que faça o contraponto com o actual. “Um modelo civilizacional que regenere o capital natural criando um metabolismo biológico circular que permita reciclar os nutrientes invertendo o processo linear de esgotamento e contaminação [Rodrigues, J., 2012]. O que nos leva a considerar a necessidade de pensar de uma forma sistémica, numa perspectiva ecológica e de desenvolvimento sustentável nela baseado: o desenvolvimento ecologicamente sustentado.
Uma das questões emergente é sem dúvida a da energia. A crise de energia advém do esgotamento dos recursos naturais explorados pelo modelo de desenvolvimento actual. Calcula-se que, num horizonte temporal de 4 ou 5 décadas, terão de ser alteradas as fontes de energia habituais, devido ao fatal esgotamento de petróleo, urânio e gás. Da falência das políticas baseadas nos combustíveis fósseis, emergem novas fontes como a solar, eólica, hidrogénio, biomassa, geotérmica, ondas, agro-combustíveis, fusão nuclear, … O nosso País viu nascer, em finais do século IXX[10], um cientista fabuloso que, na opinião de Jacinto Rodrigues[11] possuía uma visão muito particular do mundo, “… uma forma pré-ecológica que o tornou pioneiro desta concepção orgânica do planeta e da abrangência aos ecossistemas e à biosfera em geral.” Mais conhecido no estrangeiro que na sua terra, o Padre Himalaya, foi o primeiro responsável pela divulgação das energias renováveis, particularmente da energia solar, para além dos estudos e práticas, em naturopatia, em particular da fitoterapia e da hidroterapia.
O caminho passa naturalmente pela proposta de uma visão holística, combinando e correlacionando os aspectos económicos, políticos, culturais, sociais, ambientais, utilizando uma abordagem sistémica, uma análise da forma como as diferentes dimensões se interpenetram e interdependem. Fundamentalmente, trata-se de posição ética que advoga um desenvolvimento voltado para as necessidades sociais mais abrangentes, que dizem respeito à melhoria da qualidade de vida da maior parte da população, e o cuidado com a preservação ambiental como uma responsabilidade para com as gerações futuras. Trata-se então "…gerir a natureza de forma a assegurar aos homens de nossa geração e a todas as gerações futuras a possibilidade de se desenvolver” [Sachs, I., 1981].
Definido como Ecodesenvolvimento, um termo introduzido pelo economista e ecologista alemão, Karl Kapp, representa um conceito novo de desenvolvimento e defende a integração das vertentes  do bem-estar social e da preservação ambiental, no desenvolvimento.

    Alternativa ao conceito de Crescimento: o Decrescimento Sustentável
As razões pelas quais um determinado paradigma é escolhido em detrimento de outro não são apenas teóricas, mas também epistemológicas. A economia neoclássica está estreitamente vinculada ao positivismo lógico e favorece a concepção de que o crescimento económico virtualmente ilimitado seria condição necessária para o desenvolvimento económico [Fernandez, B., 2011]. Existe na sociedade civil, muito por força dos sucessivos apelos ao designado “crescimento económico”, uma permanente submissão das pessoas e dos Estados, aquele que parece ser um desígnio dos povos, para o crescimento. No ano 2002, o pensador austríaco Ivan Illich, o homem que defendia a desescolarização da sociedade, falaria em público pela última vez, num colóquio intitulado “Desfazer o desenvolvimento, refazer o mundo”, vincando uma posição que o título do evento esclarece de forma inequívoca: os recursos naturais são limitados não permitindo o crescimento infinito.
A necessidade de uma (ou mais) alternativas ao antigo paradigma, havia sido anunciada já nos anos 70 do século XX, por alguns autores, das áreas da Economia, Sociologia, História e Filosofia, que advogavam uma abordagem holística, dos quais se destacam, por exemplo, Nicholas Georgescu Roegen, Ernst Fritz Schumacher, Rachel Louise Carson, Cornelius Castoriádis. E na actualidade, Maurizio Pallante, Serge Latouche, William Rees e Jacinto Rodrigues.
A luta pela sobrevivência está na ordem do dia. Actualmente estamos a produzir demais, e se a população mundial chegar, como se prevê, aos 9,6 biliões em 2050, serão necessários (como já referimos) “…quase três planetas Terra para proporcionar os recursos naturais necessários a fim de manter o anual estilo de vida da humanidade”[Banco Mundial, 2010]. Foi aliás esta uma das premissas fundamentais para que fosse incluído o tema “consumo” na preparação e discussão dos ODS para 2030. Na realidade, o que está em causa não é somente uma questão de defesa dos direitos das pessoas, do ponto de vista da sua autonomia, dos laços que estreitam, da distribuição de renda, da fragilização das relações sociais e da exclusão a que estão sujeitos. É também a questão dos limites biofísicos do planeta Terra e dos impactos resultantes da degradação permanente do ambiente.

A transição de um antigo para um novo paradigma é uma revolução científica. Os cientistas sociais de um conceito diverso, tomam a defesa explícita pelo aumento das actividades económicas que fortalecem a saúde humana e a diminuição das que intoxicam a sociedade e defendem uma ruptura. E como de uma ruptura se trata, não basta reproduzir conceitos enganosos como “crescimento verde” ou “desenvolvimento sustentável”. É o Decrescimento, um conceito sócio-político-económico, que se baseia nas testes da Bioeconomia e que advoga que o crescimento económico, entendido como aumento constante do PIB[12] dos Estados, não é sustentável pelo ecossistema global. Serge Latouche[13] chama a atenção para o facto de o Decrescimento ser a bandeira de um projecto alternativo para uma política do pós-desenvolvimento.  Segundo ele, o Decrescimento é uma das formas de fazer ver que um crescimento ilimitado não é possível num mundo com recursos limitados. e mais, que a melhoria das condições de vida deve ser obtida sem aumento do consumo, mudando-se o paradigma dominante.
o decrescimento económico propõe a diminuição das actividades económicas e financeiras à escala mundial, com implicações à escala de cada país; menos produção de bens comerciáveis, menos deslocamentos, diminuição do horário de trabalho, menos poluição e desmatamento. ivan illich utiliza o exemplo do caracol que constrói a sua concha adicionando uma a uma, espirais cada vez maiores até parar bruscamente e começar a fazer voltas decrescentes cada vez menores. apenas uma espiral a mais faria com que sua concha fosse 16 vezes maior, sobrecarregando o caracol. com uma concha 16 vezes maior, todo o seu esforço seria direccionado para aliviar as dificuldades criadas por esse erro de cálculo. com esse tamanho, os problemas multiplicam-se em progressão geométrica, enquanto a capacidade biológica do caracol só poderá crescer em progressão aritmética. o decrescimento utiliza como símbolo de suas ideias a sábia figura do caracol [Franco, E, 2011].

       

  






Jacinto Rodrigues, Deserto, (2012)

     Do Consumismo à Sustentabilidade, uma questão de Cultura
Um dos mais felizes conceitos elaborados para uma estimativa do impacto que o nosso estilo de vida tem sobre o Planeta, é o de Pegada Ecológica. Desenvolvido no ano 1996 pelos especialistas William Rees e Mathis Wackernagel, ajuda a perceber “…a quantidade de recursos naturais que utilizamos para suportar o nosso estilo de vida, onde se inclui a cidade e a casa onde moramos, os móveis que temos, as roupas que usamos, o transporte que utilizamos, o que comemos, o que fazemos nas horas de lazer, os produtos que compramos, entre outros. A Pegada Ecológica não procura ser uma medida exacta mas sim permitindo avaliar até que ponto a nossa forma de viver está de acordo com a sua capacidade de disponibilizar e renovar os seus recursos naturais, assim como absorver os resíduos e os poluentes que geramos ao longo dos anos.” [Quercus]. O Relatório Brundtland[14], elaborado pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, “…faz parte de uma série de iniciativas, anteriores à Agenda 21, as quais reafirmam uma visão crítica do modelo de desenvolvimento adoptado pelos países industrializados e reproduzido pelas nações em desenvolvimento, e que ressaltam os riscos do uso excessivo dos recursos naturais sem considerar a capacidade de suporte dos ecossistemas”[Wikipedia].
Este e outros conceitos, que facilmente poderíamos integrar, numa perspectiva de Educação Permanente, deveriam fazer parte de uma agenda global que poderíamos designar de Educação para o Ambiente e o Consumo. Essa agenda seria iniciada no Ensino Escolar nos primeiros níveis da Educação oficial. A sensibilização para as diversas temáticas ligadas aos conceitos e à realidade actual seriam a melhor resposta contra o processo de formatação das consciências, sistematicamente levado a cabo, quer pelos desvarios do economês[15], quer pela desinformação da comunicação social controlada por grandes grupos financeiros.
Mais e melhor Educação significam menos sujeição e menos dependência. O cidadão informado e devidamente formado, é potencialmente um agente de transformação, a nível local, nacional e internacional. Neste momento, a indústria detém (ainda) um monopólio radical sobre as necessidades humanas, a técnica industrial cria necessidades fictícias para as pessoas, e sugere que apenas  os bens e serviços produzidos por ela são capazes de atender essas necessidades.
O actual modelo de desenvolvimento não consegue encontrar qualquer saída para as sucessivas crises, que não seja “austeridade em cima de austeridade”, sempre paga pelos trabalhadores de todos os Países. E não apresenta soluções concretas, para além de um turbilhão de fantasias, que entretanto vão mudando de formato a toda a hora, na tentativa (vã) de dar resposta imediata aos interesses dos detentores dos meios de produção.
O Novo modelo de Decrescimento Sustentável, prevendo quer a mudança radical da essência do modelo socioeconómico, quer aquela que reporta aos valores pessoais e uma nova atitude perante a Natureza, significa um caminho para a preservação dos recursos e para uma qualidade de vida consentânea com a dignidade do ser humano.

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Fontes e Referências
·     Centro Informação Regional das Nações Unidas para a Europa Ocidental, “Guia sobre Desenvolvimento Sustentável - 17 objetivos para transformar o nosso mundo”, (2016), 3-34
·     Jackson, T., “Prosperidade sem crescimento, Economia para um Planeta Finito”, (2013), 155-160, 201-216
·     Latouche, S., “Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno”, (2012), 6-8, 25-26, 108-110 
·     Rodrigues, J, “Crescimento, Decrescimento Sustentável e Desenvolvimento Ecologicamente Sustentável”, (2013), 13-15
·     Rodrigues, J, “Sociedade e Território, Desenvolvimento Ecologicamente Sustentado”, (2006), 35-43
·     Sachs, J. “A Era do Desenvolvimento Sustentável”, (2017), 25-28 
·     Worldwatch Institute, “Transformando Culturas - Do Consumismo à Sustentabilidade”, (2010), 3-8, 38-42, 127-128.
·     Sites consultados:
×    http://conservacao.quercus.pt/content/view/46/70/
×    http://globalcompact.pt/
×    http://www.monde-diplomatique.fr/2003/11/LATOUCHE/10651#nb7
×    http://www.pactoglobal.org.br/artigo/56/Os-10-principios
×    http://www.unric.org/pt/objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel
×    https://br.boell.org/pt-br/2015/03/04/decrescimento-uma-proposta-alternativa-ao-desenvolvimentismo
×    https://nacoesunidas.org/banco-mundial-serao-necessarios-3-planetas-para-manter-atual-estilo-de-vida-da-humanidade/
×    https://pt.wikipedia.org/wiki/Ivan_Illich
×    https://pt.wikipedia.org/wiki/Nicholas_Georgescu-Roegen
×    https://en.wikipedia.org/wiki/Cornelius_Castoriadis


[1] Introdução ODS, disponível em: http://www.unric.org/pt/objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel
[2] ANIMAR, Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local; Centro Português de Fundações; CGTP-IN , Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional; CNJ, Conselho Nacional de Juventude; CONFAGRI, Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas de Portugal; Minha Terra , Federação Portuguesa de Associações de Desenvolvimento Local; Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres, Plataforma Portuguesa das ONGD.
[3] Excerto do documento “Em Direção ao Desenvolvimento Sustentável – Agir para não Deixar Ninguém Para Trás- Consulta Pública à Sociedade Civil Portuguesa sobre a implementação dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)
[4] Idem, ibidem
[5] Idem, ibidem
[6] Secretário-Geral das Nações Unidas, à época
[7] Dicionário de Português on-line
[8] Habitualmente designadas “externalidades”
[9] Relatório “Estado do Mundo – 2010, da autoria do Worldwatch Institute (WWI), disponível em: http://wwiuma.org.br/estado_2010.pdf
[10] Manuel António Gomes (1868-1933), mais conhecido como Padre Himalaya.
[11] Professor Jubilado da Universidade do Porto, pensador e filósofo. Biógrafo do Padre Himalaya
[12] Produto Interno Bruto de um país é o montante dos bens e serviços por ele produzidos num dado ano, ie, o somatório dos consumos público e privado, do investimento das empresas e das exportações líquidas. Fonte Infopédia
[13] Filósofo, Ensaísta e Economista francês, nascido em 1940, é professor emérito da Faculdade de Direito, Economia e Gestão Jean Monnet da Universidade de Paris XI e um dos contribuintes históricos de “La Revue du MAUSS” (Mouvement anti-utilitariste en sciences sociales). Fonte Wikipédia
[14] Documento intitulado Nosso Futuro Comum (Our Common Future), publicado em 1987.
[15] Termo depreciativo/irónico dado a uma” linguagem” com expressões próprias, das áreas da Economia e Finanças, de difícil compreensão. Fonte Wikipedia

26 maio 2017

NATO, não, por favor!
























A Organização do Tratado do Atlântico Norte /North Atlantic Treaty Organization, ou simplesmente  NATO, por vezes chamada Aliança Atlântica, é uma aliança militar intergovernamental baseada no Tratado do Atlântico Norte, que foi assinado em 4 de Abril de 1949. 
Esse ano (1949) iria marcar a história da Europa, devido em primeiro lugar ao facto de ter sido assinada a Convenção de Genebra sobre o direito humanitário nos conflitos armados. É o ano da criação do Conselho da Europa, em que se incluem princípios como "… a defesa dos direitos humanos, o desenvolvimento democrático e a estabilidade político-social na Europa". É ainda neste ano que é criado o COMECON, o Conselho para Assistência Económica Mútua que visava a integração económica das nações do Leste Europeu. É também o ano em que é fundada a República Popular da China. E que, na Europa se institucionalizam a RFA, República Federal da Alemanha e a RDA, República Democrática Alemã
O nosso País vivia sob a ditadura fascista, o tal Estado Novo, inventado por Salazar e fiel a todos os regimes autoritários e nazis, de Espanha, Itália e Alemanha. É de recordar, com alguma ironia, que o regime vai contribuir para a formação da NATO, cujo tratado (Tratado do Atlântico Norte) incluía a adesão aos princípios da Carta das Nações Unidas e o desejo de viver em paz com todos os povos e com todos os Governo, quando nem sequer era membro da ONU.

A “cooperação pela Paz”, um compromisso que, nas palavras do Secretário Rasmussen, em Maio de 2009,  "…ultrapassasse fronteiras e divisões ideológicas do passado e que contribuísse para construir a paz e a segurança através da consulta, da cooperação e acções comuns baseadas nos valores comuns da democracia, das liberdades fundamentais e dos direitos humanos", é hoje, com aliás sempre o foi, a manifestação da mais descarada hipocrisia e o embuste mais abjecto do lado negro de uma Europa, que caminha a passos largos para o abismo das desigualdades e das injustiças e do domínio imperial.

A NATO é na actualidade, como sempre o foi desde a sua criação, um bloco político-militar destinado a servir a dominação do imperialismo norte-americano. Sempre subordinada a uma feroz campanha anti-soviética movida pelos EUA, mantém ainda hoje as características de uma aliança belicista de cariz reaccionário e anti-comunista. Durante anos a fio, a NATO sempre tentou impedir qualquer transformação de carácter progressista nos países signatários, não sendo preciso invocar aqui o caso do nosso 25 de Abril…

A história da NATO está na realidade manchada de sangue. De terror e corrupção também. Chamando as coisas pelos nomes, a NATO é um instrumento de ingerência e agressão. Inúmeros exemplos de criação de exércitos clandestinos para desenvolvimento de operações terroristas, por toda a Europa atestam a forma como paulatinamente a guerra voltou à Europa. Invoca-se como “bom exemplo”, a responsabilidade da NATO no desmantelamento da Jugoslávia, um horror de atrocidades e crimes que despoletou e patrocinou. Lembra-se também a complacência da NATO com a invasão de Chipre pela Turquia. Ou ainda, a campanha de massivos bombardeamentos aéreos da NATO, executada à revelia da ONU e em violação das próprias normas internas da Aliança, para além dos milhares de vítimas civis – designados por “danos colaterais” – e do alto grau de destruição causados, até à ocupação ilegal e secessão da província sérvia do Kosovo e pela sua transformação numa enorme base militar da NATO.

A defesa da Paz e dos Direitos Humanos nada tem a ver com este instrumento bélico e imperialista que dá pela designação de NATO. A defesa do seu desmantelamento completo é um princípio da mais elementar justiça e da manifestação da aspiração dos povos de toda a Europa. É apenas uma fase da sua própria libertação.

Não esqueçamos que o verdadeiro desígnio da NATO é apenas um: emergir como força de “segurança global”, substituindo, subalternizando e instrumentalizando ainda mais a Organização das Nações Unidas (ONU).

Hoje, como ontem, como sempre, manifestarmo-nos contra a NATO é uma afirmação de LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE!



09 maio 2017

En Marche”, Europa?


O tema da “Europa connosco” remonta há 30 anos atrás, quando do Partido Socialista inventou aquilo que se poderia designar como um dos slogans propagandísticos de Mário Soares e do próprio partido, e representaria (na altura) a passagem do País para um patamar civilizacional que até então lhe era vedado, ou mesmo simplesmente desconhecido. Deu para tudo, incluindo sempre o eleitoralismo fácil das vantagens dos fundos estruturais, que haveriam de mudar radicalmente a face do País, malgrado naturalmente a enorme fragilidade, pelo menos em termos económicos. Na altura ainda não se falava, como agora a todo o pretexto, em populismo; de contrário poderíamos encontrar com muita facilidade indícios do dito em muitas proclamações oriundas sempre do centrão político-partidário, do qual Soares foi o maior protagonista e que viria a renegar nos anos de chumbo.

O “mal” porém já estava feito e durante anos e anos a prometer a chamada “convergência”, a mesma viria a esfumar-se por completo, dando lugar ao policiamento da Comissão Europeia, com o Tratado Orçamental à cabeça de uma séria de medidas restritivas do desenvolvimento, sempre em prejuízo dos estados e das regiões mais carenciadas. Segundo um estudo de Setembro de 2005, das Universidades de Porto e Lisboa,  “…a partir do início dos anos 90, verificou-se um abrandamento no processo de convergência e o desempenho das regiões mais pobres, mesmo que significativo ao nível da criação e reestruturação do emprego, não foi suficiente para atingir os níveis de desenvolvimento das regiões mais ricas, tendo-se acentuado o gap entre elas[1].

Se fosse possível viajar no tempo seria decerto interessante um “Regresso ao Futuro”, com a máquina do Doc[2] a transportar-nos, por exemplo, de 1995 a 2015”. Daria decerto para verificar in-loco como vai a dita União. É bom recordar também que no já longínquo ano de 1975 foi elaborado um relatório onde se afirmava, logo na introdução, "Se o pleno emprego, e uma melhor distribuição de recursos e de lucros para investimento não podem ser salvaguardados, medidas que apenas restrinjam a procura vão chocar cada vez mais com as expectativas sociais de uma melhoria na qualidade de vida." Foi elaborado pelo cidadão belga Robert de Maldague, um democrata-cristão, que integrava um grupo restrita, onde estava o socialista Jacques Delors, conhecido como “pai” da EU e que viria a ser presidente da Comissão, entre 1985 e 1995. O relatório, baptizado com o seu nome (Relatório Maldague) avisava, “A não ser que sejam levadas a cabo reformas de longo alcance há um grande risco de que métodos autoritários - aberta ou dissimuladamente - possam gradualmente controlar as nossas sociedades democráticas". E o que fez então a Comissão? Nada mais, nem menos, recolheu todos os exemplares em que podia pôr as mãos, trancou-os numa cave do Berlaymont e destruiu-os. E porque o relatório dizia textualmente, referindo-se à liberalização dos mercados de capitais e à forma como aquela estava a minar a autoridade dos governos democráticos, “Estes fenómenos são manifestações claras de uma transformação profunda na forma como a democracia funciona nos nossos países".

Uma profecia? De todo. Apenas a constatação da realidade, a colagem das “famílias” centristas, a saber, os “sociais-democratas e socialistas” e toda a direita conservadora, liberal e defensora da desregulação dos mercados. Há quem lhe chame outra coisa, quiçá esclarecedora, a traição da social-democracia. Por cá, nem dá para contar os exemplos, estão à vista de todos e foram um pântano desde finais de 1975.
Tivemos o grato prazer de ouvir ontem, no fórum da TSF, o senhor Moedas[3], que se recorda como agente da Goldman Sachs e no Deutsche Bank/Eurohypo Investment Bank e que Passos Coelho escolheu como representante de Portugal na Comissão Europeia e a quem Juncker[4] entregou a pasta de Comissário para a Investigação, Ciência e Inovação, para a gestão do maior programa-quadro de sempre de investigação e inovação da UE.  Diz o senhor Moedas que é a favor da Europa, ao contrário dos outros que são contra, um raciocínio linear e bacoco, todavia conveniente para esconder todas as investidas da EU contra os direitos e liberdades das pessoas e dos Estados. E todos os falhanços, desde a incapacidade manifesta em lidar com o problema dos refugiados, nomeadamente ao inqualificável acordo de 2016 com a Turquia, até ao apoio aos regimes ditatoriais, fascistas ou fascistóides da Hungria e da Polónia, passando pela gestão da crise das dívidas soberanas e pelo chamado "ajustamento estrutural", transformado em austeridade permanente pelas regras do euro e que aprofundou o fosso entre o centro e as periferias. Apenas para citar estes, a lista é de facto interminável e levou, ano após anos, dia após dia, ao (re)nascimento de movimentos nacionalistas, que espelham o descontentamento generalizado das pessoas, sobretudo as mais desfavorecidas. A celebração dos 60 anos do Tratado de Roma, mostra que, ao contrário das promessas de coesão e democracia, as instituições europeias sobrepuseram a lógica liberal e autoritária de Maastricht, aprofundada pela União Económica e Monetária. O ser contra, na opinião do Moedas, é ser da esquerda radical, ele é a favor. Só não diz de que é a favor, embora toda a gente saiba o que ele defende. Não o querendo dizer, utiliza a tese habitual, para industriar consciências, de “mais Europa” e do seu apoio incondicional a Macron, agora que este é já o Presidente da França. Claro que, como diz o chefe Juncker, “…a França é a França”., que permitiu e caucionou a hegemonia alemã, que domina o euro, através de uma política de asfixia das outras economias, incluindo a francesa. A França de Hollande que “ajudou” na falência completa da moeda única como instrumento de coesão social, transformada agora em mais uma forma de dominação e submissão. O “distinto” Moedas fala no “perigo dos populismos” e compara sempre a extrema-direita à extrema-esquerda (o que é isto?), “esquecendo” que é ele afinal um populista barato, que fala do alto de uma cátedra que lhe foi oferecida e que não sabe minimamente o que é a vida real de milhões de cidadãos. O inefável Acácio[5] deu-lhe toda a cobertura, como é seu apanágio, em mais de metade de tempo de antena.

En marche“, a voz de Macron que é somente um sucedâneo da elite burocrática francesa formada na  École Nationale d’Administration, misturada com a experiência na gestão de fundos de investimento (Rothschild). Entretanto, para conseguir formar o seu “movimento”, Macron reúne à sua volta, donos de grupos de comunicação social, banqueiros e financeiros e as maiores fortunas de França. Para uns, uma réplica do trabalhista Tony Blair, para outros a redenção dos falhanços e trapalhadas do Partido Socialista Francês. A tempo, porque é oportuno, Manuel Valls já lhe deu o devido apoio.

A Europa das democracias entra em mais uma derrapagem. Os franceses, aliviados do espectro Le Pen, voltam-se para as eleições legislativas. A crise dos refugiados continua, os atentados também. Os “sociais-democratas” e os conservadores parecem ter um objectivo comum: manter o défice zero inscrito no Tratado Orçamental. As excepções são para salvar bancos e a pele dos banqueiros. A moeda única, criada à imagem e semelhança do marco alemão, obriga o nosso País a negociar numa moeda 50 mil vezes mais forte do que a sua economia. O brexit é um mistério, que esconde uma total incapacidade de resposta.
Há alternativas, apesar das conhecidas resistências. A elas estaremos atentos, nunca desistindo da Luta.



[1] Marques C. e Fonseca P., (2005), “Convergência económica e coesão social e territorial da Península Ibérica na União Europeia”, Universidades de Lisboa e do Porto)
[2] Referência à personagem Doutor Emmett Lathrop, ou simplesmente “Doc”, um dos personagens principais da série de filmes Back to the Future, realizados por Robert Zemeckis, 1985 a
[3] Carlos Moedas
[4] Jean-Claude Juncker, Presidente da Comissão Europeia
[5] Manuel Acácio, Jornalista TSF e responsável pela rubrica “Forúm”

05 março 2017

PEQUENOS DRAMAS DE UM PAÍS QUE NÃO ESTÁ À BEIRA-MAR PLANTADO, MAS QUE TEM UM CLUBE QUE CHAMA BEIRA MAR


Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara
Do Livro dos Conselhos, citado José Saramago, em “Ensaio Sobre A Cegueira”, 1995 

Pode nada ter a ver com o assunto. O certo e é verdade, o Beira-Mar existe e o País já foi (há muito tempo) plantado, não há razão para voltar a ser. Plantadas foram (umas há muito tempo, outras nem tanto) algumas espécies que entretanto floresceram numa época para esquecer, vingaram, ficaram na sombra (porque ao Sol deterioravam), encheram-se de brios e vá de atacar a perigosíssima invasão dos alienígenas vermelhos, ou mais ou menos disfarçados, não tementes a Deus e à virgem Maria, que apareceu em Fátima e agora não aparece mais porque (há muito tempo) não há vagas nos hotéis da vila. Algumas e alguns, até têm uma certa piada, há quem ainda se ria, porque afinal é uma boa receita e não precisa ser aviada na botica. Me perdoem os crentes, não é meu propósito atacar, nem a crença em si (uma vez que em mim não pega…), nem a pessoa em particular que crê, no sentido em que o Beira-Mar existe e o resto não se sabe bem. Pululam alegremente pelos sítios bem frequentados e pelas redacções, não aquelas que as meninas e os meninos faziam dantes, mas umas outras que são ocupados por meninas e meninos pagas e pagos abaixo da média e que estão de facto abaixo da média (bastante abaixo…) num outro sentido. Descansem que são poupados todos aqueles que nada fazem por mudar, porque dá muito trabalho mexer neles (porque simplesmente já nem se mexem). Mudar de vida é uma coisa complicada, embora valha a pena seguir o António, que assim canta (cantava aliás…), “Muda de vida/se tu não vives satisfeito/Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
1. TEODORA, VAI-TE EMBORA!
Para que serve uma Teodora, quando a casa vai para fora? Oh Teodora, olha que é verdade, já querem importar a nossa solução. Só que tu Teodora, não és solução, és um problema. Acordaste agora Teodora, com medo dos socialistas, que não passam de comunistas travestidos e de brinco na orelha.
(Ai, o meu tempo, os santinhos, o doutor caetano, o doutor Salazar, era outra coisa, havia respeito…)
Teodora, até o Presidente de Direita goza contigo.
A ascensão do sonoro (início dos anos 30) trouxe o Teodoro (…não vás ao sonoro), parodiando a ascensão do cinema com som.
A ascensão da Esquerda, trouxe a Teodora. Agora como antes, a paródia. Só que agora, apetece fazer de novo o apelo, que poderia ser:
Teodora, não fiques cá, vai-te embora!
2. NÚNCIO, ÉS CAVALEIRO OU APOSTÓLICO?
Oh homem, após estudar com algum detalhe a tua história e o teu “apego” à causa pública, fico estarrecido e nem sei que diga.
Mas digo.
Digo então que a lata é maior que a linha. Vais ter que fazer melhor, porque toda a gente ficou a perceber que estiveste pura e simplesmente nas tintas para a populaça. E nem sequer te safas com a demissão dos altos cargos no partido, o tal que quer (ou queria, já nem sei bem) ser dos contribuintes. Aqueles (contribuintes) para quem te estiveste nas tintas durante o teu mandato.
E vem agora, (cuidado!) o ex-director-geral da Autoridade tal e coisa, afirmar ter solicitado por duas vezes, autorização para publicar dados referentes às transferências de dinheiro para paraísos fiscais, mas que em nenhum dos casos viu os seus pedidos deferidos.
Da história reza a ilustre família das tauromaquias, a nobre arte dos cavaleiros lusitanos, agora caída em desgraça (digo eu). Ou a história do apostólico dito, coisa que não domino suficientemente bem, para aqui abordar com clareza, mas que li na Wikipedia que é uma coisa que “…que goza dos mesmos privilégios e imunidades que uma embaixada”.
Isto é muito sério.
3. CRISTA TEM CRISTA OU É SACRISTA?
De ti me lembro muitas vezes a propósito do decreto sobre o número de gatos ou cães preconizados em diploma governamental. Ou de com o pedias chuva ao reino dos céus, oh gente de fé.
Se calhar não estavas à espera disto.
Diz o significado, que “Sacrista” é aquela ou aquele que é “…responsável pela limpeza, organização ou guarda de uma igreja ou da sacristia”. E diz também, em sentido figurado que pode ser uma “pessoa que finge ser beata, mas não é”. E diz outras coisas que aqui não são citadas, por mero decoro.
Oh Cristas, andas mesmo a limpar a “sacristia”? O Portas deixou-te um lindo serviço.
Desconheço, e não estou nada interessado, na tua beatitude, ou se é sincera ou não. Tanto me faz. Apenas sei que, de cada vez que levantas a crista, a coisa dá para o torto.
Vê se metes na linha o Motoreta Soares, que aquilo que ele anda a dizer sobre ordenados altos nas empresas públicas, dá mesmo (vindo de quem vem) vómitos.
.   4. RANGEL É UM TIGRE DE PAPEL
Não é para forçar uma singela rima, mas ninguém dá crédito aquela figura que, faz agora a campanha maior pelo descrédito do Governo e das Esquerdas.
Sempre que estala uma notícia, aí está o homem, de pena em punho ou de viva voz, uma vez que consegue estar em tudo quanto é sitio e sirva para a má-língua política.
Tu que fazes parte da caterva mais fanática de que há memória, oh Rangel, queres levar para a Europa o que de pior em Portugal? Não tens vergonha de “proteger” o comissário Oettinger, xenófobo, nazi declarado e amigo de corruptos e autoritários? Pelos visto só te interessa a demissão do Centeno.
Oh Rangel, não passas de um tigre de papel, uma marioneta nas mãos da turba que rapidamente, quando for o tempo, alegremente te “dispensará”.
5. O GOMES FERREIRA É LIXO OU POLÍTICA TRAULITEIRA?
Bem, as duas coisas, se não se importam. Este indivíduo cumpre o papel do velhaco que não se conforma com a realidade. E está sempre do mesmo lado da luta, que para ele é cobrar ao patrão a factura que outros não podem cobrar.
Oh Ferreira, mas que grande bandalheira. Então vais dizer que a emissão de dívida subordinada se destinava a “enganar velhinhas”, porquê meu deus, isso é coisa que se diga em público, e ainda por cima alcovitado que estavas por aqueles dois acólitos?
Tu devias era ser director do Povo Livre, ou lá como se chama aquilo…
Mas tu lá vais levando a água ao teu moinho, ou seja ao moinho da São Caetano, eles precisam já que metem água todos os dias e aquilo às tantas vai mesmo afundar-se.
És o verdadeiro tipo às direitas, agora rebaptizado de “tipo das Direitas”.
Deixa que a gente percebe-te e compreende-te.
Oh Ferreira, em quanto é que está a tua cláusula de rescisão?
6. O BRAGA FADISTA DE OUTROS TEMPOS
No fado se firmou a partir de um tempo que era outro quando ele era o mesmo. Confuso? Talvez sim ou talvez não, para mal dos nossos pecados. Sim porque somos todas e todos uns grandes pecadores que, a seu devido tempo, irão prestar contas à senhora do Sameiro. Ele que é Braga de nome, o sabe melhor que todas e todos nós. Pretos e gays misturados ou sozinhos invadiram o teu espaço puritano, oh Braga! E ainda por cima cheios de Óscares, quando deviam eram estar a levar porrada, em qualquer cela, que melhor não merecem. Andam tranquilos por tudo quanto é sítio, ofendendo os brandos costumes dos portugueses de bigode farfalhudo que vão às touradas e batem na mulher, mesmo que só de vez em quando.
Oh Braga, foste longe demais, mas preservas de facto bem viva a verdadeira e pura missão da raça, fado maior (ou menor não sei bem) lusitano, pátria minha (quero dizer, tua) bem-amada, com licença, amém.

Assim se inscrevem na história 6 portugueses de quem nos devemos orgulhar. De gerações diversas, afinal manifestam uma constância de cariz conservador, que sinceramente lhes assenta muito bem. Cada uma e cada um, na sua esfera de influência, nos faz diariamente rir. E isso, não é mau. Pode não ser muito bom para a sua causa (a deles, claro), mas ficam bem. É quase como gostarmos muito do treinador da equipa adversária, porque está fazer um péssimo trabalho e nós gostamos disso, porque é bom para a nossa equipa.
Assinale-se para finalizar que o autor da figura do “beira mar plantado” era um romântico dos finais do século IXX, um ilustre conservador que, ao seu tempo, clamava contra a falta de respeito dos jovens para com as cãs e glórias proclamadas e reconhecida.
Estas e estes estão a repescar o Tomás Ribeiro, viva a Nação!
E, caso não sejam de Aveiro, esqueçam o Beira-Mar.

19 fevereiro 2017

O QUE É UM JALALI (?)

Não, não é engano. Não é “javali”, não é “vou já ali”. Nada disso.
Explico que se trata de uma espécie em vias de ascensão, ou mesmo já devidamente ascensionada.
Porque alguém assim quis, o jalali[1] aproveitou o ensejo e, cheio de ciência empacotada da politiquice, traçou um percurso académico porventura eivado do sucesso fátuo da oportunidade, surge no espaço hertziano, fala suave, diz pouco ou quase nada, como acontece com quase todos os primatas que habitam o tal espaço, agora privado e suportado por grandes e poderosos donos do capital e da capital e arredores.
O jalali vomita lugares-comuns povoados de coisa nenhuma e dita, não do alto da cátedra, mas do lado de lá do microfone, uma verborreia pastosa, onde a mediocridade é um epíteto suave para classificar a mesquinhez mais tacanha.
(Isto é o jalali)
É ouvi-lo na electromagnética frequência, convidado de “fóruns” que são assim uma coisa mal parida, onde se decreta que “…a voz é dos ouvintes”, mas que é sempre antecedida de um monólogo de uns “escassos” 15 a 20 minutos de um “especialista”. Para “animar”, dizem eles, a “discussão”.
E aqui reina um qualquer jalali.
Fala num tom monocórdico, um discurso paternalista e padrético, uma cândida voz, segura na sua visão cinzenta do mundo, projectada no fundo da caverna, que Platão ilustra[2], quando fala das sombras que parecem mais verdadeiras do que os objectos. Que acontecerá ao jalali, quando o tirarem da caverna do estúdio?
Entretanto vai vomitando insignificâncias, com a tranquilidade olímpica de quem tem audiência garantida, a troco de alguns patacos, que usa para polir a mais rasteira e bafienta postura.
Numa manhã perto de si, o jalali aparece sempre protegido debaixo da capa de “politólogo”, a tal espécie recentemente inventada e que serve fundamentalmente para classificar incertos e indeterminados indivíduos que interpretam uma realidade que arquitectaram para si próprios. Em pleno século XXI, um politólogo, vale muito mais que um astrólogo, que um psicólogo, ou até mesmo que um metodólogo.
O jalali articula o conhecimento ao nível do pequeno burguês, sentado no barbeiro (agora diz-se cabeleireiro), enfarinhado na “Maria” ou na “Nova Gente” (não sei se agora se chamam assim…).
O jalali fala do “papão” do populismo como a beata fala do inferno. Sem qualquer base de sustentação que não seja a sórdida posição redonda do “moderno” sistema de análise que simplisticamente caracteriza as mentes balofas de uma Direita anquilosada, o jalali deriva para cima e para baixo e ainda para o lado (direito, claro) no que é de facto o populista. Curioso, ou nem por isso?
Entretanto, as mentes menos sadias e mais dadas à magia efémera das novas tecnologias ditas libertadoras, efabulam um jalali e exultam com as suas derivas. Crescem em número, que não em qualidade, postulam verdades mentirosas e compram (e vendem) a não-ideologia.
Talvez não lhes fizesse mal nenhum ler alguns livros, sobretudo daqueles que houvessem constituído “…uma riqueza para quem os tenha lido e amado[3]. Todavia não parece ser essa a vocação dessa espécie.
Pior para os seus representantes.
Atenção para nós que a repugnamos e à qual não queremos pertencer.

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NOTA: Este texto é especialmente dedicado ao meu Amigo Licínio Lima, que dedica sempre alguma atenção a ler as minhas crónicas, “perdendo” eventualmente tempo que poderia ocupar em tarefas bem mais profícuas (digo eu…)





[1] Uma personagem inspirada no senhor Varqa Carlos Jalali, Professor Auxiliar da Universidade de Aveiro, Diretor do Programa Doutoral em Ciência Politica (UA-UBI), Diretor do Mestrado em Ciência Política e Coordenador do grupo de investigação em Políticas Públicas Instituições Inovação (PI2) do GOVCOPP (fonte Universidade de Aveiro, in: https://www.ua.pt/dcspt/person/cjalali  

[2] Referência à obra “A República, Livro VII”, de Platão (século IV A.C), considerado um dos suportes básicos sobre Teoria do Conhecimento
[3]  Referência à obra “Porquê ler os Clássicos?”, de Italo Calvino, (1991), 4-5

13 fevereiro 2017

A RÁDIO É VOCÊ!



Foi assim mesmo que em 2011, o 13 de Fevereiro foi proclamado pela UNESCO, o Dia Mundial da Rádio.
É dentro da rádio, uma vez que estamos dentro dela ou está vem ao nosso encontro, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, sempre que a deixamos entrar. “A rádio vê no escuro” diz o meu Amigo Fernando Alves, ele que é (para mim) uma voz e uma presença inesquecível e que semeia diariamente o desassossego nas manhas da rádio. Apetece diz, pois vê!
A rádio está onde deveria estar ou apenas está porque quer estar? 
A rádio é também, muitas vezes, uma cúmplice do pensamento dominante. Quantas vezes aconteceu, outras vezes (lá está uma vez mais o escuro) a ouvimos no silêncio das noites do medo, confortando a esperança e atiçando a revolta.

Quero pensar no que a rádio contribui para a minha (e para a de muitos) formação integral. Nos tempos da escuridão (lá está, o escuro) a rádio era “Em Órbita”, era “Página 1”, era “Limite”, era tantas coisas que nos sussurrava e assim ia plantando em nós o vício da contestação, do contraditório que não havia, e sim, da revolta contínua. Porque havia rádio, aquela coisa que se ouve alto e baixinho, consoante nos dá gozo ou nos é permitido.
A rádio que diz, na madrugada gloriosa, “Aqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas…”, é o Furtado, sim. É Abril, é a Liberdade, pois então. A rádio é o direito das pessoas à informação, um direito que deve ser protegido e acarinhado. E estudado também.
A rádio salva vidas. E pode também promover e capacitar as pessoas mais vulneráveis e mais sujeitas a desvarios de poderes, mesmo de alguns, supostamente democráticos. 
A rádio és tu! 
Sabe-se lá como, mas tu estás lá, agora em tempos de meia-verdade ou mesmo de “falsa verdade”. Porque és uma peça do enorme círculo, onde campeia muitas vezes o silêncio ajustado de uma TINA qualquer. 

As rádios são casas onde as palavras ganham asas…”, uma vez mais me socorro do Fernando, porque é mesmo assim, porque é língua e movimento. 
E sonho, também.