rio torto

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16 março 2020

A PROPÓSITO,


Do artigo “Polaridades Ideológicas Da Pandemia”, da autoria de Alexandre Weffort, publicado no LADO OCULTO, que deixo anexo, nas páginas seguintes.
Considero que é de leitura essencial para quem quiser entender (mais um pouco) dos contornos políticos da pandemia.
Todos os lamentos, todos os medos, não são, de forma alguma, despiciendos.
O ataque dos humanos contra o vírus maldito, tem que levar em linha de conta os contornos ideológicos e, se quiserem, sociológicos da questão.
A "instalação" das respostas, médica, sanitária e humanitária é fundamentalmente política, porque é ao Estado e às administrações e governos, que assiste a obrigação de prover a saúde e o bem-estar das pessoas, bem como das suas melhores condições de VIDA.      
Os Estados, administrações e governos devem socorrer-se das posições abalizadas das comunidades científicas, médicas e sanitárias: universidades e institutos públicos, devem prestar a melhor assistência, no plano da prevenção, da contenção e da cura.         
Qualquer hesitação das autoridades, qualquer erro assinalável, pode deitar a perder a luta. 

E aqui e agora (também) se fala de Portugal.  Mesmo sabendo que não é fácil, deve haver uma estratégia consistente do Governo, uma exigência suprema para aqueles que não se têm revelado à altura (como em outros casos, infelizmente).
Medidas avulsas e á deriva, como é habitual, só podem conduzir a maus resultados. 
Afinal, o "nosso" Governo responde aos cidadãos, ou ao directório europeu?
As verbas necessárias para o reforço do SNS são mais ou menos importantes do que "reforçar" o sistema bancário?     
Isto pode parecer injusto, mas é em momentos como este, que se destacam as lideranças positivas e assertivas. E isto, como é evidente, nada tem a ver com o chamado "estado de excepção".
A diferença entre duas atitudes diversas, será analisada quando tudo, como se espera, passar com o mínimo de perdas.           

E atenção, é mesmo de VIDAS que estamos a falar...

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POLARIDADES IDEOLÓGICAS DA PANDEMIA
15 Março 2020
Alexandre Weffort, O Lado Oculto

"Pandemia" é um termo que indica, desde logo, uma sua dimensão global, que diz respeito a todos. O vírus, colocada a questão de forma simples, é uma estrutura que não possui capacidade metabólica autónoma. Sendo inerte fora do ambiente intracelular, recorre às capacidades metabólicas do hospedeiro para a finalidade da sua reprodução. Assim, o vírus desenvolve-se e propaga-se em função da capacidade de interacção dos animais infectados (entre eles, o ser humano), daí que a quarentena se apresenta como o mais antigo e mais seguro meio de combate a um surto viral.

O surto de um vírus é, atingida a dimensão da "pandemia", um evento global, traço que o insere no âmbito dos fenómenos (culturais, económicos e sociais) que o termo “globalização” encerra, algo que decorre da superação das barreiras naturais de circulação dos seres humanos - as barreiras de circulação impostas às pessoas, considerados os limites geográficos naturais (aqueles que resultam da orografia) como aqueles que resultam das divisões políticas - as fronteiras entre os Estados.
A economia global deu especial suporte ao crescimento do turismo, indústria que irá transformar a paisagem local, com inúmeros hotéis e casas de hospedagem, recorrendo a meios de transporte de grande capacidade, como os navios de cruzeiro que literalmente despejam milhares de pessoas nas cidades portuárias como Lisboa (e a cultura local se adapta, homogeneizando o produto, para o consumo dos autênticos “enxames” de turistas oriundos de paragens economicamente mais fortes, sendo o mercado asiático um dos que registava forte presença na velha Olissipo. Para fazer circular os milhares de turistas, implantaram-se os “tuk-tuk” (numa versão modernizada do tradicional meio de transporte tailandês).
Se o desenvolvimento desenfreado do turismo é do agrado dos comerciantes locais (e também dos governantes, que o promovem, chamando os habitantes locais à lógica do serviço, pelo alojamento local), esse desenvolvimento, atingindo rapidamente o ponto de saturação que as condições locais permitem, provoca um desequilíbrio que irá prejudicar o modo de vida tradicional (uma perturbação que se instala ao nível do ecossistema).

Análise de comportamentos
O COVID-19, nome dado ao coronavírus que se dissemina hoje globalmente é um exemplo do que acima foi dito, mas apresenta outros traços que interessa analisar numa leitura ou corte ideológico. Como sugere o título deste texto, o vírus (ou, antes, a história do seu surgimento e propagação) é passível de uma leitura ideológica, que podemos realizar através da análise dos comportamentos que determinam, condicionam e acompanham a sua existência, bem como das suas consequências. 
Em Portugal, um traço de comportamento social surgiu em torno das decisões governamentais de encerramento das escolas com o objectivo de se limitar o contacto comunitário e a contaminação a esse nível. Libertos das aulas, número significativo de estudantes universitários foram...para a praia! Logo surgiram críticas à falta de responsabilidade evidenciada. Por outro lado, o ministro da Educação do Governo português, ao apresentar as decisões governamentais, fez questão de sublinhar que “os professores não estão de férias e que terão de se apresentar diariamente nas escolas”, numa afirmação mais de âmbito patronal que de Estado, obrigação sublinhada mesmo que isso implique sujeitar os professores à contaminação em meios de transporte normalmente lotados.
A decisão de fechar as escolas foi colocada pelo Governo português ao Conselho Nacional responsável pela saúde pública. O órgão consultivo deliberou unanimemente no sentido do não fechamento, enquanto o governo, apoiado em uma directriz da União Europeia, acabaria por decidir em sentido contrário. Fica a sensação de sermos todos “peões de jogo”.

A componente norte-americana
As dimensões ideológicas do problema em apreço são colocadas também em relação ao seu início. Um artigo publicado a 2 de Março, no site AbrilAbril, António Abreu apontava para a possibilidade de envolvimento de laboratórios norte-americanos no surgimento deste novo coronavírus. No artigo referido são alinhadas as coincidências temporais da publicação de um estudo elaborado pelo Instituto John Hopkins contemplando “uma simulação, com precisão, do coronavírus inicial” (em Outubro 2019). Refere-se ainda no artigo, a correlação temporal entre o surgimento do Covid-19 na China e a realização dos Jogos Militares Mundiais de 2019, “realizados em Wuhan em Outubro passado”, onde participaram também militares norte-americanos.
A questão, que nos remete para os meandros mais sórdidos da guerra biológica, aparece agora referida de forma expressa por um responsável do governo chinês que questiona: “O CDC [norte-americano] foi posto contra a parede. Quando o paciente zero começou nos EUA? Quantas pessoas estão infectadas? Quais são os nomes dos hospitais? Pode ter sido o Exército americano que levou a epidemia a Wuhan. Sejam transparentes! Tornem públicos seus dados! Os EUA devem uma explicação!”.
A questão, segundo a notícia, levantada pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China Zhao Lijian, em post publicado no dia 12 Março na plataforma Instagram, afirma que o “Exército dos EUA pode ter levado a nova doença do novo coronavírus (COVID-19) para a China”, algo que, a ser comprovado, obrigará a uma revisão profunda dos posicionamentos a nível global acerca desta "pandemia", da possibilidade de esta estar originariamente vinculada a uma dimensão ideológica no relacionamento entre nações e constituir mais um elemento da guerra (também) comercial a que temos assistido, sempre que os interesses norte-americanos à esfera global são postos sob pressão (no caso, pelo crescimento económico da China).
A dimensão militar assinalada, vista segundo este prisma das «polaridades ideológicas», ajuda a compreender também o modo e tempos de reacção chineses. E convidam a reflectir sobre a natureza ideológica dos comportamentos - da China face ao problema surgido no seu solo e da sua capacidade de reacção, da sua postura solidária face ao descontrolo que o mesmo apresenta na Europa, nomeadamente, em Itália - e da postura belicosa e irresponsável mantida por Trump e Bolsonaro, primeiro minimizando o significado da epidemia e depois, quando lhes bate dentro dos próprios gabinetes, assumindo discurso inverso.

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01 março 2020

Olá a todos!
A pedido do meu Amigo Lúcio Lima, sou a publicar este texto, de sua autoria.
Já me fez pedidos como este, por diversas vezes. A minha resposta, óbvia (digo eu) foi sempre, “Publica tu!”.
O Lúcio Lima é assim um tipo efusivo e, ao mesmo tempo, curiosamente introverso. Tem dias e julga que o chã preto é a cura suprema para a mediocridade. 
Desta vez, a primeira, não sei muito bem porquê, acedi ao pedido e ... lá vai a “coisa”.
Não sei se me vou arrepender...

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EM SENTIDO!


Atrai-me o sentido que não faz sentido 
Encontro um sentido sem sentido
Em tudo o que é real e efémero
(ou parece ser) 

Daqui para a frente há um sentido 
Consentido 
Mas atenção, ficamos em sentido!
A partir do momento em que aceitamos 
O sentido que nos impõem
Veem, não é sequer preciso chamá-los:

Domínio
Impulso 
Reverência

(Isto faz algum sentido?)

Mas, o que não faz sentido, 
É alguém num impulso contido 
Aceita ficar em sentido

Isso é torpe!
Isso é contra-natura
Isso é mau de mais para fazer sentido

Alguém que ponha cobro a este dislate
Já!

Mas, à nossa volta, porém, 
Descobrimos sempre outro sentido 
Sabias?
Devias saber 
Sim, sabias, mas não querias saber 
Anestesia?

Há um rio que desta vez não vai ter ao mar
Acordou e, no seio da sua torrente
Olhou a margem descontente 
A vida toda à sua volta, o barco tardio
E decide ali mesmo 
Que não.
Há outro caminho 
A minha corrente afinal tem alguma força 
(tem muita força)
Os meus rápidos são tão rápidos
Deitam muros abaixo.  

Então, porque hei-de consentir-me
No sentido que não é meu 
O sentido que não é mar

Que faz sentido para a geografia 
Mas não está na minha geometria 
(normalmente variável)
Ouvi dizer
E gostei.
Variável, um termo contra a monotonia 
Contra o vento a favor
Contra!

Recapitulemos
Dizes então que a vulva se fecha sem sentido?
Pobre de ti 
Que tremenda confusão 
Vai lá ver e descobre o quanto desconhecias

É sempre assim 
O sentido que deixa de fazer sentido 
A marca que deixa de marcar
A balança que deixa de balançar 
(porque haveria de o fazer?)

O Mestre que foi engolido e se fechou em copas
A mulher a seu lado atiçando a chama de ódios 
Antigos
A tartaruga que perdeu a paciência 
O nenúfar que derrubou o elefante 
A tromba que não foi a ela própria
A trotinete que atropelou o Mercedes
A passadeira que derrubou o camião TIR.

O que eu passei para vir aqui
Não sei terminar
Será que fui capaz de começar?
Sinto agora, além, algum sentido
Na doce calma da confusão 
No capricho insondável da decisão
Provavelmente darei um salto à cantina
Ali ficarei à tua espera
Mesmo sabendo que não vale a pena.
Agora já não estou em sentido, uf...

Lúcio Lima
28 Fevereiro 2020

26 janeiro 2020

  O CONGRESSO








Esperava-se debate apertado entre os 5, que depois passaram a 3, no congresso do partido que, dizia-se, estaria condenado a desaparecer, por razões tão óbvias, que nem o mais astuto comentador da nossa praça, se atreveria a desmentir.
As razões, que diríamos óbvias, seria porventura derivadas da inexistência de “espaço” partidário, por entretanto ter chegado um “chega”, que chegava para a encomenda da Direita nacional, para defender o que é afinal um programa “...securitário e atentatório do Estado de Direito, com o regresso da prisão perpétua, a imposição da castração química ou a redução drástica do conceito de “excesso de legítima defesa””, citando afirmações recentes de Daniel Oliveira[i] .

Chegava?
Pelos vistos, nem por isso. Faltava a confirmação institucional de um partido que, apesar de tudo (aqui, o “tudo” tem o valor que lhe quiserem dar...) havia feito parte do tal arco de governação, que vingou, graças à bênção do Partido Socialista, durante 40 anos e que “transformou” o País de Abril, num pântano imenso de interesses organizados e de “corajosos” negócios e trocas de lugares, sempre para umas poucas dúzias de nomes, que circulavam entre governos, conselhos de administração de grandes empresas, bancos e afins, escritórios de advogados, comentadores de rádios, jornais e TV. Todas e todos, sempre dos 3 partidos que inclusivamente escolhiam e escolhem ainda, os “reguladores”, os influenciadores, os intermediadores, e outros com a mesma terminação, que poderiam até levar a um termo menos conveniente, do ponto de vista do polimento e da boa educação. Mas que é isso mesmo.

Mas, há algum programa?
Uma excelente questão. Procuramos e não conseguimos encontrar, pelo menos na forma escrita, na moção vencedora, absolutamente nada que possamos utilizar para debater ideologicamente, para utilizar o dito contraditório, até para “destruir” politicamente, ou seja, para “arrasar”, com a nossa argumentação. Há “coisas” que estão lá, como estão em qualquer programa da Direita do século XXI, que tenta desesperadamente defender um modelo de desenvolvimento indefensável, um sistema económico financerizado e à mercê da “boa-vontade” e da “boa-disposição” das tais entidades a que chamam “mercados” e que substituem, ou tentam substituir, estados e governos, um pouco por toda a parte. Basta atentar no vazio completo das palavras do actual líder que diz estar "diariamente em contacto com os portugueses, mostrando um CDS atento, vigilante, presente, que fala a linguagem das pessoas". Mais disse, num rasgo de delírio, talvez próprio da tenra idade (...) que o tal partido "...vai ser o braço direito de todos os portugueses". E, tal como praticamente todas e todos os intérpretes “estudiosos” da Nova Direita, que parece querer uma “nova ordem”, utiliza a inteligente terminologia, que começa e acaba, na conhecida tríade, 
"renovação / reposicionamento / reestruturação".

Quadrilha?
Alguém, no dia de ontem, sobe à tribuna do congresso para tentar “explicar” o significado da asserção assassina. Porque a sua utilização assim o foi, ou para “aquecer” os ânimos, ou para simplesmente dizer o que ia vai na alma, ou no pensamento, ou outro sítio qualquer que o jovem tenha (...). Era (ou foi) mesmo assassina porque, quer na forma, quer no contexto, ficou dita e escrita, "...quadrilha das esquerdas unidas tomou de assalto o sistema parlamentar". O congressista[ii] foi buscar ao dicionário e explicou de que se tratava afinal:  "corja, bando de ladrões e/ou assaltantes, aglomerado de pessoas que só que só se juntam para assaltar ou roubar". Que lhe aconteceu? Foi vaiado, torpedeado pelos eventuais pares. Mas ainda disse,   “Há quem goste, há até quem aplauda, eu não". Sincero, ao que parece, teve o destino que “merecia”, naquele antro, perdão naquela sala. E se mais não fosse, só por aquela “cena”, se adivinhava quem iria “ganhar”.

Admirados?
De todo. Mesmo atendendo aos avisos do citado autor "...espero que não seja este o espírito de intolerância que venha amanhã a liderar o partido" e dando de barato a sinceridade de um homem, tal não abona mesmo nada à falta de cidadania (um termo que a Direita simplesmente não utiliza...) e de dignidade democrática. 
Resta apenas talvez a “parede” que o jovem turco parece querer erguer, para não ver nada à direita dele (ou do partido). A Direita adora “muros”, em vez que de construir pontes para o futuro, apesar de este ser outro lugar comum, na actualidade. 
Mas, na realidade, é capaz de ser mesmo isso. 
A Direita, quando “apertada”, ou simplesmente quando for caso disso, revela a sua verdadeira face. Não se importa com as desigualdades, porque “acredita” na caridade de uma qualquer “jonet”. Não faz questão de querer justiça social, porque o aparelho de dominação da burguesia lhe dá aquilo que pretende, afinal o status que muda  aqui ou ali qualquer coisinha, para manter tudo na mesma. Não lhe incomoda nada o rentismo capitalista, porque as rendas vão para o lado que lhes convém, ou seja, para o seu. E fala dos temas questão na moda, porque apenas quer ser o eco de uma maioria que é diariamente desqualificada e desprezada pela injustiça e pela desigualdade.

É precisamente isso, essa bandeira que não lhe podemos oferecer! 



[ii] António Pires de Lima

30 dezembro 2019

A TEIA


Notícias que nos vão dando conta de avanços e recuos (mais destes que daqueles), com o aproximar do fim de um ano que fecha uma década, parecem estrelas num céu cinzento, que de tão azul que o queiramos pintar, depressa lhe foge a cor, para o pardo mais condizente. Parda é a cor que melhor ilustra a situação social e política de mais um ano, o último da década. Muitos avançam já, a (ou as) personalidade (ou as) do ano, da década, numa voragem mediática intensa. Quem lê as notícias? Quem tem hipótese de lá chegar? Quem entra (ou não) na tal voragem? Quem é engolido por ela? Quem é trucidado? Quem?
Mas isso importa mesmo?

Tantas perguntas e mais se poderiam fazer. E mais haveria para colocar, ao tal “quem de direito”, da asserção comum. Parece, ao ler o jornal do fim de semana (um semanário muito caro para 20% da população), que existe um problema que, no dizer da autora[i] “ganhou nova centralidade nas análises políticas e económicas após a crise financeira”. De que se trata afinal, apenas isto, coisa tão simples, tão aceite, parece tão natural que passamos por ela, convivemos com ela, apenas “desigualdade na redistribuição do rendimento”. Passando à exploração da notícia, pode ler-se, aquilo que vamos aceitando, com que vamos convivendo afinal, é apenas, “Ricos mais ricos, pobres mais pobres, classe média a aguentar-se. Esta é, em traços gerais, a grande conclusão que se retira da análise a 4 décadas de distribuição de rendimentos em Portugal”.
Chegamos às mesmas conclusões, aceitando e convivendo com elas.
Triste realidade.
Parece que o País se reduz (sempre) ao limitado número de quilómetros quadrados em volta de um terreiro que se chama do Paço. Passo tanto tempo a dizer isto que até acredito que é mesmo assim. Quem tem mesmo de ser assim. 

Recuamos 7 anos, ainda estamos nesta década...
No natal de 2012, conhecíamos o Álvaro, de seu nome completo, Santos Pereira. O senhor até era ministro, naquele emaranhado em que o País sofria uma invasão, não de marcianos como na ficção, mas de uns senhores mandantes, cuja função era simplesmente reduzir-nos a uma colónia, coisa que acabaria mesmo por acontecer, com a colaboração do governo da época, pleno de cabeças pensantes, que apenas orientavam a sua acção, para corroborar e amplificar a sentença de morte mais mortífera que existia, “vivíamos acima das possibilidades”, coisa que não se podia permitir, numa europa civilizada e temente ao império. Queria então o Álvaro esburacar o País, entregando mais de cem autorizações para prospeção e exploração de minas em Portugal.
Ninguém iria decerto vaticinar que uma réplica do Álvaro viria, 7 anos depois, com um discurso diferente, todavia certeiro e tão dirigido quanto o outro. De lítio falamos e temos ora um governo de cor distinta e falamos uma outra linguagem. Falamos?
Diríamos decerto que sim, não fora a realidade madrasta, sempre a trair o coração e o sentimento. E o resto. De facto, a mesma asneira, travestida agora de roupagem nova, muito “mais democrática”, com pinturas de uma Esquerda, que se autointitula reformista e europeísta. Lá está.

Andamos para a frente ou para trás?
Questão de somenos, se atentarmos ao consenso que dizem existir na “sociedade civil” e que vai buscar ao imaginário do chamado “interesse nacional”, o arcaísmo conservador menos rebuscado, pelo simplismo e pelo anedótico. O “é a economia, estúpido”, vale tudo e mais ainda, o amor inconfessado às contas certas e à redução do défice. Tudo sempre, em nome do País e das reformas, não as estruturais do passado, mas as que os poderosos pretendem e determinam. Eles, a banca, os patrões, o euro. Onde está a diferença? 
Queremos impedir que a Direita tome conta da situação, ela que agoniza num mar imenso de contradições, de dúvidas (ainda que pouco) sistemáticas, de guerrilhas pouco dignificantes, até dizer “chega”. Queremos? E afinal, o que fazemos?
E a realidade é demasiado dura e mostra, por exemplo, que a taxa de pobreza dos adultos em idade activa aumentou 0,2 pontos percentuais (em 2018, era 16,9%), a taxa de risco de pobreza da população empregada aumentou para 10,8% (em 2017 era 9,7%) e a taxa de pobreza dos desempregados aumentou para os 47,5% (em 2017 era 45,7%). Quem lê estes dados? Quem se preocupa com isto? Quem?

Estamos simplesmente envolvidos
Na perigosa teia que alguém tece por nós, porque já não tecemos nada que não seja para oferecer a um banco (sem dinheiro, sempre apesar das “injecções”...), a uma empresa que quer vender as barragens, a um operador que leva couro e cabelo, com os preços mais caros da europa, por serviços de qualidade por vezes duvidosa, mas que está “protegido” por uma autoridade tão alta, que mal sabemos enxergar. 
Temos sim opinião livre, votamos ou não? Falamos à-vontade ou nem por isso? Mas será que nos vamos auto-limitando, porque às tantas vamos favorecer algo que não estamos a ver? Afinal quem somos nós, para enfrentar de caras tanta hipocrisia?
Teremos então mais saúde, porque há mais dinheiro para ela, ou para a cuidar, não sabemos bem para onde ele (dinheiro) vai, mas decerto que vai para algum lado, não resta quedo e mudo, tem mesmo que servir algo ou alguém. E se duvidamos, em algum momento, que poderá ir para os bolsos dos privados que dela se sustentam, poderemos estar a cometer uma heresia, de tal forma grave, que pode ser mesmo herética (...) e depois não há remédio que a valha. Haja, pois, saúde.
Valha-nos os aumentos. São de tal forma significativos que o País nem sequer “se mexe”, nas estatísticas internacionais. Mas claro que o dinheiro não dá para tudo, há que abater à dívida. E se quisermos saber, afinal dívida a quem e de que montante, lá estamos a desenterrar de novo o mesmo discurso esquerdizante, que a nada leva, a não ser, ao mesmo de sempre, questionam tudo e não têm solução para nada. Pois.
Negociar para quê, se tenho mais votos que os outros? Mas, já viste que não chegam para as contagens? Sim, mas há sempre um “limiano” à esquina da História, é sempre bom lembrar a recente, que nos ensina a fazer igual, ainda que de forma diferente. Confusos? Ainda bem!

E, podemos dizer que não falamos de flores[ii]?
O Chile, sim, o regresso da repressão fascista a torturar e a matar indiscriminadamente? E o derrube de Morales, com o regresso do fascismo nem sequer encapotado, mais os índios que cheiram mal? E as provocações no Brasil, do fascista investido em presidente? E o americano de cabelo amarelo, que todos criticam e as diplomacias assistem e tacitamente aceitam? Está tudo tão longe, não me afectam afinal, isto é a europa, na qual a NATO nos defende. Espera aí, defende de quem?
Fazemos flores, não falando delas, como saber a flor que nos calha? Somos afinal flor que se cheire? 
Estamos no meio da tempestade e fingimos que nos abrigamos, porque há chapéus de chuva, mesmo fora de Cherburgo...[iii]

Caminhando contra o vento/Sem lenço e sem documento/no Sol de quase Dezembro/Eu vou...”[iv]
E com a Alegria que o Caetano nos brinda, sabendo interpretar no fundo o que ele quer dizer, o que nós queremos (e ainda podemos?) dizer.
Repara que podemos assimilar qualquer coisa da canção que tem a ver com tudo, “Sem lenço, sem documento/Nada no bolso ou nas mãos”, entraremos no Novo Ano, pensando que é “novo”, mas tendo a certeza de muito pouco ter no bolso, apenas a migalha prometida, a benesse possível que entretém, mas que pouco acrescenta à condição. Resistir? Pois sim, talvez, mas agora vem a mensagem do Ano da nova década, somos todos irmãos, ainda que uns mais que os outros, “...E uma canção me consola/Eu vou”.
Temos então (ora sim) o devaneio, que por aqui não é atacado à bomba, na “porta dos fundos”. 
Que felizes que somos. Continuamos a ter “...fantasmas tão educados, que adormecemos no seu ombro[v], um sintoma nada bom para a década que se avizinha. E se pensas que é assustadora a afirmação de Yuval Harari[vi], “Em breve alguns governos e empresas poderão saber o que cada um de nós está a pensar e a sentir”, então trata de te libertar da TEIA!




[i] Elisabete Miranda (Jornalista Expresso), no artigo “Portugal Desigual”, 28 Dezembro 2019

[ii] Jogo propositado com a célebre canção de Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, mais conhecido como Geraldo Vandrè, "Pra não dizer que não falei de flores", escrita 1968, para o Festival Internacional da Canção Popular do Rio de Janeiro, inserida no álbum “Geraldo Vandré no Chile”, gravado em Santiago do Chile, em 1969. Proibida durante os anos da ditadura militar, foi sempre um hino de resistência do movimento civil e estudantil.

[iii] Diz a internet que o filme "Os Chapéus-de-Chuva de Cherburgo", foi Palma de ouro do Festival de Cannes, no ano 1964, e que ...”é um dos mais belos filmes do cinema francês, com a sua atmosfera de mágica melancolia onde os apaixonados se cruzam e se perdem. Um filme totalmente cantado, sobre o efémero e a eternidade do amor

[iv] Extracto livre da canção “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso. Um single que foi lançado em 1967 e que integrou o álbum “Caetano Veloso”, do mesmo ano.

[v] Extracto do poema da Natália Correia “Queixa das Almas Jovens Censuradas” (1957), inserida na obra “Poesia Completa”, 1999

[vi] Yuval Noah Harari é um jovem historiador israelita (24 de fevereiro de 1976), autor de obras publicadas em Portugal, como “Homo Sapiens: Uma breve história da humanidade” (2014), “Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã” (2016) e “21 Lições para o Século 21” (2018).

02 dezembro 2019

NÃO, “NÃO VAMOS BRINCAR À CARIDADEZINHA” (1) !!!




A jonet galopa mais uma campanha, com o patrocínio do Pingo Doce e do Continente
A jonet vive da cretinice e da parolice alheia, qual figura do Movimento Nacional Feminino e leva atrás dela não sei quantos mil voluntários, para mitigar os pobrezinhos, que não podem nem devem comer sempre bife, palavras dela, na altura em o nosso País foi sequestrado e invadido pela agressão estrangeira da troika e do passos coelho.
A jonet quer transportar-nos para a caridadezinha, qual “senhora de não sei quem/ que é de todos e de mais alguém/ passa a tarde descansada/ mastigando a torrada/ com muita pena do pobre/ coitada...”  (1), assim cantava o Zé Barata, há tanto tempo, lembrando o tempo nefasto do fascismo, em que o pobre era objecto da “pena” e da caridade alheia.
Passaram já tantos anos e a desgraçada da mulher, com o apoio do capital e do mestre sousa, lá anda a falar para as rádios e para a TV, engando o incauto, que pensa que uma sacola de arroz e um pão resolvem os problemas do capitalismo selvagem, responsável por quase 20% dos cidadãos portugueses viverem abaixo do limiar da pobreza.
A jonet é (mais um) rosto da hipocrisia humana, da estupidez e de alguma ignorância, da qual se alimentam as grandes cadeias de distribuição, enriquecendo de dia para dia, mais e mais e explorando os trabalhadores. 
A jonet é um bicho daninho, asqueroso e malformado, um aborto da sociedade idiota em que vivemos.
Pagar para a jonet é contribuir para que a miséria se perpetue.
Acreditar na jonet é acreditar no pai natal da burguesia e nas falas mansas dos patrões.
Acabemos de vez com essa miserável figura, qual supico pinto(2) dos tempos que se dizem modernos, mas em que a modernidade não passa da beatificação da mais pérfida imagem de um passado que muitos gostariam de recrear.
Quem apoia de alguma forma a jonet está a afundar-se na lama podre do fascismo e dos seus apoiantes.
Saberemos esta execrável “fada do lar”,  algum dia terá “...ao peito uma comenda”, porque “...neste mundo de instituição/ cataloga-se até o coração/ paga botas e merenda/ rouba muito mas dá prenda...” (1)
Vamos tirar o tapete à jonet, o seu verdadeiro lugar é o caixote do lixo que cheira mal e é impossível de reciclar.
ABAIXO A JONET!

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(1) extractos do tema “Vamos Brincar à Caridadezinha”, inserto num LP do ano 1977, autor José Barata Moura
(2) referência à “Cilinha” (Cecília Supico Pinto) figura grada do fascismo, líder do Movimento Nacional Feminino, entre 1961 e 1974, que serviu a propaganda da política colonial do regime e responsável, reprodutora e garante da continuidade cultural beata, o principal sustentáculo ideológico do regime deposto no 25 de Abril de 1974.


21 novembro 2019

COISAS QUE (se calhar) NEM SE DEVIAM ESCREVER..


Devo confessar que nunca gostei muito de polícias.
Uma afirmação que, admito, pode até gerar algum desconforto a quem me lê (se é que existe esse alguém...).
Contudo, vou até amplificar a minha asserção. Nem de polícias, nem da polícia. Fui habituado, desde a tenra idade dos tempos da Faculdade, em Coimbra, no Porto, em Lisboa, a fugir deles e dela. 
Assim como que um destino, quiçá fatal, que me leva a uma estória, que remonta ao dia 26 Abril de 1974. Descíamos a Rua dos Clérigos, cidade do Porto, até que vindos nem sei bem de onde, uma boa vintena de polícias PSP se preparava (digo eu) para nos reprimir. Ainda não deviam ter acordado bem, na véspera do dia glorioso, e vai de querer bater na malta, uma coisa que lhes estava no sangue (e que provocava sempre bastante sangue...). Até que, ao cimo da rua, mesmo ao pé da Igreja, vem descendo a tropa. E então surge a (tal) bela imagem: os polícias, recolhendo os bastões, desatam a fugir para todos os lados e nós, rindo e festejando o insólito acontecimento.

Então se começa a compreender...
Depois desses dias, melhor, durante esses dias e muitos dias depois, uma das palavras de ordem da Esquerda era “Polícia Fascista, Assassina!”. E uma outra, bem mais ponderada, “Dissolução imediata da PSP e da GNR”. Creio que havia ainda uma outra, completamente reformista à altura, que se ficava por “Desarmamento imediato da PSP e da GNR”.

Uma polícia democrática?
Nada do que se pedia, ou exigia, foi feito. Entendeu o novo regime, que lidar com uma nova versão das polícias, seria a melhor forma de “integrar” as ditas “forças” na novel democracia, dando de barato que era sensato “educar” os profissionais daquelas “corporações”, para servir as populações, no limite até de os considerar como uma segurança de proximidade.
Mas, com todo o respeito pelas pessoas que decidem ser polícias, quem poderá dizer que nunca foi incomodado por um tipo qualquer de farda, que multa à má fila? Que chateia, por aquelas pequenas coisas que a gente sabe?
Alguém poderá dizer que a polícia está sempre (vá lá, às vezes...) no sítio certo para reprimir quem merece? 
E já agora, a pergunta marota, acham mesmo que a Democracia educou as polícias?

Em que ficamos?
Agora se “lamenta” que as polícias estejam infiltradas (creio ser este o termo) por perigosos grupos de extrema-direita, nazi-fascistas e epítetos do género. Embora não seja crente, admito tudo e mais alguma coisa, a saber, a deriva autoritária e repressiva das/dos polícias. Coisa espantosa, mas não sabíamos já disso? Porventura podemos esquecer as múltiplas agressões de agentes policiais (como eu adoro esta designação...) a cidadãos aparentemente inofensivos, mas com um “pequeno pormenor” distintivo, a cor da pele mais ou menos bronzeada, a “raça” que não é caucasiana, a forma ousada de vestir, enfim, aquele ar de culpado antecipado, que é um perigo imediato para o burguês bem-comportado e para a autoridade engravatada e/ou fardada?

Poderíamos (eventualmente) aventar...
Que as polícias existem para justificar, defender e preservar a autoridade do Estado (mesmo que seja democrático), para legitimar a dominação da classe tal e qual, para reprimir todo e qualquer acto que atente contra a segurança do dito (Estado). 
Mais, poderíamos até defender que os apelos à violência vêm normalmente do lado dos que se dizem defender o contrário, ao fim e ao cabo entidades cuja estrutura determinante é impor lógicas de silenciamento daqueles que são e foram historicamente marginalizados e que ensaiam normalmente movimentos de rebeldia que não devem ser tolerados.

Mas até podemos não dizer isso...
E então, a segurança das pessoas? E os ladrões, que assaltam e roubam a propriedade (mesmo que seja um pão). E o crime organizado, que desfaz completamente o tecido social, a droga meu deus? E os violadores (violadoras, também?), os assassinos de criancinhas, de mulheres indefesas, de velhinhas e velhinhos, enfim, quem nos protege dessa marginalidade que desfeia qualquer sociedade bem-comportada e crente em qualquer divindade?

Acreditam mesmo que é a polícia?
Acreditam mesmo que são os polícias?
Àquelas e àqueles que assim pensam, sugiro delicadamente que vão hoje mesmo tentar subir a escadaria da AR, trepando o tal muro com 2 metros de altura.
Estão à espera de quê?


20 novembro 2019

PARA TI!



No dia de ontem, que marca a minha tristeza, não consegui escrever mais do que estas palavras, que deixei no Facebook:
Se uma morte custa aceitar muito, uma morte destas deixas-nos arrasados.
“Qual é a tua, oh meu”, partires assim, sem estarmos preparados?
Tu, que escreveste a melhor definição para essa coisa tenebrosa que era (é) o FMI!
Lembro-me como te conheci, no longínquo ano de 1975, em reuniões partidárias, tu na tua UDP, eu na minha LCI: num primeiro impacto, achei que eras o tipo mais antipático do mundo.
Hoje, com uma terrível sensação de perda irreparável, penso que és o maior artista do mundo.
Lembrar-me-ei sempre de ti, assim, como nesta bela foto!
Adeus Camarada!












Hoje, ainda que não refeito da perda, quero deixar a inquietação, porque “Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer/ Qualquer coisa que eu devia perceber”, eu sei que sei, mas se calhar não sei. 
Morre o Homem, não morre a ideia, uma frase feita, por quem espera sempre um mundo melhor, que só o será, pela mudança, pela transformação, quiçá mesmo pela Alegria, que o Zé Mário queria já e agora. Subscrevo também que, “Com tantas guerras que travei/Já não sei fazer as pazes”, já não tenho sequer paciência para ouvir certas coisas, tantas que passam por mim e me tentam impingir sei lá o quê.
Tantas “partidas” nos últimos anos, cansam-me, não sei dizer como. Pois se calhar, algum egoísmo, é mesmo difícil ultrapassar, a gente diz que sim, mas fica cá dentro aquela sensação que as “almas jovens”, mesmo as “censuradas” se foram e não voltam, pelo menos a frequentar o mesmo espaço que nós ainda pensamos que é finito. 

O pouco tempo (muito pouco) com que privei contigo, leva-me (nostalgia, pois) para trás, quando quero andar para a frente, que fizemos nós para assim ser, como ultrapassamos?
Quem mais seria capaz de confessar, “Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grândola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois”. Olho para a outra margem e vejo apenas a sombra da tua inquietação. Porventura minha, nossa, que arrepio imenso, diz-me que continuas, vá lá, preciso mesmo.

Numa das últimas entrevistas dizias, sobre a política, que “O capitalismo é que vai conseguir levar à prática aquele apelo do Marx do século XIX: "Proletários de todo o mundo, uni-vos". E os capitalistas de todo o mundo já estão unidos há muito tempo.” Apesar de tudo, continuavas a ser um político.  Andavas por aí a incomodar consciências, ora bem.

Apanhas agora outro barco, sequer sabes do rumo, mas que importa? O que conta é que “Entre a rua e o país/ vai o passo de um anão/ vai o rei que ninguém quis/ vai o tiro dum canhão...”E, claro, o trono é de quem? Pois, e a propósito, farias um “inocente” comentário, “Esta coisa podre em que a gente vive agora faz com que não me sinta bem a cantar as coisas do costume”.

E agora? Olha, eu também “...não meti o barco ao mar/p´ra ficar pelo caminho”, ora porra!

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(*) Imagens escritas de “Inquietação”, “FMI”, “O Charlatão” e entrevista de 2018

10 novembro 2019

A TAL CIDADE (sempre) MARAVILHOSA 

A Favela da Rocinha
10 minutos a descer, vinte minutos a subir
Podia ser a imagem, de tantas vezes repetida pelo nosso guia Leopoldino, um local, morador na Favela da Rocinha. Ele e a nossa recepcionista do Hotel, que só mostra um sorriso quando lhe manifestamos satisfação, perante um passeio tão maravilhoso, quanto a Cidade onde mora.
Nas restantes cidades do mundo, quem tem dinheiro mora no alto, aqui na Rocinha é mais ou menos o inverso, quem mais tem que subir é quem tem menos hipótese de pagar uma renda, que pode oscilar ente 100 ou 500 reais. Mas, quem pode pagar 500 reais, quando ganha isso, ou pouco mais? Ou menos, ainda haverá casos desses, ou que não conseguem um emprego. Leopoldino é parco em palavras, ou melhor, apesar de dizer muitas palavras, parece falar apenas o suficiente. Todavia, quando tivemos oportunidade, a meio da tarde, de tomar uma caipirinha e falar com o homem do boteco, de uma forma aberta e franca e o ouvimos falar contra o Governo, então a partir daí, o nosso Guia começa outro discurso, a fala de uma homem que vive dos expedientes do turismo, mas que habita a favela, com os irmãos que sobem e descem. O homem da agência fala agora de como era, antes de Lula e como é agora. Leva-nos a ver as ruas novas que foram reconstruídas e a quantidade enorme de habitações que foram atribuídas aos cidadãos. É que acontece que sua avó também recebeu uma, precisamente aquela onde ele vive, porque os pais já se passaram. Diz, “...vê como é rua, dantes era quase nem metade, mal passava um carro”, agora pelo menos há uma (ainda que pequena) mudança.
Um pouco antes, Leopoldino, havia de nos abrir as “Portas do Céu”, onde mora um ancião que tem a chave. Diz que devemos contribuir com 2 reais (45 cêntimos) para a “abertura”. Uma porta que é um bocado de chapa, e que uma vez aberta, nos irá presentear com uma das paisagens mais belas que a Natureza pode oferecer, o Rio a nossos pés, os morros, a Lagoa no seu esplendor, as praias, o mar.


E diz ainda, “o que quer e pode este homem, um ex-capitão, realmente com o mesmo pensar dos antigos coronéis?”. Mesmo admitido que alguns dos da Rocinha, tenham votado (enganados) nele e nos seus capangas. Cedo irão perceber o que ele é e o que representa. 
Mostra-nos com orgulho algumas obras de Oscar Niemeyer, o homem de Olinda e de Brasília, o arquitecto comunista, aquele que sofreu na pele na Ditadura e que foi obrigado ao exílio pelos fascistas, durante 16 anos e que morreu no seu Brasil, com 104 anos.

As visitas
As deambulações pelo Rio levam-nos ao Real Gabinete Português de Leitura , fundado em 1837, situado num edifício meio escondido do século XVIII,  mesmo por trás de um teatro de arquitectura duvidosa e que ostenta uma biblioteca fabulosa.
Uma rua perigosa onde não se deve circular depois do entardecer, segundo consta e aconselha o bom-senso local. Mas era ainda relativamente cedo e decidimos arriscar um pouco e percorrer a rua que leva à praça da estação de metrô Uruguaiana.  Onde vive uma das mais famosas feiras do rio e onde se compra tudo e mais alguma coisa pelo preço da uva mijona. Na rua surge então uma porta que ostenta o significativo o nome de Letra Viva.  Era obrigatório entrar fotografar e curtir mais alguns minutos os livros as revistas novos e usados, de onde aparece um “Assim Falava Zaratustra”, do Nietzsche, por apenas 25 reais, ou seja, mais ou menos, 5 euro e meio.
A biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura conta com 350.000 volumes, sendo a mais valiosa biblioteca de obras de autores portugueses fora de Portugal. São centenas de prateiras de madeira, distribuídas por 3 pisos, num edifício de indiscutível beleza e elegância, de um gótico tardio português do século XVIII (neomanuelino) e que incorpora muitos motivos marinhos e, no exterior, as estátuas de Pedro Álvares Cabral, do Infante Dom Henrique e de Vasco da Gama que alimentam a pedra da fachada exterior do edifício em 1935. Para além do fantástico vitral, envolvido pela abóboda, o nosso olhar queda-se nas prateleiras em castanho e em umas escrivaninhas simplesmente deliciosas.  
Os livros misteriosos, objetos que fascinam e enriquecem a nossa imaginação, como que dançam sem sair do sítio, um desafio permanente para serem tocados e desvendados.

O Tom Jobim
Copacabana princesinha do mar /Pelas manhãs tu és a vida a cantar/E a tardinha o sol poente /Deixa sempre uma saudade /na gente”, é um perturbante esplendor de 8 km, entre Ipanema e Leme. 

O Tom está (ainda) presente neste Rio de Janeiro, qual o mestre que, de qualquer ângulo, ensina a cantar e canta a ensinar. Ele, como as outras e com os outros que neste momento resistem contra a besta que mora no Planalto, vivem no dia a dia sonhando com dias melhores, para sua terra, para suas gentes. Elas e eles que são hoje perseguidos, como no tempo dos coronéis, até mesmo assassinados, como Marielle ou  Anderson Gomes. E mesmo que não tenha sido o Poder a matar, ele é o primeiro responsável, pelo ódio que espelha e que espalha.

E eu vou...
Sim, eu vou, talvez com Caetano,” Caminhando contra o vento /Sem lenço e sem documento/ No sol de quase dezembro...”, pensando em quase nada, a não ser o tal sol (ainda em Novembro, quase Dezembro), vendo os meninos da rua, os sem-abrigo que dormem encostados a qualquer prédio, vendo os fortes gradeamentos nos prédios perto da praia, cheirando os fortes odores a mijo, isso mesmo, no centro da cidade e na praia de Copacabana. Apreciando as muitas e muitas feirinhas de rua, quase tudo nos parece barato, depois da desvalorização do real, comendo fruta que por cá assusta de tão cara, bebendo sumos e água de coco, que cá não há.
Pensando, “Tanto Mar” que nos separa, tanta simpatia das gentes que nos fala, que nos atende, que nos guia, que nos orienta, sempre com aquele sorriso, sempre com o tal sotaque, apesar de, para eles, nós é que temos sotaque. 
Nós, sempre a aprender. Ceto dia, ma praia um carioca explica a duas argentinas, “não se diz eu vou no metro, metro é uma medida, deves dizer, eu vou no metrô”. E não é que tem razão?

Registo devido
Tantas e tantas que falaram e disseram de suas vidas, que poderíamos escrever, nunca mais acabaríamos. Mas mal ficaríamos sem deixar de citar o Leopoldino da Rocinha, a Eliane e o André, com quem trocamos mensagens e sempre ficarão no nosso coração. Eles são tão queridos como este Brasil, esse Rio de Janeiro que nos fascina, que nos aperta, tentamos não moralizar. Daquelas e daqueles que não sabemos o nome de quem lembramos um rosto ou um singelo sorriso, que ficarão sempre connosco.
E de novo eu vou, “... Por entre fotos e nomes /Os olhos cheios de cores...”