rio torto

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16 abril 2020

A “FRENTE” QUE FAZ FALTA


Esta poderá ser uma imagem da actualidade.
Comentadores e público em geral, uma representação da modernidade, que se assumiu como tendo alguma validade, quer no plano das ideias, quer no panorama político. Tal poderá configurar, no futuro, um relativo excesso de representação, em termos de análise social, deixando eventualmente de lado, franjas significativas da população portuguesa, que se sentem à margem de qualquer decisão, por terem aparentemente perdido representatividade, na sua essência.
A questão coloca-se sobretudo (agora) em tempos de crise.
Para a comunicação social, uma tremenda manipulação de consciências, mesmo admitindo que o inconsciente o sobrevalorize. Desde a última década do século XX, tem sido assim, ou seja, existe uma camada privilegiada que se arvora como consciência colectiva, tomando como adquiridas, determinadas asserções e projectando-as no inconsciente colectivo, tomando-as como válidas, exactamente porque o teriam sido, através de um processo complexo de desarticulação da informação, por um lado e, por outro lado, pela construção de uma memória presente colectiva, a que é estranha a concepção do “homem comum”. Contudo, autores como Walter Benjamin, atribuem uma importância acrescida a este pormenor, sobretudo quando afirma que o homem comum”, “...através de suas rememorações, traz uma contribuição fundamental para a desconstrução da versão oficial da história, relatada, com frequência, a partir do ponto de vista dos vencedores.”

A preparação da “normalidade”
Uma boa preparação implica a difusão pelos chamados meios de comunicação social, com uma equilibrada difusão de “fóruns de opinião” e inquéritos colocados às massas. Começando pela chamada informação, ela é rigorosamente organizada, de molde a constituir uma representação da realidade, através da repetição de meia dúzia de frases feitas, de opiniões de comentadores que não são especialistas de coisa alguma, mas que opinam sobre qualquer tema, com a ligeireza que lhes foi “ensinada”, e que invariavelmente constituem a dita “opinião pública”. Que é construída de cima, fabricada portanto e devidamente registada como válida e confirmada. De quando em vez, é notório, em alguns desses fóruns de opinião, uma ou outra voz, que se levanta contra, de uma forma primária e que é devidamente “arrumada”, no contexto global. Falar muitas vezes que a “a situação voltou à normalidade”, faz com que tal seja verdadeiro, mesmo que, no terreno, nada disso corresponda à realidade. 

O falso dilema entre Saúde e Economia
A discussão que se pretende colocar, em termos de comunicação social é, entre dar prevalência à Saúde ou à Economia, como se fosse possível equacionar as coisas desta forma. Em primeira instância, dir-se-ia que, primeiro devemos curar todos os doentes e depois (só depois) nos centrarmos na questão da Economia. Claro que colocar as questões desta forma, não é, uma vez mais, inocente. Destina-se, este tipo de “análise” a induzir de novo o medo na população. 
Claro está que uma das obrigações do Governo, é governar.
E governar, será em primeira instância, determinar exactamente os timings devidos, acertando, entre cidadãos e empresas, as melhores formas de “retomar” as actividades económicas. O que determina uma coisa muito importante que é, a urgência (que já devia ter sido, no mínimo, há um mês atrás), do uso obrigatório de máscaras de protecção. Sem isso, nunca poderá existir segurança das e para as pessoas. Esta falha, que teimosamente continua, é um espelho do relaxe e uma contradição absoluta do “estado de emergência”, que apenas e só existe, para determinar restrições aos trabalhadores, menos uma protecção a que o Estado está obrigado.
Vista a situação actual, com uma certa frieza, diria que a ordem para o confinamento geral, se deve, única e exclusivamente, à incapacidade manifesta de resposta imediata, devido à sistemática e progressiva liquidação do Serviço Nacional de Saúde, quer pela sucessiva recusa de investimento, em infra-estruturas e materiais (máscaras, gel desinfectante, viseiras, testes de despistagem, ventiladores e outro), quer ainda por aquela que deveria ter sido a primeira medida a tomar: a requisição imediata dos hospitais privados. Esta responsabilidade deve ser unicamente imputada a este Governo e a todos os anteriores.
Não deixa de ser manifestamente ridícula, a posição das 2 Responsáveis da Saúde (Ministra e Directora-Geral), sobre o uso das máscaras, praticamente 1 mês depois da pandemia estar “confortavelmente” instalada, quando já eram suficientemente conhecidas experiências a provarem que aquele uso era absolutamente prioritário. Vejam-se por exemplo, para citar apenas estes, os exemplos da Coreia do Sul, de Singapura, da República Checa.
Sintetizando a questão actual, a declaração de João Oliveira do PCP, é elucidativa, “As medidas de contenção são necessárias, o estado de emergência para as impor é que não.”[i]


E, por falar em Economia 
Sobre a questão de um eventual colapso da economia, a nível interno, existe já um cálculo para o abaixamento do PIB nacional, uma queda de 11%, na previsão de Francisco Louçã, de há uma semana, ou 8%, segundo notícia de 14 Abril, do FMI, mais 380 mil desempregados.
Então o que vai acontecer agora daqui por alguns meses (1, 2 ou 3, ou mais), quando for necessário tomar medidas? Para os comentadores habituais do sistema, serão sempre “medidas excepcionais”, a questão centra-se em quem as irá tomar. Um governo de um bloco central? Um Governo da “Salvação Nacional”, que curiosamente salta sempre para cima da mesa e questão é sempre colocada de uma forma conservadora, uma vez que parte dos princípios erróneos, “não há dinheiro”, “não existem condições para garantir a todos...”, “...agora haverá consequentemente menos dinheiro”, etc...., A lógica deste tipo de argumentação baseia-se sistematicamente num dado, pelos vistos adquirido, de que haverá menos dinheiro para mais pessoas, uma vez que o bolo é o mesmo.  A consequência conhecida deste tipo e análise é obviamente a necessidade de cortar pensões e salários e reduzir as prestações sociais. Segue-se a falta de dinheiro para os sectores fundamentais do Estado Social, o SNS, a Escola Pública, os transportes e por aí adiante. Esta análise, simplista e propositadamente enganadora, não resulta apenas de uma manifesta falta de visão de política estratégica, mas sobretudo da limitação decorrente da incapacidade de equacionar qualquer cenário que se apresente como alternativo. Quer a nível da própria metodologia de análise, que no que reporta aos dados concretos da economia portuguesa. Claro que, ao referir-se a possibilidade (ainda que remota) de uma hipotético bloco central, está automaticamente a excluir-se (de novo) a Esquerda de sequer desempenhar o seu papel, pelo menos na definição de Poder.

Mas a questão (da Economia) não é só nacional
A nível da chamada união a nível da chamada “união europeia”, os condicionalismos a nível do não entendimento Norte-Sul, a nível de saber qual será a posição de Alemanha, de qual será a posição da Itália, uma economia “interessante” para os desígnios do mercado europeu, os enredamentos habituais nestas circunstâncias, com múltiplas e desencontradas intervenções de burocratas e eurocratas, ao serviço da propaganda oficial, dos convénios e dos tratados, das idiossincrasias dos mercados (vistos aqui como pessoas concretas, sujeitas a boas e más disposições de momento), das condições e contradições sobre o tratamento das dívidas soberanas. A suprema ironia da ajuda de Cuba a Itália, demonstra bem a completa inutilidade da chamada “união europeia”, que entretanto se vai perdendo em jogos florais, nas ultimas semanas, para culminar em mais um “acordo” no grupo de burocratas ministros das finanças, conhecido como eurogrupo, que consiste na  “...abertura de uma linha de crédito do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) num valor equivalente a 2% do PIB, para que os países possam financiar medidas “directa ou indirectamente” ligadas ao sistema de saúde é a peça central do acordo obtido esta quinta-feira pelos ministros das Finanças da zona euro.” (Jornal Público, 9 Abril 2020). Claro está, com condições associadas, que têm a ver, com a obrigatoriedade do cumprimento das regras orçamentais europeias, bem como a aplicar o dito financiamento, apenas para o fortalecer a resposta do sistema de saúde.
Nada de novo, antes pelo contrário, na “resposta europeia”, que apenas irá, ao contrário do que dizem Costa e Centeno, provocar, mais cedo ou mais tarde, a austeridade conhecida. Dado que, na perspetiva da Alemanha e dos seus satélites do Norte, serão sempre as economias nacionais a pagar o empréstimo, desde que lhes estejam associadas as convenientes restrições, que nem precisam de estar escritas à partida, uma vez que derivam das regras de funcionamentos do euro e dos tratados e convénios, na sua grande maioria, não ratificados pelos Estados Membros.

A falta de uma verdadeira estratégia 
A questão de saber, uma pergunta sistemática e propositadamente feita aos cidadãos, se o Governo está a actuar bem e em tempo, é falaciosa, por duas razões. A primeira, porque compete de facto ao Governo tomar as medidas adequadas e em tempo. A segunda, porque os cidadãos não dispõem dos dados suficientes para responder. E então, das duas, uma. Ou respondem que não, por razões que ultrapassam a questão principal, ou dizem que sim, porque não encontrar motivo suficiente para dizer não. 
E depois, nestas questões de segurança e gravidade nacional, não é nada avisado alinhar com aqueles teses (muito difundidas, aliás) que tentam convencer as pessoas que isto é “...uma doença que toca a todos por igual”,  é “...uma crise que toca a todos por igual”, que “...temos que nos unir perante a ameaça do vírus”, e outras do mesmo género. Que correspondem afinal às teses de certos autores que proclamam constantemente, quer a hecatombe, quer a passividade, mais ou menos completa (ou complexa). 
Nesta linha, que chamo de “passividade activa”, Harari[ii] escreve há dias uma autêntica proclamação, “A humanidade precisa fazer uma escolha. Iremos percorrer o caminho da desunião ou adotaremos o caminho da solidariedade global? Se escolhermos a desunião, isso não apenas prolongará a crise, mas provavelmente resultará em catástrofes ainda piores no futuro. Se escolhermos a solidariedade global, será uma vitória não apenas contra o coronavírus, mas contra todas as epidemias e crises futuras que possam afetar a humanidade no século XXI.” Isto analisado, mesmo sem ser à lupa, quer dizer, absolutamente zero, uma vez que parece desconhecer a situação de perfeita guerra surda, por exemplo, na dita “união europeia”, que demorou duas semanas a parir um pacote que significa menos que nada, perante a calamidade prevista (até pelo próprio FMI).
Mas diz mais, parecendo que vive noutro planeta, “Um país rico com poucos casos de coronavírus deve estar disposto a enviar equipamentos preciosos para um país mais pobre com muitos casos, confiando que, se e quando, posteriormente, precisar de ajuda”.
Esta “linha” de pensamento não acrescenta coisa alguma, apenas serve para tentar convencer os cidadãos que está tudo bem e que, mais dia menos dia, cairá de algum céu perto de si, a solução de solidariedade milagrosa, em que parecem acreditar. Claro está que se uma qualquer esmola significativa vier a surgir, então o problema dissolve-se, pelo menos na mente de quem a defende...

Preciso é preparar cenários...
De facto, é mesmo o que parece faltar.
A maioria dos partidos Políticos portugueses não tem, ou melhor não parece sequer querer, a mínima noção do que deve ser um Programa Mínimo de alternativa, para encontrar respostas para a situação presente. Da Direita, considerada como “representada” por PSD, CDS, PAN e IL, aquilo que se conhece é, mais ou menos disfarçadamente, o apoio mais ou menos consensual ao Governo, com variantes interessantes, que apenas têm a ver com o desejo de aproveitamento político, aqui com especial relevância para o PSD. O PS e o BE, cada vez mais parecidos, apesar dos discursos serem aparentemente diferentes, resultantes da necessidade de alimentar bases ideológicas distintas, o que leva, por exemplo, o BE a apresentar medidas e propostas correctas, numa situação normal e que mais parecem perdidas na conjuntura que atravessamos. A justificação prende-se com a falta de visão estratégica do BE, para a questão europeia, que naturalmente “tolhe” os movimentos da maioria das suas intervenções. Resta o PCP, o único partido político em Portugal, como uma visão clara sobre a questão europeia, mas que não tem (a visão) o peso suficiente para alavancar uma posição ampla de defesa da soberania e de repúdio completo das normas, tratados e convénios da dita “união europeia”. 
Escrevi, em artigo de 13 de Abril [iii], “Se porventura o Governo da República nos viesse dizer que iria apostar num plano de agricultura sustentada, num plano de industrialização consequente, que iria optar por uma diminuição da dependência externa, reformulando alguns circuitos de distribuição. Se finalmente nos viesse anunciar um plano de pleno emprego, subsidiado pelo Estado, combatendo assim, de forma eficaz, a miséria e a exclusão. Se porventura ainda pudéssemos dar algum crédito a quem nos governa, pensando: bem, esta administração tem algumas boas ideias, valerá a pena conceder-lhes um benefício de dúvida. Se ainda nos viessem dizer que iam desenvolver todos esforços por lutar, por exemplo, com a Espanha, a Itália e a França, no sentido da anulação dos tratados odiosos e ainda de equacionar a aquisição da soberania que nos falta e que nos foi indignamente retirada, então diríamos, vale a pena juntar a nossa voz, porque nos estamos a proteger e a cuidar particularmente daqueles que nem voz têm para falar, tão fraca é a sua condição.”
E é aqui precisamente que nos encontramos. Entre a escolha, que tem que ser feita, de o nosso País continuar a ser um protectorado da Alemanha e a recuperação completa da soberania, fora da EU e fora da moeda única, única forma de o País poder emitir moeda, para responder de imediato à crise e para proteger os cidadãos, os seus salários, as suas pensões. 
A ilusão pode ser, como sempre é, fatal. As classes mais desfavorecidas da sociedade portuguesa, os trabalhadores, os pequenos comerciantes e industriais, não se podem (nem devem) iludir com a “teoria geral do confinamento”, com os remendos habituais e as esmolas que aí virão. No final, irão receber a factura, após o colapso das instituições e, a seguir este caminho, do próprio Estado Social.

Este pode ser o momento.  
Primeiro para proceder a uma correcta interpretação, porque todas as crises comportam, ou devem comportar, uma adequada e sistemática interpretação. Que estará a ser feita, mas nunca, ao que parece, a nível dos responsáveis pela administração do Estado.
Para incentivar uma comunidade de cidadãos, com um programa apoiado em bases concretas, tendo como prioridade a análise da dívida e a sua imediata restruturação, bem como o estudo de uma alternativa nacional, para readquirir a soberania perdida. 
Uma Frente, para fazer frente (assim mesmo) à situação actual, que deveria exigir, para já, ao Governo actual:
·      um levantamento da capacidade produtiva do país de forma a identificar, no plano da agricultura, do pequeno comércio e particularmente da distribuição, as empresas que podem contribuir para a produção dos produtos e materiais necessários, ao funcionamento do País, em situação de emergência;
·  um plano de triagem da população, que permita por um lado a identificação dos casos de risco sério e, por outo lado, em colaboração com as Cooperativas, Associações, e outras Organizações privadas sem fins lucrativos, a inventariação de todas as actividades necessárias aos cidadãos, incluindo a questão médica e sanitária, em primeiro lugar;
· um plano imediato de protecção do emprego, com proibição dos despedimentos;
· um plano imediato de protecção da habitação, sobretudo para aqueles que têm encargos na banca e perderam o emprego;
· nacionalização imediata de todas as empresas estratégicas para a actividade do País, desde a industrialização à comercialização, passando naturalmente por todos os circuitos de distribuição, incluindo transportes, comunicações, rede eléctrica e sanitária.
Essa Frente, deverá incluir naturalmente os Partidos Políticos, que acordem com aquelas e outras linhas mestras necessárias à resposta. 
Apenas 5 pontos, muito simples, muito directos, a que terão que se adicionar muitos mais, de forma a contribuir para a definição de uma Estratégia. 
Não parece ser difícil a concordância com aqueles pontos.
Este não é o discurso vazio do “...daqui para a frente, tudo vai ser diferente”.
Mas na realidade, se a emergência causada pelo vírus poder contribuir para alguma coisa, que o seja para uma significativa mudança de atitude. 

Alfredo Soares-Ferreira
16 Abril 2020




[i] Declaração sobre o Estado de Emergência, votação na AR de 16 Abril 2020
[ii] Yuval Noah Harari, professor de História, na Universidade Hebraica de Jerusalém.
[iii] Blogue Rio Torto, in: https://alfblogue.blogspot.com      

15 abril 2020

POUPAR EM TEMPO DE MORTE


A asserção "Poupar em tempo de morte", utilizada pelo Economista Jorge Bateira, num video colocado no Facebook, é bem o espelho desta conjuntura. 
E o problema (ainda) maior, é que a ultrapassa. 
Quero dizer que, para além da poupança evidente, não existe qualquer definição de uma estratégia. Para o médio prazo e para o futuro. 
Se porventura o Governo da República nos viesse dizer que iria apostar num plano de agricultura sustentada, num plano de industrialização consequente, que iria optar por uma diminuição da dependência externa, reformulando alguns circuitos de distribuição. 
Se finalmente nos viesse anunciar um plano de pleno emprego, subsidiado pelo Estado, combatendo assim, de forma eficaz, a miséria e a exclusão. 
Se porventura ainda pudéssemos dar algum crédito a quem nos governa, pensando: bem, esta administração tem algumas boas ideias, valerá a pena conceder-lhes um benefício de dúvida. 
Se ainda nos viessem dizer que iam desenvolver todos esforços por lutar, por exemplo, com a Espanha, a Itália e a França, no sentido da anulação dos tratados odiosos e ainda de equacionar a aquisição da soberania que nos falta e que nos foi indignamente retirada, então diríamos, vale a pena juntar a nossa voz, porque nos estamos a proteger e a cuidar particularmente daqueles que nem voz têm para falar, tão fraca é a sua condição. 

Assim, ou melhor, não sendo assim, que crédito podemos dar a quem nos governa e não cuida daqueles que afinal sustentam o Estado com as suas contribuições, pagas em Portugal e não na Holanda?      

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Texto que acompanha o video do Jorge Bateira
A escolha vai ser feita por si. É obsceno que o governo conte os tostões nos apoios aos 'de baixo'. As regras do euro são a razão principal por que o faz. 
O que está em jogo nesta pandemia é a sociedade que queremos ter depois da tragédia que nos atingiu. Queremos manter um SNS sub-financiado, com os seus trabalhadores desconsiderados por falta de condições de trabalho e salários medíocres? Queremos um país que forma bons enfermeiros e médicos e depois os empurra para a emigração, ou para o sector privado que vive das rendas que os nossos impostos lhe pagam? Queremos um país profundamente desigual, em que uns acedem facilmente ao dinheiro do Estado, enquanto tantos outros ficam sem rendimento algum, até obrigados a ir pedir comida a uma IPSS, porque a sua situação precária, na economia informal, não encaixa nos apoios previstos? Queremos ficar, para sempre, metidos num colete de forças económico-financeiro e político que obriga o Primeiro-Ministro a mendigar a autorização de Bruxelas para gastar o que for preciso, para salvar todos os que estão em estado de necessidade e não cabem na burocracia montada para que o défice e a dívida não cresçam demasiado? E os que já têm dívidas que cheguem e, nesta emergência, estão convidados a aceder a mais endividamento (vulgo "linhas de crédito" em que o Estado só gasta com os que não cumprem), porque dinheiro a fundo perdido é demasiada despesa para uma dívida que, passada a tempestade, pode fazer Bruxelas perder a boa-disposição?
E foi assim que trataram os bancos e os banqueiros na crise financeira? No vídeo de 5 minutos que aqui vos deixo, o meu ponto é este: vai ser preciso escolher entre, (a) uma vida soberana e digna em que teremos de construir com esforço o nosso futuro e (b) uma vida decadente, de mão estendida, num protectorado em que a Alemanha tem a última palavra.
A escolha vai ser feita por si
.”
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14 abril 2020

APOIO EUROPEU VAI CONVERTER-SE EM AUSTERIDADE? "NÃO. PODEM ESTAR DESCANSADOS"


Acordamos com a “promessa” de Mourinho Félix, que garante à TSF [1], que o pacote de 500 mil milhões não vai converter-se em austeridade. 
Cansados do vírus, cansados de estar confinados, só nos restava agora esta retórica que, de tão gasta, é porventura a que melhor encaixa neste Governo do Partido Socialista e com a estratégia “europeia” do “maestro” Centeno.
Perguntar-se-á que efeito terá o título do artigo, retirado do sítio internet da TSF, na maioria dos cidadãos portugueses?
A mesma questão poderia ser igualmente colocada a qualquer país da Europa do Sul.
Abalados pela(s) dívida(s) que não quer baixar, o protótipo do estado europeu do Sul e, em particular o nosso País, sem ter o principal instrumento de gestão de toda uma política orçamental, ou seja, sem moeda própria, está completa e totalmente amarrado e incapaz de propor uma politica económica consistente e consentânea com o desenvolvimento do País, no sentido do combate às desigualdades e da  erradicação da pobreza. No mínimo.
Ao mesmo tempo e reparem na diferença, sabemos hoje que o Banco de Inglaterra vai financiar directamente o Estado britânico, durante o tempo que o Governo considerar necessário para combater as consequências económicas do covid-19.
Mas sempre se deve dizer: para isso é que serve um país ter a sua moeda própria.
Isto é tão evidente, que quase dispensaria comentários.

Todavia assim não acontece.
O presidente do eurogrupo, classificou ontem (9 Abril), em entrevista à TSF, que o pacote europeu de 500 mil milhões de euros para combate à Covid-19, significava um conjunto de propostas "muito ambiciosas que teriam sido impensáveis há algumas semanas". E, aludindo à última crise, em que "a Europa fez muito pouco e demasiado tarde", 
Mas há mais, na retórica gasta de Centeno. É que ele garante que "só conseguiremos atravessar esta crise juntos, enquanto europeus".
Como é possível falar desta forma, que considero abusiva e até, neste contexto, simplesmente criminosa?
Não e não. Embora ele saiba bem que é assim, não pode enganar os cidadãos. 
Em primeiro lugar, porque não existe qualquer intenção de “atravessar esta crise juntos”, da parte dos países que impõem a política das sansões e do medo. 
Em segundo lugar, porque já se sabe, há muito tempo, que não existe qualquer sentido no “enquanto europeus". O que existe é uma realidade bem diferente, em que um País, detentor da moeda e de um Império, a Alemanha, continua a sugar os países do Sul, lucrando com as suas dívidas soberanas, enquanto permite que os países do Norte, sejam alimentados, de acordo com a sua a perfeita anuência e cumplicidade. 
“Todos juntos”, com as empresas a pagar impostos na Alemanha.
“Todos juntos”, com a mais completa ineficácia da dita “união”, na questão dos refugiados.
“Todos juntos”, a olhar para a desgraça sanitéria e humanitária, na Espanha e na Itália e a não arriscar sequer um mínimo de apoio (que teve de vir de Cuba, da China, ...)
Todos juntos, a pagar para a NATO semear a Guerra, por toda a parte, com o dinheiro dos nossos impostos.

Impossível concordar, nem que seja, numa pequena parte
Como faremos a recuperação da economia do País, agarrados aos acordos e tratados, que impõem uma austeridade permanente e constante, ainda que atenuadas aqui e além, por tímidas (muito tímidas mesmo) medidas, como, no caso concreto do nosso País, a diminuição dos preços dos transportes, ou um modestíssimo aumento em salários e pensões, estes, segundo já por aí corre, ameaçados para 2021?
A resposta é por demais simples e directa: não faremos!
Nesta lógica de administração da situação presente, não faremos mesmo!
E o pior é que o Governo actual, é mestre em disfarçar a austeridade, sempre forte para com os mais fracos e, meigo que nem o cordeiro da páscoa, para com a banca, para com as grandes empresas. Este Governo é enfim, completamente benevolente para com o capital rentista, que sempre lhe exige a socialização dos prejuízos, ganhando sempre e mais uma vez.
É absolutamente miserável que nos venham de novo dizer que “podemos ficar descansados”. 
Não, não podemos ficar desancados. Estamos é cansados de tanta verborreia, tanta coisa gasta e suja, com um discurso mentiroso e cobarde. 

E como a Esquerda vê isto?
A pergunta é por demais actual e pertinente.
Enquanto uns ainda sonham com coronabonds e mutualização das dívidas, acreditando que ainda é possível reformar este estado de coisas, lamentando-se diariamente, na comunicação e nas redes sociais, desencantados com esta europa, outros vêm combatendo este inútil desencanto e esta postura dúbia e enganadora.
Entretanto, lá fora, as empresas pequenas e médias desesperam, em riscos de encerrar, sem possibilidade de reabrir, as famílias, fechadas em casa, algumas sem o mínimo de condições para tal, são cumprimentadas todos os dias por Costa e Marcelo, que se estão a portar muito bem...
Se uns e outros e muitos outros mais, pudessem ao menos falar, depressa destruiriam a retórica daqueles que governam sobretudo para o espectáculo e para as estatísticas. 
Por isso, é mesmo necessário um outro olhar sobre a situação. Um olhar isento de medo, sobretudo. Mas que também exigente, com alguma serenidade, alguma reflexão sobre os fracassos conhecidos. 
Não basta adquirir conhecimento. É preciso utilizá-lo para a acção. 

Um pensamento para ... qualquer coisa que mexa por aí!
Termino com algumas palavras, excerto de uma entrevista ao Jornal “El País”, do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, de 8 de Abril, sem qualquer comentário: “A introdução do euro dividiu a comunidade monetária em norte e sul, em vencedores e perdedores. A causa é que as diferenças estruturais entre as regiões econômicas nacionais não podem ser compensadas se não se avança no sentido da união política. Faltam válvulas, como por exemplo a mobilidade em um mercado de trabalho único ou um sistema de segurança social comum, e faltam competências europeias para uma política fiscal comum. A isso se acrescenta o modelo político neoliberal incorporado aos tratados europeus, que reforça mais ainda a dependência dos Estados nacionais em relação aos mercados globalizados. O elevado desemprego juvenil nos países do sul é um escândalo absurdo. A desigualdade aumentou em todos os nossos países e erodiu a coesão populacional. Os que conseguem se adaptar aderem ao modelo econômico liberal que orienta a ação em benefício próprio; entre os que se encontram em situação precária, espalha-se os medos regressivos e as reações de ira irracionais e autodestrutivas.”

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[1] https://www.tsf.pt/portugal/economia/apoio-europeu-vai-converter-se-em-austeridade-nao-podem-estar-descansados-12055572.html

UMA "UNIÃO" SEM FUTURO, "FAZ" UM PAÍS ANDAR À DERIVA


Tudo o que se dizer, explicar e depois, fazer, “...faz parte da preparação da opinião pública para o que aí vem.”
Nós, de facto, não sabemos o que aí vem.
Não temos certeza alguma, ainda devido ao facto de estarmos a viver uma crise, sem paralelo, nos aspectos, sanitário, humanitário, social, económico e político.
Tudo junto e com a velocidade própria dos tempos, os cidadãos podem ter algumas (ou muitas, até) legítimas dúvidas sobre o que virá a seguir.
Pode duvidar-se se as pessoas pensam muito nestas andanças da política, se estão preocupadas, ou simplesmente estão atónitas com o que se está a passar, ou mesmo se porventura aceitam ser meros espectadores, numa teia de acontecimentos em que não parecem envolvidos, a não ser pela inculcação de um medo, processo muito usual nos tempos de chumbo.

Sim, voltamos a viver tempos de chumbo.
Por um lado, pela constante agressão a modos e estilos de vida, o “ocidental orgulhoso” de que falava o jornalista Sena Santos [1] , porventura “...a cair de um pedestal onde se exibia”, pela “simples razão que nem foi capaz de prestar a devida ajuda a um dos seus, a saber, a Itália.
Por outro lado, é o próprio sistema, tão meticulosamente arquitectado para funcionar através da “instalação do medo”, a cair aos pedaços, ameaçado afinal por dentro, como deixam antever as sucessivas reuniões das instâncias da dita “união europeia”, nomeadamente daquela estrutura que apareceu um dia do nada, sem qualquer existência legal, sequer sufragada por alguém, apenas imposta pelo directório financeiro, o auto-designado “eurogrupo”.
Porquê então, preparar a opinião pública para o que aí vem?
Porque assim o exige a situação.
Reparemos como o bloquista José Gusmão analisa, a 8 de Abril, a questão dos eurobonds: “Temos impasse no Eurogrupo sobre condicionalidade (austeridade) e coronabonds, com a Itália a liderar a oposição à proposta de Centeno e da Alemanha. Ou seja, na reunião dos Ministros das Finanças, temos um português a representar a Alemanha e um italiano a representar Portugal.”. E, continuando no BE, as afirmações de Marisa Matias: “A reedição do eixo franco-alemão só aceita empréstimos com a condição de mais austeridade. Suavizaram as palavras, mas mantêm as exigências que provocaram o colapso no nosso país. Lembramo-nos bem do que passámos com as últimas condições impostas e não podemos voltar a aceitá-lo.”
E não é por acaso que se transcrevem estas afirmações. Na realidade, num momento em que a Comissão está também a discutir a possibilidade de reforçar a capacidade do Quadro Financeiro Plurianual, o orçamento comunitário para os anos de 2021 a 2027, pode parecer estranho, à primeira vista, que os citados dirigentes não sejam capazes de entender o fracasso completo e a inevitabilidade de se conseguir sequer o tal acordo em que falava de “mecanismos financeiros inovadores”.
Não é com contributos titubeantes, ora quero o euro, ora não, ora quero a "união unida", ou não, ora contributo para uma saída à Esquerda, ora nem por isso. Parece quase a posição do Partido Socialista, que vocifera impropérios contra um funcionário holandês, mas aceita chefiar um eurogrupo, que dita (sempre) tudo o que é pior para o Estado português, fazendo antever já uma austeridade necessária, para dar saída “honrosa” a mais uma machadada na dívida pública, a seguir à pandemia.
Não, não pode ser assim.
Não é com posições como as que vão referidas, que virá alguma solução decente para o País.
Não é desta forma que a Esquerda pode preparar, como lhe compete, uma RESPOSTA.
Porque tem que haver uma resposta à Esquerda.
Porque a resposta da Direita, nem sequer existe, passando pela eterna submissão da social-democracia aos “populares europeus” e a única solução que parecem apontar é para a actuação da Presidente da Comissão, que faz lembrar aqueles xerifes de um qualquer filme rasca americano, que apenas mandam no povoado, enquanto os homens do dinheiro os apoiam.
Há porém uma outra resposta que se perfila. E não é certamente a melhor, porque estribada que está no populismo mais rasteiro do “contra o sistema de corruptos”, pretende afinal encontrar um qualquer salvini (perdão, salvador) que configure um projecto totalitário, de negação de direitos, de xenofobia, de racismo e avesso a toda e qualquer solidariedade internacional.
Por isso, é urgente, mudar as agulhas.
Se a Esquerda pretender ter uma resposta, ela só será possível, através da preparação de um Programa de Acção conjunto.
Porque o momento o exige, já houve outros assim, na História mais ou menos recente. Este é seguramente um deles.
Mostrar aos cidadãos que é possível viver sem euro é libertar as consciências de uma pesada herança, é ajudar a erradicar o medo e a submissão.
Mostrar aos cidadãos que o País não está a fazer rigorosamente nada dentro da dita “união”, a não ser a constante e, cada vez maior, humilhação.
Mostrar aos cidadãos que não é possível investir a sério na sua Escola Pública, no seu Serviço Nacional de Saúde, nos seus transportes, na cultura (na sua Cultura), nem pensar em qualquer melhoria das suas condições de vida dignas e devidas, em pleno século 21. A propósito, mostrar aos cidadãos o quanto significa o seu magro salário, basta a comparação com Espanha e França.
Mostrar aos cidadãos deste País, que é o nosso, e está a ser espezinhado por políticas que, mais dia menos dia, irão trazer mais pobreza e mais exclusão.
Porque, em qualquer crise, sabemos quem ganha sempre. Os trabalhadores, eternamente dependentes, vão pagando sempre e cada vez mais, à banca, às grandes empresas, que afinal vivem e engordam à custa das rendas, que são pagas com os impostos que pagamos.
Uma teia infinita, que é preciso romper.
À Direita, apenas o abismo, dar um passo em frente e afundamento completo. Quem assim pensa, está sempre seguro, porque não arrisca nada, apenas se alimenta com os fracassos de um sistema. Porque depende dele para sobreviver. E sobrevive sempre, indo pagar impostos à Holanda. Porque afinal, o tal sistema lhe permite fazer isso. E sempre, mais alguma coisa... 
A Esquerda tem hoje uma responsabilidade histórica. Em Portugal, as pessoas, organizações e partidos políticos que se reclamam de Esquerda, têm que assumir de vez essa responsabilidade, num Programa único, de resistência e, porque não dizê-lo mesmo assim, de salvação nacional.
Poderá acontecer, como diria Calvino [2], que “O desejo de um futuro a conquistar é garantido pela memória de um passado perdido
Perdemos um passado?
Perdemos oportunidades?
Perdemos causas, confundindo-nos com alguns efeitos?
Possivelmente tudo junto, numa resposta imediata, sem pensar muito.
Pois agora, o tempo é de pensar mesmo na mudança.
Este é mesmo, O MOMENTO!

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[1] “Opinião”, em: https://24.sapo.pt/…/a-licao-que-o-virus-nos-esta-a-dar-a-n…
[2] “Porquê Ler os Clássicos”, (1991), Italo Calvino, pág. 17

09 abril 2020

9 DE ABRIL - 102 ANOS DA BATALHA DE LA LYS

(que ocorreu na região da Flandres, na Bélgica)

[A imagem é da Exposição de 2018; o desdobrável tem a seguinte citação do “Livro do Desassossego:
As guerras e as revoluções — há sempre uma ou outra em curso chegam, na leitura dos seus efeitos, a causar não horror mas tédio. Não é a crueldade de todos aqueles mortos e feridos, o sacrifício de todos os que morrem batendo-se, ou são mortos sem que se batam, que pesa duramente na alma: é a estupidez que sacrifica vidas e haveres a qualquer coisa inevitavelmente inútil. Todos os ideais e todas as ambições são um desvairo de comadres homens. Não há́ império que valha que por ele se parta uma boneca de criança. Não há́ ideal que mereça o sacrifício de um comboio de lata. Que império é útil ou que ideal profícuo? Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma – variável, mas inaperfeiçoável, oscilante, mas improgressiva.” 
Bernardo Soares]

Neste dia 9 de Abril, assinala-se o 102º aniversário daquela batalha, na I Guerra Mundial.
Que causou 400 baixas às tropas portuguesas. 
Foi nessa batalha, que um soldado português, de seu nome, Aníbal Augusto Milhais, garantiu, sozinho, a retirada de parte das forças portuguesas e escocesas. 
Mais conhecido e, recentemente evocado em filme, o Soldado Milhões, chegou a ser um símbolo para a I República portuguesa.

Contudo, na realidade, esta batalha foi um desastre militar português, sob qualquer ponto de vista. É essa a perspectiva do historiador e jornalista António Louçã (*). Ele afirma que, “Na verdade, nem de uma batalha propriamente dita se tratou. Porque uma batalha é um confronto militar em que há dois lados, com tropas que obedecem aos comandos respetivos. E neste caso, a tropa portuguesa não obedeceu ao seu comando, nem o seu comando tinha ordens para dar nem pôde dar-lhe.” 
A LA LYS portuguesa, o 9 de abril, com nichos de resistência até o dia 10, foi um massacre. Houve sim uma batalha de LA LYS, mas entre alemães e ingleses, que durou três semanas. 

No Brasil, é comemorado neste dia, Dia Nacional do Aço 

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(*) o historiador e jornalista António Louçã realizou um documentário onde mostra que a tão evocada batalha, na verdade, não existiu: o ataque alemão deixou a tropa portuguesa sem comando, rendendo-se em massa.

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07 abril 2020

PEÇO DESDE JÁ DESCULPA PELO TEOR DESTA MENSAGEM

(aparentemente controverso)    


Com todo respeito que me possam merecer as senhoras Ministra da Saúde e Directora-Geral da Saúde, considero que se está a entrar num exagero colectivo, no que reporta à sua actuação à frente das respectivas administrações, Ministério e Direcção-Geral.
Noto que, após esta entrevista da Alexandra Tavares-Teles (dia 31 de Março), se multiplicam as mensagens e apoio, por vezes, em meu entender, perfeitamente desadequados. Expressões como as que Alexandra utiliza no seu discurso, de que posso destacar "...obrigadas à verdade e a evitar a disseminação do pânico, assumem a responsabilidade tamanha que lhes caiu em cima, sabendo que nunca mais serão as mesmas. Corredoras de fundo, a ministra e a diretora-geral da Saúde vivem dias sem fim - horas e horas em reuniões, conferências de imprensa, muito cansaço e preocupação."
A deificação das duas Senhoras, não é favorável à situação presente, nem a elas mesmas.

NÃO NOS PODEMOS DESVIAR, NEM ESQUECER DO ESSENCIAL. 
De que destaco, por exemplo, aquela que deveria ter sido a primeira medida do Ministério da Saúde e do Governo da República: A REQUISIÇÃO IMEDIATA DE TODAS CAMAS DISPONÍVEIS DOS HOSPITAIS PRIVADOS. 
Essa seria a primeira obrigação de um Governo que quis governar em excepção, mas se revelou (e se revela) fraco, fraquinho, sempre que há que tomar medidas imediatas, que dizem respeito a interesses privados. 
Aliás, ao que parece, o Ministério e o Governo andaram a negociar, pelo menos 2 semanas, com dois hospitais privados, enquanto pessoas são infectadas e algumas morrem mesmo.
A negociação a que me refiro foi feita com os Hospitais Trofa Saúde (de Famalicão) e com o Hospital do SAMS. De notar que estes 2 hospitais fecharam portas naquela altura, enviando os seus doentes, para o SNS!

Podem dizer o que disserem. 
Podem tornar as 2 Senhoras as madres teresas esta época. Isso é, no meu entender, enganar as pessoas. É um tremendo desvio da opinião pública, para ocultar e esquecer o essencial. 
E O ESSENCIAL, NÃO ESTÁ A SER FEITO, NOMEADAMENTE NO MINISTÉRIO DA SAÚDE.
Este Ministério cumpre o seu papel. As e os seus responsáveis não fazem mais que a sua obrigação cidadã. Aceitaram os cargos no Governo de livre vontade. 
Elogiar o seu papel? Sim, com certeza, quando necessário.
Não, sem qualquer dúvida NÃO, neste caso: esta “cena” dos 2 hospitais privados, é simplesmente inadmissível e isto passa despercebido à maioria dos cidadãos. 
Cidadãos que devem também saber, já agora, o que o Ministério da Saúde o Governo realmente fizeram: foi “pedir ajuda” aquelas unidades hospitalares.
PEDIR AJUDA???

Entretanto há centenas, milhares de cidadãos deste País, do nosso País, que já sofreram na pele, sem qualquer “pedido de ajuda”.
Quantos cidadãos deste meu País, poderiam alguma vez descrever o “dia perfeito” da senhora Directora da Saúde, “Acordar sem dores, tomar longamente um bom pequeno-almoço com café, pão, iogurtes, fazer uma caminhada, visitar a mãe, tratar das plantas e ler...”?
QUANTOS CIDADÃOS DESTE MEU PAÍS NÃO MERECIAM SER ENTREVISTADOS, PARA LHES DIZER REALMENTE O QUE LHES VAI NA ALMA?
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A ENTREVISTA

OS DIÁRIOS DE GUERRA DE GRAÇA E MARTA
31/Março/2020
Alexandra Tavares-Teles

A lupa com que as olhamos procura em cada palavra e em cada gesto sinais de insegurança, hesitação ou desespero. Ou, então, de conforto e milagre. Há semanas em julgamento público, Marta Temido e Graça Freitas, os rostos da resposta à pandemia, obrigadas à verdade e a evitar a disseminação do pânico, assumem a responsabilidade tamanha que lhes caiu em cima, sabendo que nunca mais serão as mesmas. Corredoras de fundo, a ministra e a diretora-geral da Saúde vivem dias sem fim - horas e horas em reuniões, conferências de imprensa, muito cansaço e preocupação. Com chocolates, lágrimas e flores à mistura.

Sábado, 21 de março. Pela primeira vez em muitos dias, a cientista Graça Freitas tem uma hora disponível para as orquídeas de que tanto gosta. “Há semanas que não regava as plantas, coitadas, estão a ficar amarelas. Depois do almoço estive a cortar as folhas velhas”, confidencia, ao telefone, a diretora-geral da Saúde. O boletim epidemiológico das últimas 24 horas revela números crescentes. Em Portugal, o dobro das mortes da véspera – de seis para 12 – e mais 260 infetados, num total de 1 280. Nesse dia, o Mundo conta, pelo menos, 12 725 perdas humanas e 291 mil pessoas atacadas pelo vírus que lhe tira o sossego e o sono. Todas as noites recomeça “Memórias de um Gato Viajante”, de Hiro Arikawa, leitura para dias de preocupação, propositadamente leve. “Mesmo assim” – diz – “ainda não consegui sair da página dez. Esqueço-me do que já li.”

Dorme da uma às cinco e meia da manhã. Na mesa de cabeceira, deixa os dois telemóveis, que nunca desliga. Quando dão sinal fora de horas, seguramente uma urgência, tenta não ceder ao sobressalto, mas vive em disponibilidade permanente para a função que desempenha, “que é apenas aquilo que se espera de um bom profissional”. Quer deixar clara a ideia. “Não estou a fazer nada de extraordinário.”

Dia seguinte, domingo. Portugal soma 14 mortos, são confirmados mais 320 contágios. É de manhã cedo e já Marta Temido está no Ministério. Na ausência de fins de semana, chega ao gabinete antes das 8 horas sem saber quando poderá regressar a casa, percurso que agora, contra o que é hábito, não pode ser feito a pé. Os telemóveis, sempre prontos – dezenas de telefonemas e mensagens de apoio, mas também propostas de negócio oportunistas e impensáveis -, acompanham-na para onde quer que vá. “Já dei com eles dentro da cama.” Desligar é verbo proibido.

A resistência
Ao telefone, da voz firme da ministra da Saúde não transparecem estados de alma. “Como estou eu? Deixe cá ver. Estou bem. Preocupada, mas a resistir, sempre, e preparada para o que é preciso fazer todos os dias.”

Dentro dos dias, momentos “muito, muito difíceis”. Alguns deles com dura carga simbólica – a primeira confirmação de contágio, no seu quadragésimo sexto aniversário, vivido longe da família e dos amigos. A primeira morte (Mário Veríssimo, de 80 anos). A assunção do estado de emergência, decretada a 19 de março. “Foi duro ouvir essa declaração. Nunca pensei que um dia passaria por tal.”
Difícil tem sido também “a sensação de quase impotência” perante a escassez no mercado de material essencial, falta que tem obrigado à procura de artigos “em lugares do Globo que nem sabíamos que existiam”.

Quem a tem acompanhado de perto descreve a segunda reunião do Conselho Nacional de Saúde Pública, até agora a mais complicada das reuniões. “Muito descontrolo e confusão, ninguém se entendeu. Nunca a vi tão desesperada.” Ela, que no primeiro encontro do Conselho “esteve perfeita a coordenar e a resumir a conclusão em cinco pontos, numa ótima síntese”.

“Como estou eu? Deixe cá ver. Estou bem. Preocupada, mas a resistir, sempre, e preparada para o que é preciso fazer todos os dias”
Marta Temido (Ministra da Saúde)
Também Graça Freitas não esconde preocupação e cansaço. Porém, tranquila. “Encontro-me a viver uma época única nas nossas vidas e a fazer o melhor que posso, e que sei, a parte pequenina que me compete.”

Quando a China identificou, em janeiro, cadeias de transmissão quadrinárias (um doente pode infetar até quatro pessoas), tomou consciência do drama exponencial que ia chegar. “No entanto, nunca pensei que fosse tão duro e atingisse tais proporções sanitárias, económicas e sociais.”

Os primeiros receios de Marta Temido datam da mesma altura. Se tivesse de escrever o diário da crise, começaria pelas notícias que chegaram da China, em dezembro, vistas pela ministra já com temor. “Sabia que ia chegar uma pandemia, e que seria apanhada no quadro das minhas responsabilidades.”


Duras quarentenas familiares
No dia 16 de fevereiro, no âmbito de um perfil para a “Notícias Magazine” e ainda sem registo de sintomas da Covid-19 em Portugal, a diretora-geral da Saúde descrevia um dia perfeito. “Acordar sem dores, tomar longamente um bom pequeno-almoço com café, pão, iogurtes, fazer uma caminhada, visitar a mãe, tratar das plantas e ler. Ouvir Jorge Palma. O que eu gosto de ‘Estrela do Mar’”, dizia.

Da música tem andado arredada. Refeições longas são um luxo nos dias de hoje e, sobretudo, estão proibidas as visitas à mãe. “Tem quase 90 anos, e em quarentena mal soubemos que um familiar nosso esteve em contacto com um doente.” Também as netas, logo que a escola que frequentam registou a presença do vírus, cumpriram o confinamento obrigatório.

Em casa, o marido assegura a logística. “Com muita competência, devo dizer.” Preocupada com o tempo que o companheiro passa nas filas, vai optar pela entrega das compras ao domicílio. A alimentação é simples. “Sem a senhora que nos ajuda nos trabalhos domésticos, tenho feito saladas, com feijão encarnado ou abacate, e uns grelhados.”

Em casa de Marta Temido é igualmente o elemento masculino quem se ocupa das compras. As visitas aos pais e à cidade onde nasceu, Coimbra, estão interrompidas há muitas semanas. Como todos, teme pelos seus. Pela irmã e a pela enteada, médicas do Serviço Nacional de Saúde, que não vê há muito. “Só contacto com o meu marido e com as pessoas do Ministério”, garante. “Um gabinete forte, gente amiga e solidária, que são quem me mantém.”

Nos últimos dias, as reuniões decorrem em videoconferência. Com exceção dos briefings diários, que juntam vários agentes (Infarmed, INSA – Instituto Ricardo Jorge, ou INEM) no Ministério. Cumprindo o protocolo: desinfeção anterior e posterior do espaço e distância adequada. “Há muito tempo que não abraço nem beijo. E que tento não falar de frente para as pessoas”, diz Graça Freitas, recordando os comentários irónicos quando há umas semanas pediu pela primeira vez distanciamento social.

Críticas, chocolates, lágrimas e flores
Está preparada para as críticas, ainda que sejam cruéis. “E algumas são. Vindas de alguns afetam nada, de outros, um pouco.” Dá um exemplo: “Fui muito criticada por ter dito na Assembleia da República que as pessoas, para evitar açambarcamento, podiam recorrer à horta de um amigo. Como se quem vive num apartamento não pudesse ter um amigo com horta. Pois bem, mandaram-me agora a notícia de que alguém arranjou maneira de distribuir cabazes de frutícolas e hortícolas, chamando ao projeto a horta do amigo”. Não cultiva ilusões. “Sei que há dias em que as pessoas vão gostar mais de mim e outros em que vão gostar menos.” Na vida, passou por demoradas adversidades. “Nem tudo são picos, nem tudo são vales.” Assume a resiliência. “É também demasiado condescendente com quem a maltrata”, acrescenta o professor catedrático e amigo Jorge Torgal. Graça Freitas sorri. “Santa não sou.” Os vizinhos deixam-lhe mimos na porta. Uma caixa de chocolates, bilhetes gratos, ramos de flores.

Há sensivelmente um ano, em entrevista à NM, Temido dizia: “Quem pensa que a ministra da Saúde fica fragilizada por aquilo que se escreve sobre ela, engana-se. Não sou surda nem sou cega. Como pessoa, sinto-me. Mas, como ministra, o que dizem de mim não me faz mossa”.

O que dela se diz nas redes sociais, que não frequenta, chega-lhe através dos assessores e da irmã. “Neste momento só atendo a críticas construtivas no sentido de ver em que é que podemos melhorar. Este não é tempo para mágoas.” Faz questão de agradecer “o enorme apoio dos profissionais de saúde, da Ordem dos Médicos e da dos Enfermeiros. O apoio dos veterinários e dos biólogos”.

Destes dias, guarda o gesto que mais a marcou: um e-mail reenviado por um amigo, em que uma médica do Hospital de São João, no Porto, descreve a reação de um doente no momento da alta. “As lágrimas de um homem com idade avançada, até ali convencido de que não iria sobreviver.”

Essa médica acrescenta que não consegue deixar de abraçar a família quando chega a casa. Abraços: “A senhora ministra da Presidência (Mariana Vieira da Silva) está sempre a lembrar que um dia voltarão a ser possíveis”.

Pior do que a guerra
Graça Freitas fala em “maratona no Evereste”. Cautelosa e pragmática, promete fôlego: “Como sociedade ainda estamos na fase inicial. Chegará o tempo de ficarmos cansados das restrições sociais e aí não podemos desistir. Uns dias estaremos mais cansados e desanimados, mas temos de reagir para ultrapassar esta prova”. No final, haverá “muito a aprender com o que foi este tempo”.

Quem alguma vez pensou que andar na rua era uma coisa extraordinária?”, pergunta Marta Temido, para concluir: “Depois disto não serei a mesma pessoa”. O vírus, muito competente, coloca-lhe enorme responsabilidade nos ombros. “Calhou-me este contexto, vamos a isso. A vida é o que é.”

Rejeita cedências à adversidade ou à euforia. Aos que comparam a pandemia a uma guerra, responde que não. Que é pior. “Uma guerra envolve a vontade humana. Aqui é a natureza a confrontar-nos com um imenso desafio.” Não sendo crente, lembra, a propósito dos tempos que vive: “Deus perdoa sempre, o homem às vezes, a natureza nunca. Não estou a dizer que estamos perante um castigo, mas há uma emergência da natureza em que se misturam clima e ambiente. Se alguém tinha dúvidas de que isto anda tudo ligado, penso que agora as desfez”.

Saber ouvir
A ministra não esconde – é dura e muito teimosa. Assume-se “pespineta” e resoluta, mas humilde e capaz de ouvir. Os críticos, que em tempos negavam essa capacidade, agora concordam. “Fartei-me de a criticar severamente, mas, reconheço, tenho gostado da atitude. Parece-me serena, muito sensata, preocupada em fazer as perguntas certas para decidir com segurança.” Filipe Froes, responsável pelo gabinete de crise da Ordem dos Médicos, dedicado à Covid-19, vai mais longe: “Tenho encontrado uma pessoa empenhada e determinada em vencer isto”. Para o pneumologista, “isto” é “o teste de algodão de um país inteiro”. E recorda que é em momentos de crise, como esta, que temos a “noção real da importância de um Serviço Nacional de Saúde forte”.

Ana Rita Cavaco, bastonária da Ordem dos Enfermeiros (OE), vê a ministra “mais tranquila”. Elogia “o esforço, bem-sucedido, no sentido de transmitir calma”. Reconhece a aparência cansada, mas pergunta “quem não estaria?”. Depois da tensão entre o Ministério e a OE, “é com muito agrado” que toma nota da gratidão da ministra.

Na linha da frente, há quem encontre uma Marta Temido mais cautelosa na gestão da imagem. “Resguarda-se, tenta não dar as notícias com o sorriso rasgado habitual, ainda que esse sorriso seja uma defesa perante o stresse.”

Graça Freitas autodefine-se em duas palavras: “Absolutamente normal”. Discordam amigos e subordinados. “Interessada, aplicada, estudiosa, rigorosa.” O médico e especialista em Saúde Pública Jorge Torgal, que foi quem a convidou para a DGS em finais dos anos 1990, tem estado em contacto com a amiga. “Ambas têm feito um papel muito importante. De tal maneira que andam com um ar muito cansado. Já o disse à Graça. Mas a verdade é que, quando começa a falar, o cansaço desaparece. ”Como vai a canseira?”, perguntei-lhe há dias. Respondeu-me que “o desafio é maior do que o cansaço.” O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, normalmente parco em elogios, salientava à NM, há pouco mais de um mês, “a serenidade e a confiança que transmite sempre que fala” e o trabalho “excecional” na DGS.

Podia estar mais bem-aconselhada, defendem algumas vozes. “Graça é das pessoas que depressa se torna a colaboradora ideal”, sublinha Jorge Torgal. Que o diga também Francisco George, antigo diretor-geral, que teve em Graça Freitas, diz Torgal, “o braço direito e o esquerdo”.

“Ambas têm feito um papel muito importante. De tal maneira que andam com um ar muito cansado. Já o disse à Graça. Mas a verdade é que, quando começa a falar, o cansaço desaparece”
Jorge Torgal (Médico, professor catedrático e especialista em Saúde Pública)
Francisco George não fala sobre a mulher que lhe sucedeu no cargo. Mas foi dar-lhe um abraço. “Nestes dias, visitei-a uma única vez. Fui à DGS abraçá-la e deixar uma mensagem de força.” Sobre Marta Temido, garante que não falta ânimo à amiga. “Ao longo deste processo, entre conselhos de ministros e outras reuniões demoradíssimas, que por vezes aparentam não ter fim, em bom estilo português, nunca lhe ouvi qualquer desabafo desanimador. Eu próprio fico espantado.” Quando lhe diz “vamos para frente”, recebe por resposta “não me falta energia”.

Críticas? “Estamos num país onde todos criticam todos. Mas nesta fase, [a Marta] recebe-as com um sorriso e o sentido de humor que nunca perdeu.”

Salgadinhos e batatas fritas
Reuniões matinais longas, conselhos de ministros de horas e horas, conferências de imprensa diárias, dezenas de e-mails a exigirem resposta rápida. Acima de tudo, o vírus competente, de contágio fácil. “Basta olhar para elas para ver que andam cansadas. Estão até a ficar magríssimas”, comenta Filipe Froes, dando-se a si como exemplo: “Ainda ontem regressei a casa às dez da noite e fui diretamente para a cama. Para acordar com igual cansaço, até porque levo logo com centenas de e-mails e mensagens. Imagino o estado de fadiga das duas”. Este é provavelmente, conclui, “o maior desafio da vida pessoal e profissional de todos os envolvidos e acima deles de Graça Freitas e Marta Temido, que têm a coordenação desta luta”.

A diretora-geral da Saúde confirma. “Já emagreci cinco a seis quilos desde o coronavírus. Mas como sou muito pragmática e sei que tenho de estar fisicamente bem, nesta semana incluí na dieta produtos que habitualmente não como.” Batatas fritas, por exemplo: “E que bem me souberam”.
Marta Temido tem dúvidas: “Sem balança em casa e com o ginásio fechado, não tenho como pesar-me. Cansada, sim, mais magra não sei. Tenho comido mal, não faço exercício físico, portanto, não sei”. Vários cafés, sobretudo durante a manhã. “E muitos salgadinhos, muitos, para enganar os nervos”, confessa a ministra.

Já emagreci cinco a seis quilos. Mas, como sei que tenho de estar fisicamente bem, incluí na dieta produtos que habitualmente não como
Graça Freitas (Diretora-geral da Saúde)
Não somos heroínas, nem mártires, nem supermulheres, nem magas”, dizem ambas. Há semanas em julgamento público, Marta Temido e Graça Freitas, os rostos da resposta à pandemia, obrigadas à verdade e a evitar a disseminação do pânico, assumem a responsabilidade tamanha que lhes caiu em cima, sabendo que nunca mais serão as mesmas. Corredoras de fundo, vivem dias sem fim. Duas mulheres pequenas, aparentemente frágeis, que fazem parte do dia a dia dos portugueses. “São pequenas, mas agigantam-se. Foi o que vi nas reuniões em que estive com ambas. O verdadeiro tamanho delas não é físico.” O elogio vem de quem tem acompanhado o trabalho de ambas nos últimos tempos. E tem resposta: “Estamos a fazer apenas o nosso trabalho”.

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