rio torto

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21 abril 2021

 O VELÓRIO DA CULTURA

 












Vale a pena morrer, para haver velório?

Claro que nele cabe, segundo a tradição africana, uma grande festa, com comes e bebes, canto e dança, batuque à farta, que o morto merece e os que ficam lhe prestam a homenagem que se calhar nunca teve em vida, que cheia deve ter sido, uma festa que só agora tem e não pode ver. Mas podemos nós, que lembramos e assim lhe tributamos, em honras e memórias, a vida que também partilhamos. 

Há até quem acredite que neste século vai ser possível digitalizar a informação do defunto e usá-la para recriar a sua consciência. Talvez da Cultura fique esta “deliciosa” reminiscência, do que era, do que foi e de como a poderemos recriar.

Queremos recriá-la?

Podemos recriá-la?

 

Oh, velório, que mostras o defunto e dizes “E se tivéssemos ficado sem...?”.

Que bem se comportam as pessoas no velório, em princípio não lhes sai da boca impropério algum, (por bem que apetecesse).

Apenas estão velando o “corpo das artes”, assim exposto à comiseração.

Mal vai um País que deixa assim morrer o que de melhor tem para dar e assim morrendo, já dar não pode.

Quase agora me lembro de um ex-presidente de Câmara que, quando lhe falavam em Cultura, mexia no bolso, a ver se aparecia algum tostão. Gozava estaria, ou estava mesmo, agora já é presidente de um grande partido, as coisas são assim, não há que ter vergonha, embora fosse de haver. Mas não há.

Agora velamos. 

Quedamos em saber o que vem por aí.

 

Entretanto, sem qualquer augúrio, ao velar a Cultura, podemos estar a velar um País.

Cidadão atento!

(roubo sempre esta asserção a um velho Amigo...)

10 abril 2021

A “MANSIDÃO” E A INCOMPETÊNCIA




 












É sempre bom “repousar” um pouco sobre um anúncio como o do dia de ontem. Na torrente de ditos e escritos, alguns que pretendem ser informação, ficam a perder para a imensa enxurrada de palpites, nas ditas redes sociais, de costumeira mediania. Ao pretender saber quem esteve bem, ou mal, encalhamos quase sempre na opinião encartada de quem pensa ser pensamento, embora possa eventualmente não passar de uma simples eructação.

 

O homem que um dia não quis ser “manso”, vociferando, ainda que de forma sibilina que isso “é a tua tia, pá...”, não pode, ou melhor não deve, cantar a tal vitória que ensaia, ainda que o faça denunciando (e bem) alguns pasquins e similares de TV, que aproveitaram para cavalgar, em tempo, uma duvidosa onda moralista e justicialista. Porque nada poderá apagar a realidade que para si próprio construiu, desprezando a inteligência alheia e brincando com uma trapalhada, visceralmente repelente. 

 

Mas, o que salta à vista, depois daquele arrasador discurso de um juiz que tentou quiçá emendar a mão de outros magistrados, que, diga-se de passagem, muito mal ficam no processo, é a tremenda falta de qualidade de um ministério, que, por ser público, deveria ter mais competência. Nem será preciso lembrar a quantidade imensa de “factos” que deveriam envergonhar quem os protagonizou, não fora a habitual complacência com os portugas, serenos e pacientes (uma versão possivelmente aproximada), brindam normalmente casos do género: gritando e berrando de fúria e esquecendo logo uns dias depois, caindo porventura na quietude cinzenta, característica primeira (tem que se dizer, com toda a frontalidade) da ferrugenta e cabisbaixa vulgaridade pequeno-burguesa. Apetece citar o O´Neill, “Oh Portugal... surdo e miudinho...”.

 

Ele há (diz-se) o vai e o vem. E, ainda, que “...enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”. Estamos em Portugal e a esperança apenas existe para meia-dúzia (vá lá, algumas dúzias) de encantados. É pena, porque somos, assim à primeira vista, bem mais que “...o sal, o sol, o sul / o ladino pardal, / o manso boi coloquial, / a rechinante sardinha, / a desancada varina...”. Vejam, lá está o “manso”, embora aqui, o tranquilo e coloquial boi e não um qualquer arrivista, ainda que diplomado, encartado e sobejamente “apoiado”. Logo, há que esperar, talvez mais uns anos, pelo “vem”.

 

Rejeitamos, claro que sim, todo e qualquer “julgamento popular”. Pensamos é se o Poeta tinha motivo, para nos deixar este soberbo pensamento, “Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo, /golpe até ao osso, fome sem entretém, / perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes, / rocim engraxado, / feira cabisbaixa, /meu remorso, / meu remorso de todos nós”.

De todos nós.

 

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Nota: os excertos são retirados (roubados) do poema “Portugal” (1965), da obra “Feira Cabisbaixa”, publicado em “Poesias Completas”, Alexandre O´Neill, pág. 211

02 abril 2021

 45º ANIVERSÁRIO DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA



 

Esta é uma das minhas relíquias. 

Um exemplar da Constituição da República de 1976, comprada na UNICEPE - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, CRLa Cooperativa Livreira, da Cidade do Porto, fundada a 19 de Novembro 1963, de eu faço parte, desde os tempos de estudante.

 

Num momento particularmente sensível, em que se invoca (mal ou bem...) a Constituição, não faria mal a quem a tenta (mesmo que disfarçadamente) delapidar, lembrar o primeiro artigo:

Artigo 1.º - República Portuguesa

PORTUGAL É UMA REPÚBLICA SOBERANA, BASEADA NA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E NA VONTADE POPULAR E EMPENHADA NA CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE LIVRE, JUSTA E SOLIDÁRIA.

Esta asserção diz quase tudo e faz todo o sentido recordar, para que nunca fique esquecida, nas variadas turbulências que o País atravessa. 

Fica a Lei Fundamental que, apesar dos vários “ataques”, continua a ser a primeira referência da República. 

29 março 2021

 O “APOIO” AOS APOIOS

 














A posição do Governo do Partido Socialista relativamente ao diploma aprovado pelo Parlamento sobre reforço de apoios sociais, foi, em primeira instância, dizer que se tratava 

de “uma violação ostensiva da lei-travão inscrita na Constituição, desvirtuando o Orçamento em vigor”. Estávamos a 26 Março.

 

Hoje, 29 de Março, sabemos que o PR promulgou o decreto que prevê as alterações introduzidas pelos partidos da oposição, a três decretos-lei do Governo relativos a apoios sociais, respeitantes à economia, saúde e educação.

O primeiro diploma alarga o universo e o âmbito dos apoios sociais previstos para trabalhadores independentes, gerentes e empresários em nome individual. O segundo, aumenta os apoios para os pais em teletrabalho. O terceiro, estende o âmbito das medidas excepcionais aos profissionais de saúde, no âmbito da pandemia e também à recuperação dos cuidados primários e hospitalares não relacionados com covid-19.

Particularmente, no que diz respeito ao diploma que reporta aos apoios económicos, o Parlamento alterou o decreto-lei do Governo n.º 6-E/2021, que estabelece mecanismos de apoio no âmbito do estado de emergência, alargando o universo de beneficiários das medidas, que já incluía no decreto do Governo, os trabalhadores independentes, gerentes e empresários em nome individual.

 

Não é com qualquer agrado que se regista aqui a lamentável posição do Governo e, pelo que se sabe, do único Partido que o apoia. Lembramos os tempos de chumbo da troika, em que o Partido Socialista, juntamente com a Esquerda, protestava contra a dureza das medidas impostas e dos cortes infames que a Direita, unida aos grandes interesses financeiros, fez à grande maioria dos apoios sociais, deixando muitos portugueses na pobreza e na miséria, naquele que foi o maior e mais vil ataque a um País, submetido à ocupação estrangeira. Este Partido, agora no Governo e sem qualquer apoio significativo que não seja o de um grupo parlamentar minoritário, não honra o seu passado, nem merece o apoio de quem nele votou, que esperaria uma governação que defendesse os interesses dos mais desfavorecidos e que precisam, agora mais que nunca, da sua atenção. Nem merece mais o apoio da Esquerda, condenando-se assim ao fracasso das suas políticas e ao repúdio dos cidadãos que nele confiavam.

Este Governo não cuida dos seus, enquanto que se revela uma vez mais brando e complacente com aqueles que atacam o Estado.

 

Quanto à Direita, registe-se aqui simplesmente, a hipocrisia. 

Os mesmos que tentaram (e quase conseguiram) vender o País ao desbarato, desprezando os que que tinham dificuldades, culpando-os de viverem acima das suas possibilidades, autorizando e participando em autênticas fraudes e negócios fraudulentos, vêm agora, de forma absolutamente demagógica, juntar-se à corrente, apenas com o tacticismo próprio dos oportunistas, que nada têm para propor, a não ser as mesmas receitas de austeridade de sempre e a mesma política de subordinação que deu as provas que bem conhecemos.

 

21 março 2021

DIA MUNDIAL DA POESIA

(aqui, para trazer um Amigo que está sempre perto...)

 

 

 

 
















CANTIGA À RALIDADE

 

S’a ralidade não me chatiar

Não vou eu chatiar a ralidade

Porém, essa megera sem idade

Não tem tempo e fronteiras, não tem lar.

 

Não tem respeito, sempre a dar a dar,

Remexe-me no peito, busca o qu’há-de

Servir-lhe de pretexto pra provar

Que continua a mesma ralidade.

 

eu, que tenho mais o que fazer,

Dormir, dormir, morrer, talvez sonhar

- Ou contra o cruel fado a ‘spada erguer.

 

Mas esta dor no peito, a falta de ar,

Esta barba há três dias por fazer

Já ‘stão à minha espreita ao despertar

 

Manuel Resende, “Poesia Reunida”, Ed. Cotovia (2018),  p.127

 

19 março 2021

 ANTÓNIO SOARES FERREIRA (14 Fev 1916 – 22 Dez 1997)


 

 























O meu Pai.

Esta foto data de 1949, era eu um recém-nascido, ele tinha apenas 33 anos.

Um engenheiro dos antigos, aliás, um agente técnico de electrotecnia e máquinas, como ele gostava de se afirmar, formado no antigo Instituto Industrial do Porto (hoje ISEP).

Cedo afirmou a sua verdadeira vocação, era um artista da manufactura, trabalhava muito bem a madeira, o ferro e outros metais, tinha uma parafernália de ferramentas e uma autêntica oficina, na nossa casa de Ponte do Bico, onde se dedicava, nas horas vagas, a fabricar objectos variados, a que todos nós dávamos uso. Lembro que fabricava rede (de arame), tendo inventado uma máquina para tal, que muitos visitaram. A rede era necessária para a quinta, uma pequena, mas altamente produtiva área, onde havia de tudo um pouco, graças à sua diligência e empenho.

Nunca o consegui acompanhar nessa empresa, dada a minha manifesta falta de jeito. Mas sempre prestei atenção aos objectos, conservo ainda alguma coisa, do muito que se perdeu, quando a casa foi vendida. 

Um engenheiro inovador, particularmente na vertente da luminotecnia, lembro aqui o sistema de luzes que propôs e executou, por exemplo, na igreja dos Congregados e na casa do Nogueira da Silva, na cidade de Braga.

Era também um professor exemplar, os seus alunos da Escola Técnica Carlos Amarante, lembram ainda hoje o seu talento para ensinar, deve ter feito certamente alguma escola, nas vertentes da electricidade, mecânica e desenho técnico. 

Tenho muita pena que tenha abandonado a sua arte, aquando da reforma, nunca mais foi a mesma pessoa, parecendo faltar-lhe o convívio dos seus alunos e dos seus muitos clientes. 

Uma figura, sem qualquer dúvida da Braga antiga, católica e devota, sempre seguiu as pisadas da igreja católica, pertenceu a uma agremiação que penso se chamava “congregação de leigos”, havia uma palestras no Sameiro e uns almoços a que ele me levava quando andava no liceu e que abandonei, quando entrei na faculdade, em Coimbra, no glorioso (para mim, não para ele...) ano de 1969.

Divergíamos em quase tudo, bem que tentou afastar-me das “leituras perigosas” em que me meti, Hélder Câmara, Teilhard de Chardin, Simone Beauvoir, Sartre e claro, Engels e Marx, que ele considerava “decididamente errados”.  Todavia, nada disso impediu uma educação séria, honesta e digna, que sempre procurei seguir.

Hoje, tantos anos após a sua morte, acho que morreu muito cedo, mas conheceu dois netos, que também o recordam e que o adoravam.

Uma saudade imensa do Homem, do Pai, que foi António Soares Ferreira, nome que muito prezava e que sempre disse que os dois apelidos deveriam ser um só, separados por um hífen, uma confusa explicação, que tinha a ver com os nomes materno e paterno.

Por isso, em sua memória, adpotei a ideia e, desde há muito que a uso, apesar de não estar exarada no meu registo: Alfredo Soares-Ferreira

 19 DE MARÇO - DIA MUNDIAL DO SONO 2021


 
















Pensei que era dia do Pai

E do SONO (também) é afinal

Isto de dias das coisas 

Tem algo de seminal...

 

De sono me vesti

A dormir me encontrei

Foi a inspiração do Ary

Que ajudou aqui, eu bem sei.

Porque dizem que o SONO

É um “estado de consciência”

Falta saber o que resta

Quando perco a paciência...

Diz que sabe (e acredita)

Eu, por mais SONO que tenha

Não ofereço resistência.

 

Venha a cama e o sofá

Desde que seja sem custos

Vamos dormir descansados

O belo SONO dos justos.

 

E, se bem dormir

Encontrou-se

Se foi para o SONO eterno

Passou-se...

 

 

08 março 2021

 8 MARÇO – DIA INTERNACIONAL DA MULHER


 

Sorri, és mulher

Dona de ti própria

Que, da antiga condição

Resta apenas a lembrança

E uma eterna razão

 

E se lembrares Catarina

Assassinada

E também Marielle

Assassinada

Terás talvez medo

Até de ser amada

 

A posse já não existe

Neste tempo de fascínio

Todavia prevalece

A sensação de domínio

 

Podes passar a palavra

De sorriso e de luta

Jamais serás humilhada

De certeza absoluta

Porque a força é demais

Naquela que se intitula

Mulher

Aqui e num canto qualquer!

05 março 2021

COMBATER (OU NÃO) O RENTISMO

A 18 de Fevereiro do ano passado (2020), a SIC noticiava que a EDP acabava de vender 6 barragens em Trás-os-Montes a um consórcio francês por 2.200 milhões de euros.
E ainda que, o movimento cívico "Terras de Miranda" considerava que o Estado Português deveria cobrar 5% de imposto de selo por essa transação, acrescentando que esse dinheiro devia ficar na região. A resposta do Ministério das Finanças teria sido, ao tempo, que só saberia se haveria direito à cobrança do imposto, após verificar os termos do negócio.
 
Passou exactamente 1 ano, ou melhor, um pouco mais.
O Partido Socialista faz saber hoje, de forma oficiosa, na TSF, pela voz de um deputado, que o Governo da República nada tem a ver com a operação, apenas a Autoridade Tributária tem competência para tal, ou seja, descarta a possibilidade de, no mínimo, investigar de que forma foi feito este (chorudo) negócio.
 
Para sermos claros e precisos, diremos que o tal imposto deveria ter sido pago até ao dia 20 de Janeiro deste ano, a data estipulada para a respectiva liquidação.
No final da audição sobre este negócio, o Governo não esclareceu se a verba de Imposto de Selo foi efectivamente paga.  Esta audição, sobre a venda das seis barragens em Trás-os-Montes pela EDP ao consórcio liderado pela francesa Engie, num montante total de 2,2 mil milhões de euro, realizou-se no dia 27 de Janeiro, onde foram ouvidos o Ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, e o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, António Mendonça Mendes.
Acrescente-se ainda que o Ministro do Ambiente afirmou, “se houver imposto pago ou a pagar” (pela venda das barragens), o montante será, com certeza, entregue aos municípios”. E mais, que o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, disse, “a Autoridade Tributária não tem de ser consultada antes dos privados fazerem operações, ainda que versem sobre bens de domínio público”. E finalizou, dizendo “...a AT não valida previamente as operações jurídicas de privados. O que faz é responder a pedidos de informação vinculativa. (..) O nosso sistema fiscal é largamente baseado na confiança nas declarações dos contribuintes”.
 
Tudo está devidamente registado. Aqui, apenas se resumem os factos.
Hoje discute-se esta questão, dizendo, na maioria dos comentários, de notícias e nas redes sociais, que é uma vez, mais o designado “interior”, que paga os custos de uma “interioridade”, sempre invocada e sempre colocada em causa.
Até pode ser verdade, que existam zonas e populações do nosso País, vítimas de tratamento desigual. Contudo a questão fundamental é “apenas” esta: é o modelo de desenvolvimento do País que está em causa. É um modelo desigual, discriminatório e atentatório da Democracia e dos Direitos dos cidadãos. É o modelo do ordoliberalismo, que está em causa e que “determinou” para o nosso País, parte da tal “periferia” europeia, as regras e ditames, definidas em Bruxelas e que, pouco ou nada têm a ver com os interesses das populações, nomeadamente das mais desfavorecidas. Na lógica persistente, das políticas subjacentes a este modelo de desenvolvimento, as periferias (em que o nosso País se insere) são entendidas não como parceiros de um “projecto comum”, mas como simples consumidores por um lado e, por outro lado, como sujeitos menores e infractores sistemáticos que é preciso sancionar permanentemente.
 
Depois, é o que se sabe, este Governo do PS, faz exactamente o mesmo que toda a Direita de qualquer das matizes: protege as grandes empresas, dando-lhes todas as facilidades de instalação, em troco de nada, isenta-as, na prática, de impostos, cedendo a toda e qualquer pressão, de forma sistemática. É o rentismo, na sua melhor imagem, com o mercado e o poder político a permitem que indivíduos e empresas privilegiadas extraiam uma grande parte da renda que pertence à comunidade.
E, como se já não bastasse, tomar essa posição, indigna e desleal, a verdade é que o Governo fecha os olhos e sacode para o lado, quando inquirido.
 
Por favor, ACORDEM!

13 fevereiro 2021

É O DIA DA RÁDIO!

 


Se puderes, ouve. 

Ouve a rádio que ciranda por aí, possivelmente num transístor perto de ti. Está provavelmente presa em qualquer esquina, mas passa por aí. Não tem imagem, mas pode albergar belas alegorias, ao contrário da concorrência, onde se vê, a toda a hora, o horror do espectáculo, a vilania da agressão que entra pelos olhos dentro. A rádio que um dia libertou o País, à custa de tantos subterfúgios, de tanto enredo, na imaginação fértil de tanta gente, que nos deliciava com a doce amargura dos tempos de cólera. A rádio que um dia nos dava a voz da liberdade e no outro passava o discurso hostil da mentira. 

 

A doce ilusão.

bic laranja, bic cristal, duas escritas à vossa escolha”, “o boca-doce é bom é, diz o avô e diz o bebé” e esta que afinal quase parecia dar cartas, mas que se perdeu na espuma dos dias cinzentos, onde ficou a soberania, “o que é Nacional é bom”. Os jingles, assim ditos, perdidos na noite?

Perdoem-me se insisto, há uma beleza imensa na rádio, um afrontar constante à lembrança remota que vive em nós. Perdoem-me se invoco a corrente, e diga, “A rádio vai em ondas como o mar[i], frase evidentemente roubada ao Fernando, um Amigo que rema invariavelmente contra uma maré de marasmo e nos convoca sempre ao desassossego. E se com ele vou nessa maré, que tem tanto de vaza, como de deliciosa correnteza, posso quedar-me, por exemplo, ao pé do mar da palha, ou “...daquela janela virada p´ró mar[ii], ou de qualquer doca seca que me acolha, em dias de servidão.

Vê se consegues ver-me de lá, com o rádio de pilha ou, na versão digital do celular com fones. Estou penosamente à espera de mim, ou sagitando no ar, “Há sempre alguém que semeia/Canções no vento que passa.”[iii]

 

Que a rádio pode passar.

Quem não passa é esta saudade daqueles tempos em que o ouvido se colava, para escutar o som do silêncio, ou o barulho das luzes, quando as havia. Andávamos “Em Órbita”, ou no “Limite”, com “Tempo Zip” ou “Pão com Manteiga[iv], no rádio clube ou nos associados de Lisboa, que a nacional emissora não atracava nas nossas vidas, a não ser para a propaganda. 

A rádio que nos ensinou já não mora aqui, mas pode morar em qualquer canto deste País, como ele, sempre presente, sempre adiado.  

Deixa que te cite Amigo meu, que falas de uma “longínqua casa dos prodígios”, ou da “plasticidade das palavras”. Como tu acredito “...que a rádio vê e dá a ver no escuro.”[v]



[i] Crónica do meu Amigo Fernando Alves, TSF, 30 Junho, 2020, às 08:50 horas

[ii] Excerto de “Aquela Janela Virada P'ro Mar”, Frederico de Brito/Tristão da Silva

[iii] Excerto de “Trova do Vento que Passa”, Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira

[iv] Nomes de programas da rádio, dos anos 60 e 70

[v] Idem nota 1

29 janeiro 2021

 PRESIDENTE DA REPÚBLICA: UM PROJECTO PARA O PAÍS?

 

Quem luta, pode perder. 

Mas aquele que não luta, já perdeu

Bertholt Brecht

 

Tenho seguido, com a maior atenção, os escritos e as crónicas das rádios e TV, a propósito dos resultados das eleições presidenciais. Comentários que me merecem todo respeito e consideração, em particular daqueles que o merecem. De uma forma geral, constato alguma convergência e similitude com o que penso.

Tomo por base três conceitos da avaliação de projectos, para uma breve análise das eleições de Domingo passado e da sua potencial influência, no possível desenho de um projecto para o País. Reputo como fundamental a existência de tal projecto, bem como da importância de ser a Esquerda a propor e a protagonizar a sua possível implementação. Porque, a não ser assim, e a propensão da Esquerda em continuar a viabilizar as propostas (e mesmo a governação) do Partido Socialista, tudo continuará mais ou menos na mesma, arrastando o País para o marasmo habitual, e a consequente degradação das situações política e social. 

Os parâmetros que vou utilizar nesta análise, são a relevância, a eficácia e a sustentabilidade. Qualquer deles faz parte da avaliação de um projecto. É com base na apreciação de cada um, que é possível qualificar e quantificar o valor do mesmo e, em casos específicos, determinar se o projecto deve ser (ou não), objecto de financiamento.

 

A Relevância 

Precisamente por ser relevante, o que afirmo atrás, este parâmetro de avaliação é de primordial importância. E, para começar, começo por colocar a questão seguinte: qual dos candidatos apresentou um projecto relevante? A resposta a tal questão é, para mim, bastante óbvia. Só existiu verdadeiramente um projecto relevante para Presidente da República e foi protagonizado por João Ferreira. Claro e preciso, foi até alvo de elogios por parte de insuspeitos comentadores da nossa praça. Mereceu até o epíteto de “Candidato da Constituição”. Nenhum dos concorrentes apresentou uma proposta com a relevância daquela. E, alguns dos candidatos, não apresentaram sequer um projecto, digno dessa significância. 

Num projecto, a relevância é medida pela pertinência em relação a alguns sub-parâmetros, como por exemplo, necessidades e limitações, tipologia dos participantes e beneficiários e outros elementos de valor acrescentado, dos quais destaco, pela sua aplicabilidade, as condições de vida, habitação, educação e saúde das populações, as necessidades de pessoas com deficiência, os direitos das minorias,. Mesmo sabendo que não é o Presidente que governa, basta dizer que é a ele que compete a fiscalização e a promulgação de leis e diplomas, para perceber o alto significado do projecto do Presidente da República. E da sua relevância.

 

A Eficácia

O “prémio”, a que reporta este parâmetro vai direitinho para Marcelo. Na verdade, sem fazer campanha, abdicando de tempos de antena, fugindo sistematicamente a discutir fosse o fosse, distribuindo elogios e sorrisos por quase todos os concorrentes, desarmando os adversários, driblando o confronto e preferindo a concordância com cada um, subestimando a sua própria candidatura, porque era afinal ele, o Presidente em exercício. Mesmo que acordemos em dizer que Marcelo desvalorizou completamente o acto eleitoral, temos de concluir que essa possível “estratégia” resultou em pleno, indo até ao limite de votação, que terá ultrapassado mesmo as melhores expectavas. Na prática, conseguiu uma votação, em números e em percentagem, superior à da primeira eleição, o que não deixa de ser notável. 

Em nome da Eficácia, supõe-se que seja respondida a pergunta, os resultados desejados estão a ser alcançados? Assim sendo, em breve o saberemos, com Marcelo reeleito e agora na posse de uma maioria significativa, que possa até dar corpo a uma qualquer recomposição da Direita, esfrangalhada nesta eleição, sem um líder capaz e reconhecido, pelo contrário, parecendo ser refém de um arrivista, com contornos fascizantes e de duvidosa reputação.

 

A Sustentabilidade.

Manda o critério, que seja possível saber até que ponto e de que forma, o impacto do projecto é (ou não) sustentável. Exige-se ainda que a proposta apresentada seja de tal forma convincente, que leve um possível financiador a apostar no projecto, desde que fique amplamente demonstrado que o desenvolvimento posterior de actividades consegue “sustentar” a proposta, de tal forma que o projecto continue o seu caminho, mesmo depois de o financiamento terminar. Aqui impõe-se dizer que talvez não tenha estado em jogo, um verdadeiro projecto sustentável, que a existir, seria o garante de uma estabilidade política, tão a gosto do centrão partidário, que o Partido Socialista insiste em corporizar, mesmo sem “parceiro” conveniente. Não, de facto não tivemos um projecto sustentável para o País e é deste ponto que quero partir, para afirmar que somente a Esquerda pode fazê-lo, ainda que não estejam ainda reunidas as condições subjectivas, para que tal aconteça. 

Alguém então se quer “atravessar”, para financiar este projecto, deste Presidente, ainda que impondo regras e critérios rígidos, para acautelar um desempenho dos actores envolvidos?

Apenas a evolução dos acontecimentos, particularmente neste tempo de incerteza permanente, no curso de uma pandemia que teima em manter-se, poderá avançar uma resposta. Só que este não é um projecto qualquer, um mero exercício de actividades. Aqui joga-se a sobrevivência dos cidadãos, em que uma parte significativa está, de há muito tempo a esta parte, sistematicamente a perder direitos e possibilidades de ter uma viga digna. Haverá, a história assim o diz, quem se aproveita da situação, para lançar a confusão, o pânico, o medo, semeando o ódio e propondo confrontos de difícil previsão.

 

Será mesmo “isto” que os portugueses querem?

A resposta a esta questão provavelmente não existe.

Existem, isso sim, algumas aproximações que, deveremos considerar como pontos de partida para o debate, para o diálogo entre actores diversos, para convergências (mesmo que de ocasião), para o desenho de algumas prováveis soluções, ou no mínimo, para conseguir que os actuais intervenientes no campo da Esquerda, aceitem vir ao terreno, ainda que “agarrados” a uma qualquer agenda de circunstância.

Pode perguntar-se ainda, como aliás o fizeram alguns comentadores políticos, qual a verdadeira intenção de milhões de pessoas que saíram de suas casas, onde estão confinados, para ir exercer o seu direito de voto? Qual o sentido do seu voto? Como distribuíram as suas “preferências”, sobre as propostas que ouviram dos candidatos? Se porventura mudaram o seu voto, após o decurso de uma campanha atípica? Poderia multiplicar aqui este exercício, por grupos etários, por distritos, por concelhos, etc..., etc... Certamente veremos trabalhos específicos, nomeadamente académicos, nesse e noutros sentidos.

Todavia, há questões que nos assaltam. Uma pessoa, um cidadão, uma família, que ganha o ordenado mínimo, para sustentar uma casa, que vê esse salário (quando existe, claro) subir apenas uns míseros euros, enquanto as coisas que precisa comprar, os serviços que pensa adquirir, aumentarem todos os anos de tal forma que a sua vida, a vida dos seus, não tem forma nem rumo, não podem pagar, não podem poupar, não podem ir a um teatro, a um cinema, a um espectáculo, a casa onde vive (se casa for...) não tem condições para se protegerem, para se aquecerem do frio e da chuva. Que podem pensar? Que e como podem decidir, quando o Estado não cuida de si e dos seus? Que ouvem, que vêm um governo fazer, para melhorar (ainda que apenas um pouco) a sua condição?

Será que, num estertor de fúria se viram para alguém que, apesar de não lhe prometer coisa alguma, fala do Poder como um conjunto de bandidos e de culpados que apenas pensam em se manterem lá, para se servirem dos cargos e possivelmente enriquecerem, à custa de malfeitorias várias? 

As políticas de tibieza até agora levadas a cabo, com pequenos avanços ao sabor de correntes de ocasião, sempre com recuos, quando se tratar de afrontar (quer dizer, de não afrontar) os interesses rentistas habituais, só podem conduzir ao estado em que ora nos encontramos. 

Aí, a questão que coloquei, pode adquirir uma importância devastadora. 

 

Há um projecto para o País?

O País pode ser um projecto, mas para isso precisa de autonomia, que, em termos da Constituição da República, adopta a designação de Soberania.

É mesmo muito difícil encontrar uma saída (airosa?), sem abordar de frente, com a tal frontalidade que se exige, sem deixar de lado a ideia, o conceito, o significado verdadeiro de soberania.

Aqui a interpreto como verdadeira alternativa. 

Aqui a deixo para reflexão, a quem lhe queira pegar. Sem receitas, sem preconceitos.

Passa (deve passar), em primeiro lugar pela definição de uma estratégia. Uma estratégia de Esquerda. Ou, se preferiram, das Esquerdas. 

A definição de uma estratégia para o País será a melhor das respostas que a Esquerda pode dar. Até porque, o que falta ao País é, sem qualquer dúvida, uma estratégia. Que o governo actual não tem, nunca teve, nem nunca terá. 

Para tal, será necessário, antes de mais, encetar um diálogo com todos aqueles, pessoas individuais, associações e cooperativas, organizações sociais, empresas e sindicatos, partidos políticos e outras entidades, que fazem da Cidadania, a sua verdadeira função. Sem querer citar aqui nenhuma, sempre digo que todos as conhecemos, “passamos por elas”, reportam-nos a elas, citámo-las tantas vezes. Talvez seja a hora de as convocarmos.

Quem terá a “coragem” necessária para fazer isto?

Talvez seja a hora, finalmente, de pensar que vale a pena.

23 janeiro 2021

 PLEASE, COME TALK TO ME




O mundo de cada um é os olhos que tem
José Saramago, Memorial do Convento, 274 (1982)

 

O meu é hoje, interdito e circunscrito, esperando melhores sortes. Aproveito o ensejo, meu Caro Amigo, “...o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”. Sim, “...Aqui na terra 'tão jogando futebol/ Tem ...muito choro.../Uns dias chove, noutros dias bate sol”. Falta-nos, é verdade, samba e o rock'n'roll. Falta-nos também a morna, a salsa e o eterno tango, num corridinho de movimentos perpétuos, uma dança. A menina dança? 

Sinto falta de inteligência, sem ser artificial. E de sabedoria também. Recorro ao Eco, ao Saramago, ao Torga, sei lá a quantos mais. Calvino e Mann, talvez. Os Poetas, quiçá. Yeats e a sua sabedoria e rebeldia, “...A sabedoria é uma borboleta/Não uma sombria ave de rapina”. Ou esta, “Oh, há sabedoria, sim,/Naquilo que os sábios diziam;/Mas entra essa corpo por instantes/E deixa passar a tua cabeça/Até que eu tenha contado aos sábios/Onde acha o homem o seu consolo”.

Podes falar comigo?”, diz e canta o Peter, que tem sabedoria e inteligência, coisa que parece não abundar por aí. “…Come down, come talk to me/In the swirling curling storm of desire /Unuttered words hold fast/With reptile tongue, the lightning lashes/Towers built to last/Darkness creeps in like a thief

O medo do escuro, que falta me faz o contacto, a cena do abraço, que estreita o que há de melhor em nós. Rir, dançar e recusar o óbvio e o redundante. Talvez desobedecer. O sentido da obediência traduz-se, segundo Frédéric Gros, em uma “...relação que forças a agir segundo a vontade doe um outro, de modo que, quando ajo permaneço passivo”.

No dia em que nos “convidam” a alguma “passividade”, saibamos desobedecer, sejamos (ainda que um pouco) insubmissos, o dom da eterna liberdade de pensar, agir e intervir na comunidade. Manda a sanidade mental, a inteligência.

Eu quero apenas ser cruel naturalmente/E descobrir onde o mal nasce e destruir sua semente”.

O canto doloso dos profetas, ditos salvadores, enleado na teia “enternecedora” da obediência, não é para aqui chamado. Deixa-me rir, “Pois é, pois é/Há quem viva escondido a vida inteira/Domingo sabe de cor o que vai dizer/Segunda-feira”.

É já amanhã!

 

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Contribuições, ainda que involuntárias, de José Saramago, Chico Buarque de Holanda, Peter Gabriel, William Butler Yeats, Frédéric Gros, Ivan Lins e Jorge Palma.

17 janeiro 2021

 VOTO JOÃO FERREIRA!


 
















A última coisa que esperaríamos confinar seria mesmo a esperança.

 

Por isso, hoje, no dia em que se antecipa o voto nas eleições presidenciais, deixo aqui o meu apoio ao JOÃO FERREIRA.

 

Porque dele espero, a defesa, o aprofundamento e ampliação do regime democrático consagrado na Constituição, como se pode ler na declaração de princípios da sua candidatura.

Porque considero fundamental combater o medo, que como ele afirma, “...é exacerbado e manipulado para restringir direitos e liberdades. A pretexto do combate ao vírus e da garantia de uma alegada “segurança”, impuseram-nos estados de emergência que nada tinham a ver com a observância de normas que a população já cumpria (e continuou a cumprir depois de abandonados), mas que visavam restringir o protesto e a luta, contra os abusos, os aproveitamentos, o oportunismo dos que querem continuar a enriquecer à custa da exploração dos trabalhadores e do saque dos recursos do Estado.”

Ainda, as suas palavras: “...Num mundo onde se tenha acabado a esperança, como o retratou Saramago no seu “Ensaio sobre a cegueira”, deixamos de olhar para o futuro, deixamos de o ver. “A cegueira também é isto”, dizia.”

 

A defesa da Constituição que, no seu Art.1º, consagra o nosso País, como uma “...República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.”, tem no JOÃO FERREIRA, a melhor e mais correcta interpretação

É na luta por uma Esquerda que terá a verdadeira maioria, quando souber assumir a defesa do País, enquanto República Soberana, quando denunciar eficazmente as políticas económicas de empobrecimento e miséria, mascaradas de soluções tecnocratas, quando apresentar soluções credíveis, entendíveis e viáveis, que deixem sem resposta os falsos profetas e aqueles que querem hoje falar em nome do povo.

 

Por isso e pela “...força que há em todos, em cada um de nós”, o meu voto e o meu apelo: Vota JOÃO FERREIRA!

 

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Nota: todas as citações são extraídas da Declaração de Candidatura de João Ferreira, disponível em: https://www.joaoferreira2021.pt/declaracao-de-candidatura