rio torto

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23 janeiro 2021

 PLEASE, COME TALK TO ME




O mundo de cada um é os olhos que tem
José Saramago, Memorial do Convento, 274 (1982)

 

O meu é hoje, interdito e circunscrito, esperando melhores sortes. Aproveito o ensejo, meu Caro Amigo, “...o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”. Sim, “...Aqui na terra 'tão jogando futebol/ Tem ...muito choro.../Uns dias chove, noutros dias bate sol”. Falta-nos, é verdade, samba e o rock'n'roll. Falta-nos também a morna, a salsa e o eterno tango, num corridinho de movimentos perpétuos, uma dança. A menina dança? 

Sinto falta de inteligência, sem ser artificial. E de sabedoria também. Recorro ao Eco, ao Saramago, ao Torga, sei lá a quantos mais. Calvino e Mann, talvez. Os Poetas, quiçá. Yeats e a sua sabedoria e rebeldia, “...A sabedoria é uma borboleta/Não uma sombria ave de rapina”. Ou esta, “Oh, há sabedoria, sim,/Naquilo que os sábios diziam;/Mas entra essa corpo por instantes/E deixa passar a tua cabeça/Até que eu tenha contado aos sábios/Onde acha o homem o seu consolo”.

Podes falar comigo?”, diz e canta o Peter, que tem sabedoria e inteligência, coisa que parece não abundar por aí. “…Come down, come talk to me/In the swirling curling storm of desire /Unuttered words hold fast/With reptile tongue, the lightning lashes/Towers built to last/Darkness creeps in like a thief

O medo do escuro, que falta me faz o contacto, a cena do abraço, que estreita o que há de melhor em nós. Rir, dançar e recusar o óbvio e o redundante. Talvez desobedecer. O sentido da obediência traduz-se, segundo Frédéric Gros, em uma “...relação que forças a agir segundo a vontade doe um outro, de modo que, quando ajo permaneço passivo”.

No dia em que nos “convidam” a alguma “passividade”, saibamos desobedecer, sejamos (ainda que um pouco) insubmissos, o dom da eterna liberdade de pensar, agir e intervir na comunidade. Manda a sanidade mental, a inteligência.

Eu quero apenas ser cruel naturalmente/E descobrir onde o mal nasce e destruir sua semente”.

O canto doloso dos profetas, ditos salvadores, enleado na teia “enternecedora” da obediência, não é para aqui chamado. Deixa-me rir, “Pois é, pois é/Há quem viva escondido a vida inteira/Domingo sabe de cor o que vai dizer/Segunda-feira”.

É já amanhã!

 

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Contribuições, ainda que involuntárias, de José Saramago, Chico Buarque de Holanda, Peter Gabriel, William Butler Yeats, Frédéric Gros, Ivan Lins e Jorge Palma.

17 janeiro 2021

 VOTO JOÃO FERREIRA!


 
















A última coisa que esperaríamos confinar seria mesmo a esperança.

 

Por isso, hoje, no dia em que se antecipa o voto nas eleições presidenciais, deixo aqui o meu apoio ao JOÃO FERREIRA.

 

Porque dele espero, a defesa, o aprofundamento e ampliação do regime democrático consagrado na Constituição, como se pode ler na declaração de princípios da sua candidatura.

Porque considero fundamental combater o medo, que como ele afirma, “...é exacerbado e manipulado para restringir direitos e liberdades. A pretexto do combate ao vírus e da garantia de uma alegada “segurança”, impuseram-nos estados de emergência que nada tinham a ver com a observância de normas que a população já cumpria (e continuou a cumprir depois de abandonados), mas que visavam restringir o protesto e a luta, contra os abusos, os aproveitamentos, o oportunismo dos que querem continuar a enriquecer à custa da exploração dos trabalhadores e do saque dos recursos do Estado.”

Ainda, as suas palavras: “...Num mundo onde se tenha acabado a esperança, como o retratou Saramago no seu “Ensaio sobre a cegueira”, deixamos de olhar para o futuro, deixamos de o ver. “A cegueira também é isto”, dizia.”

 

A defesa da Constituição que, no seu Art.1º, consagra o nosso País, como uma “...República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.”, tem no JOÃO FERREIRA, a melhor e mais correcta interpretação

É na luta por uma Esquerda que terá a verdadeira maioria, quando souber assumir a defesa do País, enquanto República Soberana, quando denunciar eficazmente as políticas económicas de empobrecimento e miséria, mascaradas de soluções tecnocratas, quando apresentar soluções credíveis, entendíveis e viáveis, que deixem sem resposta os falsos profetas e aqueles que querem hoje falar em nome do povo.

 

Por isso e pela “...força que há em todos, em cada um de nós”, o meu voto e o meu apelo: Vota JOÃO FERREIRA!

 

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Nota: todas as citações são extraídas da Declaração de Candidatura de João Ferreira, disponível em: https://www.joaoferreira2021.pt/declaracao-de-candidatura

 

 

15 dezembro 2020

O CLUBE DAS PALAVRAS PERDIDAS
(para o meu Amigo Fernando Alves)


 

 




















Esta escrita, mais ou menos errante, vem do fundo do coração, num impulso momentâneo, incontido desejo de soltar palavras, agarrando particularmente as que se perdem.

O Fernando é o Homem da rádio, que nos inquieta há tanto tempo, como os seus “Sinais” e que mais recentemente inventou, para nós, uma “Rede Social”, onde as malhas, apertadas ou largas, são tecidas com mãos de veludo, na passagem das horas.

Uma maravilha de desassossego.

Aqui se fala com o João Pimentel[i], e da sua obra “Cancioneiro de Rua[ii], recentemente editado. O João é livreiro, músico e professor de história. Um livreiro esquisito, “eu gosto é de comprar livros e não de os vender”, mas é, como professor que gosta de se dizer, “é sinal de que estou sempre a aprender”.

Não se poupam as palavras, assim não há risco de se perderem. 

Mas, se perdidas forem, lá está o Clube para as resgatar. Aqui não se fala de transição digital, mas ganha-se uma nova dimensão ao ouvir a Ana cachuchar e assim se “transita” para aquela Lisboa, que se calhar, não passa de um mito, existe ainda? 

Resgatamos “publicista” e “cacharolete”, procurem se faz favor, elas andam por aí escondidas. Lembra-se o “sonoro”, e vem á liça talvez o Teodoro, que era convidado, na cantiga, a não ir lá, “Se fores ao sonoro não gostas de mim...”[iii].

Irrompendo pela sala dentro, da livraria que fecha, em Lisboa, uma facada na cultura, são já tantas que não têm conta, na voragem impune, na fúria de um turismo sem alma, nem virtude, possivelmente o outro diria, é sinal dos tempos, estúpido!

Devera alguém escrever uma cantiga como a outra, pedindo ao amante para não ir, por exemplo, ao centro comercial, podia ser que desse resultado e que não se perdesse o tempo das palavras, de uma cultura verdadeira, que para o ser, diz o João, implica educação.

Já lá dizia Pessoa, “Quem faz quadras/Portuguesas comunga a alma
do povo, humildemente de todos/nós e errante dentro de si próprio
”. O Fernando soltou as palavras do João, que afinal acabam por ser de todos nós. Possivelmente deste Povo.

Pensando bem, vou alistar-me no Clube das Palavras Perdidas, pode ser que me encontre...

 


[i] João Pimentel, escreveu música para teatro e cinema, e participou em diversas gravações como guitarrista e arranjador, acompanhou, nos anos 70, grandes nomes da música popular portuguesa, como, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Francisco Fanhais, Francisco Naia, Pedro Barroso e Manuel Freire,

[ii] Edição Fabula Urbis, propriedade do Autor, capa e ilustrações de Pierre Pratt, (2020). O trabalho é uma contribuição para a divulgação de cantigas de rua dos séculos XVII e XIX, interpretadas pela soprano Ana Baptista.

[iii] O tema “Teodoro não vás ao sonoro”, foi escrito e deitado em 1932, por Fernando Carriedo, cantado por Corina Freire, com orquestração de Resende Dias e edição da Sassetti, e fez parte da Revista “O Mexilhão”, em 1932. 

 

 

 

11 dezembro 2020

OS DIREITOS
OS DIREITOS HUMANOS – lembrados a 10 Dezembro


 





















Haverá porventura melhor dia para recordar o que se passa à nossa volta?

Bem perto de nós, os ataques contra os DIREITOS, sucedem-se a um ritmo alucinante. 

Falamos do que sabemos, do que ouvimos dizer, do que sabemos que acontece, aqui e ali, pasmamos como é possível, mas consentimos, sempre consensualizamos, sempre desmerecemos, por omissão, ou simplesmente por não ser directamente connosco.

Claro que ficamos perplexos, ao saber do cidadão ucraniano, assassinado pelo Estado português e que foram precisos 9 meses para a responsável se demitir e, ainda por cima, saber que o fez para poupar um ministro.

Claro que ficamos a saber um pouco do que se passa nessa dita “união europeia”, na forma abjecta como trata pessoas, no campo de refugiados da ilha de Lesbos, um campo, com capacidade para 3 mil pessoas, onde viviam cerca de 13 mil (!), em condições precárias, num espaço sobrelotado. Soubemos um pouco mais, por força de uma catástrofe, a 9 de Setembro, um incêndio de grandes dimensões, que acabou por trazer, para o mundo inteiro, as deploráveis condições de vida que os “campeões europeus” dos DIREITOS humanos criaram dentro do “espaço europeu”, o tal que quer ser um exemplo, sabe-se lá para quem.

 

Sabemos tanto e tão pouco que acabamos por banalizar o mais sagrado dos DIREITOS, o direito à vida, em segurança e com dignidade. Mas banalizamos mais. Porque aceitamos as desigualdades, as injustiças, a exclusão. Aceitamos que, bem perto de nós, existam quase 2 milhões de pessoas que vivem abaixo dos limiares mínimos de subsistência. Aceitamos que nos falem de coisas como, por exemplo, a “transição digital”, quando alguns dos nossos concidadãos ainda não “transitaram” da sua situação de miséria potencial.

 

No futuro, quando ouvirmos falar, de coisas como, por exemplo, o aumento do salário de um trabalhador poder significar desemprego para outro trabalhador, e não formos capazes de soltar um grito de revolta, estamos a contribuir para um futuro negro de dependência e de submissão.

E, para que esse futuro possa ser melhor do que a actual situação, precisamos de lembrar os DIREITOS, e do respeito que nos merece a pessoa humana, particularmente quando não tem voz, nem força para se defender das arbitrariedades.

E, claro está, que não é decerto com atitudes convencionais, como a caridade e a compreensão para com as desigualdades (porque, como alguns infelizmente proclamam, sempre existiram...), que modificamos a situação.

 

A defesa dos DIREITOS HUMANOS passa seguramente pela luta constante, diária e persistente contra todas as formas de discriminação, de injustiça e de desigualdade, sem tibiezas e sem a hipocrisia habitual que conduz ao esquecimento e à desresponsabilização. 

Veja-se, a título de exemplo, a posição da Comissão Europeia, ao aconselhar, em Março passado, “cautela” perante as últimas imagens da violência na fronteira entre a Grécia e a Turquia e a recusa em censurar o comportamento das autoridades gregas, e a sua política de dissuasão dos migrantes que procuram aceder ao território europeu. 

 

A melhor forma de lembrar este dia é fazer da luta pelos DIREITOS HUMANOS, a nossa LUTA! 

 

01 dezembro 2020

 O HOMEM DO NAVIO-NAÇÃO

 














Nunca mais irá reflectir sobre o seu País, seria precisamente no dia da Restauração que se lembraria de morrer, ele que via o além como uma projecção do aquém, com imagens idênticas. A morte que o veio literalmente buscar, tal como ele dizia, “não vale a pena pensar na morte, porque a morte vem ter connosco.”[i]

 

Vivemos hoje, dizia, “...tempos melhores do que os que conhecemos no nosso passado recente, e só quem não passou por eles pode desvalorizar esta evolução. Não podemos ser tão pessimistas, talvez tenhamos de reconhecer que os intelectuais, e eu também, sofrem por vezes de um excesso de espírito sonhador, até com uma carga utópica. Depois desiludimo-nos porque a realidade não desaparece e está onde está para nos tirar as ilusões.[ii]

Sempre e agora, as ilusões.

 

Que bem falava e escrevia sobre o seu Portugal, de que esteve afastado, por exílio, durante tantos anos, mas que pensava e descrevia: “Mas a classe historicamente privilegiada é herdeira de uma tradição guerreira de não-trabalho e parasitária dessa atroz e maciça «morte de trabalho» dos outros. Não trabalhar foi sempre, em Portugal, sinal de nobreza e quando, como na Europa futuramente protestante, o trabalho se converte por sua vez em sinal de eleição, nós descobrimos colectivamente a maneira de refinar uma herança ancestral transferindo para o preto essa penosa obrigação. É mesmo essa a autêntica essência dos Descobrimentos, o resto, embora imenso, são adjacências. Seria de uma provocação sem alcance exaltar o trabalho em si ou a ética do trabalho (dos outros), independentemente do contexto social onde se insere, tal como a ideologia puritana do liberalismo a cultivou. Colectiva e individualmente, os Portugueses habituaram-se a um estatuto de privilégio sem relação alguma com a capacidade de trabalho e inovação que o possa justificar, não porque não disponham de qualidades de inteligência ou habilidade técnica análoga à de outra gente por esse mundo, mas porque durante séculos estiveram inseridos numa estrutura em que não só o privilégio não tinha relação alguma com o mundo do trabalho, mas era a consagração do afastamento dele.”[iii]

 

Disse, no distante ano de 1997, que os portugueses se haviam perdido “...no mundo e refluíram ao seu território de origem, tantas vezes de modo trágico e sem glória, nação-navio que regressa ao cais[iv]

 

Julgava-se, “...em dívida para com a humanidade inteira”, ele que fez tudo pela Humanidade e pelo Humanismo, ao simplesmente existir. Ele que pensou, como poucos, o seu País e a sua gente, a este Homem se devolve o que ele próprio escreveu um dia: 

CUMPRIU-SE O MAR E O IMPÉRIO SE DESFEZ. SENHOR FALTA CUMPRIR-SE PORTUGAL.”[v]

 



[i] Fonte: TSF, “Pessoal e Transmissível”, de Carlos Vaz Marques, Maio 2003

[ii] Fonte: Jornal Público, entrevista de J. M. Fernandes (Público) e Graça Franco (Rádio Renascença), Outubro 2008

[iii] In: “O Labirinto da Saudade”, Eduardo Lourenço, Pub. Dom Quixote, 1978, pág. 130

[iv] In: “Nós Como Futuro”, Eduardo Lourenço, Ed. Assírio & Alvim, 1997, pág. 28

[v] Idem, ibidem, pág. 2

28 novembro 2020

 28 Novembro 2020

 



 

O Homem da máscara é (pode ser) a imagem difusa de uma realidade, ou da realidade, que se nos apresenta e para a qual nos preparamos, na defesa da saúde, com os cuidados devidos do chamado distanciamento social.

 

Sendo hoje um dia especial, o Homem da máscara pensa como seria sem ela e parece querer fechar os olhos, para porventura poder reflectir melhor, deixando-se embalar na doce austeridade da excepção que lhe tolhe os direitos.

 

Porque, eles (direitos) estão ameaçados, sempre e todos os dias, pese embora a canção de embalar dos tolos e dos que gostam de multiplicar, “...num ritmo exasperado, sondagens, conjecturas e previsões”, num desejo indelével de “...dominar o futuro pior, de calculá-lo para o controlar.”[i]

 

Contudo, o Homem da máscara não quer, hoje no 28 de Novembro, criticar nem verberar a sua fúria. Apenas pretende SAUDAR TODOS OS QUE SE LEMBRARAM DELE, sem máscara, ou agora com ela, e SAUDAR AINDA TODOS AQUELES QUE DEFENDEM A LIBERDADE E QUE LUTAM (como ele sempre fez) POR ELA.

 

Muito grato!



[i] Citações de “Vírus Soberano? A Asfixia Capitalista”, de Donatella Di Cesare, (Jul. 2020), Edições 70, pág. 21

25 novembro 2020

 25 EM NOVEMBRO DE 1975

 

As lembranças tornam-se perigosas 

quando deixamos de as falsificar

Adriano Santiago

In “O Mapeador de Ausências”, (2020), Mia Couto, Ed. Caminho pág.73

 

 

Fica dito aqui que o Adriano é o pai do Diogo, sendo que este é professor universitário e escritor. Os 2 Santiagos vivem na memória do Autor, que nos transporta à Cidade da Beira colonial, com as suas vivências são o seu Universo, quiçá na necessidade de voltar atrás, a uma infância vivida.

Vem isto a propósito das tais lembranças que, segundo o Adriano, se podem tornar perigosas, quem sabe à custa de um peso que carregamos, assim a modos que ligeiro, mas cuja “matéria” acaba por nos importunar.

São 45 anos, é muito tempo, vai tão longe a memória, que parece que foi ontem, está tudo aqui. Sei que para alguns, este vinte e cinco diz mais que o outro de Abril, pensam e sustentam que o de Novembro veio resgatar o que chamam de “espírito da liberdade e da democracia”, até o querem festejar.

Não é esse seguramente o meu ponto de vista. Estive lá, lutei, sofri e fui penalizado por isso, com a expulsão da tropa, a qual não haveria de causar danos de maior, a nível profissional, mas deixaria outros, cuja medida não sei bem definir, não o sabia na altura, hoje muito menos. Alguém falou, e dessa malfeitoria surgiria o “castigo”, nada a acrescentar, que a estória é conhecida de um círculo restrito, que nunca seria alargado.

 

As “evidências” viriam depois. 

Ao silenciamento das vozes da revolução, bem gostariam os autores do golpe de juntar outros, poderia ter acontecido, não fora algum recato de oficiais conhecidos. Mas bem sabemos, como disse na altura o Chico, que a Festa seria “murchada”[i], embora a semente esquecida num canto de jardim, fosse determinante, pelo menos, para a resistência.

Muita coisa mudou, o sistema acabou por se regenerar, os privilegiados voltaram, sabemos bem para quê, vieram os “mandadores da alta finança” que “Fazem tudo andar pra trás”, na sábia sentença do Zeca[ii], recompôs-se o “aparelho reprodutor” do capitalismo, vieram de todo o lado os “amigos”, jurando fidelidade à nova situação, erradicados que haviam sido os “males da Revolução”. Uns anos mais tarde, mais concretamente em 1979, o Zé Mário Branco haveria de transportar para o monólogo “FMI”, a mais “bela” e aterradora imagem do Portugal saído do 25 de Novembro.

Nem vale a pena dizer mais, ora que passados tantos anos e até parece que a semente do Chico, ou se plantou em solo desconhecido, ou murchou de vez, para sempre...

Nada mais errado.

É que a semente está connosco!

 

 



[i] Referência ao tema do Chico Buarque de Holanda, “Tanto Mar”, na sua 2ª versão, publicada no ano 1978, no albúm “Chico Buarque

[ii] Referência ao tema do Zeca Afonso “Os Índios da Meia-Praia”, do albúm “Com as Minhas Tamanquinhas”, do ano 1976

22 novembro 2020

 A FÚRIA E O CONGRESSO (OU O CONGRESSO DA FÚRIA)

 

"Mas por hoje basta 

Hoje é já muito tarde 

Já se esgotam todas as esperanças que havia para hoje"

José de Almada Negreiros

 

De tanto falar no Congresso, fica-se com a sensação que ele, por um lado, determina as nossas vidas e, por outro lado, que ele é o grande motivo da fúria de quase todos os comentadores encartados, da Direita toda em uníssono e, para espanto meu, de alguns cidadãos menos atentos.

 

Nada mais certo.

O Congresso do PCP determina, em grande parte, a nossa existência. Pelo “simples” facto que é a sua realização um símbolo de Liberdade, em tempos em que ela está confinada, restringida, de forma arbitrária e sem razão maior que a justifique. Nem sequer que a explique, como provam os últimos dados da DGS.

E agora, o motivo da fúria. Nem mais nem menos que a impotência que demonstram os detractores. Antes era a Festa, agora o Congresso. O que aconteceu de prejuízo para a saúde pública naquela, foi zero. O que irá acontecer naquele, será decerto a mesma coisa.

Os menos avisados, ou distraídos, poderão dizer qualquer coisa como isto: “não está em causa se a lei permite a realização do evento em questão, o que está em causa é se, no actual contexto, ele deveria ser adiado”. Alguns aventam o chamado “bom senso”, para aconselhar o Partido. Outros dizem que irá ser, por isso, penalizado, em termos eleitorais. A estas (ou outras) posições, poderá dizer-se o mesmo que da Festa. É uma afirmação política com os seus riscos, como aliás são todas as decisões, em termos de política partidária. Só para aqueles menos atentos, sempre se pode dizer que o PCP tomou sempre posições incómodas para o Poder, com elevados riscos, a começar, em alguns casos, pela própria vida dos seus militantes. 

 

Lembrando o passado

Giogio Agambem[i] teorizou sobre o “estado de excepção”, dizendo que ele se tornou regra, nos tempos de correm. Foi em 1995, tão perto de hoje. Então o que vemos hoje? Um Presidente a propor estados de emergência de 15 em 15 dias, anunciando uma 3ª vaga para daqui a um mês e dizendo que não hesitará em voltar a propor até não se sabe bem quando. Justificações? Apenas as que resultam da sua percepção, sem qualquer base científica, esquecendo a pedagogia, a informação correcta e a formação. Podia lembra-se, por exemplo, de promover brigadas móveis, para estar em contacto directo com a população, ensinando o que deve ser ensinado. Ao contrário disso, vem assustar os cidadãos, com as “promessas” de uma 3ª vaga sabe-se lá para quando, mais aquela que gosta tanto: o estado de emergência será prorrogado as vezes que forem necessárias. Mas necessárias para quê? Talvez a mais patética de todas será a que tem a ver com a de um Natal como os outros, se todos nos portarmos bem atá lá.  

Por que razão não se publicam dados corretos sobre a covid-19?

Porque é que devemos estar em casa a partir das 13:00 aos Sábados e Domingos?

Apenas porque é essa a regra, agora, no estado de excepção.

 

Ainda bem que temos gente que pensa...

Num comunicado emitido há uns dias atrás, um movimento de cidadãos, critica as medidas adotadas no âmbito do estado de emergência, salientando "É com profunda consternação que a Plataforma Cívica Cidadania XXI assistiu ao anúncio de uma série de novas medidas desproporcionais no combate à pandemia do vírus SARS-CoV-2. É com frustração que vemos o pro-fundo impacto que estas medidas terão na sociedade portuguesa, e por isso desde já manifestamos a nossa total solidariedade com todos os comerciantes, lojistas, empresários e demais trabalhadores dos sectores de atividade que serão fortemente penalizados pelas novas medidas do Governo - a terminar um ano já terrível a vários níveis"[ii].

Este Movimento apela ao Governo para que faça “...uma gestão equilibrada deste desafio, com honestidade e transparência e minimizando todos os danos humanos, sociais e económicos que possam advir”.

Nada mais que isto.

 

Pensar, analisar e decidir (bem)

Numa obra que se impõe ler, neste dias de sombra, em que nos obrigam a ficar em casa, a ensaísta e filósofa Donatella di Cesare, diz, a certo passo, referindo-se ao estado de excepção e ao que chama “vírus soberano”, “...a figura da excepção soberana persiste mesmo nos regimes modernos...passa a ser o pano de fundo, ...submerge na prática administrativa” ..., em suma, a instituição democrática baseia-se, embora de maneira inconfessável, na excepção soberana[iii]Não se pode ignorar que o perigo de contágio traz consigo a epidemia paralela de medidas repressivas e contraditórias.”[iv], palavras avisadas e sábias, que deveriam merecer a maior das atenções, particularmente de quem nos governa, mesmo sabendo de antemão que podem (e estarão decerto) eivados das melhores intenções.

 

Afinal, porquê a “fúria”?

Não admira, vinda de onde vem, diríamos até, ainda bem que se manifesta.

E outro ainda bem: temos um partido que vai contra a correnteza, essa malfadada unanimidade que Marcelo tanto gosta.

E quanto à pergunta, poderia (ou deveria) o PCP adiar o Congresso? Claro que sim. Mas ainda bem que o não faz, assim está a defender, uma vez mais, a Liberdade. E a Democracia também. Assim mesmo é que é.

Se o Congresso for o da fúria, que o seja, no combate sem tréguas às manifestações que a extrema-direita, com todos os amigos do costume, arriscam hoje, para ensaiar mais além e que exigem uma acção pedagógica de luta contínua e constante.

Mas, por hoje basta...



[i] Giorgio Agamben (Roma1942) é italiano, licenciado em Direito, autor de várias obras, das quais se destaca a sua investigação sobre os conceitos de Estado de excepção 

[iii]  “Vírus Soberano? A Asfixia Capitalista”, tradução de António Guerreiro, Edições 70, Julho 2020, pág. 39

[iv] Idem, ibidem, pág. 51

21 novembro 2020

 QUEREM ENTÃO FALAR DO REAL?

 

Pouco ou mesmo nada se fala na comunicação social.

Não se discute no debate político, centrado que está sobre as questões laterais de sempre, quase nunca sobre o essencial. 

Ora, o que é essencial, é a proposta de Orçamento de Estado para 2021 (OE 2021). Esse sim, é um assunto que deveria ser central no debate político público, porque acarreta decisões sobe as matérias que têm a ver com a vida dos cidadãos, nas suas várias vertentes, pessoais e profissionais, sociais e culturais, da qualidade de vida que defendemos para nós, para todos os que trabalham, pagam os seus impostos, sejam pessoas individuais, sejam pequenas ou microempresas, que passaram e passam ainda por tantas dificuldades, nomeadamente decorrentes de uma pandemia que lhes afectou e afecta as vidas, de uma forma nunca antes pensada.

Aprovado na generalidade, o OE entra agora na sua fase de especialidade, num ambiente tenso, quer no que reporta ao relacionamento inter-partidário, quer no que diz respeito à prevalência da pandemia, agora numa fase mais aguda e porventura mais dura, sobretudo para aqueles que mais sofrem com ela.

 

Já tinham reparado nisto?

Toda a gente vai às compras, com excepção daqueles que nem o podem infelizmente fazer, porque a sua vida depende muitas vezes da chamada caridade alheia, uma situação que deveria envergonhar qualquer político com um mínimo de dignidade. 

Pois, o que está a acontecer, é um aumento significativo, nos últimos meses, dos produtos alimentares, em alguns casos acima dos 4% anuais. Imaginem agora, se isto afecta a maioria da população, como não afectará quem vive uma situação depauperada, de perda contínua de rendimentos e direitos e sem encontrar, sequer no imediato, uma resposta condigna à sua precária condição.

A necessária resposta a estas e outras situações de precaridade, implica propostas concretas e imediatas, nos planos do emprego, direitos laborais e acesso generalizado aos bens e serviços públicos. Urge a definição de um plano generalizado de ataque a pobreza e à precarização. Um plano que não tenha limitações orçamentais, antes que signifique um ajuste desassombrado, sem precedentes, de apoio aos trabalhadores, à precaridade e às situações de pobreza e sem-abrigo.

A este respeito, diga-se de passagem, não deixa de ser irónico mandar as pessoas ficarem em casa. As estatísticas oficiais mostram a situação desastrosa que significa o aumento de 157% em 4 anos, do número dos sem-abrigo no nosso País, segundo dados recolhidos entre 2014 e 2018, que contabilizam um número de quase 3400 pessoas sem tecto, no início deste 2020, com prevalência entre mulheres, crianças, jovens imigrantes e idosos.

Um orçamento de estado para 2021 não pode ignorar situações como as que referimos.

 

Todavia há pior, muito pior.

É que, ao contrário do que os proponentes anunciam, este orçamento não é uma proposta coerente, nem quanto à forma, nem no que reporta aos conteúdos. O que se constata é, uma vez mais, uma proposta completamente sujeita às regras apertadas e socialmente inaceitáveis, da dívida e do défice. O governo do PS apresenta aos portugueses uma proposta com um esforço orçamental, verdadeiramente ridículo, de 3,2% para o combate à pandemia, quando a média mundial é de 12% (!), segundo dados do próprio FMI. O cenário completa-se com os números previstos para o aumento do investimento público em 2021, fixado em 0,4% do PIB.

Face a este cenário desastroso e que raramente é abordado, quer pela comunicação social,  quer pela grande maioria dos comentadores de serviço, pensar em “melhorar” algumas propostas deste OE, parece uma verdadeira miragem...

 

O investimento público necessário

Caso não seja aposta deste OE, como conciliar o esforço orçamental de combate aos efeitos da pandemia, como o necessário relançamento da economia? É que, se nada for feito para corrigir o rumo até agora seguido, o que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde, é a morte (anunciada há algum tempo) de sectores chave da já fragilizada economia. 

Deveria ocorrer um necessário corte com as políticas suicidárias, a nível europeu, que só favorecem os países ricos. Tal não parece ser a política deste PS, nem deste Governo.

Iremos pagar isso bem caro, um dia destes...

11 novembro 2020

 A NARRATIVA ODIOSA


Nunca pensei ter de escrever isto, ou sobre isto...

Uma narrativa odiosa, sem qualquer sentido que não seja a deturpação da verdade histórica, está paulatinamente a ser montada, na dita comunicação social, construída e instigada por comentadores de baixo perfil e duvidosa credibilidade. Que teve no senhor Rui Rio e na sua atitude perante o resultado das eleições nos Açores, a base de trabalho ideal para a sua construção.

Tem esta a ver com a comparação espúria entre a aliança do PSD com a extrema-direita xenófoba e racista e nazi e a construção da maioria parlamentar que permitiu a solução governativa do Partido Socialista, na anterior legislatura.

 

Lançar o rastilho

Bastou a palavra do referido senhor, para justificar aquilo que muita gente do próprio partido repudia, para meia dúzia dos tais comentadores, particularmente dos que alimentam fóruns de opinião, onde são “libertadas” todas as punções e verborreias, idiotas e potencialmente obscenas. Um desses fóruns, onde supostamente se discute política, foi capaz hoje de acordar toda a Direita, que parecendo adormecida, vem nestas alturas destilar o seu ódio à Democracia e à Liberdade.  

 

Montar um cenário

Assim se constrói uma narrativa, como base na repetição de frases e escritos simplistas, sem qualquer sentido que não seja a destruição dos conceitos e princípios que entornam as sociedades democráticas. Assim o fizeram, a bem da nação, como em tempos que foram, esses manipuladores, que vivem à sombra da Democracia, sem quererem saber o seu significado profundo e historicamente adquirido. Ao quererem forçar a ideia de que tudo é possível, desprezam a verdade dos factos e atentam contra a inteligência de toda uma comunidade. 

 

Desrespeito e insulto

Ao comparem aquela excrescência pustulenta que se mantém como deputado na AR aos que lutaram durante décadas contra a ditadura fascista, que deram a sua vida por essa luta, que sofreram a perseguição e tortura, presos e vilipendiados nos seus direitos e liberdades, esses agentes da pós-verdade atentam contra a memória e contra a história. Ao pronunciarem o nome do Partido Comunista Português, deveriam fazê-lo com o respeito e a consideração que o nosso País lhe deve, na luta contra o fascismo e pela construção das condições que possibilitaram a libertação, no 25 de Abril de 1974. E deviam lembrar-se do papel decisivo que os comunistas, socialistas, anarquistas e outros democratas, com ou sem partido, desempenharam na luta, no terreno e no exílio, na entrega das suas vidas, pela dignidade e contra a opressão. Falo do que sei, do que sinto e do que vivi, no antes e no depois da libertação.

 

E, por falar em respeito

Socorro-me de dois comentadores, da área política da Direita, que hoje ouvi, um deles, por sinal, militante do PSD. Perguntava um deles, porventura ao senhor Rio, o que era um “xenófobo moderado”, ou um “racista moderado”. E, ao interrogar-se, dava logo a resposta óbvia, que não permite outras interpretações, não há moderação possível, como pretende o senhor Rio, para quem defende ideias e conceitos anti-naturais e anti-humanos. Na realidade, aquela “coisa” nunca poderá ser moderada, sob pena de deixar de existir. Quem defende coisas tão repugnantes, como a pena de morte ou a castração química, deveria merecer o repúdio de toda uma comunidade.

Por isso mesmo, indivíduos como o senhor Rio, que dão a mão aos mais baixos resíduos de pessoa humana, não nos devem merecer, nem respeito, nem um mínimo de consideração. Mais cedo ou mais tarde, a história os recordará, como agentes da miséria humana e social, de tão ignóbeis, que não merecem senão o desprezo de uma sociedade decente.

 

Nunca pensei ter de escrever isto, ou sobre isto...

Mas escrevo, com a consciência de um dever, sobretudo para as gerações mais novas que não viveram (felizmente!) a noite negra do fascismo, que não foram obrigados a emigrar, que não sabem sequer o que é viver sem Liberdade. Que saibam preservar esse Valor e outros que a Democracia lhes vai ensinando. Que saibam rejeitar veemente as figuras sinistras que querem desenterrar o passado.

O que o mundo for amanhã, é o esforço de todos nós que o determinará”, escreveu um dia um grande e ilustre Português, chamado Bento de Jesus Caraça[i]. Essa pedagogia do futuro é, sem qualquer dúvida, a razão de ser do nosso presente.

Temos memória e por isso, temos futuro.  

 

 

 

 



[i] Bento de Jesus Caraça nasceu a 18 de Abril de 1901 em Vila Viçosa e vivei uma vida intensa, até 25 de Junho de 1948. Professor universitário, chegou a professor catedrático em 1929, resistente antifascista e militante do Partido Comunista Português. Perseguido pela ditadura fascista, ganhou evidência a sua participação no Movimento de Unidade Democrática (MUD), que contou com uma enorme adesão popular reclamava “liberdade de reunião, de associação e de imprensa”, impensáveis na época. Matemático de formação, foi Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, entre 1943 e 1944, Em 1946 é preso pela PIDE e, em Outubro desse mesmo ano, foi demitido do lugar de professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeira.

 

08 novembro 2020

 O “LAPSO” DE UM RIO SEM RUMO

A notícia da cedência á extrema-direita, por parte do PSD, quase coincidente com a queda da besta na América, é facto mais que suficiente, para aferir a qualidade do líder do dito partido.

Será um Rio sem rumo, ou o verdadeiro rumo de Rio?

Seja o que for, a realidade é o que é.

Nos Açores, onde a política titubeante e de cedências do Partido (dito) Socialista, dá (sempre) o resultado que se sabe, a Direita pura e dura renasce, pela responsabilidade acrescida das tais políticas duvidosas. Sim, foram a ausência de resposta aos problemas regionais e a arrogância no exercício do poder durante mais de 20 anos, que abriram o caminho que ora se desenha.

 

E hoje, a Direita (dita) democrática só existe no pensamento e na lógica de boas intenções dos comentadores. E, diga-se de passagem, nas cabeças de alguns “pensadores” que, mesmo que pensem pela sua cabeça, não deixam, em boa verdade, de andar com a cabeça na mão...

 

A Direita é isto mesmo. 

Onde nasceu afinal o “venturoso” deputado, que vocifera conta a Democracia que lhe deu a palavra? Os “pais” são eles próprios, aliás nem sequer consta que ele renegue tal paternidade.

 

O aviso de Costa a Rio, “...passou hoje uma linha vermelha”, é mais uma lição para ele do que para o homem que caucionou tudo o que existe de pior num partido político, o ódio, o racismo, a xenofobia, enfim a antecâmara do fascismo. 

 A SAÍDA DA BESTA 

 

https://www.youtube.com/watch?v=Dx9ul2dRHzE      

 

Sim, estamos mais sossegados, mais limpos, se calhar, como diz o Bruce, a asserção “Nowhere to run ain't got nowhere to go” deixa de ter sentido, há algo que já faz mais sentido, depois de sabermos que o psicopata perdeu a cadeira, que deixou de ter o poder que tão mal lhe assentava, ele que representava tudo o que ele (Bruce) rejeitava, tudo o que abominamos.

Não há palavras, é a saída de um bandalho (como lhe chamou um conhecido comentador), um escroque, uma excrescência odiosa.

 

Todavia, há um perigo que não acaba, não acabou. 

Nem sequer nos alegra a circunstância de o vencedor ter demasiadas e reconhecidas “ligações perigosas”. Se bem que possa haver alguma luz, com Kamala, não nos esquecemos de Bernie Sanders e em tudo o que ele poderia protagonizar, para uma mudança, na pátria do Bruce.

 

A recordação da canção leva-nos muito atrás, aos tempos da guerra, aos anos em que sonhávamos com a transformação da sociedade e que, diga-se, não abandonamos de todo.

So they put a rifle in my hand 
Sent me off to a foreign land 
To go and kill the yellow man
…”

 

Hoje, acordamos, sabendo que a saída daquela figura sinistra significa, de imediato, um golpe profundo nos projectos que pululam um pouco pelo mundo, até por cá, onde sabemos que o ovo da serpente pode estar chocando o verme que ofusca a luz democrática e que vive (sempre) na sombra.

 

Aliviados, poderá ser uma boa definição, para um estado de alma, um sentimento. Para eles, na pátria do Bruce, fustigada por tanta injustiça, onde há milhões e milhões que não têm nada, nem casa, nem direitos sequer, acredito que haja hoje, depois dos resultados que deram a vitória a Biden, a tal sensação do alívio que sentimos.

 

Ainda não sabemos como o outro vai sair. 

Se pelo próprio pé, se enxotado pela Fox News, se abandonado pelos pares, enfim, se empurrado pelas circunstâncias que ora lhe são adversas.

Hoje, bem poderá dizer, “The first kick I took was when I hit the ground”… 

06 novembro 2020

 UM CAMPEONATO ENGANOSO E CRUEL!

 


Nestes tempos, um título como este (hoje, 6 Novembro 2020, no JN), é, para além de enganoso, cruel e desumano.

 

Reparem que até a economista-chefe do FMI, defendeu, no Financial Times uma política orçamental à altura da gravidade da crise, ao afirmar: "fiscal policy will need to be the main game in town."

 

Enquanto se vão constatando aumentos desenfreados do desemprego, da fome e das desigualdades, com as consequências desastrosas no desempenho da economia, o Estado não pode, nem deve, ficar indiferente.

Em face disto, como pode um Governo dar, no Orçamento de Estado, prioridade absoluta ao défice e à dívida, naquele que pode ser o maior erro, um erro histórico muito difícil de entender, particularmente quando diz preferir os entendimentos à Esquerda?

 

A prioridade, ao contrário, tem que ser dada à execução imediata de políticas públicas, dirigidas essencialmente a minorar os efeitos negativos provocados pela pandemia, na economia e, directamente para as pessoas e para os cuidados que lhes são devidos. Reforçar devidamente o SNS, cumprir um programa de apoio directo às populações, particularmente as mais carenciadas.

 

Este “campeonato” não é válido, não é justo, não é honesto!