rio torto

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03 janeiro 2022

 VIRAR A PÁGINA?


















Desde o dia de Ano Novo, em que Marcelo disse da necessidade de virar a página, só se fala nisso, embora de forma retórica e desprovida de qualquer sentido.

Querem então virar a página?

Posso ajudar, alinhando 10 singelas notas, para a tal viragem:

1.     parar de injectar dinheiro nos bancos e investi-lo onde faz falta;

2.     aumentar os salários em Portugal, de forma a fazer a tal “convergência” com a europa;

3.     aumentar as pensões, que estão (na sua maioria) iguais ao que eram há mais de 15 anos;

4.     promover o necessário investimento público, na Saúde, apostando no SNS, que continua a dar lições de eficiência e qualidade, apesar de haver profissionais mal pagos e mal-tratados nas suas carreiras;

5.     idem na Educação, pagando salários decentes aos professores e apostando nas suas carreiras;

6.     idem, no Ensino Superior, apostando na investigação e no aumento de licenciados;

7.     incrementar a economia, deixando de lado as tais “cativações”, investindo em vez de desinvestir;

8.     apostar decisivamente na habitação pública, para que todos os portugueses tenham a sua casa e não haja pessoas a morrer de frio, na rua;

9.     atacar de vez os privilégios e a corrupção e vive-versa, uma vez que se trata de uma e mesma coisa;

10.  passar a encarar de uma outra forma a dependência e a subserviência com as regras europeias que determinam a pobreza e a estagnação do País, não admitindo de forma alguma que sejam os burocratas irresponsáveis da comissão e do BCE a dizer ao Governo qual deve ser a política orçamental.

Não sei se seria esta a ideia do Marcelo.

Se for, tiro-lhe o chapéu 

(o problema é que eu não uso chapéu...)

31 dezembro 2021

O TEU BALANÇO É MAIS DOCE QUE O MEU (?)


 

Por esta altura do ano fazemos balanços.
Balançamos ou Balanceamos?
Uma ou a mesma coisa, aqui apenas se reflecte sobre quanto é mais doce o balanço.
Como se mede a doçura de um balanço?
Pela leveza da palavra?
Pela assertividade da afirmação?
Pela loucura do gesto?
Será porventura na leveza do discurso que descansa o segredo do conceito. Falamos de forma suave (doce) quando queremos ser agradáveis, serenamente. Expressamo-nos de forma vigorosa quando nos queremos defender. Ou "atacar" uma qualquer ideia, que julgamos correcta.
Resta então o balanço, que sendo um exercício de movimento constante, quiçá perpétuo, pensa ser um Direito a que temos direito. 
E temos.
Daí que, no último dia do ano, neste particular, um belo dia de Sol, queremos que seja ... a caminho do mar. Seja ele o mar do nosso destino, ou simplesmente do nosso contentamento.
Assim mesmo, a caminho do mar!
(para não dizer que não falei de marés)

24 dezembro 2021

 ERA – (2)
(podia ser uma estória de Natal)


 

















Era assim também.

Nesta quadra sempre vem à memória como era dantes, nos tempos em que a idade não era um posto, mas um gosto. 

Muito embora, como antes, o Natal seja uma festa cristã, uma data em que a igreja católica celebra o nascimento do Homem, as festividades habituais ultrapassam a religiosidade e deixam ao presépio a excelência da data. 

O presépio era o centro de tudo.

Quer pela imagem, quer pelo pormenor da sua construção, era o presépio o rei da festa da minha juventude. Que bem recordo o cerimonial da apanha do musgo e da escolha da árvore, calcorreávamos as matas mais próximas, eram quilómetros, era tanto tempo, na altura em que havia tempo para tudo. Eram 2 ou 3 cestos grandes com o musgo, apanhado nas encostas, em cima das pedras, enfim, nos lugares onde a humidade mais se fazia sentir. Ninguém discutia, na altura, o papel fundamental que os musgos representam para a preservação dos solos e para o combate à erosão, a apanha de musgo era uma actividade normal à época, não havia comercialização, como agora. 

A feitura do presépio era uma empresa considerável. Demorava dias a fio, era sempre numa das semanas de férias da Escola. Havia uma mesa enorme, nas lojas da Casa, que era transportada para a sala de jantar e ocupava seguramente uma parte considerável da área daquela. A primeira fase, o projecto, era a definição dos locais, saber onde iam ficar a cabana, a igreja, o rio, a ponte, e os vários caminhos a traçar no terreno. Depois, havia que atapetar a mesa com o musgo que se havia conseguido. Havia ainda elevações de terreno, feitas com caixas e pedaços de madeira, onde eram colocadas as casas, construídas pelo meu Pai, tal como a cabana do menino.  Os caminhos eram feitos com serrim que se ia buscar à fábrica do senhor Araújo. Depois vinha a colocação das dezenas de figuras, os pastores, os agricultores, os reis magos, os animais e, naturalmente, as figuras da mãe, do pai e do menino. A fase mais espectacular era, sem dúvida, a electrificação do presépio: a cabana, a igreja e todas as casas tinham dentro uma lâmpada e respectivas ligações, fios e cabos, constituido daquela forma a iluminação, a face mais apelativa da obra.

Ditava a tradição que o presépio só ficaria concluído no dia 24 à noite. O caminho dos reis magos iniciava numa ponta da mesa e terminava do outro lado, na cabana. Todos os dias as figuras iam avançando no terreno, até lá chegarem na noite de 24, uma tarefa que era cumprida sempre com afinco.

 

Hoje, sem musgo e sem árvore, improvisa-se da melhor forma possível. Mas as figuras, ou algumas delas, ainda fazem parte do meu património de outros tempos e ocupam orgulhosamente o seu lugar na construção actual. Já não existem as velhas lâmpadas incandescentes de outrora, as casas passaram à história, reflectindo um pouco a crise da habitação que deixa muita gente na rua, os reis em vez do ouro, incenso e mirra possivelmente levam acções de qualquer banco falido e que ninguém quer e somos nós que levamos a oferenda, ou seja, todos os anos, e várias vezes ao ano, lhes “emprestamos” o capital de que eles “precisam”, a caricatura de uma modernidade que distorce a realidade e vive da ilusão. 

 

Fica a imagem e, porque não, que viva o presépio!

17 novembro 2021

 ERA – (1)


Era à soleira da porta que espreitava as novidades. Que, diga-se de passagem, não eram rigorosamente nenhumas, tão sensaborona era a vida de então. Todavia, de quando em vez, lá aparecia alguma coisa, a tal novidade que era, mesmo sem o ser. Era a soleira da porta, contudo longe da rua, lá fora a correr.,
De certa forma era a transição entre o “fora” e o “dentro”, que devia estar em causa. Naquela aldeia do Minho de então, era tudo sempre igual, as mesmas pessoas, “bom dia menino”, algumas carregadas de passado e sem nenhum presente digno desse nome, quanto mais futuro.
Eram as poucas casas, umas três ou quatro, com a mercearia do Mota, que também tomava conta da luz eléctrica e a desligava quando estava mal disposto, pelo menos era o que se dizia. E era a casa do tio João, um pouco mais acima.
Passavam carros, muito poucos, quase todos tinham nome, o chevrolet do Dr. Magalhães, o mercedes do Sr. Santos. Mas eram as camionetes da carreira que naquela altura pontificavam, as empresas que faziam transporte, a hoteleira do Gerês, o Tecedeiro, o Marinho, o Peixoto e outro que era o Salvador, que rumava mais para Norte.
Era o rio, sim. Mais propriamente, os rios, porque eram dois e um desaguava no outro, sem qualquer cerimónia, todos os dias. E a gente gostava deles, porque era na água que repousavam todas as mágoas possíveis daqueles dias de infância. E foi naquelas águas bem frias, com quem, esbracejando, aprendemos a conviver. Havia um encanto secreto em uma das margens, na outra morava talvez a incerteza, algo que estava um pouco mais além da compreensão, havia muito para dizer sobre isto.
Havia medo? Talvez, mas era sempre disfarçado, filtrado pela excessiva protecção dos pais e do resto da família. Havia de acontecer medo naquelas situações em que se arriscava mais que o permitido, que pouco era.
Havia a senhora Rosa, uma mulher de grande saber, mas que confessava a sua nulidade, porque era criada e assim o tinham que ser aqueles a quem não era permitida qualquer valorização, ou ascensão no elevador social, uma coisa que não se sabia muito bem o que era na altura, mas que sempre ditou a sorte dos mais fracos.
Havia sol.
- Mãe, porque andam os meninos descalços?
- Assim foi e assim será, é o povo da aldeia, apenas isso.
A partir de certa altura haveria aquilo de me fazer alguma confusão, misturada com o facto de não ter autorização de brincar com eles.
O povo da aldeia.
Havia frio.
As casas, mal aquecidas, eram grandes de mais, eram enormes, era tudo grande demais. A parte mais bonita da casa, onde havia um quarto no sótão, com vista para o rio, uma imensidão de água. Tão imensa que, no Inverno, subia todas as margens possíveis e imaginárias, alojando-se tranquilamente quase ao nível das lojas, a parte mais baixa da casa que, apesar de tudo, resistiria sempre à invasão.
Era a época do ano mais bela, porque diferente e assustadora.
- Pai, porque temos medo da força da água?
(desta pergunta não lembro a resposta, apesar de o Pai ter sempre resposta para tudo).
Era a largueza de um tempo sem medida, na medida exacta do tempo que existia. Se bem me lembro, havia tempo para tudo.
O era deixaria de ser um dia, quando a natureza mandou que fosse. Entretanto, continua em nós, até que seja tempo. (...)

15 novembro 2021

 DIAMANTES DE LÍTIO
(ou a dupla face da “inevitabilidade”)

 

Confesso que não aprecio o termo “exploração”, quiçá por me trazer à memória o peso que o mesmo tem (ainda) sobre a maioria dos cidadãos.

Confesso também que não sei o mais me inquieta, se a inevitabilidade de um ministro a prazo, se o significado da ignorância técnico-científica de quem deveria ter algum cuidado quando aborda a dita inevitabilidade. 

Mas se calhar há coisas mais importantes que a evidência que a comunidade científica atribui à mais completa irrelevância da exploração que, no nosso País, mais se fala, se debate e se protesta. E claro que aquelas “coisas” têm muito valor, na sociedade do desperdício e da inevitabilidade de certos negócios. Há que lhes chame “interesses inconfessados”, outros que preferem designá-los de “conluios”; os mais ousados, arriscam uma designação mais contundente: “pagamento por conta”.

Se porventura ouvisse Ovídio a dizer, “Se eu pudesse, seria mais prudente; mas uma força nova / arrasta-me contra a minha vontade, e o desejo / atrai-me a uma direcção, e a razão, a outra: / vejo e aprovo o melhor, mas sigo o pior”, talvez o dito senhor pudesse pensar melhor, antes de seguir (quase sempre) o pior.

Mas o que valerá mais, no meio da confusão mediática, um miligrama de lítio, ou um grama da pedra preciosa roubada no corno de África? A dar crédito à notícia do putativo valor da pedra, a preciosidade da dita andará muito abaixo, ou se quiserem, muito por baixo. Pode (deve) colocar-se a questão, tão clara quanto a água que nunca será bastante para a exploração: quem é mais incompetente, aquele que rouba a pedra e depois vem a saber que não vale mais de 200 euro, ou aquele que permite que alguém vá roubar a pedra à terra, sabendo de antemão a insignificância de tal exploração? 

Há quem assegure que a arrogância é a alma gémea da incompetência. Será, não será? Ao ver o ouvir afirmações “inevitáveis”, somos levados a admitir que sim.

 

Ligar aquela inevitabilidade ao que se passou em Glasgow, é capaz de ser interessante. O “equilíbrio consensual” para um mundo mais limpo, a ser procurado por aqueles que mais o sujaram e ainda sujam, é tão credível, como a estória do deixar o lobo a tomar conta do galinheiro. Mas há quem acredite, porventura uma questão de fé, como a dos dirigentes pressurosos que juram a sete pés vontade de contribuir para um mundo mais “verde”. Verde pode ser assim a cor possível dos novos negócios e concessões a quem esses dirigentes são fiéis, por vezes de forma canina, salvo seja. O verde, o verdadeiro verde, é aquele que dia a dia desaparece um pouco, graças à acção desses “funcionários” da desgraça.

Isto é que é capaz de ser desgraçadamente inevitável.

17 outubro 2021

 DIA INTERNACIONAL PARA A ERRADICAÇÃO DA POBREZA

https://unric.org/pt/dia-internacional-para-a-erradicacao-da-pobreza/?fbclid=IwAR1_xDn-Jcz67-2HM0cDqDn2Z9-gKb3nsZg9R_fdedSQ9ItetaStba0UOlY

 

Na declaração, pode ler-se:

"Neste Dia Internacional, comprometemo-nos a alcançar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável #1 e uma globalização justa que funcione para todas as crianças, famílias e comunidades."

 

Claro que, já se sabe, a globalização não é, nem pode ser nunca, "justa", uma vez que se baseia em princípios e conceitos económicos (e não só) errados e completamente contrários ao real desenvolvimento dos povos, particularmente dos mais vulneráveis.

 

Há uns anos atrás, no longínquo 2007, três investigadores das Nações Unidas [Hamish Jenkins,  Eddy Lee e Gerry Rodgers], publicaram um estudo independente ["O combate por uma globalização justa nos últimos três anos", disponível em: https://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---europe/---ro-geneva/---ilo-lisbon/documents/publication/wcms_722490.pdf]

, em que salientam precisamente algumas das injustiças da globalização, advertindo aliás para “...os efeitos da desigualdade, da insegurança e da incapacidade de fornecer o suficiente às pessoas no seu dia-a-dia”. 

 

Nesse estudo chamaram também à atenção para as formas correntes de globalização, que, no seu entender, “.. tinham exacerbado problemas existentes de desigualdade nas e entre as nações, desenraizado as comunidades e as economias locais, minando os modos de vida indígena e gerando uma sensação generalizada de insegurança e de fragmentação social.”

E aconselhavam desta forma: “a globalização justa começa em casa, com acções nacionais e regionais mais eficazes; que as regras da economia global precisam de ser modificadas; que o trabalho digno deve tornar-se num objectivo global; e que as instituições internacionais, que podem fazer avançar esta agenda, deveriam prestar mais contas às pessoas.

 

Seria expectável que, neste dia (e nos outros dias do ano...) as organizações e agências internacionais, a começar pelas NU, prestassem mais atenção às pessoas e tornassem as suas declarações de circunstância (como a que aqui se ilustra) em acções concretas.

Só que isso é o mais difícil...

11 outubro 2021

ÁGUA PESADA


 


 











Diz-se de uma variante da água, muito semelhante, em termos químicos, à água normal, mas que inclui o isótopo de deutério do hidrogénio (2H2O ou D2O). Pesada, porque simplesmente aqueles átomos de hidrogénio são mais pesados, uma vez que os seus núcleos têm a mais um neutrão, para além do protão característico dos átomos de hidrogénio. Em termos muito simples, o protão, é a partícula do núcleo de um átomo com carga eléctrica positiva e o neutrão, a partícula do núcleo de um átomo desprovida de carga eléctrica.

 

Apresentada a ciência da Física Atómica, pretende-se estendê-la, ou, como é usual fazer-se, aplicá-la ao mundo real, neste particular à política concreta, se tal coisa tiver vida própria e for possível (porque não?) atribuir-lhe um valor, positivo, negativo, os simplesmente “sem carga”. 

Vem a propósito, a “carga” que o OE representa, ou representará, na vida dos cidadãos deste país, muito embora se saiba, que “...há mais vida para além do Orçamento”, uma conhecida asserção, da autoria do saudoso Jorge Sampaio, corria então o ano de 2003.

A água pesada é conhecida, na gíria comum, pelo papel que desempenha na regulação dos processos dos reactores nucleares que não usam urânio enriquecido. A saber, quando os ditos (reactores) se envolvem na fissão, libertam os tais neutrões, que são partículas conhecidas pelo seu movimento, que é tão rápido, que necessita de alguma estabilidade, necessária para que a reacção em cadeia seja devidamente controlada. Aí entra a água pesada, como o dito regulador.

À possível confusão, criada pela introdução da Física, sucede a circunstância da possível assimilação de um processo, controlado, ou nem por isso, para que a reacção, ou reacções em cadeia, se processem de forma, digamos, pacífica. Tal poderá, contudo, não ser viável, se entrarmos em linha de conta com outras variáveis, não propriamente físicas, mas sobretudo de ordem socio-psicológica. 

 

A questão das cargas

O que é, ou não, positivo, pode, em determinada fase do processo, ser fatal para o mesmo, ou pelo contrário, ser aditivo, em termos de importância. Vamos por partes. Enquanto no processo de fissão (nuclear), se constata a partição de um núcleo atómico, pesado e instável, em dois núcleos atómicos médios, no processo político apenas interessa a particularidade de ser “aditivo”, ou seja, que junte os diferentes contributos, para produzir um “núcleo” forte, que possibilite uma execução equilibrada.  

Por razão evidente, se conclui da necessidade de “cargas” positivas no processo, ou no mínimo, que não tenham qualquer carga, a saber, que não introduzam elementos de diversão ao objectivo final. 

 

O papel da “água pesada

Se tem papel, se interessa que tenha algum papel, ele tem que ser devidamente pesado. Não se pense que a água é “neutra”, ou politicamente inócua, como por vezes se pretende. Se porventura, como acontece na fissão nuclear, se pretende uma quebra, ou uma divisão, na política orçamental devia pretender-se exactamente o contrário. Aparentemente, o contrário. Todavia, a dialéctica da coisa, deixa antever, como sempre, a aproximação ao dito processo de fissão. Bem ou mal, acaba por ser quase sempre assim. 

E aqui entra a “água pesada”. Apenas um ligeiro pormenor de um “neutrão a mais”, para lhe conferir o tal “peso” que faz a diferença, ou a afirmação da diferença, pelo peso conferido pela razão? Traduzido em palavras “normais”, será um orçamento como os outros, preocupado sobretudo no cumprimento das metas do défice, ou um orçamento especial, num momento de crise evidente, onde os que mais sofrem são sempre os que acabam por pagar o ónus de uma carga, “pesada” demais para os respectivos ombros? Um orçamento que “suporta” a evidente e aparentemente generalizada subida de preços, com a necessária resposta dos sindicatos, que desencadeia o conflito negocial? Ou um orçamento de “pacificação”, devidamente acordado (ou controlado?) pelo acordo (que parece próximo) do Partido Socialista com a Esquerda parlamentar?   

 

Avançando, ou apenas continuando a ilusão?

Nas duas questões anteriormente colocadas, pode entroncar uma vez mais (não entra sempre?), a centralidade evidente da necessidade de controlar devidamente o papel desempenhado pelo partido do governo. E tal controle só é possível, com a presença da Esquerda no Poder. É a tal diferença que a “água pesada” confere, apenas um neutrão a mais. Porque não se pense que é derrubando Costa que o País vai resolver algum problema, mas sim forçando-o (sim, é este mesmo o termo correcto) a negociar com a Esquerda. Não é Direita que tem a solução, falta-lhe “carga” para despoletar seja o que for, para além do fogo de artifício provocado pela agitação constante e permanente do espectáculo e da diversão onde se movem as figuras que conhecemos. De todo. A evolução, no sentido de uma política de substância aditiva, que signifique melhores condições de vida para quem realmente necessita, estará porventura no despoletar de um processo de fissão, não no sentido da “quebra”, ou da “divisão”, mas no caminho da libertação de uma quantidade enorme de energia, típica deste tipo de processo. É dessa energia que o País precisa para que a transformação comece, ainda que timidamente, a dar os passos certos e necessários.

 

Sempre a Física a dar respostas?

Existe um isótopo ainda mais pesado de hidrogénio, que não é utilizado para água pesada, nos reactores nucleares. Não falamos dele, porque é radioactivo e ocorre muito raramente na natureza, é um subproduto de eventos nucleares. A ingestão ou inalação artificial de trítio (assim é chamado) pode ser algo inconveniente para o ser humano. O cidadão deve ficar apenas pela preocupação natural em evitar este isótopo, ou outros de perigo semelhante, que desgraçadamente pululam por aí. 

Fica, pelo menos para já, a sugestão de leitura de mais informação científica, caso ocorra algum perigo de contaminação.

Para bem entendedor, basta, contudo, um conselho básico: evitar o contágio.

10 outubro 2021

 A MÚMIA AINDA MEXE


 

















Uma notícia recuperada do ano passado, conta que um grupo de cientistas teria recriado a voz de uma múmia egípcia com 3 mil anos.

Aqui, neste reino de algumas múmias vivas, ganha particular saliência a múmia de Boliqueime que, de quando em vez e sem precisar de apoio tecnológico, emite uns sons, repetitivos e monocórdicos, que cheiram a naftalina e tresandam a ódio ressabiado. 

Desta vez a “emissão” centrou-se na chamada de atenção para a “forma limpa” como o País teria saído daquela desgraça negociada com a troika, a que chamaram “Programa de Assistência Financeira”. E ainda tem o desplante em grunhir, "Portugal continuou a crescer menos do que os países com que se deve comparar e o empobrecimento relativo, que devia ter começado a reverter, continuou a agravar-se. Tem sido o reflexo de uma vitória dos partidos da extrema-esquerda apoiantes do Governo, de cujos objetivos faz parte a fragilização dos fatores de crescimento da nossa economia, e que, explicitamente, apoiam Governos de países onde impera a ditadura e a miséria"

 

Para este miserável representante de um passado de ruinosa memória, quando recebeu milhões da EU e apostou no betão, patrocinou cursos de formação fantasmas pagos a empresas de amigos, liquidou o tecido empresarial do País, matou a agricultura e as pescas e desprezou a Educação, a Cultura e a Cidadania (deixem-nos trabalhar, lembram-se?).

Esta múmia que desgraçadamente continua a fazer-se ouvir (não existe infelizmente uma tecnologia de inversão) esteve sempre do lado dos corruptos que lhe encheram paulatinamente a pança, vem agora atormentar o nosso sossego e perturbar as consciências de quem trabalha (sim, de quem trabalha!). 

Tudo o que possa vomitar hoje, do seu lúgubre túmulo, apenas tem valor para os que o seguem (mas haverá quem?) e para mostrar que o País trata bem de mais quem o tentou destruir...

Desejar paz á sua alma é um lugar-comum que pode parecer estranho...

05 outubro 2021

 A BELA REPÚBLICA

 













A REPÚBLICA sorri sempre no 5 de Outubro e mostra os seus atributos ao Povo, qua a observa e vê como é bela e plena de pujança e vigor.

Na mão direita a espada, na outra a bandeira, à frente do Sol que brilha sobre as cabeças, umas ocas, outras com substância.

Tudo tem alguma importância.

 

Que bem resistes, REPÚBLICA aos arremessos torpes daqueles que não te amam, nem sequer um pouco e nem querem ver a tua abnegação, bela e recta, triste e alegre, calma e furiosa, um pouco de sal no tempero, que vai bebendo algum fel, mesmo quando a água te leva por um Tejo acima, e deixa os Douros e Guadianas saudosos de protagonismo.

Que bem resististe aos tortuosos ataques, comandados de Boliqueime e Massamá, alguém vai um dia dizer da tristeza que nos assistiu, quando te quiseram vendar ao desbarato, bem como quando quiseram fazer de ti, um qualquer pajem balofo, curtido nas profundezas de um reino distante e sempre oblíquo, diante da tua rectidão.

Que bem irás resistir um dia aos torpedos que irão sobre ti lançar, os mercenários da desgraça e inimigos da inquietude que nos ensinaste.

 

Então REPÚBLICA  poderás dizer quão iníqua é a resiliência a que te querem submeter. Dirás por certo aos quatro ventos que não é por acaso que mostras o mais belo que há em ti. E que tal sirva de lição aos espíritos acomodados da burguesia falsa e de uma pequenez assustadora.

Dirás um dia que é o brilho do Sol que te guia e não a escuridão triste dos gabinetes, onde os burocratas engendram, dia a dia, formas ímpias de te tapar.

 

AVANTE, REPÚBLICA, ESTAMOS JUNTOS!

 

 

03 outubro 2021

UMA LINGUAGEM DE “ELEIÇÃO”

















Se falamos em noite eleitoral, falamos do que sabemos, de resultados, reacções, concessões, consequências, lições e ilações, coligações, acordos e desacordos, avenças e desavenças, suposições e composições, relatos e declarações, contagem e recontagem. E mais, porque assim se passa, não no terreno, mas na secretaria, de sondagens, antes e à boca da urna. Falamos de discurso e retórica.

Falamos de política e de cidadania.

Somos Cidadãos. Mesmo que não só para o voto, sempre para a participação, quando ela se abre e depressa se esgota.

Falamos com determinação.

Por vezes, com o coração, nem sempre com a razão, quando mesmo sem razão.

 

ANTES DA NOITE

Tudo se diz e se reclama. Tanta coisa se não diz e se proclama. As sondagens, ditas seguras e com margens de erro irrelevantes, condicionam (e de que maneira) o voto de uma percentagem significativa do dito eleitorado, particularmente aquele que acredita existir a alternância, boa (dizem) para a democracia. Pobre democracia, que se revê em sondagens e outras formas esquisitas de abordagem do votante, cada vez mais indefeso, perante as subtis formas de organização administrativa da democracia.

 

A NOITE

É do rescaldo do que acontece que a noite se alimenta.

Parece.

E assim, se dilui a vitória de uma direita que, apesar de não disfarçar a nunca a sua verdadeira postura, vai fazendo o seu trabalho, em prol da “alternância”. O candidato que nunca pensou em ganhar, vai ter agora a árdua tarefa de lutar contra uma maioria hostil.     
Será assim de facto, em Lisboa?               
Que será a posição do Partido Socialista, que sempre teve em Medina uma figura sem crisma e sem prestígio? E, para além disso, sempre com arrogância, característica de um líder fraco e desgastado por contradições insanáveis.     
Será por outro lado a derrota da Esquerda? Também aqui a dúvida se parece instalar, sobretudo para quem considera que existe em Lisboa uma “maioria de Esquerda”. Não creio que tal corresponda à realidade, uma vez que, para isso ser verdade, teria de existir uma coligação ou um acordo, subscrito e assinado pelos actores políticos, organizados ou não nos partidos do lado esquerdo do espectro político.     
A questão central é mesmo esta.

Na actualidade, não se pode ser considerado de Esquerda, um partido político que no exercício do poder pratica o mesmo tipo de medidas da Direita, ainda que disfarçadas. Quem melhor que o Partido Socialista ansiaria para a capital do País, um autêntico centro de turismo e de negócios? Que medidas foram tomadas, por exemplo, para defender a habitação social, apenas para citar a mais importante marca da Esquerda, na defesa do direito à habitação?

Em Lisboa, como no Porto, mandou quase sempre uma administração burocrática, em detrimento da verdadeira democracia participativa. 

A noite acabava de confirmar a dita resiliência, a melhor forma de conformação.

 

 

E DEPOIS DA NOITE

A maior parte das análises e comentários, dos mais diversos quadrantes, parece convergir ao dizer a mesma coisa, mesmo que de forma diferente, analisando o número de câmaras o número de votantes, a presidência da associação de municípios, concluindo da vitória, retumbante em algumas posições, do Partido Socialista.                 
Decerto que, continuando na mesma linha de raciocínio, venham afirmar e teorizar sobre a maioria de esquerda, sociológica e morfologicamente instalada no País, oscilando para um lado e para o para o outro lado, consoante o apoio que Partido Socialista vai conseguindo, em torno de matérias e conteúdos susceptíveis do agrado quer do Partido Comunista Português, do Partido Ecologista Os Verdes, do Bloco de Esquerda, sempre em separado, creditando em cada uma das citadas formações partidárias, o mérito de cada medida.
Se as lições que os resultados encerram pudessem ser úteis, tal como aliás em outros actos eleitorais, apontariam decerto para duas conclusões, que parecem  claras: (1) O Partido Socialista não é um partido de Esquerda, muito embora tenha no seu seio muita gente de Esquerda; (2)       O Partido Socialista só será capaz de ensaiar políticas de esquerda, desde que exista uma solução de poder que agrupe, os partidos atrás referidos, bem como outras formações partidárias da Esquerda e ainda outras organizações políticas da sociedade que se reclamam dos valores relevantes e necessários à libertação do jugo do capital financeiro e do capitalismo neo-liberal.

E a validade desta tese confere legitimidade aos seus representantes para assumir, quer a nível local e regional, quer a nível nacional, a luta para travar o propalado (e por vezes incentivado) avanço da extrema-direita em Portugal. Note-se que não é apenas do Chega que vem o perigo extremista, reaccionário e manifestamente “liberal”.  Ele está no que resta do CDS, na IL, nas franjas do PAN e, curiosamente, no próprio PSD, cujo líder tem um discurso e uma retórica populista e perigosa, que o aproxima da extrema-direita.

 

UMA VEZ MAIS, A LINGUAGEM

Facilmente poderíamos hoje assimilar o que George Orwell escreveu em 1946, num ensaio notável, “A Política e a Língua Inglesa”.  Uma grande parte dos actores partidários, dirigentes e outros funcionários, deveriam atentar, sobre o uso de uma certa linguagem, corrompida pelo pensamento, e por um pensamento corrompido pela linguagem. A sugestão de Orwell parece um aviso a todos os que querem fazer da política um acto exangue: “Talvez seja preferível adiar o mais possível o uso de palavras, tratando de esclarecer em primeiro lugar as nossas ideias por meio de imagens e sensações”.

Depois da Noite, continuam os discursos, constituídos em grande parte por eufemismos e formas vagas, convidando e anunciando a “alternância”. 

Para os funcionários e burocratas, ela oscila entre os dois partidos do centrão. Para os cidadãos, alternância a sério é uma mudança radical de políticas, promotoras de autonomia e consideração pelos seus direitos. 

Para os funcionários e burocratas, parece haver sempre um filtro que impede a luz de fazer o seu percurso natural. Os cidadãos querem ver o Sol, ainda que para tal, tenham de derrubar os filtros e as paredes que lhes tolhem o caminho.

18 setembro 2021

 UMA CONFRANGEDORA TRISTEZA

 

Parece triste de mais para ser verdade. 

Contudo, num dia em que muito se falou nos preços da energia em Portugal, os Ministros Galamba e Matos Fernandes, lançam-se para fora do País e acusam o Governo da Espanha (!) de mentir aos cidadãos.

 

Se mais preciso fora para provar a incompetência e mediocridade política dos dois Senhores, aí estão os factos, para provar. Não, meus Senhores, não atirem a responsabilidade para o Bloco de Esquerda, para disfarçar a Vossa demagogia. É toda Vossa a culpa da situação em que o País caiu, às mãos ávidas dos especuladores.

Aliás, a coisa pode resumir-se assim: ENQUANTO VEMOS O VALOR DA FACTURA SUBIR, ELES DIZEM-NOS QUE VAMOS PAGAR MENOS...

 

Merecem pois, tais personagens, o nosso repúdio e indignação. 

Estes e praticamente todos os outros que ocuparam os mesmos lugares, permitem que as grandes empresas de distribuição façam o que sempre fizeram, a coberto de uma auto-designada “entidade reguladora”, que apenas regula os seus interesses, que sempre coincidem com os do grande capital.

É triste, verdadeiramente muito triste, constatar que continuamos a ter os preços mais altos da Europa, com os salários mais miseráveis e a situação das famílias mais carenciadas a degradar-se sempre e cada vez mais.

É mais que certo que este “pequeno aumento” da energia se vai reflectir nos circuitos económicos, com a consequente subida dos produtos e bens de consumo imediato.

E tudo isto, ao que parece, em nome de uma propalada “descarbonização”, em favor de um “verde”, que apenas existe no cromatismo pérfido das cabeças “bem-pensantes” dos dignitários do capital. Quem têm na boca a “sustentabilidade” e na mão o machado da destruição da natureza e do equilíbrio natural e social.

 

Que estes senhores ainda estejam no Governo, não é de estranhar. Parecem de facto cumprir bem a função de “protectores"...

São, na linguagem “moderna”, os famigerados influencers, a saber, aqueles que detém o poder de influência num determinado grupo de pessoas. 

 

Depois que se queixem. 

Virão um dia (é sempre assim), dizer que foram perseguidos por perigosos “esquerdistas”, que apenas existem para “negar” a sua existência. 

Exige-se vigilância e muita atenção! 

Na verdade, é a acção de gente desta que contribui paulatinamente para o avanço do populismo e para abrir caminho à ascensão da extrema-direita.

 

23 agosto 2021

CARTA ABERTA AO MINISTRO JOÃO GOMES CRAVINHO

 

Porto, 23 de Agosto 2021

Senhor Ministro da Defesa Nacional do Governo da República,

Exmo. Senhor Dr. JOÃO GOMES CRAVINHO,

 

Ao Senhor Ministro da Defesa, me dirijo, por força do artigo de opinião, que publicou no DN do passado 18 de Agosto.

O Senhor é uma pessoa que bem conheço, dos tempos em que era SENEC[i] e eu desempenhava funções de Presidente numa ONGD, trabalhando também na Plataforma das ONGD e por quem manifestei, na altura, o meu respeito e alta consideração, pelo trabalho que desenvolveu, em prol da Cooperação e da Educação para o Desenvolvimento.

 

O título do referido artigo é elucidativo e quase diz tudo, “Duas décadas no Afeganistão ao serviço da paz e da segurança internacionais”. Na realidade, refere-se concretamente à presença portuguesa, ao lado das forças internacionais, a designada ISAF (Força Internacional de Apoio à Segurança). E refere ainda a RSM (Resolute Support Mission), que, segundo afirma, tinha como objectivo, “...a transferência da responsabilidade global pela segurança do país para as autoridades afegãs”(sic).   

Quanto à primeira (ISAF), é bom que se diga que foi uma força liderada pela NATO, classificada aliás pelo senhor Anders Rasmussen[ii], como “...a missão mais exigente que nossa Aliança já empreendeu” e sobre a qual disse, “... apesar de muitos desafios, e apesar dos contratempos ocasionais, estamos fazendo um progresso constante![iii]. E sobre a segunda (RSM), convém lembrar que foi formada a 1 de Janeiro 2015, para que a NATO pudesse conduzir “...uma nova missão, essencialmente de treino, aconselhamento e assistência, no Teatro de Operações do Afeganistão[iv]

 

Senhor Ministro, como pode dizer, que “...as nossas forças ofereceram um valioso e decisivo contributo para a paz e estabilidade na região”, quando a realidade demonstrou o mais rotundo dos fracassos, em toda a linha, quer quanto à “paz”, quer no reporta a “estabilidade”? Como é possível falar dessa forma, num momento em que os diferentes analistas e especialistas internacionais, são quase unânimes (finalmente) em afirmar que a intervenção no Afeganistão teve apenas como objectivo a tentativa de querer moldar (mais um) país, à sua imagem e semelhança, que (também infelizmente) não são um bom retrato para ninguém? Como pode ignorar que foi “apenas e só” uma ocupação de 20 anos, para deixar tudo na mesma ou ainda pior? 

Senão vejamos alguns números: 47 mil vítimas civis, 66 mil solados afegãos, 72 jornalistas e 444 trabalhadores de ajuda humanitária, sacrificados na guerra. Por causa desta guerra, o Afeganistão perdeu, em 20 anos, quase 3 milhões de habitantes, fugidos e agora refugiados e migrantes noutros países. Esta guerra de duas décadas, que matou milhares de soldados americanos, britânicos e de outros países (Portugal incluído), acaba por mostrar hoje, uma nação arruinada e perfeitamente desarticulada e que significou um custo calculado em mais de 2 mil milhões de dólares. 

 

Nem sequer o facto de terem sido resoluções das ditas nações unidas a ditar grande parte das “intervenções”, justifica agora esta profunda hipocrisia de americanos e “aliados”. A verdade é que o Império e o seu aparelho de guerra, a NATO, fugiram vergonhosamente, tal como em Saigão, no ano de 1975. E que o pretendido disfarce, não significa senão mais uma derrota estrondosa dos EUA e dos seus “aliados”. Entre os quais, está sempre e em todas as ocasiões, o nosso País, ou melhor, os governos do País (todos e sem excepção). 

Senhor Ministro, será que não consegue fazer um simples exercício crítico de memória, em vez da quantidade imensa de palavras que gasta na glorificação da guerra e no mais que evidente alinhamento com a versão oficial americana e da NATO? Ignora a devastação imensa produzida por uma guerra de ocupação, que, em vez de servir os propósitos que anunciou, aumentou o risco do terrorismo, no Afeganistão e no resto Mundo? Ignora o enorme arsenal de material e equipamento “oferecido” aos talibans, bem como todo um sistema informático de intrusão no domínio privado, que irá permitir aos talibans perseguir, decerto sem piedade, todos os que colaboraram? 

 

Senhor Ministro, será que não sabe, por exemplo, que o foi o primeiro dos presidentes promovidos pelos americanos (Hamid Karzai), que promulgou a lei xiita da família, em que era dado aos maridos o direito a forçar sexualmente as suas mulheres e que incluía a autorização do casamento de adolescentes de 14 anos? Como pode assim falar, no seu texto, em espezinhamento pelos talibans, de direitos das mulheres e raparigas, “esquecendo” o que fizeram pessoas como a que cito?

 

Senhor Ministro, aconselho-o a ler, na mesma edição do DN, o artigo da Susete Francisco, cujo título elucidativo é “Um “espantoso” erro de avaliação que não deixa Portugal incólume”. Talvez lhe avive a memória e o faça pensar em tudo o que escreveu. Remeto de novo para o título que escolheu, para lhe dizer, finalmente, que as duas décadas no Afeganistão, ao contrário de que afirma serem “...ao serviço da paz e da segurança internacionais”, foram ao serviço da guerra e da destruição, ao serviço dos ditames do império americano e dos amigos da NATO e demais “aliados”, que incentivaram regimes corruptos e outros interesses obscuros. E com os quais, o nosso País, o povo português nada tem a ver. 


Senhor Ministro da Defesa, a defesa que precisamos não é decerto a defesa que defende no seu artigo.

 

Os meus respeitos e melhores cumprimentos,

Alfredo Soares-Ferreira



[i] SENEC: Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, do MNE

[ii] Secretário-Geral da NATO, entre 1 de Agosto de 2009 e 30 de Setembro 2014 (Dinamarquês, ex-PM do seu país)

[iii] Citado por Domingos Rodrigues, “As Forças Armadas Portuguesas no Afeganistão”, disponível em: https://comum.rcaap.pt/bitstream/10400.26/7645/1/NeD130_DomingosRodrigues.pdf      

[iv]  Texto de Augusto de Barros Sepúlveda, no Jornal do Exército, disponível em: https://eurodefense.pt/o-contingente-nacional-no-afeganistao-resolute-support-mission/           

                  

                  

 

06 agosto 2021

 A TRAIÇÃO DOURADA

 

O Homem que traiu o seu País, cousa vulgar, na história de hoje de sempre, tantos houve, ao longo dos tempos, inenarrável de tanta vulgaridade. Dir-se-ia que Brutus e Judas, exemplos habituais, haveriam de produzir excelentes exemplares da traição clássica.

 

O contrário já é mais rebuscado. De modo que, quando o Homem se sente traído e encontra razões para saltar dos seus, para a propalada Liberdade e o faz de forma tripla, buscando o aplauso colectivo, porque o ouro conquistou, a gente gosta. O País rejubila, porque afinal essa outra cousa é tão rara, que tem mesmo que se ir sempre à História, procurar idênticos feitos, neste e noutros séculos, desde que os olímpicos jogos são notícia.

Então vem o Presidente e fala, ele que tanto gosta de o fazer, por isto ou por aquilo, fala sempre. E, pelos vistos, a gente gosta, que sim, que sabe reconhecer e mostra que sabe do que fala. Diz ele que devemos prestar homenagem e a gente presta, e rende-se ao feito, porque é uma honra e mexe connosco, ouvir o hino e ver a bandeira subir, é sempre a lágrima incontida, mesmo que não ao canto do olho. 

 

Somos, diz-se, um País pequeno, ouvimos isto e sempre lembramos. E sempre lamentamos, porque, diz-se também, já fomos grandes, um imenso Império, onde, diz-se finalmente, um dia nos afundamos. Mas nunca esquecemos. Há países identicamente pequenos. Há um, por exemplo, do outro lado do mar, que já sacou até agora, nestes jogos, 6 medalhas de ouro, 3 de prata e 4 de bronze. E, pelo que rezam as estatísticas oficiais, ganhou já 226 medalhas, sendo 78 ouros, 68 pratas, e 80 bronzes, ocupando assim, a 3ª terceira posição entre os países das Américas, em relação a conquistas de medalhas de ouro (atrás apenas dos Estados Unidos e do Canadá) e conquistou mais medalhas do que qualquer país da América do Sul. 

 

Curiosamente, é desse País que falamos, e que, diz o medalhado, o traiu. Então, diz ainda o herói, “Em Cuba sou um traidor, mas eu já não sou cubano...”. Esquece o herói que foi o País onde nasceu que lhe deu as bases para que ora seja ouro? Sobre isso, sabemos nada, mas afinal o que é que isso interessa? O importante para ele, é que irá receber 50 mil euro, para além da liberdade que conquistou ao saltar de um país onde era, segundo alegadamente, um “traidor”. 

 

Para além da habitual romaria de vaidades, quando um atleta conquista uma medalha, ao serviço do País, fica a incrível falta de aposta nas modalidades olímpicas, situação que se repete sistematicamente. E, talvez por isso, somos “obrigados” a festejar cada medalha, como se fosse a última, porque a continuar assim, o lugar modestíssimo que o País ocupa, será eterno. 

Desta vez foi assim, amanhã pode ser na mesma. Afinal, não deverá haver assim tantos cubanos a querer saltar...